Avassaladora Vingança (Cordero's Forced Bride) Kate Walker



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CAPÍTULO OITO

A cinderela estava sã e salva de volta do baile.

Alexa sorria ao abrir a porta de sua pequena casa de campo depois de um longo dia de trabalho. O contraste entre o luxo da linda mansão de Santos e essa peque­na casa, de decoração ligeiramente deselegante e antiga, não poderia ser maior. Mas pelo menos era um lar, não um hotel, como a casa de Sevilha, sem alma nem calor humano.

Assim como o dono.

Ela nunca trocaria sua casa pela de Santos. Nem mesmo nesse momento em que seu lar estava frio e pouco aconche­gante. O aquecimento central havia pifado de novo.

O clima também era muito diferente das temperaturas amenas da Espanha. Em Yorkshire, o vento era cortante, ge­lado e a previsão era de ainda mais frio no fim de semana. Parecia, inclusive, que haveria uma tempestade. Alexa obser­vara que o céu estava bastante escuro no caminho de volta da biblioteca para casa. Ela só rezava para que o aquecimento voltasse a funcionar.

A casa havia apenas começado a aquecer e Alexa ape­nas a preparar o jantar, quando inesperadamente a campai­nha tocou.

Quem poderia ser? Ela não esperava de ninguém, e sua casa ficava distante o suficiente da vila para evitar visitas inesperadas. Limpando os dedos sujos de farinha, Alexa correu para atender.

Sem olho mágico na porta, Alexa não tinha como sa­ber quem poderia estar do outro lado. Por isso, a visão que teve ao abrir a porta a deixou sem ar, tonta.

Santos Cordero estava à sua frente, imponente como nunca. Seus olhos tão escuros e oblíquos quanto o céu, confirmando a previsão de uma tempestade de granizo, já em seus cabelos algumas pedrinhas, parecendo pequenos diamantes em contraste com suas mechas negras.

— Santos!

Buenas tardes, senorita.

Santos tentou moldar a boca sensual num sorriso, mas falhara. O tal "sorriso" fora tão breve que Alexa não tinha certeza de tê-lo visto. O semblante severo e os olhos pe­sados pareciam ser suas expressões naturais, destruindo a lembrança do sorriso devastador que contemplara uma se­mana antes.

Mas nada era capaz de eliminar o impacto que aquele homem exercia sobre Alexa. Até aquele momento, enco­berto por um sobretudo azul-marinho, ombros encolhidos por conta do vento gelado, Santos ainda era o homem mais atraente que ela conhecera. E a pele, naturalmente dourada, parecia ainda mais exótica quando em contraste com os tons monótonos da paisagem de inverno a seu redor.

— O que está fazendo aqui?

Alexa sabia que soava mal-educada, mas o choque de vê-lo fez as palavras saltarem de sua boca. Santos era a últi­ma pessoa que Alexa esperava ou desejava ver à sua porta. Ou pelo menos era isso que seu lado racional permitia que ela admitisse. Mas a verdade era que, instintivamente, ao deparar-se com os traços deslumbrantes de Santos, mesmo que contra sua vontade, seu coração havia parado por um instante.

— Vim devolver o que lhe pertence.

Santos levantou uma pequena sacola plástica, prateada, que não combinava com suas másculas mãos.

— Meu...? Que pertence?

— Seus sapatos.

— Você só pode estar brincando! Jamais pensaria que alguém iria viajar desde Sevilha, cruzando metade da Eu­ropa, para vir até aqui só para devolver um par de sapatos e depois...

Alexa engasgou ao rever a sandália de couro rosa-claro que Santos lhe entregava. A visão provocou uma onda de calor em Alexa, e a obscura sombra nos olhos de Santos a deixou ainda mais constrangida.

— Você não precisava ter feito isso. Não era necessário.

Santos, sem dar muita importância à declaração de Ale­xa, continuou:

— Queria devolver o que lhe pertence, mas não foi a única razão para que eu viesse até aqui.

— Você poderia tê-los enviado pelo correio.

Só depois de responder foi que Alexa percebeu o que ele tinha dito.

— Não foi? Então, por que está aqui?

— Talvez, se você me convidasse para entrar, podería­mos conversar?

A sugestão era óbvia. Pelo menos seria se a relação deles fosse normal. Relação? Ela não tinha relação alguma com ele. Mas boas maneiras não lhe faltavam, e ela não poderia deixá-lo do lado de fora com aquele tempo. Embora quisesse.

Mas convidá-lo para entrar parecia muito significativo, simplesmente porque se tratava de Santos e devido à ma­neira como ela havia partido depois da recepção.

— Sobre o que precisamos conversar?

— Seria mais fácil se me deixasse entrar.

E, se ela não o deixasse entrar, Santos não diria uma pa­lavra, isso estava claro. Com um suspiro resignado, Alexa abriu a porta.

— Entre, venha...

Alexa sabia que ele havia vencido — e Santos também. Só faltava murmurar xeque-mate ao passar.

Alexa se arrependeu assim que abriu a porta. Era a últi­ma pessoa que ela queria dentro de sua casa. E, no entanto, o coração palpitou fortemente ao senti-lo passar por ela no estreito corredor. Como era possível para Alexa dese­jar que Santos estivesse em qualquer outro lugar senão ali perto dela?

A casa tinha o teto rebaixado, o que fazia Santos pare­cer incrivelmente alto e seus ombros ainda mais largos. E ao entrar ele lançou aquele mesmo sorriso devastador de antes.

— O que foi? — ela perguntou. O sorriso havia feito disparar o pulso de Alexa, deixando-a de pernas bambas. — O que há de tão engraçado?

— Não é engraçado, mas...

Santos se inclinou e passou o dedo pelo rosto de Alexa. Seu toque foi suave e caloroso. E subitamente o coração de Alexa parecia ter parado de bater, sua respiração travando na garganta.

— Você está com farinha no rosto. Aqui...

Santos apontou para a mancha no rosto dela, mas, ape­sar da breve tentativa de Alexa em se concentrar no que ele dizia, não conseguia desviar o olhar do rosto de San­tos. Seus olhos estavam hipnotizados pelos dele, que a aqueciam mais do que o velho aquecedor.

Lembranças invadiram sua mente: da linda casa mou­ra, do quarto cor-de-rosa, e do suave toque de Santos, que desencadeou muito mais. Lembranças que preferia não ter, que tentava reprimir da maneira mais violenta possível à medida que seu rosto ruborizava.

— Obrigada... — O agradecimento saiu como um rosnar constrangido.

E, automaticamente, tentou limpar o rosto, mas ao per­ceber que sua mão também estava com farinha, desistiu.

— Entre. — Alexa usou um tom seco e desnecessário na tentativa de mascarar a confusão que a dominava.

Teria ela feito uma besteira ao convidá-lo para entrar? Nunca antes Alexa estivera tão ciente do fato de a casa ser isolada. E com aquele tempo, sentia-se ainda mais so­zinha. O quanto antes resolvesse aquela questão e Santos seguisse seu caminho, melhor. Enquanto o guiava até a sala de estar, decidiu que não lhe ofereceria uma bebida. Isso o faria sentir-se bem-vindo.

— Então, o que você quer?

Alexa se posicionou de forma estratégica, do lado opos­to da mesa de centro onde aquele homem grande e forte se encontrava.

— E não espere que eu acredite que o que você tem a dizer tem alguma coisa a ver com os sapatos que você usou como pretexto para forçar sua entrada aqui.

— Não forcei, querida. — Santos teve a coragem de usar suas palavras como se fossem uma crítica, rejeitan­do a acusação de Alexa. — Só lhe disse que precisávamos conversar.

— Mas conversar sobre o quê? Por que está aqui? —- Por quê? Achei que isso era óbvio.

Porque ele estava ali? Santos se perguntara isso um milhão de vezes durante sua viagem desde a Espanha. E na realidade sabia, quando tomara tal decisão. Fora no momento de fúria total, quando voltou ao quarto depois do telefonema. Um telefonema longo demais no qual ele demitira um de seus gerentes de forma cruel e impiedo­sa para retornar o mais rápido possível para onde Alexa estava.

Ou onde Alexa deveria estar.

Em vez disso, o quarto estava vazio, a porta aberta, e não havia sinal algum da mulher que momentos antes estivera em seus braços, correspondendo apaixonadamente a seus beijos e a suas carícias. O único vestígio de que ela estivera lá era a colcha amassada e o travesseiro no qual deitara sua cabeça.

Santos, então, soube o que acontecera, embora não qui­sesse acreditar. A ira que o dominou o impossibilitou de pensar com clareza. Uma rápida busca só confirmou sua suspeita, e foi então que toda sua racionalidade desapare­ceu, consumida por pura fúria.

Ela fugira!

Uma segunda filha da família Montague havia fugido. A família inteira havia pisado no orgulho e na reputação de Santos — e haviam levado o dinheiro que ele fora bastante tolo para lhes dar no início. Alguém teria de pagar.

É claro que Santos poderia ter simplesmente deixado de cobrir as dívidas de Stanley Montague, deixando que ele fosse para a cadeia por desfalque, como havia planejado de início, mas essa idéia não o satisfazia mais. Uma coisa esta­va clara: iria encontrar Alexa Montague.

Descobrir seu endereço foi uma tarefa simples. A bruxa da sua madrasta estava mais do que disposta a fornecê-lo. E o pai de Alexa, fraco e ganancioso, concordou, enxer­gando nisso a possibilidade da própria salvação. A família entregara Alexa.

E, quando ela abriu a porta para ele, essa noite, Santos soubera exatamente o porquê de estar ali. Jamais consegui­ra esquecê-la. Desde o momento em que ela desapareceu, ele não conseguira pensar com clareza, nem dormir.

E de fato estava sendo sincero: não conseguia tirá-la da cabeça desde o momento em que a conhecera. Petra a des­crevera como uma mulher sem graça, mas havia algo nela que mexera com ele. Mesmo quando achara que Alexa fora fria e distante, algo nela o intrigou. A mulher que fora falar da fuga da irmã era uma pessoa, e a que dançou em seus braços já era outra diferente. Depois, havia a mulher cujos cabelos ele soltara, cujos olhos brilharam ao luar, cuja boca praticamente suplicara por um beijo e que ele quase não resistira. Mas foi a mulher que ele levou para a cama que ofuscou todas as outras.

Aquela mulher perseguira seus pensamentos todas as noites de sono, povoando seus sonhos e preenchendo-os com imagens quentes e eróticas, sussurrando seu nome, oferecendo-lhe sua boca e seu corpo.

E, quando Santos acordava, suado e tenso, com o cora­ção batendo descompassado, percebia que estava ereto e pulsante, seu corpo excitado pela imagem noturna e a ne­cessidade de entregar-se a ela. Entrega que havia negado firmemente depois que Alexa partiu.

Mas não agora. No momento em que ela abrira a por­ta, Santos soubera porque estava ali. Os sapatos não eram uma desculpa verdadeira; vingança poderia até ser parte de seu plano, mas o desejo físico era o que mais pesava. Vendo-a de uma maneira que nunca via, vestindo um suéter vermelho-cereja e calça jeans levemente apertada, que enfatizavam suas curvas, seu cabelo solto, sua linda pele com apenas um suave toque de maquiagem, Santos sentiu o coração bater com força. A fome de possuí-la já começava a consumi-lo de forma tão intensa que ele tinha de se esforçar para não pular em cima dela e beijá-la até que os dois esti­vessem entregues ao desejo e à paixão.

— Estou aqui para terminarmos o que começamos — Santos declarou, a pitada de fome sexual deixando sua voz grave e crua. — Vim buscar você.

CAPÍTULO NOVE

"Vim buscar..."

Alexa não conseguia acreditar no que ouvira. Tomada por tanto pânico que perturbava seus pensamentos, ela não conseguia ter certeza se havia entendido exatamente o que Santos dissera. Ele não poderia...

Não poderia ter dito "vim buscar você".

Poderia?


Mas ali estava Santos, de pé, grande e perigoso, pronto para desabotoar o casaco. E com um brilho nos olhos que Alexa já reconhecia como sinal de problema — no caso, o problema era ela.

Ainda que Santos só estivesse de brincadeira, era de ta­manho sangue-frio que Alexa se arrepiava, apreensiva.

— O que quer dizer com veio me buscar? Não tem nada aqui para você. Nada em mim que você poderia querer ou ter.

— Está certa disso? — Santos tirou o casaco e o jogou de lado, caindo sobre uma das poltronas da sala.

— É claro...

O brilho diabólico dos olhos de Santos havia se tornado ainda mais perturbador, e a forma cínica com que levantou apenas uma de suas sobrancelhas era mais aterrorizante do que uma ameaça real.

— Está esquecendo de uma coisa — ele disse, seu fas­cinante sotaque fazendo com que Alexa não conseguisse deixar de reconhecer o quão atraente era sua voz, o quanto mexia com sua sensualidade. Ela não queria que nada na­quele homem fosse atraente, mas não conseguia negar o apelo que ele possuía.

— Ah, é? E o que foi que esqueci?

— Que sua família me deve uma esposa. — Santos ela­borou sua frase com tranqüilidade enquanto Alexa, surpre­sa, arregalava os olhos sem acreditar no que ele acabara de dizer, e, pior, em perceber que acreditava nas próprias palavras.

— O casamento da minha irmã! — Alexa protestou. — Ela é que deveria ter se casado com você.

— Exatamente.

Santos fora ríspido e frio como o vento do lado de fora, soprando selvagem contra a janela e formando uma espessa camada de névoa que impedia ver-se além do jardim.

— Mas... como pode minha família dever a você uma esposa... Dever qualquer coisa? Sei que Natalie quebrou sua promessa, mas você não vai...

— Havia muito mais envolvido. Muito mais.

— Em que sentido?

— Ah, Alexa, por favor...

Santos apenas fez um gesto de desdém, de quem nem se daria ao trabalho de responder àquela pergunta. E ela constatou que a fria tempestade não era nada comparada à frieza do olhar que Santos enviava através da sala e a enregalava.

— Não vamos jogar. Nós dois sabemos o que quero dizer.

— Não faço a menor idéia.

— Seria mais fácil se fôssemos honestos um com o outro.

— Sou honesta e realmente não sei do que está falando. Era impossível para Alexa controlar o tremor em sua voz, que só aumentava por conta do medo e da incerteza que sentia. Ainda lutava para aceitar o que Santos dissera e entender o que significava.

Vim buscar você...

Sua família me deve uma esposa.

Estas frases não poderiam estar conectadas, simples­mente não poderiam. E não poderiam significar o que ela temia: que Santos viera por sua causa, e admitindo que sua família lhe devia uma esposa, então ela seria a esposa que ele tinha em mente.

Não, isso não era possível. Não poderia ser verdade.

E estaria Alexa com medo — ou sentia outra coisa, com­pletamente diferente?

Ela não estava ciente da forma como balançava a cabeça negando o que escutava. Até que Santos insistiu, mais uma vez, de forma fria e incisiva.

— Não? Você está dizendo que não devemos ser hones­tos um com o outro, que devemos jogar?

— Estou dizendo que isso não pode estar acontecendo, que isso não faz sentido.

— Por que não?

Não havia maneira de fugir do olhar fulminante e vi­gilante de Santos. Estava fixo em Alexa, observando cada mínimo movimento de seu rosto, cada mudança de humor, cada sinal de dúvida e confusão. De forma que a fazia sen­tir-se como um pequeno animal indefeso, encurralado e vulnerável.

Mas Santos não estava disposto a facilitar as coisas. Não tinha intenção alguma de deixá-la escapar.

— Para mim, faz sentido. O que há de errado no que es­tou falando? Por que não poderia fazer sentido? — Santos inquiriu, com uma suavidade que a chocou.

— Porque não há como você me reivindicar como sua esposa.

Tudo isso só poderia ser um pretexto. Algum tipo de jogo mórbido e estranho, que Santos jogava só para vê-la se retorcer, morrer de constrangimento.

— Não há como alegar que veio aqui para isso.

— E por que não, hein? — Santos retrucou.

— Porque... porque não sou Natalie!

— E você acha que não sei disso? Não percebe que é exatamente por isso que essa combinação me parece muito melhor?

Santos a elogiara ou a insultara? Alexa não conseguia chegar a uma conclusão, e sua mente já estava confusa de­mais para tentar raciocinar.

— Como posso torná-la minha esposa? Já lhe perguntei isso antes e você reagiu como se eu a tivesse insultado da pior maneira possível.

— E você o fez.

A raiva ao lembrar-se daquele momento horrível deu nova força à voz de Alexa, que a fez levantar o queixo e desafiá-lo, olhando-o nos olhos.

— Minha proposta de casamento foi um insulto para você? — Santos parecia genuinamente chocado, como se ela é que o tivesse insultado.

— Não foi uma proposta, mas sim uma exigência que eu ficasse no lugar de Natalie. Como você mesmo disse, uma irmã Montague é tão boa quanto a outra.

E era por isso que Santos estava ali, naquele momento? Para sugerir, mais uma vez, que ela ficasse no lugar de sua irmã? Sua cabeça parecia querer explodir só de pensar nes­sa hipótese.

Mas por que ele teria vindo se Alexa não passava ape­nas de uma substituta? Ou estaria sendo fraca e tola demais para permitir-se sonhar que talvez, por fim, ela tivesse pro­vocado um impacto em Santos? Que talvez ele não tives­se conseguido esquecê-la, assim como ela também achara impossível livrar-se da lembrança de seu rosto estonteante, de seus olhos pálidos e de seu encantador sotaque?

— Eu estava com raiva quando disse aquilo. Estava errado.

A resposta de Santos a chocou.

— Isso é um pedido de desculpas?

— É a verdade. Nunca quis sua irmã como a quero. E, se ela tivesse fugido para alguma pequena e estranha casa, no meio de Yorkshire, eu teria pensado duas vezes antes de correr atrás dela.

— Não é uma casa estranha... — Alexa começou a con­testar, até que percebeu o que Santos dissera. — Isso é verdade?

— Por que mentiria para você? Esse é o ponto. O olhar de Santos ainda a hipnotizava.

— E qual é o ponto exatamente?

Santos a olhou com chamas de ira, fazendo Alexa ques­tionar se toda aquela fúria era justificável.

— Achei que isso era óbvio.

— Não, para mim não é! Então diga-me: o que quer di­zer com tudo isso?

Santos foi até uma das poltronas para sentar-se, passou as mãos pelos negros cabelos e recostou-se na almofada multicolorida do assento.

— Na Espanha você me perguntou como poderíamos nos casar se eu não havia sequer beijado você. — Santos recordou, com uma calma impressionante. — Simples­mente corrigi esse erro. Mas, como suspeitava, havia mais do que isso. E provei ser verdade.

Alexa temia que sua cabeça pudesse explodir devido à fúria e ao ultraje que sentia. Ela tinha pouquíssima dúvida sobre o que ele se referia ao dizer que "havia mais".

— Disse-lhe que nunca havia dormido com Natalie, e você me perguntou por quê...

— Perguntei se você acreditava que Natalie não teria fu­gido caso tivesse tido uma experiência de amor com você. Se você achava que ela teria ficado tão viciada que iria que­rer mais. — Alexa completou, com raiva, embora Santos hesitasse sem se recordar ao certo o que tinha dito.

Alexa percebeu tarde demais que havia caído na armadi­lha que ele preparara.

— Nunca achei que seria o caso de Natalie — Santos continuou, com o desplante de sorrir ao falar. — Mas sabia como seria com você. Que se eu a tocasse, você arderia em chamas.

A resposta de Alexa foi apenas um furioso suspiro, so­ando como uma cobra hostil. Ela tentou encontrar algo co­erente para dizer, mas todas as palavras escapuliam de sua mente.

— E eu estava certo. O que significa que tornei tudo muito mais fácil para você.

— Fácil! — A palavra explodiu na boca de Alexa. — Fá­cil, como você tornou alguma coisa fácil?

Santos lutou contra o sorriso de canto de boca que surgia. Sabia que isso apenas deixaria Alexa mais incendiaria, sua fúria delatando o quanto isso a atingira. E era exatamente o que ele queria: vê-la fora de controle — no limite —, assim como ele mesmo se sentia.

Mas Santos não deixaria que Alexa percebesse o quanto ele também havia ardido em chamas aquela noite; e o in­ferno de frustração que vivera desde então. O inferno que ainda vivia, ao ter que reprimir a intensa excitação que sen­tia, e a raiva de ter que se privar do prazer e da satisfação com que sonhara durante sua viagem. Que estivera em sua cabeça desde o momento em que Alexa abrira a porta. A imagem que havia povoado seus sonhos e o tentado, excitando-o esse tempo todo.

E, quando ele a viu de novo, tão atraente!, soube que não podia partir sem possuí-la de novo, sem sentir a inti­midade daquele corpo esbelto mais uma vez. O problema é que Santos desconfiava que "mais uma vez" nunca seria o suficiente, e sua excitação confirmava tal suspeita.

— Você sabe como foi o sexo entre nós, e como seria de novo. Então pode ver como nosso casamento seria bom para os dois.

— Não será bom para mim, para nenhum de nós, porque não vamos nos casar! Não irei simplesmente substituir Natalie como sua esposa.

— Não — Santos concordou, sabendo que a chocaria, deixando-a boquiaberta e surpresa.

Santos levantou-se, acreditando que se sentiria mais confortável de pé. E sentiu emergir a tentação de sorrir mais uma vez ao perceber o ódio que incendiava os olhos de Alexa. Se ao menos ela soubesse o quanto suas ações impensadas eram transparentes.

— Você não irá substituir Natalie porque nunca me senti dessa forma em relação a ela. Nossa relação não tinha esse calor nem essa intensidade.

Ai, como Alexa gostaria que Santos parasse de falar tais coisas. Não queria escutar, não queria acreditar naquilo.

E, ao mesmo tempo, era a coisa que mais queria ouvir em todo o mundo.

A idéia de que um homem — aquele homem —, eston­teante, lindo, poderia realmente preferir ela a sua irmã, que ela poderia provocar tal reação nele, maior do que a beleza de Natalie fora capaz de provocar, fazia sua cabeça girar em puro êxtase.

— Nós nos daríamos bem, Alexa.

Rapidamente ela recuperou seu equilíbrio, fugindo do caminho tentador que seguiam. Um caminho que poderia levá-la ao prazer imediato, mas que não duraria, e que a deixaria ainda mais perdida. Alexa jurara que nunca se permitiria envolver numa relação pela metade por simples atração física.

Ah, mas, se havia um homem que poderia tentá-la a ce­der, esse homem era Santos Cordero.

E em pé na frente dela, com os cabelos sedosos, olhos brilhantes, camisa meio aberta, revelando parte do peito moreno que um dia ela acariciara e beijara, ele era a ten­tação personificada. Ele era lindo e irresistível, a sedutora serpente do Jardim do Éden. E não escondia o quanto a desejava.

Oh! céus, Alexa estava tentada. Pela primeira vez queria se livrar de todo o bom senso, se libertar de todos os limites que havia imposto a si mesma, e se entregar à excitação selvagem e louca, ao calor que só uma relação puramente sexual poderia proporcionar.

Mas selvagem e louca não faziam parte da sua persona­lidade, nunca fariam.

— Poderíamos nos dar bem na cama, mas isso não é razão para nos casarmos!

— Não é? Para mim parece ser uma das melhores razões.

— Mas nem gostamos um do outro, a não ser dessa forma.

— E isso importa?

Santos recusou o protesto de Alexa com um encolher de ombros.

— Conheço muitos casais que se detestam, mas perma­necem juntos por causa de seus estilos de vida. Ao menos teríamos a paixão também.

— E isso seria o suficiente para você?

— Seria um ótimo ponto de partida.



Ponto de partida.

Não, Alexa não se permitiria mais interpretar nada do que ele falava. Afinal de contas, Santos havia declarado que não acreditava no amor e que jamais acreditaria.

— Por que não acredita no amor? — ela indagou, cho­cada consigo mesma ao ouvir a pergunta em voz alta, in­capaz de lutar contra a curiosidade que a dominava.

Santos, no entanto, não demonstrou surpresa e manteve o olhar de cinismo e desprezo.

— Nunca vi evidência da existência do amor.

— Ah, por favor! — Alexa nunca deixaria ele sair com essa resposta. Ninguém poderia ter chegado aos 30 anos sem nunca ter sentido o amor de alguma forma. — Você já deve ter sentido!

— Devo ter?

A pergunta foi tão incontestável que um arrepio percor­reu a espinha de Alexa, alertando-a de que estava lidando com algo com que nunca havia se deparado antes na vida.

— Bom, com certeza, seus pais...?

A resposta de Santos foi um rosnar amargo, um riso sem humor, que fez o sangue de Alexa correr frio só de ouvi-lo.

— Definitivamente, não meus pais. Eles também foram um casal que não precisou de amor para construir uma vida.

— Sua mãe deve ter amado você — Alexa arriscou, com o coração na boca, tensa, quase sem conseguir pronunciar as palavras.

O olhar frio e fulminante de Santos ameaçou transfor­má-la em pó.

— Mesmo se minha mãe tivesse ficado tempo suficiente para me conhecer, duvido que sentisse qualquer coisa pró­xima ao amor de ficção ou dos contos de fadas que você conhece. Para ser bem honesto, duvido que ela sentisse qualquer coisa.

— Mas era sua mãe!

— Ela me pariu, es todo.

Se havia qualquer sentimento por detrás da máscara de Santos, então ele realmente sabia ocultá-lo. Seus traços pareciam ter sido esculpidos em mármore, porque não de­monstravam emoção alguma.

— E seu pai?

Alexa não queria fazer esta pergunta; tinha a péssima sensação de que não gostaria nem um pouco da resposta. Ninguém poderia se tornar tão cínico quanto Santos sem motivo, e ela começava a desconfiar que ele tinha mais ra­zões do que ela suspeitava.

— Meu pai? — A risada fria e brutal de Santos a fez en­colher-se. — Duvido que minha mãe sequer soubesse quem era meu pai. Ele poderia ter sido qualquer um entre mil candidatos. E, quem quer que fosse, definitivamente, não cuidaria de uma criança.

Não havia autopiedade em seu tom, nada que o fazia querer consolo. Em vez disso, Santos manteve o tom de­terminista que fazia com que Alexa estremecesse. A dureza de sua postura, a forma como a expressão de seus olhos era vazia de emoção a fazia querer tocá-lo, segurar suas mãos em compaixão.

Mas ele odiaria se ela demonstrasse qualquer preo­cupação, e, provavelmente, a rejeitaria, ou, talvez, não sentisse nada. Mas era o medo de qualquer tipo de toque que fazia Alexa controlar-se. Depois do efeito incendi­ado que as carícias e os beijos de Santos haviam pro­vocado nela, não estava preparada para se arriscar outra vez. Ela sentia-se como se tivesse acabado de escapar, e colocar as mãos no fogo de novo era mais do que poderia agüentar.

E, então, lembrou-se mais uma vez da declaração de Santos.

Vim buscar você...

Alexa sabia que Santos era insensível o suficiente para fazer exatamente isso. O homem que declarara que não acreditava no amor e que só queria um casamento de con­veniência com um membro da família Montague — qual­quer filha — era capaz.

— Não importa o quanto nossa noite juntos foi boa, foi apenas uma noite, e não tenho intenção alguma de repeti-la — Alexa afirmou. — Não me casarei com você. Não quero nada relacionado a você.

— Mentirosa — Santos contestou. — Veja o que aconte­ceu quando eu a beijei.

— O que aconteceu naquele momento foi apenas desejo, não tinha nada a ver com amor.

— E precisa de amor para casar-se comigo?

— Sim! Sim, preciso!

— Bom, perdoe-me então, carino, isso eu não posso ofe­recer. Mas posso oferecer muito!

— Não quero. Não quero nada que venha de você. O quê? — Alexa indagou imediatamente ao ver Santos re­agir como se estivesse chocado com sua resposta. — O que eu disse?

— Se isso for mesmo verdade, então sugiro que fale com seu pai.

— Meu pai, por quê?

Alexa agora estava confusa. Não entendia o motivo de ter que colocar seu pai nessa história.

— Se você realmente não sabe, então ele explicará. Me­lhor que ele conte.

— Não tenho intenção de conversar com meu pai. Nada que ele diga irá fazer com que eu me case com você.

— Está certa disso?

— Sim.


Santos pareceu precisar de alguns segundos para absor­ver o que Alexa dizia, e pela primeira vez seus olhos não estavam frios, mas sim turvos, de tal maneira que ela não compreendia o que acontecia.

— Sabe por que eu ia me casar com Natalie?

— É claro, você queria um casamento para iniciar a di­nastia dos Cordero.

A verdade veio como uma pancada no peito de Alexa, golpeando seu coração de forma intensa. A imagem de uma criança, filha de Santos, não saía de sua cabeça. Crianças que poderiam ser livres do cinismo do pai e não rejeitariam o amor. Crianças que poderiam, inclusive, mostrar ao pai que existem outras emoções que ele nunca sentira.

— E você continua querendo isso, mas não pode me for­çar a casar com você.

— Prometo que não pretendo usar a força, mas você irá se casar comigo.

— De jeito nenhum! Nunca!

O sorriso que apareceu no rosto de Santos fez Alexa perceber que o pânico em sua voz havia revelado, sem dúvida, muito mais do que deveria.

— Não dizem que nunca devemos dizer nunca? — San­tos retrucou. Seus olhos estavam gelados e prometiam vin­gança caso ela não fizesse as coisas da sua maneira.

— Esse ditado pode até existir, mas não se aplica a mim.

— Fale com seu pai, Alexa.

O tom de Santos foi baixo e severo.

— O que está acontecendo?

Alexa indagou, mas Santos apenas balançou a cabeça e contraiu os lábios firmemente, sem dar explicação alguma.

— Tudo bem...

Encurralada, Alexa sabia que não havia como reagir. Mas ela não deixaria que ele triunfasse.

— Tudo bem, falarei com meu pai, mas não agora, não com você me observando como um anjo vingador. Se tenho que fazer isso, então farei com privacidade, com você fora da minha casa. Então vá... — Alexa insistiu, ao perceber que Santos não havia se movimentado. — Gostaria que você sa­ísse. Saia da minha casa...

Alexa não sabia o que poderia fazer se ele se recusasse a se retirar. A idéia de ter que forçá-lo a sair dali a invadiu. Mas, no momento em que achou que isso poderia ser neces­sário, Santos levantou-se.

— Tudo bem — ele disse. — Sairei, por enquanto. Pre­ciso fazer meu check-in no hotel e tenho outros assuntos a tratar. Mas voltarei.

A forma como enfatizara a ameaça embutida em suas palavras, com os olhos fixos nela, como se Alexa escon­desse algo em seu olhar, fez com que os nervos dela se agitassem.

— Você partirá agora e não retornará, não até eu permitir. Se eu permitir. Depois de conversar com meu pai, pensarei se ainda acho necessário conversarmos, e telefonarei.

Alexa realmente acreditava que o afetaria de alguma for­ma? Santos poderia até ter aceitado partir, mas só porque naquele momento também seria bom para ele. Seu rosto estava tão fechado que Alexa não fazia idéia do que ele ocultava. Santos faria tudo da sua própria maneira, como sempre. Mas o fato é que ela não conseguia deixar de sen­tir-se manipulada. O que exatamente seu pai diria?

Vestindo seu pesado casaco azul-marinho, Santos tirou do bolso uma pequena caixinha de prata. Abrindo-a, pegou um cartão e entregou a Alexa.

— Meu número de celular — Santos explicou, enquanto Alexa o olhava, confusa. — Você precisará disso quando for me telefonar.



Quando, Alexa notou a escolha de palavra. Não se ela pudesse evitar. Santos estava seguro de si, totalmente no controle. E ela nunca se sentira tão parecida com um fan­toche quanto naquele momento, dançando conforme os co­mandos do homem que manipulava as cordas.

Durante um breve momento de rebelião Alexa recusou-se a aceitar o cartão, levantou o nariz e o olhou de forma desafiadora, até que Santos soltou uma risada ríspida e jo­gou o cartão na poltrona.

— Você vai precisar — ele repetiu, de forma implacável. — Ligue-me.

Ao falar, Santos já abotoava o casaco para enfrentar o tempo lá fora, que piorava a cada segundo. E Alexa então hesitou em insistir que Santos partisse assim que percebeu as condições do tempo. O vento havia aumentado de inten­sidade e velocidade, quase derrubando as árvores, e a chuva caía de forma pesada, até com precipitação de granizo.

— Você está certo de que ficará bem?

— O que é isso, Alexa? — Santos zombou. — Está pre­ocupada? Sou um menino crescido...

— Sei que você é — Alexa respondeu, inquieta tanto com a segurança de Santos quanto pelo medo de imaginá-lo dirigindo naquelas condições. — Crescido e feio o sufi­ciente. Mas eu não jogaria nem um cachorro na rua nessas condições.

— Sobreviverei.

Santos desprezou a preocupação de Alexa de uma for­ma que a fez sentir-se muito pior. Sua vontade de que ele partisse e a deixasse livre para poder conversar com o pai, em paz, agora havia sido substituída por uma quase incapacidade de deixá-lo partir. E se algo acontecesse? A noite caía e a estrada tinha bem pouca iluminação. Não estava em boas condições, e mesmo se Santos conhece as estradas como ela, com aquele tempo seria muito ar­riscado.

— Não vá — ela disse, subitamente, mas ao se virar na direção de Santos percebeu que ele já estava entrando no carro.

Por um momento Alexa considerou correr atrás dele. Chegou até a levantar o braço, acenando para que ele pa­rasse, mas o som do motor a fez desistir.

Santos jamais ficaria para agradá-la, para acalmá-la. Além disso, admitir que se preocupava a esse ponto faria com que ele tivesse ainda mais controle sobre ela. Então, Alexa forçou-se a simplesmente observá-lo partir.

Foi inquietante notar a maneira como o veículo quase saiu da estrada, devido à forte ventania, mas Santos con­seguiu manter o controle do carro. E momentos depois, ao fazer a curva seguinte, Alexa já não conseguia mais acom­panhá-lo com o olhar. Era uma noite horrível, e de alguma forma sem Santos presente parecia ainda mais escura, fria e solitária do que nunca.

Fale com o seu pai, Alexa. A voz de Santos ecoava em sua cabeça, relembrando-a do que deveria fazer, e ela foi correndo para dentro de casa, diretamente em direção ao telefone.

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