Avassaladora Vingança (Cordero's Forced Bride) Kate Walker



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CAPÍTULO DOZE

Alexa não fazia idéia do quanto seu pai havia falado, até que parou. Só sabia que não possuía energia para respon­der. Conseguia, no máximo, responder com monossílabos como "Sim", como se houvesse compreendido. Pois ela percebia que não havia alternativa, não uma que pudesse solucionar o problema. Mantendo sua madrasta livre de uma depressão e seu pai fora da prisão.



Fora da prisão.

Ali estava exposta a pior situação possível. Alexa sem­pre soubera que seu pai era egoísta, e que sua mulher podia ser ainda pior, mas aquilo era demais!

Por causa de suas próprias decisões estúpidas — e ile­gais —, Stanley Montague arriscara não só seu lar e seu patrimônio, mas também sua liberdade. Se Santos o proces­sasse, estaria na prisão agora.

Mas o processo ainda era apenas uma ameaça, con­tanto que ele conseguisse o queria. E o que ele pretendia era um vínculo com a família Montague através do casa­mento.

Santos não estava mentindo quando dissera que a famí­lia de Alexa devia uma esposa a ele.

Vim buscar você.

E durante todo o tempo em que escutara seu pai se expli­car e desculpar, Alexa sabia que Santos estava à sua espera na cozinha. Com um café na mão, um sorriso no rosto e a convicção arrogante de tê-la onde queria.

Ele realmente a tinha onde queria. Desde o início! En­curralada, sem saída, sem resposta possível. Não, a menos que ela arruinasse toda a família e levasse sua madrasta à loucura.

E seu pai para a cadeia, por desfalque.

Agora Alexa conseguia admitir o que o pai havia as­sumido ao telefone: que fora estúpido, completamente tolo, desperdiçara todo o dinheiro que a família pos­suía — com muita ajuda de sua gananciosa madrasta. E para piorar a situação, pegara dinheiro emprestado de um negócio ainda não executado com seu sócio Santos Cordero.

Alexa reagia desesperada. Só mesmo seu pai para correr o risco de ser preso e acabar nessa situação deplorável.

Colocando-a numa situação ainda pior.

Alexa sabia que a fraqueza e o egoísmo de seu pai a ma­chucariam. Mas a verdade é que nada do que o pai dissesse ou fizesse a atingiria realmente, porque não havia nenhum pedaço do seu coração que já não tivesse sido devastado por Santos. E a insensibilidade de Santos a machucava mais do que qualquer coisa.

"Uma noiva Montague é como outra da mesma família, já que esse é apenas um casamento de conveniência..." As duras palavras voltaram a povoar seus pensamentos.

"Vim buscar você", foi o que Santos dissera. E ela se recusara a acreditar. Alexa chegou a se permitir pensar e até sonhar que ele pudesse estar sentindo algo por ela. Que Santos se abrira porque...

— Não!

Alexa tapou a boca com a mão na tentativa de controlar o grito desesperado que quase escapou.



Não teria que haver outra maneira de se livrar daquilo. De uma coisa ela estava certa: não iria ceder sem lutar. San­tos poderia até pensar que a tinha, submissa, mas ela daria um jeito na situação. De alguma forma.

Mas, antes, Alexa tinha que se vestir. Não enfrentaria aquele verme arrogante e manipulador usando somente um robe azul tão justo que parecia até revelar suas curvas nuas por baixo do tecido.

Fato sobre o qual Santos estava ciente. Uma forte onda de constrangimento tomou conta de Alexa ao perceber o quão facilmente ela cedera e fizera o que ele queria. Como Santos não tivera problema algum em levá-la para a cama. Se fosse honesta consigo mesma, admitiria que havia feito todo o tra­balho para ele. Jogou-se em seus braços, em sua cama...

Tudo bem, a verdade é que se jogou na própria cama, mas o levou consigo. Fora quase como um presente de aniversário para Santos. Seu implacável plano de um casa­mento por conveniência funcionara perfeitamente.

Bom, é o que veremos, foi o que Alexa pensou ao subir para o quarto para vestir-se. Se houvesse alguma maneira de sair dessa situação, ela descobriria. Santos Cordero tinha que aprender a não dominar a vida dos outros daquela for­ma. Alguém teria de enfrentá-lo...

Mas por que ela?

Alexa desejava conseguir tomar um longo banho quente e esfregar-se com a vã esperança de conseguir apagar as lembranças dos toques de Santos, de suas carícias e beijos, impressas em sua pele como uma marca de propriedade em uma escrava. Mas ela não ousaria demorar, sabia que se ficasse tempo demais no banho Santos ficaria curioso, e ela não o queria atrás dela.

Além do mais, só a idéia de estar em seu quarto, com os lençóis desarrumados pela paixão da noite anterior, os travesseiros ainda encharcados com o odor do corpo e da pele de Santos, era mais do que podia suportar.

E mesmo assim acreditava que o amava!

Seus pensamentos tolos continuaram acompanhando-a enquanto descia as escadas. Como poderia acreditar estar apaixonada por um homem manipulador como aquele? Que poderia comprar uma mulher sem nunca oferecer a ela qualquer tipo de comprometimento emocional?

"Vim buscar você..." Ela daria um jeito nisso.

Do lado de fora da cozinha, Alexa respirou fundo, ergueu os ombros, levantou a cabeça e entrou, de forma confiante.

E sabia que só estaria enganando a si mesma se negasse o que sentia por aquele homem. A forma como seu cora­ção palpitou ao vê-lo sentado na pequena mesa de jantar evidenciava seus sentimentos. Sentimentos que em outras circunstâncias a levariam a casar-se com ele sem hesitar.

Sentimentos que ela teria que lutar para reprimir, que teria que esquecer para conseguir lidar com a situação na qual se encontrava.

— Finalmente — Santos comentou.

— Queria me vestir. — O tom de Alexa estava duro de tanto esforço que fazia para controlar-se. — Sinto-me me­lhor assim.

O olhar que Santos lançou a Alexa, avaliando sua apa­rência de calça jeans e suéter verde-claro, era questiona-dor. Por que colocar qualquer roupa se a intenção dele era despi-la muito em breve? Mas Alexa o ignorou. Pois se dependesse dela não iriam para a cama nunca mais. Alexa fazia de tudo para retomar o controle, num esforço visceral, desafiando Santos a revelar o que se passava em sua cabeça.

Mas Santos preferiu não fazer qualquer comentário.

— Seu café está aqui...

Ele apontou para uma caneca na mesa a seu lado.

— Preparei quando ouvi que você descia as escadas, está bem fresco.

Alexa pegou a caneca e despejou o conteúdo na pia, ob­servando o café descer pelo ralo com um misto de satisfa­ção e arrependimento. Ela teria adorado uma revigorante caneca de café, de fato não podia pensar em nada melhor, mas achava que devia demonstrar o que sentia num gesto radical. E, além do mais, temia engasgar de nervoso.

— Algo errado com o café? — ele perguntou, com o olhar fixo no rosto de Alexa.

— Isso não está funcionando, Santos! — Alexa decla­rou, decidindo iniciar de vez o confronto em vez de ficar com rodeios.

— O que não está funcionando?

— Esse esquema que criou para conseguir uma esposa através de chantagem.

— Você falou com seu pai — Santos afirmou, de forma dura e direta.

— Sim, falei com meu pai. Foi isso o que você me acon­selhou a fazer ontem, se é que se lembra...

Por que ele fizera isso? Por que não explicara a situação? Talvez porque ela jamais acreditasse nele.

— Então agora sei o que você esteve tramando.

— Agora sabe o que seu pai andou fazendo — Santos a corrigiu, frio e impassível. A atmosfera da cozinha estava fria como se a temperatura tivesse caído a ponto de ser pos­sível ver a própria respiração condensar no ar.

— Bom, sim, o que ele fez foi errado, e é claro que não pode sair impune disso. Mas sei porque fez isso. Foi por Petra. Ele sempre foi um tolo em relação a ela, e nunca conseguiu recusar nada a ela. E como Petra nunca enten­deu o significado do peso que a morte do meu avô teve na família, continuou gastando, sempre. E o dinheiro terá que ser devolvido.

— Você diz isso sem hesitar — Santos comentou. — Por acaso seu pai mencionou quanto dinheiro está envolvido?

— Muito.


— Você poderia dizer o que pensa... — Santos revelou a quantia que a deixou boquiaberta. — Você realmente não tinha noção?

— Eu...


— Você acha que me preocuparia com qualquer outra coisa?

— Eu... — Alexa tentou falar mais uma vez, mas sua cabeça rodava, atônita. Sentiu como se fosse cair.

É claro, ela deveria saber ou ao menos suspeitar. Não era à toa que seu pai parecia tão acabado. A evidência estava na histeria que tomou conta de Petra e a aparência de Stanley no dia do casamento. E, antes disso, o indício era a vida extravagante que sua madrasta, seu pai e sua irmã levavam havia quase dois anos. Um estilo de vida que Alexa apren­dera a não questionar. Porque sabia que ninguém diria nada para ela. Do mesmo jeito que ninguém havia contado nada sobre os acordos do casamento.

— Desculpe-me — ela conseguiu dizer. — Nunca soube que era tão mau assim. Mas você realmente acredita que qualquer quantia de dinheiro justifique jogar com a vida das pessoas? Manipulando-as a se casar, querendo ou não?

Santos suspirou, passou as mãos pelos cabelos e soltou os ombros como se quisesse se livrar de uma grande tensão.

— Quando lhe disse para conversar com seu pai, espe­rava que você fosse ter uma confirmação da verdade. Não manipulei sua irmã para casar-se comigo. Ela deixou bem claro que se sentia atraída por mim e que minha riqueza não era insignificante. Foi ela quem sugeriu o casamento.

Se Santos tivesse contado isso a ela no dia do casamen­to, Alexa teria refutado de forma agressiva. Agora já não se dava ao luxo de duvidar dele.

E isso a forçou a repensar o que Natalie dissera.

Natalie nunca lhe contara a verdade. Nunca admitira que, em parte, amava a idéia de ser noiva de Santos, ter di­nheiro e ser célebre, gostar do excitante estilo de vida e de estar sempre em todas as revistas. Mas conhecer o homem da sua vida a fez esquecer tudo e perceber que precisava de muito mais — emocionalmente — se fosse se comprometer com o casamento.

— Natalie sabia que eu queria herdeiros para minha fortuna, e que ser relacionado à família Montague abriria portas na sociedade que o dinheiro não abre. E ela queria manter o nível de vida que sempre teve. Então, sugeriu um plano que traria benefícios mútuos.

E o fato de não estar apaixonado — acreditando ser in­capaz de amar — fez com que Santos visse nessa proposta a resposta perfeita para tudo o que queria.

— Eu teria sido bom para ela, Alexa. Natalie não sentiria falta de nada. E, é claro, tendo ela como minha esposa, nun­ca processaria meu sogro. Mas eu o teria perto o suficiente para controlá-lo.

— Não processá-lo, isso era parte da barganha? Alexa podia ler a resposta no rosto de Santos, mas preci­sava escutar uma confirmação.

— Nem sei o quanto Natalie sabia da real situação de seu pai. Ela sabia que ele estava com problemas financei­ros, mas duvido que soubesse como aconteceu.

— Mas no fim isso não foi o suficiente para Natalie. Não depois de conhecer John.

— É, ela me surpreendeu — Santos admitiu. — Esse novo homem deve ser especial.

Por um instante Alexa pensou que Santos pudesse ser capaz de utilizar a palavra "amor" como a coisa que sua irmã quisesse mais do que dinheiro. Mas ela sabia que iria se desapontar.

— Mas deixou-me com um problema: seu pai ainda me devia dinheiro.

— E, então, você decidiu, a sangue-frio, que eu poderia substituí-la, certo? — Alexa o questionou.

— Não, Alexa. Isso nunca. Não consegue ver que tudo o que faço para você não é a sangue-frio. A verdade é quase o contrário. Você me esquenta a ponto de eu não conseguir pensar com clareza. Você me leva à loucura.

Agora Alexa realmente precisava sentar-se. Suas pernas estavam bambas, prestes a não agüentar seu peso.

— Que tipo de loucura?

— Coisas que nunca imaginei serem possíveis. Atos como vir até aqui para devolver um par de sapatos que eu odiava por ter machucado seus pés.

— Você disse que veio aqui para me buscar. — A voz de Alexa falhou, num misto de riso e choro.

— E vim. Não conseguia tirar você da cabeça. Queria tanto você que não conseguia ficar longe. E sabia que você também me queria. E, é claro, isso solucionava também o problema de seu pai...

— É claro.

A voz de Alexa estava grave, abalada. Mas o que mais ela poderia esperar?

Esperava uma selvagem declaração de amor depois dis­so tudo? Que Santos encontrasse a emoção mais vital que ficou por tanto tempo reprimida em seu coração? Ele não acreditava no amor, nem sabia o que era, como poderia sen­ti-lo? Ele a queria, apenas isso. Poderia ser o suficiente para Santos, mas não para Alexa.

Ela amava aquele homem de todo o coração. Mas pode­ria amar pelos dois? Provavelmente, não.

Amava-o agora, mas, sem ser amada de volta, sem ne­nhum sentimento para alimentá-la, seu amor não sobrevi­veria. Poderia ela amá-lo para o resto da vida sabendo que ele nunca a amaria, sem que isso a destruísse, deixando-a vazia e de coração partido?

Agora Santos não sentia nada além de uma paixão ar­dente. Que um dia, inevitavelmente, acabaria.

— E, então, você veio, para exigir que eu me casasse com você. — Exigir, não. Era o que você queria também.

— Não.

Alexa forçou-se a responder, e percebeu que Santos ha­via ficado surpreso, tanto quanto ela, com a resposta.



— Não — Alexa repetiu, com menos vigor dessa vez.

Embora conseguisse sentir a tensão que invadira o ar aper­tar seu peito e quase rasgar seu coração em dois.

— Não?

Santos não poderia demonstrar como estava espantado. Seus olhos estavam tão opacos que ela não conseguia en­tendê-los.



Com grande esforço Alexa ficou de pé, obrigando-se a encará-lo, apesar da expressão de Santos lhe provocar inse­gurança, fazendo a boca secar ao tentar pronunciar as pala­vras que gostaria.

— Não, não quero me casar com você.

— Mentirosa — Santos retrucou, de forma suave, mas definitiva. — Você não está sendo sincera.

— Sim, estou. — Sabe-se lá como Alexa encontrou for­ças para continuar. — Não quero me casar com você, não quando é pelo simples motivo de saldar as dívidas do meu pai, para salvá-lo de um processo...

— Tudo bem!

Santos levantou a mão num gesto de quase derrota.

— Tudo bem, vamos tirar seu pai da história. Vamos fa­zer isso apenas entre nós.

A cabeça de Alexa parecia querer explodir de tanta pressão ao tentar controlar a quantidade de pensamentos selvagens, loucos e contraditórios que a invadiam. Ele não poderia estar dizendo aquilo.

— Não entendo, o que quer dizer?

— Esqueceremos seu pai...

— Não posso! O que ele fez foi errado. Acusei você de usar as pessoas, mas ele pode ser tão mau quanto você. Sei que foi ele quem falou onde poderia me encontrar.

Os olhos de Santos estavam estranhamente gentis, como se compreendesse o que Alexa sentia — o que, de fato, ele compreendia.

— Foi obra de sua esposa venenosa. Ele só permitiu que ela dissesse.

Juntando as mãos como se rezasse, Santos tentava enfa­tizar a veracidade do que dizia.

— Esquecerei sobre o dinheiro que seu pai roubou de mim. Cancelarei as dívidas. Esquecerei o processo. Limpa­rei tudo. É muito mais difícil saber que ele usou você para salvar a própria pele. Duvido que eu mesmo fosse capaz de perdoá-lo. Se quiser, posso fazer isso. Se você se casar comigo.

Aceito! Foi o que o coração de Alexa gritou, desesperado para dizer sim. Aceite sua tola! Isso é tudo que conseguirá. Aceite e não peça nada mais. Você pode ser feliz assim.

Feliz por enquanto.

Ela quase aceitara em voz alta, quase pronunciara "Sim", quando a racionalidade mais uma vez prevaleceu e a forçou a reavaliar a situação.

— E por que você quer se casar comigo?

— Porque eu quero, droga!

Santos cruzou a cozinha e chegou até Alexa, segurando-a com força pelas mãos. Seu toque era morno e firme e em outro momento reconfortaria seu coração aflito. Mas a verdade é que Alexa sentia o contrário, como se a faca em seu peito tivesse sido cravada ainda mais fundo, perfurando sua desolada alma.

— Eu quero tanto você que sinto que vou enlouquecer sem você em minha vida, em minha cama. A noite passada não foi prova suficiente para você?

— Noite passada... — Alexa tentou argumentar, mas foi incapaz de completar a frase.

A noite passada pensei que você se importasse, era o que ela queria dizer. A noite passada, quando você me chamou de querida, achei que significava algo. Se a noite passada tivesse sido apenas o começo, eu teria sido capaz de aceitar, com a certeza de que haveria muito mais por vir, que um dia você poderia me amar...

Mas isso fora antes de Alexa acordar esta manhã e ver as cicatrizes nas costas de Santos. Antes de perceber o quão profundas são as cicatrizes de sua alma, de seu coração. Como haviam acabado com qualquer esperança de Santos amar. E hoje, com tudo que ele dissera, só cavara um túmu­lo ainda mais fundo para as esperanças de Alexa.

Santos a quisera. Ainda a queria. Mas querer não é amar.

Não é o suficiente. Não quando ela precisava de muito mais.

CAPITULO TREZE

— Não me diga que não gostou de ontem à noite — San­tos disse, com a voz grave e o olhar fulminante. — Não me diga que não era o que queria, o que ainda quer. Diga-me...

Não, era o que Alexa queria gritar, numa desesperada tentativa de evitá-lo. Mas ela não conseguiu pronunciar qualquer palavra, calada pelo rápido movimento de San­tos, que forçou seus lábios contra os dela, beijando-a com paixão.

E por um momento Alexa entregou-se. Ela só queria o beijo de Santos, intensamente. Mesmo que isso significas­se machucar ainda mais seu coração sofrido. E sentindo essa entrega Santos a segurou pelos braços, puxando-a para mais perto, tomando sua boca com a força da paixão primitiva que o dominava. E Alexa permitiu-se desfrutar do prazer que ele proporcionava.

Mas só por um momento. Um segundo depois o prazer já havia se transformado em agonia, em algo que ela não conseguia mais agüentar, sem saber ao certo o que sentia. Então, munindo-se de toda a força que possuía, de ela o empurrou para longe, desvencilhando a boca da dele, com tamanha energia que temeu pelas frias chamas de ódio que com certeza ardiam nos olhos de Santos.

— Não! — ela finalmente conseguiu falar, sua voz fa­lhando, angustiada. — A noite passada foi... foi divertida. Gostei, sim. Mas casamento não é só isso.

— Foi mais do que divertido.

Santos tinha a respiração ofegante e os olhos, opacos.

— É o que quero de um casamento. E quero mais disso — Santos completou.

E Alexa admitiu o mesmo para si. Então, por que reagia daquela forma? Por que deveria se negar esse prazer, já que era o que tanto queria?

— Também quero mais — ela confirmou, e o observou reagir como se não acreditasse, os olhos brilhando com a surpresa.

Alexa sobressaltou-se por ter tido coragem de arriscar-se tanto; de jogar com tudo que tinha. Afinal de contas, o que tinha a perder? Não havia nada mais que pudesse ser tirado dela. Agora, era tudo ou nada.

— Estou preparada para dividir minha cama com você, na verdade gostaria disso, mas não vou me casar.

Tudo ou nada! Mas ela soube que havia perdido assim que viu a expressão de Santos, fechando-se como se rejei­tasse o que Alexa dissera.

— É casamento ou nada! — Santos devolveu, num frio e duro desafio.

— Por que insiste tanto em se casar?

E por que ela não parava de fazer tantas perguntas? Por que continuava se abrindo à dor que sabia que ele poderia infligir com apenas uma palavra ou um olhar?

— Você sabe por quê. Quero filhos, herdeiros. E quero você.

Pelo menos Santos não a relembrara do quanto era im­portante o status que o sobrenome Montague traria para ele.

Não que isso pudesse fazê-la sentir-se pior, Alexa nunca pensara que um coração pudesse se quebrar. Mas, agora sentia o próprio estraçalhar-se em mil pedaços.

— O que mais você quer? — ele perguntou, de forma ríspida. — Não peça nada que eu não possa lhe dar.

— Casamento ou nada? — ela repetiu, numa voz baixa e triste, sabendo que não havia alternativa. Pelo menos a dor era tão grande que fez suas lágrimas secarem. Caso contrá­rio, Alexa não teria conseguido segurá-las. — Então, sinto muito, mas a resposta é nada.

Se Santos concordasse, ela desmoronaria. Alexa poderia lutar contra si mesma ou contra Santos, mas não poderia suportar as duas coisas ao mesmo tempo.

Mas Santos nem tentou persuadi-la do contrário. Em vez disso, a olhou de forma profunda, virou-se e saiu si­lenciosamente da cozinha. Paralisada pelo choque, Ale­xa escutou os passos de Santos subindo as escadas, indo em busca de seus sapatos e descendo, momentos depois. Logo em seguida Santos pegou o casaco que estava pen­durado no hall de entrada e se direcionou para a porta da casa, sem dizer uma palavra.

Olhe para mim, só mais uma vez, era o que Alexa supli­cava em pensamento, e logo se contradizia, rezando para que ele não olhasse para trás, sabendo que seria demais suportar vê-lo tão determinado em partir, para nunca mais amá-la.

Adios — Santos disse por cima do ombro enquanto abria a porta. — Adeus, Alexa.

Adeus. Ela respondeu para dentro, sem conseguir pro­nunciar a palavra. Adeus, meu amor.

Lágrimas embaçavam sua visão, e Alexa piscou com força, na tentativa de limpar sua visão e olhá-lo pela última vez. Ela observou a figura alta e imponente de Santos sair pela porta em direção ao frio ar matinal.

E, então, se chocou ao vê-lo hesitar, parar.

Nolo puedo — ele disse. —Não posso...

— Você...

Por alguns longos momentos Alexa lutou para tentar di­zer alguma coisa.

— Você não pode... o quê?

Aos poucos ele se virou na direção de Alexa e ela mal conseguia reconhecer seu rosto, o olhar estava escurecido.

— Não me peça para partir. Não consigo.

Duas vezes Alexa tentou formular a pergunta. Por duas vezes sua voz falhou, e ela teve que engolir em seco na tentativa de aliviar a tensão. Mas Santos esperou, parecen­do entender intuitivamente o quão importante era aquele momento.

— Por que não consegue partir? — ela finalmente con­seguiu perguntar.

— Não posso acreditar em você. — Foi uma resposta simples e direta.

— Santos... — Alexa ia começar a argumentar, mas ele levantou a mão, silenciando-a.

— Não, deixe-me falar. Eu darei todas as respostas. Não sei se serão as que você espera, mas são as que tenho. Por favor, me escute e depois...

Santos parou como se fosse incapaz de dizer, de encarar o que poderia acontecer depois.

E fora o simples fato de Santos, que normalmente estava sempre no controle, não conseguir terminar a frase que a deixou paralisada e em silêncio, à espera de que ele encon­trasse as palavras necessárias.

Alexa não sabia para onde aquilo tudo caminhava. Só sabia que Santos estivera prestes a partir e depois voltara.

Mas ele ainda se encontrava no meio do corredor, com a porta aberta. Era só ele se virar e sair de novo que tudo estaria perdido. Para sempre.

Mas Santos ainda estava lá. E Alexa precisava escutá-lo.

— Diga-me — ela falou, sabendo que não havia nada mais que pudesse acrescentar.

Santos suspirou profundamente.

— Há pouco mais de uma semana eu estava com minha vida toda planejada: ia me casar com uma mulher que me daria tudo o que precisava, tudo o que eu achava que pre­cisava. Foi tudo planejado de forma cuidadosa, tudo sob meu controle...

E controle era exatamente o que Santos sempre pre­cisara. O macho adulto precisava restabelecer o controle que o pequeno menino que fora abandonado nunca ti­vera.

— E sabia que funcionaria. Natalie e eu éramos um bom plano de negócios. E eu a teria tratado muito bem. Nunca iria lhe faltar nada. Mas, então...

Santos hesitou, seus olhos turvos e distantes como se tentasse focar em algo distante demais, algo que mal con­seguia enxergar.

— E, então, na festa antes do casamento, conheci outra pessoa. A irmã da minha noiva...

Para surpresa de Alexa, aqueles olhos prateados de Santos se fixaram nela, observaram intensamente seu ros­to, e lá ficaram, examinando cada traço de emoção que transparecia em seu semblante, cada mínima mudança de expressão.

— Você me deixa inquieto — Santos continuou, as pa­lavras se transformando num pequeno e constrangido riso. — Não conseguia tirar meus olhos de você.

— E, então? — Alexa perguntou.

— E, então... Haviam me dito que Natalie era a bela e você a sem graça, a bibliotecária solteirona. Mas eu não enxergava nenhuma solteirona sem graça. Via al­guém que me intrigava, alguém que cativava meu olhar. Alguém...

Santos suspirou mais uma vez, balançando a cabeça ain­da mais ao relembrar aqueles momentos.

— Alguém que eu deveria esquecer se fosse dar seguimento aos meus planos. Se eu cedesse à atração que sen­tia por você, se eu perdesse o controle, então tudo estaria arruinado. Mas no dia do meu casamento as coisas não aconteceram como planejado. E no fim do dia no qual eu deveria estar casado, com os contratos assinados, eu esta­va na situação de ter sido abandonado por duas mulheres Montague.

— Desculpe-me... — Mas as palavras de Alexa se perde­ram, ao perceber a maneira como Santos a olhava. O ines­perado brilho de seus olhos.

— Vocês duas haviam me abandonado, mas eu só me importava com uma. Só uma de vocês mexia comigo. Quando você me disse que Natalie não iria comparecer ao casamento, que ela fugira, eu estava furioso, com meu or­gulho ferido, mas determinado a não demonstrar nada.

— A recepção.

— Sim, a recepção — Santos confirmou. — Tudo segui­ria como planejado. Ninguém veria qualquer reação minha, muito menos a família da mulher com quem eu suposta­mente deveria me casar. E eu tinha outra carta na manga.

— Eu?

— Você. Sempre achei que você estava metida nisso, desde o início. Que sabia sobre seu pai.



— Eu não sabia! Eu juro... — Alexa tentou explicar-se, mas Santos pediu que ela se calasse.

— Agora sei disso, mas não estava pensando com clareza naquele momento. Estava com raiva, queria que alguém pagasse por tudo que havia acontecido. E achei que essa pessoa seria você. Mas, então, você me deixou também, e de repente tudo mudou. Enquanto o abandono de Natalie me deixou com o orgulho ferido, uma sensação de ter sido usado... quando você partiu, eu senti saudades. Não conseguia parar de pensar em você; eu a queria de volta. E teria feito qualquer coisa para isso acontecer, in­clusive vir até aqui para exigir que você tomasse o lugar de sua irmã.

— Trazendo com você o par de sapatos mais descon­fortável que já usei. — O riso de Alexa fora fraco, mas estava presente, aliviando um pouco a tensão.

— Aqueles sapatos estavam destruindo seus pobres pés. Não entendo como você conseguia ficar em pé neles.

Santos se importara. Estava escrito em seu rosto. Estava claro no tremor de sua voz. E ela estava começando a ser capaz de entender as reações daquele homem que não acre­ditava no amor.

— Senti sua falta, Alexa. Eu queria você. Não conse­guia continuar sem você. Mas não sabia o que estava acon­tecendo comigo. Não entendia o que sentia. Não sabia o que era.



É claro que não, Alexa pensou, seu coração doendo de tanta confusão. Ele não sabia o que era o amor, então, como o reconheceria?

— Quando eu disse que não acreditava no amor, quis dizer que não sabia como amar. Acreditava que não existia, então não sabia como era senti-lo. Ninguém nunca fizera eu me sentir dessa maneira antes. Achei que era só desejo. Que eu a desejava mais do que qualquer outra mulher que já conheci. E isso já era ruim o suficiente. Mas então...

— Então? — Alexa retrucou prontamente, enquanto

Santos passava a mão pelo rosto, num gesto de cansaço e confusão. — Então o quê?

— Então você perguntou sobre as cicatrizes nas minhas costas, e falei sobre minha mãe. Pela primeira vez na minha vida contei para alguém sobre minha mãe.

A respiração de Alexa parou. Sua cabeça rodava com a revelação de Santos. Estaria ele ciente do que dizia? Do grande elogio que fazia a ela?

Parecia que sim, porque, sem notar, Santos tinha dado uns passos à frente, na direção de Alexa, afastando-se da porta.

E ao tentar partir, agora, quando você disse que não se casaria comigo, não consegui. Não consegui deixá-la, por­que percebi que o que senti naquele dia que você partiu da minha casa fora algo novo. Algo que só sentira uma vez na vida, quando minha mãe me abandonou. E soube ali porque você não se casaria comigo.

Alexa respirou fundo e começou a falar:

— Deixe-me explicar o porquê — ela começou, mas logo parou, ao perceber que Santos havia se aproximado ainda mais, estendendo a mão para ela.

— Não, deixe-me explicar — ele disse. — Porque agora acho que entendo. Você não se casaria comigo porque impus a escolha do casamento ou nada. O que eu oferecia? Nada, nada do que você queria. Queria ca­sar-me porque queria você. Queria tê-la, queria mantê-la comigo, com a certeza de que você não fugiria de novo. Nesse aspecto, fui tão ruim quanto sua madrasta, seu pai. Pensei que poderia controlá-la, que poderia obrigá-la a fazer o que eu queria. Mas o que eu deveria ter lhe ofere­cido era a única coisa que a teria mantido perto de mim para sempre.

Ele parou, olhando-a fundo nos olhos, e Alexa sentiu as pernas tremerem ao perceber a poderosa emoção que ardia nos olhos dele. Mas ainda assim ela precisa ouvi-lo dizer.

Santos não a havia desapontado.

— Você queria meu amor.

— Ah, Santos...

— Mas não reconheci o que sentia, então como poderia dizer tal palavra? Até perceber que se eu não dissesse isso eu teria que partir. E não consegui... Alexa, o que estou ten­tando dizer é...

— Soa muito como amor — Alexa articulou, sua voz falhando em cada palavra. — E sei disso porque é o que tenho sentido também.

— Verdade?

A mudança no semblante de Santos foi estonteante, o brilho que surgiu em seus olhos foi capaz de aquecer a alma de Alexa, enquanto a mão dele apertava a dela ainda mais, puxando-a para mais perto até ela estar presa contra o corpo de Santos. E era o único lugar do mundo onde ela desejava estar.

— Você me ama?

— Eu amo você. — Alexa confirmou. — Eu o amo com todo o meu coração, com tudo que tenho dentro de mim. Sem seu amor nunca poderia encarar um futuro ao seu lado, mas com amor você é todo o futuro que preciso.

— E você se casaria comigo? Você aceita se casar comi­go e ser minha amante? E agora que sei que o que sinto é amor, você me permite amá-la para o resto da vida?

— Não consigo pensar em nada que eu queira mais. Sim, Santos, eu me caso com você. E juntos aprenderemos o quão maravilhoso pode ser o amor compartilhado. Quando dois viram apenas um.

Alexa suspirou de plena felicidade quando Santos a abraçou e beijou. Um longo, intenso e apaixonado beijo, como ela nunca recebera.

Atrás dele a porta bateu, isolando-os do resto do mundo, e permitindo que se resguardassem em seu lugar especial, onde tudo o que precisavam era um do outro e o amor que havia entre eles.

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