Autor: Anthony a hoekema Tradutor: Karl H. Kepler Revisão dos Originais



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Notas do Capítulo 9
1. Enchiridion, p.109.

2. Cp Thomas Aquinas, Summa Theologica, Supp.3, Q69, Art.2.

3. P. Althaus, Die Letzten Dinge (As Últimas Coisas), Sétima Ed., Gutersich: Bertelsmann, 1957, pp. 146-149. Cp. Francis Pieper, Christian Dogmatics (Teologia Dogmática Cristã), St. Louis: Concordia, 1963, III, 512, número 21.

4. O texto desta obra pode ser encontrado na obra de Calvino: Tracts and Treatises of the Reformed Faith (Tratos e Tratados da Fé da Reforma), trad por H. Beveridge, Grand Rapids: Eerdmans, 1958, III, pp. 413-490. Veja Berkouwer, Return, pp. 49,50.

5. E.G. Charles Hodge, Systematic Theology (Teologia Sistemática), Grand Rapids: Eerdmans, 1940, III, pp. 713-703, W.G.T. Shedd, Dogmatic Theology (Teologia Dogmática), III, p.591-640; Herman Bavinck, Gereformeerd Dogmatiek, Quarta Ed., IV, pp. 564-622 (Terceira Ed., pp. 645-711); L.Berkhof, Systematic Theology (Teologia Sistemática), pp. 679-693; G.C. Berkouwer, Return, pp. 32-64.

6. Catecismo de Heidelberg, Q.57; confissão Belga, art.37; Confissão de Westminster, cap. 32 (ou 34); Catecismo Abreviado de Westminster, Q.37; Catecismo Ampliado de Westminster, Qs. 86, 87.



7. Return, pp. 38-46.

8. Onsterfelijkheid of Opstanding, Segunda Ed., Assen: Van Goecum, 1936, pp. 35 e 37.

9. Ibid., p.36.

10. Ibid., pp. 36, 37.

11. Ibid., p.38. O ponto de vista de Van der Leew é de várias maneiras similar aos ensinos das Testemunhas de Jeová e Adventistas do Sétimo Dia sobre este assunto; veja minha obra Four Mjor Cults (Quatro Maiores Seitas), pp. 135, 136, 293-295.

12. Die Letzten Dinge (As Últimas Coisas), p. 155.

13. Ibid., p. 157.

14. Ibid., p. 155.

15. Ibid.

16. Ibid., pp. 155-158.

17. Ibid., p. 156.

18. Ibid., p. 156, 157.

19. Ibid., p. 158.

20. De Wederjomst van Christus (A Volta de Cristo) Kampen: Kok, 1961, I, p.79, onde Berkouwer diz: “Quando nossa existência terrena tiver findado, quem desejará dizer mais do que o claro sussurro do Novo Testamento?” [tradução do autor]. A tradução inglesa desta sentença, encontrada na página 63 de The Return of Christ (A Volta de Cristo), não reproduz acuradamente a palavra holandesa fluistering (Whispering, sussurro), traduzindo-a por proclamação: “Quem pretenderá ser capaz de adicionar qualquer coisa à proclamação do Novo Testamento?”

21. Berkouwer, Return, p.51. Cp. H.Ridderbos, Paul, p.507.

22. Chicago: Univ. of Chicago Press, 1957, pp. 901, 902.

23. Sobre estas passagens ver Hoekema, The Four Major Cults (As Quatro Maiores Seitas), pp. 346-349.



24. Ibid., pp. 349-351.

25. Sobre este assunto ver o útil capítulo de Berkouwer: “The Whole Man” (O Homem Integral) em Man: The Image of God (O Homem: A Imagem de Deus), pp. 194-233.



26. A Theology of the New Testament (Uma Teologia do Novo Testamento) Grand Rapids: Eerdmans, 1974, p. 194.

27. Systematic Theology (Teologia Sistemática), pp. 685, 686. Sobre o ensino de que Sheol possa significar o lugar de punição ou inferno. Ver também W.G.T.Shedd, Dogmatic Theology (Teologia Dogmática), II, pp. 625-633.

28. Ver L. Berkhof, op.cit., p. 685.

29. Neste ponto podemos ver pelo menos um esboço do pensamento de que Sheol possa designar um lugar de punição para os ímpios - no sentido de que os injustos deverão permanecer no Sheol, enquanto que os justos serão libertos daquele reino.

30. Sobre esta passagem, veja N. Ridderbos, De Psalmen (Os Salmos), Kampen: Kok, 1962, p. 176; D. Kidner, Psalms (Exposição dos Salmos), Columbus: Wartburg, 1959, ad loc. Sobre o conceito de Sheol ver Strack-Billerbeck, Kommentar zum Neuen Testament aus Talmud und Midrasch (Comentário do Novo Testamento a partir do Talmude e do Midraxe), München: C. H. Beck, 1928, IV/2, pp. 1016-1029.

31. Cp N. Ridderbos, op.cit., ad loc; Kidner, op.cit., ad loc; Leupold, op.cit.,ad loc.

32. Delitzsh, op.cit., ad loc. D. Kidner, Psalms 73-150 (Salmo 73 a 150), Downers Grove, Inter-Varsity Press, 1975, ad loc; Leupold, op.cit, ad loc.

33. J. Jeremias, “hades”, TDNT, I, p. 147, Cp Strack-Billerbeck, op.cit, IV/2, pp.1016-1022.

34. Loc.cit,. p.148.

35. A palavra neotestamentária para o lugar de punição, no estado final é Gehenna, acerca da qual falaremos mais adiante.

36. Calvino, em seu comentário ad loc, diz que embora o particípio kolazomenous esteja no tempo presente, deveria ser entendido como se referindo a uma punição futura que será administrada no último julgamento. Mas, se esta era a intenção de Pedro, porque usou ele o tempo presente?

37. Para fazer a palavra hoje ser vista juntamente com as palavras “ele lhe disse”, como, e.g., os Adventistas do Sétimo Dia e as Testemunhas de Jeová fazem para fazer o verso se encaixar em seus ensinos, é injustificado. Pois, quando senão hoje poderia Jesus dizer essas palavras? A razão pela qual Jesus acrescentou a palavra hoje fica evidente a partir do pedido anterior ver Hoekema, The Four Major Cults (As Quatro Maiores Seitas). p.353.

38. Ver Phipip E. Hughes, Paul’s Second Epistle to the Corinthians (A Segunda Epístola de Paulo aos Coríntios), Grand Rapids: Eerdmans, 1962, pp. 432-437.

39. Sobre esta passagem, ver também os comentário de Lucas por N.Geldenhuys, Grand Rapids, Eerdmans, 1962, e L.Morris, Grand Rapids: Eerdmans, 1974. Sobre o significado de paraíso, ver Strack-Billerbeck, op.cit, II pp. 264-269; IV/2, pp. 1118-1165.

40. A posição dos Adventistas do Sétimo Dia e das Testemunhas de Jeová fica, igualmente, excluída por esta passagem. Sua posição não é do “sono da alma”, mas antes da “extinção da alma”, uma vez que sustentam que após a morte nada do homem sobreviverá, e que, então o homem deixa de existir.Ver Hoekema, The Four Major Cults (As Quatro Maiores Seitas), pp. 110, 111, 135, 136, 265, 266, 293, 294, 345-359.

41. Ver A T. Robertson, Grammar of the Greek Testament in the Light of Historical Research (Gramática do Testamento Grego à Luz da Pesquisa Histórica) Nashville: Broadman, 1934, p. 787. Cp F. Blass e A Debrunner, A Greek Grammar of the New Testament (Gramática Grega do Novo Testamento), trad. Por R.W. Funk, Chicago: Univ. of Chicago Press, 1961, seç 276 (3).

42. Sobre esta passagem cp H. Ridderbos, Paul, pp. 498, 499; G.C. Berkouwer, Return, pp. 53,54.

43. G.E.Ladd, A Theology of the New Testament (Teologia do Novo Testamento), p. 553.

44. Entre os que defendem esta posição estão R.H. Charles, Eschatology: The Doctrine of a Future Life in Israel, Judaim, and Christianity (Escatologia: A Doutrina da Vida Futura em Israel, no Judaísmo e no Cristianismo), New York: Schocken, 1963; originalmente publicado em 1913, pp. 458-461; W.D. Davies, Paul and Rabinic Judaism (Paulo e o Judaísmo Rabínico), ed. rev. New York, harper and Row, 1967; Orig. pub. 1955, pp. 309-319; Henry M. Shires, The Eschatology of Paul (A Escatologia de Paulo) p.90; D.E.H. Whiteley, The Theology of St.Paul (A Teologia de São Paulo), Philadelphia: Fortpress, 1966, p. 269.

45. James Denney, Second Epistle to the Corinthians (Segunda Epístola aos Coríntios), New York, Armstrong, 1903, ad loc; Floyd V. Filsom, The Second Epistle to the Corinthians (A Segunda Epístola aos Coríntios), in The Interpreter’s Bible (A Bíblia do Intérprete, New York: Abingdon, 1952, vol X, ad loc; Philip E. Hughes, Paul’s Second Epistle to the Corinthians (A Segunda Epístola de Paulo aos Coríntios), ad loc; H.Ridderbos, Paul, pp. 499-501.

46. Herman Bavinck, Gereformeerd Dogmatick, Quarta Ed., IV, p. 596 (Terceira Ed., pp. 681, 682). João Calvino, Second Corinthians (Segunda aos Coríntios) ad loc; Charles Hodge, II Corinthians (II Coríntios) ad loc; Charles Hodge, II Corinthians (2 Coríntios) ad loc; R.C.H.Lenski, II Corinthians (2 Coríntios), ad loc; R.V.G.Tasker, II Corinthians (Tyndale Bible Commentary), (2 Coríntios - Comentário Bíblico Tyndale), ad loc; G.C. Berkouwer, Return, pp. 55-59.

47. Transcr. John Pringle, Grand Rapids, Eerdmans, 1948, ad loc.

48. E.g., Hughes, Filson, Denney, Plummer.

49. Cp G. Vos, Pauline Eschatology (Escatologia Paulina), p. 194: “Ele [Paulo] dificilmente teria se expressado exatamente dessa forma, caso ele quisesse dizer que o corpo seria imediatamente substituído por outro, pois o estado desse novo corpo dificilmente poderia ser descrito como um estado de ausência do corpo”.



50. Return, Cap.2, “Expectação Dupla?” pp. 32-64.

51. A interpretação fornecida acima do “edifício de Deus” (2 Coríntios 5.1), como se referindo tanto ao estado intermediário quanto ao corpo ressurrecto, sustenta a idéia de uma expectação escatológica única. Sobre esta passagem, bem como sobre outras passagens discutidas neste capítulo, ver também Karel Hanhart, The Intermediate State in the New Testament (O Estado Intermediário no Novo Testamento), Franeker: Wever, 1966.



CAPÍTULO 10
A EXPECTAÇÃO DA Segunda Vinda
A Segunda Vinda de Cristo está no centro de nossas considerações sobre a “Escatologia Cósmica”. Cristo veio para inaugurar seu Reino, mas ele vem novamente para introduzir a consumação daquele Reino. Embora, como vimos, o Reino de Deus esteja presente em um sentido, ele é futuro em outro. Vivemos agora entre duas vindas. Olhamos cheios de alegria, no passado, para a primeira vinda de Cristo, e aguardamos com ansiedade por seu retorno prometido.

A expectação do Segundo Advento de Cristo é um dos aspectos mais importantes da Escatologia neotestamentária - tanto o é, na verdade, que a fé na Igreja do Novo Testamento é dominada por esta expectação. Todo livro do Novo Testamento nos indica o retorno de Cristo e nos conclama a viver de modo tal a sempre estar pronto para essa volta. Esta nota é repetida diversas vezes nos Evangelhos. Somos ensinados que o Filho do Homem virá com seus anjos na glória de seu Pai (Mateus 16.27); Jesus falou ao sumo-sacerdote que este veria o Filho do Homem sentado à destra poderosa de Deus e vindo com as nuvens do céu (Marcos 14.62). Freqüentemente Jesus falou aos seus ouvintes para vigiar por sua volta, uma vez que ele viria numa hora em que eles não esperavam (Mateus 24.42,44; Lucas 12.40). ele falou da felicidade daqueles servos a quem ele encontraria fiéis quando de sua vinda (Lucas 12.37,43). Após ter descrito alguns dos sinais que precederiam sua vinda, o Senhor disse: “Ora, ao começarem estas coisas a suceder, exultai e erguei as vossas cabeças; porque a vossa redenção se aproxima” (Lucas 21.28). e em seu discurso de despedida Jesus contou a seus discípulos que, após ter deixado a terra, ele viria novamente e os levaria consigo (João 14.3).

Uma nota similar ressoa no livro de atos. Os anjos disseram aos discípulos que assistiam à ascensão de Jesus aos céus: “Esse Jesus, que dentre vós foi assunto ao céu, assim virá do modo como o vistes subir” (At 1.11). E Paulo disse aos atenienses que um dia Deus julgará o mundo pelo homem a quem levantou dos mortos, o Senhor Jesus Cristo (Atos 17.31).

As epístolas paulinas revelam uma consciência vívida da proximidade e certeza da volta do Senhor: “pois vós mesmos estais inteirados com precisão de que o dia do Senhor vem como ladrão de noite” (1 Ts 5.2); “Perto está o Senhor” (Fp 4.5). Paulo insta com os Coríntios para serem cautelosos em fazer julgamentos, uma vez que o Senhor está vindo: “Portanto, nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não somente trará à plena luz das coisas ocultas das trevas...” (1 Co 4.5) Em Tito 2.13 ele descreve os cristãos como aqueles que estão “aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus”. E em Romanos 8.19 ele nos fala de que a “ardente expectativa da criação aguarda, a revelação dos filhos de Deus”.

Este senso agudo da expectação do Segundo Advento de Cristo, entretanto, é também encontrado nas epístolas católicas. O autor de hebreus diz que “assim também Cristo, tendo se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação” (Hb 9.28). Tiago fala de modo semelhante quando diz: “fortalecei os vossos corações, pois a vinda do Senhor está próxima” (Tg 5.8). Pedro enfatiza tanto a certeza da volta do Senhor como a incerteza sobre sua hora: “Ora, logo que o Supremo Pastor se manifestar, recebereis [os anciãos] a imarcescível coroa da glória” (1 Pe 5.4); “Virá, entretanto, como ladrão, o dia do Senhor” (2 Pe 3.10). João insta com seus leitores a permanecerem em Cristo a fim de que, quando ele se manifestar, eles possam ter confiança (1 João 2.28); mais adiante, ele afirma que quando Cristo efetivamente aparecer de novo, seremos como ele, uma vez que o veremos como ele é (1 João 3.2).

Um sentido similarmente forte da expectação da volta do Senhor ressoa através do livro do Apocalipse: “Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá” (Ap 1.7). “Venho sem demora”, diz Jesus à Igreja em Filadélfia; “Conserva o que tens, para que ninguém tome a tua coroa”. (3.11). E em Apocalipse 22.20, o penúltimo verso do Novo Testamento, lemos: “Aquele que dá testemunho destas coisas diz: Certamente venho sem demora. Amém. Vem, Senhor Jesus!”

Esta mesma expectação vivida pela volta de Cristo deveria marcar a Igreja de Jesus Cristo nos dias de hoje. Se esta expectação não mais estiver presente, há algo radicalmente errado. É o servo infiel da parábola de Jesus que diz em seu coração: “Meu senhor tarda em vir” (Lucas 12.45). Pode haver várias razões para a perda deste senso de expectação. É possível que a Igreja hodierna esteja tão envolvida em assuntos materiais e seculares que o interesse pela Segunda Vinda esteja se desvanecendo no segundo plano. É possível que muitos cristãos não mais creiam numa volta literal de Cristo. É também possível que muitos dos que crêem numa volta literal empurram este evento para tão longe, no futuro distante, que não vivem mais na espera dessa volta. Quaisquer que sejam as razões, a perda de uma expectativa vívida e vital da Segunda Vinda de Cristo é um sinal de uma enfermidade espiritual das mais sérias na Igreja. embora possa haver diferenças entre nós acerca dos diversos aspectos da Escatologia, todos os cristãos deveriam aguardar ansiosamente pela volta de Cristo e deveriam viver à luz desta expectação renovada a cada dia.

Admitindo, pois, que a Igreja deve viver à luz desta expectação, deparamo-nos com um problema quando começamos a perguntar acerca de quando será a Parousia ou Segunda Vinda de Cristo. Este é o problema do assim chamado “atraso da Parousia”. Conforme os eruditos do Novo Testamento que falam sobre tal atraso, Jesus, Paulo e toda a Igreja Primitiva aguardavam a volta de Cristo para muito em breve. Parece óbvio, entretanto, assim dizem esses eruditos, que Cristo e Paulo estavam enganados, uma vez que ele não veio logo - na verdade, ele ainda não retornou. Este, pois, é nosso problema: Por que Cristo predisse seu breve retorno, e por que até agora ele ainda não retornou?

Foi Albert Schweitzer quem primeiro alcunhou a expressão: “O atraso da Parousia”1. De acordo com sua posição, desenvolvida mais completamente no Apêndice, o próprio Jesus esperava que a Parousia e a vinda do reino escatológico ocorresse antes de os discípulos terem terminado sua jornada de pregação pelas cidades de Israel (ver Mateus 10.23). Quando os discípulos retornaram e isto não tinha acontecido, Jesus percebeu que tinha cometido um engano - e este foi o primeiro “atraso da Parousia”. Então Jesus começou a pensar que ele teria de trazer o Reino através de seu próprio sofrimento e morte. Mas mesmo nisso ele estava enganado, e então morreu como um homem completamente desiludido.

Schweitzer representa a posição que veio a ser conhecida como Escatologia consistente, bem como Fritz Buri e Martin Werner2. De acordo com esta escola de pensamento, Jesus estava enganado não apenas acerca do tempo de sua Parousia, mas também acerca de todo o ambiente escatológico no qual ele situou o Reino. Falando francamente, o que aconteceu na época da vida de Jesus mostra que não haverá Parousia ou Reino escatológico futuro. Para estes teólogos, toda a história do cristianismo torna-se uma “desescatologização” do cristianismo. Ao invés de viver durante um breve ínterim entre as duas vindas de Cristo, a Igreja agora se vê como uma longa linha de continuidade histórica. De acordo com Werner, o vácuo criado pelo atraso da Parousia é agora preenchido pela história do dogma cristão 3. Não aguardamos nenhuma Segunda Vinda; este conceito, uma vez emprestado dos escritos apocalípticos judaicos, não é integrante da fé cristã e, portanto, deveria ser simplesmente abandonado.

Outros teólogos recentes, menos radicais do que os recém-mencionados, efetivamente aguardam pela Segunda Vinda de Cristo, mas concordam em que Jesus estava enganado ao predizer seu retorno para breve. Oscar Cullmann pertence a este grupo. Embora, como já vimos, ele dê ênfase ao fato de que o grande ponto central da história já aconteceu, ele efetivamente aguarda a volta de Cristo. Mas ele sustenta que a expectação da Igreja Primitiva pela proximidade dessa volta (uma questão mais de décadas do que de séculos) era um “erro de perspectiva” que pode ser explicado “da mesma forma com que explicamos as previsões precipitadas sobre a data do fim da guerra, uma vez presente a convicção de que a batalha decisiva já aconteceu” 4. Outro teólogo desta posição é Werner G. Kummel, que afirma especificamente que Jesus estava errado sobre este assunto: “Jesus não proclama apenas a vinda futura do Reino de Deus em termos gerais, mas também sua iminência. E mais: ...ele enfatiza isto tão concretamente que o limitou ao tempo de vida da geração de seus ouvintes... É perfeitamente claro que esta predição de Jesus não foi cumprida e é portanto impossível asseverar que Jesus não estava enganado acerca disto” 5.

O problema com que nos deparamos aqui, portanto, é se Cristo realmente predisse que ele voltaria dentro de uma geração e, em caso afirmativo, porque essa predição não se fez verdadeira. A expressão: “atraso da Parousia” sugere que algo de errado aconteceu com os cálculos. Houve realmente tal atraso? O Apóstolo Paulo realmente também esperava que Cristo voltasse no seu período de vida? Então, estava ele também enganado? Estaria toda a Igreja Primitiva sob a impressão errada de que a Parousia iria acorrer dentro de algumas décadas?

Antes de tudo, olharemos para o problema no que toca aos Evangelhos Sinóticos. Acabamos de ver que muitos eruditos modernos do Novo Testamento interpretam certas declarações de Jesus como implicando que ele retornaria do espaço de uma geração. Ao iniciar nossa discussão, deveríamos observar que os Sinóticos registram três tipos de discursos acerca do futuro do Reino: (1) Há três pronunciamentos que aprecem falar de um retorno iminente; (2) há outra série de pronunciamentos que falam mais de atraso do que de iminência; e (3) há ainda outro grupo de pronunciamentos e parábolas que enfatizam a incerteza do tempo da Segunda Vinda 6. Mais tarde observaremos estas passagens em mais detalhe. Por ora, entretanto, fica óbvio que falar apenas do primeiro grupo de pronunciamento e negligenciar os outros dois grupos é tornar-se culpado de uma super-simplificação grosseira.

Passemos agora a examinar cada um destes grupos de passagens. Os três textos dos quais se diz que ensinam o retorno de Cristo no espaço da geração daqueles que então viviam (as “passagens de iminência”) são as seguintes: Marcos 9.1 (e o paralelo de Mateus 16.28; Lucas 9.27), Marcos 13.30 (e o paralelo de Mateus 24.34; Lucas 21.32) e Mateus 10.23. estes são textos difíceis, pelo que deveremos observá-los cuidadosamente. Mas antes de o fazermos, deveríamos observar que, no meio do seu assim chamado discurso apocalíptico, Jesus disso claramente: “Mas a respeito daquele dia ou da hora [o tempo da Parousia] ninguém sabe; nem os anjos no céu, nem o filho, senão somente o Pai” (Marcos 13.32); cp. Mateus 24.36). Se estas palavras podem significar alguma coisa, elas significam que o próprio Cristo não sabia o dia ou a hora de sua volta. Podemos ter dúvidas acerca de como esta declaração pode ser conciliada com a deidade de Cristo ou a onisciência do Filho, mas não pode haver dúvidas sobre o que Cristo está dizendo aqui. Se, pois, o próprio Cristo, conforme Ele próprio admitiu, não sabia a hora de seu retorno, nenhuma outra declaração sua pode ser interpretada como indicativa do tempo exato desse retorno. Isto inclui as passagens difíceis que acabamos de mencionar. A insistência em que essas passagens exijam uma Parousia no espaço da geração daqueles que eram contemporâneos de Jesus, está claramente em desacordo com a negativa do próprio Jesus acerca de conhecer o tempo de sua volta.

Marcos 9.1 diz o seguinte: “Jesus dizia-lhes ainda: em verdade vos afirmo que, dos que aqui se encontram, alguns há que, de maneira nenhuma passarão pela more até que vejam ter chegado com poder o Reino de Deus”. A passagem paralela, em Lucas, termina com as palavras: “até que vejam o Reino de Deus” (Lc 9.27), enquanto que a passagem paralela em Mateus termina como se segue: “até que vejam vir o Filho do Homem no seu reino” (Mt 16.28).

Conforme seria de se esperar, as interpretações desta passagem variam em grande escala. Alguns sustentam que Jesus falava aqui acerca de sua Parousia, e estava dessa forma predizendo um retorno dentro do tempo de vida de alguns de seus ouvintes7. Pelas razões fornecidas acima, esta interpretação deve ser rejeitada. Outros intérpretes sugerem que Jesus estava falando acerca da transfiguração, que é o evento seguinte registrado em todos os três Sinóticos8. Outra posição, um tanto comum, é que Jesus esteja se referindo à sua ressurreição, juntamente com o derramamento do Espírito subseqüente9; alguns dos que sustentam esta posição a relacionam especialmente com Romanos 1.4: “designado Filho de Deus com poder, segundo o Espírito de santidade, pelo ressurreição dos mortos”. Uma posição similar a este é a de N.B. Stonehouse: Jesus estava se referindo à sua atividade sobrenatural como Senhor ressurrecto, ao estabelecer sua Igreja10. Há os que interpretam as palavras de Jesus como se referindo a manifestações do Reino de Deus tais como o pentecostes, o julgamento sobre Jerusalém ou o avanço poderoso do Evangelho no mundo pagão11. E há eruditos que interpretam a passagem como indicando a destruição de Jerusalém e a subseqüente expulsão dos judeus da Palestina, preparando, desta forma, o caminho para a formação do novo Israel, que consiste de judeus e gentios12.

Em minha opinião, a interpretação mais aceitável sobre esta difícil passagem é oferecida por H.N. Ridderbos. Embora sua posição tenha algo em comum com várias das sugestões enumeradas, ele vai consideravelmente além destas. Antes de tratar especificamente da passagem que estamos discutindo, em seu livro Coming of the Kingdom (A Vinda do Reino), ele indica que há duas linhas de pensamento nas predições do próprio Jesus acerca de seu futuro: uma aponta para sua morte e ressurreição vindouras, e a outra aponta para sua volta final em glória, e estas duas linhas não devem ser separadas mas conservadas conjuntamente13. Com relação a Marcos 9.1 e às paralelas dos Sinóticos, ele tece os seguintes comentários:

(1) Não podemos eliminar a Parousia da expectação indicada nas palavras: “Vejam o Reino de Deus vindo em poder”, ou: “vejam o filho do Homem vindo no seu Reino”. Pois há uma referência clara à Parousia no contexto precedente em todos os três relatos dos Evangelhos, e é impossível interpretar as palavras de Jesus como não tendo qualquer referência a seu retorno em glória.

(2) Entretanto, é igualmente sustentável dizer que essas palavras não indicam nada além da Parousia. Entre o tempo em que Jesus disse essas palavras e a Parousia haveria de acontecer o grande evento da ressurreição. Nesta ressurreição o Filho do Homem, igualmente, viria em sua dignidade real (cp. Mateus 28.18).

(3) Na mente dos discípulos, entretanto, a ressurreição de Cristo e sua Parousia estavam ligadas conjuntamente. Aparentemente, eles pensavam que a ressurreição de Cristo não aconteceria até o último dia (cp. Marcos 9.9-11).

(4) As palavras de Cristo, portanto, numa típica condensação profética, vinculam conjuntamente sua ressurreição e sua Parousia. Ele está predizendo que muitos dos que estão vivos, quando ele profere essas palavras, testemunharão sua ressurreição, que em um sentido é uma vinda do Reino de Deus com poder.

(5) A ressurreição de Cristo será seguida por sua Parousia num modo que ele ainda não explica completamente. A ressurreição de Cristo será a garantia da certeza da Parousia14.

Passaremos agora à segunda destas “passagens de iminência”, Marcos 13.30, que diz: “Em verdade vos digo que não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam”. A passagem paralela em Mateus (24.34) é virtualmente idêntica à de Marcos. A paralela em Lucas (21.32) tem um fraseado levemente diferente: “Não passará esta geração até que tudo tenha acontecido”.

Mais uma vez, os eruditos estão divididos quanto à interpretação desta passagem. O maior problema é o significado de “esta geração”, bem como das palavras “sem que tudo isto aconteça”. Em relação a “esta geração” há duas possibilidades: pode referir-se à geração das pessoas que viviam no tempo em que Jesus proferiu estas palavras, ou pode ser entendida num sentido mais qualitativo do que temporal, como descrevendo ou o povo judeu ou os incrédulos rebeldes desde a época em que Jesus está falando até a hora de seu retorno.

Entre os que sustentam a primeira interpretação de “esta geração” estão Oscar Cullmann e Werner Kummel, ambos crendo que “todas as coisas” mencionadas por Jesus incluem a Parousia, e portanto ambos falam de um certo “erro de perspectiva” da parte de Jesus 15. Uma vez que esta compreensão das palavras de Jesus implica que ele estava marcando uma data para seu retorno e uma vez que em Marcos 13.32 (e Mateus 24.36) Jesus afirma claramente que ele não sabe o dia nem a hora de seu retorno, esta interpretação tem de ser rejeitada. Outros, que sustentam que “esta geração” significa a geração contemporânea de Jesus, entendem “todas estas coisas” - como significando a destruição de Jerusalém e os sofrimentos que acompanharão essa destruição, embora eles admitam que a destruição de Jerusalém é um tipo do fim do mundo16. Ainda outros, que compartilham da mesma posição quanto ao sentido da frase “esta geração”, sustentam que a expressão “todas essas coisas” significa os sinais do fim descritos em Marcos 13.5-23, excluindo-se a Parousia propriamente dita; então, a ênfase seria que aquelas pessoas que estavam vivas, enquanto Jesus estava falando, veriam todos estes sinais precursores de sua vinda sem verem a vinda propriamente dita17.

Entre os que interpretam “esta geração” mais num sentido qualitativo que temporal está F.W. Grosheide, que entende “esta geração” como significando a humanidade em geral, da qual então se diz que permanecerá até a Parousia18. Outros, também entendendo “todas essas coisas” como incluindo a Parousia, interpretam “esta geração” como significando o povo judeu que irá continuar a existir até o fim; entende-se então, esta profecia como incluindo uma esperança pela salvação dos judeus até o último dia19. Há ainda outros que também entendem “esta geração” como se referindo ao povo judeu continuando a existir até o fim dos tempos, mas enfatizando não a possibilidade de sua salvação, porém antes sua rebelião e sua rejeição do Messias; dessa forma, a profecia serve mais como uma advertência rigorosa do que como uma esperança por revelações futuras da graça divina. Este último grupo de eruditos divide-se em duas classe: aqueles que sustentam que “todas essas coisas” significam todos os sinais precursores do fim, excluída a Parousia propriamente dita20, e aqueles que afirmam que “todas essas coisas” incluem a Parousia21.

Ao tentarmos chegar a uma conclusão acerca da interpretação desta passagem difícil, devemos ter em mente duas coisas. Primeiro, o propósito de Jesus ao proferir estas palavras não é fornecer uma data exata para sua volta (ver v.32) mas, antes, indicar a certeza de seu retorno. Este ponto é enfatizado no verso seguinte: “Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão” (Marcos 13.11). Segundo, parece arbitrário e injustificado impor qualquer tipo de limitação às palavras “sem que tudo isto aconteça” - uma vez que tal limitação, na verdade, faz Jesus dizer: “sem que algumas destas coisas aconteçam”. Embora seja verdadeiro que o discurso registrado em Marcos 13 partiu do contexto de uma predição sobre a destruição do templo (v.2), o discurso em si inclui terremotos e fomes (v.8), a pregação do Evangelho a todas as nações (v.10), perseguição por causa do Evangelho (v.12, 13), tribulação “como nunca houve desde o princípio... e nunca jamais haverá” (v.19), prodígios os céus (v.24), e a vinda do Filho do Homem nas nuvens com grande poder e glória (v.26). Quando mais adiante, no discurso (v.30), Jesus diz: “não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam”, qualquer interpretação destas palavras que exclua algum dos itens recém-mencionados parece ser forçada.

Por isso eu concluo que com a expressão - “todas estas coisas” - Jesus quer dizer todos os eventos escatológicos que ele acabou de enumerar, incluindo sua volta sobre as nuvens do céu. Seu ensino é que todos estes eventos com certeza virão a acontecer - embora céus e terra passarão, estas palavras infalivelmente serão cumpridas. Que, então, Jesus quer dizer com a expressão “esta geração”? Deve-se observar que a palavra “geração” (genea), conforme comumente utilizada nos Evangelhos Sitóticos, pode ter tanto um significado qualitativo como um temporal: “Deve-se entender essa geração num sentido temporal, mas sempre há um criticismo qualificante. Dessa forma lemos sobre uma geração ‘adúltera’ (Marcos 8.38), ou de uma geração ‘má’ (Mateus 12.45; Lucas 11.29), ou de uma geração ‘má e adúltera’ (Mateus 12.39; 16.4), ou de uma geração ‘incrédula e perversa’ (Mateus 17.17; cp. Lucas 9.41; Marcos 9.9)”22. Podemos encontrar um uso paralelo desta expressão em Mateus 23.35,36. Ali Jesus indica que sobre o povo judeu apóstata recairá “todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até ao sangue de Zacarias,” acrescentando: “Em verdade vos digo que todas estas coisas hão de vir sobre esta geração”. “Esta geração” não pode ser aqui restrita ao judeus vivos no tempo em que Jesus está dizendo essas palavras, porque o contexto se refere tanto a pecados passados (v.35) como pecados futuros “por isso eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis; a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade” (v.34).

Com “esta geração”, então, Jesus denota o povo judeu rebelde, apóstata e incrédulo, conforme ele se revelou no passado, está se revelando no presente e continuará a se revelar no futuro. Esta geração má e incrédula, embora esteja agora rejeitando a Cristo, continuará a existir até o dia de sua volta, e então, receberá o julgamento que lhe é devido. Interpretada dessa forma, a declaração de Jesus serve como uma conclusão lógica dos discursos que começou com a proclamação da destruição de Jerusalém, como uma punição para o endurecimento de Israel 23.

A terceira das assim chamadas “passagens de iminência” é Mateus 10.23 que não tem paralelo nos outros Sinóticos: “Quando, porém, vos perseguirem numa cidade, fuja para outra; porque em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel até que venha o Filho do Homem”.

Como é de se esperar, há uma ampla diferença de opinião sobre o significado desta passagem. A interpretação de Albert Scheweitzer comumente conhecida como escatologia consistente, deve ser rejeitada uma vez que está em conexão com o modo de ver a Jesus, que o considera como homem enganado e desiludido 24. Outros eruditos entendem as palavras “não acabareis de percorrer as cidades de Israel” como apontando para missão de pregação dos doze discípulos às cidades de Israel (que durou por um tempo maior de que apenas a jornada de pregação descrita em Mateus 10), e as palavras “até que venha o Filho do Homem” como se referindo à Parousia. Uma vez que a Parousia não aconteceu, quando Jesus disse que iria acontecer, esses eruditos não hesitam em falar sobre o erro, seja da parte de Mateus 25 ou da parte do próprio Cristo26. Esta posição também tem de ser rejeitada, uma vez que implica que Jesus estava marcando uma data para o seu retorno - exatamente aquilo que ele próprio dissera que não poderia fazer (Mateus 24.36).

Outros, porém, ao passo que concordam que “percorrer as cidades de Israel” significa a pregação dos discípulos de Jesus aos judeus ao longo de todo seu apostolado, sustentam que a “Vinda do Filho do Homem” deve ser interpretada como significando não a Parousia, mas algum evento no futuro próximo: ou a manifestação do Cristo ressurrecto aos discípulos, com a grande comissão27, ou o progresso do Evangelho que revela o reinado de Cristo28, ou a destruição de Jerusalém29.

Outros ainda estão convictos de que as palavras “até que venha o Filho do homem” não podem significar nada menos que a volta de Cristo nas nuvens dos céus. Mas estes diferem de Plummer, Kummel e Cullmann ao não restringir o significado de “percorrer as cidades de Israel” à missão de pregação dos doze, referindo uma interpretação menos literal e mais figurativa destas palavras, como descrevendo algo que continuará até a Parousia. Esses eruditos, entretanto, diferem entre si sobre a interpretação exata desta expressão. Herman Ridderbos insiste que “percorrer as cidades de Israel” não se refere à missão mas à fuga dos discípulos; por causa disso, ele aqui entende Jesus como predizendo que, embora aqueles que trazem o Evangelho continuarão a ser perseguidos até o último momento, sempre haverá um lugar para o qual eles possam fugir30. Grosheide, Schniewind e Ladd, entretanto, enxergam efetivamente uma referência à obra missionária nesta expressão. Grosheide vê aqui os discípulos como representativos de toda a Igreja; para ele, a passagem significa que a igreja deve continuar a pregar o Evangelho até que Jesus retorne - “cidades de Israel”, para ele, indicam lugares onde vivam pessoas que, embora nominalmente cristãs, na verdade estão afastadas de Deus31. Schniewind e Ladd entendem “percorrer as cidades de Israel” como descrevendo a missão contínua da igreja para com Israel que persistirá até a Parousia, e que resultará na salvação de muitos judeus32.

Ao tentarmos chegar a uma conclusão acerca do significado dessa passagem, deve ser lembrado que as instruções de Jesus à seus discípulos conforme registradas em Mateus 10, incluem pronunciamentos que se ocupam de suas atividades futuras, após sua ascensão33, e até incluem declarações que seriam aplicadas aos membros de sua igreja durante todo o curso da história34. O que dissemos acima acerca da condensação profética 35,também deve ser lembrado: ao falar ao seus discípulos, freqüentemente Jesus vinculou conjuntamente assuntos do futuro próximo com eventos do futuro bem distante, assim como o fizeram os profetas do Antigo Testamento. Em outras palavras, o que Jesus diz aqui acerca da perseguição, no futuro imediato, poderia ter relevância para o povo de Deus também no futuro longínquo.

Tendo essas coisas em mente, podemos entender Mateus 10.23 como nos ensinando, primeiramente, que a igreja de Jesus Cristo deve não somente continuar a preocupar-se com Israel, mas também continuar a levar o Evangelho a Israel até que Jesus venha de novo. Em outras palavras, Israel continuará a existir até o tempo da Parousia36, e continuará a ser objeto de evangelismo. Isto implica que tanto no futuro como no passado uma grande multidão de judeus persistirá em rejeitar o Evangelho; para eles, a volta de Cristo não significará salvação, mas sim juízo37. Enquanto a oposição ao Evangelho continuar, também deve-se esperar que a perseguição daqueles que levam o Evangelho continue. Mas continuará igualmente a conversão de judeus à fé cristã até a Parousia, pois Deus continuará a reunir seus eleitos dentre os israelitas38.

As três “passagens de iminência”, portanto, não devem ser entendidas como ensinando um retorno de Cristo dentro de um período de vida daquele que o ouviam. Passaremos, agora, a observar um outro grupo de passagens dos Evangelhos Sinóticos, que ensinam que a Parousia pode ainda estar bem distante, no tempo. Foram registradas declarações específicas de Jesus que indicam que certas coisas ainda tem de acontecer antes que ele volte. Em Mateus 24.14, por exemplo, Jesus diz: “E será pregado este Evangelho do Reino por todo o mundo para testemunho à todas as nações. Então virá o fim”. A palavra “então” (no grego kaitote ) implica que um período de tempo tende-se a expirar antes da Parousia - possivelmente um período de tempo muito longo. No mesmo sentido vem as palavras que Jesus falou na casa de Simão, o leproso, depois de ter sido ungido por uma mulher anônima: “porque os pobres os tendes convosco e, quando quiserdes podeis fazer-lhes bem, mas a mim nem sempre me tendes... Em verdade vos digo: onde for pregado em todo o mundo o Evangelho, será também contado o que ela [a mulher] fez, para memória sua” (Marcos 14.7, 9). Estas palavras implicam que haverá um período de tempo em que Jesus estará ausente dos discípulos, durante o qual o Evangelho será pregado por todo o mundo. Outro pronunciamento que ensina uma vinda “atrasada” 39 é o de Marcos 13.7: “Quando, porém, ouvirdes falar de guerras e rumores de guerras, não vos assusteis; é necessário assim acontecer, mais ainda não é o fim”.

Várias das parábolas de Jesus transmitem um pensamento similar. A parábola das minas é introduzida por Lucas com estas palavras: “Jesus propôs uma parábola, visto estar perto de Jerusalém e lhes parecer que o Reino de Deus havia de manifestar-se imediatamente” (Lc 19.11). A ênfase da parábola, que fala de um nobre fidalgo que foi para um país distante e então retornou para um ajuste de contas com os seus servos, é que um período pode decorrer antes que o senhor retorne. No mesmo sentido aparece a parábola dos talentos, que deixa a questão acima explícita: “Depois de muito tempo voltou o senhor daqueles servos e ajustou contas com ele” (Mateus 25.19). O mesmo capítulo traz a parábola das dez virgens que, incluem as já famosas palavras “é, tardando o noivo (ou “demorando-se” ASV), foram tomadas de sono, e adormeceram” (Mt 25.5). O assunto desta parábola, da mesma forma, gira em torno do atraso do noivo e da conduta das virgens durante esse atraso. Destaque similar é feito na parábola do servo vigilante (Lucas 12.41-48). Quando um dos servos diz: “Meu senhor tarda em vir” (v.45), ele é revelado como mal e infiel, mas a implicação é que haverá de fato um “atraso”. Em outra ocasião Jesus indicou que, embora os convidados das bodas não hão de jejuar enquanto o noivo estiver com eles, dias virão em que lhes será tirado o noivo, e, então eles jejuarão (Marcos 2.19-20). Mas ainda, entre as parábolas encontradas em Mateus 13, a seguinte sugere a possibilidade de um longo lapso de tempo antes do fim: a parábola do joio (sugerindo que os crentes serão deixados lado a lado com incrédulos por um longo tempo), do grão de mostarda (sugerindo que o pequeno grupo, agora reunido ao redor de Jesus, com o tempo se tornará um grupo muito grande) e o do fermento (sugerindo que o Reino de Deus, que nos dias de Jesus estava escondido, algum dia prevalecerá tão poderosamente que não existirá nenhuma soberania rival) 40. Baseados nos pronunciamentos e parábolas que acabamos de ver, podemos concluir que, com certeza, Jesus deixou lugar para a possibilidade de que sua Segunda Vinda pudesse não acontecer antes de um período considerável de tempo.

Existe, porém, um terceiro grupo de passagens, nos Sinóticos, que enfatizam a incerteza do tempo da Parousia. Já mencionamos Marcos 13.32 (e Mateus 24.36): “Mas a respeito daquele dia e da hora ninguém sabe; nem os anjos do céu, nem o Filho, senão somente o Pai”. Jesus termina a parábola das dez virgens à qual acabamos de nos referir, com essas palavras: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora” (Mateus 25.13). A passagem de Marcos enfatiza a incerteza do tempo: estai de sobreaviso, vigiai; porque não sabeis quando virá o dono da casa: se à tarde, se à meia noite, se ao cantar do galo, se pela manhã; para que, vindo ele inesperadamente, não vos ache dormindo. O que, porém, vos digo, digo a todos: Vigiai!” (Marcos 13.33-37). Em outra ocasião, Jesus usa a figura dos servos que esperam pela volta de seu servos: “Cingidos estejam os vossos corpos e acesas as vossas candeias. Sede vós semelhantes a homens que esperam pelo seu senhor ao voltar ele das festas de casamento; para que, quando vier e bater a porta logo lhe abram” (Lucas 12.35-36). Logo adiante, no mesmo discurso, Jesus utiliza a figura da vinda de um ladrão: “Sabei, porém, isto: que, se o pai de família soubesse a que hora havia de vir o ladrão, vigiaria e não deixaria arrombar a sua casa. Ficai também vós apercebidos, porque, a hora em que não cuidais o Filho do Homem virá” (Lc 12.39-40; paralelo de Mt 24.43-44).

A partir desses pronunciamentos, aprendemos que ninguém pode saber o tempo exato da Parousia. A Segunda Vinda ocorrerá numa hora em que não esperamos. Entretanto, é exatamente pelo fato de a Segunda Vinda ser inesperada que sempre devemos estar vigiando em relação a ela. O próprio Jesus indica certos sinais de sua vinda, conforme veremos no próximo capítulo. A vigilância por sua vinda, portanto, inclui estar alerta para estes sinais. Mas, acima de tudo, vigilância significa prontidão - estar sempre pronto para que Cristo retorne. Ladd tem um comentário útil acerca disto: “A palavra traduzida por ‘vigiai’ nestes vários versos [versos como os que acabamos de citar] não significa ‘aguardar por’, mas uma qualidade moral ou prontidão espiritual para a volta do Senhor. ‘Ficai também vós prontos’ (Lucas 12.40). A incerteza acerca do tempo da Parousia significa que os homens devem estar espiritualmente acordados e prontos para encontrar o Senhor quando quer que ele venha”41.

A figura do ladrão utilizada por Jesus também enfatiza a colocação que acabamos de fazer. Parece totalmente incongruente comprar a volta de Cristo à visita de um ladrão. Mas o objetivo da comparação é exatamente o fato de que o ladrão é inesperado. Nunca se sabe quando um ladrão pode arrombar sua casa; por causa disso precisa-se tomar certas precauções. De modo similar, uma vez que não sabemos quando Cristo retornará, deveríamos sempre viver em prontidão para essa volta.

Passemos agora a resumir o que aprendemos dos Evangelhos Sinóticos acerca da expectação da Segunda Vinda. Está claro que Jesus não marcou uma data para seu retorno; por causa disso, não deveríamos falar acerca de um engano ou “erro de perspectiva” de sua parte. Naturalmente, é possível que alguns de seus discípulos ou seguidores o entenderam erradamente como tendo ele marcado uma data para a parousia. Na verdade, o Apóstolo João nos dá um exemplo desse mal entendido: “Então Pedro, voltando-se, viu que também o ia seguindo o discípulo a quem Jesus amava... Vendo-o, pois, Pedro perguntou a Jesus: E quanto a este? Respondeu-lhe Jesus: se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa? Quanto a ti, segue-me. Então se tornou corrente entre os irmãos o dito de que aquele discípulo não morreria. Ora, Jesus não dissera que tal discípulo não morreria, mas: Se eu quero que ele permaneça até que eu venha, que te importa?” (João 21.20-23). Aparentemente, havia crentes naquela época que pensavam que Jesus tivesse dito que retornaria antes de João morrer. Mas o próprio João afirma que Jesus não disse tal coisa. Se é possível ocorrer um erro desses, é também possível que alguns dos que ouviam Jesus ensinar, tivessem interpretado erroneamente suas palavras de modo a significar que ele tivesse marcado uma data precisa para sua Segunda Vinda. Porém, conforme temos demonstrado, Jesus não fez isto.

Entretanto, Jesus efetivamente ensinou que, dentro do período de vida de seus ouvintes, ele vivia em glória real (Mt 16.28); estas palavras se referem à sua ressurreição, que haveria de ser um prelúdio e garantia de sua Parousia. Portanto, Jesus ensinou a certeza de sua Parousia, sem nos fornecer a data exata. Alguns de seus pronunciamentos dão lugar ao transcurso de quantidade considerável de tempo, antes de seu retorno. Mas, uma vez que o tempo exato da Parousia é desconhecido, é necessário uma vigilância constante. Esta vigilância não significa espera indolente, mas requer o uso diligente de nossos dons no serviço do Reino de Cristo.

Deslocamos agora nossa atenção para a questão da expectação da Parousia nos escritos paulinos. É certamente verdadeiro que “a expectação da vinda do Senhor e do que a acompanha é um dos motivos mais centrais e poderosos de Paulo” 42. Paulo não somente dedica discussões exclusivas a este tópico, mas também faz referências freqüentes à Segunda Vinda de Cristo de modo incidental, enquanto discute outro assunto. Para Paulo, a esperança pela manifestação de Cristo é uma das marcas do cristão.

Temos, porém, de levantar novamente a questão acerca do tempo da Parousia em Paulo. Como dissemos acima, alguns pensam que Paulo ensinou que a Parousia aconteceria dentro de uma geração ou, possivelmente, mesmo antes de ele morrer, mas isso era obviamente um engano. Será esta uma análise correta dos escritos de Paulo?

Temos de concordar com Ridderbos em que é difícil duvidar que não somente a Igreja Cristã Primitiva, mas também Paulo, nas epístolas que chegaram até nós, imaginassem um desenvolvimento continuado por vários séculos da ordem mundial presente43. Com certeza, passagens como as seguintes confirmam este julgamento: “porque a nossa salvação está agora mais perto do que quando no princípio cremos. Vai alta a noite e vem chegando o dia” (Romanos 13.11,12); “Isto, porém, vos digo, irmãos: o tempo se abrevia; o que resta é que não só os casados sejam como se o não fossem” (1 Coríntios 7.29); “Perto está o Senhor” (Filipenses 4.5).

Vários eruditos modernos do Novo Testamento argumentam que houve uma mudança no pensamento de Paulo sobre este assunto. Em suas epístolas mais antigas, assim é comentado, ele aguardava uma Parousia rápida - tão rápida, na verdade, que ele esperava estar ainda vivendo quando o Senhor retornasse. Mas em suas epístolas posteriores, assim dizem eles, ele não mais tinha esta expectação; ao invés, ele esperava que morresse antes de Cristo voltar, e que a Parousia acontecesse algum tempo mais tarde. Dessa forma, Paulo estaria corrigindo um erro anterior, dizem alguns desses eruditos.

Vejamos algumas dessas posições. De acordo com Albert Schweitzer, Paulo primeiramente esperava uma Parousia rápida, mas, quando esta expectação provou-se ser uma ilusão, Paulo ensinou, já em suas primeiras epístolas, que os crentes participam na morte e ressurreição de Cristo de um modo místico, e dessa forma pode-se dizer que estão em Cristo44. Já em 1930, Geerhardus Vos mencionou as posições dos eruditos de sua época, que pensavam que Paulo tivesse mudado sua primeira expectação de ainda estar vivo na Parousia, para uma reconsideração de suas crenças acerca da ressurreição, provocada pela convicção posterior de que ele morreria antes da Parousia45. Num livro publicado originalmente em 1946, Oscar Cullmann ensinava que, ao passo que em 1 Tessalonicenses 4.16, Paulo tinha dito que ele ainda estaria vivo quando Cristo retornasse, em epístolas posteriores (2 Co 5.1ss e Fp 1.23) ele afirmou que a Parousia somente ocorreria após a sua morte46.

Esta mudança alegada no pensamento de Paulo foi mais completamente desenvolvida por C.H. Dodd. De acordo com Dodd, Paulo, em sua primeira epístola aos Tessalonicenses, sua epístola mais antiga, cria que a Segunda Vinda estivesse tão próxima que afirmou que nós (significando não somente ele próprio mas também os crentes de Tessalônica) encontraríamos o Senhor nos ares (1 Ts 4.17) 47. Em 1 Coríntios, escrita acerca de quatro anos mais tarde, Paulo expressou a convicção de que ele e pelo menos alguns de seus convertidos de Corinto ainda estariam vivos quando ocorresse a Parousia48. Após a 1 Coríntios, entretanto, não mais vemos Paulo referir-se a essa expectação confiante. Em 2 Coríntios, escrita um pouco após 1 Coríntios, ele expressa o pensamento de que, provavelmente, morreria antes da Parousia. Em suas epístolas posteriores, a idéia do retorno iminente do Senhor desaparece. A ênfase agora recai em exortações éticas e sobre nossa participação presente em Cristo; portanto, há uma espécie de transformação da Escatologia em misticismo49.

Outros intérpretes, ainda, encontram evidência deste tipo de mudança no pensamento de Paulo50. que diremos acerca disto? Parece bem evidente que Paulo, realmente, esperava que Cristo voltasse muito breve. Na verdade, parece igualmente razoável crer que o próprio Paulo ainda esperava estar vivendo naquele momento. Mas isto não significa que Paulo não deixasse lugar para outra possibilidade, nem que ele tenha marcada uma data “dentro desta geração” para a Parousia, como parte de seu ensino reconhecidamente autorizado. Paulo não estava interessado em marcar datas; sua maior preocupação era ensinar a certeza da volta de Cristo, e a importância de estarmos sempre prontos para essa volta. Dizer que Paulo esperava estar ainda vivo na Parousia é uma coisa; mas dizer que ele definitivamente ensinou que a Parousia aconteceria antes de sua morte é outra coisa completamente diferente! 51

A alegação de que Paulo mudou de opinião acerca do tempo da Parousia, entre suas primeiras e últimas epístolas, é igualmente sem fundamento. Primeiramente porque, em 1 Tessalonicenses - que supostamente representa a primeira posição de Paulo - , ele já acolhe a possibilidade de que alguns, incluindo ele próprio, poderão morrer antes que o Senhor retorne: “Porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós para que, quer vigiemos, quer durmamos, vivamos em união com ele” (1 Ts 5.9,10). Além disso, Paulo não fornece indicação alguma, em 2 Coríntios (alegadamente representando sua última posição), de que ele tenha mudado de opinião após ter escrito 1 Coríntios (supostamente representando sua primeira posição).

Mas, que dizer acerca da palavra “nós” de 1 Tessalonicenses e 1 Coríntios? Em 1 Tessalonicenses (4.17), Paulo diz, escrevendo acerca da Parousia: “depois nós, os vivos, o que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles [aqueles que acabaram de ser ressuscitados dos mortos], entre nuvens, para o encontro do Senhor nos ares...” E em 1 Coríntios 15.51,52, falando acerca do que acontecerá quando Cristo retornar, Paulo diz: “Nem todos dormiremos, mas transformados seremos todos... A trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis, e nós seremos transformados”. Será que estas passagens transmitem a certeza de que Paulo espera estar ainda vivo quando Cristo retornar? Elas não fazem nada disso. Elas expressam a possibilidade de que Paulo e alguns de seus leitores poderão estar ainda vivos naquela hora, mas não a certeza. Nestes versos, Paulo está escrevendo acerca daqueles que ainda estarão vivos na hora da Parousia em distinção àqueles que terão morrido até aquela hora, mas ele não diz e também não sabe quem serão esses que ainda estarão vivos. Qualquer crente, desde a época de Paulo até hoje, poderia usar linguagem similar sem implicar que ele certamente ainda estará vivo quando Cristo voltar 52.

Está também claro que Paulo ensinou a impossibilidade de se calcular o tempo da volta de Cristo. Ridderbos pondera desta forma: “Com certeza, temos sempre de ter em mente que, em Paulo, também qualquer computação do tempo da Parousia é completamente deficiente...” 53. Como prova disso, deveríamos observar que Paulo, tanto como Jesus, fala do dia do senhor vindo como um ladrão: “pois vós mesmos estais inteirados com precisão de que o dia do Senhor vem como o ladrão de noite. Quando andarem dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição, como vem a dor do parto à que está para dar a luz; e de nenhum modo escaparão. Mas, vós, irmãos, não estais em trevas, para que esse dia como ladrão vos apanhe com surpresa”( 1 Ts 5.2-4). O objetivo da imagem do ladrão é, conforme vimos, a incerteza do tempo da Parousia. Quando Paulo adiciona que seus leitores não estão em trevas e que, por causa disso, o dia do Senhor não deve surpreendê-los, como um ladrão, ele deixa implícito que, se alguém estiver sempre espiritualmente pronto para a volta de Cristo, esse alguém não será transtornado por esta volta mesmo se ela vier numa hora inesperada. Paul Minear sugere outra implicação da figura do ladrão: o ladrão pretende fazer você ficar mais pobre. Se um dos maiores valores são os “tesouros na terra”, dos quais Jesus falou uma vez (Mt 6.19), a volta de Cristo realmente tornará a pessoa mais pobre, uma vez que o que era de valor para ela terá sido levado embora. Mas se alguém tiver estado ajuntando “tesouros nos céus” e buscando “as coisas que são do alto”, a volta de Cristo não será equivalente à vinda de um ladrão, uma vez que essa volta fará a pessoa mais rica do que era antes. A figura do ladrão, portanto, enfatiza tanto a incerteza do tempo da Parousia como a necessidade de constante prontidão espiritual para a volta do Senhor54.

Resumindo agora o que aprendemos de Paulo acerca da Parousia, deveria ficar claro que não devemos acusá-lo de ter feito um erro de julgamento acerca do tempo da volta de cristo. Assim como Jesus, Paulo ensinou que, embora o tempo da Segunda Vinda seja incerto, o fato dessa vinda é certo. O crente deveria viver numa expectativa constante e alegre da volta de Cristo; embora ele não conheça o tempo exato em que ela vai ocorrer, o crente sempre deveria estar pronto para ela.

É muito significativo, porém, que embora os escritores do Novo Testamento não tentem precisar, muito acuradamente, a data exata da Parousia, eles efetivamente falam, muitas vezes, de sua proximidade. Paulo agiu assim freqüentemente. Já mencionamos 1 Coríntios 7.29, que fala acerca da escassez de tempo; Romanos 13.11 que diz que o dia está próximo; e Filipenses 4.5, onde Paulo afirma que o senhor está perto. Poderíamos acrescentar também Romanos 16.20, onde Paulo diz que Deus logo esmagará a Satanás sob os pés de seu povo. Num caráter similar, o autor de Hebreus escreve: “Porque ainda dentro de um pouco tempo aquele que vem, virá e não tardará” (10.37). Tiago não somente nos diz que a vinda do Senhor está próxima (5.8), mas também que o Juízo já está “às portas” (5.9). Pedro dia que o fim de todas as coisas está próximo (1 Pe 4.7). E o livro do Apocalipse começa declarando que o seu propósito é de “mostrar aos seus [de Deus] servos as coisas que em breve devem acontecer” (1.1); ele termina com a afirmação: “Aquele que dá testemunho destas coisas diz: certamente venho sem demora” (22.20).

Declarações deste tipo não devem ser interpretadas como tentando marcar uma data para a Parousia. Para os escritores do Novo Testamento, a proximidade da Parousia não é tanto uma proximidade cronológica quanto uma proximidade da “história da salvação”. Num capítulo anterior observamos que, de acordo com o Novo Testamento, as bênçãos da era atual são o penhor e garantia de bênçãos maiores por vir55. A primeira vinda de Cristo garante a certeza da sua Segunda Vinda. Pelo fato de a volta de Cristo ser tão certa, num sentido ela está sempre próxima. Nós já experimentamos o poder, o gozo e os privilégios da era-do-fim, e a partir disso aguardamos ansiosamente pala consumação da redenção em Cristo. Tendo provado os primeiros frutos do Espírito, estamos bastante ansiosos para desfrutar do que está guardado para nós. A Escatologia inaugurada e a Escatologia futura, portanto, estão bem juntas na consciência do crente. A primeira não apenas garante a segunda, mas, porque a primeira já veio, a segunda está sempre próxima na expectação do crente56.

Há uma passagem do Novo Testamento que parece falar explicitamente de um certo atraso na Parousia: 2 Pedro 3.3,4. Mas, neste caso, são escarnecedores os que falam de atraso: “nos últimos dias, virão escarnecedores com os seus escárnios, andando segundo as próprias paixões, e dizendo: Onde está a promessa da sua vinda? Porque desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação”. Em outras palavras, essa não era uma pergunta levantada por crentes ansiosos, mas por zombadores que estavam tentando desacreditar a Palavra de Deus. A resposta de Pedro é importante: “Há, todavia, uma coisa, amados, que não deveis esquecer: que, para com o Senhor, um dia á como mil anos, e mil anos como um dia. Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (vs. 8,9). O ímpeto da resposta de Pedro é este: Deus não está protelando a volta de Cristo, como se ele tivesse esquecido sua promessa, mas está esperando, deliberadamente, para melhor revelar seu amor, sua compaixão e sua paciência para com os pecadores. A palavra grega usada aqui - makrothymei - significa ter paciência ou ser longânimo. Ao postergar a volta de Cristo, Deus está criando lugar para arrependimento e conversão, uma vez que ele não deseja que ninguém pereça! Ao invés de falarmos sobre o “atraso” da Parousia, portanto, deveríamos agradecer a Deus por esta manifestação do seu amor, e ser o mais diligentes possível para levar o Evangelho àqueles que talvez ainda não o tenham ouvido57.

Uma expectação vívida da Parousia deveria ser encontrada na Igreja hoje, como era encontrada na Igreja Primitiva. Qual é o significado desta expectação? Os críticos do Cristianismo, freqüentemente, gostam de dizer que esta expectação leva a um tipo de “vida de outro mundo” ou, seja, a uma vida improdutiva - uma espera passiva pela vida por vir, inclusive negligenciando nossas responsabilidades neste mundo atual. Será isso verdadeiro? Não de acordo com a Bíblia. Herman Ridderbos, escrevendo acerca do ensino e pregação de Paulo, tem isto a dizer: “O motivo escatológico, a consciência da vinda do senhor como algo próximo, tem não uma negativa mas sim uma positiva significação para a vida no tempo presente. Ele não faz a responsabilidade por esta vida ser relativa, mas antes a aumenta58. O que ele diz acerca de Paulo pode ser dito sobre todo o Novo Testamento. Que os escritores do Novo Testamento têm a dizer acerca da significação prática da expectação da Parousia para a fé e a vida?

A ênfase mais comum é que nossa expectação, pela volta do senhor, serve como um incentivo para um viver santo. Assim, ouvimos Paulo nos dizer, em Romanos 13, que a proximidade dessa volta deveria nos motivar a expulsar as obras das trevas e vestir as armas da luz; a não fazer provisão para a carne, mas conduzir-nos a nós mesmos convenientemente como em pleno dia (vs. 12-14). Em Tito 2.11-13, Paulo destaca o fato de que nossa vida, entre as duas vindas de Cristo, significa que devemos renunciar às paixões mundanas e viver sensata, justa e piedosamente neste mundo atual. Pedro, em sua primeira epístola, nos diz que lançar nossa esperança totalmente sobre a graça que vem a nós, pela revelação de Cristo, significa para nós a busca diligente do auto-controle, obediência e santidade (1 Pe 1.13-15). E em sua segunda carta ele diz o seguinte: “Visto que todas essas coisas hão de ser assim desfeitas, deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade, operando e apressando (ou desejando ardentemente, variante textual) a vinda do dia de Deus...” (2 Pe 3.11-12). O Apóstolo João, em sua primeira epístola, depois de nos dizer quando Cristo se manifestar em glória nós seremos iguais a ele, adiciona: “E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro” (1 João 3.2,3).

De várias outras maneiras nossa expectativa da Segunda Vinda deveria afetar o nosso modo de viver. A manifestação futura do nosso Senhor deveria nos levar ser fieis à comissão que Deus nos deu, assim como Timóteo o fez (1 Tm 6.14). Se continuarmos a permanecer em Cristo, nós deveremos estar confiantes e sem ter do que nos envergonhar diante dele, quando ele aparecer (1 Jo 2.28). A percepção de que, quando o senhor vier, ele revelará os propósitos dos nossos corações, implica em que não devemos pronunciar julgamentos prematuros sobre outras pessoas (1 Co 4.5). Sermos fiéis e sábios mordomos de tudo o que o Senhor nos tiver confiado para cuidar é outro meio de mostrar que estamos prontos para a volta do senhor (Lc 12.41-48). Na parábola dos talentos e das minas dá-se ênfase a que a prontidão para a volta de Cristo significa trabalhar diligentemente para ele com os dons e habilidades que ele nos tem dado (Mt 25.1-40; Lc 19.11-27). E, à luz do juízo final, encontrado em Mt 25.31-46, o melhor modo de se estar preparado para a Segunda Vinda, é estar continuamente mostrando amor àqueles que são irmãos de Cristo.

Nossa expectação pela volta do Senhor, portanto, deveria ser um incentivo constante para viver para Cristo e para o seu Reino, e para buscar as coisas que são lá do alto, não as coisas que estão sobre a terra. Mas o melhor modo de buscar as coisas lá de cima é estar ocupado para o Senhor aqui e agora.





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