AvaliaçÃo da inserçÃo curricular da disciplina educaçÃo e sexualidade no curso de pedagogia na modalidade a distância cead/udesc como contribuiçÃO À formaçÃo de educadores



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AVALIAÇÃO DA INSERÇÃO CURRICULAR DA DISCIPLINA EDUCAÇÃO E SEXUALIDADE NO CURSO DE PEDAGOGIA NA MODALIDADE A DISTÂNCIA CEAD/UDESC COMO CONTRIBUIÇÃO À FORMAÇÃO DE EDUCADORES.
Sônia Maria Martins de Melo – UDESC

Márcia de Freitas – UDESC

Carla Sofia Dias Brasil - UDESC

Em 1999, após alguns anos de estudos e pesquisas, a UDESC, visando atender a demanda por graduação em Pedagogia dos professores catarinenses, implanta, a partir de seu Centro de Ciências da Educação – FAED/UDESC, nas várias regiões do Estado, o Curso de Graduação de Pedagogia na modalidade à distância, com possibilidade de habilitação em Magistério das Séries Iniciais do Ensino Fundamental, em Educação Infantil e Gestão Escolar O objetivo maior da implantação foi o de proporcionar e facilitar a capacitação dos vários profissionais da rede pública de ensino nas mais distantes regiões do estado de Santa Catarina para quem essa modalidade é o único meio de acesso possível à graduação.

Para tanto, a UDESC ampliou seu atendimento à comunidade e atende hoje cerca de 12.000 (doze mil) professores do estado nos vários municípios catarinenses com o Curso de Pedagogia. É uma tarefa pioneira, e que envolve grandes desafios por suas características, dentre elas a necessidade de uma avaliação consistente e contínua que realimente seu currículo.

Nesse sentido, com o fim de subsidiar a avaliação constante do curso, vários projetos de pesquisa estão em andamento. Este é um desafio a ser vencido diariamente, já que não existe um contato presencial permanente com os alunos, contato esse que seria, numa perspectiva 100% presencial, o principal eixo desse processo de realimentação curricular.

Em sua proposta duo-modal ( semi-presencial) há que se inovar em metodologias de pesquisa próprias para essa abordagem pedagógica, metodologias essas que tem que dar conta do vertiginoso processo de ação-reflexão-ação de um projeto dessa natureza, como o é o do Curso em questão.

Nessa vertente pedagógica, também a relação pedagógica educador – aluno no projeto da CEAD/FAED/UDESC é vivenciada nessa nova perspectiva, através de vários instrumentos e recursos que viabilizem a modalidade, calcada principalmente no papel mediador do Tutor- profissional docente da UDESC, que permanece à disposição dos alunos para encontro presenciais semanais em cada núcleo geográfico do estado, auxiliado pelo material pedagógico específico, elaborado pela equipe de professores da área, numa perspectiva de estímulo a uma aprendizagem autônoma. Por essa razão é crucial nessa modalidade de educação a criteriosa e competente preparação do material didático que deverá ser de ótima qualidade em todas as disciplinas.

Para tanto, a inserção, implantação e implementação curricular da disciplina obrigatória Educação e Sexualidade no Curso de Pedagogia na modalidade a distância e a conseqüente a elaboração e implementação do seu material de apoio básico: Caderno Pedagógico Educação e Sexualidade, em suas várias versões (impressa: padrão, letras ampliadas e em braile, bem como a versão on line) e um vídeo complementar, tudo sempre realizado com acompanhamento rigoroso de pesquisas específicas, apresenta-se como um trabalho pioneiro num duplo sentido, já que pioneira também é a inclusão dessa disciplina com essa temática em currículo de graduação a distância.

E por que Educação e Sexualidade em um currículo que forma professores à distância? Por que uma disciplina com material pedagógico em EaD de segunda a quarta geração sobre educação sexual? Porque a Pedagogia e o processo ensino-aprendizagem, em todos os seus níveis e modalidades, não podem continuar como se fossem “assexuados”.

Entendemos que vivemos sempre em um ambiente sexualizado, em que os ditos e os interditos sobre a sexualidade perpassam todas as esferas de nossa vida cotidiana. A compreensão e a vivência da sexualidade no Ocidente passam por enormes transformações, inseridas nas transformações pelas quais passam as relações de produção do nosso viver capitalista desumano e excludente, em suas várias rearticulações.

Nestes tempos turbulentos o tema da educação sexual do ser corpo humano pleno, cidadão, é até fartamente discutido e anunciado, mas, na maioria das vezes, sem desvelar o fundamental: sempre existe uma educação ou deseducação sexual acontecendo nos e entre os seres humanos. Seres estes corporificados em sua inserção no mundo nas relações sociais existentes nos vários modos de produção que existiram, e no atualmente vigente.

E expressando tudo isso, já que mergulhado nessa realidade, um currículo de formação de educadores que não desvela muitas das várias questões fundamentais para subsidiar emancipatoriamente essa formação. Dentre elas, a principal: a relação desse educador com ele mesmo, a partir inclusive do seu entender-se como corpo-ser-sujeito no mundo. E mesmo quando essa relação é desvendada, numa construção própria do mundo ocidental cristão, aparece como se fosse uma relação assexuada, com a negação ou a repressão dos corpos dos educadores.

Estamos no terceiro milênio, e a Pedagogia continua a ser vista e vivenciada como se fosse assexuada!

Quem des-educa corporalmente, sexualmente, os educadores, por quê e para quê? Quem torna “dóceis seus corpos”, como diria Foucault? Por que o respeito ao seu desenvolvimento pessoal pleno, inteiro, incluído aí o seu direito a uma vivência emancipatória de sua corporeidade, sempre sexuada, lhes é negado? Qual realmente é o currículo oculto de educação, ou deseducação sexual, de um curso de Pedagogia e das várias licenciaturas neste país?

É urgente, nesse momento histórico, buscar a construção de uma proposta de educação sexual emancipatória, que dê ênfase à reflexão e ao debate sobre os paradigmas de sexualidade subjacentes às várias expressões pedagógicas no processo de educação sexual sempre existente nas relações sociais.

Esta abordagem pode tornar-se um veio temático político-pedagógico fundamental para desalojar certezas, desafiar debates e reflexões.Nesse sentido “a luta pela liberdade é, portanto, a luta por Eros, e a luta por Eros é sempre uma luta política" como também nos diz Bernardi (1985, p.141).

Por essa mesma razão também a educação sexual, entrelaçada à categoria da saúde sexual, é parte dos direitos humanos básicos e fundamentais, como consta na Declaração de Valência Sobre os Direitos Sexuais, promulgada pela WAS-World Association of Sexology, em 2000. E nessa perspectiva, a educação escolar sistemática, institucional, principalmente em seus currículos de formação de educadores, não pode concretamente continuar sendo vivenciada como se fosse "des"corporificada e assexuada. Há que se educar sexualmente, emancipatoriamente, nossos educadores. Reafirmamos ser esta uma questão básica de cidadania.

Nessa linha, numa reflexão extremamente pertinente sobre a temática, Nunes (1987) nos coloca questões fundamentais: o que é educação sexual? O que significa realmente educar sexualmente? Quais os instrumentos, meios, fins envolvidos? Quem pode “educar” sexualmente, ensinar o quê? Como fazê-lo? Quem são esses educadores? Educadores sexuais somos todos nós, seres humanos! Então, a quem interessa cada vertente pedagógica de educação sexual? A quem interessa negar os corpos dos educadores, reprimi-los e torná-los dóceis? Ou então expô-los como mercadorias? O autor também auxilia essa reflexão constatando que "(.. .) a riqueza desta dimensão humana e toda a sedimentação de significações, que historicamente se acrescentou sobre a mesma, acabaram engendrando um certo estranhamento do sujeito humano com sua própria sexualidade. Freqüentemente a sexualidade se encontra envolta em um feixe de valores morais, determinados e determinantes de comportamentos, usos e costumes sociais, que dizem respeito a mais de uma pessoa. Daí o seu caráter social explosivo." (p. 13)

A partir da afirmação de Nunes, outros questionamentos essenciais surgem para nortear uma caminhada que se pretenda emancipatória na formação de educadores: como tratar da educação, e nela, da sexualidade?

Hoje até amplamente colocada na mídia e nos discursos institucionais e oficiais, o assunto da educação sexual aparece muitas vezes através da apregoada necessidade de planejamento familiar, na maioria das vezes entendido como “controle familiar”, e do combate ao surgimento da AIDS: “só porque o sexo pode trazer essa terrível doença agora temos de falar nele." Certamente é mais uma abordagem negativa de uma rica dimensão histórica do ser humano.

Nesse viés de abordagem, surge também a sexualidade como tema transversal nos Parâmetros Curriculares Nacionais, distribuídos como manuais aos professores deste país, em 1999, pelo Ministério da Educação e Cultura. Lembro-nos Nunes (1987) ser a sexualidade, "uma questão social, estrutural, histórica. Todos nós enquanto sujeitos constituídos socialmente, estamos submetidos a um processo de enquadramento sexual, que é determinado, em última instância, pelas estruturas sociais." (p.14).

Como afirma Vasconcellos, (1971, p.3) "a sexualidade humana é uma descoberta, uma elaboração, uma busca." Para a autora, a sexualidade humana tem "um peso que a estrutura como um existencial, como uma dimensão do ser-no-mundo do homem, posto que não nos referimos a uma sexualidade animal, sem história e sem cultura, mas a sexualidade enquanto imersa na temporalidade, nela recebendo sua revelação existencial, suas formalizações conceituais, sua expressão estética, seu tratamento moral e social."

Com esse entendimento das possibilidades de significados emancipatórios para a temática educação e sexualidade, fundamentais em qualquer reflexão sobre educação, e nela sobre a formação de educadores, pode-se questionar também sobre quais os reflexos dessa perspectiva para os profissionais da educação frente à sexualidade de seus alunos e alunas, após a conclusão de um curso de Pedagogia que inclui em seu currículo a disciplina Educação e Sexualidade.

Como seres humanos, educadores que somos, também faz parte do nosso sonho a utopia do homem livre, pleno, cidadão do mundo, em harmonia com o ambiente que o rodeia, vivendo em uma sociedade de relações justas e fraternas, onde sociedade signifique o viver pleno de todas as espécies que existem sobre o planeta, e este no espaço, ocupando harmonicamente seu lugar no universo. E para essa utopia deve caminhar todo tipo de educação, na busca da educação integral do ser humano. Elemento humano este que, para ser cidadão, sujeito da sua própria história, e partícipe da construção da história de seu tempo, não pode esquecer-se que também é ser sexuado, vivendo em constantes relações sociais com outros seres humanos, também seres sexuados.

Portanto, a conseqüente “deseducação sexual” a que somos submetidos e submetemos alguém em nosso cotidiano é também de nossa responsabilidade político-pedagógica, enquanto educadores e formadores de educadores. Devemos refletir – agir – refletir, sobre isso também.

O curso de Pedagogia na modalidade à distância CEAD/UDESC, universidade que há 20 anos estuda a questão da formação de educadores e educação sexual, está procurando cumprir esse papel, com a inserção da disciplina Educação e Sexualidade em seu currículo. Imersos nesse rico processo de produção de conhecimento, entendemos que havia chegado o momento de aprofundar a avaliação da contribuição curricular dessa disciplina à prática pedagógica do corpo discente. Qual foi- e tem sido- realmente a contribuição da disciplina à prática pedagógica dos alunos e egressos do Curso? Conseguiu a disciplina atingir seu objetivo geral de sensibilizar para a questão, subsidiar a reflexão e estimular novas ações no processo de educação sexual sempre existente no cotidiano escolar numa perspectiva emancipatória? Quais são os reflexos da disciplina Educação e Sexualidade à prática pedagógica do seu corpo discente?

Para responder a essas e outras questões, após uma pesquisa inicial que delineou o perfil do corpo discente do curso nas suas 3 turmas, e de outra pesquisa que acompanhou a produção do material pedagógico da disciplina, foram propostas mais 4 vertentes de investigação sobre as contribuições da inserção da disciplina Educação e Sexualidade no currículo do curso de pedagogia na modalidade a distancia CEAD/UDESC.

Nesta nova caminhada investigativa a primeira pesquisa fez um acompanhamento dos textos produzidos como trabalho individual final da Turma Piloto (250 alunos), denominado Contribuições da disciplina Educação e sexualidade minha prática pedagógica, a segunda acompanhou esses alunos já como egressos em suas práticas em salas de aula, a terceira trabalhou os 3000 textos com o mesmo nome produzidos pelos alunos da Turma 2, sendo que a quarta pesquisa trabalhou com uma amostragem dos textos dos 9000 alunos da turma 3, seguida da aplicação de 300 questionários (um aluno por Núcleo tutorial) aprofundando a temática.

Quando se elabora um curso de graduação sempre se projeta nele o perfil de profissional esperado. O eixo do projeto do curso de Pedagogia da UDESC é a busca de um profissional crítico-reflexivo, pesquisador, que busque aliar sempre teoria e prática, numa perspectiva interdisciplinar. Esse também foi um dos aspectos ressaltados pela disciplina Educação e Sexualidade, trabalhada numa perspectiva emancipatória, tendo a Declaração dos Direitos Sexuais como Direitos Humanos Universais como fonte principal de seu conteúdo, na perspectiva de contribuir com a construção de cidadania para todos a partir da formação de um profissional na perspectiva delineada no projeto do curso.

Portanto, acompanhar as possíveis mudanças da prática pedagógica, tanto dos discentes que já atuam paralelamente ao curso como professores, como dos egressos do Curso, no que se refere especialmente à relação educação e sexualidade ministrada nessa abordagem, principalmente num curso na modalidade à distância, centrado no uso de materiais pedagógicos elaborados na perspectiva de uma educação autônoma, revestiu-se de importância técnica e científica, pelo seu pioneirismo, e justificou plenamente a realização dessas pesquisas. As pesquisas recém terminadas, realizadas por etapas descritas sinteticamente a seguir, nos dão hoje condições de dar algumas respostas a várias das questões iniciais.

CAMINHOS METODOLÓGICOS.

Na pesquisa 1, realizamos pesquisa documental nos textos produzidos pelos alunos e alunas do Curso, tendo sido efetuada a leitura prévia dos 250 textos produzidos individualmente pelos alunos da Turma Piloto como parte final do processo avaliativo da disciplina, denominados “Contribuições da disciplina Educação e sexualidade à minha prática pedagógica”, o que representou 100% do universo pesquisado.

Na seqüência realizamos os passos de análise de conteúdo sugeridos por Bardin (1979), buscando identificar os textos cujas categorias subjacentes apontassem para o perfil de um professor reflexivo que repensa seu fazer pedagógico no cotidiano escolar, principalmente no que se refere à temática educação e sexualidade, levantando informações sobre em que aspectos as discussões e leituras, realizadas durante a disciplina, têm transformado e auxiliado esses professores em sua prática. Neste sentido, elencamos algumas pré-categorias para uma melhor análise dos conteúdos, o que nos permitiu construir uma tabela com o nome da região, núcleo, aluno, quando então fomos categorizando indicadores e dimensões que encontrávamos nos trabalhos: os fatos relatados pelos professores, a atitude tomada em relação ao fato, se apontava apenas para um re-estudo teórico da questão, ou se já apontava para sugestões de novas práticas cotidianas, o que denominamos de “teoria sugerida.” Também pontuamos as categorias “práticas realmente vivenciadas”, registrando no quadro criado nossas reflexões quanto ao descrito pelo aluno. Foi importante perceber, através dessa primeira leitura, como o estudo desta disciplina já abriu novas perspectivas quanto à prática pedagógica, o que foi demonstrado através dos trabalhos realizados descritos pelo corpo discente.

Pesquisa 2, foi feito o acompanhamento dos egressos da Turma Piloto: numa segunda leitura dos 250 textos, separamos os de 12 alunas, numa amostra intencional, conforme objetivo traçado, uma vez que esses relatos pareciam apontar para uma prática pedagógica transformadora. Fomos percebendo, aos poucos, tendo como base os textos, como a disciplina parece ter conseguido abrir novos caminhos para o repensar da prática pedagógica desses egressos, no que se refere à educação sexual que está sempre ocorrendo no processo educacional. Chegamos à conclusão que, após a leitura e releitura dos textos, deveríamos aprofundar o estudo, acompanhando especialmente a prática pedagógica nessa amostra, em suas vivências no seu cotidiano escolar. Para isso, usamos como novo instrumento de pesquisa um questionário de perguntas abertas, previamente elaboradas e testadas, por acreditar que o mesmo possibilitaria estabelecer um contato mais aprofundado com as educadoras selecionadas.Os questionários foram enviados pelo correio, sendo que dez questionários retornaram; esses foram trabalhados por meio de análise de conteúdo, segundo BARDIN (1979). Separamos as respostas das perguntas por sua numeração, para facilitar a análise dos dados e classificamos as que apontavam para uma prática reflexiva, buscando uma abordagem emancipatória de educação sexual; construímos uma tabela com as respostas em um cartaz onde ficou mais fácil estudar as falas dos egressos, pois tínhamos acesso por questão e por respondente. Foi importante perceber, através das respostas, como os professores atribuem à educação sexual que tiveram a dificuldade de trabalhar com os alunos esta temática. Isso demonstra um avanço na reflexão sobre seu próprio constituir-se como sujeito.Dentre os egressos que participaram do questionário, definimos finalmente as cinco respondentes, que foram nossa amostra final para fazermos um estudo de caso mais detalhado de suas vivências no cotidiano escolar, através de visitas ao seu local de trabalho.

Pudemos perceber, através das visitas iniciais e nas seguintes (mais duas para cada uma das cinco professoras) o fato de que essas docentes, que informaram nos seus textos que repensam seu fazer pedagógico na questão da educação sexual e vivenciam práticas já diferenciadas, mais compreensivas, ainda apresentam algumas dificuldades em concretizar essa nova abordagem.

Por exemplo: durante as três visitas realizadas em cada sala de aula pudemos perceber situações em que a questão da negação da corporeidade estava visível, tanto na entrada da sala, quando se formavam filas, ou através da organização em sala de aula das crianças, pois ficava evidenciada a separação de acordo com o sexo, bem como a disposição das carteiras, com as crianças sentadas rigidamente umas atrás das outras. Ao serem questionados sobre o motivo da separação, as professoras não sabiam dizê-lo: apenas afirmaram que reproduziam o que já estava sendo realizado na escola toda. Isto tudo acontecendo apesar das pesquisadas afirmarem em seus escritos ter o conhecimento necessário e a vontade de mudar muito do estabelecido, que viam como repressão, não conseguiam as docentes estabelecer uma relação mais profunda entre o conhecimento adquirido e uma prática emancipatória nas suas salas de aula.

Após esse círculo de visitas retornamos para uma entrevista com três das professoras: de acordo com o que foi observado em suas salas de aula, durante as visitas, elaboramos as questões norteadoras. Cada situação contraditória observada era debatida, à luz das práticas teorizadas. Muitas registraram que se sentiam sem forças para mudar por falta do apoio pedagógico da escola, outras disseram que é muito difícil mudar o que está construído e vivenciado por muitos anos, mas que estão tentando, a luz do que vivenciaram no Curso de Pedagogia.

Pesquisa 3: foi realizada inicialmente por meio de leitura e análise de conteúdo dos 3000 textos, também produção escrita individual dos alunos da Turma II, denominada “Reflexões sobre as contribuições da disciplina Educação e Sexualidade à minha prática pedagógica”, trabalho final da disciplina em tela, seguindo os mesmos caminhos metodológicos percorridos com a análise de conteúdo da Turma Piloto, registrando indicadores e desvelando categorias. Nessa etapa da caminhada investigativa surgiu com bastante ênfase a categoria de professor reflexivo, bem como foram fortes os indícios de que os objetivos da disciplina, calcados numa perspectiva emancipatória de Educação Sexual, estão sendo atingidos, mas que a relação teoria-prática é categoria a ser aprofundada nos materiais, com apoio de teóricos do tema, especialmente Perrenoud (2004) com sua proposta de níveis de reflexão e competências, na formação dos profissionais da educação.



Pesquisa 4: na etapa seguinte foram trabalhados na mesma metodologia de análise de conteúdo os textos da Turma III, numa amostra de 20%, escolhida pelos tutores, bem como foi feita a análise de questionários com 4 questões dissertativas, enviados a uma amostra de 300 alunos, sendo um por Núcleo Tutorial do Centro de Educação a Distância. Foram identificadas algumas categorias subjacentes a essa produção escrita e que apontam ou para práticas pedagógicas transformadoras numa abordagem emancipatória ou para a dificuldade em vivenciá-las.

RECOMENDAÇÕES





  1. Com base no que observamos durante toda a pesquisa chegamos a alguns fortes indicadores de que é viável uma proposta de uma educação sexual emancipatória nos cursos de formação de educadores com o auxílio da inserção de, no mínimo, uma disciplina obrigatória nas grades curriculares. Disciplina esta sendo entendida como espaço de sensibilização e de reflexões sobre o tema e como parte importante de um projeto intencional do desvelamento da sexualidade como dimensão humana e, portanto, parte indissociável de qualquer processo educativo, no caso em estudo numa proposta de uma abordagem emancipatória.

  1. Como dado pedagógico a ser levado em consideração na revisão permanente da proposta, tanto da disciplina quanto do curso de Pedagogia na modalidade à distância, há que se dar ênfase à questão da relação teoria e prática. Essa ênfase é extremamente necessária em qualquer processo educativo e fundamental na questão emancipação do sujeito e de sua autonomia, base da abordagem da educação sexual proposta e estudada. Passa necessariamente pela categoria de professor reflexivo: sem uma reflexão sistematizada, crítica, consciente, sobre sua prática, o educador dificilmente se perceberá como “sujeito” construtor de conhecimento. Portanto a relação estreita entre as categorias professor reflexivo e educação sexual emancipatória deve ser levada em consideração na revisão permanente da proposta, tanto da disciplina, de seus materiais, quanto do curso de Pedagogia na modalidade à distância como um todo.

  2. Também os processos de formação de formação continuada que forem realizados com os professores que atuam no curso pesquisado devem incluir a questão das categorias professor reflexivo e relação teoria e prática como conteúdos explícitos, intencionais, organizados, nos materiais pedagógicos produzidos.

  3. Há que aprofundar também os estudos sobre paradigmas de corporeidade e formação do educador, na perspectiva de desvelar os paradigmas subjacentes nos modelos curriculares existentes e seus reflexos no cotidiano das salas de aula, buscando a construção do entendimento de corporeidade como unidade de existência humana e eixo pedagógico fundante dos currículos.

  4. A questão das relações de gênero também deve ser trabalhada com mais ênfase em todo o curso.

  5. Outro dado significativo a registrar é o indicativo desvelado de que muitos dos professores e professoras envolvidos na pesquisa já fazem uma leitura crítica de seu mundo vivido e atribuem à educação sexual repressora que tiveram a dificuldade que sentem em trabalhar hoje com o seu alunado esta temática. Esses indicadores são promissores e apontam para uma perspectiva de mudança.

  6. Já apontam também os egressos pesquisados que estão tentando práticas emancipatórias no seu cotidiano, o que comprova que a disciplina está atingindo seus objetivos de sensibilização sobre a temática. Projetos de acompanhamento aos egressos, numa perspectiva de formação continuada, devem ser propostos e implementados pela UDESC.

Os resultados foram socializados já em vários fóruns, pelo grupo de pesquisa Formação de Educadores e Educação Sexual/CNPq/UDESC, como parte do seu processo de 20 anos de investigação sobre a temática.

As respostas conseguidas já estão reorientando metodologicamente o fazer pedagógico da disciplina, em todas as nuances próprias desse tipo de modalidade de educação, bem como reorientam a re-elaboração constante do material, adequando-o aos indicadores de aperfeiçoamento surgidos. Dessa re-alimentação certamente virão outros benefícios ao projeto, que, cada vez mais aperfeiçoado, poderá atender cada vez mais adequadamente a mais e mais alunos, pelas suas características inequívocas de democratização do acesso à educação, ajudando a garantir a permanência no curso de alunos até então não incluídos em um ensino de graduação de qualidade, acompanhando-os até a sua conclusão, e depois como egressos.

Sendo nosso público-alvo preferencial os professores em salas de aula catarinenses, o reflexo de suas práticas aperfeiçoadas estender-se-á também aos seus milhares de alunos, especificamente em vivências de uma abordagem emancipatória de educação sexual.


REFERÊNCIAS

BARDIN, Laurence. Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1995.

BERNARDI, Marcelo. A deseducação sexual. São Paulo: Summus, 1985.

PERRENOUD, Philippe.Formando professores profissionais. Porto Alegre: Artmed, 2004.

NUNES, César. Desvendando a sexualidade. Campinas: Papirus, 1998.

VASCONCELOS, Naomi. Os dogmatismos sexuais. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1971.



WAS. Declaração dos direitos sexuais como direitos humanos.Hong-Kong:WAS, 2000.


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