Autor: Teresa Ann Southwick



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assistente e nada mais. Não podemos ter os negócios de El Zafir prejudicados porque resolveste namoriscar com outro membro do nosso pessoal.



- Obrigado, tia Farrah - disse ele, sem conseguir deixar de sorrir.

- Isto não é um elogio. E dir-te-ei mais uma vez: sê profissional e cortês no ambiente de trabalho. Só isso.

- Sou um príncipe. A benevolência é um dos meus atributos. Tu mesma me ensinaste a ser simpático. E eu aprendi.

- Também te ensinei a respeitar os mais velhos, meu menino, e estás a agir como um menino caprichoso.

- Pelo contrário. Não me vejo dessa maneira, de modo algum.

- Claro que não. Nunca te vês. Nem os teus irmãos.

- O que é que o Kamal e o Fariq têm a ver com isto?

- Nada. Estou apenas a expor uma realidade.

- Os homens da família real Hassan juraram submissão ao país e à família. Somos os protectores do povo de El Zafir. Não podemos errar.
- Essa é uma responsabilidade sagrada e séria, meu sobrinho. E encontrei uma rapariga que, acho eu, fará um excelente trabalho e será uma óptima assistente. Uma pessoa brilhante e alegre, que gostaria que permanecesse comigo durante anos. Peço apenas que não faças nada que a obrigue a voltar para os Estados Unidos.

- Nem me passaria pela cabeça; tia.

- Até tenho medo quando tu és assim tão simpático e cordial.

Rafiq ia retrucar, mas ela fê-lo parar com um aceno.

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- Estou a ser sincero.



- Espero que sim, pelo bem da paz do palácio. Quando Rafiq saiu dos aposentos da tia, os seus pensamentos voltaram-se para Penelope. Brilhante e alegre? Não tinha a certeza de ter reparado nessas qualidades. Talvez devesse falar com ela outra vez, só para se certificar que não a tinha subestimado. Ou para a conhecer melhor.
Capítulo 2

Penelope andava de um lado para o outro na sua suite. Esgotada pelo nervosismo e pela pequena quantidade de cafeína consumida, não conseguia descontrair-se. Se, pelo menos, conseguisse dormir...

Gostou do facto dos seus aposentos serem tão grandes, pois desse modo tinha muito espaço para andar e tentar acalmar-se.

Como é que pudera ser tão estúpida e porque é que ele a deixara continuar a falar?

Rafiq. O nome combinava com ele: misterioso. O príncipe era muito bonito, mas isso não desculpava a sua conduta. Afinal de contas, ele era um governante do seu país.

Mortificada, Penelope lembrou-se da conversa fútil que mantivera com ele. Rafiq sabia qual o salário que lhe iriam pagar. Era sobrinho da princesa Farrah. E ela, muito ingénua, confessara que o achava bonito. Meu Deus! Dissera tantas parvoíces!

Cobriu o rosto com as mãos, desejando que a fadiga pudesse bloquear a cena humilhante. Fizera papel de parva.

Não era a primeira vez que um homem a fazia passar por parva. Da última vez; úm homem roubara o seu dinheiro e desaparecera. Como seria bom poder desaparecer!

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Rafiq dera-lhe o resto do dia de folga. Para se habituar ao ambiente, dissera ele.



- Quem me dera estar morta - murmurou Penelope. Bem, se desse ali o seu último suspiro, o cenário seria fabuloso. As paredes eram brancas, mas a cor era quebrada pelas tapeçarias que estavam penduradas, na sala de visitas, sala de jantar e quarto, que formavam a magnífica suite. Um sofá macio estava num canto da sala que se abria para um jardim colorido.

Também havia vasos de flores sob as janelas. Não se avistava o oceano, mas da sacada conseguia sentir-se a fragrância do mar misturada com o perfume das flores. Os dois aromas juntos criavam um aroma inebriante que ela nunca sentira antes.

O quarto tinha uma cama grande com quatro colunas, uma cómoda e um armário enorme. Como se ela tivesse roupas suficientes para os encher... Ao canto, uma poltrona e uma chaise-longue forradas com tecido branco.

Mas o que estava a fazer ali? Era uma pergunta retórica, que, por isso, não exigia resposta. Não ficaria ali durante muito tempo. Não depois da vergonha que passara com o príncipe.


Rafiq dera-lhe folga, mas Penelope achava que era um preâmbulo para a despedir: Não a deixaria ficar depois de ter sido insultado por ela. Penelope não o conhecia, mas isso não justificava o monte de parvoíces que lhe dissera. Na realidade, o príncipe Rafiq apanhara-a desprevenida e alimentara o seu engano. Mas tratava-se de um príncipe e ela... não passava de uma simples plebeia.

Uma batida inesperada na porta fez com que o seu coração se acelerasse.

Devia ser ele.

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Seria deportada para os Estados Unidos naquele preciso instante.



Abriu.

Era ele! Pela segunda vez naquele dia, Penelope sentiu-se incapaz de pronunciar uma palavra.

- Posso entrar?

- Claro que sim - ela desviou-se e seguiu-o. O príncipe fitou-a.

- Está diferente.

- Sou a mesma pessoa. Só não tenho como... Ele apontou para as calças que ela tinha vestidas.

- Estou a referir-me às suas roupas.

- Oh - Penelope olhou para os pés descalços, para as calças de ganga e para a camisola que tinha escrito HTexas.

Quando voltou a olhar para o príncipe, julgou ter visto um brilho diferente, algo que não conseguiu decifrar. Mas ocorreu-lhe apenas um termo para descrever aquelas íris negras: ardentes.

A pesquisa que fizera sobre o país e a familia real revelara que o sobrenome dele, Hassan, significava bonito" e Rafiq era realmente um bom exemplo.

O rosto dele era largo, o queixo quadrado, másculo, muito perto da perfeição. De estatura alta, ombros largos e o tórax forte e delineado. Vestia um fato azul-marinho e era muito diferente do protótipo do cowboy texano.

Penelope tinha as palmas das mãos húmidas, o pulso acelerado e os joelhos a tremer.

- Eu não...

- Sim?


- Como é que o devo tratar? Sua Majestade? Alteza? Príncipe?

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Estava a ser impertinente, mas não conseguiu evitá-lo. Além disso, o que é que tinha a perder? Embora ele tivesse parte da culpa, Rafiq devia estar ali para a demitir. Dali iria directamente para o aeroporto.



- Pode tratar-me por Vossa Alteza, príncipe Rafiq Hassan, Ministro do Interior e dos Negócios Estrangeiros, o benevolente.

Penelope pensou em pegar num bloco de notas para escrever tudo o que ele dissera, quando o viu sorrir.

- Está a brincar...

- Sim, estou.

- Graças a Deus!

- Porquê?

- Porque tem sentido de humor.

- Duvidava disso?


O príncipe continuava a sorrir e Penelope percebeu que ele não era arrogante, nem parecia um carrasco de mulheres incautas.

- Por altura do nosso primeiro encontro, nem esboçou um sorriso.

- Por isso é que estou aqui, Penhelope.

- Para me mostrar que sabe sorrir?

- Não. Para... começar de novo.

Por uma fracção de segundo, Penelope achou que Rafq ia pedir desculpa por a ter induzido a agir como uma idiota. Olhou-o e ajustou os óculos sobre o nariz.

- Pensei que tinha vindo até aqui para acabar comigo.

- Porquê?

- Estava a pensar que seria esconjurada e esquartejada na praça pública ao cair da tarde.

- Na verdade, ocorreu- me a ideia de a decapitar.

- Não!

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- Sim. Ou de lhe cortar a língua.



Penelope deu um passo atrás antes de perceber que ainda sorria. Um sorriso bonito, que mostrava dentes brancos e perfeitos.

- Está a brincar comigo...

- Estou - Rafiq enfiou as mãos nos bolsos. - Pensou que a ia demitir?

- Era capaz de jurar que sim. Teria motivos para isso.

- Não estou aqui para fazer nada disso.

- Isso é um alívio. Mas tem que admitir que, se me tivesse dito quem era, eu não teria entornado a chávena do café na alcatifa do seu escritório.

- Não tenho que admitir nada - respondeu, com um ar sério: - sou o príncipe.

- É claro. E um príncipe é o chefe de todos os mortais.

- Mais ou menos isso - as suas pupilas cintilavam, o que demonstrava o seu bom-humor.

- Se não foi para admitir a sua parcela de culpa, porque é que está aqui?

- Para lhe dar as boas-vindas.

- Obrigada - inclinou a cabeça para o lado. - Ainda não me disse como é que o devo tratar.

- Em público, deverá ser por príncipe Rafiq. Em particular, quando estivermos a trabalhar, o meu nome é suficiente e mais apropriado.

RafiqH... Penelope teve um calafrio.

Ele era diferente de todos os homens que conhecera. O simples facto de pronunciar do seu nome já envolvia uma atmosfera de magia, encantamento e romance. Pela primeira vez, admitia que os cartazes sobre o país eram verdadeiros.

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- Cabe-me treiná-la e...



- Pensei que eu fosse trabalhar para a princesa Farrah.

- Houve uma mudança de planos. O meu pai ficou com o meu assistente e a minha tia...

- A princesa Farrah?

- Isso mesmo. Ela é irmã do meu pai e passou-a para mim.

Os arrepios voltaram ao ouvir que ela tinha sido transferida para ele. Porque é que o seu pensamento vagueava tanto, afinal?
Aquele era um país exótico, com uma cultura e história diferentes. Nos filmes eram sempre mostrados os vultos de mulheres a serem espancadas de joelhos e levadas por homens que as hipnotizavam. As feministas podiam fazer objecções, mas Penelope tinha a sensação de que o mero facto de ver Rafiq tornaria qualquer mulher uma escrava.

- Então, trabalharei consigo?

Ele confirmou, abanando a cabeça.

- Se quiser, posso mandar vir chocolate, para que possamos ter uma boa conversa.

- É mesmo diferente dos outros homens.

Meu Deus! Não conseguia acreditar que dissera aquilo. Como é que um único ser humano era capaz de dizer tanta parvoíce junta? Agora sabia quem ele era!

- Diferente? - Rafiq não parecia chocado, nem ofendido. Apenas curioso.

- De onde eu venho, há programas de televisão sobre a crença de que a maioria dos homens não ouve o que as mulheres dizem.

- Talvez os cowboys texanos deixem muito a desejar. Sim, ele ouvira a sua observação. Penelope corou.

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- É possível que ouvir e recordar seja demasiado para eles.



Rafiq achou graça. Os seus dentes seriam mesmo branquíssimos ou o contraste com sua pele morena era o que os fazia parecer mais claros?

- Com todo o respeito, Penelope, ainda não encontrei uma mulher que prefira ser ignorada por um homem. Ele parecia ser um grande conhecedor do sexo oposto. Isso corroborava o que Penelope tinha lido a respeito da família real. Lera nos jornais sensacionalistas os detalhes das aventuras românticas do príncipe Rafiq. Até vira fotografias dele,o que a fez sentir-se ainda mais ridícula por não o ter reconhecido. Mas em pessoa,em carne e osso,era muito mais bonito do que nos jornais e nas revistas. Com quantas raparigas é que ele se teria envolvido? Dez? Vinte? Cem? E com quantos cowboys é que ela se envolvera? Zero. Nenhum. Portanto,quem é que era mais qualificado para avaliar? - Pois. Tem razão. - Obrigado - olhou em redor. - Espero que as instalações sejam satisfatórias. - Nem me diga nada! Este é o lugar mais bonito em que já estive. - Comparado com o Texas? - Comparado com qualquer outro lugar. Até com o hotel onde me encontrei com a sua tia. - É mais sóbrio do que o hotel de Nova Iorque que a tia Farrah prefere. - Mas a simplicidade é mais bonita. Às vezes quanto menos melhor.

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- Percebo bem o que quer dizer.



Penelope achou novamente que o olhar negro de Rafiq era ardente.

Fez-se silêncio e ela sentiu falta de ar.

- Fale-me de si, Penelope.

A sugestão surpreendeu-a. Não tinha a certeza do motivo, mas pareceu-lhe estranho que um membro da família real se interessasse pela sua humilde pessoa.

- Não se quer sentar, Rafiq?

Ele hesitou apenas um instante. Com uma graciosidade atlética, sentou-se no sofá e convidou-a a acomodar-se ao seu lado.

Penelope obedeceu, deixando uma distância apropriada entre os dois.

- O que é que gostaria de saber sobre mim?


- Porque é que deixou o seu país para trabalhar num lugar tão distante como El Zafir?

Havia muitos motivos.

- O seu país é muito progressista.

- Estamos a trabalhar muito para o conseguir. E que mais?

- Acho que já disse que o salário é bom - afirmou ela, a sorrir.

- Sim, já. O dinheiro é importante para si?

- Só uma pessoa que nunca teve problemas financeiros faria essa pergunta.

- Isso significa sim"?

- Logicamente.

- Diga-me porquê.

- Não quer realmente saber.

- Antes pelo contrário. Quero, sim.

- O dinheiro é importante para mim porque a minha mãe teve que trabalhar demasiado para nos sustentar.

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- E o seu pai?



- Nunca o conheci. Sempre fomos apenas a minha mãe e eu. E ela morreu quando eu era pequena.

- A minha também. A tia Farrah preencheu a lacuna, quando a mamã partiu.

- Teve sorte. Eu não tive ninguém para tomar conta de mim. Fui criada em orfanatos.

- Lamento muito.

- Aos dezoito anos, o Estado diz que uma pessoa já é adulta e que tem que tomar conta de si mesma.

- O Estado está errado. Nessa idade somos ainda crianças.

Ela encolheu os ombros.

- Talvez. Mas eu estava determinada a formar-me.

- E conseguiu. Formou-se em Pedagogia e Administração. A minha tia disse-me que trabalhou para Sam Prescott, em Dallas.

- Sim. Os Prescott têm sido muito bons para mim. Na realidade, foi Sam quem sugeriu que eu viesse trabalhar para El Zafir.

Porque planeara abrir a sua própria escola pré-primária e, como era parva, perdera o dinheiro todo.

No entanto, Penelope achou que Rafiq não quereria ouvir a sua história. E ela também não desejava contar esses factos. Não queria que o príncipe soubesse o quanto fora estúpida, enganada por um homem bonito. Jurara nunca mais deixar que isso acontecesse.

Rafiq olhava-a com tanta intensidade que Penelope teve a sensação de que ele estava a ler a sua alma. Esperava que não. O príncipe não quereria que uma pessoa tão crédula como ela trabalhasse para ele.

- Conheço Sam Prescott desde pequeno. Há alguma

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razão em particular para que queira ganhar muito dinheiro, Penelope?



Porque prometera à sua mãe. O voto que fizera, há muito tempo atrás, significava tudo para ela. Mas ele não quereria ouvir nada a esse respeito. Era um homem de negócios.

- O meu sonho é abrir uma escola pré- primária.

- Porquê?

- Não é óbvio?

- O que eu quero dizer é: porquê uma escola pré-primária?

- Ah... Porque gosto muito de crianças.


Ela percebeu que Rafiq não estava aborrecido com a conversa. Pelo contrário, parecia interessado, o que lhe deu coragem para prosseguir:

- Acho que é hereditário. A minha mãe adorava leccionar na escola primária. Antes de eu ter idade suficiente para começar os estudos, ela lutava para pagar uma creche.

- Uma escola pré-primária teria uma dupla função: criar e educar. É isso?

- Sim. Enquanto as mulheres fizerem parte da força de trabalho, e eu não vejo como isso poderá mudar, a qualidade do lugar onde as crianças possam ficar será uma preocupação.

- Em El Zafir também.

- A sério?

Rafiq constatou como Penelope se sentia confortável no sofá. Recostara-se, apesar do sofá ser grande e dos seus pés mal tocarem no chão. Pés pequenos, reparou ele, e descalços, com unhas pintadas com verniz vermelho. Eram atraentes.

Ela pôs as pernas de lado e descansou o cotovelo

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nas costas do sofá. Os seus cabelos loiros não estavam



maispuxados para trás,estavam presos na nuca mas

com algumas madeixas caídas ao lado do rosto.

Rafiq teve vontade de afastar as madeixas. Lutava

contra essa tentação desde que ela lhe abrira a porta.

Penelope já não estava com o vestido largo. Vestira

umas calças que marcavam a sua cintura fina e as pernas esguias. Tinha o aspecto oposto ao das mulheres

que interessavam a Rafiq. Era evidente que esperava

que ele continuasse a conversa,mas o príncipe tinha-se esquecido do assunto em causa.

- Pensei que em El Zafir a maioria das mulheres

não trabalhasse fora de casa.

- Cada vez mais,neste país,elas optam por seguir

uma carreira.

- Quer dizer que as crianças começaram a tornar-se

um problema.

- Exacto.

- Eu ainda gostaria de saber porque é que o seu irmão

quis uma ama simples e comum para os seus filhos.

Rafiq observava os lábios de Penelope. Eram muito

sensuais. Teve vontade de experimentá-los,mas não

podia. Ela seria a sua assistente,nada mais. Tinha que

ter isso sempre em mente e esquecer as formas curvilíneas que as calças de ganga delineavam.

Era o seu patrão e ela não passava de uma criança.

Rafiq tinha vinte e nove anos,mas Penelope fazia-o

sentir-se como um velho.

- Tenho que me ir embora - levantou-se. - A respeito do trabalho...

- Sim?


Penelope também se pôs de pé. A sua cabeça mal

chegava aos ombros dele.

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Rafiq sentiu necessidade de a proteger. O mesmo que sentiria por uma criança, tentava ele pensar para se enganar a si próprio. Essa reacção espantosa surgira só porque ele se relacionava apenas com raparigas altas. Nenhuma delas evocara o seu instinto protector.


Segundo a sua tia, Penelope fora magoada e Rafiq reconhecera a desilusão no olhar dela, quando falara do seu sonho de abrir uma escola pré-primária. Teve raiva do homem que a enganara.

- E quanto ao trabalho? - instigou-o ela.

- Pois, eu...

- A que horas quer que eu compareça no escritório?

- Às nove. Ela sorriu.

- Pelo menos não apanharei trânsito.

- Não - Rafiq pigarreou. - Quanto às suas roupas...

- A sua tia já me orientou sobre esse ponto. Não se usa calças compridas em público. Ela disse que em El Zafir uma mulher cobre sempre os braços e que as saias devem ficar abaixo dos joelhos.

- Certo.

- Então, até amanhã.

- Até amanhã, Penelope.

- Esperarei ansiosa.

Ele também. Mais do que deveria.

Capítulo 3

Penelope fechou a porta da suite para ir jantar com os Hassan. Sentiu- se outra vez como Dorothy a caminho da Cidade das Esmeraldas, ou qualquer outra personagem de um conto de fadas.

Comeria uma refeição com a familia real. A qualquer momento, poderia começar a bater as asas e voar como uma fada.

Após uma semana em El Zafir sentia-se um pouco mais confortável a andar pelo palácio, sem precisar de uma bússola. Conhecia o caminho até à sala de jantar. Mas como conseguir parar de tremer depois de ter recebido o convite da própria princesa Farrah? Deveria ter recusado?

O seu bom senso dissera-lhe que não era nada inteligente morder a mão que a alimentava. Recusar não era uma opção. Além disso, gostava da princesa e respeitava-a.

Descendo as escadas, apoiou-se no corrimão. A escadaria de mármore tinha uma passadeira ao centro. No final dos degraus, Penelope virou à esquerda e empurrou a porta dupla que levava à sala de jantar, repetindo para si mesma que não deveria falar demais.

Olhou para dentro da divisão e surpreendeu-se ao ver que toda a família real já se encontrava presente.

Estaria atrasada? Odiava atrasar-se e entrar num

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recinto onde todos a observassem. Pelo menos, ainda não havia ninguém à mesa.



Consultou o relógio de pulso. Adiantara-se dez minutos, para tentar chegar antes de todos, mas não conseguira. A familia real era mais pontual do que ela. Detestava atrasos e nervosismos, dois factores que tinham causado o seu desastroso primeiro encontro com o príncipe.

Cumprimentou todos, um por um.

Tinha que agir com cautela, para não atirar ao chão um chapéu, uma coroa ou... o café.

Como um íman a atrair o metal, o seu olhar procurou o seu chefe. Rafiq, que conversava com os irmãos, sorriu-lhe. Num instante, o homem sério, altivo e autoritário com que se familiarizara deixou de existir. Penelope sentiu as pernas fracas de novo, mas por uma razão diferente: era muito mais fácil relacionar-se com o patrão do que com o homem que sorria para ela de maneira informal.


Rafiq dissera-lhe que, quando não estivessem em público, poderia dirigir-se a ele pelo seu primeiro nome. Seria este jantar um acontecimento informal? Como deveria tratá-lo?

Como gostaria de ter um pouco de traquejo social. Olhou para o vestido preto longo que usava e lembrou-se que a rapariga que lho vendera lhe dissera que nunca se erra ao usar um vestido preto. O seu primeiro equívoco fora acreditar numa adolescente de cabelos cor-de-rosa, mas não tinha dinheiro para comprar coisas melhores.

- Ah, Penelope - a princesa Farrah, num vestido de seda verde-escuro e brincos de brilhantes nas orelhas, aproximou-se para a cumprimentar.

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- Boa noite, Alteza. Espero não estar atrasada. A senhora disse que...



- Não, querida. Está perfeita, não está, Camil - perguntou ao rei.

A dois passos de distância,o rei virou-se e cumprimentou-a.

- Menina Doyle,fico muito contente por a ter connosco no jantar desta noite.

- Foi muita gentileza da sua parte em convidar-me,

Majestade.

A princesa dissera-lhe que seria um jantar íntimo,

em familia.

Encontrando o olhar da princesa,Penelope indagou:

- A senhora veste-se assim todas as noites, para jantar?

- Três ou quatro vezes por semana - a princesa sorriu. - Nos eventos oficiais veste-se black-tie ou roupas mais formais.

- O que temos aqui não é formal?

- De modo algum! É um jantar em familia. Penelope sentiu um aperto no estômago. Deviam estar todos a rir-se dela.

- Então, para a familia real, estas roupas são casuais?

- Sim, acho que se podem chamar assim - respondeu o rei.

- Perdão, Majestade, não quis ser impertinente. É que não tenho referências para avaliar uma situação como esta. O senhor foi muito gentil em convidar-me. Assim, estou a ter a oportunidade de ver a quem o seu filho herdou a boa aparência.

Um elogio fica sempre bem.

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O rei achou graça e inclinou-se um pouco.



- A Farrah tem razão. A menina é mesmo como uma lufada de ar fresco. E também muito lisonjeira.

- Pelo contrário, Majestade. A lisonja implica falta de sinceridade e asseguro-lhe que estou a ser sincera.

Rafiq era muito parecido com o pai. O rei Camil estava nos seus cinquenta anos, mas parecia ter menos de quarenta. Não seria exagero dizer que poderia passar por irmão mais velho dos seus belos e ardentes filhos. O monarca lembrava um actor de cinema e Penelope não percebia porque é que ele e a princesa Farrah não tinham marido e mulher, respectivamente.

- Nós gostaríamos de a receber de maneira apropriada no nosso país - disse o rei.

A princesa bebeu um gole do seu copo e acrescentou:

- Eu esperava que o Rafiq lhe tivesse feito o convite. Quando percebi que o meu sobrinho se esquecera, apressei-me a rectificar a situação.

Penelope achou que Rafiq poderia ter-se esquecido de propósito, com medo que ela atirasse alguma coisa para cima do seu fato Armani.
Embora o seu relacionamento com o príncipe estivesse a progredir muito, Penelope achava que ele nunca se esqueceria do infame incidente com o café.

Nesse momento, Rafiq juntou-se a eles.

- Boa noite, Penelope.

- Olá - a sua voz saiu fraca e ela desejou do fundo do coração que fosse devido à escadaria que descera.

- Posso servir-lhe uma taça de champanhe? - ofereceu-lhe Rafiq.

- Sim, obrigada. Nunca bebi champanhe - disse, fitando-o a sorrir. - Acho que vai querer manter-se afastado de mim.

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- E porque razão faria isso? O dia da sua chegada não foi, estou certo, a primeira vez que bebeu café.



- Acho que é demais querer que esqueça aquele incidente, não é?




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