Autor: Mário David



Baixar 68.32 Kb.
Encontro18.07.2016
Tamanho68.32 Kb.











O Papel do Terapeuta perante o Grupo e a Matriz
Autor:

Mário David

Grupanalista, membro efetivo da SPGPAG (Portugal) e GASI (Internacional)

Consultor em Psiquiatra, Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa (CHPLisboa), Portugal

Especializado em Alcoolismo e outras Doenças Aditivas.

Correio Eletrónico: mjmmdavid@gmail.com

Resumo:

Este artigo apresenta uma breve revisão do papel do condutor de grupo, desde as definições iniciais fornecidas por S. H. Foulkes e J. Anthony até aos mais recentes autores grupanalíticos. O autor refere-se também à importância da conceptualização de E. L. Cortesão, o qual acreditava que estas conceptualizações iniciais sobre os processos de matriz e grupo não eram suficientes para explicar a técnica grupanalítica ou qualquer outra metateoria em Grupanálise, pelo que ele desenvolveu um ponto de vista complementar, o conceito de padrão, o qual tentava abraçar todos os fenômenos relacionados à matriz e, ao mesmo tempo, estar-se mais consciente da presença e influência do condutor através das suas características pessoais e gerais, posturas específicas e atitudes quando ele mantém e sustenta o processo de grupo dentro da matriz. Ele propôs o conceito de padrão, como uma espécie de impressão trazida pelo grupanalista para a matriz do grupo quando ele promove e desenvolve um processo analítico em grupo.

Palavras-chave: Condutor de Grupo, Dinâmicas de Grupo, Grupanalista, Matriz, Processo de Grupo, Padrão Grupanalítico
Abstract:

This article presents a brief review about the role of the group’s conductor, since the initial definitions provided by S. H. Foulkes and E.J. Anthony and other more recent group-analytic authors. Also the author refers to the importance of E.L. Cortesão´s conceptualization who addressed these initial concepts of matrix and group processes, they were not sufficiently, so he developed a complementary point of view, the concept of pattern, which could embrace all phenomena related to the matrix and in the same time, to be more aware of the conductor’s presence and influence through his personal and general characteristics and specific postures when he maintains and sustains the group’s process within the matrix. He proposed the concept of pattern, as a kind of imprinting conveyed by the group-analyst to the group’s matrix when he promotes and develops an analytic process in the group.

Keywords: Group, Group Analyst, Group Dynamics, Group-Analytic Pattern, Group Process, Matrix

O Condutor frente ao Grupo e à Matriz

A fim de iniciarmos uma reflexão exaustiva sobre este tema, nós teremos de começar por aquilo que S.H. Foulkes publicou sobre alguns dos aspetos do papel do condutor perante um processo grupal para o qual ele advogava uma postura pouco ou nada interventiva, com a intenção de se reduzir ao máximo a sua interferência, numa postura próxima à de um Psicanalista. Esta posição poderá ser ilustrada pelas seguintes citações retiradas de livros seus: “O terapeuta não deve ter uma postura ativa” (Foulkes, 1964: 66) ou “o condutor deverá usar o grupo como um instrumento para a terapia. Ele pode ser considerado o primeiro servidor do grupo” (Foulkes, 1948/1983: 139) (tradução do autor). Para o fundador da Grupanálise, os condutores ou terapeutas de grupo deveriam tendencialmente desaparecer e transferir todas as interações do grupo para a iniciativa dos próprios membros.

Portanto ao referir-se sobre o papel do terapeuta, S.H. Foulkes assumiu uma posição algo ambivalente, numa tentativa de equilíbrio entre atitudes de passividade com pouca ou nenhuma interferência perante a dinâmica do grupo e as atitudes proactivas através de intervenções e interpretações com a finalidade de permitir a emancipação do grupo e de cada elemento que o compõe: “o condutor quer usar o grupo como um instrumento para a terapia” (Foulkes, 1948/1983:135) (tradução do autor).

Autores grupanalíticos mais recentes, tais como, Allan Horne (1992), Morris Nitsun (2009) ou Sylvia Hutchinson (2000), que relacionaram esta conceptualização ambivalente com aspetos políticos decorrentes da sua vida pessoal, pois S.H. Foulkes era oriundo de uma família alemã de raízes judias e por esse facto, foi obrigado a exilar-se em consequência do regímen nazi de Hitler, e como consequência, ele foi revelando posições públicas muito firmes contra toda e qualquer liderança com tendências autoritárias e também revelando uma profunda convicção de que as pessoas deviam opor-se a todo e qualquer poder expresso dentro do processo de grupo. Por seu lado, Allan Horne (1992) considerou: “S.H. Foulkes tinha uma posição ambígua em relação à posição do condutor com a questão do poder nas suas relações com o grupo, por exemplo, como ser espontâneo sem tomar controlo ou como ser não-diretivo sem abdicar. Parecia que ele não tinha em conta a importância das suas opiniões sobre a autoridade e figuras de autoridade parentais” (tradução do autor). Sylvia Huchinson (2009) referindo-se aos artigos publicados por S.H. Foulkes, diferenciou duas significativas e bem diferenciadas posições perante a autoridade: (i) “A posição de autoridade executiva ou dinâmico e cativo administrador”; (ii) “A posição de um “perito” em comportamento humano e das dinâmicas de grupo, tornando-se num “contentor” e num analista/ tradutor de comunicações” (Hutchinson; 2009: 356), e com “uma postura e presença similar ou equivalente a um Psicanalista” (Foulkes, 1948/1983) (tradução do autor). Esta autora considera: “Foulkes era, eu acho, um revolucionário no mundo analítico ao concentrar a atenção no potencial destrutivo do poder daqueles na autoridade mais do que daqueles numa relação dependente para com a autoridade" (Hutchinson, 2009: 355) (tradução do autor) e que “ele reconhecia e enfatizava o poder investido no grupanalista e num dos seus artigos posteriores (Foulkes 1971), ele escrevia sobre o poder da sugestão e a forte tendência dos grupos em se conformarem e apresentarem à opinião consciente e inconsciente de seus líderes. Ele ressaltava a importância do grupanalista agir contra essa tendência e ajudar a libertar o grupo da tendência para a adesão e conformidade" (Hutchinson, 2009: 355) (tradução do autor)

Na “33rd S.H. Foulkes Annual Lecture” apresentada por Morris Nitsun e posteriormente publicada na Revista “Groupanalysis” sob o título: "Authory and Revolt: The challenges of Group Leadership" (Nitsun, 2009). Este autor menciona as suas dificuldades em compreender e aceitar a posição de S.H. Foulkes sobre o papel do condutor, pois ela a considera como sendo algo complexa e contraditória. Morris Nitsun acredita que a falta de liderança vai criar divisões e riscos de fragmentação nos grupos, levando ao aparecimento de processos grupais destrutivos que ele designou de “anti-grupo”, que foram descritos no seu livro "The Anti-Group" (Nitsun, 1996).

Perspetivas Complementares sobre o Papel do Terapeuta no Grupo

Ao pesquisar por perspetivas complementares sobre a questão do papel do terapeuta, o autor foi encontrando algumas reflexões, posições e referências de outros autores grupanalíticos, os quais se posicionam entre uma maior ou menor presença e intervenção do terapeuta no processo grupal. De um modo sucinto e seguindo o critério cronológico da sua publicação, o autor irá mencionar os seguintes trabalhos:

Em primeiro lugar, C. Garland e colegas (1984) consideram: “a natureza das intervenções depende do tipo de atividade ou consciência que o condutor parece procurar em promover no grupo, e também na maneira como ele ou ela o fazem” (Garland et al., 1984:140) (tradução do autor). Estes autores enfatizam o papel de facilitador, o qual dividem em duas categorias: uma de facilitação aberta e uma outra de facilitação guiada:

  • A facilitação aberta consiste em qualquer comunicação da parte do condutor sobre o que ocorre no processo grupal, desde um simples “hum, hum”, passando por um pequeno empurrão ou um tiro no escuro quando “ele é ainda tão ignorante como os outros membros que ainda nada disseram” (Garland et al., 1984: 141) (tradução do autor) e que poderá abrir ou impulsionar o processo grupal.

  • A facilitação guiada ocorre: “Quando o condutor a trabalhar num ambiente analítico pode estar ciente do significado latente no processo do grupo, mas ele não deseja apresentar esta consciência diretamente para o grupo. Em vez disso, ele pode optar em fazer uma observação facilitadora, a qual abre uma particular porta através da qual o grupo pode fazer o seu próprio caminho para o significado latente” (Garland C. et al., 1984: 141) (tradução do autor).

Em termos cronológicos, segue-se uma referência ao livro de Terence Lear (1985): “The Inspiring Role of the Conductor” (Lear, 1985), no qual ele chama a nossa atenção para dois aspetos importantes: “i) as intervenções do condutor devem ser criativas porque elas podem inspirar o grupo e também tornar o grupo em criativo” e ii) “Outra ideia associada é a vantagem para o condutor em possuir uma teoria sobre um tipo de desenvolvimento, o qual deverá ser sintónico com um papel inspirador” (Lear, 1985: 151).

Depois o autor encontrou um artigo de Allan Horne, intitulado: “Control and Leadership in Group Psychotherapy” (Horne, 1992) no qual este autor reflete sobre as possíveis intenções conscientes do condutor “para controlar” o processo grupal, quando ele enfrenta as forças inconscientes reveladas no “fenómeno de subgrupo”, enquanto resistência coletiva entre diversos membros do grupo funcionando como um todo através de alianças particulares entre eles. Ele escreve sobre a existência de 3 tipos de problemas em relação manejo do processo de grupo: (i) “o dilema do sobre controlo/abdicação; (ii) “a abordagem sobre as outras fontes de poder no grupo”; (iii) “a possível transmissão de forças inconscientes através do condutor (Horne, 1992) (tradução do autor). Este autor sugere, como abordagem mais adequada, o condutor aceitar não lutar contra estes dilemas sobre o controlo e a abdicação, pois eles são irresolúveis pelo que deverá aceitar que apareçam algumas capacidades de liderança noutros elementos do grupo, encarando-se mais como sendo uma espécie de parteira perante o trabalho do grupo, quando o terapeuta está a traduzir o material psicológico do nível inconsciente para o nível consciente quanto remove as fantasias inconscientes dos membros do grupo.

Por seu lado, Peter Zelaskowiski (1993) explora o papel do condutor em relação ao manejo das fronteiras/limites externos e internos “durante a fase de inclusão através da procura dos objetivos, da definição de tarefas e do estabelecimento do contrato”…” e também durante “a fase de processamento” os (Zelaskowski, 1993) (tradução do autor) quando o processo grupal entra em momentos de elaboração psicológica.

No livro “The Anti-Group” (1996), Morris Nitsun argumenta que a falta de liderança vai criar divisões e fragmentação do próprio grupo, permitindo o surgimento de processos destrutivos, que ele designa de “Anti-Group”: “Neste caso, o grupo precisa de liderança ativa e não passiva. Então a capacidade (“skill”) de autoridade e liderança do condutor é vital para a sobrevivência do grupo” (Nitsun, 2009:328) ou “Apesar do objetivo ser o empoderamento do grupo, existem muitas maneiras quando o grupo requere uma figura de poder – momentos de crise e dificuldades em decidir, momentos de impasse do grupo ou conflito o qual requere liderança e momentos quando existe uma genuína necessidade para a dependência, através da vulnerabilidade ou da doença, ou da fragmentação emocional no grupo” (Nitsun 2009: 329) (tradução do autor).

No seu segundo livro: “The Group as an Object of Desire” (Nitsun, 2006) Morris Nitsun reflete agora sobre as relações entre o terapeuta e o grupo, em termos dos desejos e impulsos sexuais e também sobre as possibilidades de mediar estas realidades internas perante os membros do grupo. Também se refere a certas características do condutor em termos de sedução e erotismo, as quais podem segundo ele, abrir ou fechar o processo do grupo. A importância da Pessoa do grupanalista pode ser entendida: “Em todas as três principais dimensões – dependência, rebelião/revolta e desejo erótico – o condutor, ele próprio é uma figura chave que constantemente interage com o grupo na expressão e negociação da autoridade” (Nitsun, 2009: 342) (tradução do autor).

Por seu lado, Eduard Klain (2009) considera que o grupanalista deve comportar-se como “um tipo de amplificador”, o qual recebe os significados e conteúdos emocionais a partir das comunicações dos membros do grupo e trabalha sobre eles através da sua participação emocional.

Göran Ahlin escreve sobre as diferenças culturais entre os estilos de condução em psicoterapia de grupo “focando-se na questão das abordagens passivas versus ativas do condutor nas diferentes escolas de psicoterapia de grupo, tendo em conta as circunstâncias sociopolíticas envolventes” (Ahlin, 2010: 185) (tradução do autor). Ele acredita que as intervenções do terapeuta são profundamente inspiradas/ influenciadas pelo seu “estilo pessoal terapêutico” dependendo da estrutura conceptual da sua escola de terapia, da sua experiência e maturidade (Ahlin, 2010: 187). As funções do grupo-terapeuta podem ser estudadas sob duas dimensões contínuas: uma horizontal que tenta atingir o equilíbrio entre a função de promoção do discernimento e a função de contenção (conceito de Bion) e uma vertical, a qual procura o equilíbrio entre a função de controlo e a de catalisação. Este último conceito provém do campo da química “como uma metáfora sobre o terapeuta ao estar simplesmente presente, reforçando o desenvolvimento e desdobrando os processos terapêuticos interpessoais” (Ahlin, 2010: 187-8) (tradução do autor).

Mais recentemente, Rocco A. Pisani (2012) presenteou-nos com uma visão original sobre o grupanalista como sendo “uma pessoa criativamente ativa” e um maestro de orquestra num estilo democrático. Em cada sessão “o tema é sempre novo e não-repetível. Cada sessão é uma peça de “música” sem pauta” (Pisani, 2012) (tradução do autor). A sua “arte” é expressa através da sua Personalidade e o seu “carisma” baseado no talento pessoal e nas suas capacidades de intuição, invenção, improvisação e animação, numa palavra, “é a sua criatividade dentro de um referencial científico” (Pisani, 20129 (tradução do autor). Este autor encontra diversas similaridades e algumas diferenças entre o relacionamento Orquestra/Maestro e o Grupo/Condutor:



  • O condutor de orquestra é o intérprete da composição enquanto o condutor de Grupanálise é o intérprete do texto /conteúdo das comunicações geradas pelo grupo”

  • O condutor do grupo, tal como, um condutor de uma orquestra “não escreve a ”música” mas interpreta-a constantemente, principalmente na sua cabeça”

  • O condutor organiza a estrutura, dirige o processo e faz uma contribuição, no momento crucial, para a criação do conteúdo”… …”Ele é o organizador, contentor, mentor, animador e o guardião do processo de comunicação livre associativa

  • Constantemente integra na sua cabeça variados níveis de processos de comunicação: realidade, transferência, projeção, primordial

  • Ele desencadeia e sustém o diálogo de livre associação. Ele desencadeia e sustém a análise e a tradução dos significados inconscientes das comunicações

  • O condutor dirige tal como alguém em pé de igualdade com os outros membros do grupo: “Ele é um primus inter pares

  • O grupo-analista deverá atuar como um guia com autoridade: “O Condutor joga uma parte ativa na análise das comunicações e na criação do conteúdo” (Pisani, 2012) (tradução do autor).

Embora todas estas posições sobre o papel do condutor sejam muito pertinentes, elas são simultaneamente bastante específicas e parciais em relação a todas as possíveis caraterísticas e dimensões no que se referente ao papel de um terapeuta perante um grupo e a sua matriz.

O Conceito de Padrão: O que é?

Eduardo Luís Cortesão (Cortesão, 1967, 1979, 1988, 1989, 1991) foi quem desenvolveu uma conceptualização de modo mais sistemático tendo começado por apresentar as suas ideias iniciais, num "Workshop sobre Investigação em Grupo-Análise", o qual decorreu em Londres, entre o mês de Janeiro de 1966 e o mês de Novembro de 1967. Fez uma proposta sobre da presença e influência do terapeuta perante a matriz do grupo pois as contribuições de S.H. Foulkes (1948/1983, 1984/1957, 1964, 1967) e de Edward J. Anthony (1957/1984) davam ambas um demasiado enfâse à matriz do grupo e à rede de comunicações e para E.L. Cortesão isto: "não era suficiente para explicar uma teoria sobre a técnica ou qualquer metateoria em grupo-análise" (Ferreira, 2005:71). Assim ele desenvolveu o conceito de Padrão cuja intenção era a de poder abraçar todos os fenômenos relacionados à existência da matriz, tendo em conta, a presença e influência do grupanalista enquanto mantém e sustém o processo de grupo, exercendo a sua função interpretativa ou ainda quando ele vai definindo os objetivos a atingir com o grupo. E.L. Cortesão considerava o grupanalista ser um especialista “em processos de grupo” e “neste sentido o analista é “conveyor”, isto é, um transmissor, como um catalisador, mas de forma alguma um “causador” e certamente que não deverá ser um líder com quem se identifiquem, nem tão-pouco um “padrão" para propósitos de adaptação ou conformismo" (Cortesão, 1989/2008: 119) e mais ainda, o grupanalista não devia oferecer-se como um protetor ou modelo, nem orientar o grupo de forma ativa ou didática (Cortesão 1989/2008) mas sim, devia influenciar a construção da matriz no grupo e o nível de realização do trabalho analítico.

Assim o Padrão é único para cada grupanalista e este é o único componente do grupo que o pode transmitir (Cortesão, 1967, 1979, 1988, 1989, 1991). Quanto ao nível de realização do trabalho analítico, este dependerá das características, competências e habilidades do terapeuta analítico de grupo, as quais podem ser modificadas, num maior ou menor grau, pela sua própria análise pessoal em processo de grupo, pela sua formação teórica e prática e, mais tarde, pela sua supervisão.

No entanto, esta conceptualização foi desvalorizada e esquecida fora de Portugal, pois S.H. Foulkes a considerava como sendo inaceitável para a sua teorização, dado que se estava a propor: "the specific, particular imprint which the therapist makes on the group matrix (S.H.F).” (Cortesão, 1989/2008: 119) e que o Padrão dava demasiado ênfase ao papel do condutor, diminuindo a importância do grupo e à emergência da matriz. Em resposta, E.L. Cortesão (1971) escreveu no seu livro “Grupanálise - Teoria e Técnica”: “No I Simpósio Europeu de Grupanálise (Cortesão, 1971), tive ocasião de esclarecer que a definição de Foulkes não traduz a minha ideia porque não se trata realmente do “imprint which the therapist makes as rather the imprint he conveys”” (Cortesão, 1989/2008: 119). Aliás, num artigo publicado na Revista “Grupanaliseonline” da SPG Ana Nava ao referir-se a esta controvérsia, escreveu: “Na época em que este conceito foi definido por Cortesão ele gerou alguma polémica e discussão com Foulkes. Resumidamente, Foulkes (1967) considerava que o padrão era uma espécie de “imprint” cunhado pelo grupanalista na matriz grupal, enquanto Cortesão rebatia que o grupanalista era um transmissor, um catalisador, um fertilizador e nunca um líder que impunha o seu modelo” (Nava, 2006: 8). Para o autor deste trabalho existem outras explicações para este esquecimento fora de Portugal, nomeadamente, pelo facto de E.L. Cortesão ter publicado poucos trabalhos em língua inglesa e por o seu único livro, intitulado: "Grupanálise - Teoria e Técnica" (Cortesão, 1989/2008), nunca ter sido traduzido para língua inglesa. No entanto é neste livro, aonde E.L. Cortesão explana de modo mais sistemático, as três principais dimensões do Padrão: a sua natureza, as suas funções e as suas finalidades:

Sobre a Natureza do Padrão

A natureza do Padrão reside no grupanalista e está relacionada com as suas características pessoais, enquanto Pessoa, com a sua própria personalidade e caráter, mais as representações interiorizadas da sua família e das matrizes socioculturais, enquanto ele se esforça numa fecunda análise pessoal em processo de grupo, como ele terá interiorizado e identificado com o seu próprio grupanalista. A natureza do Padrão está também relacionada com as suas capacidades e habilidades em estabelecer relacionamentos empáticos, autênticos, verdadeiros e honestos, assim como, a sua capacidade de estar em um grupo e de gostar do que faz. Estas últimas características estão relacionadas com o que se designa de estilo do terapeuta (Cortesão, 1988, 1989).



As funções do Padrão

As funções do Padrão são essencialmente as Intervenções / Interpretações, as quais comutam os níveis de experiência e interpretação adentro da matriz grupanalítica e incrementam o processo grupanalítico e estão fundamentalmente relacionadas: “a) A proposta e implementação das regras, da seleção e do contrato terapêutico; b) Todos os procedimentos do grupanalista, incluindo, as suas comunicações verbais e não-verbais, intervenções, interpretações e outros procedimentos analíticos e finalmente com c) "A promoção da "verdade" e do discernimento emocional" (Cortesão, 1988).



Os Objetivos do Padrão

Os Objetivos do Padrão são expressos pela indução e manutenção do processo de grupo dentro da matriz, quando o grupanalista suscita ideias racionais e emocionais ou realiza intervenções que podem levar a modificações em cada um dos “Self” presentes na sessão. Outros fins fundamentais são a reestruturação do desenvolvimento e a diferenciação de cada função em cada Self, a fim de permitir a sua autonomia psicológica e a natural e coerente interdependência (Cortesão, 1988, 1989).



Esquema 1

O Padrão Grupanalítico
A Natureza - Reside no Grupanalista como:

  • Pessoa com Self (Próprio) condicionado por:

Personalidade e Carácter

Representação Internalizada das Matrizes Familiar e Sociocultural

Treino Analítico Pessoal


  • Transmissor (conveyor) dependente de:

Curso de Formação de Grupanálise

Supervisão

Contemporaneidade da Informação Científica
Estas Características irão influenciar as atitudes e contra atitudes, as resistências e contra resistências e as transferências e contra transferências revelados pelo Grupanalista.
A Função Que se exprime: Pelas Intervenções / Interpretações: Que comutam os níveis de experiência e interpretação adentro da matriz grupanalítica e incrementando o processo grupanalítico.
O Propósito Através da Indução e manutenção (na matriz grupanalítica) do processo grupanalítico, o qual promove:


  • Elaboração Terapêutica / Reconstrução:

Similitudes de formação e conteúdo de processos comuns na génese de estruturas e funções do Self.

  • Significação individual na diferenciação do Self:

Singularidade e especificidade do Self individual, enraizado em processos de génese e desenvolvimento comuns.

Entrelaçado e interdependente de processos racionais atuais.

Mas dotado de autonomia relativa e de interdependência coerente e natural

(Cortesão, 1989/2008: 121)

Numa última formulação sobre o Padrão, E.L. Cortesão escreveu: "o padrão grupanalítico consiste na natureza de atitudes específicas que o grupanalista transmite e sustém na matriz grupanalítica de grupo, com uma função interpretativa, que fomenta e desenvolve o processo de grupo-analítica" (Cortesão, 1989/2008: 127).

Depois dele, outros grupanalista portugueses deram contribuições significativas e fizeram pertinentes esclarecimentos sobre este assunto, nomeadamente, Maria Etelvina Brito (1989) comparou a “transmissão do padrão” como o exercício das funções parentais durante o “processo de desenvolvimento da criança” e “a integração do padrão em direção ao grupo" enquanto equivalente a uma aquisição do objeto predominante dentro da matriz do grupo. Leonardo Ancona referiu-se a dois padrões: “um padrão exógeno veiculado pelo grupo-analista e um padrão endógeno do grupo como elaboração do padrão endógeno pela matriz (Ancona, 1989/1992). Isaura Manso Neto (1999b) falou sobre a integração do padrão como "o resultado da identificação com a função grupanalítica do grupanalista". Guilherme Ferreira (2002) defendeu no início de qualquer processo grupal, os membros do grupo revelam certos sentimentos em relação ao terapeuta enquanto uma figura poderosa e parental, durante o estabelecimento do “contrato grupanalítico” dado ser ele quem está na origem do grupo e faz as leis e regras “que por sua vez, era sentido como uma figura paterna, numa primeira fase, com quem o grupanalista estaria como um coito ininterrupto. As posições entre os dois, (grupo e analista) no entanto, transmutam-se, rapidamente, passando o grupo a ser sentido como a figura da mãe pré-edipiana e omnipotente com a qual o analisando desenvolvia uma relação anaclítica, enquanto o analista passava a ser sentido como uma figura paterna, ainda que mantendo com aquele o mesmo tipo de relação já descrito (coito ininterrupto) ” (Ferreira, 2002: 25).

César V. Dinis (2002; 2005) transmitiu fortes ideias sobre a importância da Pessoa e a presença do grupanalista ao considerar que existe um relacionamento claramente assimétrico entre aquele e os membros do grupo, no qual “Cabe, contudo, ao grupanalista a responsabilidade de velar para que o grupo não se transforme num arremedo de um grupo de entreajuda. Neste sentido, ele deverá estar posicionar-se como um vigilante da autenticidade, atento às alianças de conveniência, aos conluios defensivos, à formação reactiva caracterial" (Dinis, 2005: 13).

Entretanto derivado da dinâmica em cada grupo, Isaura Neto (1999a) chama à atenção à existência de diferentes tipos de padrão e em diferentes momentos: (i) "Quando um grupanalista tem de lidar consigo próprio e com o grupo; (ii) "Quando ele se torna uma figura de transferência como o resultado de um movimento neurótico por um ou mais membros do grupo dentro do contexto e da dinâmica da matriz"; (iii) "Quando são levantadas questões no "aqui-e-agora" no que diz respeito à dinâmica de grupo" (Neto, 1999a).

Mais tarde, Isaura Neto e Ana Sofia Nava (2004) atualizaram o diagrama original de E.L. Cortesão com mais informações provindas da Grupanálise e da Psicanálise:

Esquema 2

As Dimensões do Padrão

A Natureza:

O Grupanalista, como uma PESSOA:


  • Personalidade (Estilo);

2) Caráter;

3) Matriz de Relacionamento Interno (Leal, 1968; 1969; 1983; 1997);

4) Processo Analítico Pessoal
As Qualidades do Grupanalista:

1) Empatia apurada; Calor Humano não-Possessivo; Autenticidade (Terence Lear, 1985)

2) Honestidade; Veracidade (Martin Grotjahn, 1987)

3) Identidade estruturada em termos pessoais e profissionais (Earl Hopper, 1982)

4) Sinceridade; Abertura; Tolerância; Segurança; Competência (S.H. Foulkes, 1948; 1957; 1964)

5) Capacidade de estabelecer uma relação (Ronald Fairbairn, 1949/1972)

6) Capacidade de estar em grupo (Ana Sofia Nava, 2004)
Da Formação Prática do Grupanalista:

Só é possível através de Análise Pessoal (em grupo) e é dependente:

1) Os Cursos Teóricos e Práticos de Treino Grupanalítico

2) Atualização da Informações Científica

3) Da Supervisão Individual ou em Grupo

As suas Funções:

1. Algumas das REGRAS:

A) Seleção Apurada

B) Ao trabalhar o Contrato Terapêutico deverá haver: Segredo / Contatos Fora do Grupo Proibidos / Contatos Familiares Proibidos / Prioridade dada às Comunicações Orais; Renúncia para Obtenção de Benefícios Secundários

C) O Grupanalista fornece/decide: Espaço Físico / Frequência das Sessões / Duração da Sessão (1H30m) / Regularidade / Pontualidade / Configuração: Face a Face, em círculo, temas de conversa devem surgir espontaneamente, Livre verbalização, (nenhuma Censura Social).
2. ATITUDES

A) As Intervenções Analíticas e as Interpretações

B) Abstinência de Intervenções Coloquiais (Opiniões)

C) Critério Analítico (ele não deverá falar sobre si mesmo)

D) Passividade / Atividade (G. Alhin, 2010) / Atitude empática (H. Kohut, 1984) /

Atitude “Quente” (Racker H., 1988) / Como lidar com o Indivíduo/Grupo (E.L. Cortesão, 1967; 1979; 1988; 1989); (I.M. Neto, 1991; 1999)

(A Escola Portuguesa de Grupanálise enfatiza o indivíduo no contexto de grupo).
Os seus Propósitos

1. Promover uma Visão Racional e Emocional

2. Trazer Mudanças Significativas em cada um Self

3. Proporcionar um desenvolvimento e restruturação diferenciada das funções do Self num qualquer membro do grupo para aceder à autônoma, natural e coerente Interdependência psicológica

4. Numa palavra: O Processo Grupanalítico.

(Neto, 1991, 1999a); (Nava & Neto, 2004); (Nava, 2006)


Para Ana Sofia Nava (2005) "este processo é gradual e harmonioso para que eventualmente os dois padrões interpenetram e capacitar um ao outro" (Nava, 2005) criando deste modo, as características de funcionamento específicas para cada dinâmica de grupo. Assim o padrão gradualmente deixa de ser considerado como pertencendo ao analista do grupo, pois o grupo espontaneamente o integra e toma posse dela.

De modo sucinto, nós podemos afirmar que esta conceptualização de Padrão é uma tentativa de cobrir quase todos os aspetos do papel do analista/condutor do grupo, nomeadamente, o tipo de pessoa que ele é; o que ele representa para cada membro do grupo; como ele trabalha com o grupo; a sua influência para a dinâmica de grupo e como estes fatores são influenciados através da sua busca pela verdade, sabedoria e equilíbrio emocional de no Self de cada membro do grupo, promovendo um melhor funcionamento interdependente entre os membros do grupo.

Como pensar o Papel do Grupanalista perante o Grupo?

Após esta revisão assaz exaustiva, nós podemos perceber o papel do terapeuta como sendo bastante específico e diferente em termos de tarefa, envolvimento, expectativas e objetivos, daqueles papéis desempenhados por qualquer outro membro do grupo. O terapeuta analítico de grupo ou grupanalista é o único a criar as condições iniciais para a existência do grupo desde que inicia um processo de seleção entre seus pacientes, quando decide qual o local e as condições da sala de terapia, assim como, a frequência e duração dos encontros. Ou quando introduz as regras fundamentais e enfatiza quais os limites físicos e psicológicos que a estruturação de grupo poderá necessitar para uma adequada progressão da experiência que é estar-se em grupo. Além disso, quando propõe a todos os membros do grupo deverem estar dispostos a compreender, lidar e interagir com as suas emoções, sentimentos e pensamentos entre si.

Afinal a sua principal atividade é a de produzir intervenções e emitir interpretações cuja finalidade geral é a de revelar o material latente e inconsciente por de trás das resistências de algum dos membros e do próprio processo de grupo, e propondo a sua reflexão e elaboração mental e ainda a maneira como o faz, o seu estilo de trabalho, também pode contribuir para a obstrução ou a evolução do próprio processo grupal.

Para além do que já foi mencionado sobre a complexidade da essência do papel de terapeuta perante o grupo, o autor considera que o mais importante é o nível de comprometimento e envolvimento de cada grupanalista vai revelando ao longo do processo de grupo.

Bibliografia

Ahlin, G. (2010). Activity versus Passivity in Conductor Styles: Further Reflections about Egyptian and Group-Analytic Conductor styles in Group Psychotherapy, Group Analysis, Vol. 43(2), pp: 185-189.

Ancona, L. (1989/1992). Matrix e Pattern en Analyse de Groupe ou Group-Analyse. Grupanálise, Nº4, pp:39-45.

Brito, E. (1989/1992). O Padrão Grupanalítico. Grupanálise, Nº4, pp:7-22.

Cortesão, E.L. (1967). Some further thoughts on the concept of group matrix and pattern. Group Analysis, Nº1, pp: 35-36.

Cortesão, E.L. (1979). L’interpretation en groupanalyse, Perspectives Psychiatriques. Nº11, pp: 103-115.

Cortesão, E.L. (1988). O Padrão Grupanalítico, Grupanálise, Nº1, pp: 7-22.

Cortesão, E.L. (1989/2008). Grupanálise – Teoria e Técnica. (Ed.) Sociedade Portuguesa de Grupanálise, Lisboa: Portugal.

Dinis, C.V. (2002). A Neutralidade Possível ou a Pessoalidade Resgatada. Revista Portuguesa de Grupanálise, Nº4, pp: 7-23.

Dinis, C.V. (2005). “Um entre Outros” ou “Primus Inter Pares”. Revista Portuguesa de Grupanálise, (Nova Série), pp: 9-16.

Fairbain, R. (1949/1972). Estudos Psicanalíticos da Personalidade. (Ed.) Vega, Colecção Universidade, Lisboa: Portugal.

Ferreira, G. (2002). Crescimento, Criação e Celebração nos Grupos. Revista Portuguesa de Grupanálise, Nº4, pp: 24-31.

Foulkes, S.H. (1948/1983). Introduction to Group-Analytic Psychotherapy. (Ed.) Karnac (Reprint), London: UK.

Foulkes, S.H. & Anthony, E.J. (1957/1984). Group-Psychotherapy – The Psychoanalytic Approach. (Ed.) Karnac (Reprint), London: UK.

Foulkes, S.H. (1964). The Therapeutic Group Analysis. (Ed.) George Allen & Unwin, London: UK.

Foulkes, S.H. (1967). The Concept of Group Matrix, Group Analysis, Nº1, pp: 31-35.

Foulkes, S.H. (1971). Access to Unconscious Processes in the Group Analytic Group, Group Analysis Vol.4, pp: 4-14. Also in Foulkes, S.H. (1990). Selected Papers: Psychoanalysis and group Analysis. (Ed.) Karnac Books, London: UK.

Garland, C.; Kennard, D.; Roberts, J.P.; Winter, D.A.; Caine T.M.; Dick B. & Stevenson, F.B. (1984). What Is a Group Analyst? A Preliminary Investigation of Conductors' Interventions, Group Analysis, Nº17, pp: 137-145.

Grotjahn, M. (1987). How much of an actor is a group-analyst allowed to be?, Group-Analysis, Nº20(2), pp: 155-156.

Hopper, E. (1982). Group-analysis: the problem of context, Group-Analysis, Nº15(2): 136-157.

Horne, A. (1992). Control and Leadership in Group Psychotherapy, Group Analysis, Nº25, pp: 195-205.

Hutchinson, S. (2009). Foulkesian Authority: Another View. Response to Lecture by Morris Nitsun, Group Analysis, Nº42(4), pp: 354-360.

Klain, E. (2009). Is Amplification a Special Intervention in Group Analysis?, Acta Medica Saliniana , Nº9(1), pp: 14-18.

Kohut, H. (1984). How does analysis cure?. (Ed.) The University of Chicago Press, Chicago: USA

Lear, T. (1985). The Inspiring Rôle of the Conductor. Group Analysis, Nº18, pp: 150-154.

Nava A.S. (2003). O Inconsciente e Grupanálise. Pode ir mais Além, Grupanaliseonline, Nº1, pp: 37-42. (Ver) http: www.grupanalise.pt

Nava, A.S. & Neto I.M. (2004). Os Portugueses à Redescoberta do Padrão, Oral Presentation, Lisboa: Portugal.

Nava, A.S. (2005). Pattern, Oral Presentation. 35Th GAS Winter Workshop, January, Lisbon: Portugal

Nava, A.S. (2006). Padrão/ Matriz / Processo Grupanalítico / Empatia. Grupanaliseonline, (4): 8-14, (Ver) http: www.grupanalise.pt.

Neto, I.M. (1999a). O Padrão – A importância do grupo-analista na Grupanálise, Oral Presentation. Xº Congresso Brasileiro de Psicoterapia Analítica de Grupo / Vº Encontro Luso-Brasileiro de Grupanálise e Psicoterapia Analítica de Grupo, Novembro, Rio de Janeiro: Brasil.

Neto, I.M. (1999b). The freedom and the capacity to say NO and its healing potential. Oral Presentation. EFPP 2º European Conference on Group Psychoanalytic Psychotherapy, 28-29-30 May, Barcelona: Spain.

Nitsun, M. (1996). The Anti-Group - Destructive forces in the group and their creative potential. (Ed.) Routledge, International Library of Group Psychotherapy and Group Process, London & New York.

Nitsun, M. (2006). The Group as an Object of Desire: Exploring Sexuality in Group Psychotherapy. (Ed.) Routledge, London: UK.

Nitsun, M. (2009). Authority and Revolt: The Challenges of Group Leadership (33rd Foulkes Annual Lecture), Group Analysis, Nº42(4), pp: 325-348.

Pisani, R.A. (2012). A Comparison between the Art of Conducting in Groupanalysis and the Art of Conducting an Orchestra. Oral Presentation. (Ed.) Edizioni Universitarie Romane, Roma: Itália.

Racker, H. (1988). Estudos sobre Técnica Psicanalítica. (Ed.) Artmed, Porto Alegre: Brasil.



Zelaskowski, P. (1993). The Role of the Conductor in Group, Group Analysis, Nº26(1), pp: 75-80.


RevistaOnline – Nova Série - 2016


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal