Barbier, Renée. A pesquisa-ação



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BARBIER, Renée. A pesquisa-ação. Tradução de Lucie Didio. Brasília: Liber Livro Editora, 2007. p. 03 - 36. ISBN: 85-98843-01-6 (Série Pesquisa, v.3).
Tradução Lucie Didio
Ser do pulo. Não ser do festim, seu epílogo. René Char
O que foi compreendido não existe mais,

O pássaro confundiu-se com o vento;

O céu, com sua verdade;

O homem, com sua realidade.

Paul Eluard

Age


porque tu sabes

A vida não tem fronteiras

Busca porque tu trazes

O símbolo no qual fervilha o sentido.

SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO - página12

PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA - página 13

INTRODUÇÃO - página 17

CAPÍTULO 1 - HISTÓRICO DA PEsQUISA-AçÃo - página 25

1. O período de emergência e de consolidação - página 25

2. O período de radicalização política e existencial - página 31

CAPÍTULO 2 - A NOVA PEsQUISA-AÇÃO E SEU QUESTIONAMENTO EPISTEMOLÓGICO - página 37

1. A antiga pesquisa-ação: uma metodologia experimental para a ação - página 38

2. A diversidade dos tipos de pesquisa-ação – página 41

2.1 As pesquisas-ações de inspiração lewiniana ou neolewiniana- página 41

2.2 A consulta-pesquisa de inspiração analítica ou socioanalítica - página 42

2.3 A ação-pesquisa - página 42

2.4 A experimentação social - página 43

3. Psicologia experimental e mudança social - página 45

4. Crítica da sociologia positivista pela nova pesquisa-ação - página 49

4.1 As hipóteses relativas à ciência, ao conhecimento e à mudança - página 53

4.2 O processo de pesquisa - página 54

4.3 A metodologia e os instrumentos de pesquisa - página 56

4.4 O novo papel do sociólogo - página 56

5. A nova pesquisa-ação - página 57

CAPÍTULO 3 - A PEsQUISA-AçÃo EXISTENCIAL, INTEGRAL, PEsSOAL E COMUNITÁRIA - página 63

1. A pesquisa-ação existencial - página 66

Uma arte - página 67

De rigor clínico - página 69

Desenvolvida coletivamente - página 70

Com o objetivo da adaptação relativa de si ao mundo - página 71

2. Pesquisa-ação existencial e pesquisa-ação integral - página 73

2.1 Um modelo aberto da pesquisa-ação - página 74

2.2 A pesquisa-ação integral de André Morin (1992) - página 77

CAPÍTULO 4 - As NOÇÕES-ENTRECRUZADAS EM PESQUISA-AçÃo - página 85

1. A complexidade - página 87

2. A escuta sensível - página 93

2.1 A escuta sensível e multirreferencial não é um rótulo social - página 95

2.2 A escuta sensível e multirreferencial não é a projeção de nossas angústias ou de nossos desejos - página 96

2.3 A escuta sensível e multirreferencial não está assentada sobre a interpretação dos fatos - página 96

2.4 A escuta sensível se apóia sobre a totalidade complexa da pessoa: os cinco sentidos - página 98

2.5 A escuta sensível e multirreferencial é, primeiramente, uma presença meditativa - página 99

3. O pesquisador coletivo e sua escrita - página 103

3.1 O pesquisador coletivo - página 103

3.2 A escrita coletiva - página 105

4. A mudança - página 106

5. Negociação e avaliação - página 110

6. Do processo - página 111

6.1 Os processos e suas lógicas - página 113

7. Da autorização - página 114

CAPÍTULO 5 - O MÉTODO EM PESQUISA-AçÃo - página 117

1. A identificação do problema e a contratualização - página 119

2. O planejamento e a realização em espiral - página 121

3. As técnicas da pesquisa-ação - página 125

3.1 A observação participante predominantemente existencial (OPE) - página 126

3.2 A técnica do diário de itinerância - página 132

4. A teorização, a avaliação e a publicação dos resultados - página 143

REFERÊNCIAS BmLIOGRÁFIcAS - página 147

SOBRE O AUTOR/SOBRE A TRADUTORA - página 159

APRESENTAÇÃO

A Série Pesquisa tem como seu terceiro volume um rico texto de René Barbier sobre a pesquisa-ação, trazendo uma visão que avança em relação às premissas dessa modalidade investigativa da realidade social tal como se apresentou na primeira metade do século passado. Oferece um bom histórico sobre a pesquisa­ação, trazendo questionamentos epistemológicos importantes, propondo uma nova perspectiva que o autor chama de pesquisa-ação existencial/integral, fazendo uso da escuta sensível, da idéia de pesquisador coletivo, da complexidade. Contribui com a elucidação do método em pesquisa-ação, dentro da perspectiva em que se posiciona.

O texto coloca-se no escopo desta série, no sentido de contribuir para o desenvolvimento de atitudes e formas de ação investigativas na área educacional, que tragam para essa área contribuições consistentes. Nesse sentido, muitas perspectivas no trato da pesquisa ainda serão desenvolvidas nos próximos textos, oferecendo um leque de possibilidades formativas aos que desejarem conviver com a pesquisa educacional, quer como autor-produtor, quer como autor-consumidor.

Bernardete Angelina Gatti - Coordenadora da Série Pesquisa


PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA
O século 20 assistiu à institucionalização definitiva da sociologia no mundo e nas suas múltiplas tendências teóricas e metodológicas. A pesquisa-ação se inscreve neste desdobramento histórico da sociologia tendo, por um lado, como preocupação, a revolução epistemológica e por outro a eficácia política e social.

A dimensão do transtorno epistemológico não foi de imediato percebida pelos sociólogos. Eles avaliaram, durante um longo tempo, a pesquisa-ação como uma corrente secundária dentro da sua área disciplinar. A pesquisa-ação parecia muito próxima da psicossociologia, distanciando-se assim da suposta "pureza" das obras dos grandes fundadores como Durkheim, Marx ou Max Weber. Os franceses, particularmente, possuem o gosto pela reflexão teórica e depreciam o mergulho na pesquisa de campo. Numerosas obras de apresentação da sociologia, ainda hoje, não mencionam a pesquisa-ação. Se o Manuel des sciences sociales de Madeleine Grawitz (Dunod) oferece-lhe um lugar privilegiado, outros como Méthodes en Sociologie (PUF) de Raymond Boudon ignoram-na totalmente. Inútil, ainda hoje, procurar esta orientação teórica nos cursos atuais (2002) de sociologia da educação (nas licenciaturas em ciências da educação) nas universidades francesas. Ora, sabe-se que existem inúmeras experiências de inovação pedagógica nas escolas, nos colégios e nas universidades que se prestam à abordagem da pesquisa-ação, sem contar projetos realizados no campo do trabalho social. Regra geral, somente entre os psicossociólogos encontramos uma maior difusão desta metodologia, o que viemos a confirmar recentemente na publicação da Revue lnternationale de Psychosociologie que consagrou uma edição à pesquisa-ação.

Eu comecei a desenvolver a pesquisa-ação pedagógica no início dos anos 70. Na época, meu diretor de tese Jean­Claude Passeron, não tendo grande inclinação para trabalhar seguindo a metodologia da pesquisa-ação, teve a inteligência de me confiar um contrato de pesquisa que o Ofício Franco­Alemão da Juventude havia negociado com ele. Dentro dos quadros daquela grande organização binacional, eu realizei meus principais trabalhos de pesquisa-ação durante 20 anos. Foi mediante a ação mesmo que eu descobri, pouco a pouco, a que ponto a pesquisa-ação impunha uma outra visão das ciências humanas e da sociedade.

A pesquisa-ação obriga o pesquisador de implicar-se. Ele percebe como está implicado pela estrutura social na qual ele está inserido e pelo jogo de desejos e de interesses de outros. Ele também implica os outros por meio do seu olhar e de sua ação singular no mundo. Ele compreende, então, que as ciências humanas são, essencialmente, ciências de interações entre sujeito e objeto de pesquisa. O pesquisador realiza que sua própria vida social e afetiva está presente na sua pesquisa sociológica e que o imprevisto está no coração da sua prática. Mais e mais ele percebe que as metodologias tradicionais em ciências sociais devem ser retomadas, desenvolvidas e reinventadas sem cessar no âmbito da pesquisa-ação. Esta não exclui os sujeitos-atores da pesquisa. O pesquisador descobre que na pesquisa-ação, que eu denomino pesquisa-ação existencial, não se trabalha sobre os outros, mas e sempre com os outros. Ele não apresenta sozinho seu relatório de pesquisa ao solicitante da pesquisa (laboratório de pesquisa, órgão público etc), sem antes o ter apresentado ao seu grupo de pesquisa de campo, principal interessado. Quando possível, ele o redige coletivamente.

O trabalho de implicação do pesquisador em ação o conduz, inelutavelmente, a reconhecer sua parte fundamental na vida afetiva e imaginária de cada um na sociedade. Ele descobre todos os reflexos míticos e poéticos, assim como o sentido do sagrado freqüentemente dissimulado nas atividades mais banais e cotidianas. Para emprestar sentido às formas de socialidade encontradas e para partilhá-las e discuti-Ias, ele precisa reinventar uma outra sociologia da ação que não exclui o que Michel Maffesoli denomina a razão sensível. Este é o motivo pelo qual eu acredito que a pesquisa-ação é a metodologia específica de uma teoria mais abrangente que eu nomeio como Abordagem transversal, a escuta sensível em ciências humanas (paris: Anthropos, 1997).

A abordagem transversal reconhece a importância primordial do imaginário tridimensional (pulsional, social e sacra!) que ultrapassa as categorias classificatórias habituais em ciências humanas. Dentro da perspectiva da complexidade, tão cara a Edgar Morin, ela desenvolve uma teoria da escuta-ação deste imaginário nos planos científico, filosófico e poético. A abordagem transversal inventa instrumentos concretos de pesquisa como a observação participante existencial e o jornal de itinerância. Ela requer do pesquisador ser mais que um especialista: por meio da abertura concreta sobre a vida social, política, afetiva, imaginária e espiritual, ela faz um convite para que ele seja verdadeiramente, e talvez, tão simplesmente, um ser humano (Krishnamurti, Le courrier du livre, 2000).


René Barbier - Paris, maio de 2002.
INTRODUÇÃO
Há mais de cinqüenta anos, surgiu uma abordagem específica em Ciências Sociais, denominada pesquisa­ação, e foi desenvolvida no mundo, notadamente a partir dos Estados Unidos. Em 1986, por ocasião de um colóquio no Institut National de Recherche Pédagogique (INRP), os pesev.Iisadores partiram da seguinte definição: "Trata-se de pesquisas nas quais há uma ação deliberada de transformação da realidade; pesquisas que possuem um duplo objetivo: transformar a realidade e produzir conhecimentos relativos a essas transformações" (Hugon, Seibel, 1988, p. 13). Uma concepção clássica da pesquisa­ação consiste em pensar que essa nova metodologia somente é um prolongamento da pesquisa tradicional em Ciências Sociais.

Uma outra concepção, mais radical, dá lugar a uma revolução epistemológica ainda a ser amplamente explorada.

O objetivo desta obra visa mostrar a pertinência dessa segunda perspectiva. A pesquisa-ação não é uma simples transfiguração metodológica da sociologia clássica. Ao contrário, ela expressa uma verdadeira transformação da maneira de conceber e de fazer pesquisa em Ciências Humanas.

Veremos que, ao enveredar por esse caminho, a pesquisa-ação conduz a uma nova postura e a uma nova inscrição do pesquisador na sociedade, pelo reconhecimento de uma competência em busca de técnicos do social. Nessa perspectiva, a pesquisa-ação toma-se existencial e passa a perguntar sobre o lugar do homem na natureza e sobre a ação organizada para dar-lhe um sentido. Ela se define, então, em sua relação com a complexidade da vida humana, tomada em sua totalidade dinâmica, e não mais se justifica diante da relação do desconhecido que lhe revela a finitude de toda existência. A pesquisa-ação pode se afirmar, nesse extremo, como transpessoal e ir além, ao mesmo tempo que as integra, das especificidades teóricas das Ciências Antropossociais e dos diferentes sistemas de sensibilidades e de inteligibilidades propostos pelas culturas do mundo. Entrar numa pesquisa-ação sob essa perspectiva obriga­nos a percorrer diversos campos de conhecimento e a falar uma linguagem científica dotada de um certo poliglotismo. A abordagem multirreferencial dos acontecimentos, das situações e das práticas individuais e sociais (Ardoino, Barbier, 1993) constitui a maior referência a isso.

O pesquisador em pesquisa-ação não pode mais se definir simplesmente como "sociólogo" ou "psicossociólogo". Sua competência múltipla ultrapassa consideravelmente esse tipo de classificação monodisciplinar ligada a um pensamento chamado de aristotélico por Kurt Lewin (1972). No decorrer de sua prática, ele é às vezes sociólogo, ou psicossociólogo, ou filósofo, ou psicólogo, ou historiador, ou economista, ou inventor, ou militante, etc. Ele descobre as áreas do conhecimento de um pensamento galileano aceito em sua plenitude significante.

O pesquisador desempenha, então, seu papel profissional numa dialética que articula constantemente a implicação e o distanciamento, a afetividade e a racionalidade, o simbólico e o imaginário, a mediação e o desafio, a autoformação e a heteroformação, a ciência e a arte.

O pesquisador em pesquisa-ação não é nem um agente de uma instituição, nem um ator de uma organização, nem um indivíduo sem atribuição social; ao contrário, ele aceita eventualmente esses diferentes papéis em certos momentos de sua ação e de sua reflexão. Ele é antes de tudo um sujeito autônomo e, mais ainda, um autor de sua prática e de seu discurso. O processo de autorização ­tomar-se seu próprio autor - segundo Jacques Ardoino (1977) leva-o juntamente com outros a formarem, na incompletude, um grupo-sujeito no qual interagem os conflitos e os imprevistos da vida democrática.

Nisso, a pesquisa-ação é eminentemente pedagógica e política. Ela serve à educação do homem cidadão preocupado em organizar a existência coletiva da cidade. Ela pertence por excelência à categoria da formação, quer dizer, a um processo de criação de formas simbólicas interiorizadas, estimulado pelo sentido do desenvolvimento do potencial humano.

Temos certeza de que podemos fazer com que os estudantes do primeiro e do segundo ciclos de Ciências Sociais, bem como os nossos colegas preocupados com uma abertura interdisciplinar, compreendam nossa concepção radical da pesquisa-ação nas páginas que se seguem.
As novas ciências antropossociais
Se não se espera, não se encontrará o inesperado, que é impenetrável e inacessível.

Heráclito de Éfeso


Hoje os pesquisadores em Ciências Humanas e Sociais percebem os limites cada vez mais evidentes da cientificidade tradicional de suas disciplinas, desde o momento em que eles estudam os problemas cruciais da sociedade atual. Talvez esses limites tenham a ver com a maneira pela qual os filósofos do Ocidente, como Hegel, quiseram ignorar a inteligibilidade da relação com o mundo dos demais povos, particularmente dos do Sul. Nessa perspectiva, é provável que nossa cientificidade esteja fundada sobre o desequilíbrio do funcionamento, como a sinergia dos dois hemisférios do cérebro, como afirma Rachei Desrosiers-Sabbath, a partir de suas pesquisas sobre criatividade que suscitam um outro tipo de aprendizagem. Paul Watzlawick (1986) tem razão em novamente conceder um lugar essencial ao hemisfério direito que assegura a percepção holística dos elementos na comunicação terapêutica. Tobie Nathan, em Etnopsiquiatria, propõe - como ponto de partida­a loucura dos outros para tratar o conjunto de dados das relações interculturais em nossa sociedade (1986). Na verdade, todos os cientistas, formados à moda ocidental, deveriam praticar uma arte expressiva para permanecer abertos ao mundo. Não será Jean-Pierre Changeux que vai nos contradizer já que nos propôs uma reflexão recente, de alcance filosófico, sobre a criação em Raison et plaisir (1994).

Após um sem-número de pesquisas, em Sociologia, em História, em Economia ou em Psicologia, empreendidas com vivacidade e eficácia e freqüentemente com meios não negligenciáveis nos grandes laboratórios, os problemas permanecem ainda obscuros, alienando as pessoas e os grupos neles envolvidos com tanta força ainda, que se pensava poder, enfim, dispor de uma solução com conhecimento de causa. O que nos dizem, na verdade, as Ciências Antropossociais tradicionais sobre a "exclusão" social e o fracasso escolar, sobre a relação pedagógica em sua dimensão afetiva, sobre a emoção ligada à sexualidade ou sobre as dificuldades de entendimento entre pais e filhos? Em que elas prevêem, mesmo sem muita nitidez, a evolução das tensões sociais? Elas não são nem mais, nem tampouco menos eficazes do que as ciências ditas "duras" que se chocam contra o lado imprevisível das catástrofes naturais, como os terremotos, por exemplo, (Califórnia, janeiro de 1994), ou que não sabem o que é "cientificamente" o fogo, os segredos da vida de uma árvore ou a natureza essencial da água.

Diante dessa constatação desenganada da ação pouco eficaz das ciências do homem e da sociedade, muitos pesquisadores sensibilizaram-se e reconsideraram sua maneira de explorar a realidade psicológica e social. Estou impressionado com o espírito do que eu chamarei as "novas ciências antropossociais" que tendem a reconhecer um lugar cada vez mais importante à sensibilidade da ação humana (Barbier, 1994). Não se pode ignorar a sensibilidade, enquanto fato social. Ela está inserida na evolução das relações sociais contemporâneas que desvalorizam a violência privada (vingança, crueldade e código de honra das sociedades arcaicas) e supervalorizam o poder do Estado e o imaginário da insegurança, como o demonstraram Norbert Elias em La civilisation des moeurs, na história das mentalidades, ou Gilles Lipovetsky em L' ere du vide, apoiando-se nas teses de Pierre Clastres.

Já há muito tempo, uma primeira corrente em Ciências Sociais havia se distanciado da Sociologia clássica de tendência francamente positivista, propondo uma sociologia do acontecimento ou da cotidianidade, uma sociologia e uma antropologia do sentido simbólico da vida, uma sociologia da socialidade, na qual a dimensão dionisíaca da vida coletiva não esteja excluída da pesquisa. Reconhecem-se aí os trabalhos realizados pelas equipes de Edgar Morin, de Henri Lefebvre, de Gilbert Durand, de Roger Bastide, de Georges Balandier, de Georges Lapassade, de Jean Duvignaud ou de Michel Maffesoli, sem contar os de todos os etnólogos que seguiram sem restrições esse rumo - as obras da coleção "Terre Humaine" de Jean Malaurie, editadas pela Plon. O etnólogo Pascal Dibie, por exemplo, propôs uma interessante pesquisa sobre a etnologia do quarto de donnir (1987). A filosofia e a história das religiões desempenharam igualmente um papel nada desprezível graças às correntes fenomenológicas (Henri Corbin, Mircea Eliade, Rudolphe Otto). Mais recentemente sociólogos, como Vincent de Gaulejac e Shirley Roy, não hesitàram em desenvolver um pólo de "sociologia clínica", em âmbito mundial, a partir de pesquisas implicadas (1993). Georges Bertin, Jean­Marie Brohm, Louis Vincent Thomas abrem a Antropologia para o corpo, para a morte, para o imaginário, para o sagrado. Outros, seguindo a corrente de Oscar Lewis e de Franco Ferrarotti, sempre mais chegados à pedagogia, à ecoformação e à formação experiencial dos adultos ou do trabalho social, fizeram literalmente emergir um campo de pesquisa fecundo em tomo das "histórias de vida" (Daniel Bertaux, Guy Bonvallot, Maurizio Catani, Dominique Cottereau, Bemadette Courtois, Pierre Dominicé, Pascal Galvani, Christine Josso, Jean-Louis Le Grand, Guy de Villers, Gaston Pineau). Eles prolongam, com isso, a teoria da implicação, há muito tempo preconizada e teorizada não só pelos teóricos da análise institucional ou da pesquisa-ação (René Barbier, Michel Bataille, Patrick Boumard, Henri Desroche, Jean Dubost, Matthias Finger, Jacques Guigou, Rémi Hess, René'Lourau, Antoine Savoye, Patrice Ville, e pelos canadenses Jacques Grand'Maison, Gabriel Goyette e Michelle Lessard-Hébert, André Morin, Anne-Marie Thirion ou pelos americanos Gerard I. Susman e Roger Evered, etc.) como também pelos "companheiros de estrada", mais "psicossociólogos" (Jacques Ardoino, Jacky Beillerot, Eugene Enriquez, Florence Giust-Desprairies, Michel Lobrot, André Lévy, Gérard Mendel, Max Pages). Outros sociólogos parecem igualmente aderir ao reconhecimento do sensível em suas abordagens (Jean-Pierre Pourtois ou Régine Sirota).

De minha parte, estou convencido do caráter total­mente indispensável desse tipo de pesquisa desde minhas pri­meiras pesquisas-ações para o Office Franco-Allemand pour Ia Jeunesse, com Max Pages, nos meados dos anos 70. Mas, como eu já o havia pressentido - durante esses anos de parti­cipação ativa numa comunidade de trabalho na Bretanha, fun­dada por Bemard Besret e por cristãos contestadores, ambien­te onde eu intervinha com a fúria de um sociólogo agnóstico dos anos 70 - essa concepção de sociologia clínica deixa um pouco no escuro a parte do homo religiosus (Mircea Eliade), a da "vida simbólica" (Carl Gustav Jung) e ipso facto uma gran­de parte de uma necessária "abordagem multirreferencial" (Jacques Ardoino) cujas fronteiras ainda bastante desconhe­cidas ampliei a partir daí (Barbier, 1992). Com essa abertura polifônica, uma sociologia clínica abre-se, então, para uma ver­dadeira sensibilização na abordagem mitopoética da vida coti­diana. Sem caírem num misticismo fora dos caminhos científi­cos, teóricos como Edgar Morin ou, mais recentemente, Henri
Desroche, com sua revista Anamnese, Michel Maffesoli, com sua revista Sociétés, ou ainda Jean-Marie Brohm e Louis Vincent Thomas, com seu Galaxie anthropologique, não hesitam em sustentar a necessidade dessa "brecha" na pesquisa em Ciên­cias Antropossociais.
CAPÍTULO 1

HISTÓRICO DA PESQUISA-AÇÃO


À força de lembrar o essencial em nome do urgente, acaba-se por esquecer a urgência do essencial.

Edgar Morin


É difícil compreender os desdobramentos atuais da pesquisa-ação sem voltar a seus fundamentos históricos (Hess, 1983). Sem se prender excessivamente à fase inicial da pesquisa-ação, destacam-se, em função de seu processo de radicalização epistemológica, dois períodos:

1) o período - mais americano - de emergência e de consolidação entre os anos que precedem a Segunda Guerra Mundial e os anos 60;



2) o período de radicalização política e existencial, mais europeu e canadense, desde o final dos anos 60 até nossos dias.
1. O período de emergência e de consolidação
Como toda disciplina científica, a pesquisa-ação não nasce espontaneamente. Ela tem suas raízes num passado mais ou menos distante.

Seria preciso, sem dúvida, desenterrar as raízes nos métodos de investigação propostos pelos pesquisadores em Ciências Sociais do século 19 e do primeiro quartel do século 20. Penso na obra L' enquete ouvriere, de Karl Marx, que, em seu tempo, incitava os operários das fábricas a refletirem sobre suas condições de vida, respondendo a uma sondagem, concebida como um instrumento militante, por meio de um questionário. Penso ainda nas monografias sobre os orçamentos familiares dos operários europeus de Frédéric Le Play, as quais inauguravam os primeiros esboços de uma sociologia qualitativa. Na Europa e, mais particularmente, na França, foi a escola sociológica de Émile Durkheim que triunfou, eclipsando os le playsianos e seus seguidores que trabalhavam em monografias, como o demonstraram com muita propriedade Antoine Savoye e Bemard Kalaora. A partir daí, os fatos sociais serão considerados como objetos, e as estatísticas tornar-se-ão o auxiliar indispensável de toda investigação sociológica. Em verdade, na Alemanha não ocorreu o mesmo graças à influência de uma forte tendência filosófica em Ciências Sociais. Autores como Wilhelm Dilthey, Georg Simmel, Ferdinand Tonnies, Alfred Vierkandt ou Max Weber mantiveram firme a necessidade de compreender as situações sociais antes de explicá-Ias. Nos Estados Unidos, a Escola de Chicago, em concorrência com as universidades de Nova York e da FIladélfia, vai desenvolver uma linha de pesquisa original e implicacional relacionada com os problemas sociais urbanos da primeira metade do nosso século (Coulon, 1991). A industrialização massiva e a migração demográfica de pessoas, provindas do exterior ou do Sul em direção às cidades do Norte, com seu séquito de delinqüência juvenil e de problemas de sociabilidade, suscitam uma demanda social de Ciências Humanas eficazes, produzidas por técnicos sociais (social workers) os quais, cada vez mais, formar-se-ão nas universidades. Inspirados pela Escola de Chicago, os Chicago Area Projects fazem com que as pessoas do bairro participem da realização do programa de ajuda social. Assim, os sociólogos de campo identificam os moradores dotados de liderança na comunidade e formam pessoal qualificado. O ideal é recrutar autóctones como trabalhadores sociais voluntários, mesmo se a formação qualificante recebida venha a constituir com o tempo (ou após muito tempo) um grupo profissional cada vez menos proveniente desse bairro. Um dos métodos inventados em Chicago nessa época - as lifes stories - ressurgirá nos anos 50-60 sob a forma de "história de vida" em Ciências Sociais, tanto nos Estados Unidos (Oscar Lewis) quanto na Europa, após o declínio do empirismo abstrato (os "questionários de opinião") e do reino da "suprema teoria" de Talcott Parsons, como o incitava Charles Wright Mills em 1969. O período entre-guerras assiste, igualmente nos Estados Unidos, ao aparecimento de uma corrente de Psicologia Industrial, chamada "human relations", de Elton Mayo a Roethlisberger que prepara o terreno para uma participação mais ativa dos membros de uma organização. Na França ou na Suíça, emerge - não antes dos anos 70 - uma corrente de "história de vida" no CNRS, com Daniel Bertaux, e em formação de adultos nas universidades, com Pierre Dominicé, Christine Josso ou Gaston Pineau. Na Alemanha, a pesquisa-ação será mais política e, na Inglaterra, ela se abrirá cada vez mais para os técnicos, redefinindo assim a especificidade desse tipo de pesquisa.

Costuma-se geralmente sustentar que a pesquisa­ação teve origem com Kurt Lewin, psicólogo de origem alemã, naturalizado americano, durante a provação da Segunda Guerra Mundial. Alguns pensam, entretanto, que John Dewey e o movimento da Escola Nova, após a Primeira Guerra Mundial, constituíram um primeiro tipo de pesquisa-ação pelo ideal democrático, pelo pragma­tismo e pela insistência no hábito do conhecimento científico tanto nos educadores como nos educandos (Thirion, 1980). Georges Lapassade atribui a criação do termo pesquisa-ação ao antropólogo John Collier que propôs que as descobertas de tipo etnológico, feitas nos EUA sobre os indígenas das reservas, fossem utilizadas no benefício de uma política favorável a estes (Lapassade, 1991, p. 143).

Retomemos a Kurt Lewin. Personagem surpre­endente, imaginativo e caloroso, esse professor da Universidade de Berlim, especialista em Psicologia Gestalt, fugindo do nazismo desde 1933, chegou aos Estados Unidos onde adotaria a nacionalidade e a mentalidade coletiva. Lewin vai desenvolver a Action-Research, tentando resolver problemas levantados pelo anti­semitismo, pela implantação de usinas nas regiões rurais com uma mão-de-obra pouco afeita ao ritmo de trabalho das cidades do norte, como a de Harwoorl Manufacturing Corporation em 1939.

Cita-se, com muita freqüência, a célebre pesquisa de Kurt Lewin (1965), no tempo de penúria da Segunda Guerra Mundial, durante a qual o governo americano havia envidado esforços para tentar convencer as donas-de-­casa americanas a se abastecerem de pedaços de carne de baixo preço (coração de boi, testículos, tripas), tradicionalmente pouco apreciados por esse tipo de público. A explicação psicossociológica e sociocultura1 da inibição alimentar que resulta da pesquisa não permite conhecer as razões talvez mais inconscientes, em termos de fantasmatização sexual, como bem o observou Didier Anzieu. Mas ela permitiu à pesquisa-ação apoiar-se na ação dos grupos e na necessidade de fazer com que as pessoas participem na sua própria mudança de atitude ou de comportamento num sistema interativo. Como afirmava Kurt Lewin:Quando nós falamos de pesquisa, subentendemos Action­Research, quer dizer, uma ação em um nível realista sempre seguida por uma reflexão autocrítica objetiva e uma avaliação dos resultados. Uma vez que o nosso objetivo é aprender rapidamente, nunca teremos medo de enfrentar nossas deficiências. Não queremos ação sem pesquisa, nem pesquisa sem ação (citado por Marrow, 1972). Do mesmo modo, com sua equipe do Bureau des Services Stratégiques (OSS), ele critica as questões do moral das populações nas nações inimigas e nos Estados Unidos, nas técnicas de guerra psicológica, no tipo de comando eficaz...

Desde 1946, um pouco antes de sua morte (1947), Kurt Lewin descobre a importância do Training Group por ocasião de um trabalho de treinamento na mudança pessoal.

A morte prematura de Kurt Lewin interrompe seus trabalhos, que serão retomados pelos seus alunos e por outros pesquisadores. Os estudos de Action-Research multiplicam-se depois da guerra. Na esfera industrial, eles se voltam para as decisões do grupo, a auto-organização, a formação dos quadros, a modificação dos estereótipos, a resistência à mudança. A pesquisa-ação se abre para o trabalho social, restabelecendo desse modo com os trabalhos da Escola de Chicago, pelo exame do comportamento dos bandos de adolescentes, a influência das leis sobre a mudança social (numerus clausus nas universidades em relação aos judeus), a integração dos vendedores negros, a solidariedade de grupo, a integração nos prédios residenciais. Podem ser enumerados, portanto, quatro tipos de Action-Research:

1) A Action-Research diagnóstica - visa produzir planos de ação encomendados. A equipe de pesquisadores intervém numa situação existente (motim racial, ato de vandalismo), estabelece um diagnóstico e recomenda medidas saneadoras.

2) A Action-Research participativa - envolve, desde o início, no processo da pesquisa, os membros da comunidade em perigo (estudo de Northtown, perto de Nova York, sobre o auto-exame das atitudes discriminatórias de uma comunidade de 40 mil habitantes em 1948).

3) A Action-Research empírica - consiste em acumular os dados das experiências de um trabalho cotidiano nos grupos sociais semelhantes (por exemplo, clubes de jovens rapazes). Esse tipo de pesquisa vai levar ao desenvolvimento gradual de princípios mais gerais, como já o demonstrou a medicina clínica.

4) A Action-Research experimental - exige um estudo controlado da eficácia relativa das diferentes técnicas utilizadas em situações sociais aproximadamente idênticas.

Se Kurt Lewin dava habitualmente ênfase ao pólo "pesquisa" na sua concepção, pouco a pouco, o pólo "ação" tomar-se-á mais importante.

A pesquisa-ação orienta-se para uma participação crescente das populações envolvidas. Passa-se de pesquisador a interventor e a agente da mudança com a corrente praxiológica do "planned change" (Bennis, Chen, Benne). Jacques Ardoino (1989) lembra as diferentes perspectivas da pesquisa-ação no decorrer de seu desenvolvimento:

- Uma perspectiva axiológica, visando amenizar o sofrimento humano, ao trabalhar as disfunções sociais e ao privilegiar as formas de gestão democrática.

- Uma perspectiva praxiológica que otimiza a ação e facilita a decisão.

- Uma perspectiva metodológica, dividida entre uma clínica de situações sociais, ainda em estado inicial, e uma opção francamente experimentalista.

- Uma perspectiva epistemológica que, já em Kurt Lewin, propõe uma teoria do campo e do contexto e uma oposição entre um modo de pensamento aristotélico e um modo de pensamento galileano.

No pós-guerra, a pesquisa-ação vai ser disseminada no Japão (J. Misumi); na Inglaterra (Tavistock Institute com ElliottJaques e a socioanálise na Glacier Metal, Jaques, 1972), F. Emery, H. Bridger, E. Trist; na Alemanha (Heinz Moser, Otto Lüdemann); na França (ANDSHA, ARIP), Jacques Ardoino, Jean Dubost, E. Enriquez, André Lévy, M. Pages, J. C. Rouchy. Mas é no Canadá, na Inglaterra e na França, a partir dos anos 70, que se acentua a tendência mais radical.
2. O período de radicalização política e existencial

Numerosas obras descrevem a história, os fundamentos e a metodologia da pesquisa-ação. Ao lê­Ias, podemos crer que esta corresponde a um mosaico de abordagens mais ou menos reproduzi das dos procedimentos científicos clássicos. Se for verdadeiro que a pesquisa-ação pode ser aparentemente conciliada, enquanto simples pesquisa empírica, com os métodos de pesquisa tradicional, o mesmo não ocorre quando é posta no plano da reflexão epistemológica. A pesquisa-ação supõe uma conversão epistemológica, isto é, uma mudança de atitude da postura acadêmica do pesquisador em Ciências Humanas. Quando a pesquisa-ação se toma cada vez mais radical, essa mudança resulta de uma transformação da atitude filosófica do pesquisador envolvido com respeito à sua própria relação com o mundo. Talvez se deixe penetrar pela pergunta do poeta Yves Bonnefoy: "é o conceito o artesão de uma fuga?" É o caso nas pesquisas-ações existenciais quando elas não se limitam a ser modismos. Aposto que essa abertura revolucionária em direção a uma pesquisa-ação integral está ainda em seus primórdios e conduzirá, na próxima década, a uma pesquisa-ação transpessoal, ao mesmo tempo eminentemente pessoal e comunitária, reunindo os três pólos integrados do ser humano (corpo, alma e espírito: o imaginário pulsional, o imaginário social e o imaginário sacral). [Nota: 1]

Muitos estudantes tratam uma pesquisa sob o ponto de vista de uma simples interpretação metodológica, um novo gadget [Nota: 2] científico, acreditando que "fazer pesquisa­ação" é estar na moda. Às vezes, eles hesitam entre o método de história de vida e a pesquisa-ação e fazem sua escolha em função de inclinações preferentemente imaginárias. Eles não se dão conta de que, tanto para a pesquisa-ação quanto para a história de vida, trata-se de lançar um outro olhar sobre a cientificidade das ciências do homem e da sociedade. O pesquisador não deve fazer irrefletidamente sua escolha, porque há riscos institucionais e pessoais, caso siga esse caminho:

- Riscos institucionais para aqueles que se preocupam com a carreira acadêmica. Ainda atualmente a pesquisa-ação está longe de ser o melhor caminho para ser rapidamente bem-sucedido no mundo acadêmico. Eu sempre recomendo aos estudantes pouco arrojados trilharem caminhos mais clássicos e seguirem uma via monodisciplinar bem balizada por uma autoridade intelectualmente irrepreensível no universo da comunidade científica. A pesquisa-ação não convém nem aos "mornos", nem aos aloprados, nem aos espíritos formalistas, nem aos estudantes preguiçosos.

- Riscos pessoais porque a pesquisa-ação, na sua intersubjectividade, leva inevitavelmente o pesquisador para regiões de si mesmo que ele, sem dúvida, não tinha vontade de explorar.

Veremos, nesta obra, os resultados desse tipo de problemática.

Somente nos anos 70 é que a retlexão sobre a natureza mesma da pesquisa-ação deu uma guinada mais radical.

Na Alemanha, com Heinz Moser (1975, 1977), a pesquisa-ação toma-se nitidamente mais engajada e "emancipatória" numa perspectiva de uma filosofia próxima à Escola de Frankfurt - de Jürgen Habermas em particular (Dubost, Lüdemann, 1977). O problema da pesquisa-ação não é uma nova lógica de pesquisa a conquistar, mas a de uma nova estratégia que se distancia da pesquisa experimental porque esta contém intrinsecamente uma lógica artificial quanto à realidade dotada de vida.

Na França, na mesma época, procuro levantar um conjunto de questões na mesma direção, propondo a teoria da pesquisa-ação institucional numa linha teórica que articula a sociologia de Pierre Bourdieu e de Jean-Claude Passeron, a pesquisa-ação lewiniana e a psicossociologia francesa, a teoria marxista minoritária de Henri Lefebvre, de Comelius Castoriadis, de Lucien Goldmann e a teoria da análise institucional de René Lourau e de Georges Lapassade (Barbier, 1977). Resultante de uma tese de sociologia inteiramente monográfica, essa teorização permanece ainda aquém de uma abertura mais multirreferencial em Ciências Humanas a qual eu proporei quinze anos mais tarde em Approche transversale (1992, 1996).

Na Suíça, Matthias Finger (1981) fundamenta-se não só no interacionismo simbólico de Henri Blumer e nas teses de Jürgen Habermas, mas também nas proposições de Heinz Moser, para levar a reflexão epistemológica o mais longe possível no sentido de uma predominância da reflexividade coletiva (o "Diskurs") no encaminhamento da pesquisa-ação. Ele radicaliza o ponto de vista mais clássico da pesquisa-ação desenvolvida no projeto "Rapsódia" (Allal, Cardinet, Perrenoud, 1979).

Na Bélgica, os pesquisadores organizam um colóquio sobre as "Metodologias e Práticas da Pesquisa­Ação" em Bruxelas, em dezembro de 1980 (Revue..., 1981b).

Na linha da intervenção institucional, os sociólogos institucionalistas ou da cooperação e os psicossociólogos franceses (Jacques Ardoino, Patrick Boumard, Henri Desroche, André de Péretti, Jean Dubost, Eugene Enriquez, Rémi Hess, Georges Lapassade, Guy Le Boterf, André Lévy, René Lourau, Gérard Mendel, Max Pages, etc.) discutem igualmente o lugar mais ou menos marginal da pesquisa-ação no âmbito das Ciências Sociais.

Os americanos Gerard I. Susman e Roger D. Evered, desde 1978, numa perspectiva radical, formalizam sem compromissos as diferenças essenciais entre as ciências positivas e a pesquisa-ação. Já desde 1965, com I. L. Horowitz e o movimento dos "radical caucuses", a sociologia americana radicaliza-se ao denunciar o projeto "Camelot" que propõe enviar pesquisadores em Ciências Sociais nas zonas "turbulentas" do mundo para estudar os movimentos de contestação política. Saül Alinsky desenvolve, em trabalho social, um método de intervenção eficaz, como Danilo Do1ci já o havia realizado na Itália; e Alfred Mac Clung Lee, no seu Humanistic Sociology (1973), abre o caminho à sociologia de intervenção (Hess, 1981, p. 117-133). Na América Latina, a sociologia radical uniu-se ao militantismo revolucionário com Camilo Torres, Luis A. Costa Pinto, Florestan Femandes, Orlando Fals Borda, e, do mesmo modo, com a "pedagogia dos oprimidos" de Paulo Freire, em educação popular (Barbier, 1977, p. 51-58).

Por seu turno, os sociólogos britânicos, com Lawrence Stenhouse, John Eliott e Clem Adelman, propõem uma reatualização de uma "nova pesquisa­ação" por meio de seus trabalhos em etnografia da escola que Peter Woods aprofundou (1990). Nelly P. Stromquist, que trabalha no Canadá, opõe sistematicamente a sociologia clássica à pesquisa-ação. Wilfred Carr e Stephen Kemmis (1983) definem a pesquisa-ação como uma forma de pesquisa efetuada pelos técnicos a partir de sua própria prática (Lapassade, 1989). Eles fazem coro com as teses defendidas há tempo por Ruth Canter-Kohn e a problemática dos "sábios do interior" de Patrick Boumard (1989). Os anos 80 levantam a questão sobre uma pesquisa-ação existencial (Barbier, 1983), ao mesmo tempo em que ela surge com toda sua diversidade, um tanto caótica (Goyette, Lessard­Hébert, 1987; Hugon, Seibel, 1988).

No Quebec, a pesquisa-ação empreendida pelos técnicos se diz "integral" com André Morin, numa linha teórica ligada aos "sistemas abertos em tecnologia educativa" de Constantin Fotinas (1992) e de Henri Desroche. Isso não impede que outros pesquisadores do mesmo país desenvolvam pesquisas-ações muito mais "lewinianas" e experimentais (Lessard- Hébert, 1991; Revue..., 1981a).

Embora Raymond Boudon não diga uma palavra sobre a pesquisa-ação na reedição de 1976 de sua obra Les méthodes en Sociologie (coleção "Que sais-je?"), ela já parece, entretanto, entusiasmar muitos pesquisadores. Em 1993, Madeleine Grawitz consagra-lhe um longo capítulo em seu Manuel des sciences sociales (9. ed.). Em 1987, Jean Dubost (1987, p. 140), ao término de uma longa investigação, propõe uma primeira definição da pesquisa-ação: "ação deliberada visando a uma mudança no mundo real, engajada numa escala restrita, englobada por um projeto mais geral e submetendo-se a certas disciplinas para obter efeitos de conhecimento ou de sentido". Enfim, em setembro de 1995, sai um "Que sais-je ?", de Jean-Paul Resweber, pela editora PUF, que apresenta a problemática sobre a pesquisa-ação numa perspectiva global, mas sem verdadeiramente afmnar sua natureza de ruptura epistemológica com as ciências sociais instituídas.



Nota 1 – página 32:. Que está revestido de um caráter sagrado, que foi sacralizado, oposto a profano (N.T.).

Nota 2 – página 32:. Gadget, palavra americana, que significa dispositivo novo, dotado de poder mágico, capaz de resolver todos os problemas (N.T.).

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