Autor: Anthony a hoekema Tradutor: Karl H. Kepler Revisão dos Originais



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Notas do capítulo 11
1. A A Jones, “Sign” (sinal), in The New Bible Dictionary (O Novo Dicionário da Bíblia), Grand Rapids: Eerdmans, 1962, p. 1185.

2. Ver Berkouwer, Return, pp. 238, 244-246.



3. Ibid., p. 248. Ver também pp. 236, 260-251

4. Hoekema, The Four Major Cults (As Quatro Grandes Seitas), pp. 89-90.

5. Ver Berkouwer, Return, pp. 256-259.

6. Veja e.g., The Four Major Cults (As Quatro Grandes Seitas), pp. 67-74, 137-143, 295-326.

7. Cp., e.g., esta declaração de Hal Lindsey, um escritor dispensacionalista: “Eles, os profetas hebreus, predisseram que, à medida que o homem se aproximasse do fim da história conhecida, haveria uma padrão preciso de eventos que se assomariam na história”; The Late Great Planet Earth (A Agonia do Grande Planeta Terra), Grand Rapids: Zondervan, 1970; 42ª impressão 1974, p. ii.

8. Systematic Theology (Teologia Sistemática), III, p. 790.

9. Ibid., p. 791.

10. Ridderbos, Paul, p.528.

11. Berkouwer, Return p. 243. Ver também pp.246-247.

12. Ibid., p. 256. Ver também K. Rahner, “The Hermeneutics of Eschatological Assertions” (A Hermenêutica das Afirmações Escatológicas), in Theological Investigations (Investigações Teológicas), IV, ET, 1966, p. 323 ss.

13. Ridderbos, Coming, p. 522-523.

14. Ver acima, capítulo 3.

15. Berkouwer, Return, 249.

16. Ver acima, capítulo 6.

17. Sobre esse assunto, ver K. Dijk, Het Einde der Eeuwen Kampen: Kok, 1952, pp. 123-124.



18. Ibid., p. 116, 131.

19. Capitulo 13, pg.

20. Dijk, op.cit., p. 117.

21. Cp. Henry W. Frost, The Second Coming of Christ (A Segunda Vinda de Cristo), Grand Rapids: Eerdmans, 1934, p.170.



CAPÍTULO 12
OS SINAIS EM DETALHE
No capítulo anterior, vimos de modo geral os sinais dos tempo, e chegamos a algumas conclusões acerca deles. Neste capítulo veremos os sinais dos tempos em particular, conforme eles são desenvolvidos nas Escrituras.

Embora seja difícil desenvolver uma visão sistemática desses sinais1, poderá ser útil agrupá-los sob os seguintes três títulos:



(1) Sinais que evidenciam a graça de Deus:

(a) A proclamação do Evangelho a todas as nações

(b) A salvação da plenitude de Israel

(2) Sinais que indicam oposição a Deus:

(a) Tribulação

(b) Apostasia

(c) Anticristo



(3) Sinais que indicam julgamento divino:

(a) Guerras

(b) Terremotos

(c) Fomes

Foi observado, anteriormente, que os sinais dos tempos revelam tanto a graça de Deus como o julgamento de Deus. A graça de Deus é manifesta na oportunidade de salvação, através de Cristo, estendida à humanidade durante a era que transcorre entre a primeira e a Segunda Vinda de Cristo. Os primeiros dois sinais a serem discutidos se encaixam neste grupo. Vejamos, primeiramente, o sinal da proclamação do Evangelho a todas as nações. Há antecipações deste sinal no Antigo Testamento. Os profetas do Antigo Testamento já predisseram que, quando os últimos dias fossem instaurados, o Espírito seria derramado sobre toda a carne (Joel 2.28), e que os confins da terra veriam a salvação de Deus (Isaías 52.10). Isaías profetizou que Deus entregaria seu Servo não apenas como uma aliança com o seu povo mas também como luz para as nações (42.6), e que toda a carne veria a glória do Senhor (40.5). E em Isaías (45.22), lemos: “Olhai para mim, e sede salvos, vós, todos os termos da terra!” Passagens deste tipo foram citadas pelos apóstolos quando eles desejavam provar que o Evangelho deveria ser tanto para gentios como para judeus.

No assim chamado sermão profético, Cristo ensinou que o Evangelho deveria ser pregado a todas as nações antes de a Parousia ocorrer: “E será pregado este evangelho do Reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então virá o fim” (Mateus 24.14; Marcos 13.10).

Uma vez que no grego a palavra nações vem precedida por um artigo definido (pasin tois ethnesin), podemos traduzir a expressão por “a todas as nações”. Jesus não quer dizer que cada derradeira pessoa da terra tem de se converter antes da Parousia, uma vez que é evidente pelo restante das Escrituras que esse nunca será o caso. Jesus também não quer dizer que cada indivíduo sobre a terra precisa ouvir o Evangelho antes que ele retorne. O que ele efetivamente diz é que o Evangelho tem de ser pregado por todo o mundo como um testemunho (eis martyrion) para todas as nações.

O que se quer dizer com “testemunho para todas as nações?” A Idéia parece ser a de que o Evangelho será para todas as nações uma testemunha que convida a uma decisão. O Evangelho tem de se tornar uma força a ser levada em conta pelas nações do mundo. Não está implicado que cada membro de cada nação ouvirá o Evangelho, mas antes que o Evangelho se tornará uma parte da vida de cada nação, de modo tal que não possa ser ignorado. O Evangelho deveria despertar fé, mas se ele for rejeitado, ele testificará contra aqueles que o rejeitaram. Portanto, a pregação do Evangelho a cada nação reforçará a responsabilidade de cada nação com relação a esse Evangelho2.

A pregação missionária do Evangelho a todas as nações é, na verdade, o sinal dos tempos extraordinário e mais característico. Ela fornece à era atual seu sentido e propósito primordiais3. O período entre a primeira e a Segunda Vinda de Cristo é a era missionária por excelência. Este é o tempo da graça, um tempo em que Deus convida e insta com todos os homens para serem salvos. Na Grande Comissão, na verdade, este sinal toma a forma de uma ordem: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações” (Mateus 28.19). A promessa subseqüente indica que esta ordem missionária deve ser levada adiante por toda esta era: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (v.20) 4. Este sinal dos tempos, por essa razão, deveria ser um grande incentivo para missões. Desde o pentecostes repousa sobre cada geração a obrigação solene de levar o Evangelho a cada nação.

Este sinal olha para o passado tanto como para o futuro. Ele olha, no passado, para a morte e ressurreição de Cristo como prova da graciosa intervenção de Deus na história humana e como a base objetiva sobre a qual o oferecimento do Evangelho pode agora ser feito. Ele também olha, no futuro, para a Parousia: “então virá o fim”. Mas é importante observar que este sinal não nos autoriza a marcar uma data precisa para a Segunda Vinda de Cristo. Quem pode estar certo de quando o Evangelho terá sido pregado como testemunho para todas as nações? Para dar um exemplo concreto, ninguém estaria inclinado a negar que o Evangelho do Reino tornou-se um testemunho, no sentido descrito acima, aos Estados Unidos da América. Mas quem pode dizer que, por este tempo, o Evangelho se tornou um testemunho para cada nação dos continentes Norte e Sul americanos? Em quantas línguas e dialetos a Bíblia ou partes da Bíblia terão de ser traduzidos antes que esse alvo seja alcançado? Quantos membros de uma nação têm de ser evangelizados antes que se possa dizer que o Evangelho seja um testemunho para essa nação? O que, de fato, constitui “uma nação?”

Temos humildemente de admitir que somente Deus poderá saber quando este sinal tiver sido totalmente cumprido5. O fato de que o Evangelho está sendo pregado por todo o mundo é um sinal que nos assegura que Cristo veio e está voltando novamente, mas não nos conta exatamente quando ele estará voltando outra vez. Entremente, a Igreja deve continuar a proclamar fielmente o Evangelho por todo o mundo, sabendo que missões continuarão a ser a característica peculiar desta era até a Parousia.

Focalizamos nossa atenção agora para o sinal da salvação da plenitude de Israel. Num sentido, a proclamação contínua do Evangelho a Israel é simplesmente um aspecto do sinal já discutido, uma vez que Israel, certamente, está incluído entre “as nações”. Que o Evangelho deve continuar a ser levado a Israel até que Cristo retorne, está também implicado nas palavras de Jesus a seus discípulos, registradas em Mateus 10-23: “em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel, até que venha o Filho do homem” 6. Desde que Paulo devota uma atenção especial ao problema da salvação de Israel, em Romanos 9-11, porém, podemos destacar a salvação da totalidade de Israel como sendo outro sinal específico dos tempos.

Em Romanos (11.25-26a), Paulo descreve: “Porque não quero, irmãos, que ignoreis este mistério, para que não sejais presumidos em vós mesmo, que veio endurecimento em parte a Israel, até que haja entrado a plenitude dos gentios. E assim todo o Israel será salvo...”

Existe muita diferença de opinião entre os eruditos bíblicos sobre o significado da cláusula: “e assim todo o Israel será salvo”. Existem, principalmente, três interpretações da cláusula: (1) Vários intérpretes entendem que estas palavras significam que a nação de Israel, como uma totalidade (embora não necessariamente incluindo cada membro individual dessa nação), será convertida após a plenitude dos gentios ter sido arrebanhada para o Reino de Deus. Dentro desta posição, no entanto, temos de reconhecer algumas variações (a) Eruditos dispensacionalistas vinculam sua interpretação dessas palavras com um programa específico para o futuro de Israel. Após a Igreja gentílica ter sido arrebatada da terra, assim ensinam eles, Deus voltará novamente sua atenção para Israel. O endurecimento parcial de Israel será então removido, e Israel, como uma nação, será convertida, seja imediatamente antes de Cristo voltar ou no momento exato de sua volta. Depois disto, Cristo governará sobre a nação judaica convertida, agora novamente reunida em sua antiga terra natal, (governará) de um trono em Jerusalém, durante um período de mil anos7. (b) Outros eruditos pré-milenistas, mas não dispensacionalistas em suas posições8, também aguardam uma conversão futura de Israel como uma nação9. (c) Ainda outros eruditos, nem pré-milenistas nem dispensacionalistas, igualmente aguardam uma conversão futura da totalidade de Israel10.

(2) Uma segunda interpretação da cláusula “e assim todo o Israel será salvo” a entende como se referindo à salvação de todos os eleitos, não somente dentre os judeus mas também dos gentios, ao longo da história11. Nesta posição, o significado da palavra Israel não é restrito aos judeus, e a época em que este grupo eleito será trazido à salvação não é limitada ao fim da história ou ao período imediatamente anterior à Parousia.

(3) Uma terceira interpretação da cláusula em questão a entende como trazendo à salvação, ao longo da história, o número total dos eleitos entre os judeus12. Esta posição concorda com a segunda interpretação ao entender as palavras “todo o Israel” como não designando a nação de Israel como uma totalidade a ser salva no tempo do fim, mas sim como se referindo ao número de eleitos a serem salvos ao longo da história. Ela difere da segunda interpretação, entretanto, ao restringir o significado da palavra Israel aos judeus.

A interpretação das palavras “e assim todo o Israel será salvo”, que faz mais jus aos dados escriturísticos, é a terceira. As razões para este julgamento ficarão claras ao prosseguirmos a discussão da passagem.

Para entendermos Romanos 11.25,26a, porém, temos primeiramente de olhar cuidadosamente para o contexto. O problema que conduz Paulo a Romanos 9-11 é a questão espinhosa da incredulidade de Israel. Embora Paulo se auto-denomine um apóstolo para os gentios, ele próprio é um israelita. Por causa disso, o fato de a maioria de seus compatriotas israelitas não estarem respondendo ao Evangelho com fé, mas sim rejeitando-o, lhe provoca “grande tristeza e incessante dor no coração” (Rm 9.2). Paulo sente este assunto tão fortemente, que diz que desejaria a si próprio ser anátema e separado de Cristo por amor de seus irmãos judeus (v.3), se deste modo ele pudesse trazê-los à salvação. A questão que o perturba está expressa de forma mais aguda em Romanos 11.1: “Pergunto pois: Terá Deus, porventura, rejeitado o seu povo?”

Nestes três capítulos, Paulo desbrava seu caminho para uma resposta para esta difícil questão. No capítulo 9, Paulo salienta que a aparente rejeição de Israel não é completa. Aqui a resposta a esta questão chega dessa forma: “Nem todos os que são descendentes de Israel são israelitas” (9.6, NIV). Com isto ele quer dizer que, embora seja verdadeiro que muitos israelitas estejam perdidos, os verdadeiros israelitas não estão perdidos mas, sim, salvos. Deus cumpre soberanamente seu propósito para com aqueles que são os filhos da promessa. Desde exatamente o começo da história de Israel houve uma discriminação soberana dentro de Israel: Não em Ismael, mas em Isaque será chamada a descendência de Abraão (v.7); não Esaú, mas Jacó foi escolhido como aquele no qual a linhagem da aliança deveria ser perpetuada e as promessas da aliança deveriam ser cumpridas (vs.10-12). O restante do capítulo 9 traz à luz duas idéias: (1) Deus não é injusto ao conceder sua misericórdia a alguns e não a outros, uma vez que sua misericórdia é totalmente imerecida; (2) Mesmo assim esta atividade soberana de Deus, na história, não elimina a responsabilidade do homem. Quando Paulo encara, neste capítulo a questão sobre porque tantos judeus não foram salvos no passado, sua resposta é fornecida em termos de responsabilidade humana: “Israel que buscava lei e justiça não chegou a atingir essa lei. Por que? Porque não decorreu da fé e, sim, como que das obras” (vs. 31,32).

No capítulo 10 Paulo continua a mostrar que a rejeição de uma porção substancial de Israel não é arbitrária. Aqui ele desenvolve mais o ponto que diz que os israelitas perdidos são responsáveis por sua própria rejeição do Evangelho. “Uma vez que eles desconsideraram a justiça que vem de Deus e procuraram estabelecer sua própria, eles não se submeteram à justiça de Deus” (10.3 NIV). Novamente é enfatizada a idéia de que o modo divino de salvação não é o caminho das obras mas o caminho da fé: “Se com a tua boca confessares a Jesus como Senhor, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, será salvo” (10.9). Os israelitas que rejeitaram o caminho de Deus para salvação, por recusar-se a crer, portanto, não podem culpar Deus por estarem perdidos mas podem apenas culpar a si próprios. A importância da responsabilidade humana é reforçada pelo último verso do capítulo, uma citação de Isaías 65.2: “Quanto a Israel, porém, [Deus] diz: Todo o dia estendi as minhas mãos a um povo rebelde e contradizente” (v.21).

Um verso do capítulo 10 merece atenção especial, o verso 12: “Pois não há distinção entre judeu e grego, uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam”. O argumento de Paulo aqui é que no que tange à obtenção da salvação, não há distinção entre judeu e grego. Sendo isto assim, um período futuro de tempo no qual apenas judeus serão salvos, ou no qual os judeus serão salvos de modo diferente do modo pelo qual gregos ou gentios são salvos, parece estar descartado.

No capítulo 11, Paulo demonstra que a rejeição de Israel nem é absoluta nem irrestrita13. Neste capítulo, Paulo continua a indicar, de modo já antecipado em 10.19, que os modos de Deus lidar com judeus e gentios estão intimamente interrelacionados. Os versos 1-10 do capítulo 11 resumem novamente as idéias anteriormente desenvolvidas: embora pareça que Deus tenha expulsado ou rejeitado seu povo, na verdade sempre tem havido, e ainda agora há, um remanescente escolhido pela graça, remanescente que efetivamente crê e está salvo (v.5). Os eleitos de entre o Israel obtiveram a salvação, enquanto que outros entre eles foram endurecidos (v.7). em outras palavras, o Evangelho tem tido um efeito duplo sobre os israelitas: alguns foram salvos através dele, ao passo que outros foram endurecidos.

Mas agora, no verso 11, Paulo introduz um pensamento novo. Através da transgressão de muitos israelitas veio a salvação aos gentios, para provocar ciúmes nos israelitas. Isto é, o fracasso da maioria dos israelitas em aceitar a Cristo tem sido usado por Deus para trazer salvação aos gentios. Mas a salvação dos gentios, por sua vez, está agora sendo usada por Deus para enciumar os judeus e assim trazê-los de volta para ele14. O verso 12 introduz uma expansão deste pensamento: “Mas se a transgressão deles significa riqueza para o mundo, e sua perda significa riqueza para os gentios, quão maior riqueza haverá de trazer a sua plenitude!” (NIV). A palavra plenitude (no grego, pleroma) deve ser entendida aqui num sentido escatológico: o número pleno daqueles que devem ser salvos até o fim da história. Plenitude é aqui obviamente contrastada com o remanescente mencionado no verso 5; a promessa de Deus para Israel ainda será cumprida na salvação da plenitude de Israel. É dito mais adiante que a salvação da plenitude de Israel trará riquezas inimagináveis para todo o mundo.

No mesmo sentido vem o verso 15: “Porque, se o fato de terem sido eles rejeitados [os judeus] trouxe reconciliação ao mundo, que será o seu restabelecimento, senão vida dentre os mortos?” Aqui a rejeição de Israel é contrastada com seu restabelecimento; novamente imaginamos uma conversão de bem mais israelitas do que poderia ser descrito como apenas um pequeno remanescente. “Vida dentre os mortos” não se refere a uma ressurreição literal; estas palavras são usadas provavelmente como uma figura para descrever a alegre surpresa nossa quando os judeus, que tiveram sido rebeldes, se voltarem para o Senhor. Não há necessidade, entretanto, de restringir este restabelecimento a um período da história do tempo do fim; o restabelecimento por Deus de todos os israelitas crentes ao longo da história é de fato “vida dentre os mortos” e assim será por toda a eternidade.

Paulo continua agora, nos versos 17-24, a desenvolver a figura da oliveira. Ramos judaicos foram quebrados da oliveira e ramos gentílicos foram nela enxertados; porém, se os judeus não persistirem em sua incredulidade, os ramos judaicos podem novamente ser enxertados na árvore. O que é importante aqui é que Paulo não fala de duas, mas sim de apenas uma oliveira; judeus e gentios são não apenas salvos do mesmo modo (pela fé), mas também, ao serem salvos, tornam-se parte do mesmo organismo vivo, aqui denominado de oliveira. Todo pensamento de um futuro separado, um tipo separado de salvação, ou um organismo espiritual separado para os judeus salvos está aqui excluído. Sua salvação é retratada aqui em termos de tornar-se um com a totalidade salva do povo de Deus, não em termos de um programa separado para os judeus! Deveria também ser observado que Paulo não diz que o enxerto dos ramos judaicos têm necessariamente de seguir ao enxerto dos ramos gentílicos; não há razão para excluir a possibilidade de que ramos gentílicos e ramos judaicos possam ser enxertados na oliveira simultaneamente.

Chegamos agora a Romanos 11.25-26a que, na versão New International, consta assim:

“Eu não quero que sejais ignorantes deste mistério,

irmãos, para que não sejais presunçosos: Israel experimentou um endurecimento parcial até que o número total dos gentios tenha entrado. E assim todo o Israel será salvo...”

Um “mistério” é algo que estava anteriormente escondido, mas agora foi revelado. Paulo chegou a enxergar um certo método na maneira divina de agir como judeus e gentios: a queda de Israel conduziu à salvação dos gentios, e a salvação dos gentios está levando os judeus a se enciumarem. Esta interdependência da salvação dos gentios e dos judeus é o mistério ao qual Paulo se refere aqui - um mistério que agora foi revelado. Com as palavras “para que não sejais presunçosos” Paulo está advertindo seus leitores gentílicos a não se exaltarem acima dos judeus incrédulos, conforme ele fizera anteriormente nos versos 18-24. Quando ele declara especificamente que Israel tem experimentado um “endurecimento parcial”, ele está realmente dizendo que o endurecimento que reteve muitos israelitas de aceitarem o Evangelho permanece no passado, agora no presente e também no futuro apenas de modo parcial. Por esta razão judeus foram salvos, estão sendo salvos e continuarão a ser salvos até o fim dos tempos.

O que Paulo quer dizer com o “número total” ou “plenitude” (pleroma) dos gentios? Conforme dissemos anteriormente, em conexão com o termo plenitude aplicado aos judeus (v.12), plenitude aqui também tem de ser entendida de um modo escatológico: o número total de gentios a quem Deus pretende salvar. Quando esse número total de gentios tiver sido arrebanhado, será o fim da era. Deveria ser entendido que este arrebanhamento da plenitude dos gentios não acontece somente no tempo do fim, mas se desenrola ao longo da história da Igreja.

Porém, como deve ser interpretada a expressão: “e assim todo o Israel será salvo?” Calvino, como vimos, considerou eu estas palavras se referiam à salvação do número total dos eleitos por toda história, não apenas de judeus mas também de gentios. A dificuldade com esta interpretação, entretanto é esta: em Romanos (9.11), o termo Israel aparece 11 vezes; em cada uma das 10 outras vezes que não em 11.26, onde o termo é usado, ele aponta inconfundivelmente para os judeus como distintos dos gentios. Que razão haverá para aceitarmos um significado diferente do termo aqui? Por que deveria Paulo mudar repentinamente o significado natural do termo Israel para um sentido mais amplo, figurado? Não é exatamente o objetivo de Romanos (11.25-26a) dizer algo acerca tanto de judeus como de gentios?

A interpretação mais comum, como também vimos, entende esta passagem como indicando uma conversão em larga escada da nação de Israel ou logo antes do tempo da volta de Cristo, ou exatamente naquele momento, após o arrebatamento da plenitude dos gentios. Existem, assim me parece, duas objeções um tanto importantes para interpretar “e assim todo o Israel será salvo” dessa forma:

(1) A idéia de que a salvação do povo de Israel, conforme aqui descrita, ocorra apenas no tempo do fim não faz jus à palavra todo em “todo o Israel”. Será que “todo o Israel” significa apenas a última geração de israelitas? Esta última geração será apenas um fragmento do número total de judeus que viveram nesta terra. Como pode tal fragmento ser chamado adequadamente de “todo o Israel?”

(2) Este texto não diz: E então todo o Israel será salvo”. Se Paulo quisesse transmitir esta idéia, ele poderia ter usado uma palavra que signifique então (como tote ou epieta). Mas ele utilizou o termo houtos, que não descreve uma sucessão temporal, mas sim um modo, e que significa desse modo, assim ou dessa forma. Em outras palavras, Paulo não está dizendo: “Israel tem experimentado um endurecimento parcial até que o número total dos gentios tenha entrado, e então (após isto ter acontecido) todo o Israel será salvo”. Mas ele está dizendo: “Israel tem experimentado um endurecimento parcial até que o número total dos gentios tenha entrado, e dessa forma todo o Israel será salvo”.

De que forma? Da forma que Paulo descreve na primeira parte do capítulo: (a) através da incredulidade de muitos israelitas, a salvação está chegando aos gentios, e (b) pela salvação dos gentios, israelitas estão sendo levados a se enciumarem. Isso aconteceu no passado, está acontecendo agora e continuará a acontecer.

Então, eu interpreto esta passagem como indicando que Deus cumpre suas promessas a Israel da seguinte forma: Embora Israel tenha sido endurecido em sua incredulidade, este endurecimento sempre foi e continuará a ser um endurecimento parcial, nunca um endurecimento total. Em outras palavras, Israel continuará a voltar para o Senhor até a Parousia, ao passo que ao mesmo tempo a plenitude dos gentios continuará a ser arrebanhada. E dessa forma todo o Israel será salvo: não somente a última geração de israelitas, mas todos os verdadeiros israelitas - todos aqueles que não apenas são de Israel, mas que são Israel, para usar a linguagem de Romanos 9.6. Uma outra forma de dizer isto seria: todo o Israel, em Romanos 11.26, significa a totalidade dos eleitos dentre Israel. A salvação de todo o Israel, portanto, não acontece exclusivamente no tempo do fim, mas acontece ao longo da era entre a primeira e a Segunda Vinda de Cristo - na verdade, desde o tempo da chamada de Abraão. Todo o Israel, portanto, difere do remanescente eleito mencionado em 11.5, mas apenas como a soma total de todos os remanescentes ao longo da história15.

Poderá ser útil indicar o que é esta interpretação através de dois diagramas. O que Paulo quer dizer quando escreve: “E assim todo o Israel será salvo”, não é isso:
E então

1ª VINDA 2ª VINDA

O NÚMERO TOTAL DOS GENTIOS TODO O ISRAEL
mas, sim, isto:
1ª VINDA 2ª VINDA

O NÚMERO TOTAL DOS GENTIOS

E DESSA MANEIRA TODO O ISRAEL SERÁ SALVO
Em apoio a esta interpretação, podemos apresentar as seguintes considerações adicionais:

(1) O objetivo principal da discussão anterior de Paulo, em Romanos 11, foi o de indicar que Deus - que em tempos passados lidou quase que exclusivamente com Israel no que tange a trazer a salvação a seu povo - , está agora lidando conjuntamente com judeus e gentios. Este objetivo é representado notavelmente pela figura da oliveira, que teve alguns ramos naturais removidos, alguns ramos bravos enxertados, e então enxertados novamente alguns dos ramos naturais removidos. Não existem duas oliveiras (uma para gentios e uma para judeus), mas uma oliveira só. O modo pelo qual os judeus não estão agora sendo salvos, em outras palavras, não deve ser separado do modo pelo qual os gentios são salvos, uma vez que Deus agora lida conjuntamente com ambos os grupos. Fazer o verso 26 referir-se a um tempo de salvação para judeus, tempo que seria separado (porque subseqüente) do tempo em que os gentios são salvos, é ir contrariamente à ênfase principal do capítulo.

(2) O arrebanhamento da plenitude - o número total - dos gentios acontece ao longo da história, não apenas no tempo do fim. Por que o arrebanhamento da plenitude dos judeus deveria ser diferente?

(3) os versos subseqüentes a Romanos 11.26a apoiam a interpretação colocada acima. A citação composta de Isaías 59.20 e 27.9 que se segue imediatamente (“Virá de Sião o Libertador, ele apartará de Jacó as impiedades. Esta é a minha aliança com eles, quando eu tirar os seus pecados”), geralmente aplicada por escritores dimpensacionalistas à Segunda Vinda de Cristo, não precisa necessariamente ser interpretada dessa forma, uma vez que tem sentido claro como uma descrição da primeira vinda de Cristo e da retirada dos pecados, que se segue a esta primeira vinda 16. Estritamente falando, se esta citação devesse ser uma descrição da Segunda Vinda de Cristo, dever-se-ia esperar que o profeta dissesse: “o Libertador virá dos céus”(em vez de “de Sião”). O que é especialmente significativo, porém, é que nos versos 30-31, onde Paulo está resumindo o argumento do capítulo, ele não fala em termos do que acontecerá no futuro, mas sim em termos do que está acontecendo agora: “Porque assim como vós [gentios] também outrora fostes desobedientes a Deus recebestes agora misericórdia como resultado da desobediência deles [dos judeus], assim também eles [os judeus] tornaram-se agora desobedientes para que também eles possam17 agora receber misericórdia como um resultado da misericórdia de Deus para convosco” [gentios] (NIV).

Dever-se-ia acrescentar que a interpretação recém-exposta de Romanos 11.26a não exclui uma possível futura conversão em larga escada dos judeus ao Cristianismo, mas deixa implícita a possibilidade de isso acontecer. Na verdade, por que não deveria haver mais de uma futura conversão em larga escada de judeus a Cristo? Nada há nesta passagem que exclua tal conversão futura ou tais futuras conversões, desde que não se insista em que a passagem aponte apenas para o futuro, ou em que ela descreva uma conversão de Israel que aconteça após o número total dos gentios ter sido arrebanhado.

Pode também ser observado que têm havido conversões em larga escala dos judeus no passado. Um exemplo aconteceu no primeiro século A D., no qual a Igreja começava como uma igreja judaico-cristã. Outro exemplo é o recente movimento “Jews for Jesus” (Judeus para Jesus) nos Estados Unidos. Num artigo na seção Religião da edição de 12 de Junho de 1972 na revista Time, sob o título “Jews for Jesus” (Judeus para Jesus), foram feitas as seguintes declarações: “O Rabino Shelomo Cunin do Campus U.C.L.A estima que os judeus jovens estão se convertendo ao cristianismo na proporção de 6.000 a 7.000 por ano. O evangelista cristão para judeus, na Califórnia, Abe Schneider, diz ter observado mais conversões nos últimos nove meses do que nos 23 anos anteriores juntos” 18. Se tais conversões em larga escada, de judeus ao Cristianismo, aconteceram no passado, haverá alguma razão pela qual elas não possam acontecer novamente?

O sinal da salvação da plenitude de Israel, interpretado dessa forma, não nos autoriza a datar a Segunda Vinda de Cristo com exatidão. Ele nos conta que os judeus continuarão a se converter ao Cristianismo ao longo de toda a era, entre a primeira e a Segunda Vinda de Cristo, enquanto o número total de gentios estiver sendo arrebanhado. Em tais conversões de judeus, portanto, devemos ver um sinal da certeza da volta de Cristo. Enquanto isso, este sinal deveria marcar, em nossos corações, a urgência da missão da Igreja para com os judeus. Num mundo em que ainda há uma grande dose de anti-semitismo, não deixemos nunca de lembrar que Deus não rejeitou o povo de sua antiga aliança, e que ele ainda tem seu propósito para Israel.

Passemos agora a ver alguns sinais que indicam oposição, a Deus, a saber: tribulação, apostasia e anticristo. Trataremos, primeiramente do sinal da tribulação - obviamente uma indicação de oposição ao Reino de Deus por parte de seus inimigos. Este sinal já era predito pelos profetas do Antigo Testamento - na verdade, tanto por Jeremias como por Daniel:

“Ah! Que é grande aquele dia, e não há outro semelhante: é certamente tempo de angústia para Jacó; ele, porém, será livrado dela (Jr 30.7, KJ).

...e haverá tempo de angústia, qual nunca houve, desde que houve nação até àquele tempo; mas naquele tempo será salvo o teu povo, todo aquele que for achado inscrito no livro (Dn 12.1b)”.

Nas passagens que acabamos de citar, o “tempo de angústia” futuro está associado especialmente com Israel. Se isto significa que a tribulação futura, aqui predita, deve ser restringida ao povo de Israel é uma questão que teremos de considerar mais adiante.

Ao perguntarmos o que o Novo Testamento ensina acerca do sinal da tribulação, temos de olhar primeiramente para o assim chamado Sermão Profético - o discurso escatológico de Jesus encontrado em Mateus 24.3-51, Marcos 13.3-37 e Lucas 21.5-36. Contudo, esta é uma passagem muito difícil de se interpretar. O que a torna tão difícil é que algumas partes do discurso se referem obviamente à destruição de Jerusalém, que está no futuro próximo, ao passo que outras partes do sermão se referem a eventos que acompanharão a Parousia no fim dos tempos.

As circunstâncias do sermão são as seguintes: quando os discípulos mostravam a Jesus a construção do templo, Jesus respondeu: “Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra, que não seja derrubada” (Mt 24.2). Quando Jesus se assentou no Monte das Oliveiras, os discípulos vieram a ele e disseram: “Dize-nos quando sucederão estas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e da consumação do século” (v.3). Observe que na versão de Mateus do sermão Profético, diferentemente dos relatos encontrados em Marcos e Lucas, a pergunta dos discípulos abrange dois assuntos: (1) Quando será isto? (literalmente, estas coisas; no grego, tauta) - obviamente uma referência à destruição do templo que Jesus tinha acabado de predizer; e (2) qual será o sinal da tua vinda (no grego, Parousia) e da consumação do século? - uma referência à Segunda Vinda de Cristo. Podemos concluir adequadamente, portanto, que o sermão tratará de ambos os assuntos.

Ao lermos o sermão, porém, percebemos que os aspectos desses dois assuntos estão mesclados; questões ligadas à destruição de Jerusalém (configurada pela destruição do templo) estão mescladas conjuntamente com questões relativas ao fim do mundo - a tal ponto que, às vezes, é difícil determinar se Jesus está se referindo a uma ou outra ou, talvez, a ambas. Obviamente, o método de ensino aqui utilizado por Jesus é o da condensação profética, no qual os eventos colocados num tempo distante e eventos do futuro próximos são mencionados como se estivessem bem juntos um ao outro. Este fenômeno tem sido comparado com aquilo que acontece quando se olha para montanhas distantes; alguns picos que estão separados por vários quilômetros pode parecer estarem juntos.

Tal condensação profética é característica dos profetas do Antigo Testamento. Já vimos exemplos dessa característica no capítulo 1 acima. Joel acrescenta detalhes à sua predição do derramamento do Espírito acerca de prodígios nos céus, prodígios que não serão cumpridos até a Parousia. Isaías vê a destruição de Babilônia e o dia final do Senhor como se fossem um dia de visitação divina. E a descrição que Sofonias faz acerca do dia do Senhor se refere tanto a um dia de juízo para Judá, no futuro imediato, como a uma catástrofe escatológica final19.

No Sermão Profético, portanto, Jesus está anunciando eventos do futuro distante em conexão estreita com eventos do futuro próximo. A destruição de Jerusalém, que está no futuro próximo, é um tipo de fim do mundo; daí a mistura. Por causa disso, a passagem nem trata exclusivamente da destruição de Jerusalém, nem exclusivamente do fim do mundo; ela lida com ambos os eventos - às vezes falando deste em termos daquela.

Deveríamos fazer mais um comentário. Neste discurso, Jesus parece estar descrevendo eventos associados com sua Segunda Vinda como se estivesse falando do povo de Israel e da vida da Judéia. Estes detalhes, entretanto, não deveria ser interpretados como estritamente literais. Herman Ridderbos tem algo útil a dizer acerca disto:

“... O profeta retrata o futuro nas cores e com as linhas que ele toma emprestado do mundo que ele conhece, isto é, de seu próprio meio ambiente... Vemos os profetas pintarem o futuro com o pincel de sua própria experiência e projetando a pintura dentro de seu próprio horizonte geográfico. Isto é encontrado nos profetas do Antigo Testamento de todas as formas. E em nossa opinião, esta é também a explanação da descrição que Jesus faz do futuro. Ele segue bem de perto o Antigo Testamento, e não só falta a perspectiva temporal no fim, mas também o horizonte geográfico dentro do qual os eventos escatológicos acontecem está igualmente restrito a alguns lugares do país da Judéia ou das cidades de Israel” 20.

Esta consideração nos ajuda a responder à questão anteriormente colocada. Embora a tribulação, perseguição, sofrimento e julgamentos aqui preditos estejam descritos com palavras relativas à Palestina e aos judeus, estes eventos não têm de ser interpretados como tendo de se referir somente aos judeus. Jesus estava descrevendo eventos futuros com palavras que seriam inteligíveis a seus ouvintes, com palavras que tinham sentido étnico local e cor geográfica. Não podemos estar seguros, contudo, ao aplicar estas predições apenas aos judeus, ou ao restringir sua ocorrência apenas à Palestina.

No Sermão Profético, Jesus fala da tribulação como um sinal dos tempos que deve ser esperado por seu povo ao longo do período entre sua primeira e segunda vindas. Assim, por exemplo, ele diz em Mateus 24.9,10: “Então sereis atribulados, e vos matarão. Sereis odiados de todas as nações, por causa do meu nome. Nesse tempo, muitos hão de se escandalizar, trair e odiar uns aos outros”. Uma vez que no contexto imediato (v.14) Jesus prediz que o Evangelho do Reino será pregado por todo o mundo - uma pregação que continuará até o fim -, é obvio que a tribulação mencionada anteriormente não é limitada ao período imediatamente anterior à Parousia.

Outras declaração de Jesus indicam que ele previa sofrimento e tribulação guardados para seu povo no futuro. As palavras sobre este assunto, no Sermão do monto, são bem conhecidas: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus. Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, disseram todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram aos profetas que viveram antes de vós” (Mt 5.10-12). No assim denominado “discurso do cenáculo”, encontrado no Evangelho de João, vemos Jesus dizendo: “Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros”(15.20); “No mundo passais por aflições; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (16.33). pronunciamentos deste tipo também apresentam a tribulação como um sinal dos tempos continuado ou repetido.

Mas, também, encontramos Jesus falando no Sermão Profético acerca de uma tribulação final que está reservada para seu povo -, uma tribulação da qual os sofrimentos que acompanhariam a destruição de Jerusalém seriam apenas uma antecipação. Observe a intensidade da seguinte descrição: “porque nesse tempo haverá grande tribulação (thlipsis megale), como desde o princípio do mundo até agora não tem havido e nem haverá jamais. Não tivessem aqueles dias sido abreviados, e ninguém seria salvo; mas por causa dos escolhidos, tais dias serão abreviados” (Mt 24.21,22). Embora o cenário destas palavras tenha um colorido distintivamente judeu e da Judéia (“Orai para que a vossa fuga não se dê no inverno, nem no sábado” v.20), as palavras “Não tem havido, e nem haverá jamais” e a referência ao abreviamento dos dias por causa dos eleitos indicam que Jesus está predizendo uma tribulação tão grande que superará qualquer tribulação que a possa preceder. Em outras palavras, Jesus está aqui olhando para além da tribulação reservada para os judeus na época da destruição de Jerusalém, para uma tribulação final que ocorrerá no fim desta era. Pois de acordo com os versos 29 e 30, Jesus prossegue indicando que esta “grande tribulação” precederá imediatamente a sua Segunda Vinda: “Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escurecerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento e os poderes dos céus serão abalados. Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do homem vindo sobre as nuvens do céu com poder e muita glória”.

Concluímos, então, que o sinal da tribulação não é restrito ao tempo do fim, mas caracteriza a era entre as duas vindas de Cristo. Por causa da oposição continuada do mundo ao Reino de Deus, os cristãos devem esperar sofrer tribulações e perseguição de uma ou outra espécie durante toda esta era. Baseados nas palavras de Jesus em Mateus 24.21-30, entretanto, somos de parecer que haverá também uma tribulação final e culminante imediatamente antes de Cristo retornar. Essa tribulação não será basicamente diferente de tribulações anteriores, que o povo de Deus teve de sofrer, mas será uma forma intensificada dessas mesmas tribulações.

Nas palavras de Jesus, não encontramos indicação de que a grande tribulação que ele prediz será restrita aos judeus, e que os cristãos gentios ou a Igreja, em distinção aos judeus, não terão de passar por ela. Esta posição, geralmente ensinada por dispensacionalistas, não tem base nas Escrituras. Pois se a tribulação, conforme acabamos de ver, deve ser suportada por cristãos ao longo de toda esta era, que razões haveria para restringir a tribulação final aos judeus? Que razão há para restringir o número de eleitos aos judeus, se os dias da tribulação final serão abreviados por causa de todos os eleitos? (Mt 24.22). Não implicará a última referência de Jesus ao arrebanhamento dos eleitos “dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus” (v.31), que ele está pensando aqui em todo o verdadeiro povo de Deus, e não apenas nos judeus eleitos?21.

O sinal da tribulação, assim como outros sinais dos tempos já discutidos, não nos autoriza a datar a Segunda Vinda de Cristo com exatidão. O povo de Deus terá de sofrer tribulação ao longo desta era; quando a forma final e intensificada desta tribulação irá acontecer, é difícil dizer. Talvez, para alguns cristãos que vivem hoje no mundo, a Grande Tribulação já começou. William Hendriksen sugere que a Grande Tribulação não necessita de vir sobre todo o mundo ao mesmo tempo, mas pode já estar sendo experimentada por cristãos que são perseguidos por causa de sua fé em países controlados por governos anticristãos22.

Em qualquer evento, este sinal deveria nos pôr a todos em guarda. Quando cristãos sofrem tribulação ou perseguição, isto deve ser reconhecido como um sinal da volta iminente de Cristo a questão é: Será nossa fé forte o bastante para suportar a tribulação?

Um outro sinal dos tempos, que indica oposição a Deus e a seu Reino, é o sinal da apostasia. Antes de examinarmos as referências do Novo Testamento, devemos observar que as apostasias da era neotestamentária foram freqüentemente prenunciadas na dispensação do Antigo Testamento. Na verdade, o Antigo Testamento registra uma triste sucessão de apostasias em relação ao serviço de Deus. Já durante as peregrinações no deserto, ocorreu uma apostasia em tão larga escala que toda uma geração de israelitas morreu no deserto, sem terem permissão para ingressar na terra prometida. Durante a época dos juízes, uma apostasia seguia a outra com uma regularidade quase monótona. A história posterior, tanto do reino do norte quanto do reino do sul, conforme relatada nos livros históricos e proféticos do Antigo Testamento, é uma narrativa decepcionante de apostasias crescentes que culminam no esfacelamento de ambos os reinos.

Em o Novo Testamento, porém, encontramos predições tanto de uma apostasia contínua ou repetida da verdadeira adoração de Deus, ao longo da história da igreja, como de uma apostasia final que precederá a Parousia. No Sermão Profético ouvimos Cristo falar da apostasia nos seguintes termos.

“Nesse tempo, muitos hão de se escandalizar, trair e odiar uns aos outro; levantar-se-ão muitos falsos profetas e enganarão a muitos. E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor se esfriará de quase todos” (Mt 24.10-12).

“Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt 24.24).

Uma vez que, conforme vimos, Jesus fala neste sermão tanto da destruição iminente de Jerusalém como do tempo do fim - freqüentemente fala deste último usando palavras do primeiro -, podemos concluir que estas palavras descrevem as apostasias associadas com ambos os eventos recém-mencionados. Por essa razão, a apostasia é realmente um dos “sinais dos tempos”.

Mas, conforme o restante do Novo Testamento, fica claro que a apostasia não é restringida ao tempo do fim. Pois o autor de Hebreus fala de pessoas de seu próprio tempo que estavam cometendo apostasia (6.6) ou calcando aos pés o Filho de Deus (10.29), e Pedro descreve aqueles que, depois de terem escapado das contaminações do mundo pelo conhecimento de Cristo, deixam-se novamente enredar por elas de forma ainda pior (2 Pe 2.20). O apóstolo João comenta tristemente acerca de alguns “que saíram do nosso meio, entretanto não eram dos nossos” (1 Jo 2.19).

Paulo, em suas cartas a Timóteo, vincula a apostasia especificamente aos últimos dias ou últimos tempos:

“Ora, o Espírito afirma expressamente que nos últimos tempos (hysterois kairois) alguns apostatarão da fé...” (1 Tm 4.1).

“Sabe, porém, isto: Nos últimos dias (eschatais hemerais) sobrevirão tempos difíceis; pois os homens serão egoístas, avarentos, jactanciosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, irreverentes, desafeiçoados... antes amigos dos prazeres que amigos de Deus, tendo forma de piedade, negando-lhe, entretanto o poder” (2 Tm 3.1-5).

Entretanto, conforme vimos anteriormente, expressões como “os últimos dias” são comumente usadas pelos escritores neotestamentários para descrever não apenas o período imediatamente anterior à Parousia, mas todo o período entre a primeira e a Segunda Vinda de Cristo. Por essa razão, à luz das passagens citadas acima, podemos dizer que a apostasia é um sinal encontrado ao longo de toda a era presente.

Há, porém, uma passagem específica do Novo Testamento que, indubitavelmente, aponta para apostasia final que acontecerá imediatamente antes da Parousia. Passamos agora a ver a segunda epístola de Paulo aos tessalonicenses: “Irmãos, no que diz respeito à vinda (Parousia) de nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa reunião com ele, nós vos exortamos a que não vos demovais da vossa mente, com facilidade, nem vos perturbeis, quer por Espírito, quer por palavra, quer por epístola, como se procedesse de nós, supondo tenha chegado o dia do Senhor. Ninguém de nenhum modo vos engane, porque isto não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia [no grego, apostasia], e seja revelado o homem da iniqüidade...” (2.1-3).

Parece evidente que os tessalônicos achavam que o “dia do Senhor” ou a Parousia já estava no processo de chegada24. Consequentemente, muitos deles tinham parado de trabalhar e estavam vivendo na ociosidade (2 Ts 3.11). Por causa disso, Paulo teve de corrigi-los, indicando que ocorreriam certas coisas que tinham de acontecer antes da volta de Cristo: haveria a grande apostasia, e o homem da iniqüidade seria revelado.

A palavra apostasia é derivada do verbo aphistemi que, usado intrasitivamente, significa: “abandonar” ou “tornar-se apóstata”. Conforme empregada em 2 Tessalonicenses 2.3, a palavra apostasia é precedida por um artigo definido: a apostasia ou a rebelião. Tanto o artigo definido como a declaração de que esse acontecimento tem de preceder a Parousia indicam que o que aqui é predito é uma apostasia final e culminante, imediatamente anterior ao tempo do fim. Deveria ser observado, porém, que esta apostasia será uma intensificação e culminação de uma rebelião que já começou, uma vez que no verso 7 Paulo diz: “Com efeito o mistério da iniqüidade já opera”. Portanto, podemos distinguir um paralelismo entre este sinal e o sinal da tribulação: ambos são evidentes ao longo da era atual, mas chegam a um clímax e a uma forma final imediatamente antes de Cristo voltar.

O fato de este sinal ser denominado um “abandono” ou “apostasia” implica que esta será uma rebelião contra a fé cristã, ao mesmo tempo em que ela for ouvida ou professada. Por essa razão, podemos pressupor que aqueles que a abandonam, estarão, ao menos exteriormente, associados com o povo de Deus. A apostasia acontecerá dentro das fileiras dos membros da igreja visível. Aqueles que são crentes verdadeiros não apostatarão (João 10.27,29; 1 Pe 1.3-5); mas muitos que tinham feito uma profissão exterior de fé, o farão.

Assim como acontece com os outros sinais dos tempos, este também não é um sinal que nos autorize a datar a Segunda Vinda de Cristo com exatidão. Certamente, tem havido apostasia na Igreja desde a época do Novo Testamento. Inegavelmente, há agora a apostasia na Igreja. Quando hoje, em vários países europeus, países que conheceram o Evangelho por séculos, as pessoas se afastam das igrejas em bandos - certamente isto é apostasia. Quando muitos dos assim chamados líderes cristãos, tanto na Europa como na América, negam ensinos centrais da Bíblia, como a ressurreição corporal de Cristo, e ainda alegam ser teólogos cristãos -, certamente isto é apostasia. Quando os pregadores proclamam mitos ao invés de fatos, filosofia existencialista ao invés de teologia cristã, humanismo ao invés da verdade do Evangelho -, certamente isto é apostasia. Mesmo assim, quem pode dizer exatamente quando ou como virá a apostasia final? Ela pode vir muito em breve, ou pode ainda tardar anos - temos sempre de estar prontos, orando por graça para podermos continuar firmes na fé.

Devemos observar que o sinal da apostasia está vinculado com aparição do homem da iniqüidade. A partir das palavras de Paulo em 2 Tessalonicenses 2, fica evidente que a grande apostasia será acompanhada pela revelação do homem da iniqüidade: “sem que primeiro venha a apostasia, e seja revelado o homem da iniqüidade” (v.3). Paulo liga estas duas cláusulas com um e, sugerindo que o homem da iniqüidade se levantará na apostasia. Parece também que a própria apostasia será intensificada com o aparecimento do homem da iniqüidade: “Ora, o aparecimento do iníquo é segundo a eficácia de Satanás, com todo poder, e sinais e prodígios da mentira, e com todo engano de injustiça aos que perecem, porque não acolheram o amor da verdade para serem salvos” (vs. 9,10). Portanto, podemos esperar que esta apostasia final fique ainda pior após o aparecimento do homem da iniqüidade.

O terceiro e mais notável sinal de oposição a Deus é o sinal do anticristo. Como no caso dos dois sinais anteriores, este sinal também tem seus antecedentes no Antigo Testamento. A maioria desses antecedentes é encontrada no livro de Daniel. Assim, por exemplo, é falado do “pequeno chifre” no sonho que Daniel teve das quatro bestas: “Profetizará palavras contra o Altíssimo, magoará os santos do Altíssimo, e cuidará em mudar os tempos e a lei...” (7.25). Embora tenha havido um claro cumprimento dessa predição nos feitos de Antíoco Epifânio, o rei sírio que oprimiu os judeus e derrubou suas leis em 168 A C. (veja 1 Mac. 1.49), muitos intérpretes vêem nestas palavras uma descrição antecipada do anticristo mencionado no Novo Testamento. Se a descrição paulina do “homem da iniqüidade”, em 2 Tessalonicenses 2, é um retrato do anticristo, conforme sustenta a maioria dos comentaristas, podemos realmente ver várias similaridades entre esse homem e a figura representada em Daniel 7.25. Ambas as figuras proferem palavras contra o Altíssimo, e ambos tentam destruir (ou oprimir, NIV) os santos do Altíssimo.

Ainda mais vívidas são as palavras de Daniel 11.36, que aparecem na descrição do “rei da morte”: “Este rei fará segundo a sua vontade e se levantará e se engrandecerá sobre todo deus; contra o Deus dos deuses, falará coisas incríveis”. Embora seja amplamente reconhecido que a descrição encontrada neste capítulo (vs. 20-39) é de Antíoco Epifânio, que iria profanar o templo de Jerusalém e exigir ser adorado como um deus, muitos comentaristas concordam em que as palavras do verso 36 podem igualmente ser aplicadas ao anticristo mencionado no Novo Testamento. Edward J. Young, na verdade, afirma que a descrição do verso 36 não se aplica a Antíoco Epifânio mas se refere exclusivamente ao anticristo25.

Há duas passagens do livro de Daniel que falam de uma “abominação desoladora” ou “que causa desolação” (cf a versão da NIV). Uma delas ocorre na descrição de Antíoco Epifânio, no capítulo 11: “Dele sairão forças que profanarão o santuário, a fortaleza nossa e tirarão o sacrifício costumado, estabelecendo a abominação desoladora” (Dn 11.31).

A outra passagem é encontrada no capítulo 12: “Depois do tempo em que o costumado sacrifício for tirado, e posta a abominação desoladora, haverá ainda mil duzentos e noventa dias” (12.11).

“A abominação desoladora” mencionada nestas passagens é entendida pela maioria dos intérpretes como se referindo à profanação do templo de Jerusalém por Antíoco Epifânio. Antíoco realmente profanou o templo, dedicando-o ao deus grego Zeus; ele realmente retirou o holocausto contínuo, substituindo-o, bem como outras oferendas judaicas, por sacrifícios pagãos (incluindo os de porcos); ele, na verdade, colocou um altar pagão no topo do altar do holocausto (veja 1 Mac. 1.45, 46, 56; 2 Mac. 6.2). É exatamente a mesma expressão utilizada no texto da Septuaginta, nas passagens de Daniel recém-citadas, bdelygma eremoseos (lit., “abominação de desolação”), que é encontrada no original grego de 1 Macabeus 1.54. Na RSV esta última passagem reza: “Agora, no décimo quinto dia de Chislev, no centésimo quadragésimo quinto ano, eles levantaram um sacrilégio desolador em cima do altar do holocausto”.

É agora importante observar que nosso Senhor se refere a essas passagens de Daniel no seu assim chamado Sermão Profético: “Quando, pois, virdes o abominável da desolação (bdelygma tes eremoseos) de que falou o profeta Daniel, no lugar santo... os que estiverem na Judéia fujam para os montes” (Mt 24.15,16; cp Mc 13.14). Quando Jesus proferiu estas palavras, a profanação do templo, por Antíoco Epifânio, já tinha ocorrido. Mesmo assim, Jesus disse: “Quando virdes isto acontecer, fujam para os montes”. Obviamente, deveria haver uma segundo cumprimento da profecia acerca da abominação desoladora, em adição ao cumprimento que já tinha ocorrido, quando Jesus proferiu estas palavras. Este segundo cumprimento deveria ter lugar na época da destruição de Jerusalém, em 70 A D., quando o imperador romano Tito, com suas legiões, entraria na cidade santa com estandartes contendo a imagem do imperador - uma imagem que era adorada pelos romanos daquela época. Quando os judeus vissem esta “abominação desoladora”, eles deveriam lembrar das palavras de Jesus e fugir para os montes.

Conforme vimos acima, porém26, no Sermão Profético Jesus está se referindo tanto à destruição iminente de Jerusalém como ao fim dos tempos, o primeiro sendo um tipo deste último. Por essa razão, podemos esperar que haverá um terceiro cumprimento maior da predição da “abominação que causa desolação” ou “abominação desoladora”, encontrada na profecia de Daniel. Este cumprimento final acontecerá no fim dos séculos, e envolverá o anticristo que, nas palavras de 2 Tessalonicenses 2.4, exaltará a si mesmo “contra tudo que se chama Deus, ou objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus ostentando-se como se fosse o próprio Deus”.

Concluímos que o ensino neotestamentário acercado anticristo efetivamente tem antecedentes no Antigo Testamento, e que tanto Antíoco Epifânio como Tito foram tipos do anticristo que está por vir. Um importante aspecto do ensino bíblico acerca do anticristo já foi antecipado: embora deva haver uma anticristo culminante no fim dos tempos, pode haver precursores ou antecipações do anticristo antes que ele apareça.

Jesus, na verdade, também descreve certos precursores do anticristo ao dizer aos seus discípulos, no mesmo Sermão Profético a que acabamos de nos referir: “Então se alguém vos disser: Eis aqui o crist! Ou: Ei-lo ali! Não acrediteis; porque surgirão falsos cristos (pseudochristoi) e falsos profetas (pseudoprophetai) operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt 24.23,24).

O termo “falsos cristos” sugere que os enganadores que Jesus aqui retrata alegarão ser eles próprios o Cristo - observe a descrição ainda mais vívida deles no verso 5 do mesmo capítulo: “Porque virão muitos em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo...” O detalhe acrescentado de que estes falsos cristos mostrarão “grandes sinais e prodígios”, para levar o povo ao engano, parece antecipar a descrição de Paulo acerca do anticristo como aquele que virá com “sinais e prodígios de mentira” (2 Ts 2.9). Através de tais milagres espúrios esses “pseudo-cristos” tentarão afastar mesmo os crentes verdadeiros do verdadeiro Cristo. As palavras de Jesus sugerem que estes falsos cristos serão encontrados durante toda a era entre sua primeira e segunda vindas. Podemos, na verdade sem muita dificuldade, encontrar exemplos de tais impostores no mundo hoje. Uma vez que esses homens alegam ser Cristo, com certeza eles são “anticristos” de alguma espécie. Mas, pelo fato de Jesus mencioná-los no plural, podemos considerá-los como precursores do anticristo final que ainda está por vir.

O que dia o Novo Testamento acerca do próprio anticristo? O termo anticristo (antichristos) é encontrado apenas nas epístolas de João (1 Jo 2.18,22; 4.3; 2 Jo 7). O significado original do prefixo grego anti é “ao invés de” ou “em lugar de” 27. Nesse sentido, antichristos significa um Cristo substituto no Novo Testamento também como o adversário declarado de Cristo, podemos combinar ambas as idéias: o anticristo é tanto um Cristo rival como um oponente de Cristo28.

Em 1 Jo 4.2,3 o termo anticristo é utilizado obviamente num sentido impessoal: “Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne e de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem, e presentemente já está no mundo”. A principal heresia que João estava combatendo, em sua primeira epístola, era um gnosticismo incipiente. Um dos erros desses primeiros gnósticos era negar a genuína encarnação de Cristo. Uma vez que a matéria era considerada como má, eles ensinavam que Deus não poderia entrar num corpo genuíno, e que Cristo, por causa disso, teve apenas um corpo aparente ( ou docético) enquanto estava sobre a terra. Isto, aos olhos de João, era uma heresia tão imortal que retirava o cerne do Evangelho. Se Cristo não tivesse assumido uma natureza humana genuína, com um corpo humano genuíno, então o homem não teria um verdadeiro Mediador, nenhuma expiação teria sido feita por nós, e ainda estaríamos em nossos pecados. Por esta razão, João diz que negar que Cristo veio em carne (isto é, assumiu um corpo humano genuíno) é revelar o Espírito do anticristo. Deve ser observado, entretanto, que aqui João fala do anticristo apenas de modo impessoal.

João expressa a mesma idéia de modo mais pessoal em 1 Jo 2.22: “Quem é o mentiroso senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Este é o anticristo (ho antichristos), o que nega o Pai e o Filho”. Aqui o anticristo é considerado como uma pessoa, uma vez que o artigo definido foi usado junto com a palavra. Mas ele é considerado como uma pessoa que já está presente nos dias de João - na verdade, como alguém que representa um grupo de pessoas. A heresia aqui denominada de anticristo é aquela que postula um abismo intransponível entre um Jesus meramente humano e um Cristo divino e docético (e por causa disso não humano).

No mesmo sentido vem a passagem da Segunda Epístola de João: “Porque muitos enganadores têm saído pelo mundo fora, os quais não confessam que Jesus Cristo veio em carne: assim é o enganador e o anticristo (ho antichristos)” (2 Jo 7). Novamente, João fala em termos pessoais: o anticristo. Mas novamente, como na passagem recém-citada, o anticristo é um termo usado para descrever várias pessoas que sustentam esta heresia fatal - pessoas que já estavam no mundo da época em que João escrevia.

Em 1 Jo 2.18, porém, João fala tanto de um anticristo, que ainda está vindo, como de anticristos que agora já estão presentes: “Filhinhos, já é a última hora; e, como ouvistes que vem o anticristo, também agora muitos anticristos têm surgido, pelo que conhecemos que é a última hora”. As palavras: “como ouvistes que vem o anticristo” indicam que João efetivamente esperava um anticristo pessoal no fim dos tempos, assim como a igreja cristã primitiva. Provavelmente, ele estava familiarizado com o ensino de Paulo acerca do “homem da iniqüidade”, referido na Segunda Carta aos Tessalonicenses 2, que tinha sido escrita muito antes. Ele também estaria familiarizado com os ensinos acerca deste futuro oponente de Deus e de Cristo encontrado em Daniel e nas palavras do próprio Cristo. Portanto, não é correto dar a impressão de que João não aguarda um anticristo futuro em nenhum sentido; nesta passagem, lembra ele seus leitores acerca de algo que eles já conhecem: “como ouvistes que vem o anticristo”. Mas João também vê vários anticristos no mundo de seus dias: falsos mestres que negam que Cristo tenha vindo em carne. Nós poderíamos chamar esses falsos mestre de precursores do anticristo final. Uma vez que João já via estes “muitos anticristos” no mundo, ele conclui que nós agora, na era presente, estamos na “última hora”. Dessa forma, podemos esperar continuar a encontrar pessoas e poderes do anticristo em cada era da Igreja de Jesus Cristo até sua Segunda Vinda. Este sinal dos tempos, portanto, assim como os outros, caracteriza toda a era da Igreja entre as duas vindas de Cristo, e possui relevância para a igreja hoje. Precisamos constantemente estar em guarda contra anticristos e contra ensinos e práticas de anticristos.

Resumindo, podemos admitir que a idéia de um anticristo único futuro não é muito proeminente nas epístolas de João; sua ênfase recai mais sobre os anticristos e idéias de anticristos que já estavam presentes em seus dias. Mesmo assim, não seria correto dizer que João não admite, em seu pensamento, um anticristo pessoal futuro, uma vez que ele ainda aguarda um anticristo que deverá vir.

O ensino neotestamentário mais claro acerca do anticristo futuro é encontrado nos escritos de Paulo, no assim chamado “pequeno apocalipse” de 2 Tessalonicenses 2. Embora o termo anticristo não seja usado nesta passagem, a maioria dos comentaristas, conforme mencionamos, identificam o “homem da iniqüidade” de Paulo com o anticristo de João. Em 2 Tessalonicenses, 2.1-12, Paulo está dizendo a seus leitores - muitos dos quais pensam que a Segunda Vinda de Cristo já estava em processo -, que certas coisas precisam primeiramente acontecer antes que venha o “dia do Senhor”. Um destes acontecimentos é a grande apostasia ou rebelião, conforme vimos acima29. O outro evento, ao qual dedicamos agora nossa atenção, é o surgimento do “homem da iniqüidade”.

São ditas várias coisas acerca do “homem da iniqüidade” nesta passagem:

(1) Ele aparecerá na grande apostasia ou rebelião. Observe como essas duas figuras são vinculadas no verso 3: “Ninguém de nenhum modo vos engane, porque aquele dia, o dia do Senhor, não virá, sem que primeiro venha a apostasia, e seja revelado o homem da iniqüidade”30.

(2) Ele será uma pessoa. A descrição fornecida neste capítulo não pode se referir a nada além de uma pessoa definida. Ele é denominado o “homem da iniqüidade, o filho da perdição” (v.3), o qual se opõe (ho antikeimenos) e se levanta contra tudo que se chama Deus, ou objeto de culto (v.4). é dito que ele se assenta no santuário de Deus (v.4), que algo agora o está detendo, e que ele será revelado a seu tempo (v.6). É dito mais adiante que o Senhor Jesus o matará com o sopro de sua boca (v.8). Embora Paulo diga que “o mistério da iniqüidade já opera” (v.7) no mundo, em seus dias, ele claramente prediz a vinda de um homem da iniqüidade final antes que Cristo venha de novo. Portanto, o que não está totalmente claro, no ensino de João acerca do anticristo, fica claro aqui: haverá uma anticristo final e pessoal antes que venha o dia do Senhor. Embora alguns tenham sugerido que devamos ler Paulo à luz de João, e outros tenham dito que devamos ler João à luz de Paulo, eu creio que devemos levar em conta ambas as abordagens31. Não existe um conflito básico entre estas duas abordagens, uma vez que, conforme já vimos, João deixa espaço para a vinda de um anticristo pessoal no futuro, e Paulo reconhece que as forças do anticristo já estão operando no mundo (v.7).

(3) O homem da iniqüidade será objeto de adoração. Ele não somente se oporá a tudo que se chama Deus e é adorado, mas também “se assentará no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus” (v.4). Em outras palavras, ele se oporá a toda forma de adoração exceto à adoração dele próprio, a qual ele exigirá e imporá à força. A expressão “assentar-se no santuário de Deus” não deveria ser entendida como implicando que haverá novamente um templo judaico literalmente entendido na época da volta de Cristo, nem como sugerindo que o homem da iniqüidade surgirá na igreja, que é o correspondente neotestamentário do templo do Antigo Testamento. Provavelmente, é melhor entender esta expressão como uma descrição apocalíptica da usurpação da honra e adoração que deveria ser rendida unicamente a Deus. Herman Ridderbos pondera da seguinte forma: “Assentar-se no templo é um atributo divino, é usurpar para si a honra divina” 32. Nem é necessário dizer que esta exigência do homem da iniqüidade, em ser adorado, envolverá perseguição severa para o verdadeiro povo de Deus, que rejeitará esta exigência. Esta, então será a “grande tribulação” predita por nosso Senhor. Em outras palavras, a intensificação culminante da tribulação, que é um dos sinais dos tempos, coincidirá com o aparecimento do homem da iniqüidade.

(4) O homem da iniqüidade fará uso de milagres enganosos (v.9) e ensino falso (v.11) para levar sua causa adiante. Ele virá com “milagres, sinais e maravilhas ilusórios” (v.9, NIV). Podemos observar, nesse ponto, que ele aparecerá como uma espécie de Cristo substituto ou rival, imitando inclusive os milagres de Jesus e, dessa forma, enganando a muitas pessoas. Estes sinais e prodígios têm sua origem no desejo de enganar, e têm por trás a obra de Satanás (v.9). Mais ainda: Como Cristo foi um mestre, assim também será o homem da iniqüidade - só que este último ensinará a falsidade em lugar da verdade (vs.10,11). Por essa razão, podemos ver nessa figura a culminação da oposição do homem a Deus. Ridderbos resume a descrição conforme segue: “... Este homem não é apenas um indivíduo preeminentemente ateu, mas... nele a hostilidade humana a Deus chega a uma revelação escatológica e definitiva... A figura do ‘homem da iniqüidade’ é planejada claramente para ser a duplicação final e escatológica do homem Jesus Cristo, que foi enviado por Deus para destruir as obras de Satanás” 33.

(5) O homem da iniqüidade somente pode ser revelado depois de ter sido removido aquilo que o detém. O enigmático aqui é que este impedimento é mencionado tanto em termos pessoais como em termos impessoais: “e, agora, sabeis o que o detém” (v.6); “aquele que agora o detém” (v.7). Tem havido muita discussão acerca da identidade desta força de detenção. Alguns têm dito que o que o detinha era o império romano (impessoal) ou uma série de imperadores (pessoal) 34. Isto é um tanto improvável, uma vez que vários dos próprios imperadores romanos exigiam ser adorados e, dessa forma, pareceriam antes ser aliados do que impedidores do anticristo. Outros têm sustentado que o que o detém é a pregação do Evangelho a todas as nações35. Uma das dificuldades com esta posição é que ela sugere que está vindo um tempo durante o qual a proclamação do Evangelho cessará. Outros, ainda, afirmam que a força impedidora é “o poder do governo humano bem-ordenado” 36. O problema com esta posição, porém, é que o homem da iniqüidade, conforme descrito aqui, não é primariamente uma figura política a quem se poderia resistir pelo poder político, mas um enganador na área da religião. Os dispensacionalistas geralmente ensinam que quem o detém é o Espírito Santo37; mas esta posição envolve a eventualidade impossível de haver um tempo em que Deus será “afastado” (v.7). É provavelmente mais seguro dizer que não sabemos quem é aquele que detém o homem da iniqüidade. A menção que Paulo faz do impedidor, entretanto, indica que a revelação completa da pessoa aqui descrita não acontecerá até que este impedimento, seja lá o que for, tenha sido removido38.

(6) O homem da iniqüidade será totalmente destruído por Cristo em sua Segunda Vinda: “então será de fato revelado o iníquo, a quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca, e o destruirá, pela manifestação de sua vinda” (v.8). Em outras palavras, embora o surgimento do homem da iniqüidade traga sofrimentos indizíveis para a igreja, o povo de Deus não tem nada a temer, uma vez que Cristo o esmagará. Daí que a atmosfera predominante em que a igreja deve considerar o anticristo tem de ser mais otimista que pessimista.

Acerca da identidade do anticristo houve muitos, no passado, que o identificaram com certos imperadores romanos. Nero foi freqüentemente lembrado nesse sentido; após sua morte, alguns pensavam que Nero seria ressuscitado novamente como o anticristo do tempo do fim. Por volta da época da Reforma, muitos, incluindo tanto Lutero como Calvino, sustentaram que o papa de Roma ou o papado era o anticristo. Em tempos mais recentes, o anticristo tem sido identificado com ditadores como Salin e Hitler, G.C. Berkouwer observa que quando pessoas, no passado, identificaram certos indivíduos com o anticristo, elas não estavam totalmente erradas, uma vez que têm havido manifestações de pensamentos e ações típicas do anticristo ao longo da história da igreja39. Já observamos anteriormente que têm havido precursores do anticristo, e que continuará a havê-los. Mas, mesmo assim, as Escrituras parecem ensinar, especialmente em 2 Tessalonicenses 2, que haverá um anticristo final e culminante, a quem o próprio Cristo destruirá na sua Segunda Vinda.

Resumindo, concluímos que o sinal do anticristo, assim como os outros sinais do tempo, está presente ao longo da história da Igreja. podemos até dizer que cada época providenciará sua própria forma particular de atividade de anticristo. Mas só aguardamos uma intensificação deste sinal na manifestação do anticristo pouco antes de Cristo retornar.

Este sinal igualmente não nos capacita a estabelecer uma data para a volta de Cristo com precisão. Nós simplesmente não sabemos como se manifestará o anticristo final ou que forma tomará a sua manifestação. Em nossos dias de mudanças rápidas, tal pessoa poderia surgir em um tempo muito breve. Enquanto isso, temos sempre de estar alertas para a presença de forças, movimentos e líderes que agem como anticristos em nossos dias, como um dos sinais contínuos de que estamos vivendo “entre os tempos”.

Tendo observado os sinais dos tempos que evidenciam a graça de Deus e aqueles que indicam oposição a Deus, passemos finalmente a ver os sinais que indicam julgamento divino: guerras, terremotos e fomes. Nós os encontramos mencionados no Sermão Profético de Jesus: “E certamente ouvireis falar de guerras e rumores de guerras; vede, não vos assusteis, porque é necessário assim acontecer, mais ainda não é o fim. Porquanto se levantará nação contra nação, reino contra reino, e haverá fomes e terremotos em vários lugares; porém, tudo isto é o princípio dos sofrimentos (ou dores de parto, NIV; no grego, odinon)” (Mt 24.6-8). Declarações similares são encontradas nas passagens paralelas: Marcos 13.7,8 e Lucas 21.9-11. Lucas, na verdade, acrescenta a palavra grandes a terremotos, e menciona epidemias juntamente com fomes. Uma vez que estes sinais são mencionados no discurso escatológico de Jesus, deveríamos considerá-los como parte da categoria geral de “sinais dos tempos”. Entretanto, os seguintes comentários devem ser feitos a respeito deles:

(1) Estes sinais também têm seus antecedentes no Antigo Testamento. As palavras “nação se levantará contra nação, e Reino contra Reino” são citadas de Isaías 19.2 e 2 Crônicas 15.6. Terremotos são mencionados freqüentemente em passagens do Antigo Testamento, descrevendo a intervenção de Deus na história: Juízes 5.4,5; Salmos 18.7 e 68.8; Isaías 24.19, 29.6 e 64.1. Profecias acerca de fomes são encontradas em Jeremias 15.2 e Ezequiel 5.15,17; 14.13.

(2) Estes sinais são evidências do juízo divino. Isto não significa que pessoas que suportam sofrimento ou morte, como resultado de tragédias tais como guerras, terremotos ou fomes, são escolhidas como objeto específico da ira de Deus; considere as palavras de Jesus acerca daqueles sobre quem caiu a torre de Siloé (Lucas 13.4). Mas isto significa que estes sinais, de que agora tratamos, são manifestações do fato de que o mundo pressente está sob a maldição de Deus (Gn 3.17), e que a ira de Deus está constantemente sendo revelada do céu contra a impiedade e perversão dos homens (Rm 1.18). Estes sinais fazem lembrar continuamente que o Juízo está às portas (Tiago 5.9).

(3) Estritamente falando, estes não são sinais do fim. Porque Jesus diz claramente acerta destes sinais que, quando eles acontecerem, seu povo não deve ficar alarmado, porque “ainda não é o fim” (Mt 24.6). No mesmo sentido são suas palavras no fim do verso 8: “Todos estes são o princípio das dores de parto” (NIV). A expressão aqui utilizada tornou-se um termo técnico na literatura rabínica que descreve o período de sofrimento precedente à libertação messiânica, arche odinon, “dores do nascimento (do Messias) 40. Em outras palavras, quando acontecerem guerras, terremotos e fomes, não devemos supor que a volta de Cristo esteja imediatamente próxima. Estes sinais “apontam para o fim e são uma garantia de que ele chegará” 41.

(4) Assim como os outros sinais, estes também caracterizam todo o período entre a primeira e a Segunda Vinda de Cristo. Eles são indicações de que Deus está desenvolvendo seu propósito na história. Quando eles acontecerem, não devemos ficar atemorizados, mas devemos aceitá-los como dores do nascimento de um mundo melhor. Vinculado a isto, observe as palavras de Paulo em Romanos 8.22: “Sabemos que toda a criação está gemendo como nas dores do nascimento de uma criança até o momento presente” (NIV). O segundo verbo utilizado aqui, synodinei, tem a mesma raiz que a palavra odinon (“dores de parto”) encontrada em Mateus 24.8. Por essa razão, podemos dizer que o gemido da criação descrito em Romanos 8 é também um dos sinais dos tempos.



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