Autor: Anthony a hoekema Tradutor: Karl H. Kepler Revisão dos Originais



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PARTE II
ESCATOLOGIA FUTURA
Tendo visto o que a Bíblia ensina acerca da escatologia inaugurada, passamos agora ao que deveremos chamar de escatologia futura - a discussão de eventos escatológicos que ainda são futuros. Ao pensar acerca da escatologia futura, porém é importante que lembremos o que foi desenvolvido na parte I. O maior evento escatológico da história não está no futuro mas no passado. Uma vez que Cristo conquistou a vitória decisiva sobre Satanás, pecado e morte, no passado, os eventos escatológicos futuros devem ser vistos como o complemento do processo redentor que já começou. Em outras palavras, o que acontecerá no último dia não será nada além da culminação do que tem acontecido nestes últimos dias.

A discussão da escatologia futura será divida em duas subseções. Na primeira delas (Capítulos 7 a 9), estaremos tratando do que podemos chamar de “escatologia individual”. Sob este título estaremos lidando com temas tais como morte física, imortalidade e o estado do homem entre morte e ressurreição. Na segunda destas subseções (Capítulos 10 a 20) deveremos tratar do que se pode chamar de “escatologia cósmica”. Aqui consideraremos tópicos tais como a expectação da Parousia, os sinais do tempo, a Segunda Vinda de Cristo, o milênio, a ressurreição do corpo, o juízo final e o estado final.

CAPÍTULO 7
MORTE FÍSICA
Abordamos agora a questão da morte física, especialmente enquanto relacionada com o pecado e a redenção. O problema saliente, que encaramos aqui, é a conexão entre pecado e morte. A morte veio para o mundo como resultado do pecado, ou teria havido morte mesmo que não tivesse havido pecado?

Para vermos claramente este problema, entretanto, temos primeiro que fazer uma distinção importante. Quando falamos do problema da conexão entre pecado e morte, temos em mente a questão da origem da morte na vida do homem, não da origem da morte no mundo animal e vegetal.

Parece bem provável que deve ter havido morte no mundo animal e vegetal antes da queda do homem no pecado. Temos registros fósseis de vários tipos de plantas e animais que estão extintos há milhares de anos. Muitas dessas espécies podem ter-se extinguido muito antes de o homem aparecer na terra. E mais: a morte desempenha uma parte importante no modo de existência de vários animais e plantas conforme os conhecemos hoje. Existem animais carnívoros que subsistem por devorarem outros animais. Há plantas e árvores que são mortas por animais ou insetos. Muitas das células de plantas vivas (árvores, por exemplo) são células mortas, e estas células mortas cumprem uma função das mais importantes. A não ser que desejemos sustentar que a natureza hoje seja diferente do que era antes da queda, em todos aspectos, temos de admitir que, com toda probabilidade, havia morte no mundo animal e vegetal antes da queda. O professor L.W.Kuilman, escrevendo na segunda edição da Christelijke Encyclopedie, faz a seguinte ponderação:

“A questão sobre se a morte, como um fenômeno biológico, já ocorreu antes da queda do homem no pecado tem de ser respondida afirmativamente, com base na evidência fornecida pela ciência da paleontologia (a ciência de plantas e animais antigos)... O estudo destas áreas de investigação [registros fósseis de plantas e animais antigos] nos leva a reconhecer que a morte biológica ocorria antes do homem ser criado. A morte biológica desse tipo, portanto, não deve ser identificada com a morte que ingressou no mundo como punição do pecado do primeiro casal humano” 1.


Por causa disso retornamos ao problema da morte humana. A morte do homem foi resultado do pecado, ou o homem teria morrido mesmo que não tivesse caído em pecado?

Embora, geralmente, os teólogos cristãos, tanto católicos romanos como protestantes, têm considerado que a morte humana é um dos resultados do pecado do homem, alguns professores cristãos têm ensinado diferentemente. Pelágio, um monge britânico que ensinava em Roma no século quinto A D., admitia que o pecado de Adão trouxe a morte para dentro do mundo. Mas Celestius, o discípulo de Pelágio que se tornou líder do movimento pelagiano, ensinava que Adão fora criado mortal, e teria morrido de qualquer forma, tivesse ele pecado ou não 2 . Os socinianos do tempo da Reforma desenvolveram uma visão similar à de Celestius.

Em anos recentes, a idéia de que a morte, na vida do homem, não é resultado do pecado tem sido novamente desenvolvida por Karl Barth. Para ser exato, Barth realmente diz que a morte do homem está relacionada com seu pecado e culpa e, por causa disso, é um sinal do julgamento de Deus sobre sua vida 3. Mas esta não é a última palavra de Barth sobre o assunto. Ele distingue o aspecto de julgamento do aspecto natural da morte 4. Ele, então, continua dizendo: “Isto significa que também pertence à natureza humana, e que está determinado e ordenado pela boa criação de Deus e nessa medida é justo e bom, que o ser do homem, no tempo, deva ser finito e que o próprio homem seja mortal... Em si mesmo, portanto, não é desnatural, mas natural para a vida humana seguir o seu curso para este terminus ad quem, para declinar e murchar, e por causa disso ter este limite à frente” 5.

De acordo com Barth, então a morte do homem não foi resultado de sua queda no pecado, mas um aspecto da boa criação de Deus. Deus, desde o princípio, planejou que a vida do homem na terra teria um fim. Barh admite, para ser preciso, que pelo fato de o homem ser um pecador, sua morte é agora um sinal do julgamento de Deus sobre ele. mas este julgamento, ele afirma mais adiante, foi removido por Jesus Cristo 6. No pensamento de Barth, o homem é um ser destinado por Deus para emergir da inexistência, passar um número limitado de anos na terra, e então retornar à inexistência 7.

Esta posição, entretanto, desperta inúmeras questões. Se o homem fosse morrer de qualquer forma, à parte de sua queda no pecado, por que a Bíblia relaciona tão consistentemente o pecado juntamente com a morte? Se a morte era parte da boa criação de Deus e o fim natural do homem, por que teve Cristo de morrer por nossos pecados? E mais, se a morte é o fim do homem, segundo o plano de Deus desde o princípio, por que Cristo ressuscitou dos mortos? E por que, então, a Bíblia ensina que tanto crentes como descrentes ressuscitarão igualmente dentre os mortos?

Diferentemente de Celestius, Karl Barth e outros, temos que sustentar que a morte, no mundo humano, não é um aspecto da boa criação de Deus, mas um dos resultados da queda do homem no pecado. Passemos a ver a evidência escriturística para tanto.

Vejamos, primeiramente, Gn 2.16,17: “E lhe deu esta ordem: De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvores do conhecimento do bem e do mal não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás”.

Esta passagem, que contém a primeira referência à morte na Bíblia, ensina claramente a conexão entre pecado e morte. Deus ameaçou com a morte, como penalidade, por comer da árvores proibida. A expressão hebraica usada no texto (infinitivo absoluto seguido pela forma imperfeita do verbo finito), na verdade, significa: “você deverá certamente morrer”.

Poderíamos levantar a questão: Que significam as palavras “no dia em que dela comeres?” Será que estas palavras pretendem transmitir a idéia de que Adão morreria exatamente no dia cronológico no qual ele comeu do fruto proibido? Alguns eruditos favorecem esta interpretação, sugerindo que a execução imediata da sentença de morte foi adiada por causa da graça geral de Deus 8. Obviamente, esta é uma interpretação possível. Entretanto, uma outra interpretação parece ser mais plausível. Geerhardus Vos chama a atenção para o fato de que a expressão “no dia em que dela comeres” é simplesmente um idiomatismo hebraico que significa: “tão certo como tu dela comeres”. Ele cita, como expressão paralela, I Rs 2.37, onde Salomão diz a Simei: “Porque há de ser que no dia em que saíres e passares o ribeiro de Cedrom, fica sabendo que será morto” 9. Outro exemplo para este idiomatismo é encontrado em Êxodo (10.28), texto que se refere a Faráo, dizendo para Moisés: “Retira-te de mim e guarda-te que não mais vejas o meu rosto; porque no dia em que vires o meu rosto, morrerás”. Em ambas as passagens, a expressão “no dia” significa simplesmente “tão certo como”. Se entendermos a expressão de Gênesis (2.17) no mesmo sentido, concluiremos, portanto, que ela não significa necessariamente “no exato dia que comeres deste fruto morrerás”, mas antes: “tão certo como tu comes deste fruto morrerás”. Baseado nesta interpretação, pois, o fato de Adão e Eva não terem morrido fisicamente no mesmo dia em que comeram da árvores proibida, não precisa nos causar nenhuma dificuldade especial.

Mas, quê dizer da expressão: “certamente morrerás?” As palavras que a Bíblia usa para denotar morte, podem significar várias coisas. Que sentido terá a palavra aqui? O significado óbvio e primeiro do verbo hebraico muth é morrer de morte física. Quando este castigo e, mais tarde, mencionado em conexão com o processo que é resultado do pecado do homem, é a morte física que está descrita (veja Gn 3.19). Portanto, o que quer que Gênesis (2.17) signifique, certamente está nos ensinando que a morte física, no mundo humano, é resultado do pecado do homem. Embora não saibamos como era o corpo de Adão antes de sua queda no pecado, somos impedidos, por esta passagem, de assumir que ele teria morrido fisicamente de qualquer forma, tivesse ele pecado ou não.

À luz do restante das Escrituras, entretanto, a morte, conforme nesta ameaça aqui, deve ser entendida como significando mais do que a simples morte física. O homem é uma totalidade, que possui um lado espiritual tanto quanto um lado físico em seu ser. Uma vez que, de acordo com as Escrituras, o significado mais profundo da vida á a comunhão com Deus, o significado mais profundo da morte tem de ser a separação de Deus. A morte, conforme a ameaça feita em Gênesis (2.17), portanto, inclui o que geralmente chamamos de morte espiritual: isto é, a quebra da comunhão do homem com Deus. Por causa do pecado de Adão, cada ser humano está agora, por natureza, num estado de morte espiritual (cp. Ef 2.1,2): “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora”). Leon Morris expressa bem este pensamento: “Quando o homem pecou, passou para um novo estado, um estado simbolizado e, ao mesmo tempo, dominado pela morte. É provável que a morte espiritual e a morte física não sejam consideradas como separadas, mas que uma envolva a outra” 10. Em outras palavras, depois de o homem ter pecado ele, imediatamente, morreu no sentido espiritual e, por causa disso, ficou sujeito ao que chamamos de morte eterna - separação eterna da presença amorosa de Deus 11. Ao mesmo tempo, o homem entrou num estado no qual a morte corporal se tornou agora inevitável.

Passemos a ver a passagem a que já aludimos, de Gn 3.19:

No suor do rosto

comerás o teu pão,

até que tornes à terra,

pois dela foste formado:

porque tu és pó

e ao pó tornarás”.
Alguns argumentam que estas palavras simplesmente retratam o que teria acontecido ao homem mesmo que o pecado não tivesse intervindo. Mas esta interpretação não é garantida. Porque estas palavras constam de uma passagem que descreve os castigos divinamente ordenados para o pecado - primeiro para a serpente (vs. 14,15) então para a mulher (v.16) e em seguida para o homem (vs 17-19).

Aqui é predito o destino do corpo de homem: uma vez que ele é feito de pó, terá de voltar ao pó. Aqui a morte está vividamente retratada, não como um fenômeno natural, mas como um aspecto da maldição que veio sobre o homem por causa do seu pecado.

Gênesis (3.22,23) também lança luz sobre o problema: “Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem e tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal: assim, para que não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente: o Senhor Deus, por isso, o lançou fora do jardim do Éden...” Novamente, vemos a morte retratada como resultado do pecado do homem. Uma vez que o homem tinha comido da árvore proibida, não lhe era permitido permanecer no jardim do Éden e “viver para sempre”. Embora não seja indicada a exata relação entre comer da árvores da vida e viver para sempre, fica claro que agora o homem deve morrer porque pecou contra Deus. Ao mesmo tempo, a expulsão do jardim implica numa bênção. Porque, viver eternamente com uma natureza decaída não-regenerada não teria sido uma bênção, mas teria significado uma extensão irremediável do curso de vida.

A conexão necessária entre pecado e morte não é ensinada apenas no Antigo Testamento, mas também no Novo. Romanos (5.12) é muito claro neste ponto: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens porque todos pecaram”. É concebível que alguém possa dizer que, uma vez que nesta parte do capítulo Paulo está contrastando a morte com a vida que recebemos através de Cristo, ele tenha em mente apenas a morte espiritual. Embora seja verdadeiro que nesta perícope (5.12-21) a morte que Paulo está descrevendo inclua a morte espiritual, não se pode excluir, com acerto, a morte física do que ele quer dizer. Certamente, a morte física é mencionada tanto no contexto precedente (“fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho”, v.10) como no subseqüente (“reinou a morte deste Adão até Moisés, v.14). Por causa disso, quando Paulo diz: “por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte”, a morte física está seguramente incluída. Na verdade, esta passagem é um eco óbvio de Gênesis (2.17).

Em Romanos (8.10), Paulo diz: “Mas Cristo está em vós, vosso corpo está morto por causa do pecado, mas vosso Espírito está vivo por causa da justiça”(NIV). Como fica óbvio a partir do verso 11 (“vivificará os vossos corpos mortais”), corpo significa aqui corpo físico. O vosso corpo físico está morto, diz Paulo - isto é, tem nele a semente da morte e é certo que, finalmente, morrerá. Então, ele adiciona significativamente: “por causa do pecado”. Novamente vemos que, de acordo com as Escrituras, a morte do corpo é um resultado do pecado.

Podemos citar mais uma passagem, em 1 Coríntios (15.21): “Visto que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos”. Aqui Paulo está discorrendo sobre a ressurreição do corpo. Nesta conexão, ele novamente contrasta Cristo com Adão. “A morte veio por um homem” - obviamente, a referência é a Adão. A morte física está aqui claramente denotada, uma vez que está contrastando com a ressurreição do corpo.

Tendo considerado a conexão entre a morte e pecado, prossigamos para atentar para a morte à luz da redenção. A Bíblia ensina que Cristo veio ao mundo para conquistar e destruir a morte. O autor de Hebreus escreve da seguinte forma: “Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também ele, igualmente, participou, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse a todos os que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida” (2.14,15). Uma vez que foi através da tentação do diabo que a morte (do homem) veio ao mundo, pode ser dito aqui do diabo que ele tem o poder da morte. Cristo, entretanto, assumiu a natureza do homem e morreu por nós a fim de, pela morte, poder destruir a morte. Embora esta passagem não o diga textualmente, o Novo Testamento ensina claramente que foi através de sua ressurreição dos mortos que Cristo conquistou sua grande vitória sobre a morte: “Havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre: a morte já não tem domínio sobre ele” (Rm 6.9).

A conquista da morte, portanto, deve ser vista como uma parte essencial da obra redentora de Cristo. Cristo não redime seu povo apenas do pecado; ele também o redime dos resultados do pecado, e a morte é um deles. E, assim, lemos em 2 Timóteo (1.10) que Cristo “destruiu a morte e trouxe à luz a vida e a imortalidade”. Por causa disto, o fato de que na nova Jerusalém não mais haverá morte é uma culminação adequada da obra redentora de Cristo (Ap 21.4).

Então surge a questão: porque os crentes têm de morrer? Por que eles não poderíam ascender aos céus imediatamente após o fim de seus dias terrenos, sem ter de atravessar o processo doloroso de morrer? Na verdade, é isso que vai acontecer aos crentes que ainda estiverem vivos quando Cristo voltar. Eles não terão de morrer, mas serão transformados “num momento, num abrir e fechar de olhos” (1 Co 15.52) no estado de incorruptibilidade. Por que isto não pode acontecer a todos os crentes?

Esta questão é, de fato levantada no catecismo de Heidelberg, Questão 42: “Então, uma vez que Cristo morreu por nós, porque temos nós também de morrer? A resposta reza o seguinte: “Nossa morte não é uma satisfação de nossos pecados, mas é apenas um morrer para os pecados e entrar na vida eterna”.

Para nós que somos cristãos, a morte não é um pagamento pelos pecados. Foi para Cristo, mas não é para nós. Uma vez que Cristo foi nosso mediador, nosso segundo Adão, ele teve de sofrer a morte como parte do castigo que nós merecíamos pelo pecado; mas, para nós, a morte não é mais uma punição pelo pecado. Para Cristo, a morte foi parte do curso de sua vida. Para nós, a morte é fonte de bênção.

Mas, então, perguntamos: Que significa a morte, agora, para o cristão? “Um morrer para os pecados”, o Catecismo continua dizendo (literalmente, “uma extinção dos pecados”). Na vida presente, o pecado é o fardo mais pesado que temos de carregar. Quanto mais velhos ficamos, mais nos aflige o fato de que continuamos não conseguindo fazer a vontade de Deus. Pode-se sentir algo de peso deste fardo ao ler as palavras de Paulo em Romanos (8.23): “E não somente a criação, mas também nós que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo”. Mas a morte trará um fim ao ato de pecar. Note como o autor de Hebreus descreve a comunhão daqueles que agora estão nos céus: “Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial... e à universal assembléia e igreja dos primogênitos arrolados nos céus... e aos espíritos dos justos aperfeiçoados” (Hb 12.22,23). Paulo, de fato, nos conta que Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela “para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavras para apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef 5.26,27).

Nossa morte também será uma “entrada na vida eterna”. Estas palavras não pretendem negar que há um sentido no qual o crente já possui a vida eterna aqui e agora, uma vez que o mesmo Catecismo ensina, na Resposta 58, que agora nós sentimos em nossos corações o início do gozo eterno. Mas o que gozamos agora é apenas o início. Entraremos nas riquezas plenas da vida eterna somente após termos passado através do portal da morte. Por causa disso, Paulo pode dizer: “para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fp 1.21), e: “preferindo deixar o corpo e habitar com o Senhor” (2 Co 5.8).

Tudo isso implica em que a morte, nosso “último inimigo” (1 Co 15.26), através da obra de Cristo, tornou-se nosso amigo. Nosso oponente mais temível veio a se para nós o servo que abre as portas para a felicidade celestial. A morte para o cristão, portanto, não é o fim, mas um glorioso novo indício. E, dessa forma, entendemos porque Paulo pôde dizer:

Tudo é vosso:

seja Paulo, seja Apolo, seja Cefas,

seja o mundo, seja a vida, seja a morte,

sejam as coisas presentes, sejam as futuras,

tudo é vosso,

e vós de Cristo,

e Cristo de Deus” (1 Co 3.21-23)
Notas do Capítulo 7
1. Christelijke Encyclopedie, Segunda Ed. Ver., Kampen: Kok, 1957, II, 461 (tradução do autor).

2. J.N.D Kelly, Early Christian Doctrines (Primeiras Doutrinas Cristãs), New York, Harper and Row, 1959, pp. 358, 359, 361.

3. Karl Barth, Church Dogmatics (Teologia Dogmática da Igreja), Edinburgh: T. and T. Clark, 1960, III/2, pp. 596-598.

4. Ibid p. 632.

5. Ibid.

6. Ibid., pp 605,606. Outro teólogo recente, que sustenta que a morte do homem é parta da boa criação de Deus, é Reinhold Niebuhr, em The Nature and Destiny of Man (Natureza e Destino do Homem), New York, Scribner, 1941, I, pp. 175-177.

7. Para uma discussão mais completa da visão de Barth sobre a morte, juntamente com uma crítica, veja G.C. Berkower, The Triumph of Grace in the Theology of Karl Barth (O Triunfo da Graça na Teologia de Karl Barth) trans. H.Boer, Grand Rapids: Eerdmans, 1956, pp. 151-165, 328-346.

8. Herman Bavinck, Gereformeerd Dogmatiek. Quarta Edição, Kampen: Kok, 1928-1930, III, pp. 139,140 (Terceira Edição, p.159); Abraham Kuyper, De Gemeene Gratie, Amsterdam: Hoveker & Wormser, 1902, I, pp. 209-217; G.Ch. Aalders, Korte Verklaring, Genesis, Kampen: Kok, 1949, pp. 124, 140-141.

9. Biblical Theology (Teologia Bíblica), Grand Rapids: Eerdmans, 1964, pp. 48,49.

10. The Wages of Sin (O Salário do Pecado), London: Tyndale, 1955 p. 10.

11. Adão e Eva teriam entrado em morte eterna se Deus, em sua graça, não tivesse intervindo. Gênesis 3.15, entretanto, nos fala que Deus realmente interveio assim.



CAPÍTULO 8
IMORTALIDADE
Às vezes, tem sido dito que o conceito de imortalidade da alma faz parte da fé cristã. Isto foi verdadeiro especialmente nos século Dezoito, o século do Iluminismo e de seu correlativo religioso, o Deísmo. De acordo com o Iluminismo, a fonte de toda verdade deveria ser encontrada mais na razão do que na revelação divina. As três grandes verdades da “teologia natural”, que se podem descobrir pela razão, supostamente, eram a existência de Deus, a importância da virtude e a imortalidade da alma. Dizia-se que o conceito de imortalidade da alma era demonstrável pela razão, até que Immanuel Kant (1724-1804) submeteu esses argumentos a uma crítica devastadora. Mas, mesmo Kant, continuava a sustentar o conceito como um postulado da assim chamada razão prática1 .

Primeiramente, devemos notar que a idéia de imortalidade da alma (a saber, que após a morte do corpo, a alma ou aspecto imaterial do homem continua a existir) não é um conceito peculiar ao Cristianismo. Ele tem sido sustentado, de uma forma ou outra, por grande número de povos, incluindo os babilônios, os persas, os egípcios e os antigos gregos. Na verdade, o conceito de imortalidade da alma, que era tão fortemente defendido no século dezoito pelos líderes do Iluminismo, não era uma doutrina distintivamente cristã, uma vez que a “teologia natural”, da qual esta doutrina fazia uma parte, era considerada como sendo distinta e superior ao Cristianismo.

O conceito de imortalidade da alma foi desenvolvido nas religiões de mistério da antiga Grécia, e recebeu expressão filosófica nos escritos de Platão (427-347 a C.). Em vários diálogos, especialmente no Fedo, Platão apresenta a idéia de que corpo e alma devem ser considerados como duas substâncias distintas: a alma pensante é divina; o corpo, sendo constituído de matéria - uma substância inferior - é de valor menor que a lama. A lama racional ou nous é a parte imortal do homem que desceu “dos céus”, onde desfrutava de uma pré-existência feliz. Porque a alma perdeu suas asas neste estado pré-existente, entrou no corpo, habitando na cabeça. Na morte, o corpo simplesmente se desintegra, mas o nous , ou alma racional, retorna aos céus caso seu curso de ação tenha sido justo e honorável; caso não, ela reaparece em forma de outro homem ou de um animal. Mas a alma em si é indestrutível 2.

No conceito de Platão, a imortalidade da alma está enraizada em uma metafísica racionalista: o racional é o real, e tudo o que seja não-racional tem uma realidade do tipo inferior. Por causa disso, a alma é considerada como uma substância superior, inerentemente indestrutível e portanto imortal, enquanto que o corpo é de substância inferior, mortal e condenado à destruição total. Aqui o corpo é considerado como um túmulo para a alma, que é realmente mais feliz sem o corpo. Neste sistema de pensamento, portanto, não há lugar para a doutrina da ressurreição do corpo.

Mas agora temos de levantar a questão: Será que as Escrituras em algum lugar, utilizam a expressão “a imortalidade da alma”? Ensinam elas que a alma do homem é imortal?

Há duas palavras gregas que geralmente são traduzidas por imortalidade na versão portuguesa da Bíblia: athanasia e aphtharsia. Athanasia é encontrada apenas três vezes no Novo Testamento: uma em 1 Timóteo (6.16) e duas vezes em 1 Coríntios (15.53,54). Na primeira passagem, a palavra é usada para descrever Deus, “o único que possui imortalidade, que habita em luz inacessível, a quem homem algum jamais, nem é capaz de ver”. Obviamente, a imortalidade aqui significa mais do que mera existência sem fim. Significa imortalidade original, como distinta da concedida. Nesta passagem, Paulo ensina que Deus, como fonte da vida, é origem de todas as outras imortalidades. Neste sentido, somente Deus tem imortalidade; outros recebem imortalidade e a possuem apenas na dependência dele. Como Deus tem vida em si mesmo (João 5.26), assim também ele tem imortalidade em si mesmo.

Os outros dois lugares onde a palavra athanasia é usada, ocorrem em sucessão: 1 Co 15.53,54: “Porque o perecível tem de se revestir com o imperecível, e o mortal com imortalidade. Quando o perecível estiver vestido com o imperecível, e o mortal com imortalidade, então a palavra que está escrita se fará verdadeira: A morte foi tragada na vitória” (NIV). Paulo aqui está falando acerca do que acontecerá na hora da volta de Cristo (veja v.52). As palavras citadas acima se aplicam tanto à transformação dos crentes, que ainda estiverem vivos quando Cristo voltar, como à ressurreição dos mortos que, estará acontecendo. Uma vez que, conforme Paulo já dissera, o corruptível não pode herdar o incorruptível (v.50), precisa acontecer uma mudança desta espécie.

Observe agora três coisa acerca da imortalidade, das quais esta passagem fala (1) A imortalidade mencionada aqui é atribuída apenas aos crentes - Paulo não diz coisa alguma nesta passagem acerca dos descrentes. (2) Esta imortalidade é um dom que devemos receber no futuro. O tipo de imortalidade mencionado aqui não é uma possessão presente de todos os homens, nem mesmo de todos os crentes, mas uma concessão que ocorrerá na Parousia. (3) a imortalidade descrita nesta passagem não é uma característica apenas da alma, mas da pessoa inteira. Se houver alguma ênfase, ela está sobre o corpo, uma vez que a passagem fala da ressurreição do corpo. Aqui não há alusão da idéia da imortalidade de alma.

A outra palavra geralmente traduzida por imortalidade, (aphtharsia), ocorre sete vezes no Novo Testamento. Ela é usada para designar o alvo que os verdadeiros crentes perseguem (Rm 2.7), e aquilo que Cristo trouxe à luz em 2 Timóteo (1.10). É usada quatro vezes em 1 Coríntios (15), o grande capítulo paulino a respeito da ressurreição. No verso 50, ela é usada para descrever aquilo que o corruptível ou perecível não pode herdar. No verso 42 é usada para comunicar o fato de que, embora o corpo seja semeado em corrupção, é ressuscitado em incorrupção. Nos versos 53-54, a palavra é usada para descrever a incorrupção ou imperecibilidade com a qual o corpo atual, aqui chamado de perecível, precisa revestir-se na ressurreição. Em nenhuma destas passagens a palavra é usada para a “alma”.

O adjetivo derivado, aphthartos é também usado sete vezes no Novo Testamento. Ele é usado para descrever Deus (Rm 1.23; 1 Tm 1.17), o corpo ressurrecto (“os mortos ressuscitarão incorruptíveis” 1 Co 15.52), a coroa pela qual Paulo se esforça (1 Co 9.25), a jóia imperecível de um Espírito manso e tranqüilo (1 Pe 3.4), a semente imperecível da qual fomos nascidos de novo (1 Pe 1.23), e a herança incorruptível que está guardada nos céus para nós (1 Pe 1.4). Em caso nenhum a palavra é usada para descrever a “alma”.

Concluímos, então, que as Escrituras não usam a expressão “a imortalidade da alma”. Mas isto ainda deixa a questão em aberto: Será que de algum modo a Bíblia ensina que a alma do homem é imortal?

Alguns teólogos da Reforma usaram e defenderam a expressão “imortalidade da alma” como representativa de um conceito que não estava em conflito com o ensino das Escrituras. João Calvino, por exemplo, ensina que Adão teve uma alma imortal 3, e fala da imortalidade das almas como uma doutrina aceitável 4. Ao mesmo tempo, entretanto, ele admite que a imortalidade não pertence à natureza da alma, mas é comunicada à alma por Deus 5.

Archibald Alexander Hodge, num volume publicado originalmente em 1878, apresenta vários argumentos em defesa da doutrina da imortalidade da alma 6. William G.T. Shedd, numa obra originalmente publicada em 1889, tem o seguinte a dizer acerca da questão: “A crença na imortalidade da alma e em sua existência separada do corpo após a morte, era característica tanto da economia vétero [testamentária] como da do Novo [Testamento]” 7. De modo similar, Lous Berkhof diz: “Esta idéia de imortalidade da alma está em perfeita harmonia com o que a Bíblia ensina acerca do homem...” 8; ele passa a fornecer vários argumentos, tanto da revelação geral como da Bíblia, para sustentar este conceito.

A posição de Herman Bavinck, neste ponto, entretanto, é consideravelmente mais cautelosa. Ele denomina a doutrina da imortalidade da alma de articulus mixtus, cuja verdade é mais demonstrada pela razão de que pela revelação divina, e em nenhum lugar o colocam em primeiro plano; menos ainda, elas nunca fazem qualquer tentativa em argumentar a respeito da verdade deste conceito ou em sustentá-lo contra seus oponentes” 10.

Concordando com Bavinck, G.C. Berkouwer rejeita a idéia de imortalidade da alma como doutrina distintivamente cristã, e afirma: “As Escrituras nunca se ocupam de um interesse independente na imortalidade como tal, não mencionando a imortalidade de uma parte do homem que despreza e sobrevive à morte sob todas as circunstâncias e sobre a qual podemos refletir bem à parte da relação do homem com o Deus vivo” 11.

Como devemos avaliar estas reações aparentemente conflitantes dos teólogos da Reforma? Estamos de acordo com que a idéia de imortalidade da alma esteja em perfeita harmonia com o que a Bíblia ensina acerca do homem? Com relação a esta questão, as seguintes observações podem ser feitas:

(1) Como temos visto, as Escrituras não utilizam a expressão “a imortalidade da alma”. A palavra imortalidade é aplicada a Deus, à existência total do homem na hora da ressurreição, e a coisas tais como a coroa imperecível e a semente incorruptível da Palavra, mas nunca para a alma do homem.

(2) As Escrituras não ensinam a existência continuada da alma devido a sua indestrutibilidade inerente 12 - um dos argumentos filosóficos principais para a imortalidade da alma. Este argumento, vale a pena lembrar, está relacionado com uma visão especificamente metafísica do homem. Na filosofia de Platão, por exemplo, a alma é considerada indestrutível porque ela faz parte de uma realidade metafísica superior à do corpo; ela é considerada como uma substância não criada, eterna e, por causa disso, divina. Mas as Escrituras não ensinam esse tipo de conceito da alma. Uma vez que, de acordo com as Escrituras, o homem foi criado por Deus e continua a ser dependente de Deus para sua existência, não podemos indicar no homem nenhuma qualidade ou qualquer aspecto do homem que o faça indestrutível.

(3) As Escrituras não ensinam que uma simples existência continuada após a morte seja supremamente desejável, porém insistem que uma vida em comunhão com Deus é o maior bem do homem. O conceito de imortalidade da alma, como tal, não diz nada acerca da qualidade de vida após a morte; ele simplesmente afirma que a alma continua a existir. Mas isto não é o que as Escrituras enfatizam. O que a Bíblia salienta, é que viver separado de Deus é morte, e que relação e comunhão com Deus é vida verdadeira. Esta vida verdadeira já é desfrutada por aqueles que creêm em Cristo (Jo 3.36; 5.24; 17.3). A vida em comunhão com Deus continuará a ser desfrutada pelos crentes após a morte, conforme Paulo ensina em Filipenses (1.21-23) e em 2 Coríntios (5.8) 13. É esse tipo de existência após a morte que as Escrituras nos apresentam como um estado a ser supremamente anelado. Elas ensinam que mesmo aqueles que não têm esta vida verdadeiramente espiritual, continuarão a existir após a morte; sua existência continuada, entretanto, não será uma existência feliz, mas de tormento e angústia (2 Pe 2.9); veja-se também Lucas (16.23,25).

As Escrituras, portanto, trazem uma nova dimensão para nosso pensamento acerca da vida futura. O que é importante par elas não é o simples fato de que as almas continuarão a existir, mas a qualidade dessa existência. As Escrituras instam com os homens para que venham a Cristo a fim de que possam ter vida, e dessa forma fugir da ira vindoura; elas proferem advertências severas contra qualquer conceito de “imortalidade da alma” que possa obscurecer a seriedade do julgamento divino sobre o pecado, ou que possa negar a verdade da punição eterna para pecadores impenitentes 14.

(4) A mensagem das Escrituras acerca do futuro do homem é a ressurreição do corpo. Neste ponto, vemos uma divergência radical entre a visão cristã do homem e a visão comum à filosofia grega, especialmente a de Platão. Conforme vimos, os gregos não tinham lugar, em seu pensamento, para a ressurreição do corpo. O corpo era visto como um túmulo para a alma, e a morte era considerada como uma libertação do aprisionamento.

Esta compreensão do homem, entretanto, é totalmente diferente do ensino das Escrituras. De acordo com as Escrituras, o corpo não é menos real do que a alma; Deus criou o homem em sua totalidade, corpo e alma. Nem o corpo é inferior à alma, nem é não-essencial à verdadeira existência do homem; se fosse assim, a Segunda Pessoa da Trindade nunca poderia ter assumido uma natureza humana genuína, com um corpo humano genuíno. No ensino bíblico, o corpo não é um túmulo para a alma mas um templo do Espírito Santo; o homem não é completo sem o corpo. Por causa disso, o futuro estado da bênção do crente não é simplesmente a existência continuada de sua lama, mas inclui, como seu aspecto mais rico, a ressurreição de seu corpo. Esta ressurreição será, para os crentes, uma transição para a glória, na qual nossos corpos deverão tornar-se semelhantes ao corpo glorioso de Cristo (Fp 3.21).

Concluímos que o conceito glorioso de imortalidade da alma não é uma doutrina distintivamente cristã. Antes, o que é central na escatologia bíblica é a doutrina da ressurreição do corpo. Se desejarmos usar a palavra imortalidade com relação ao homem, digamos que o homem, mais do que sua alma, é imortal. Mas o corpo do homem precisa passar por uma transformação através da ressurreição antes que ele possa desfrutar totalmente de imortalidade 15.




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