Avassaladora Vingança (Cordero's Forced Bride) Kate Walker



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CAPITULO SEIS

Não!


Era o grito que Alexa estava prestes a soltar para Santos em reação à sua constatação arrogante. Ela quase abrira a boca para liberar o brado até que um rompante de bom sen­so a dominou, fazendo-a parar, engolir as palavras. Conten­do seu humor, Alexa conseguiu forçar-se a olhá-lo, manten­do-se calma apesar da atitude zombeteira de Santos.

— Eu também disse que não queria ser maltratada...

O sorriso de Santos aumentou, consumindo as palavras e a compostura de Alexa.

— E nós dois sabemos que eu não a estava maltratando. Nunca maltratei uma mulher na minha vida, e, certamente, não estava fazendo isso agora. Até porque você estava gos­tando demais...

— Não estava!

Ai, porque ela não conseguia manter a boca fechada? A cada momento se expunha mais. E Santos não acreditava em nada do que ela dizia. A expressão de ceticismo naquele rosto lindo dizia tudo.

— Estou aliviada por desfazer meu penteado... Que pa­recia estar arrancando meus cabelos pela raiz. E você foi bastante gentil para me ajudar... —Alexa conseguiu expli­car, enquanto Santos, sentado, esperava que ela continuas­se. — E foi um alívio...

— Naturalmente — Santos confirmou, com ironia.

E continuou, à espera que Alexa prosseguisse preen­chendo o silêncio que havia se alastrado. Mas não havia nada que ela pudesse dizer, nada que não a condenaria ain­da mais ou a faria parecer ainda mais tola do que ele já a considerava.

— É só isso.

— É claro que é.

A resposta cínica de Santos deixou bem claro que não acreditava nela, comprovada pela maneira como seus olhos a avaliavam, parecendo desprovê-la de uma necessária camada protetora, fazendo Alexa mexer-se desconfortavelmente sobre o banco, como se estivesse sentada sobre espinhos.

— Qualquer outra coisa é fruto de sua imaginação.

A forma como Santos inclinou a cabeça, como se con­cordasse, na verdade indicava exatamente o oposto, e foi a gota d'água para Alexa. Ela não podia continuar sentada ali presenciando a irritante diversão daqueles olhos e escutan­do o escárnio em sua voz.

— Agora eu gostaria de voltar para o hotel.

E Alexa colocou-se de pé, ou, melhor, tentou. Esquecera o estado de seus pés, o que os sapatos haviam feito, motivo pelo qual os tinha tirado ao se sentar. Livre das sandálias de couro, seus pés haviam inchado e os pequenos ferimentos estavam expostos. E ao pisar no chão frio o peso de seu próprio corpo só piorou a situação, tanto que não conseguiu evitar um gemido de dor que a fez fechar os olhos.

— Mas que...

De olhos fechados podia sentir como Santos levantara prontamente, estendendo as mãos enquanto ela tentava se equilibrar, evitando colocar ainda mais pressão sobre os pés feridos.

— O que foi?

— Meus pés...

Era tudo o que conseguia dizer enquanto tentava conter outro frágil gemido de dor. E ao abrir os olhos ela viu San­tos realmente preocupado.

— Pés? — Santos olhou para baixo, notando pela pri­meira vez que ela estava descalça, os sapatos quase escon­didos debaixo do banco. — Venha aqui, sente-se de novo.

Santos a conduziu para o banco, fazendo Alexa sentar-se, com um suspiro de alívio ao tirar os pés do chão.

— Deixe-me ver...

Alexa ficou confusa quando, num gesto atencioso, San­tos ajoelhou-se à sua frente. Seu coração disparou ao vê-lo segurar seus pés e envolvê-los suavemente com as mãos. O toque de Santos era macio e gentil.

Madre de Dios! — ele praguejou, o som irado de sua voz ecoando no silêncio da noite. — O que aconteceu com seus pés?

A mudança de humor de Santos, da zombaria de mo­mentos anteriores, fora tão inesperada que a fez tremer. E, então, percebeu seus olhos se encherem d'água, comovida com a gentileza de Santos.

— Meus sapatos... —Alexa conseguiu dizer, com a voz grave de quem tentava conter o choro.

Se ele fosse ainda mais simpático e gentil, isso acabaria com ela, Alexa admitiu para si mesma.

— Seus sapatos!

Para seu alívio, Santos usou um tom que não era nada gentil. Parecia frio e irritado, quase chocado.

— Você estava usando sapatos que fazem isso a seus pés?

Alexa olhou para o pé que ele levantava, relutando em reconhecer que os machucados eram muito piores do que imaginara: a pele estava vermelha, quase roxa, as tiras da sandália marcadas em sua pele, e onde a pressão havia sido maior, estava em carne viva.

— Não tinha percebido que estava tão ruim assim.

Mas Santos não a escutava. Em vez disso, apanhou os sapatos debaixo do banco, olhando-os com desaprovação. Nas mãos grandes e bronzeadas dele as tiras das sandálias pareciam incrivelmente delicadas. Era difícil acreditar que teriam infligido tal devastação aos pés de Alexa.

— O que diabos fez você usar tais instrumentos de tortu­ra? Você deveria saber que eles a aleijariam.

— Pareciam bons quando os experimentei. Mas não es­tou acostumada a usar salto alto ou sandálias.

Na verdade, Alexa nunca havia pensado em usá-los, mas o estresse do dia e a série de acontecimentos a deixaram sem tempo para voltar ao hotel e trocá-los por sapatos mais confortáveis.

— Você dançou comigo...

— Sim, dancei. Mas...

Alexa não sabia ao certo onde Santos queria chegar com aquilo.

— Você dançou comigo usando esses sapatos. Destruiu seus pés...

— Eu...

Eu não percebi, era o que ela estava prestes a dizer, e era a mais pura verdade. Na hora, Alexa sentira como se estivesse dançando nas nuvens, e qualquer desconforto nos pés simplesmente não foi registrado por seu cérebro, mergulhado no prazer. Mas admitir isso seria como cair na armadilha de Santos, era o mesmo que fornecer munição às suposições arrogantes que ele fizera antes.

— Não estavam me machucando naquela hora. Foi só quando saí. Acho que foi andando pelo jardim, descendo as escadas...

Mas Santos não acreditava nela, é claro.

— Venha aqui — ele disse, estendendo a mão.

Alexa hesitou, sem saber ao certo o que ele planejava. O que ele está fazendo...?, Alexa se perguntou. Tentara falar em voz alta, mas, apesar de ter aberto a boca, sua voz falhara. E, então, Santos se aproximou, deslizando a mão sob o corpo dela, levantando-a no colo e conduzindo-a junto ao peito. Os potentes braços de Santos a seguravam com inacreditável facilidade.

— O que está fazendo?

Dessa vez ela conseguiu pronunciar as palavras, como se saltassem de sua boca, assustadas, sua pulsação pesada devido à proximidade de Santos.

— Estou levando você para dentro.

Santos soou surpreso com a indagação de Alexa. Não era óbvio o que estava fazendo?

— Você não pode andar assim, então essa é a melhor maneira de levá-la para casa antes que se machuque ainda mais.

— Mas...

— Silêncio! — A ordem foi ríspida. Ela seria uma tola se a ignorasse. — E isso que estou fazendo, sem reclamações.



Eu não reclamaria agora, Alexa pensou, enquanto ele a carregava pelas escadas em direção à casa. Mas, assim que eles entrassem, ela teria muito a argumentar.

No entanto, seus sentimentos estavam em conflito. Era quase impossível manter qualquer racionalidade com o más­culo corpo de Santos tão próximo. Alexa conseguia escutar o poderoso e compassado batimento do coração de Santos, e seu próprio pulso parecia querer acompanhar o ritmo, de forma que era impossível decifrar quando o batimento de um começava e o do outro terminava. Depois desse dia tão longo e difícil, ela sentia a tola vontade de simplesmente deitar sua cabeça no peito dele. Mas um forte sentimento de autopreservação exigiu que ela não se entregasse. Havia algo que Alexa ainda não compreendia por completo, alguma coisa que per­meava tudo o que Santos dizia e fazia. E precisava entender o que estava acontecendo antes de permitir-se relaxar — se é que isso era possível.

— Aqui...

As luzes de dentro da casa a cegaram em contraste com a escuridão da noite lá fora, fazendo-a esconder seu rosto no peito de Santos. E, então, percebeu, tarde demais, que ele a levara para o segundo andar.

— Espere um minuto...

Alexa levantou a cabeça, decidida, pronunciando as pa­lavras com firmeza, quando ele já abria uma porta.

— O que pensa que está fazendo...?

— Estou tentando fazer alguma coisa em relação a seus pés. — Alexa podia escutar o leve tom de gozação na voz de Santos, a deixando ainda com mais raiva. — Precisa limpar esses cortes e...

— Num quarto?

Ela tentou se livrar dos braços dele, mas logo Santos a colocou suavemente sobre a convidativa superfície de uma ampla cama de casal.

— Vou precisar de água morna e toalhas, e ambas as coisas estão no quarto. — Santos explicou num tom tão exageradamente paciente que pareceu intolerante. — E talvez você precise de esparadrapo. Além de...

Santos fez um movimento circular com os braços apon­tando para a decoração do quarto.

— Posso lhe assegurar de que este não é o meu quarto!

É, ela havia de concordar. A não ser que ele tivesse uma predileção por babados e ornamentos rosa, aquele não de­via ser seu quarto, Alexa admitiu para si mesma, forçando-se a relaxar na cama.

Ela reconhecia que ele estava certo em pelo menos uma coisa: seus pobres pés realmente precisavam de cuidados! Ela fora uma tola permanecendo com aquelas sandálias mesmo sofrendo tanto, mas a verdade é que não tinha esco­lha. O único outro par de sapatos estava a quilômetros de distância, no hotel, onde ela havia se arrumado para o casa­mento. E, a não ser que voltasse descalça para lá, precisaria de algo para fazê-la sentir-se mais confortável.

Então Alexa engoliu em seco e ficou quieta, aceitando a ajuda de Santos, determinada a não deixar nada que ele fizesse ou dissesse atingi-la de forma alguma.

Mas essa fora uma resolução quase impossível de man­ter. Se o primeiro toque de Santos fora gentil, agora parecia uma doce carícia. O calor da água e do óleo antisséptico que ele passava em seus pés anestesiaram seus ferimentos, e o esparadrapo parecia ter propriedades mágicas.

Porém, a verdade é que Alexa estaria mentindo se não admitisse que o que a afetava mais era a ver aquele eston­teante homem ajoelhado à sua frente, cuidando de seus ma­chucados com a delicadeza de um amante. A vontade de tocá-lo era quase irreprimível. Ela teve que se sentar em cima das próprias mãos para impedi-las de se entregarem à perigosa tentação. E, então, quando Santos terminou, olhou-a nos olhos e lançou aquele sorriso devastador que fez Alexa sentir o coração parar por um instante.

— Acho que isso irá ajudar.

— Mais do que isso — Alexa falou com a voz tão frá­gil que parecia prestes a falhar. — Sinto meus pés muito melhores.

— Fico feliz. — Santos levantou-se, pegou a bacia e se­guiu para o banheiro para jogar a água fora. — Então, agora podemos conversar.

Como ele fizera aquilo?, Alexa se perguntou. Como ele conseguira fazer palavras tão inócuas provocar tal reação nela, fazendo seu corpo inteiro ficar tenso?

— Conversar sobre o quê?

— Sobre o que faremos daqui para a frente.

Santos encostou-se na porta, com seus olhos cintilantes fixos nela.

— O único lugar para onde iremos é lá para baixo... E de preferência para fora desta casa. Não tenho nenhuma vontade de ficar sozinha com você!

— Mas pensei que esse fosse o plano, querida.

Santos se transformou. Subitamente, o homem preocu­pado cujo toque gentil a fizera chorar de emoção havia de­saparecido, e em seu lugar estava o homem de olhos frios e face dura, capaz de provocar arrepios em Alexa desde o momento em que foram apresentados.

O homem que ela não conseguia imaginar como marido de sua irmã.

Como alguém poderia amá-lo?

E de certa forma, durante o dia, sua opinião sobre San­tos havia mudado. Ela havia, inclusive, se sentido atraída por ele. Havia desejado que a beijasse, a segurasse em seus braços.

Quem era o verdadeiro Santos?

Alexa sentia uma estranha sensação ao pensar que o ho­mem pelo qual sentira tanta atração era, de fato, um ator performático planejando iludi-la. E ela, estúpida, crédula e tola, havia caído direitinho na armadilha.

— Plano? Que plano? Não sei do que está falando. Não sei de plano algum.

— Não? Perdoe-me se não acredito em você, querida, mas me recuso a pensar que seus pais não tinham um pla­no B.

— Um plano B para quê?

Santos estava louco? Vendo conspirações onde não havia nada?

— Eles provavelmente imaginavam que sua irmã pode­ria fugir no último minuto, ou, então, já estava tudo pro­gramado para acontecer desde o início. E, então, o que eu deveria fazer? Apaixonar-me pela dama de honra e esque­cer Natalie?

— Não. — Alexa balançou a cabeça com tanta raiva que seus cabelos cobriram seu rosto. — De jeito nenhum!

Mas Santos não a escutava. E um arrogante estalar de dedos interrompeu seu protesto.

— Então, tudo bem — Santos disse, friamente. — Morderei a isca.

— O quê?

Ele não poderia ter dito o que ela acabara de escutar, era simplesmente impossível ele ter dito...

— Um casamento deveria ter acontecido, sendo a noiva uma das filhas Montague. Não importa qual delas.

Alexa beliscou-se com força, tentando convencer-se de que aquilo não estava acontecendo, de que era um pesadelo.

— Você só pode estar brincando!

— Não estou — Santos retrucou, indiferente ao protesto horrorizado de Alexa. — Uma noiva Montague é igual a qualquer outra da mesma família, já que é um casamento de conveniência.

— Que tipo de monstro é você?

Alexa forçou-se a ficar de pé, ignorando a dor nos pés. Ela não podia simplesmente sentar-se e deixá-lo dominá-la com aquele olhar e um sorriso que ela não sabia se era genuíno ou de desdém.

— Casamento por conveniência ou não você não pode trocar uma noiva pela outra só porque é a sua vontade!

— Ah, não? Posso, sim! — Santos afirmou, fazendo Alexa ficar sem ar e seu coração disparar. — Trato é trato, e ninguém quebra uma promessa comigo e se livra disso.

Mas Natalie é quem havia quebrado a promessa de se casar com ele! Alexa sentia-se como se o mundo houvesse perdido o eixo e ela estivesse de cabeça para baixo. Ele não poderia ir tão longe.

— Talvez fosse exatamente isso que você e sua família tivessem planejado desde o começo. Vocês jogariam a isca da filha sedutora com a certeza de que depois ela fugiria.

Deixando-o com a menos sedutora, menos atraente! San­tos não precisava dizer, as palavras estavam implícitas em sua declaração, uma agressão contra Alexa, tão frio e cruel quanto uma agressão física.

— Não havia plano algum. E não tenho nenhuma inten­ção de me casar com você.

— Você não tem escolha. Ou se casa comigo ou assiste à falência de sua família.

— Por que você não me escuta? Não quero me casar com você...

As palavras de Santos não faziam sentido, e Alexa mal conseguia registrar o que ele dizia, por conta da raiva que sentia. O rosto de Santos permanecia inalterado, seus olhos, opacos. Mas aquela estranha falta de expressão a tranqüili­zou. Qualquer outra reação de Santos a teria feito perder a razão levantando a mão para ele, na tentativa de tirar aquele ar de condescendência de seu rosto. Dessa forma, Alexa fora capaz de controlar-se.

— Não quero nada que tenha a ver com você.

Isso ele havia entendido.

— E nós dois sabemos que isso é mentira — Santos con­testou. — Lá fora, na piscina, você era minha.

— Não, isso é mentira! Eu nunca...

— Ah, por favor, querida — Santos zombou. — Se eu a tivesse beijado, você não teria pensado nenhum segundo em sua irmã ou em qualquer outra pessoa. Você teria se derretido em meus braços...

Isso já era demais. Perceber que Santos na verdade havia notado exatamente o que ela sentira não era o suficiente para fazê-la entregar-se. Ainda mais que agora se sentia como se tivesse sido manipulada, como um fantoche.

— Um beijo pode até ser, mas não isso! Isso é loucura! Uma insanidade! Impossível!

— Não é não — Santos respondeu com suavidade. — Na minha cabeça, é possível, uma solução perfeita. Natalie fugiu, mas você está aqui. Então, agora você pode ficar no lugar de sua irmã.



CAPITULO SETE

Então agora você pode ficar no lugar de sua irmã.

Não, era impossível. O homem estava louco... tinha de estar.

— De jeito nenhum! Isso não acontecerá!

— E por que não, hein? — Santos retrucou. — Por que é tão impossível?

— Porque... porque você mal me conhece. E eu mal o conheço.

— Sei que gosto do que vejo e sei que você também.

— Bom, sim...

A resposta escapuliu da boca de Alexa antes que ela ti­vesse tempo de avaliar o quão tola estava sendo em admi­tir. O incendiário olhar de satisfação e o sorriso sensual de Santos fizeram o sangue de Alexa correr frio e quente ao mesmo tempo, fazendo-a estremecer, como se estivesse à beira de uma febre ameaçadora.



Gosto do que vejo. Ele realmente dissera aquilo? Após anos vivendo à sombra de Natalie, ouvindo todos descrevendo-a como a mais bela, aquela por quem os homens enlouqueciam, Alexa ficou surpresa ao saber que um ho­mem como Santos nutria tais sentimentos por ela. Mesmo assim, ainda havia um abismo entre isso e dizer que queria casar-se!

— Então veja bem...

— Não. Não temos nada em comum. Nada mesmo! Como poderia, se não falamos nada, não admitimos nada, além do fato de gostarmos um da aparência do outro, de sentirmos atração um pelo outro? Como pode significar al­guma coisa de verdade? Como você pode reivindicar algo tão ridículo, tão absurdo, quanto dizer que... que...?

Alexa não conseguia dizer, não importava quantas vezes abrisse a boca e tentasse pronunciar as palavras, não se per­mitia concordar com a declaração tão absurda que ele fizera momentos antes.

Santos, no entanto, não tinha problema algum em re­peti-la.

— Que eu quero você como minha esposa? Por que não? Nunca quis sua irmã da forma que quero você.

— Mas você... — Alexa começou a contestar, e de re­pente percebeu o que Santos acabara de dizer. — Isso é verdade?

— Por que eu mentiria?

Santos marinha seu olhar ainda fixo nela. Um olhar tão profundo e brilhante que parecia a límpida água de um lago, no qual ela poderia mergulhar sem pensar.

Alexa não queria encará-lo, mas era impossível desviar-se de olhos tão hipnotizadores, que alcançavam as profun­dezas de sua alma, desvendando o que havia lá.

— Mas...

Sua cabeça rodava e o quarto à sua volta parecia fora de foco.

— Mas como você pode saber isso? Ainda nem me beijou...

Santos passou as mãos pelos cabelos como se relaxasse, aliviando a tensão que denunciava seu corpo. Mas os olhos estavam predatórios como nunca.

— Isso será logo superado.

Para o terror de Alexa, ele cruzou o quarto em sua dire­ção com uma clara intenção no rosto.

— Não...

Alexa levantou as mãos como num gesto de proteção e começou a andar para trás, afastando-se dele. Mas sabia, na verdade, que não era Santos quem temia, mas sim a si mes­ma. A lembrança dos momentos no jardim estava bem viva em sua memória, e Alexa jamais esqueceria a expectativa de como acreditara que Santos a beijaria.

Se naquele momento seu coração havia acelerado, agora, então, batia com tanta força que parecia querer sair de seu peito, impossibilitando que ela raciocinasse com clareza. Alexa ansiara tanto por aquele beijo, e fora tão ruim quando Santos desistira, no último segundo! E tinha certeza de que ele sabia como ela se sentira.

Então Santos sabia o que estava fazendo, indo na di­reção de Alexa com os olhos fixos em sua boca. E ela temia a si mesma, temia por sua própria reação, pela for­ma como poderia corresponder ao beijo e como seria no momento em que Santos... quando...?

— Não! — Alexa disse de novo, dessa vez de forma mais firme, recuando sem ver onde pisava, pois não se atreveria a tirar os olhos de Santos, que parecia tão deter­minado e decidido. — Não, Santos... eu... ah!

A exclamação saiu ao sentir as pernas batendo na lateral da cama. Alexa perdeu o equilíbrio e caiu sobre a colcha, expelindo o ar num alto e forte suspiro.

E mesmo assim Santos continuou a se aproximar, gran­de, forte e perigoso, como uma elegante pantera caçando, encurralando sua preza, saboreando cada momento antes do ataque final.

Alexa tentou levantar-se, mas era como se todos os os­sos de seu corpo tivessem desaparecido, impossível encontrar forças para colocar-se de pé. E de repente ali estava Santos: sobre ela, com uma das mãos de cada lado de seu corpo, os dedos longos e bronzeados espalhados sobre o algodão branco.

Pela primeira vez vendo-as tão de perto, Alexa percebeu uma cicatriz nos dedos da mão direita de Santos. Era uma cicatriz antiga, uma fina linha esbranquiçada, e a tentação de tocá-la era enorme, assim como a vontade de perguntar o que havia acontecido.

E nesse mesmo momento Santos pronunciou o nome de Alexa, com sua voz grave e envolvente, fazendo-a es­quecer o que pensava. A mão de Santos segurou o queixo de Alexa, levantando seu rosto na direção do dele, apro­ximando-se lentamente de sua linda boca, milímetro a milímetro.

Alexa não conseguia mais respirar. Sua boca e garganta estavam secas, era impossível engolir ou fazer qualquer coisa para amenizar a sensação. Estava certa de que até mesmo seu coração parará de bater, embora o sangue ain­da pulsasse intensamente por suas veias. A maneira como ele a segurava significava que Alexa não tinha mais para onde olhar senão para as íris negras dos olhos outrora cin­za de Santos.

De repente, temerosa pelo que seus próprios olhos pode­riam revelar, Alexa fechou-os, retraindo-se. Mas fechar os olhos só piorou a situação, trazendo à tona, de forma ainda mais intensa, todos os seus outros sentidos. Ela conseguia sentir o perfume da pele de Santos e o aroma cítrico de al­guma loção que ele passara no corpo, e ouvia o som de seu peito embalado por sua pesada respiração.

Guapa... — Santos sussurrou, tão próximo de sua boca que Alexa conseguia sentir o sopro da respiração em seus lábios, e quase sentir seu gosto.

Mas, quando os lábios de Santos finalmente encosta­ram-se aos dela, Alexa percebeu que jamais sentira nada igual. Como se nunca tivesse sido beijada, como se nunca tivesse conhecido o peso dos lábios de um homem.

Depois da forma intensa como ele se insinuara, Alexa esperava um beijo bastante agressivo. E seu corpo já es­tava tenso, à espera do impacto, quase como se fosse uma punição por ter duvidado de que ele a desejava. Foi, por­tanto, certa surpresa sentir o suave beijo de Santos, o toque mais gentil que poderia imaginar, de uma delicadeza que rasgou seu coração, elevando sua alma e fazendo-a suspi­rar intensamente.

Apenas um beijo e Santos se afastou. E a sensação de vazio quando ele o fez foi quase insuportável, fazendo-a murmurar involuntariamente em protesto.

— Paciência, querida...

Nunca sua voz soara tão sexy, tão excitante e, mesmo de olhos fechados, Alexa conseguia ver o sorriso sedutor de Santos.

Santos...

Ela conseguia ouvir o nome dele em sua cabeça. E an­tes que pudesse tentar pronunciá-lo, ele a beijou de novo, só que dessa vez com mais intensidade, fazendo o coração de Alexa bater mais forte, levando seus sentidos a um voo incontrolável.

E Santos a beijou de novo, e de novo, cada vez mais intensamente, até deixá-la sem ar, desejando ainda mais. Cada vez que os lábios de Santos tocavam os seus, ela que­ria que o momento durasse para sempre.

— Santos!

A sensação que Alexa sentia era de ardência, fazendo seus pés se curvarem, suas mãos se cravarem na cama, segurando-se para não tocá-lo, evitando introduzir seus dedos nos sedosos cabelos de Santos. O calor subia por suas veias e o frio na barriga se alastrava. E era óbvio que San­tos também sentia isso. Num gesto repentino, ele passou as mãos pelos cabelos de Alexa, em seguida acariciando seu rosto e erguendo sua cabeça na posição perfeita para continuar a beijá-la.

Teria ela reagido ao toque de Santos? Alexa não fazia a menor idéia de quem reagira a quem. Só sabia que agora precisava que Santos fizesse mais do que as gentis carícias que tanto a abalaram de início. Necessitava mais do que um toque delicado. Precisava sentir o poder de Santos.

Havia Alexa se levantado?

Não sabia a resposta, apenas percebia que estava de pé, pressionada contra a imponência do corpo dele.

E a boca de Santos agora já não era mais tão suave e sim exigente, como ela esperava desde o início. Mas essa intensidade não a amedrontava. E Alexa foi mais uma vez ao encontro da boca sedenta de Santos, sentindo a pressão de seus lábios, a necessidade do beijo. E agora suas mãos estavam livres para se enrascarem nos cabelos dele o quanto ela quisesse, mas sabia que ainda não era o suficiente. Alexa queria mais, queria tocá-lo em todas as partes, sentir a força de seus músculos, deslizar os dedos pela abertura de sua camisa branca e sentir o calor acetinado da sua pele, a sensação dos pelos crespos contra a palma da mão.

Uma das mãos de Santos segurava os cabelos de Ale­xa, de tal maneira que sua boca permanecesse exatamen­te onde ele a queria, enquanto a outra mapeava seu corpo. Com a língua entrelaçada à dela, provando o sabor interno de sua boca, eles conduziam uma dança sexual que seguia pelo caminho mais íntimo possível. E era por esse caminho que continuariam, Alexa não tinha dúvida. Esse calor, essa fome, essa vontade tão intensa não poderia levá-los por ne­nhum outro caminho. Era como se alguém tivesse iniciado a contagem regressiva para uma explosão nuclear e agora não houvesse como interrompê-la sem desencadear nada menos candente do que já havia sido atiçado entre eles.

— Eu quero você... — Santos sussurrou contra a boca de Alexa, o sotaque puro e forte, quase incompreensível.

Mas palavras não eram necessárias, a evidente potência da ereção de Santos pressionada contra Alexa, o peso das mãos, ainda mais exigentes em cada lugar que tocava, já revelavam tudo. O calor de seus dedos sobre os seios de Alexa fez seus mamilos endurecerem, provocando um pra­zer que percorria seu corpo inteiro. Alexa gemia em voz alta a cada toque, fazendo Santos rir ao beijá-la de volta, o gosto dele se misturando ao dela a ponto de não saberem mais onde um começava e o outro terminava.

E era tudo o que ela queria, tudo o que seu corpo pre­cisava. A ardência dos beijos de Santos havia chegado entre suas pernas, onde um pesado e doce desejo pulsava de forma primitiva. O anseio era tanto que, assim que ele se levantou para levá-la ao lado mais amplo da cama, Alexa entregou-se sem resistência, tão perdida em suas sensações, tão tomada pela expectativa que não con­seguia pensar em nada além do que acontecia naquele momento. E Alexa desmoronou nos lençóis, com Santos sobre ela.

As mãos dele agora, estavam por baixo de seu vestido, despindo-a do cetim rosa que cobria seus braços, expon­do sua pele ardente. Seus dedos deixavam marcas visíveis pelo corpo de Alexa, provocando gemidos de prazer a cada toque.

— Também quero você — ela sussurrou, sua voz quase irreconhecível de tanto desejo. — Beije-me, toque-me...

Domine-me, era o que Alexa queria dizer, mas mesmo nesse momento algum resquício de autocontrole a impediu de falar isso. Lá no fundo ela sabia que não havia mais volta. Morreria se tivesse que parar agora, no momento em que seu corpo suplicava por Santos, implorando que a possuísse, culminando na total união de seus corpos, pele contra pele, carne contra carne, fome saciando fome.

Mas Alexa não conseguia expressar por completo sua necessidade. Não tinha coragem de colocar seu desejo em palavras, de retirar a máscara protetora que se obrigara a usar na frente daquele homem. Tirar a roupa era uma coi­sa, era o que mais queria no mundo — estar fisicamente nua com ele! —, mas estar emocionalmente despida era outra questão. Havia algo que Alexa não se atreveria a revelar, pois seria como colocar a alma sob um microscó­pio permitindo que ele a examinasse em uma lâmina fria e minuciosa.

Os dedos de Alexa passeavam pelos botões da camisa de Santos, abrindo-os num movimento impaciente, fazendo o morno aroma almíscar de sua pele aflorar, o qual ela inala­va como se fosse um forte perfume, atingindo-a como um potente afrodisíaco.

— Santos...

Suas pesadas mãos haviam ido mais além ainda, passe­ando pelas delicadas alças creme do sutiã de Alexa, afas­tando-as apenas alguns segundos, de forma habilidosa. Ra­pidamente ele abriu o fecho, retirando o tecido de sobre os seios inchados de Alexa, substituindo o sutiã pelo calor de suas mãos, segurando-os de maneira que nunca ninguém havia feito. E qualquer sombra de constrangimento, ou dúvida, desapareceu completamente da mente de Alexa, à medida que ele acariciava seus mamilos, fazendo-a gemer de prazer.

Santos mais uma vez soltou uma leve risada e a beijou, sem descolar os lábios dos dela nem por um instante. En­quanto isso, suas mãos acariciavam os seios de Alexa, de forma tão mágica que a fez contorcer-se de prazer.

— Sabia que seria assim — Santos murmurou. Dirigin­do sua boca quente ao queixo de Alexa, depois, à sensível linha de seu pescoço, deixando um rastro de beijos ardentes por onde passava. — Eu sabia como seria.

Alexa sentia a língua de Santos, morna e habilidosa, insistente no lugar onde sua pulsação era mais frenética, na delicada base do pescoço. Então, Santos avançou com a boca para os seios, os beijos substituindo as mãos, prosseguindo devagar, de forma pecaminosa, sedutora, até que seus lábios encontraram o mamilo enrijecido de Alexa, e, dominado-o, mordeu-o gentilmente.

— Santos!

Pronunciar seu nome era como proferir um som cru e primitivo que ainda a chocava. Ela não sabia que era ca­paz de sentir-se tão fora de controle, tão despida de seus hábitos. Entrelaçava os dedos nos cabelos de Santos, segurando-o firme na sua frente, fazendo-o rir. E o sopro de seu riso era como uma suave brisa contra os seios de Alexa, provocando arrepios de êxtase.

Ela sentia as mãos de Santos por toda parte, acarician­do a suave planície de seu estômago, os dedos passeando pela superfície de sua barriga. Alexa mal conseguira re­cuperar o fôlego e eleja estava prosseguindo, delineando movimentos eróticos em sua pele, levantando a saia de cetim e deixando as mãos deslizarem por dentro da cal­cinha quase transparente, enrascando os dedos nos pelos negros que emolduravam sua parte mais íntima, a parte que pulsava e queimava em antecipação ao prazer de seu toque. E, curvando-se contra os dedos de Santos, Alexa suspirou de alegria, encorajando-o a continuar, a ir além, mais à frente...

— Ah, sim, Santos... por favor...

Com os olhos fechados, Alexa segurou o pescoço de Santos, puxando-o em sua direção mais uma vez, para que seus lábios encontrassem os dela. A respiração enérgica de Santos era pesada e descompassada, como a sua, revelando nele o mesmo descontrole dela.

— Como você fez isso comigo? — Santos sussurrou, contra a boca de Alexa. — Como chegamos a isso tão ra­pidamente?

As mesmas perguntas passavam pela cabeça de Alexa, que não queria parar para considerá-las, não queria dei­xá-las ganhar força a ponto de levá-la a parar e pensar, reconsiderar o que fazia. Só queria sentir, experimentar aquela selvagem onda de paixão. Conhecer o poder de Santos!

Com mãos interessadas em proporcionar prazer, Alexa arrancou os botões do colete de Santos, jogando-o para longe.

A camisa foi em seguida, os botões ainda fechados foram tirados com ânsia, e a fina peça atirada ao chão. E, agora, em contato direto com o calor da pele e dos poderosos mús­culos de Santos, Alexa o puxava ainda mais para perto.

Santos afastou-se por alguns segundos enquanto se li­vrava do resto da roupa, retornando antes que ela pudesse sentir sua ausência. E o calor de seu poderoso toque a envolveu como uma onda. Alexa apertou seu corpo contra o dele de maneira tão intensa que era difícil saber onde ficava o limite dos corpos. Mas ainda restava aquela parte que permanecia sedenta, vazia, desejosa de que ele a pos­suísse. Sem conseguir expressar sua vontade em palavras, Alexa continuava pressionando o corpo contra o de Santos, implorando para que ele aliviasse a agonia da espera, tomando-a, levando os dois à total perdição selvagem.

Mas Santos não precisava mais ser provocado. Com sua boca ainda presa contra a dela, deslizou uma de suas pernas fortes e musculosas entre as dela, abrindo-a com­pletamente. Seu braço escorregou por debaixo do corpo de Alexa, levantando-a até que seus quadris e suas pernas se encaixassem.

Alexa mal teve tempo de recuperar o fôlego, de entender o que acontecia, e ele já a penetrava, de forma dura e forte, elevando-a em deleite, quase induzindo-a ao êxtase logo no primeiro momento.

— Santos! — Seu nome era como um encanto que Alexa evocava enquanto pendurava-se nele, seu coração, acelera­do, seus olhos, arregalados, sua respiração, pesada.

— Calma, guapa — Santos pediu, com uma voz frágil como a dela.

E só o som fazia com que a esperança de ir com "calma" desaparecesse por completo. Perceber que ela possuía tal efeito devastador sobre aquele homem só fazia o desejo de Alexa aumentar ainda mais.

— Alexa...

Seu nome fora a última coisa que Santos conseguira di­zer antes de tirá-la do controle, usando seu poder sensual e o alucinante impacto de seus beijos para domá-la de forma rápida e potente, levando-a às nuvens.

Seus corpos se emaranharam e estremeceram, pulsando juntos com excitação, seus batimentos cardíacos acelera­dos, pesados como se fossem apenas um. Juntos chegaram ao limite do prazer, e juntos permaneceram naquele tor­por por mais um breve momento agonizante, até que uma última penetração os fez se entregarem, deixando-os ine­briados com o êxtase que parecia fazer a alma de Alexa se revirar infinitamente até parar num estonteado e comovido suspiro.

Exausta e plena, Alexa só queria permanecer deitada, sentindo os braços de Santos à sua volta. Talvez pudesse receber um beijo no rosto. E foi por isso que quando ele, subitamente, se afastou foi algo tão inesperado, tão ina­creditável, que a deixou paralisada. E ele não fora ape­nas para o outro lado da cama: levantou-se e afastou-se mesmo, caminhando com fortes passos para longe dela. Um frio arrepio gelou o corpo ainda quente de Alexa, fazendo seu coração desacelerar, sentindo-se totalmente sozinha.

E a indiferença de Santos era tão completa que depois de alguns momentos Alexa não suportou o silêncio e, ainda de olhos fechados, tentou criar coragem para quebrá-lo.

— Santos?

Foi um sussurro que chegou só até seus lábios, mas que não foi audível. Alexa temia que ele percebesse por sua voz o quanto estava abalada por seu comportamento. Não que­ria que ele notasse a angústia que sentia, o quanto estava surpresa.

Mas, quando Santos continuou a andar, apanhando suas roupas do chão, Alexa não conseguiu se controlar.

— O que foi?

Alexa, então, abriu os olhos, e o que ela viu a fez con­gelar. Ele não só havia recolhido a roupas do chão como já havia colocado e abotoado a camisa, de maneira rápida e eficaz. Era como se quisesse vestir-se o mais rapidamente possível para se afastar dela.

— Santos... O quê...?

Santos manteve o olhar, vazio de emoção, fixo em Ale­xa por alguns segundos, deixando-a sem ar. E em seguida observou seu corpo seminu com tamanho desdém que ela podia quase senti-lo anular o prazer que sentira, fazendo-a ficar completamente vulnerável.

— Acho que isso é o bastante — ele disse, com o tom tão frio quanto a cor de seus olhos.

— É o bastante?

Alexa não conseguia acreditar no que escutava. Como o amante ardente de momentos atrás se transformara naquele estranho de rosto rijo e voz fria?

— É o bastante em que sentido?

— Em todos os sentidos.

E para horror de Alexa ele abriu um breve sorriso irô­nico, sem sentimento algum. Terminou de abotoar a cami­sa, vestiu a calça e ajeitou os cabelos despenteados. Suas ações eram tão deliberadas que Santos parecia ter vestido uma armadura, mantendo Alexa o mais distante possível. Até seus lindos olhos estavam entreabertos, impossibilitando-a de olhá-los diretamente.

— Acho que provei o que queria. Pelo menos, de uma maneira ou de outra, sempre existirá alguém para cada um de nós. Nunca experimentei algo assim. Nunca.

— Isso é um elogio?

A terrível e devastadora agonia de perceber que tudo não havia passado de algum tipo de teste imoral, uma forma de provar que ela não conseguiria resistir às suas investidas — e, droga, realmente não havia sido capaz de resistir! —, fez sua voz falhar com repugnância.

— E por acaso devo sentir-me grata?

— Não, grata não, mas você deveria se considerar ali­viada porque isso prova que pelo menos dessa forma nosso casamento não será o pesadelo que imaginava. Na verdade, você pode até gostar.

— Por quê, você...?

Alexa estava prestes a perder o controle, a voar no pes­coço dele, mas no mesmo momento o celular de Santos co­meçou a tocar.

Si... Um momento...

Santos atendeu e virou-se para Alexa.

Perdone... Tenho que atender. Espere aqui. Voltarei em alguns minutos e continuaremos essa conversa.

Não conversariam mais nada, Alexa disse para si mes­ma. E, se Santos havia pensado que ela fosse ficar ali pa­rada à sua espera, depois daquela horrível humilhação, estava completamente enganado. Mas, mesmo decidida a partir, não queria levantar suspeitas, e forçou-se a concor­dar com Santos, evitando olhá-lo nos olhos. Alexa man­teve-se deitada, estática, enquanto ele saía do quarto, re­zando para que não olhasse para trás e percebesse que ela estava prestes a fugir.

Assim que Santos desapareceu porta afora, Alexa pu­lou da cama, puxando seu vestido, ajeitando-se à medi­da que caminhava. A última coisa que queria fazer era olhar-se no espelho, mas se forçou a fazê-lo. Não pode­ria sair dali parecendo que acabara de...

Ai, inferno — parecendo que acabara de se entregar à mais intensa e erótica transa de sua vida.

Ela poderia até ter feito isso, mas os cabelos embaraça­dos, os lábios inchados e os olhos brilhantes eram óbvios demais. E fora obrigada a perder alguns momentos precio­sos se arrumando, sempre ansiosa que a porta pudesse ser aberta e Santos voltasse.

Mas Alexa finalmente conseguiu sair, descendo as esca­das em silêncio, tentando pensar o que faria para arranjar um carro que a levasse ao hotel.

No fim, foi tudo mais fácil do que imaginara. Saiu con­fiante e falou com a primeira empregada que avistou.

— O Senor Cordero quer um carro pronto na entrada da casa imediatamente.

O poder do nome de Santos era evidente, porque a mulher saiu correndo assim que escutou a ordem. Alexa viveu um breve momento de extrema angústia à espera do carro, em pânico pois ele podia terminar seu telefonema e pegá-la na saída. Mas, de repente, lá estava a limusine preta, próxima à escadaria. E mais do que rapidamente ela pulou dentro do carro, escondendo-se atrás do banco caso Santos aparecesse a sua procura.

Foi só quando o carro já havia partido em direção ao portão que Alexa se permitiu respirar fundo na tentativa de conter a ansiedade e olhar para trás. Mas não conseguiu relaxar por completo até estar na rua principal que levava a Sevilha, e só então percebeu que ainda estava descalça.

O elegante e caro destruidor par de sapatos que ferira seus pés ainda estava debaixo do banco de madeira na bor­da da piscina. Ela o deixará lá, e não tinha a menor intenção de voltar para buscá-lo, não importava o quão caro tivesse custado. Além de ter dilacerado seus pés, agora a sandália carregava uma lembrança que ela preferia esquecer.

E lá estava Alexa, sentada no carro como a Cinderela após o baile, deixando os sapatos para trás. Mas eles não eram de vidro, nem haviam ficado com o Príncipe Encan­tado. Em vez de sua carruagem se transformar em abóbora, Santos é que havia se transformado no Lobo Mau.

Toda a mágica que sentira mais cedo havia evaporado, deixando um gosto amargo à medida que cada pequeno so­nho que Alexa se permitira ter virasse pó. E a única coisa que podia fazer era rezar para que o príncipe-lobo não corresse atrás dela, como ocorrera com Cinderela no conto de fadas.

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