Avassaladora Vingança (Cordero's Forced Bride) Kate Walker



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CAPÍTULO QUATRO

— Eu?


Isso não poderia ser verdade, poderia?

Alexa acreditava saber exatamente o motivo de Santos ter mantido a recepção embora não tivesse havido casamen­to. O orgulho implacável o mantinha de cabeça erguida, recusando-se a admitir que algo saíra errado. Um homem que não dava a mínima importância ao apelido El brigante também fazia questão de deixar claro que não se importava com o que acontecera aquele dia.

Santos dissera a Alexa que o casamento com Natalie não passava de mera conveniência, de tal modo que mostraria ao mundo o quanto não se abalara pelo abandono da noi­va. Entretanto, a situação devia ser um teste de resistência para Santos, como era para Alexa. Afinal, todos os olhos estavam voltados para eles, todas as suas reações sendo ob­servadas e comentadas.

A pergunta de Alexa fora mais uma vez descartada por um daqueles sorrisos que a desarmavam e faziam o rosto de Santos reluzir vividamente, produzindo uma onda de calor no corpo de Alexa, acelerando seu coração e levando-a a uma sensação de que se dissolvia. Nunca na vida sua ra­cionalidade estivera tão em oposição ao seu instinto, num confronto direto. Ela sabia que sua sensatez deveria prevalecer, mas no momento era seu lado irracional, emotivo — e sensual —, que estava à frente.

Alexa tentava se convencer de que tudo aquilo era fruto de sua imaginação, que nenhum homem poderia ter efeito tão devastador e instantâneo sobre ela. No entanto, por mais que repetisse isso a si mesma, mil vezes, o desejo que sentia por Santos recusava-se a desaparecer, fazendo-a ansiar por ouvir mais uma vez sua voz sexy e ver seus brilhantes olhos e o devastador sorriso.

— Achei que tínhamos combinado que não desperdiça­ríamos uma recepção que já havia sido preparada.

— Não combinamos nada, você determinou que seria dessa maneira.

— Então, se eu pedisse para dançar comigo, você ne­garia?

— Dançar?

O homem estava louco? Ele realmente queria dançar?

Como se estivesse programado, no mesmo instante a música começou a tocar, no salão ao lado. E enquanto Alexa ainda procurava entender o que acontecia, Santos estendeu a mão, tirando-a para dançar.

— Contratei dois músicos — ele disse, de forma sedu­tora. — E não pretendo desperdiçá-los também. Dance co­migo, Alexa.

— Não posso...

— Não pode ou não quer?

A mão de Santos continuava estendida, forte e con­vidativa, tentando-a a dar-lhe a mão e sentir o calor de sua pele. Alexa se esforçou para manter-se distante, lu­tando contra a vontade sensual que a dominava. Quase se beliscando, na tentativa de se convencer de que era um sonho.

O dia havia sido tão diferente do que Alexa antecipara que parecia estar vivendo como Alice no país das maravi­lhas, onde tudo estava de cabeça para baixo.

— Eu não deveria!

— Mas por quê?

A voz de Santos engrossou de tal forma que a fez re­trair-se.

— A primeira dança deveria ser com sua noiva... com sua esposa!

— Mas minha noiva está a milhares de quilômetros de distância. Diga-me uma coisa...

O tom de sua voz mudou abruptamente, de modo crítico, enquanto ele se aproximava mais de Alexa.

— Se hoje não fosse o dia do meu casamento, se tivés­semos nos encontrado um outro dia e eu lhe pedisse para dançar comigo, você aceitaria?

E claro que sim.

As palavras estavam tão claras na cabeça de Alexa que parecia tê-las pronunciado em voz alta. E fechou os olhos com medo de que Santos fosse capaz de ler seus pensa­mentos, percebendo como ela havia sido envolvida por seu encanto sedutor de forma tão profunda.

— Você dançaria?

Ele estava tão próximo dela que era necessário apenas um sussurro para que ela o escutasse. A respiração de San­tos, no ouvido de Alexa, abalava seus sentidos.

— Diga-me, Alexa...

— Sim. Sim, eu dançaria.

— Então venha...

Mais uma vez, a mão de Santos estava estendida, só que agora num gesto autoritário, sem deixar opção a Alexa.

— Por que lutar contra isso? — Santos argumentou en­quanto Alexa ainda hesitava. — Não é necessário.

Por que lutar?, Alexa se perguntava a mesma coisa. O problema é que não sabia contra quem lutava. Contra Santo ou contra ela mesma?

Estava certa de que aquilo era algo passageiro, que San­tos só queria se distrair, precisava tirar de sua mente o fato de ter sido abandonado no altar. Mesmo sendo indiferente aos acontecimentos, como alegara, a rejeição pública havia, no mínimo, ferido seu orgulho de macho. E ele precisava de alguém para ajudá-lo a esquecer.

E ela era a pessoa mais próxima!

Mas, se Alexa fosse realmente sincera consigo mes­ma, admitiria que isso não importava, contanto que a noite pertencesse a ela, contanto que passasse a noite com Santos.

— Tudo bem — ela concordou, ainda sem acreditar no que acontecia, incerta do significado de sua atitude, mas certa de que se arrependeria profundamente se dis­pensasse Santos naquele momento. — Tudo bem, vamos dançar.

Quando Santos segurou sua mão e Alexa sentiu o calor e a força de seus dedos envolvendo os dela, o ritmo excitado de seu coração confirmou que havia feito a escolha certa.

Mesmo se à meia-noite sua carruagem voltasse a ser uma abóbora e suas roupas se transformassem em trapos, Cinderela iria ao baile! Hoje ela dançaria com o príncipe, mesmo que depois tudo terminasse, como numa fantasia. Pelo menos teria tido essa noite.

— Vamos dançar.

Santos concordou com satisfação, seu sotaque ainda mais grave fez as palavras soarem como um ronronar de prazer, fazendo Alexa até esquecer da dor que sentia nos pés.

Mas, ao passarem em frente as grandes portas de madei­ra que davam para o lado externo da casa, Alexa viu uma limusine à espera de algum convidado que se retirava mais cedo da festa.

Ao contemplar a cena, Alexa diminuiu o passo, alteran­do sutilmente seu humor. Não conseguia deixar de pensar que em algum lugar seu pai e Petra ainda sentiam os efeitos dos acontecimentos do dia, tal como ela.

Charmoso ou não, Santos ainda era a implacável criatura de apelido cruel. O homem cujas conexões com Stanley Montague o transformaram na sombra do homem que fora um dia.

— Alexandra?

Santos sentiu a mudança em Alexa, parou e a olhou.

— Acho que devo voltar.

— Não.

— Mas eu deveria ver como meu pai está...



— Não!

Dessa vez Santos foi muito mais enfático, mesmo sem levantar a voz.

— Você não vai embora.

— Mas, Santos, realmente acho que deveria partir. Se você puder providenciar um carro para mim...

Alexa se distanciou, surpresa quando viu o movimento feroz que Santos fez com a cabeça, a inexorável forma que tomou conta de seu semblante, desfazendo qualquer suavi­dade remanescente.

— Não providenciarei carro algum.

— Mas, com certeza, deve haver mais de um... —Alexa começou a protestar, mas as palavras se esvaíram ao perce­ber o que ele dissera.

Não é que não havia carro disponível, é que não teria um carro para ela.

— O que você quer dizer com isso? Não tem carro?

Batendo o pé, Alexa recusou-se a continuar caminhan­do, tentando libertar a mão das garras de Santos enquanto ele insistia em arrastá-la.

— Você não pode me manter aqui!

— Pensei que você quisesse ficar.

A voz de Santos estava suave, mas havia uma dureza por trás, algo em seus olhos que a fez sentir um calafrio. Alexa queria mesmo ficar? Um momento atrás tinha certeza, ago­ra, já duvidava.

— Eu penso que talvez...

— Talvez nada — Santos a interrompeu. — Seu pai e Petra não a chamaram quando partiram. Então você não partirá. Não até eu permitir.

Isso já era demais. Ao ouvir tal declaração arrogante, Alexa levantou a cabeça e o olhou, com ar desafiador.

— O que lhe dá o direito de decidir quando posso partir?

Agora ele agira de forma equivocada, Santos admitiu para si mesmo. Alexa não o deixaria livrar-se tão facil­mente dessa. Uma sensação de admiração inesperada to­mou conta de Santos ao perceber o olhar provocador de Alexa e sua postura. Se não agisse com cuidado, a perde­ria, e ele não a deixaria partir, pelo menos não até estar seguro de que ela pertencia a ele.

O desafio com essa irmã seria muito maior do que es­perara. E a verdade é que essa idéia agradava a Santos, que já conseguia antecipar que teria de lutar para conquis­tá-la. Mas no fim o esforço valeria a pena.

— Não é que eu tenha o direito.

Alexa não conseguia decifrar se o pequeno sorriso de canto de boca de Santos era reflexo da alegria que ele sen­tia em provocá-la ou de admiração por sua coragem em desafiá-lo.

— Talvez eu não esteja preparado para deixar você partir.

A resposta fora tão distante do que Alexa esperara que a deixou muda, incapaz de acreditar no que ouvia. Ele real­mente disse que...?

— O que você quer dizer com isso?

— Eu disse: você está aqui porque quero você aqui.

E Santos sempre conseguia o que queria! Mas por que a queria ali? O que poderia querer com ela?

— Então você ficará aqui até eu dizer que pode partir.

E num súbito movimento ele chutou a porta, fechando-a num só golpe. Mesmo com o estrondo provocado pelo bater dos pesados painéis de madeira o sorriso de Santos permanecia inalterado, e aquecia seu olhar.

— Venha, Alexa — ele disse. — O que acha que farei? Pensa que vou violentá-la aqui no chão, na frente de todos os convidados?

Santos acariciou sua mão suavemente, fazendo com que milhares de impulsos elétricos reagissem no corpo de Alexa.

— Estou só pedindo para você ficar, para dançar comi­go, para passar esta noite comigo.

Não estou preparado para deixar você partir... As pala­vras de Santos, inacreditáveis para Alexa, reviraram em sua mente até deixá-la tonta.

Você está aqui porque quero você aqui.

Quem Alexa tentava enganar? Ela queria ficar, era mais fácil admitir. Cinderela queria ficar no baile. E queria pas­sar mais tempo com aquele homem que, embora não fosse o Príncipe Encantado, era, definitivamente, o mais interes­sante e devastador homem que conhecera.

Mas a sensação de vazio que permaneceu depois que o entusiasmo se evaporou deixou Alexa com um absurdo frio na barriga. Ela já não estava mais tão preocupada e temerosa como momentos antes, mas seu estômago estava contraído só de pensar no que ainda poderia acontecer na­quela noite.

Ela agüentaria? Conseguiria lidar com um homem como Santos? Um homem a anos luz de qualquer outro que ela conhecera. Agüentaria uma noite em sua companhia? E, mais, conseguiria viver com o arrependimento se desistisse agora?

Tudo havia mudado. E parecia que Santos também sen­tia algo por ela. Mas, ao lado de um homem como aquele, Alexa sentia-se fora de seu habitat. Toda e qualquer fibra de sensatez e autopreservação dizia para ela partir, sair dali enquanto era tempo. Porém, ao mesmo tempo, toda a fe­minilidade de seu corpo implorava para que ficasse. E a tensão resultante, o cabo de guerra que havia dentro dela, parecia querer parti-la em dois.

Santos, mais uma vez, segurou Alexa, colocando sua mão contra o calor de seu peito, enquanto a olhava profun­damente nos olhos.

— Apenas uma dança. Estou pedindo muito?

E, quando Santos sorriu, ela soube que estava entregue e que só poderia responder uma coisa:

— Não, você não está pedindo muito.

Só uma dança... Mas seria essa dança o fim ou o início? Alexa sabia que não conseguiria relaxar até descobrir.

CAPITULO CINCO

O fim ou o início?

A recepção havia terminado, todos tinham partido, mas Alexa ainda não fazia idéia de qual era a resposta para sua pergunta.

Desceu correndo as escadas que levavam à piscina, an­siosa para chegar ao jardim, onde poderia se esconder nas sombras do crepúsculo. Precisava ficar sozinha para respi­rar fundo, resfriar o rosto, já rubro de tensão, e acalmar sua pulsação acelerada.

Alexa precisava de tempo para pensar, para colocar os pensamentos no lugar e, de alguma forma, controlá-los.

Chegando à borda da piscina, sentou-se num dos bancos de madeira e tirou as sandálias, suspirando aliviada ao livrar-se dos sapatos apertados. Se ao menos pudesse se livrar da confusão mental também tão facilmente.

Alexa deveria ser a filha sensata, madura e centrada da família Montague. Nunca vivera nada como a explosão de sentimentos que a envolvera naqueles momentos, ao lado de Santos Cordero.

— Momentos? Que momentos? Alexa se perguntou enquanto gargalhava diante de tal pensamento ridículo. E olhava para a lua, que lança­va uma forte e límpida luz. Ela mal conhecera Santos, estivera em sua companhia por menos de um dia, e, no entanto, de alguma forma, ele fora capaz de provocá-la de tal maneira que sua noção de realidade se encontrava estremecida.

Nenhum de seus relacionamentos anteriores — im­possível chamá-los de romances — havia abalado Alexa daquela forma. Nada a havia preparado para enfrentar a sensação de ser jogada no ar, girada várias vezes e depois colocada no chão de forma tão inusitada.

E era por isso que Alexa estava ali, escondida na es­curidão, à procura de seu centro. A procura da Alexa que acreditava ser. Ou descobrir se essa havia sido destruída pelo vulcão de paixão que entrara em erupção em seu coração.

E tudo o que sentia era pelo pior homem da face da Terra! Um homem no qual não confiava e do qual não gos­tava, de verdade. Um homem que honrava o apelido El brigante nos negócios e, ao que lhe parecia, na vida priva­da também.

— Alexandra?

A linda e máscula voz vinha do terraço onde Alexa esti­vera minutos antes. É claro que ela sabia quem era. Aquele tom e sotaque já estavam tão enraizados em sua cabeça que era impossível não reconhecê-los.

— Alexa!


Ela queria se manter escondida. Ainda não se sentia pronta para enfrentá-lo, especialmente não a sós, sem nin­guém mais à volta para reduzir a poderosa atração que ele exercia sobre ela.

Alexa havia presenciado, da porta da casa, a partida de todos os convidados, e o tempo todo Santos a manteve ao seu lado, segurando-a pelo braço, enquanto se des­pedia. A cada novo carro que chegava, ela alimentava a esperança de escapar, de partir e voltar para o hotel onde poderia refugiar-se em seu quarto para refletir sobre os acontecimentos daquele dia.

Alexa não tinha opção senão esperar por um carro, pois como dama de honra não estava, sequer, com uma bolsa, não tinha dinheiro... nada! Então, dependia inteiramente de Santos.

Mas Santos ainda não havia colocado um carro à sua disposição. Em vez disso, parecia indiferente a sua presen­ça, até que Alexa irritou-se e puxou-lhe o braço.

— Espero que você tenha um carro para mim — ela dis­se, com a voz ansiosa. — Preciso voltar...

As palavras morreram na boca de Alexa ao perceber o frio olhar de desaprovação que Santos lançava.

— Ainda não.

— Ainda não? — Alexa repetiu, chocada e consternada. — Como assim, ainda não?

— Temos coisas a discutir — Santos respondeu.

— Temos?


Santos balançou a cabeça, concordando, enquanto Alexa levava a mão ao rosto, angustiada.

— Sim, temos.

Antes que ela pudesse protestar, Santos já estava mais uma vez de costas, despedindo-se de outro convidado. A não ser que ela fizesse uma cena, reagindo de forma histérica, não havia nada que pudesse fazer. E, enquanto isso, as palavras de Santos continuavam a ecoar em sua cabeça.

Não estou preparado para deixar você partir... Você está aqui porque quero você aqui.

Alexa havia considerado tais palavras como um elogio. Mas agora não estava mais tão certa. Ele a mantivera ali a tarde inteira porque queria companhia para distraí-lo do constrangimento público que sofrerá no altar? Ou ela estaria como algum tipo de prisioneira? Alexa temia, em silêncio.

— O que está fazendo aqui embaixo?

Permanecer quieta não adiantara. Santos sabia onde ela estava o tempo todo.

— Preciso de um tempo, de ar puro.

— Sei como se sente. Foi um longo dia.

E lá estava, mais uma vez, aquele tom de voz aparen­temente compadecido, como se ele também estivesse sen­tindo o impacto dos acontecimentos do dia.

Santos sentou-se ao lado de Alexa, seu corpo forte e esguio ainda mais imponente à penumbra do entardecer, exalando no ar o aroma limpo, morno, almiscarado, de sua pele. Instantaneamente, Alexa foi transportada para mo­mentos antes, dentro daquela linda casa, quando ele a segu­rara em seus braços para dançar.

Alexa se sentira envolta por ele, perdida em seu olhar, no som de sua voz e no calor de seu toque. E a sensação a dominara.

Essa sensação perturbadora a invadia outra vez, agora na beira da piscina. A medida que Santos se aproximava, os dedos de Alexa queriam tocar seus braços fortes, descobrir qual era o gosto daqueles lindos lábios, qual a sensação de passar as mãos pelos sedosos e negros cabelos de Santos. Mas sentia-se, ao mesmo tempo, aterrorizada de estar tão fora de controle, fora de si.

— As pessoas na festa eram seus amigos...

"E membros da sua família", ela ia continuar, mas, ao lembrar-se da reação de Santos mais cedo, engoliu as pala­vras, temerosa do impacto que poderiam ter.

— Se fossem amigos de verdade, acha que eu me daria ao trabalho de manter a farsa de uma recepção sem casamento? A maioria era de pessoas com as quais negocio, pessoas sem importância alguma para mim.

— Que maneira mais cínica de se colocar.

— Sou um homem muito cínico.

A dureza do tom de Santos fez Alexa respirar fundo, procurando recuperar o fôlego para perguntar o motivo de ele ser daquele jeito. O que havia feito com que ele se tornasse um homem que via o casamento como um ne­gócio, uma forma de prover um herdeiro para si próprio, sem amor? Mas seus instintos diziam que Santos não re­ceberia bem tal pergunta, e Alexa não queria arriscar-se ainda mais.

— Uma vez me disseram que, para se tornar uma pessoa cínica, primeiro, você teria de ser um idealista, que só a perda de seus ideais poderia provocar tal desilusão.

— Verdade?

A gargalhada de Santos a fez encolher-se.

— Então, sinto lhe informar, sou exceção à regra. Nasci sem nenhum ideal. E, se tivesse algum, não teria durado a minha infância.

— Parece-me uma maneira muito triste de se viver.

— E você nasceu cheia de sonhos, acreditando em contos de fadas e "felizes para sempre"?

— Conto de fadas, não — Alexa negou. — Seria uma tola se acreditasse nisso, ainda mais diante do exemplo de meu pai e de minha mãe.

Claro, Santos esquecera, ela era filha da primeira esposa de Montague. O casamento que acabara em divórcio.

— O que aconteceu?

— Petra aconteceu. — O tom de Alexa agora era reti­cente. — No momento em que ela apareceu na vida de meu pai, ele parou de pensar com clareza. Começaram a ter um caso, e, quando Petra engravidou de Nat, ele pediu o divór­cio à minha mãe.

— E como isso fez você se sentir?

— Como você acha que me senti? Você tem que enten­der, eu tinha apenas 4 anos, tinha perdido meu pai. Ele nos abandonou para viver com outra pessoa.

Mas Santos entendia muito bem, muito mais do que Ale­xa poderia imaginar.

— Você não quis ficar com ele, em Londres? Ela o olhou completamente estonteada.

— Não era uma opção.

Ao perceber a reação de confusão de Santos, Alexa abriu um pequeno sorriso de canto de boca.

— Era a última coisa que eu queria — Alexa explicou. — Além do mais, Petra não me queria por perto e eu prefe­ria ficar com minha mãe, ela precisava de mim.

— Ela ficou mal?

— Mal é pouco! Meu pai destruiu o coração dela, e por muito tempo ela desistiu de viver.

— E mesmo assim você ainda acredita no amor?

Dessa vez o sorriso de Alexa estava ainda maior e seu olhar, mais brilhante.

— Mas não ficou assim. Minha mãe, depois, conheceu uma pessoa. Já estão casados há dez anos, e nunca a vi tão feliz. E mesmo Petra não sendo o tipo de pessoa que gos­to... — O tom de Alexa deixava claro que sua declaração era muito delicada. — Meu pai a adora, e nunca mais teve olhos para outra mulher. Minha mãe e meu pai casaram com a pessoa errada na primeira vez. Então, sim, gosto de acreditar que todos podem ter alguém.

— E existe alguém para você?

— Para mim?

Alexa reagiu de forma levemente perturbada, arrega­lando os olhos. E, então, Santos sentiu uma sensação de­sagradável ao imaginá-la namorando alguém. Não que ele duvidasse que fosse capaz de fazê-la esquecer quem quer que fosse, só seria um obstáculo indesejado, que ele teria de afastar.

— Não, não tem ninguém.

Seu olhar se tornou tímido ao responder. E Santos não pôde evitar esboçar um breve sorriso de satisfação. Pelo menos Natalie fora verdadeira quando dissera que sua irmã não estava envolvida com ninguém. Mas, ao abaixar a ca­beça, Alexa deixou ainda mais à mostra aquele horroroso penteado que fez Santos franzir as sobrancelhas em desa­provação.

— Venha aqui... — ele disse, de forma delicada.

Santos manteve seu olhar preso ao dela por mais al­guns instantes, imaginando se ela perceberia o quanto seus pensamentos eram transparentes. Era óbvio, ela acreditara que ele fosse beijá-la; estava escrito em sua testa! Alexa pensou que fosse ser beijada, e se ele o fi­zesse, ela não se oporia. Na verdade queria aquilo, tanto que seus lábios rosados já haviam se movimentado em antecipação. Ele poderia beijá-la agora, e Alexa não faria nada para impedi-lo.

E era por isso mesmo que Santos não a beijaria. Ah, mas é claro que ele queria. Era até surpreendente a von­tade que sentia de beijá-la. Mas não cederia a esse dese­jo. Agora Alexa estava interessada nele, mas ele queria mais do que isso. Ele a queria desejosa e entusiasmada, necessitando dele com sede de prazer. Ele a queria com­pletamente apaixonada, de forma tão entregue que, quan­do ele a fisgasse, Alexa nem perceberia que tinha sido conquistada.

Essa irmã não escaparia! Ela não fugiria dele antes de chegarem ao altar.

— Temos que tirar isso...

Levando suas mãos aos cabelos de Alexa, Santos co­meçou a tirar os grampos, e eram muitos! Com cuidado, ele começou a retirá-los, um a um, jogando-os na borda da piscina. E, embora estivesse concentrado no que fazia, po­dia perceber a mudança na fisionomia de Alexa, levemente desapontada ao perceber que sua expectativa não fora cor­respondida.

E era exatamente o que Santos queria.

E a cada grampo que retirava, Santos podia emaranhar ainda mais seus dedos nos cabelos de Alexa. Seus cabelos eram incrivelmente sedosos; escorregavam como cetim, finos e macios, sensuais ao toque. E à medida que cada mecha caía solta sobre os ombros de Alexa, exalava um leve e suave perfume. Uma mistura de fragrância cítrica e aroma feminino, que provocou uma súbita onda de sensua­lidade em Santos, tão inesperada, tão poderosa que por um instante o fez parar, com os dedos ainda embaraçados em seus cabelos, em uma luta contra seu instinto mais másculo e primitivo.

— É de admirar que não esteja com dor de cabeça com tantos grampos nos cabelos o dia inteiro.

Santos aproveitou para passar os dedos pelas sedosas mechas de Alexa, fazendo com que o perfume de seus ca­belos exalasse ainda mais intensamente.

Instintivamente ela arqueou a cabeça para trás, pressionando-a contra os dedos de Santos e balançando-a para sen­tir a liberdade de seus cabelos soltos.

— Sinto-me muito melhor.

Santos lutava uma batalha interna para controlar o im­pulso de segurá-la pela cabeça e beijar seus lábios macios.

— Então, por que usou esse penteado?

— Ah, foi idéia de Petra. Ela planejou tudo para esse casamento. Queria que fosse perfeito para...

Ao perceber que Santos a olhava, Alexa hesitou, cravou os dentes no lábio inferior como se tentasse segurar a pala­vra que aflorava.

— Você pode falar o nome dela — Santos disse. — O mundo não acabará se mencionar sua irmã. Então Petra queria que o casamento de Natalie fosse perfeito, mesmo ela não comparecendo.

— Não.

Esse comentário fez com que Alexa mordesse ain­da mais o próprio lábio, e sem conseguir controlar-se Santos colocou um dedo na boca de Alexa, suavizando a tensão.



— Não faça isso — ele disse. E, no momento em que sentiu o toque suave do lábio de Alexa, teve vontade de continuar acariciando-a. Fazer com que ela sentisse o gosto dele em sua boca.

A necessidade de sentir o gosto dela também era avas­saladora, como uma garra selvagem cravada em seus sentidos. Santos queria tomar aquela boca na sua, até senti-la trêmula e entregue à paixão que despertava. Mas mesmo assim manteve-se firme, certo de que a provo­cara.

— Não acho que Natalie havia planejado abandoná-lo quando concordou em se casar.

— Você não acha?

— Não.

As palavras saíam entrecortadas à medida que Alexa tentava pronunciá-las. As tentadoras mãos de Santos ainda acariciavam seus cabelos, fazendo com que cada milímetro de sua pele se arrepiasse sensualmente ao seu toque.



— Ela queria que o casamento começasse com... Ela queria você.

— Até você persuadi-la do contrário.

Algo havia alterado a atmosfera drasticamente. As mãos de Santos pararam de acariciá-la. Alexa não estava perce­bendo alguma coisa. Um homem como Santos não aceitaria uma relação platônica. Não com a mulher que ele planejara se casar.

— Não!


Numa reação instintiva, Alexa afastou as mãos de San­tos de seus cabelos.

— Pare!


Santos levantou as duas mãos bem abertas. Mas o sutil e irônico olhar de zombaria que acompanhou seu movimento fizeram com que o aparente gesto de rendição perdesse o sentido.

— E o que exatamente eu deveria parar de fazer, querida? Ele pretendia provocá-la, e havia conseguido.

— Se você pensa que quero ser maltratada por alguém que foi amante de minha irmã, ou que irei levar para a cama o homem que acaba de sair da cama de minha irmã, você está profundamente enganado. Eu...

Sua voz revelou um doloroso constrangimento ao perceber o semblante de Santos. Alexa percebera, tarde demais, o erro estúpido que cometera, como revelara seus verdadeiros pensamentos muito além do necessário. Mordendo a própria língua, ela só podia agradecer pelas escuras sombras da noite e o pálido luar que esperava estarem escondendo o rubor que tomou conta de seu ros­to ao reconhecer o quanto havia se exposto com aquele rompante.

— Deixe-me lembrá-la, senorita, que você deve espe­rar até ser convidada para minha cama antes de rejeitar qualquer oferta, reagindo como uma virgem horrorizada. — Santos proferiu as palavras com grande frieza. — Só para deixar claro, nunca fui para a cama com sua irmã.

— Não?


O constrangimento a fez ruborizar ainda mais.

— Certamente, não. Talvez esse tenha sido meu erro.

— Seu erro? Que tipo de erro?

Tomada por um humor incerto e apreensivo, Alexa per­cebeu que era difícil controlar-se, parecia que não conse­guia pensar antes de falar. O nervosismo fazia com que ela proferisse as palavras antes de ter tempo para considerá-las. Em reação àquelas gélidas respostas de Santos, ela queria mesmo lutar e provar que não era a menina gaúche e ingê­nua que aparentava.

A menina gaúche e ingênua que acreditou que Santos es­tava tentando conquistá-la quando na verdade só zombava de sua inocência.

— Você pensa que se Natalie tivesse dormido com você ela não o teria abandonado? Que depois de experimentar o sabor do seu sexo ela se viciaria e quereria mais?

— Bom, isso nunca saberemos, não é verdade? E acho que você está muito aliviada em saber disso. Eu sei que estou.

— Aliviada?

Alexa franziu a testa, confusa, sem entender o que ele queria dizer com aquilo. Santos não poderia ter interpreta­do tão perfeitamente a reação de seu coração, pressentindo a maneira como ela, apesar de lutar contra si mesma, sen­tira um pequeno alívio em saber que eles não tinham sido amantes.

— Você não está fazendo o menor sentido. Por que dia­bos eu estaria aliviada?

— Porque, como você mesma colocou, de forma tão eloqüente há poucos momentos, não deixará deitar na sua cama um homem que acabou de sair da cama de sua irmã. E agora que sabe que Natalie e eu nunca fomos íntimos, está livre para satisfazer todas as suas vontades, o que acredito ser exatamente o que deseja.

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