Avassaladora Vingança (Cordero's Forced Bride) Kate Walker



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CAPÍTULO DOIS

— O quê?


Alexa piscava, confusa, tentando entender Santos, mas, acima de tudo, procurando compreender e acreditar em sua reação.

Se aquele riso fora inesperado, as palavras pareciam surreais. Em vez de dor, raiva, amargura, pela forma como fora enganado e deixado no altar pela mulher com quem se casa­ria, havia um cinismo e um comportamento quase negligen­tes ao que acabara de ouvir.

— Você não se importa? Mas certamente...?

A resposta de Santos foi um indiferente encolher de seus largos ombros, passando as mãos pelos cabelos negros e reluzentes como se relaxasse ao fim de um longo dia.

Mas relaxar era a última palavra que ela usaria para descrever a expressão de seu rosto, pois seus lábios sen­suais estavam tensos e o músculo de seu maxilar, rígido. E o olhar profundo que lançou sobre ela não tinha nada de tranqüilo. Ao contrário, ela agora relembrava como, no dia em que o conhecera, achara que seus olhos eram os mais frios do mundo.

— Você espera que eu aja como se sua irmã tenha parti­do meu coração? Como se tivesse perdido o amor da minha vida e não conseguisse mais encontrar forças para continu­ar, para viver? — Santos a questionou cinicamente, mastigando as palavras como se quisesse triturá-las. — Bom, está redondamente enganada. Não terei problema algum em prosseguir com minha vida depois disso... Embora para sua família talvez seja um pouco mais difícil de se recupe­rar. Na realidade...

Santos parou quando um ruído veio da porta. Era alguém batendo.

— Alexandra? Alexa?

Era a voz de seu pai, seca e preocupada.

— Está tudo bem? O que está acontecendo? Cordero... O quê...

Un momento! — Santos retrucou, gritando por sobre o ombro, seu olhar profundo ainda fixo no rosto desorien­tado de Alexa. — Nós sairemos daqui a um segundo e ex­plicaremos tudo. Ou então...

Seu tom frio e brusco mudou, deixando-a com os nervos à flor da pele.

Você explicará tudo — Santos disse, e apesar da le­veza repentina de sua voz, Alexa não tinha dúvidas de que se tratava de uma ordem autoritária que ele esperava fosse obedecida sem argumentação ou hesitação. — Você dirá ao seu pai e à sua família o que aconteceu.

— Mas eu... — Alexa começou, mas as palavras lhe faltaram enquanto tentava protestar. — Agora esse assunto não me diz mais respeito, você...

Ela não poderia sair e dizer a todos por que estava ali. Contar que Natalie fugira de seu próprio casamento — que tinha sido divulgado em todos os jornais e colunas sociais como o "casamento do ano". A união de uma família que se tornara poderosa e rica recentemente, com uma família tra­dicional, a de Natalie Montague, de 20 anos, filha de lorde Stanley Montague. Santos Cordero construíra sua própria fortuna e tentava agora consolidar seu status por intermédio do casamento com uma integrante da nobreza britânica, cuja família fora uma das mais importantes da nação por muitos séculos. Seria como em um conto de fadas, ainda mais quando constatada a estonteante beleza da noiva e a atraente virilidade do noivo.

— Não acho... — Alexa tentou de novo, sentindo-se ain­da mais perdida e à deriva do que nos primeiros momentos de sua chegada à igreja, quando estivera sob o escrutínio daqueles olhos frios e duros.

Na verdade, ela não sabia ao certo o que deveria dizer ou explicar. Nada havia corrido como ela esperava. Mas, também, como saber o que esperar quando se está prestes a anunciar ao noivo que a noiva o abandonara? Não era exatamente uma situação corriqueira.

Mas Santos não escutava seus protestos. Em vez disso, ele havia se aproximado, segurando-a pelo braço, virando-a em direção à porta.

— Você sabe que tem de fazer isso — Santos declarou, de forma fria. — Sua família já complicou minha vida o suficiente, então agora...

Ele foi interrompido por outro som proveniente da por­ta. Era a voz do pai de Alexa de novo, dessa vez mais firme.

Alexandra, o que está acontecendo aí...?

— Nada, quero dizer, está tudo bem — Alexa conse­guiu responder sob o olhar enérgico que Santos lançou para ela, seus olhos perfurantes em uma exigência silen­ciosa, para que ela respondesse. — Nós... nós já estamos saindo agora e eu... eu explicarei.

Parecia que ela não tinha opção, pois a mão dele a em­purrava para a frente, deixando-a sem escolha.

— Solte-me! — Alexa gritou em protesto. — Tudo bem, lhe trouxe más notícias, mas lembre-se do que dizem sobre não culpar o mensageiro. E sou apenas isso, a mensageira. Natalie é que...

— Mas sua irmã não está aqui.

As palavras saíram como um rosnar e ele nem sequer olhou para ela, continuou indo em direção à porta, abrindo-a bruscamente.

— Então não desconte em mim! Não pode me arrastar dessa maneira...

Alexa se desequilibrou por um instante, tropeçando de­sajeitada por causa do salto alto que nunca costumava usar. Por um segundo pensou que fosse cair, mas a garra cruel em volta do seu braço apertou ainda mais, puxando-a para cima.

— Não me puxe assim!

— Estava tentando ajudá-la.

O olhar frio e brilhante de Santos a advertiu para não argumentar, mas Alexa já estava em ebulição e não era fá­cil controlá-lo. Como aquilo acontecera? Como ela fora de simples mensageira a vítima da desaprovação de Santos Cordero, sendo arrastada para o interior da igreja para en­frentar toda uma congregação, uma vez que nem sabia, ao certo, o que havia por trás de tudo aquilo.

Porque havia alguma coisa, isso era óbvio.

— Então não me ajude. — Alexa carregou seu tom com raiva para deixar claro que a última coisa que ele estava fazendo era ajudá-la. — Posso me cuidar muito bem sozinha.

— Pode até ser que você possa se cuidar — Santos disse, por entre os dentes, mantendo a voz baixa para que nin­guém pudesse ouvir o que dizia. — Mas preferiria que você não caísse de cara no chão e me culpasse por isso. E quero me certificar de que não irá fugir, como sua irmã fez.

— Qual seria o problema se eu fugisse?

Por um segundo Alexa ficou tentada a dar um forte pon­tapé na canela de Santos.

— Alexa. — Seu pai a chamou mais uma vez, até que um olhar fulminante de Santos o silenciou.

— Senhoras e senhores...

Ele mal precisou levantar a voz para se fazer escutar, as pessoas estavam em silêncio. Todos os olhos neles, alguns rostos surpresos, confusos, outros, como os da madrasta e do pai de Alexa, pálidos e tensos. O que estava acontecen­do? Quais eram os problemas por trás daquilo tudo? Quais os motivos, que ela desconhecia?

Mas Santos não parecia se preocupar, e continuou a fa­lar, com calma e confiança, como se fosse seu discurso pós-casamento, o qual não aconteceria mais.

— Houve uma pequena mudança de planos... Pequena?

Isso fez com que Alexa se virasse imediatamente para Santos, numa reação de surpresa. Como ele poderia descre­ver o abandono de Natalie, sua fuga para o aeroporto, como uma "pequena mudança de planos"?

Mas Santos ignorou por completo sua consternação e continuou em total controle.

— O casamento não acontecerá mais.

— Não...

A palavra quase não saiu da boca do pai de Alexa. E no banco da frente ela podia ver a madrasta, ainda mais pálida, com as mãos na boca como se estivesse segurando um choro de descrença que quase escapou.

— O quê...?

Era Stanley Montague, tentando, mais uma vez, per­guntar o que martelava na sua cabeça. Alexa raramente havia visto o pai tão chocado. Na verdade, sua reação pa­recia descabida para a situação. Tudo bem, a notícia era ruim, haveria um terrível constrangimento a enfrentar, e o casamento cancelado seria o assunto de todos, inclusive das colunas sociais.

Mas, com certeza, isso era melhor do que ver Natalie cometer um grande erro e casar-se com um homem que não amava. Melhor do que enfrentar um divórcio custoso, e não só financeiramente. Mas seu pai se comportava como se fosse o fim do mundo e...

Alexa não teve chance de continuar sua reflexão porque Santos a puxou com firmeza colocando-a de frente para os presentes.

— Natalie não virá — ele disse. — Ela fugiu, foi isso que a irmã veio me dizer. E agora ela irá explicar tudo a vocês.

Mais um pequeno empurrão de Santos em Alexa para que ela contasse a verdade a todos.

Mas qual era a verdade? De repente, Alexa não estava mais tão certa. Só sabia que Natalie não queria se casar. Mas por que ela havia aceitado, em primeiro lugar? Esta pergunta fazia o chão se mover sob seus pés. Mas não teve tempo de considerar as possíveis implicações antes que seu pai recuperasse a voz.

— Alexandra? O que está acontecendo?

— Diga-lhe — Santos prontamente reagiu. — Diga-lhes.

— Sinto dizer, mas San... O senor Santos está certo...

A forma como suas palavras ecoavam pela silencio­sa igreja era arrepiante, mas pelo menos sua voz estava mais firme do que imaginara e soava como se soubesse do que falava. Só ela sabia o quão distante da verdade estava.

— Natalie mudou de idéia. Ela não acha que seria correto casar-se com ele. Não quando percebeu que seu verdadeiro amor era outro.

Isso, pelo menos, ela podia afirmar com convicção. Na sua cabeça ainda havia a imagem clara do momento em que entrara no quarto de hotel de sua irmã e a encontrara sen­tada na cama, olhando para o lindo vestido de noiva pen­durado no armário, seu rosto pálido e abatido, seus olhos cheios de lágrimas.

"Achei que pudesse fazer isso, Lexa", disse sua irmã. "Realmente queria, mas não vai funcionar mais. Se John não tivesse aparecido na minha vida, eu teria ido adiante... Mas ele apareceu... E conhecê-lo mudou absolutamente tudo."

— Natalie sente muito por ter feito isso com todos... Mas ela sabia que seria melhor não levar adiante um casamento que não era bom.

— E ela não teve a coragem de dizer isso pessoalmente?

Santos perguntou, num tom baixo e ameaçador. A fú­ria avassaladora extravasava daqueles olhos, o orgulho ferido e amargo fazia sua mandíbula travar, provocando calafrios em Alexa. Intimamente, ela sabia que não podia culpar Natalie por não ter coragem de encará-lo. Quando ele a olhava daquela forma, não conseguia imaginar o motivo de sua irmã ter pensado em se casar com ele, a princípio.

— Não — Alexa respondeu. Natalie não ousara enfrentar nem a mãe, nem o pai com a verdade. — Desculpem-me.

Santos simplesmente ignorou o pedido de desculpas de Alexa, que não foi capaz de reduzir em nada a frieza de seu olhar. E pensar que em algum momento ela se pre­ocupara que a notícia pudesse magoá-lo.

Ele agia como se nada pudesse feri-lo. Como se nada pudesse penetrar a armadura que protegia seu coração. E agora parecia que ele nem mesmo tinha um.

— Então, onde está Natalie agora?

A pergunta veio do pai de Alexa.

— A caminho do aeroporto... Não...

Uma rápida olhada ao relógio confirmou sua suspeita.

— Ela já deve estar entrando no avião...

— Ah, não! Natalie!

Petra Montague, a segunda mulher de Stanley, gritou, reagindo como Alexa imaginara, cobrindo o rosto com as mãos. Por trás das longas unhas vermelhas, os olhos azuis brilhavam com lágrimas que tentava evitar.

— O que ela fez? O que faremos?

— Silêncio, minha querida. — A resposta de Stanley soou mais como uma repreensão do que como uma tenta­tiva de consolo.

— Petra... não...

Alexa caminhou para a madrasta, mas logo parou, saben­do que ela não iria aceitar seu consolo. E agora se apoiava nos braços do marido, desolada.

— Certamente, é melhor ser dessa forma do que Natalie perceber, mais tarde, que havia cometido um terrível enga­no — Alexa repetiu.



Ah, ela é boa, Santos pensou, notando o seguro tom da voz de Alexa. Observando-a, ele podia quase acreditar que ela não estava representando. Como se aceitasse cada palavra da história que saía de sua boca.

Mas é claro que não poderia ser verdade: Alexa estava, provavelmente, envolvida naquilo, completamente. Devia saber que a irmã iria abandoná-lo. Senão, como poderia ter calculado a hora de sua chegada à igreja de tal forma que fosse impossível irem atrás de Natalie?

Estavam todos envolvidos naquilo, a família inteira! Ele fora tolo o suficiente para deixar que todos o convencessem a baixar a guarda e pela primeira vez em sua vida tomar uma decisão errada.

"Como um presente de casamento para a noiva..." Santos ainda conseguia ouvir a voz implorante de Petra Montague na sua cabeça. "Você não gostaria de ver seu sogro jogado na rua..."

Dios! O que estava pensando? Ele nunca havia antecipa­do um pagamento de um contrato que não tivesse sido assinado e fechado, mas dessa vez baixou a guarda, apenas um centímetro, e a maldita família Montague se aproveitou.

— Você deve querer o bem de Natalie.

— Natalie teria sido feliz com Santos! — Petra lamentou. — Nós todos seríamos felizes com as coisas dessa forma!

— Mas ela não estava feliz — Alexa protestou. — Só não teve coragem de admitir, já que o casamento estava marcado e tudo planejado.

De onde estava, tudo o que Santos conseguia ver era o perfil do rosto e do corpo de Alexa, e pela primeira vez a via de uma maneira que era impossível desviar o olhar.

"Sem graça" fora a maneira como a madrasta de Alexa a descrevera. "Chata e antiquada." Mas, mesmo no jantar anterior ao casamento, Santos não comungou com essa de­claração. Ela não possuía a coloração intensa e a beleza estonteante de Natalie. Na irmã mais velha tudo tinha um tom mais sutil: os cabelos eram castanho-claros, os olhos amendoados, ora verdes, ora castanhos, dependendo da luz e de seu humor. E suas roupas eram muito mais simples do que as de sua irmã, mas nunca "sem graça" ou antiquadas.

Agora, mesmo sob o horrível e elaborado penteado, seu perfil possuía uma pureza que aprisionava qualquer olhar. A pele de Alexa, sempre tão pálida, parecia quase translú­cida, e seus cílios, de tão longos, repousavam nas maçãs de seu rosto.

Seu corpo era delgado e se portava de forma natural­mente elegante. Ela poderia não ter a deslumbrante beleza da irmã, mas havia algo que fazia com que Santos prestasse atenção nela. Algo que o prendia e o deixava sem reação, por sua calma e compostura.

A primeira impressão não fora boa, pois, no dia em que a conhecera, Alexa agia de forma fria e distante, a perso­nificação da dama de gelo. E olhara para Santos de uma maneira que ele vira muitas vezes quando criança. Uma ex­pressão que o recordava de seu passado amargo, como se ele ainda carregasse o odor dos cortiços. Era um olhar que jurara nunca mais aceitar, e ao vê-lo novamente soubera que escolheria Natalie, não aquela mulher fria e tão pouco acolhedora.

Agora já não estava mais tão seguro.

— Mas uma coisa é certa — Alexa dizia, o tom calmo de sua voz se sobressaindo frente à histeria de sua madrasta. — Infelizmente hoje não haverá um casamento. Eu não podia deixar Natalie prosseguir com isso.

Não podia... As palavras não saíam da cabeça de Santos, ecoando como ondulações num lago. Eu não podia deixar Natalie prosseguir com isso.

Não podia, maldição. Ela estava envolvida desde o prin­cípio, sabia que Natalie iria quebrar sua promessa, e a havia ajudado a fugir.

Havia ajudado a humilhá-lo publicamente.

— Sinto muito que todos vocês tenham vindo até aqui à toa, mas tenho certeza de que compreenderão. E agora creio que a única coisa a fazer é irmos embora.

Alexa andava enquanto falava, deixando claro que se retirava da igreja.

— Então, se todos quiserem partir...

— Não!


Isso não iria acontecer. Alexa não sairia tão fácil disso, deixando a confusão que ela e sua família criaram sem sequer olhar para trás. A fúria que sentia por ter sido deixado e roubado estava martelando a mente de Santos, obliterando qualquer pensamento racional, forçando-o a agir. Com um movimento brusco segurou-a novamente pelo braço, puxando-a com força. Natalie poderia estar fora de seu al­cance, mas não sua irmã.

A família Montague lhe era devedora — e para ele não fazia diferença quem pagaria. Alguém teria de pagar. E essa outra filha parecia um bom ponto de partida.

Mas antes ele teria que se certificar de que Alexa não fugiria, correndo dele como sua mentirosa e enganadora irmã caçula.

— Não — Santos repetiu. — Você não vai a parte algu­ma, você vem comigo.

— Por quê?

Mais uma vez, Alexa sentiu-se tentada a dar um ponta­pé certeiro na canela daquele soberbo e autocrático macho que a prendia. Somente o fato de os convidados ainda es­tarem sentados nos bancos logo atrás dela a fazia desistir de atacá-lo.

— Por que diabos eu iria a qualquer lugar com você?

— Porque estou pedindo — Santos falou com um repen­tino e inesperado sorriso.

Aquela transformação em seu semblante fora tão súbita que a fez piscar com total descrença. De frio, tirânico e dominador, Santos se transformara num homem charmoso e persuasivo.

E estava funcionando, Alexa admitiu para si mesma, em­bora contrariada. Ela não queria estar se sentindo frágil a ponto de sucumbir ao charme de um experiente sedutor, mas a verdade era que não conseguia se controlar. Quando aquele sorriso revelou seus lábios sensuais e a luz iluminou seus flamejantes olhos, Alexa sentiu suas defesas desmoronarem e serem substituídas por uma resposta instintiva e feminina.

— Olhe...

A maneira como ele levantou a voz e apontou para a congregação foi uma forma de incluir todos no que estava dizendo. Mas o foco central de seu olhar era Alexa, somen­te ela. E a força do olhar a desequilibrou antes mesmo que pudesse se recompor e recuperar o controle da situação.

— O casamento foi cancelado, essa parte foi destruída, mas será que temos que arruinar o resto do dia também? Tenho uma recepção preparada em minha casa. Meus cria­dos passaram dias preparando o bufê. Seria um crime des­perdiçar tudo.

Ele manteve o olhar fixo em Alexa por mais um instante, e essa intensidade fez a cabeça dela rodar com a mensagem que os olhos dele pareciam enviar.

— Como a senorita Montague disse, muitos de você fi­zeram uma longa viagem até aqui. Que tipo de anfitrião eu seria se deixasse todos partirem sem ao menos lhes oferecer uma bebida ou algo para comer? Eu os convido para a mi­nha casa. Pode não haver mais motivo para uma recepção de casamento, no entanto espero que desfrutem da minha hospitalidade da mesma forma.

Alexa não conseguia acreditar no que ouvia. Sabia que há apenas alguns segundos, na sacristia, ele admitira que não se importava por ter sido abandonado pela noiva. Mas ele poderia simplesmente esquecer o que seria a recepção de seu casamento e convidar todos para uma festa sem motivo?

O homem frio que Alexa conhecera era capaz. Mas seria possível para o homem com o sorriso charmoso e letal que ela acabara de ver? E qual desses era o verdadeiro Santos Cordero?

— Você... você nos quer em sua casa? — ela perguntou. — A família Montague, certamente, você não gostaria que estivesse presente.

Sua voz perdeu força quando, mais uma vez, aquele sor­riso tentador, porém frio e perturbador, a envolveu.

— Ao contrário, vocês são muito bem-vindos. Estou certo de que irão me dar apoio nesse momento em que eu deveria estar desfrutando com minha noiva.

Essa declaração soara como uma ameaça, o que fez Alexa respondeu com palavras simples.

— Acho que não... — ela iniciou, mas Santos a ignorou e continuou como se Alexa não tivesse dito nada.

— E tenho certeza de que sua madrasta preferiria estar num ambiente onde pudesse se recompor antes de enfrentar os paparazzi.

Paparazzi?

Alexa não tinha pensado nisso. O fato é que ainda não havia pensado em nada além de dar o recado da irmã.

— Mas é claro.

Dessa vez o sorriso de Santos era puro gelo, acabando com todo o calor que a envolvera momentos antes, deixan­do-a temerosa por seu futuro.

— Você acha que eles não vão explorar um furo desses? O casamento do ano virou o evento frustrado do ano. É o tipo de notícia que eles adorariam publicar. E destruirão sua família para obter mais informações.

Os olhos pálidos e esverdeados de Alexa se voltaram para onde Petra estava sentada, ainda se lamentando, no primeiro banco, enquanto Stanley se esforçava para acal­má-la. Mais uma vez, Alexa se arrepiou, poderia imaginar exatamente como sua madrasta se comoveria frente às câmeras, as fotos que iriam aparecer nas colunas sociais no dia seguinte.

— E você poderia evitar isso?

— Tenho homens preparados para evitar que a imprensa chegue perto demais. E uma frota de carros para levar todos da igreja à recepção.

Alexa concordou silenciosamente. Ela chegara à igreja num desses carros. Limusines grandes e elegantes com vidro fume que protegiam os ocupantes dos flashes. E constatara também a eficiência do esquema de segurança à volta da catedral, garantindo que ninguém, além dos convidados, entrasse no templo.

— Por que faria isso por nós?

— Naturalmente, tenho minhas próprias razões para não querer ver publicado em todos os jornais o que aconteceu. Uma vez na minha casa, poderemos relaxar.

Relaxar. Esta palavra continha tanto apelo. O corpo in­teiro de Alexa começava a doer devida à tensão reprimi­da, e ela havia até esquecido como era sentir-se de outra maneira.

— Então, obrigada. Direi ao meu pai. Levarei Petra e ele ao carro.

— Não. Miguel se ocupará disso.

Santos acenou para uma pessoa no fundo da igreja, en­quanto caminhava em direção a Alexa, segurando-a. Mas dessa vez seus poderosos dedos se entrelaçaram nos dela. E o coração de Alexa palpitou ao sentir o calor da mão de Santos, aquecendo todo o seu corpo e fazendo sua boca ficar seca.

Santos se aproximou ainda mais, e o cheiro de sua pele, misturada a uma suave colônia almíscar, parecia envolvê-la como uma brisa morna. Só de sentir aquele aroma, Alexa se arrepiava toda, suspirando em busca de ar puro.

— Você virá comigo.

Era uma ordem. O tom da voz de Santos indicava que não admitia argumentação, e a maneira como sua mão apertou ainda mais a dela demonstrava que ela não poderia fugir.

Alexa chegou a assustar-se com o comportamento de Santos. Mas, naquele momento, discrição parecia ser a ati­tude mais conveniente. Enfrentá-lo, recusando-se a segui-lo, seria só mais um motivo para outro drama, e ela já tivera estresses e tensões emocionais suficientes para um dia.

Santos estava certo em pelo menos uma coisa: com os paparazzi do lado de fora da igreja, rapidamente suspeitariam que algo acontecera, e, então, festejariam. Quanto mais rápido todos se retirassem, melhor.

A ida até a elegante mansão de Santos levaria apenas alguns minutos, e, ao chegar lá, Alexa poderia fugir, misturando-se a multidão de convidados, diluindo a força da presença dele em meio a tantas outras pessoas.

Seguramente, o pior já havia passado, e as coisas só po­deriam melhorar dali para a frente.

CAPÍTULO TRÊS

Ela realmente acreditara que tudo melhoraria?, Alexa se perguntou, algumas horas depois. A verdade é que não tinha idéia se as coisas estavam melhores ou piores.

Alexa circulava, inquieta, pelo enorme salão de jantar azul e dourado no qual a refeição, que deveria ter sido parte da recepção de casamento de Santos Cordero, fora servida e onde, agora, só restava um pequeno exército de criados limpando.

A comida estava maravilhosa, pelo menos foi o que Ale­xa conseguira constatar, apesar das duas únicas garfadas que dera. Seu estômago estava revirado e sua cabeça mar­telava, não permitindo que ela se acomodasse, tranqüila, para comer.

E tudo havia ficado ainda pior, pois Santos insistira para que ela sentasse ao seu lado, na cadeira que deve­ria ser a de sua esposa. Em vez disso, lá estava a irmã da noiva, sentindo-se deslocada e desconfortável, com o vestido de dama de honra e o elaborado penteado que já desmoronava...

— O que estou fazendo aqui? — Alexa se perguntou ao parar em frente a uma das amplas portas de vidro que da­vam para a varanda de pedras com vista para o enorme jar­dim, deixando seu olhar se perder na imensidão do bosque e da admirável piscina.

A água azul brilhava com a luz do sol, fazendo-a pen­sar em tirar a roupa e dar um mergulho. Ou, no míni­mo, tirar os elegantes sapatos e colocar seus pés dentro d'água, para aliviá-los do desconforto que a sandália ha­via provocado.

— Então, é aqui que está se escondendo...

Uma voz máscula, grave e intensa a trouxe de volta à re­alidade em um segundo. Ela havia escutado bastante aque­la voz, sabia que sempre a reconheceria, bastando ouvir apenas algumas palavras naquele tom profundo, o sotaque sexy acentuado, para saber quem estava falando.

— Não estou me escondendo. Só estou respirando um pouco.

Alexa manteve seu olhar na vista. Queria evitar Santos, pois sabia que isso mexeria ainda mais com os sentimentos que tentava controlar. Além do mais, já estivera frente a frente com seu lindo rosto a tarde inteira, tentara entender o que diziam seus olhos negros e perceber o que havia por trás de cada palavra que ele pronunciava — e falhara todas as vezes! Tudo o que se passava pela mente de Santos era oculto sem muito esforço. Tudo o que dizia, toda expressão era disfarçada.

— Estou tentando compreender o que estou fazendo aqui.

— Está aqui como minha convidada, como todos os outros.

— Uma convidada para uma recepção de um casamento que não aconteceu. Essa comemoração me parece despro­positada.

— Você não concorda que isso foi uma atitude prática para um problema? Eu não gostaria de desperdiçar o di­nheiro que investi.

— Você pagou pela recepção? — Alexa estava confusa desde o princípio. Nunca entendera por que o casamento aconteceria na Espanha, mas Natalie sempre dissera que Santos insistira. — Mas por quê?

— Seu pai não tinha condições de fazer tudo da forma como sua madrasta queria, e eu tinha.

Fora uma explicação dura e real, mas sem o cinismo usual. Alexa sabia que sua madrasta possuía um gos­to extravagante e que seu pai passava por dificuldades financeiras, incapaz de fazer-lhe as vontades como de costume.

— E eu também queria que minha esposa tivesse o que há de melhor.

A declaração foi uma verdadeira surpresa. Santos pode­ria até ter confessado não se importar com o fato de Natalie tê-lo abandonado, porém era um homem disposto a gastar fortunas para garantir o melhor casamento. Não fazia muito sentido.

— Você foi muito generoso.

Santos reagiu com indiferença ao reconhecimento de Alexa.

— Se eu não tivesse convidado todos à minha casa teria uma quantidade absurda de comida e vinhos caros e nin­guém para compartilhar. E nem todos comeram tão pouco quanto você.

Então ele notara como ela fingira comer. Alexa sentiu-se inquieta ao perceber que cada movimento seu havia sido observado.

— Você não gostou da comida?

— Não foi isso, só não gostei da sensação de estar sendo observada. Senti como se todos me olhassem, perguntando-se por que eu estava presente.

— Mas quem se importa com o que os outros pensam? Aparentemente, ele não.

Alexa não conseguiria continuar aquela conversa sem olhá-lo, então, virou-se até estar de frente para seu deslum­brante rosto.

Isso não a ajudava. Ela recordava-se como o semblante de Santos estivera fechado durante toda a viagem de carro, como mal pronunciara uma palavra, e agora percebia sua expressão, ainda mais distante.

Qualquer pessoa que os observasse de longe diria que Santos estava sendo apenas educado, com a natural cordia­lidade de um anfitrião com um convidado. Mas, olhando-o de perto, Alexa não podia deixar de notar o esforço de San­tos para controlar todos os seus gestos.

Seus olhos quase fechados revelavam uma agressiva atitude sexy, provocando um efeito devastador em Alexa. Mas por trás das pálpebras pesadas seus olhos flamejantes brilhavam e acompanhavam cada movimento dela.

— E era necessário fugir dos paparazzi — Santos con­tinuou. — Eu lhe proporcionei uma maneira de conseguir isso.

— E eu agradeço muito...

Sua voz falhou ao relembrar dos inúmeros repórteres do lado de fora da igreja. Escondida atrás de Santos, ela cor­rera para a limusine, enquanto a multidão gritava. Fugia dos flashes, que disparavam com a intensidade de fogos de artifício.

— E agradeço também por meu pai e por minha ma­drasta.

Alexa só vira os dois uma vez desde que chegaram à linda mansão de Santos. Seu pai apoiara sua madrasta, aju­dando-a a sentar-se, providenciando uma bebida para ela, mas a verdade é que ele também precisava de cuidados. A notícia relacionada a Natalie havia sido um golpe demasia­do forte para os dois e por isso ela era grata a Santos pela forma como conduzira a situação.

— Proteger-nos da imprensa foi só o começo, você fez mais do que isso.

— Você acha?

O olhar questionador de Santos enviou uma onda de ca­lor pelo corpo de Alexa. Ela se sentia como se estivesse o tempo todo se comportando de maneira equivocada. Desde que chegara à igreja, ele em nenhum momento reagira da forma como ela aguardara.

Os olhos de Santos pareciam dizer: o que faz você pen­sar que é tão importante?

— Bom, deve haver algum motivo além de nos proteger da imprensa, senão nada disso faria sentido.

— Você está aqui porque eu quero você aqui — Santos disse, de forma suave. — E isso é tudo o que importa.

— E você sempre consegue o que quer?

Santos não respondeu com palavras. Não era necessá­rio. Seu olhar já dizia tudo. No entanto, o perigo estava na reação de Alexa, que mal conseguia conter a súbita onda de prazer que a tomou, ao ouvir que Santos a queria por perto. Que ela era alguém importante a ponto de ele levá-la para sua casa.

Esse tipo de coisa não acontecia a Alexa. Homens como Santos não apareciam em sua vida — não na vida de biblio­tecárias introvertidas, magricelas e de cabelos escorridos. Apareciam para mulheres como Natalie: louras, de olhos azuis e exuberantes.

— Você parece ter se recuperado muito bem — Ale­xa falou. E para disfarçar a inquietude provocada pelos sentimentos que a invadiam, fez um comentário irônico:

— Não consigo imaginar alguém capaz de ser um anfi­trião tão amável momentos depois de ser abandonado no altar.

— Você esperava que eu me jogasse no chão da igreja aos prantos?

Santos perguntou de forma sarcástica, deixando claro pelo seu olhar que essa jamais seria sua reação.

— Mas, se você queria se casar com Natalie, se você a amava...

— Amava?

A resposta de Santos foi acompanhada de uma risada cínica, fria e zombeteira.

— Não acredito no amor. Nunca acreditei, jamais vou acreditar.

— Então, por que ia se casar com Natalie?

Dessa vez o semblante de Santos ficou de tal maneira que suas sobrancelhas negras se aproximaram ainda mais, fazen­do com que Alexa se sentisse como uma borboleta indefesa, capturada e prestes a ser dissecada.

— Era o que sua irmã queria. E era conveniente para mim. Mas não havia amor.

— Você ia se casar com minha irmã só por... — Alexa começou a falar, com raiva, mas ao perceber o peso do que diria, deixou as palavras no ar. — Não... Natalie não faria isso!

Alexa balançou a cabeça com tanta força que parte de seu penteado se desfez.

— Por que ficou tão indignada? — Santos a questionou com suavidade. — Certamente, você sabia disso, não?

— Bom, sim...

Natalie admitira que não amava Santos, e agora fica­ra claro que ele também não a amava. Então, quais eram os planos de sua irmã? Ser apenas uma mulher para ele exibir? Seria possível para El brigante maquinar uma si­tuação destas?

Santos levantou o rosto de Alexa pelo queixo em direção ao seu, fazendo-a olhá-lo em seus flamejantes olhos.

— Por que isso a surpreende tanto? Muitas pessoas se casam por conveniência, por tradição.

— Talvez isso aconteça a famílias mais antiquadas. Ou a pessoas que realmente precisam de dinheiro. Mas não a pessoas como você, você não...

Alexa, horrorizada, quase mordeu a própria língua na tentativa de frear as palavras que saíam de sua boca. O que estava pensando? Como chegara tão perto de dizer tal coisa?

— Pessoas como eu não o quê? — Santos indagou, com uma suavidade suspeita que revelava um certo grau de pe­rigo. — O que estava prestes a dizer, Alexa?

— Bom, você não precisa de dinheiro, certo? Está na­dando em rios de dinheiro, de maneira até revoltante.

O semblante de Santos se transformou de tal forma que a fez sentir um temeroso frio na barriga. Ela sabia que ha­via sido dura, mas queria ser fiel a seus valores. E esses lhe diziam que um homem como Santos, com tanta beleza, tamanha riqueza e sucesso, jamais precisaria comprar uma mulher ou aceitar um casamento de conveniência. Bastava um estalar de dedos para que milhares de mulheres corres­sem atrás dele.

— Revoltante? — Santos repetiu num tom assustador. — Você não aprova minha riqueza?

— Não quando você a usa para comprar pessoas.

— Sua irmã não foi "comprada"...

Santos cruzou os braços, encostou-se na parede e a olhou de cima a baixo. E a chama em seus olhos não era de admi­ração, mas fria e raivosa, fazendo-a retrair-se.

— Natalie sabia exatamente o que ganharia com isso.

Num primeiro momento Alexa se contentou com a ex­plicação, mas relembrando a forma como Natalie se com­portara, e as coisas que dissera, percebeu que Nat havia estado de fato animada com o casamento — pelo menos a princípio. Ela adorava ser vista nos braços de Santos, apa­recer nas colunas sociais. Foi só depois de conhecer outro homem que as coisas mudaram.

— E você? O que ganharia com tudo isso?

— Eu queria uma esposa. E herdeiros legítimos para o que construí.

— Existem outras maneiras...

Dessa vez o olhar fulminante de Santos a agredia com desprezo. Alexa não poderia ter dito nada mais estúpido, nem tão distante da realidade.

— Se está pensando em dizer que existe amor, romance e "felizes para sempre", então esqueça. Eu lhe disse que não acredito no amor.

— Por que não?

— Porque não existe.

Fora uma das coisas mais frias e definitivas que ela já ouvira, dando-lhe a certeza de que seria tolice argumen­tar em contrário. Seria o mesmo que bater a cabeça contra as pedras do jardim, não surtiria efeito. Mas Alexa sentia-se tão violentada com o cinismo de Santos que o choque a fez se expressar sem pensar.

— Então você comprou uma esposa.

— Não — Santos rebateu. — Não comprei...

— Então, como definiria a situação?

— Não definiria de forma alguma, senorita. Não há como definir. Porque, se você se lembrar bem, eu não casei. Minha noiva não manteve sua promessa.

A menção ao abandono fez com que Alexa se calasse. Ele estava certo, não importava o acordo, Natalie havia que­brado a promessa. E nesse instante um terrível pensamento invadiu sua cabeça: estaria Santos com raiva suficiente para processá-los por quebra de promessa?

— Eu não queria apenas uma esposa, havia outras coisas.

— Como assim? O que mais você queria?

— Uma união com uma família de sobrenome respei­tável e tradicional. Você conhece meu apelido? — Santos indagou.

El brigante? Ele confirmou.

— Não é um elogio.

— E isso importa para você?

Não poderia. Santos parecia ser sempre tão indiferente e despreocupado em relação à opinião alheia!

— Não dou a mínima. — Santos confirmou as suspei­tas de Alexa. — Mas não quero que meus filhos tenham que lutar por um espaço na sociedade, como eu tive de fazer. Se tivessem sua irmã como mãe deles, com o sobre­nome dela, até os mais conservadores e preconceituosos os aceitariam.

Havia uma amargura no tom de Santos que fez com que as palavras saíssem como duras verdades. Não era necessá­rio explicar o preconceito que sofrerá, estava óbvio.

— Eu só posso me desculpar.

A voz de Alexa se dissipou ao ver Santos levantar os lar­gos ombros em total indiferença àquelas palavras enquanto o olhar frio que ele lançava para ela parecia congelá-la.

— Você acha que um pedido de desculpas é suficiente?

— Penso que seria, no mínimo, educado.

— Ah sim, vocês ingleses sempre tão educados! E isso faz com que tudo fique bem.

— Nunca disse isso! — Alexa protestou esquivando-se do cinismo de Santos. — Teria sido melhor se Nat lhe tives­se dito pessoalmente?

— É o que você teria feito? — Santos a questionou fa­zendo-a sentir calafrios ao perceber a censura que havia por trás da pergunta. — Você teria me dito pessoalmente? Per­gunto-me se você teria me dito a verdade ou se teria feito como sua irmã e fugido.

Nesse instante Alexa conseguia entender perfeitamente porque Natalie havia agido daquela forma. Pois teria feito a mesma coisa: corrido para qualquer lugar, evitando enfren­tá-lo. Ele não havia levantado a voz, nem sido agressivo. Não era necessário! A raiva em suas palavras estava dissi­mulada por uma delicadeza que parecia muito mais violen­ta do que se ele estivesse gritando.

— Natalie fez o que tinha de ser feito — Alexa disse, lutando contra a tensão que sentia. Se Santos percebesse qualquer sinal de fraqueza, se aproveitaria, e ela esta­va determinada a demonstrar o mínimo de instabilidade possível.

— "Natalie fez o que tinha que ser feito" — Santos re­petiu. — E deixou você para enfrentar as conseqüências enquanto fugia com o amante. E ainda assim a defende? Ainda luta por ela?

— Ela é minha irmã.

— E apenas sua meia-irmã.

— Mas é família, e você sabe o quanto é importante.

— Ao contrário...

Alexa podia jurar que era impossível para Santos ser ainda mais frio, mas quase podia ver o gelo se formando a cada palavra que saía de sua boca.

— Sinto dizer que não dou importância à família como você. É um conceito superestimado.

— Outro! Primeiro o amor, agora a família. Você é real­mente um sujeito sem coração, não é?

Por um instante os olhos de Santos reagiram, mas um longo e pesado piscar fez com que qualquer sinal de abalo desaparecesse. Mesmo efêmero, o olhar a alertara que ha­via ido longe demais, além do que ele permitira.

Alexa recordou, tardiamente, que ninguém da família de Santos tinha ido à igreja. Havia ela cometido um erro crasso pisando em seu calo, alguma coisa sobre sua família ela desconhecia? Algo que explicaria o motivo de não es­tarem presentes à cerimônia do casamento? O pai de Alexa havia falado muito pouco sobre Santos, além de ele ser um bilionário.

— Sou realmente um sujeito bem franco — Santos dis­se de forma branda. — E tenho certeza de que sabe bem isso.

— Não... eu...

Ai, meu Deus!, provoquei uma grande confusão, Alexa pensou. Será que Santos acreditava que ela teria incenti­vado Natalie a desistir do casamento por considerá-lo um sujeito falso?

— E em relação à família, era isso o que esperava cons­truir com sua irmã: uma família — Santos completou.

De repente, Alexa se sentiu constrangida. E mais do que depressa tentou se explicar.

— Veja bem, Nat só fez o que eu disse para ela fazer. Os olhos de Santos viraram duas pedras de gelo.

— Você disse para ela fugir do próprio casamento? Quem lhe deu o direito de interferir?

— Ela não amava você!

— Ah, sim, o amor... Palavra que parece ser tão impor­tante para você!

— É mais do que uma palavra — Alexa protestou. — É essencial para a vida. Natalie e eu só temos o mesmo pai em comum, mas ela é minha irmã caçula. Eu tinha apenas 5 anos quando ela nasceu, e a segurei no colo antes mesmo que ela completasse um dia de vida.

Alexa amara Natalie desde o primeiro momento e jura­ra que, se sua irmã precisasse de ajuda, sempre estaria a seu lado. Ela a protegeria de qualquer problema.

— Nunca deixaria você fazê-la infeliz!

Pensar na própria família fez Alexa acordar para a rea­lidade.

— Eu deveria encontrar meu pai, ver como Petra está. Você sabe onde eles estão?

— Você não conseguirá achá-los. Partiram há meia hora.

— Partiram? Então está tudo mais tranqüilo lá fora? Os paparazzi foram embora...?

A esperança de Alexa se dissipou ao ver Santos negar de forma enfática.

— Eu os mandei para o hotel num carro. Os seguranças os acompanharam, mas a imprensa ainda está aqui.

— Se ainda estão aqui, por que expor meu pai e Petra? Você os colocou para enfrentar a multidão...

— Eu não os queria aqui.

A indiferença de Santos era verdadeiramente chocante.

— A imprensa não terá mais interesse em seus pais. Já sabem que o casamento não aconteceu, então imaginam que a principal notícia está aqui dentro.

Então Santos abriu um daqueles sorrisos devastado­res que a deixava com as pernas bambas e o coração dis­parado.

— Agora eles querem saber sobre você.

— Eu? Por que eles iriam querer saber sobre mim?

— Sabem que entrou na igreja no lugar de Natalie. E também que saiu de lá comigo. Agora vão querer saber por que o casamento não aconteceu. E qual é o seu envolvimen­to em tudo isso.


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