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Barcellos, José Carlos - UFF




Julien Green: espaço autobiográfico e fé cristã



1 – Da autobiografia ao espaço autobiográfico
Nos últimos anos, o estudo da autobiografia e dos complexos problemas a ela relacionados — tais como suas relações com outros gêneros literários (romance, diário, biografia, memórias etc.), seu estatuto histórico e/ou ficcional, ou sua relevância para uma perspectivação literária da subjetividade — vem tomando um lugar cada vez mais importante no âmbito dos estudos literários. Como escreve um especialista,

La autobiografía trata de articular mundo, texto y yo, y por esta razón ocupa un lugar privilegiado, ya que en ella tenemos que vérnoslas con los temas más importantes de las humanidades hoy en día: historia, poder, yo, temporalidad, memoria, imaginación, representación, lenguaje y retórica.1

Chamam particularmente a atenção os esforços recentes que visam a situar a autobiografia no cerne mesmo do projeto literário da modernidade. Nessa perspectiva, toda a literatura moderna teria um caráter fortemente autobiográfico, que dependeria, em última análise, de uma certa hipertrofia do eu na cultura moderna.2 Curiosamente, poderíamos pensar essa hipertrofia do eu e suas manifestações literárias como resultando de um duplo e contraditório movimento de caráter religioso: por um lado, a descoberta da subjetividade no contexto da cultura cristã, muito particularmente por influência de são Paulo e santo Agostinho3; por outro, a perda de uma perspectiva comunitária de salvação, num mundo secularizado.4 Nesse contexto, a autobiografia seria um sucedâneo da confissão religiosa, da qual herdaria algumas de suas principais características, tais como ser fundamentalmente um discurso sobre a transgressão5 e, ao mesmo tempo, a busca de uma reorientação para todo um projeto da vida.6

Mais importante que esses dois aspectos, porém, é o fato de a autobiografia ser uma tentativa de apreensão do sentido global de uma existência concreta e individual precisamente na sua unicidade e irrepetibilidade. Como escreve T.R.Wright, reportando-se a James Olney,

To write an autobiography, to construct a coherent narrative out of the scattered events of one’s life, is to interpret those events as part of a significant plot with an overall meaning. In this sense, autobiography has been seen to meet the religious needs of those ‘looking for an order and meaning in life’.7
Essa construção de um sentido global para uma existência concreta e particular8, se, por um lado, depende de uma antropologia de inspiração cristã,9 por outro, só é possível na medida em que a autobiografia se aproxime da narrativa ficcional, valendo-se dos mesmos recursos literários que fazem com que, nesta, o acaso ceda lugar à necessidade, de tal sorte que uma série de acontecimentos e circunstâncias mais ou menos desconexos e aleatórios possam ser percebidos como um destino a se cumprir: por outras palavras, que o enredo revele a verdade íntima e essencial do personagem. Como escreve Philippe Derivière,

Il semble alors que le récit autobiographique se trouve confronté au même dilemme que le récit de fiction: d’un côté, il lui faut reconnaître que les épisodes de vie qu’il raconte lui sont partiellement inaccessibles parce que leur enchaînement reste inexplicable; de l’autre, il ne peut accepter cette distance entre son sujet et lui-même, au risque de devoir y renoncer. L’autobiographie doit donc inventer une histoire qui puisse combler ces lacunes, recréer un ordre capable de donner l’apparence d’une necessité, mais seulement l’apparence. Mais, dès ce moment, elle fait subir à la vie prétendument vécue, une transformation qui est celle de l’imaginaire.10


Ora, foi precisamente em função dessa semelhança estrutural entre a autobiografia e a narrativa ficcional — e, portanto, da impossibilidade de diferenciá-las em termos narratológicos — que Philippe Lejeune, o mais conhecido estudioso da literatura autobiográfica, propôs, numa primeira etapa de sua obra, o conceito de “pacto autobiográfico”, como identidade de nome entre o autor, o narrador e o protagonista.11 O pacto autobiográfico seria, assim, uma estratégia de indução ou um contrato de leitura que orientaria o leitor em relação ao estatuto do texto que ele tem em mãos, diferenciando-o, por exemplo, de um romance supostamente autobiográfico ou de uma biografia narrada em primeira pessoa e direcionando poderosamente seu ato de leitura. Por simples, ou até simplório, que possa parecer o conceito formulado por Lejeune, trata-se na verdade de uma noção bastante complexa, na qual estão imbricadas tanto uma noção de texto quanto uma noção de leitura solidamente fundamentadas.

Num segundo momento de sua obra, Lejeune avança o conceito de “espaço autobiográfico,” o qual, para nós, é de extrema importância. Partindo de afirmações de Gide e de Mauriac segundo as quais seus romances seriam mais verdadeiros e autênticos, na revelação do essencial em suas vidas, que seus próprios textos memorialísticos,12 Lejeune, num raciocínio brilhante, mostra o quanto essas afirmações são uma maneira sutil de indicar uma chave de leitura para toda a obra, numa forma indireta de pacto autobiográfico:

En effet: au moment même où en apparence Gide et Mauriac rabaissent le genre autobiographique et glorifient le roman, ils font en réalité bien autre chose qu’un parallèle scolaire plus ou moins contestable: ils désignent l’espace autobiographique dans lequel ils désirent qu’on lise l’ensemble de leur oeuvre. Loin d’être une condamnation de l’autobiographie, ces phrases souvent citées sont en réalité une forme indirecte du pacte autobiographique: elles établissent en effet de quel ordre est la vérité dernière que visent leurs textes. Dans ces jugements, le lecteur oublie trop souvent que l’autobiographie apparaît à deux niveaux: en même temps que l’un des deux termes de la comparaison, elle est le critère qui sert à la comparaison. Quelle est cette ‘vérité’ que le roman permet d’approcher mieux que l’autobiographie, sinon la vérité personnelle, individuelle, intime, de l’auteur, c’est-à-dire cela même que vise tout projet autobiographique? Si l’on peut dire, c’est en tant qu’autobiographie que le roman est décrété plus vrai.13
Ou seja, o espaço autobiográfico seria uma chave de leitura segundo a qual o conjunto de textos de um autor — incluindo-se tanto aqueles de natureza abertamente memorialística, quanto aqueles que se apresentam sob roupagem ficcional ou ensaística — poderia ser lido, através de suas mútuas imbricações e ressonâncias, em função da verdade pessoal e vivencial do autor neles (re)velada.14 Nessa perspectiva, toda a obra de um Gide ou de um Mauriac, p. ex., constituiria um grande jogo textual de caráter autobiográfico.

Para Lejeune, é preciso que haja, entre as obras de um autor, pelo menos uma autobiografia stricto sensu, para que se possa constituir um espaço autobiográfico15. Outros estudiosos, porém, ampliaram o conceito, de uma maneira que nos parece, em princípio, coerente e aceitável:

De ahí que por espacio autobiográfico entendamos un lugar de convergencia de múltiples huellas, susceptible de configurar, en relieve, ciertamente, la presencia del yo autor, causa sustancial de la escritura, al margen de toda coincidencia en relación con el nombre y, por supuesto, con la historia vivida.16
Quando se examina o panorama literário moderno, percebe-se como é freqüente o caso de autores que, assim como Gide e Mauriac, desdobraram sua produção em diversos tipos de textos ficcionais, memorialísticos e ensaísticos, numa contínua e sempre dilatada busca de revelação da verdade íntima e pessoal, busca esta “sempre sentida como inconclusa”.17 É esse inequivocamente o caso de Julien Green.

Antes, porém, de passarmos à discussão do espaço autobiográfico em Green, lembremos uma contribuição bastante significativa e oportuna dos estudos culturais — tão desenvolvidos atualmente, sobretudo nos meios acadêmicos norte-americanos — à teoria da autobiografia. Reportando-se a Shari Benstock, assim se exprime Ángel G. Loureiro:

En la autobiografía, supuestamente, el sujeto se conoce a sí mismo a través del lenguaje, el cual no es ni una herramienta al servicio de la expresión del yo ni algo exterior al sujeto, sino el mismo sistema simbólico que constituye al sujeto y que es constituido por el sujeto que escribe. Pero este lenguaje está atravesado por trazas del inconsciente, y el sujeto, aunque parapetado en el lenguaje, muestra sus divisiones internas. Serían precisamente los individuos que ocupan posiciones de marginalidad con respecto al sistema (mujeres, negros, homosexuales), los seres que ocupan una posicón de otredad, los que mostrarían más consciencia de las divisiones internas del yo (...).18


ESPAÇO AUTOBIOGRÁFICO E EXPERIÊNCIA CRISTÃ EM JULIEN GREEN _________________________________________________________________________________________________________

Não há dúvida de que essa é uma achega importante para compreendermos melhor o espaço autobiográfico em autores como Gide, Proust ou Green. Evidentemente, a linguagem não é um instrumento neutro nem translúcido de aproximação à subjetividade, mas o próprio lugar em que esta se constitui. Eis por que o impulso autobiográfico é menos uma tentativa de descrição que um esforço de construção da subjetividade, pari passu à construção de um sentido para a vida, vale dizer, de um destino. E esse processo de construção se evidenciaria mais claramente naqueles indivíduos que, de uma forma ou de outra, se encontram à margem dos sistemas sócio-culturais de poder.

Partindo de pressupostos teóricos completamente diferentes, Georges Gusdorf chega também a conclusões que convergem para essa visão da autobiografia como contrução e não representação do eu:

Les écritures du moi, dans la variété de leurs formes, n’ont pas pour intention de présenter l’homme tel qu’il est, selon les principes d’une sorte de psychologie clinique; elles tendent à le constituer, ou à le reconstituer à sa propre ressemblance, selon la vocation des valeurs religieuses, éthiques ou esthétiques fondatrices de son être authentique. Le rédacteur ne se voit pas sur le mode indicatif, mais selon le mode de l’optatif ou de l’inchoatif. 19
Assim, o que se torna manifesto na autobiografia é o delinear de um projeto de vida, mais ou menos logrado ou frustrado, a partir de determinados vetores axiológicos bastante precisos. A busca do eu é, ao mesmo tempo, uma interpretação do mundo e uma profissão de fé em um sistema de valores, em que ambos os processos se mostram interdependentes. Nessa perspectiva, a escrita teria uma dupla função, ontológica e epistemológica:

Función ontológica, en la que un ser de ficción y de palabra se crea, en la epifanía de una realidad simbólica. (No es el leguaje el que me crea, soy yo, con mi totalidad consciente e inconsciente, el que me creo en el lenguaje).

Función epistemológica, en la que un ser de ficción y de palabra significa el mundo, en la epifanía de esa misma realidad simbólica. (El código no significa el mundo; el código me permite — y me impide — significarlo).20
2- O espaço autobiográfico em Julien Green
Para situarmos com clareza a obra de Green enquanto espaço autobiográfico, é preciso esboçar um rápido panorama de sua produção literária, que se inicia em 1920, com a publicação do conto “The Apprentice Psychiatrist”na University of Virginia Magazine, e vai até l998, ano de sua morte, com o volume de ensaios Jeunesse immortelle. Nesse mesmo ano, aliás, vem também a lume o Album Green, elaborado em parceria com seu filho Jean-Éric, para a Bibliothèque de la Pléiade.

Poderíamos agrupar a produção greeniana em quatro grandes blocos: textos narrativos (romances, novelas, contos, poema em prosa), memorialísticos (diário, autobiografia, correspondência), dramáticos (peças teatrais, roteiros) e ensaísticos (ensaios, artigos, discursos, conferências, biografia), além de algumas traduções. O eixo central de sua obra, porém, é constituído por dezessete romances22, dezoito volumes do Journal23 e Jeunes Années, sua autobiografia:24 mais que dramaturgo ou ensaísta, Green é sobretudo um romancista e um memorialista.

Uma rápida comparação de datas mostra que nosso autor veio publicando, paralelamente, romances e volumes do Journal, desde os anos 20/30 até os anos 90. Curiosamente, porém, suspende a publicação de romances por um período de onze anos, desde Chaque homme dans sa nuit, de 1960, até L’Autre, de 197l, e é exatamente nessa década que se dedica à redação de sua autobiografia. Essa coincidência de datas, com a suspensão dos romances em prol da autobiografia, aponta para aspectos bastante profundos da obra de Green. Com efeito, se esta apresenta os romances e o diário como seu eixo central, o que é a autobiografia senão a técnica do romance aplicada à matéria do diário?25 Não é de estranhar, pois, que Jeunes Années seja incontestavelmente a obra-prima de Julien Green, já que é a síntese de toda a sua produção e o foco para o qual toda ela tendeu desde seus primórdios, como vamos ver.

Esse raciocínio se confirma, por outro lado, se examinarmos a temática de Jeunes Années e a confrontarmos com a linha evolutiva dos romances. Na autobiografia de Green, o centro da narrativa está na questão do conflito entre sua fé cristã e as dificuldades de ordem afetiva e sexual que ele experimentou, desde sua estada na Universidade da Virgínia, no período de 1919 a 1922, até o encontro com Robert de Saint-Jean, em 1924. Ora, se examinarmos a seqüência dos romances até 1960, veremos que há uma nítida progressão na explicitação e no aprofundamento dessa mesma problemática.26 Em Adrienne Mesurat e Léviathan, o sufocamento da vida afetiva leva os personagens centrais, Adrienne e Guéret, respectivamente, à loucura e ao crime. Em Épaves, temos o drama do amor não correspondido de Eliane por Philippe, marido de sua irmã. Em Moïra, o drama do cristão puritano, que rejeita a sexualidade como pecado e que, confrontado com a violência de seus próprios desejos, acaba matando a moça que os inspira e provoca. Em Le Malfaiteur, Jean, agregado de uma família burguesa ciosa de respeitabilidade, vive uma vida dupla, vagando pelas noites de Lyon, em busca de encontros homossexuais fortuitos, sob constantes ameaças de violência física e de chantagens. Em Chaque homme dans sa nuit, por sua vez, coloca-se com vigor o problema teológico do cristão que, a despeito da sinceridade de sua fé, não consegue viver segundo os preceitos da Igreja: Wilfred é um rapaz católico, profundamente convicto de sua fé, mas que, movido por uma sexualidade imperiosa, freqüenta assiduamente os bordéis de Nova York.

Como se vê nesse rápido bosquejo, há uma clara progressão temática desde Adrienne Mesurat e Léviathan até Le Malfaiteur e Chaque homme dans sa nuit, desde vidas que se estiolam na insatisfação afetiva e sexual e na solidão até a explicitação da homossexualidade27 e do conflito religioso por ela suscitado, ainda que sob a máscara dos desejos heterossexuais de Wilfred.28 O impulso confessional dessa progressão é tão forte, que em Le Malfaiteur cerca de um quarto da narrativa é constituído por uma verdadeira autobiografia do personagem, o que, aliás, desequilibra completamente a estrutura do romance, comprometendo muito sua qualidade literária. Esse texto, intitulado “La confession de Jean”, apesar de já se encontrar redigido desde 1955, só foi incorporado a Le Malfaiteur a partir da 3ª edição, de 1973, significativamente depois que Green já havia publicado três partes de sua própria autobiografia, com a qual ele tem inúmeros pontos de contacto.

Percebe-se, portanto, que Green explorou ao longo de vários romances, através dos dramas e conflitos de seus personagens, diferentes facetas de uma mesma problemática que, afinal, viria a constituir o cerne de sua própria autobiografia. Cabe sublinhar que os cinco romances posteriores a Jeunes Années não acrescentam nada de significativo à contribuição notável dada por Green à literatura do séc. XX, ao contrário daqueles compreendidos entre Adrienne Mesurat e Chaque homme dans sa nuit, que lhe asseguram um lugar de relevo entre os principais romancistas contemporâneos.29

Por outro lado, ao longo dos vários volumes do Journal, percebe-se também toda uma linha de reflexão acerca do que não está sendo dito e da dificuldade de, tanto através de um romance quanto através da estrutura fragmentada de um diário, se atingir a verdade definitiva e cabal sobre o sentido da própria vida.30 Esse será explicitamente o objetivo de sua autobiografia:

Pourquoi ai-je écrit ses livres? J’ai dit dans le premier volume ce que je me proposais de faire. Cela s’applique à l’autobiographie entière. Je voulais, en effet, retrouver le fil conducteur qui passe à travers ma vie.31


Os poucos elementos apontados já bastariam para caracterizar a obra de Green como espaço autobiográfico, nos termos do pensamento de Lejeune anteriormente exposto.
3- Espaço autobiográfico e fé cristã

Ao longo de toda a obra de Green, são freqüentes as manifestações de desconfiança ou mesmo as críticas abertas à teologia sistemática e aos teólogos32 e também a uma certa literatura espiritual.33 Em Green, temos sempre a preocupação com o concreto e o pessoal da relação do homem com Deus aqui e agora, na obscuridade dos caminhos de Deus.34 Como exemplo paradigmático dessa postura, podemos citar uma comovente passagem do último volume de Journal, em que nosso escritor, já nonagenário, se detém sobre o drama dos jovens soropositivos:

Un jeune homme qui me téléphone attend la mort depuis six ans. Je demande à un de ses amis: ‘A-t-il la foi? — Oui. C’est-à-dire sa foi’. Il s’arrange donc comme il peut avec les théologies, mais là il n’est plus question de théologie, il s’agit de Dieu et d’une âme.” 35
É essa concretude e irredutibilidade da experiência cristã enquanto relação pessoal de Deus com o ser humano que constitui o cerne do espaço autobiográfico em Green. Na bela expressão de Jeunes Années, “ce qu’il faut essayer de saisir et de bien retracer c’est le passage de Dieu dans la vie d’un homme.” A teologia de Green é, pois, uma teologia da experiência cristã precisamente na medida em que é uma tentativa de apreensão da relação do ser humano com Deus. É em função dessa tentativa, em função dessa teologia — podemos dizer —, que a obra de Green se constitui enquanto espaço autobiográfico, pois, como vimos com Gusdorf, são os valores fundadores da autenticidade do eu que plasmam a escrita autobiográfica. Em Green, esses valores são inequivocamente de ordem teológica:

Je crois que si je devais mourir tout à l’heure, ce qui me ferait le plus de peine serait de voir le peu de plénitude de ma vie. Je n’ai pas accompli ma destinée. Beaucoup de choses devaient fructifier en moi qui n’ont rien donné... Sous le rapport du spirituel, je suis accablé par la pensée de tout ce qui m’avait été offert et dont j’ai fait fi pendant de si longues années. Je vis maintenant des reliefs du festin que j’ai dédaigné.”37


Desse modo, a busca do eu e do destino pessoal, que constitui o núcleo de qualquer espaço autobiográfico, adquire em Green o caráter de uma busca de um eu verdadeiro que só existe misteriosamente enquanto desígnio divino acerca de cada pessoa humana. O espaço autobiográfico torna-se assim uma ocasião de contraste entre esses dois eus: um, sonhado por Deus, e outro, mais ou menos frustrado pela realidade da vida e pela espessura e banalidade do cotidiano:
Contre l’homme que je suis protestera toujours l’homme que j’aurais voulu être, et les deux coexisteront jusqu’à la fin, mais c’est l’homme que j’aurais voulus être qui sera jugé”.38
Ou, então, cinqüenta anos mais tarde, falando da perspectiva da morte:

Je découvrirai ce moi idéal que chacun essaie de trouver et poursuit parfois en vain toute sa vie. J’espère enfin que je serai celui que Dieu désire que je sois.39

No caso de Green, a chave para essa abertura é, sem sombra de dúvida, o compromisso radical com a sua verdade humana e cristã. Esse tema da verdade pessoal e da necessidade de reconhecê-la e dizê-la sem tergiversações ou subterfúgios é inequivocamente central à obra literária e à teologia de nosso autor, a ponto de se tornar uma verdadeira obsessão. Evidentemente se trata do princípio estruturante do espaço autobiográfico, como fica patente no trecho seguinte:

Je voudrais pouvoir dire la vérité sur moi-même. Je sais que c’est très difficile, que cela ne dépend pas seulement de la rectitude d’intention, qu’il faut pour cela une forme particulière de talent et avant tout la volonté de ne pas se laisser prendre au piège des mots; je voudrais dire ma vérité un jour, une heure, ou seulement quelques minutes. (...) Je ne vois guère d’autre moyen de m’en tirer que d’écrire un roman.40


Toda a obra de Green é, pois, essa tentativa de reconhecer e dizer uma verdade essencial sobre si mesmo.41 Nas palavras de um de seus personagens, Denis, o narrador de L’autre sommeil, “une seule chose me guidait: je désirais passionnément me connaître.”42 Para esse mesmo personagem, dizer a verdade é simultaneamente um gosto e uma preocupação.43

Ora, se nos perguntarmos pela natureza dessa verdade tão ardentemente buscada ao longo da obra de Green, veremos que, mesmo nos romances,44 é uma verdade de caráter teológico, no sentido de que é a verdade do homem pecador confrontado ao mesmo tempo com a condenação e o perdão divinos. Essa verdade é, pois, fundamentalmente a da experiência cristã: a salvação concedida gratuitamente ao pecador em Jesus Cristo. Nesse sentido, ela contém um momento negativo, em que predomina a tristeza por não ser santo,45 e um momento positivo, de alegria e gratidão pela graça recebida a despeito do pecado.46 Ambos os momentos confluem num paradoxo que exprime lapidarmente a experiência cristã naquilo que ela tem de mais marcante e autêntico, isto é, de mais evangélico:



Spirituellement ma vie est un désastre. Je tiens à écrire cette phrase, pour voir ce que cela fait, noir sur blanc. Pourtant je me demande qui aurait le front d’écrire: ‘Spirituellement ma vie est une réussite’. Il faudrait être idiot. Malgré tout, je maintiens ce que j’ai dit.”47
Essa tensão entre o momento negativo e o momento positivo de experiência cristã dá à teologia de Green um caráter acentuadamente dramático, que é, sem sombra de dúvida, um de seus traços mais peculiares. Se, na raiz dessa tensão, está, como vimos, uma questão muito específica de identidade sexual, através de sua formulação teológica se atinge um grau de universalidade que dá àquela questão na obra de Green um peso e uma relevância culturais muito densos, dentro da melhor tradição literária do século XX, conforme se vê, aliás, em Proust, Gide, Thomas Mann, Guimarães Rosa ou Lúcio Cardoso.


1 Ángel G. LOUREIRO. “Direcciones en la teoría de la autobiografía” in José ROMERA et alii (eds). Escritura autobiográfica: Actas del II Seminario Internacional del Instituto de Semiótica Literaria y Teatral. Madri: Visor, 1993, p. 33.

2“(...) la inseminación de la presencia del yo en la literatura de la modernidad occidental constituye la dominante de ésta, hasta poder decir que lo esencial de su escritura, si bien no cae bajo la estricta denominación de ‘escritura autobiográfica’ — en el sentido que el pacto formulado por Lejeune da a este término — , sí cae bajo su denominación, en el sentido que le daremos, tras la formulación del concepto de espacio autobiográfico, en el interior de una teoría crítica – el tematismo estructural – que considera la escritura de la modernidad como una práctica ontoepistemológica inscrita en el lenguaje.” Javier PRADO BIEZMA, Juan BRAVO CASTILLO, María Dolores PICAZO. Autobiografía y modernidad literaria. Cuenca: Ediciones de la Universidad de Castilla – La Mancha, 1994, p. 13 (os grifos são do original).

3 “Dicha toma de conciencia de la inmanencia del yo tiene sus raíces más lejanas en la necesidad de autoconocerse que se detecta en ciertas almas cristianas, cual es el caso de San Agustín, con lo cual el conocimiento de sí deja de ser el conocimiento de una esencia, para pasar a ser el conocimiento de una existencia. (...) Así pues, la experiencia del yo hace su entrada en el pensamiento introspectivo y en la literatura por la puerta de la experiencia religiosa y de la teología.” Idem, ibidem p. 31.

4 “A escrita do eu pode assim ser encarada como uma forma de salvação individual num mundo que começa a descrer de sucessivos modelos ideológicos de salvação colectiva.” Clara ROCHA. Máscaras de Narciso: estudos sobre a literatura autobiográfica em Portugal. Coimbra: Almedina, 1992, p. 19.

5 “Laicizado o exame de consciência, a confissão continua no entanto a manter as características de discurso sobre a transgressão. (...) São contados episódios mais ou menos ‘chocantes’, que quebrantam os preceitos da moral convencional, o que tanto pode, aliás, ser garante de autenticidade como sintoma de exibicionismo, nos antípodas da humildade cristã.” Idem, ibidem, p. 40.

6 “(...) ao procurar o eu no passado, o sujeito quer reorientar o porvir, autocorrigindo-se ou inflectindo no seu percurso, construindo uma utopia de si que espera poder cumprir.” Paula MOURÃO. O secreto e o real – caminhos contemporâneos da autobiografia e dos escritos intimistas. In: Românica. Revista de literatura 3 (1994) p. 28 (número monográfico sobre biografia e autobiografia).

7 T.R. WRIGHT. Theology and Literature. Oxford: Blackwell, 1988, p. 92.

8 “Le lieu propre des écritures du moi n’est pas l’ontologie, la recherche de l’Être sans restriction, dont la seule évocation suffit pour réduire à peu de chose la réalité restreinte de l’individualité humaine, mais la phénoménologie, c’est-à-dire l’exploration des dimensions de l’existence personnelle révélée à elle-même dans l’expérience vécue” Georges GUSDORF. Auto-bio-graphie. Paris: Odile Jacob, 1991, p. 225.

9 “Surge así (com as Confissões, de santo Agostinho) una antropología nueva, según la cual cada destino particular supone un reto de trascendencia sobrenatural. La vida íntima de cada persona adquiere un valor singular frente a Dios, ante el que cada uno de los mortales debe rendir cuentas, hacer sus confesiones. Esto es impensable en la antropología oriental incluso hasta hoy mismo, como también lo era en la Antigüedad clásica, cuyas filosofías estoicas y epicúreas mantenían una ‘concepción disciplinaria del ser personal’.” Darío VILLANUEVA. “Realidad y ficción: la paradoja de la autobiografía” in José ROMERA et alii (eds). Ob.cit, p. 16.

10 Philippe DERIVIÈRE. Julien Green: les chemins de l’errance. Bruxelas: Talus d’approche, 1994, p. 13.

11 “L ‘auteur, c’est donc un nom de personne, identique, assumant une suite de textes publiés différents. Il tire sa réalité de la liste de ses autres ouvrages qui figure souvent en tête du livre: ‘Du même auteur’. L’autobiographie (récit racontant la vie de l’auteur) suppose qu’il y ait identité de nom entre l’auteur (tel qu’il figure, par son nom, sur la couverture), le narrateur du récit et le personnage dont on parle.”Philippe LEJEUNE. Le pacte autobiographique. nov. ed. aum. Paris: Seuil, 1996, p. 23s.

12 Idéia que, aliás, também encontramos em Green: “mon vrai journal se trouve enfoui dans ce que j’invente”. Journal, 31 out. 1946, Oeuvres Complètes. Paris: Gallimard, 1972ss (Bibliothèque de la Pléiade), t. IV, p. 946 (grifo do original).

13 Philippe LEJEUNE. Ob.cit., p. 41s (os grifos são do original).

14 “Ainsi posé, le problème change complètement de nature. Il ne s’agit plus de savoir lequel, de l’autobiographie ou du roman, serait le plus vrai. Ni l’un ni l’autre; à l’autobiographie, manqueront la complexité, l’ambigüité, etc.; au roman, l’exactitude; ce serait donc: l’un plus l’autre? Plutôt: l’un par rapport à l’autre. Ce qui devient révélateur, c’est l’espace dans lequel s’inscrivent les deux catégories de textes, et qui n’est réductible à aucune des deux. Cet effet de relief obtenu par ce procédé, c’est la création, pour le lecteur, d’un ‘espace autobiographique’.” Idem, ibidem, p. 42.

15 Idem, ibid, p. 165.

16 Javier PRADO BIEZMA et alii. Ob. cit., p. 220.

17 Clara ROCHA. Ob cit., p. 26.

18 Ángel G. LOUREIRO. Ob. cit.., p. 39

19 Georges GUSDORF. Les écritures du moi. Paris: Odile Jacob, 1991, p. 305.

20 Javier PRADO BIEZMA et alii. Ob. cit., p. 14 (os grifos são do original)

22 Mont-Cinère (1926), Adrienne Mesurat (1927), Léviathan (1929), L’autre sommeil (1931), Épaves (1932), Le Visionnaire (1934), Minuit (1936), Varouna (1940), Si j’étais vous... (1947), Moïra (1950), Le Malfaiteur (1955), Chaque homme dans sa nuit (1960), L’Autre (1971), Le mauvais lieu (1977), Les pays lointains (1987), Les étoiles du Sud (1989) e Dixie (1995).

23 Dezesseis volumes numerados, cuja publicação se inicia em 1938, com Les années faciles (Journal I), referente ao período de 1928 a 1934, e vai até Pourquoi suis-je moi? (Journal XVI), de 1996, que abrange o período de 1993 a 1996. Fora dessa série, foram publicados La fin d’un monde: juin 1940, em 1992, e On est si sérieux quand on a 19 ans, em 1993, que abrange os anos de 1919 a 1924. Há ainda duas edições de trechos do diário acompanhados por copiosa documentação iconográfica: Dans la gueule du temps, de 1978, e Jounal du voyageur, de 1990.

24 Publicada originalmente em quatro partes, Partir avant le jour (1963), Mille chemins ouverts (1964), Terre lointaine (1966) e Jeunesse (1974), a autobiografia foi reunida em um só volume, sob o título de Jeunes Années, em 1984, acrescida de Fin de jeunesse e de alguns outros trechos.

25 Curiosamente, vinte anos antes de começar a publicar sua autobiografia, Green escrevia: “Si l’on pouvait se voir soi-même comme un personnage de roman, on obtiendrait de cette façon l’equivalent du recul qu’il faut pour bien saisir le pittoresque de notre vie quotidienne. On verrait par les yeux d’un romancier tout ce qui nous paraît tant soit peu monotone et incolore, et nous ferions peut-être quelque chose de passionnant de la banalité de tous les jours...” Journal, 4 ago. 1942, OC t. IV, p. 675 (o grifo é do original).

26 “Ceci me paraît évident: depuis 1930, presque tous mes romans contiennent sous-entendue une histoire secrète qui transparaît aux yeux de qui sait voir.” Journal, 21 jul. 1950, OC t. IV, p. 1168.

27 De resto já presente em L’autre sommeil, bem como em personagens secundários de Moïra (Simon) e Chaque homme dans sa nuit (Angus e Max) e, mais veladamente, na peça Sud, de1953.

28 Parece-nos que escapou aos críticos de Green a percepção da inverossimilhança do conflito nuclear de Chaque homme dans sa nuit. De fato, onde estaria o drama religioso insolúvel, no caso de um rapaz solteiro e heterossexual que não consegue viver em castidade? Acerca desse romance, pode-se consultar o dossier critique publicado em Roman 20-50: révue d’étude du roman du XXe siècle 10 (dez. 1990) 4-118.

29 Para uma visão de conjunto da produção romanesca de Green, pode ser útil a sua distribuição por quatro grandes categorias, propostas pelo professor irlandês Michael O’Dwyer: os romances sombrios, de estrutura linear e temática centrada em frustrações e obsessões descontroladas, que levam à alucinação e ao crime (Mont-Cinère, Adrienne Mesurat, Léviathan); os romances do invisível, de estrutura circular e temática de natureza onírica e fantástica (L’autre sommeil, Épaves, Le Visionnaire, Minuit, Varouna, Si j’étais vous); os romances centrados no problema da graça e do pecado (Moïra, Le Malfaiteur, Chaque homme dans sa nuit, L’Autre e Le mauvais lieu); a trilogia de Dixie, sobre o Sul dos Estados Unidos à época da Guerra de Secessão (Les pays lointains, Les étoites du Sud, Dixie). Cf. Michael O’DWYER. Julien Green: A Critical Study. Dublin: Four Courts Press, 1997, p. 38.

30 P. ex., 15 nov. 1929, 7 fev. 1931, 6 mai 1931, 21 set. 1931, 19 jul. 1942, 21 abr. 1944, 31 out. 1946 etc.

31 Jeunes Années, OC t. VI, p. 832.

32 “La théologie me fait l’effet de la vérité bardée de fer. Dieu est simple. La théologie l’est peu. Elle gonfle d’orgueil les théologiens mal équipés pour la recevoir. La simplicité de Dieu brille dans l’Evangile, mais il arrive qu’elle se cache dans la lumière des mystères. Arrivent alors les théologiens qui savent tout, même le comportement des Personnes dans la Sainte-Trinité. Dieu inconnaissable. Pas pour eux. ‘De la paille’, disait saint Thomas en parlant de sa Somme. Simplicité des mystères d’une profondeur redoutable, mais ils n’ont peur de rien. Saint François les évitait.” Journal, 30 mar. 1987, L’Expatrié: Journal 1984-1990. Paris: Seuil, 1990, p. 280.

33 “L’amour de Dieu. Il y a de beaux ouvrages (saint François de Sales) pour enseigner la méthode qui permettra de l’obtenir. Très bien. Je sais bien que ce que je vais ajouter est injuste, mais je pense immédiatement à l’anglais enseigné par correspondance.” Journal, 22 abr.1993, Pourquoi suis-je moi? Journal 1993-1996. Paris: Fayard, 1996, p. 46.

34 “Une fois trouvée la volonté de Dieu sur nous, il faut la suivre sans chercher à la comprendre.” Journal, 16 nov. 1987, L’Expatrié, ed. cit. 329.

35 Journal, 14 mar. 1993, Pourquoi suis-je moi?, ed. cit., p. 34s (grifo do original).

37 Journal, 26 jun. 1941, OC t. IV p. 589.

38 Journal, 23 set. 1946, OC t. IV. p. 941.

39 “Dieu, c’est une omniprésence”, entrevista a Franz-Olivier Giesbert, 11-12 mai. 1996, OC t. VIII, p. 1332.

40 Journal, 19 jul. 1942, OC t. IV, p. 670 (grifo do original).

41 Acerca da (im)possibilidade da confissão plena da verdade pessoal, que é uma das constantes temáticas dos romances de Green, cf. Michèle RACLOT. Le sens du mystère dans l’oeuvre romanesque de Julien Green. Paris: Aux Amateurs de Livres, 1988, p. 130-141; Michael O’DWYER. Ob. cit., p. 17, 65ss, 75ss.

42 L’autre sommeil, OC t. I, p. 853.

43 “J’aurais dû conserver les petits carnets d’un sou dans lesquels je notais alors tant de choses qu’on n’ose pas écrire. Je les ai brûlés à la suite d’un démêlé de conscience (comme si l’on pouvait abolir ce qu’on répudie), mais il m’en est resté, tout au moins, le goût, le souci de dire vrai.”L’autre sommeil, OC t. I, p. 844.

44 “Très préocupé par mon roman. Il existe une vérité à laquelle il faut atteindre à tout prix, celle qui est au coeur ‘de tout homme venant en ce monde’.” Journal, 7 fev. 1931, OC t. IV. p. 92.

45 “Ce qui fait le fond de ma tristesse, je crois que personne ne s’en doute. Comment le dire? C’est impossible à dire et cela paraît ridicule. Je vais le dire tout de même. J’aurais voulu être un saint. C’est tout. Je ne puis rien ajouter à cette parole. Une grande partie de ma vie ne me ressemble pas. Je sens vivement que je passe sans cesse à coté de celui que j’aurais voulu être, et d’une certaine manière, il existe, il est là et il est triste, et sa tristesse est la mienne.” Journal, 23 jun. 1938, Journal 1928-1949. Paris: Plon, 1969, p. 312. O texto de OC t. IV. p. 470 aparece muito modificado e notavelmente enfraquecido.

46 “Etre meilleur, avoir une vie belle et pure, faire ses prières, comme autrefois, quand tout était simple, mais peut-être était-on alors moins près de Dieu qu’on ne l’est maintenant par le désir qu’on a de le retrouver.” Journal, 2 dez. 1953, OC t. IV, p. 1318.

47 Journal, 24 jan. 1946, OC t. IV, p. 898.

X Encontro Regional de História – ANPUH-RJ



História e Biografias - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - 2002


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