Aventuras de um tropeiro



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Encontro01.08.2016
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AVENTURAS DE UM TROPEIRO

Professor Leopoldo Tietböhl1
... – a que o assunto girasse em torno de caçadas...

Pouco tempo, todavia, lhe sobrava, a esse ativo tropeiro, para os prazeres cinegéticos. Além de suas múltiplas viagens, tinha ainda outras ocupações, como as que se referiam às roças e ao bom estado em que devia conservar o seu extenso potreiro. Cabiam elas principalmente ao filho. Auxiliava-o, por vezes, o pai; mais isto, apenas enquanto os muares descansavam e restauravam as forças para nova viagem.

Todos sabem que, sobre caçadas, sobejam episódios interessantes, os quais a imaginação dos respectivos heróis tão habilmente costuma, por vezes, exagerar no auge do entusiasmo que em tais momentos os fascina.

Entretanto, não resultam daí, os efeitos perniciosos de certas mentiras. Si, por um lado, a mentira proferida com intuitos malévolos merece a abominação de todos, não pode também, por outro, agradar a verdade que amarga, a que fere suscetibilidades; nem proporcionar conforto a que apaga a última centelha do estímulo, do ânimo ou da esperança. “Nem todas as verdades se devem dizer”, confirma o conhecido provérbio.

Quanto aos “causos” de Chico Ventana, são, afinal, como noutra parte já se explicou, mentiras que não prejudicam a ninguém.

Volvamos, pois, à conversa dos tropeiros...

O “Brechó” teimava em afirmar que a melhor bota para caçadas é a que naquela região se conhece por “lageana”. Tonéco recomendava, para o mesmo fim, as que lá chama “russilhonas”, e pediu, a respeito, a opinião de Chico Ventana, o qual logo atendeu:

- No meu fraco parecê, a russiona só presta p’ra viajá. Nas caçada, ela é um pirigo onde cruza anta. Vanceis vão sabê por quê:
... “Já se passaram muntos ano.

Naquele tempo, ninguém andava co’a chincha na viria. Nem se carecia pulicia bolante (ambulante) porque “inda não tinha aparecido a praga dos alarife.

Um dia fui ao mato buscá cipó.

Caía u’a chuvinha de moiá bobo. Era um tempo morrinhento, ansim de casamento de raposa.

Como êle ameaçava de se arruíná mais, carcei as bota russiona do meu sogro. Assunguei elas p’ra riba, e amarrei as tira das bota na guiaca de couro de jaguatirica, rechiada de munição.

Garrei minha espinhardinha. Desses que chamemo de “taquari” ou “pica-pau”.

Essa arminha, eu, p’r’o causo, tinha negociado (trocado, permutado) por um matungo, um libuno véio e sêco, que o compradô arreservou p’ra piquete (cavalo, em geral velho, para pequenas voltas).

Longe, no mato, parei um nadinha. Despois de considera um intante, cambei mão dereita (desviei-me para a direita).

Sem sabe de que jeito, ganhei por u’a picada itreita. Inda por riba, munto limpa, como se ali tivesse trabaiado bassoura. Discunfiei. Cheguei inté a pensa: Será serviço dargu’a alma perdida?

Mas, fui andando.

No que levo a arma à cara p’ra chamusca u’a jacutinga, que se embalanceva num rapo de ipé, senti de repente um empurrão forte, de coisa que me sacudiu p’ra diante. E lá me fui como mala de viagêro quando vai flouxa nos tento; ou ansim a modo de i avoando.

No premêro supetão, me aditou (pareceu-me) que aquele lugá era incantado...

Nem sei conta de que jeito fiquei! E de vereda, indas que eu tenha o corpo fechado, risquei o sino-salomão e esperei o estrupício.

Só lês sei dize que, quando eu quis me apercatá, já tinha margüiado num poço. E, a bem de não morre afogado, forcejei p’ra mode amuntá num bicho monstro, que andava do meu lado e me levava p’lo perau afora...

Pois, esse atrivido era u’a anta macota. Eu ‘tava no caminho dela. A danada tinha enfiado o pescoço entre o grosso da minha perna e a tira de couro da bota russiona...

De vereda atorei, c’o facão, a tira de couro. Despois de lida um poquito mais, sempre pude amuntá na anta.

A desgranida nem deu p’ra gostá! Fui tapeando ela na boca, e deste jeito obriguei a excomungada a se recosta no barranco.

Ligerito me garrei num gaio de camboatá, que descia, como de prepós’ito, inté a flôr-d’água.

Num instante, me varejei p’r’o sêco. Mas, lês digo: dei um pulo que inté um burlantim (acrobata) havéra de inveja, si visse.

Pois, meus amigo, deisde essa prueza, me veio a abusão (aversão) que inté hoje tenho, de bota russiona! Não quero mais sabe de simiante carçado, que é um pirigo em carrêro de anta.

Os Grupos Birivas, arranchados nos CTGs, cantando e dançando, também devem se divertir ao estudar o “mundo tropeiro”. A História, recheada de fatos que aos poucos vai desfiando a epopéia do Sul do País, também se associa às lendas, mitos, causos e costumes de um tempo que não volta mais.

O texto apresentado faz parte de um resgate e de uma pesquisa da estimada Professora Nilza Huyer Ely. Ela encontrou um livrinho do início do século XIX, escrito pelo Professor Leopoldo Tietböhl, de Três Forquilhas, litoral norte do Rio Grande do Sul, intitulado “Aventuras de um Tropeiro”2. Ela teve o trabalho de transcrevê-lo na íntegra e com a grafia da época. As narrativas (mentiras?) guardam uma riqueza inestimável ao ser retratado um profissional de seu tempo, o tropeiro, com seus costumes e vocabulário próprio de uma região rica em elementos culturais de formação e identidade de um povo.

O ambiente conhecido pelo personagem principal, o Chico Ventana, era o Litoral e os Campos de Cima da Serra. No vai-e-vem dos caminhos, certamente, além das bruacas cheias de mercadorias, os tropeiros trocavam experiências e sem querer, incorporavam elementos (detalhes) da gente, do povo, de duas regiões que se conheciam pelas notícias dadas pelos viajantes.

O Professor Leopoldo, certamente, com sensibilidade e olho clínico, conhecedor da vida rural, ouvindo os mais velhos, tendo contato com gente de cima da serra, inspirou-se num personagem típico que era importante para a economia regional.

Quem se deter em analisar profundamente a obra, descobrirá a riqueza do autor em premiar os leitores com um palavreado que vez por outra é encontrado num povoado perdido na imensidão das coxilhas...

Lembro de meus tios e tias, pelo lado materno, no fundo do Juá, ou nas vilas movimentadas da Cazuza e da Criúva, usarem alguns termos que contém o texto apresentado.

“Chuvinha de moiá bobo”. Um chuvisco que não engana ninguém e não atrapalha a lida ou a saída de dentro de casa ou do galpão.

“Matungo, um libuno véio e sêco”. Cavalo velho, com pelagem de lubuno, indicando que na época se utilizava o termo que ainda é conservado nos dias de hoje.

“Bota lageana”, indicando o estilo e não de onde era comprada. Termo passado de pai para filho pois antigamente os tropeiros de Lages (SC) transitavam por este corredor imenso das tropas serranas.

“Bassoura”, em vez de vassoura. Geralmente, aquela vassoura moura que infesta alguns campos ou uma “Maria-mole” que também se encontra no litoral.

“Chamuscá”. Aqui pode ser entendido como sapecar com fogo, dar uma queimada rasa ou também dar um laçasso com o “arriado” para tirar da frente o obstáculo.

“De vereda”. Esta é bem mais conhecida. Quer dizer, ligeiro, rápido, de pronto.

“Macota”. No Juá e na Mulada é um cara esperto. No texto, a anta esperta.

“Garrei”. Este termo significa pegar. Quem anda pelos campos de cima da serra encontra este termo facilmente, pronunciado pela gente campeira e gaudéria.
Carrêro, pirigo, varejei, gaio, desgranida, amuntá, forcejei, estrupício, supetão e outros termos que estão inseridos no texto acima, fez e faz parte do linguajar de muitos viventes. É, portanto, uma amostra de nosso patrimônio cultural e histórico que é fonte de pesquisa para muitas áreas das chamadas ciências sociais.

Aqui na região de colonização italiana tem aparecido monografias e teses sobre os dialetos dos primitivos imigrantes e muitos grupos tentam preservar tudo isto, publicando livros a respeito. E cursos são promovidos “ensinando” crianças a falarem os dialetos italianos. Quem sabe, num futuro próximo, nós, “os pêlos-duros” também não sigamos o mesmo caminho, com o nosso linguajar serrano?


Afinal, o Tropeiro é um componente indispensável nas discussões sobre os tipos, profissões e costumes da época em que viviam nossos ancestrais, nossa família antiga, nossas raízes mais queridas. Quando a gente ouve alguns comentários preconceituosos de que o pessoal de cima da serra não trabalhava (usando até termos pejorativos como ‘gigolôs de touros’) não sabem a realidade do homem do campo, muito menos do papel do Tropeiro. De uns tempos para cá, graças a Deus, estas Histórias estão sendo resgatadas e através da Literatura temos condições de conhecer um pouco mais a vida destes personagens.
As músicas e danças tropeiras só tem a ganhar quando a peonada dos CTGs incorporam a História e a Literatura ao seu “curriculum” e às suas atividades. Assim, fica provado também, que o Tropeiro se divertia com a sua função (atividade) e a parte lúdica interessa aos que tem “alma”. Como diz o cancioneiro: “quem tem sensibilidade pode ser parceiro da gente”!


1 Leopoldo Tietböhl, nasceu a 06-11-1874, em Três Forquilhas (RS), então 2° Distrito do município de Torres.Casou em Porto Alegre com Isolina Nunes. Faleceu a 30-11-1947. Como Professor, lecionou no Instituto Júlio de Castilhos, Colégio Farroupilha, Seminário Concórdia, Escola Normal, entre outros. Colaborou com jornais na capital do Estado. Deixou várias obras publicadas. Foi tradutor para a Livraria do Globo. Entre seus alunos, destaca-se o ex-presidente Getúlio Vargas. É patrono da Biblioteca municipal de Terra de Areia e tem seu nome num educandário em Porto Alegre, a Escola Professor Lepoldo Tietböhl.

2 Transcrito e incluído no livro “Imigração alemã: 170 anos. Vale do Três Forquilhas” / org. Nilza Huyer Eli e Véra Lucia Maciel Barroso. – Porto Alegre: EST, 1996.


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