Autor: Teresa Ann Southwick



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Rafiq conseguiria.

Rapidamente,ela afastou-se rumo ao palácio.

Rafiq dissera que a protegeria,mas quem a protegeria dele? Fora enganada por um homem que queria o

seu dinheiro. Mas Rafiq era muito rico,mais do que


ela poderia imaginar. Sendo assim,porque é que a beijara? O que é que queria dela?

Por que razão não conseguia resistir ao xeque? Estaria destinada a só atrair os homens errados?

Seria verdade o que se dizia nos talk-shows: há mulheres que se apaixonam pelos homens errados porque

têm medo de ser felizes?

Ao entrar no salão,Penelope já tinha constatado

que corria o perigo de se apaixonar por alguém muito

diferente dela e que seria uma completa idiota se

caísse na armadilha.

Uma gargalhada histérica irrompeu dentro dela

quando pensou na Cinderela a perder o sapato de cristal ao fugir do palácio. Penelope entrava no palácio e

corria o perigo de perder muito mais do que um sapato. E os seus sonhos poderiam desvanecer-se.

A última vez que se apaixonara,por um grande vigarista,o seu sonho escapara-lhe por enttre os dedos.

Jurara nunca mais ser parva.

Todavia,a intensidade dos seus sentimentos por

Rafiq apavorava-a.

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Tinha que ser cautelosa, pois algo lhe dizia que essa experiência poderia ser ainda pior.

Desta vez, poderia perder tudo: o seu coração e a sua alma.

Capítulo 10

Onde estaria Penelope?

puxando o seu cavalo pelas rédeas,Rafiq olhou

para o caminho que levava até ao palácio. O animal relinchou e ergueu a cabeça,sentindo a aflição do dono.

Penelope já deveria ter chegado.

Os cavalos já tinham sido selados e,naquele momento,Rafiq esperava por ela do lado de fora do estábulo. Era uma manhã de Primavera e tinham por hábito cavalgar antes de iniciar o expediente no escritório.

Rafiq achava que era um modo agradável de começar o dia,mas desconfiava que isso era apenas mais

um estratagema do seu subconsciente para ficar perto

de Penelope. Mas,naquela manhã,sentia-se mais ansioso para começar os exercícios.

Porque seria?

Teria alguma coisa a ver com o facto de Penelope

ter fugido dele na última vez em que tinham estado

juntos? Ela tentara disfarçar,mas,na realidade,fugira.

E as mulheres não costumavam fugir de Rafiq Hassan; pelo contrário,estavam sempre a persegui-lo.

Não via Penelope desde o baile. Não tinham trabalhado no fim-de-semana e ele mantivera-se ocupado

com assuntos familiares e negócios de Estado.

Apesar da linda manhã e da brisa fresca que trazia o

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perfume do Mar da Arábia,Rafiq estava muito impaciente. Deveria procurá-la?

Lembrou-se da expressão assustada de Penelope na

noite do baile,antes de fugir dele. Se o seu irmão não o

tivesse atrapalhado,teria ido atrás dela. Não a teria

deixado ir-se embora.

Quando,por fim,conseguira desenvencilhar-se de


Kamil,não fora capaz de a encontrar.

E Penelope ocupava,incessantemente,os seus pensamentos. Tinha que a ver com urgência! E essa necessidade era-lhe estranha.

Seria amor?

Resmungou e o cavalo ergueu a cabeça,inquieto.

Rafiq acalmou o animal:

- Não pode ser amor,meu amigo.

De súbito,recordou a questão que Farrah lhe colocara no dia em que Penelope chegara. A sua tia perguntara se ele já estivera apaixonado.

Nunca. Nesse sentido,teria a sua educação sido deficiente?

- A emoção é apenas uma fraqueza,algo que deixa

o homem muito vulnerável. Estou imune a isso - afirmou Rafiq para si mesmo.

No entanto,não estava imune ao ciúme. Não queria

ver Penelope a conversar com outro homem. Sobretudo,depois do beijo que tinham trocado.

Sabia que Penelope também o desejava,com

a mesma intensidade que ele.

Não sabia se devia insultar Kamal ou agradecera intromissão,que,afinal de contas,o ajudara a manter

a promessa que fizera à tia de não tocar na sua assistente.

- Onde é que ela estará,amigo? - deu algumas

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palmadinhas no pescoço do animal. - Se Penelope não

chegar depressa,iremos procurá-la.

No momento seguinte,ela dobrou a esquina do estábulo,apressada.

- Olá! - cumprimentou-o,ofegante.

- Está atrasada.

- Desculpe. Vim só para avisar que não posso ir cavalgar.

- Está bem. Podemos deixar para amanhã.

- Não. Fique à vontade,Rafiq. Não poderei voltar a

cavalgar consigo.

Rafiq sentiu um misto de aborrecimento e irritação.

Teve o pressentimento de que ela pensara em não vir

sequer avisá-lo. Mas,como era uma pessoa honesta e

sincera, acabara por vir. Era essa a razão do atraso.

- Aprendi a gostar das nossas cavalgadas matinais,

Penelope. Há algum motivo para que não possa voltar

a acompanhar-me?

Ela foi até junto do seu cavalo,ficando de costas

para o xeque. Acariciou o animal e Rafiq reparou que a

sua mão tremia.

- Em breve terá o seu assistente de volta e eu estarei a trabalhar para a princesa Farrah. Não terei tempo.

Tenho que aprender regras diferentes e concentrar toda

a minha atenção nas minhas novas incumbências.

- O aborrecimento e a irritação transformaram-se em

raiva e Rafiq esforçou-se para controlar a reacção. Não

costumava ser rejeitado por uma mulher. E muito menos por aquela,que,segundo os seus instintos,também o desejava.

- Mentirosa.

Os ombros de Penelope ficaram tensos,como se ele

tivesse gritado com ela.

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- Eu não sabia que tinha tal opinião sobre mim.



- Até este momento,não tinha.
- Lamento que. não entenda,mas acho que é o melhor...

Rafiq agarrou-lhe o braço e sentiu-a tremer. Ele não

a estava a apertar,mas Penelope teve que fazer um esforço para se libertar.

No entanto,Rafiq não pretendia deixá-la ir-se embora

antes que lhe desse respostas satisfatórias. E iria deixar

claro que ela não tinha motivo nenhum para o temer.

- Aonde vai?

- Para o escritório.

- Ainda não terminámos a discussão - ele segurou-lhe os dois braços.

- Não há nada a dizer.

- Aí é que se engana. Tenho muito a dizer.

- Não adiantará de nada.

- Tem medo de mim,Penelope?

- Não posso... Por favor,deixe-me ir embora.

- É porque a beijei no jardim? Não gostou do que

sentiu? Tem medo?

- Não. Isto é... sim. Nunca senti aquilo antes.

- Ah - Rafiq sorriu,satisfeito... - Então teme as

emoções que lhe são estranhas.

- Não é apenas isso - Penelope olhava em todas

as direcções,como se procurasse um lugar para onde

escapar.


Por fim,encarou-o e nos seus belos olhos azuis

havia uma expressão triste.

- É muito complicado. Por favor,deixe-me ir embora,Rafiq.

Era o que ela mais desejava naquele momento,

Afastar-se dele.

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Mas,quanto mais Rafiq olhava para Penelope,mais

queria acariciá-la,beijá-la... possuí-la.

Prendeu os cabelos dela atrás das orelhas. Sorrindo,

Rafiq baixou a cabeça e beijou-lhe o ombro,perto do

pescoço. Penelope suspirou.

Ele não estava errado. Ela também o desejava.

Nesse caso,porque é que queria deixá-lo?

Rafiq ergueu o rosto e reparou que Penelope inclinara a cabeça,deixando livre o acesso para os beijos

dele. Os seus olhos estavam fechados,os lábios,entreabertos e a respiração acelerada.

E a imagem daquela mulher tão inocente e tão só

comoveu-o.

Antes que conseguisse reagir,ouviram passos a

aproximar-se. Virando-se,Rafiq deparou com a tia

Farrah,de calças compridas,botas até aos joelhos e camisa de seda branca. Era óbvio que ia cavalgar e Rafiq

viu a expressão de desaprovação no olhar dela. Ele conhecia muito bem aquele olhar.

- O que é que está a acontecer,Rafiq?

Tensa,Penelope deu um passo para trás.

- Princesa Farrah!

- Como vai,Penelope? - voltou a falar com o sobrinho: - Vejo que optaste por não seguir os meus conselhos.

O que é que podia dizer? Fora apanhado em flagrante. - Há uma coisa que tenho que explicar,tia. Eu tenho...

- Estou decepcionada contigo,Rafiq.

- Mas,Alteza - disse Penelope... - não aconteceu


nada. Só vim explicar ao xeque que não posso voltar a

cavalgar com ele.

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- Sim. E vejo que o meu sobrinho estava a tentar



mudar a sua decisão. Eu avisei-te,Rafiq. Mas devia ter

adivinhado. Os homens adultos são como as crianças.

Querem o que é proibido.

Rafiq endireitou os ombros.

- Sou o príncipe Rafiq Hassan e...

- E eu sou a mulher que te conhece desde que eras

um bebé. Achas que não sei o que está a acontecer

aqui?


Rafiq lutava para se manter calmo.

- Não fazes ideia do que está a acontecer,tia.

- Aí é que te enganas. Só espero que faças o que é

correcto.

Rafiq reparou na expressão desnorteada de Penelope. O seu único desejo era tomá-la nos braços para a

confortar,para explicar...

Explicar o quê? Porquê?

- Não pretendo defender-me.

Havia coisas importantes que ele tinha que discutir

com a sua secretária e não queria a sua tia,ou quem

quer que fosse,presente.

Rafiq olhou para as duas mulheres e abanou a cabeça.

- Há negócios que precisam da minha atenção.

Falarei consigo mais tarde,Penelope.

Assim que ele se foi embora,Penelope fitou a

princesa.

- Alteza,o que é que quis dizer com os homens

são crianças? Que desejam o que não podem ter?

tem a ver com Rafiq?

- Primeiro,deixe-me perguntar-lhe uma coisa:

o meu sobrinho beijou-a?

- Não - Penelope cruzou os dedos atrás das costas.

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- Então o que acabei de ver foi uma ilusão? Antes



que responda,devo dizer-lhe que a minha visão é excepcional. Estamos no deserto,mas não acredito em

alucinações. Mas posso estar errada: Pode acontecer

de vez em quando.

Penelope baixou a cabeça.

- Quer dizer que o Rafiq não a beijou?

- Ele não me beijou,Alteza.

Era quase verdade,visto que,desta vez,ele não

chegara a beijá-la. Não tivera tempo. Tinham sido interrompidos.

- Diga-me outra coisa,Penelope. Excluindo. o que

acabou de acontecer,ele alguma vez a beijou? E não

pense em mentir-me; pois eu saberei. A sinceridade foi

a primeira coisa que reparei em si e é uma das suas

maiores qualidades. Não mentiria para salvar a própria

pele.


- Aqui em El Zafir,qual é a penalidade para a mentira? Decapitação? Ser apedrejada em praça pública?

- Uma vida de infelicidade - afirmou Farrah,com

suavidade.

E isso foi o pior que ela podia ter dito.


- Sim,Alteza,eu beijei-o.

- Quem iniciou o beijo? Lembre-se,não me minta.

Tire a mão de trás das costas e pare de fazer figas,

criança.


Penelope descontraiu-se. A sua única opção era

confessar os factos.

- Está bem. Vossa Alteza venceu. O Rafiq beijou-me,mas isso foi tudo...

- E foi agradável? Gostou de o beijar?

- Foi maravilhoso - suspirou Penelope. - Mas eu

não percebo. O que é que é proibido para ele?

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- É proibido tê-la a si,minha querida.



- Eu? - pôs a mão sobre o peito,confusa. - Agora

é que não compreendo nada... É em momentos como

este que sinto mais falta da minha mãe.

A princesa aproximou-se e segurou-Lhe as mãos.

- Não é culpa sua. E espero que pense em mim

quando sentir necessidade de falar com a sua mãe.

- Sim,Alteza - Penelope percebeu que nunca mais

confiara em ninguém desde a morte da mãe. - Mas

quem é que proibiu Rafiq de me beijar?

- Eu. Antes de irem para Paris. Você é muito inocente e disse isso ao meu sobrinho. Chegou inocente

ao nosso país,meu anjo,e continuará assim.

- Não aconteceu nada entre nós,Alteza. Juro. E asseguro-lhe que não acontecerá. Era por isso que eu estava a explicar a Rafiq que não vou voltar a cavalgar

na companhia dele.

- óptimo.

Mas Penelope reparou que a princesa não parecia

muito alegre.

- Sei que é uma rapariga ajuizáda,que não será iludida por um rosto bonito e palavras lisonjeiras. Bem,

disse o que tinha que dizer,agora voltarei ao paláCio.

- Mas a senhora não ia cavalgar?

- Perdi a vontade. Almoça comigo?

- Será uma honra.

- Óptimo. Então,até mais tarde.

Capítulo 11

Penelope sentou-se na luxuosa secretária da princesa Farrah para organizar a agenda do dia. O telefone tocou e ela atendeu de imediato.

- Escritório da princesa Farrah. Fala Penelope Doyle.

- Tenho que falar consigo. É um assunto da máxima importância.

O coração de Penelope disparou ao ouvir a voz de Rafiq.

- Já tem o seu assistente de volta, Alteza. Já não trabalho para si.

Penelope deixara de trabalhar para Rafiq há três dias e odiava admitir que estava cheia de saudades dele.

- Estou ciente de que a minha tia se apropriou dos seus serviços, mas isso não muda o facto de desejar falar-Lhe.

- Estou muito ocupada - disse ela, olhando para a mesa organizada, tão diferente da dele.

- Está a evitar-me, Penelope.

- Não sabia que queria falar comigo, Alteza.

- E também não devolveu as minhas chamadas nos seus momentos de folga. Não a tenho visto nos seus passatempos habituais.


Rafiq sabia o que ela gostava de fazer quando não estava a trabalhar? questionou-se Penelope.

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Ela adorava andar a cavalo mais pelo prazer da

companhia dele do que pelo exercício. Na realidade,

adorava trabalhar com o príncipe. E estar perto dele.

Mas a princesa Farrah não permitira mais que isso

acontecesse. O assistente de Rafiq fora dispensado

pelo rei e os préstimos de Penelope tinham sido requisitados pela princesa.

- Penelope? Está aí?

- Sim.


- Quero que jante comigo hoje.

- Não posso.

- Porquê?

Penelope tinha medo. Rafiq estava a tentar seduzi-la. Não por gostar dela,mas pelo desafio. E ela

sabia muito bem que acabaria por sucumbir. Não podia

correr esse risco.

No entanto,a ideia de deixar de o ver era insuportável. Tinha consciência de que se apaixonara por Rafiq

e que,não conseguiria esconder isso dele durante muito

tempo. Não podia arriscar-se a ser demitida. A única

coisa pior do que estar apaixonada por um homem

proibido era não poder manter a promessa que fizera à

mãe.


- Porque não - respondeu,lacónica.

- Isso não é resposta. Quero que jante comigo esta

noite. Às sete. E,Penelope,pode considerar isto como

um decreto real. Uma ordem - e desligou.

Penelope parou no corredor que levava à suite

de Rafiq com a certeza de que não deveria estar ali.

era o último homem na face da terra que ela queria

E também o único que lhe interessava. Rafiq não

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necessitaria de um decreto real para conseguir isso. Bastaria a sua voz, profunda e sedutora.



Passou a mão pelos cabelos. Trazia um vestido preto, de malha, que ia desde os tornozelos ao pescoço. O xeque dissera-lhe que vestisse o outro, mas Penelope lembrara-se do olhar de Rafiq ao vê-la com aquela roupa, em Paris, e achou mais seguro não lhe obedecer.

Bem, aqui vou eu. Bateu à porta, e, segundos depois, Rafiq abriu.

A primeira impressão era de que ele estava de smoking, mas logo em seguida Penelope apercebeu-se de que se tratava de um fato escuro, camisa cinzenta e gravata no mesmo tom. Um fato comum.

Comum? Penelope quase deu uma gargalhada. No que se referia a Rafiq, nada èra comum. Ele era o homem mais diferente, intrigante e perigoso que conhecera.

- Boa noite, Penelope.

Ela não conseguiu responder, ao sentir-se observada dos pés à cabeça.

Penelope calçava sapatos pretos de saltos altos. Não conseguira resistir a usá-los.

O seu coração batia descompassado e o seu rosto estava afogueado. Mesmo assim, não se desviou dele.


- Não está com o vestido que escolhi, Penelope.

- Vossa Alteza mandou-me usar o vestido preto.

- Tem razão. Eu deveria ter sido mais específico.

Foi um erro meu. Penelope observou nos olhos de Rafiq a mesma expressão que vira em Paris. Memorizara aquele olhar ardente e o maxilar rígido. E ela nem estava a usar aquele vestido preto.

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- Entre, por favor - ele desviou-se para lhe dar passagem. Deve ser assim que a mosca se sente ao ser atraída pela aranha. - Com licença - os saltos dos seus sapatos fizeram barulho no chão de mármore. Nunca estivera ali. Era tudo muito bonito. As paredes estavam adornadas com quadros e havia várias jarras de cristal com flores frescas. Rafiq fechou a porta. - Queria que trouxesse ò outro vestido. - Pensei que eu tivesse liberdade para escolher o que visto. - Sim,tem. Nem sempre. Errara ao apaixonar-se por ele. - Nem todas as mulheres podem usar um vestido preto que lhes fique tão bem como a si. Está maravilhosa,embora eu a prefira de cabelos soltos. - Não vi essa anotação no memorando. Ele sorriu. - Da próxima vez não me esquecerei de a prevenir. Não haveria uma próxima vez,pensou Penelope. - Não faz mal. Isso é fácil de corrigir - Rafiq moveu-se para trás dela e ela reparou num grande espelho que os reflectia. O xeque ergueu os braços e começou a tirar os ganchos que lhe prendiam os cabelos. Em seguida,mergulhou o nariz na cabeleira sedosa para aspirar a sua fragrância. O calor do seu corpo,o cheiro da sua pele e o da sua presença fizeram-na estremecer: - A sua beleza é natural. Um tesouro inestimável. Penelope suspirou e virou-se para o encarar.



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- O que é que quer falar comigo, Rafiq?

- Está com pressa? Vai apanhar um avião? Ela não sabia até que ponto é que ele era capaz de ir. E isso assustava-a.

- Não. Só quero saber do que é que se trata.

- Lá chegaremos. Mas antes, vamos beber um pouco de champanhe.

- Há algo para celebrar?

- Claro! A vida.

Penelope pegou na taça que ele lhe oferecia.

- Porque não brindamos aos anjos da guarda?

- Quero brindar a si - respondeu Rafiq, com as pupilas a brilhar.

Penelope bebeu metade da taça de um só gole.

- Porquê a mim?

- Porque é uma mulher muito diferente da maioria.

- Obrigada. Eu acho...

- É um elogio - o xeque serviu mais champanhe a Penelope. - É inteligente, divertida e aprende com facilidade. Demonstra potencial para trabalhar em qualquer sector. Também é muito sensível.

Aonde é que ele queria chegar com aquilo? Penelope observava-o à luz difusa dos candelabros. O seu fato era impecável, o seu rosto, bem barbeado. Era um homem perfeito e ela era apenas uma mulher medíocre.

Teve uma leve vertigem. Ingerira apenas uma taça de champanhe e já Lhe subira à cabeça, porque comera muito pouco durante todo o dia.

- Importa-se que eu me sente?


- Desculpe - Rafiq fez-Lhe uma leve vénia, pôs a bebida de lado e fê-la acomodar-se no sofá.

- Ah, que bom - suspirou ela. - Sabe, os meus pés

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estão a começar a doer. Sempre quis saber se os sapatos deste tipo magoavam mais do que o calçado que uma rapariga simples usa.



- E então?

Eu via o preço destes e ficava escandalizada.

- E?

- Sim, magoam mais:



- Falarei com o estilista.

- Pode fazer isso? - Penelope arregalou os olhos.

- Evidentemente que sim.

Rafiq ajoelhou-se aos pés de Penelope, ergueu-lhe um pé e tirou-lhe o sapato, que colocou sobre a mesinha de centro.

- O que é que está a fazer?

- Fazendo com que se sinta melhor.

- Estou a sentir-me bem.

A próxima coisa que ele lhe diria seria sugerir que vestisse alguma coisa mais confortável? Nunca passara por aquilo, mas vira-o no cinema. Se não tivesse cuidado, Rafiq abrir-lhe-ia o vestido. Lembrou-se do que sentira quando Rafiq fizera isso, em Paris.

- Ouça, Alteza...

- O que foi? Está zangada? - ele franziu o sobrolho.

- Porque é que acha isso?

- Pelo modo como se me dirigiu. Só fala desse modo quando está zangada. Não percebo o que é que lhe pode estar a desagradar.

- Sim, estou zangada. Acha que sou assim tão ingénua a ponto de me deixar seduzir com facilidade?

- Do que é que está a falar?

- A sua tia contou-me tudo.

- "Tudo" o quê?

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- Ela explicou que lhe disse para não tocar em mim quando fomos a Paris. Afirmou que os homens são como as crianças: querem sempre o que é proibido. E como sabe... eu... eu nunca...



- Nunca esteve com um homem?

- Sim. É isso - respirou profundamente. - Mas sei reconhecer quando um rapaz quer seduzir uma rapariga. Faz tudo o que você fez: beija-a, compra-lhe roupas e sapatos caros. Toda aquela encenação na noite do baile, ameaçando matar qualquer um que se aproximasse de mim...

Penelope voltou a suspirar. Como gostaria de acreditar que Rafiq se importava com ela! Como gostaria de ter uma família, ter alguém a quem pudesse confiar as suas alegrias e as suas tristezas!

Mas Rafiq deveria estar a rir-se dela nas suas costas.

- Você é tão mau como o marginal que fingiu amar-me para roubar o meu dinheiro, Rafiq.

Era uma coisa horrível de se dizer, mas pareceu resultar. O xeque ergueu-se e encarou-a, muito sério.

- Como ousa insultar-me, comparando-me àquele marginal?

- Se a carapuça lhe serviu... E não é só isso. Tem que melhorar a sua estratégia. Aonde é que quer chegar dizendo que sou invulgar, divertida, esperta e que aprendo rapidamente?


- E eu ainda não mencionei que dará uma boa mãe.

- O quê?


Penelope curvou-se para se sentar na beira do sofá com tanta rapidez que sentiu uma leve tontura. Pôs a taça sobre a mesa sem parar de o encarar.

- E boa esposa.

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- E. esposa?



- Desejo casar consigo, Penelope.

Ela estalou os dedos.

- Já sei! O rei disse que estava na altura de escolher uma pessoa apropriada. Aposto que foi isso.

Ele abanou a cabeça.

- Não, não foi o rei. É uma decisão minha. Penelope ficou estupefacta. Qualquer mulher sonha

com um pedido de casamento e algumas até sonham com o principe encantado. Também sonhara com isso quando era menina. Mas nos seus sonhos e fantasias, o príncipe jurava sempre amor eterno.

Engoliu em seco, para desfazer o nó que se formara na sua garganta.

- Desculpe. O pedido pareceu-me mais uma proposta de emprego.

- E é. Ser esposa de um xeque, príncipe da Casa de Hassan, é um emprego. É de minha responsabilidade escolher a minha companheira com sabedoria.

- Sendo assim, perdoe-me se eu não estou a agir de forma adequada. Já fui enganada uma vez por um rapaz bonito. Você é ainda mais belo que ele. Não vou cair na armadilha de novo. É muito engenhoso, Alteza. Propõe casamento a uma rapariga como eu, que daria

qualquer coisa para fazer parte de uma familia. Se eu me deixar levar, acabarei na sua cama e despedir-me-á na manhã seguinte.

- Se fosse um homem, eu levava-a lá para fora e dava-lhe uma tareia - afirmou, com os dentes cerrados.

Em seguida, pôs a sua taça sobre a mesa. i Penelope sabia que exagerara, mas não conseguira conter-se. Por dentro, tinha vontade de morrer. Magoa-se sempre as pessoas que se ama. Que estúpida!

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- Se eu fosse homem, não estaríamos a ter esta conversa - Penelope desejou, com todas as suas forças, que ele lhe confessasse o seu amor.

As lágrimas começaram a rolar pelo seu rosto.




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