Baudrillard, Jean. Simulacros e Simulações



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Antropologia Cultural

Prof. Elizabete Sanches

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e Simulações. Editora Antropos. Lisboa, 1981.

A HISTÓRIA: UM CENÁRIO RETRO

Num período de história violenta (entre as duas Guerras e a Guerra Fria), o mito, expulso do real pela violência da história, encontra refúgio no cinema. Hoje em dia é a própria história que invade o cinema segundo o mesmo cenário. A história é nosso referencial perdido – nosso mito. A ilusão seria regozijarmo-nos com esta “tomada de consciência da história pelo cinema”.

Enquanto tantas gerações, especialmente a última, viveram com a história na perspectiva, eufórica ou catastrófica de uma revolução, hoje tem-se a impressão de que a história se retirou, deixando atrás de si uma nebulosa indiferente, esvaziada das suas referências.

Pode-se explicar isso evocando a teoria freudiana do fetichismo. A fetichização de um objeto surge para ocultar esta descoberta insuportável, mais precisamente, diz Freud, esse objeto não é um qualquer, é muitas vezes o último objeto vislumbrado antes da descoberta traumatizante. Assim, a história fetichizada será de preferência a imediatamente anterior à nossa era “irreferencial”.

A história faz assim sua entrada triunfal no cinema a título póstumo. Sua reinserção não tem o valor de uma tomada de consciência, mas de nostalgia de um referencial perdido. A história que nos é “entregue” hoje em dia não tem mais relação com um “real histórico”: trata-se da invocação da semelhançahipersemelhança. Esses objetos já não são vivos nem mortais, e é por isso que são tão exatos, minuciosos e condensados – estado de perda bruta do real.

No âmbito do cinema, há os remakes perfeitos. Ergue-se toda uma geração de filmes que são como o andróide para o homem: artefatos maravilhosos, sem falhas, simulacros geniais aos quais não falta senão o imaginário, e esta alucinação própria que faz o cinema. Prazer funcional, equacional, de maquinação.

Não é verdadeiramente uma questão de perfeição: a perfeição técnica pode fazer parte do sentido e, nesse caso, não é nem retro nem hiper-realista, é um efeito da arte. Aqui é um efeito de modelo: é um dos valores táticos da referência. Virtuosidade técnica como referência obrigatória ao cinema. O cinema nas suas tentativas atuais tem a pretensão de ser o real (e assim, acaba por “apaga-lo”).

Simultaneamente a esta tentativa de coincidência absoluta com o real, o cinema aproxima-se também de uma coincidência absoluta consigo próprio – definição de hiper-real. O cinema plagia-se, refaz seus clássicos, está fascinado consigo próprio como objeto perdido tal como está (e nós) estamos fascinados pelo real como real em dissipação.

A relação entre o cinema e o real hoje é uma relação inversa, negativa: perda de especificidade de um e de outro. É o cinema tentando abolir-se no absoluto do real, o real desde há muito absorvido no hiper-real cinematográfico (ou televisionado).

É que o próprio cinema contribuiu para o desaparecimento da história. O cinema pode colocar hoje todo o seu talento e sua técnica ao serviço da reanimação daquilo que ele próprio contribuiu para liquidar.

IMPLOSÃO DO SENTIDO NOS MEDIA

Estamos num universo em que existe cada vez mais informação e cada vez menos sentido. Três hipóteses:



  1. Informação produz sentido, mas não consegue compensar a perda brutal de significado em todos os domínios (é preciso fazer apelo a uma produtividade de base);

  2. Informação não tem nada a ver com o significado. Hipótese de Shannon: não há relação significativa entre a inflação da informação e a deflação do sentido;

  3. Correlação rigorosa entre os dois, na medida em que a informação é diretamente destruidora ou neutralizadora do sentido e do significado.

Em toda parte é suposto que a informação produz uma circulação acelerada do sentido, uma mais-valia de sentido (homóloga à mais-valia econômica que provém da rotação acelerada do capital). A informação é dada como criadora de comunicação. Existe um excesso de sentido que se redistribui em todos os interstícios do social. Somos todos cúmplices deste mito.

Onde pensamos que a informação produz sentido, é o oposto que se verifica. A informação devora seus próprios conteúdos. Dois motivos:

  1. Em vez de fazer comunicar e de produzir sentido, esgota-se na encenação da comunicação e do sentido. Gigantesco processo de simulação. Imensas energias são gastas para manter este simulacro. É inútil interrogarmo-nos se é a perda da comunicação que induz esta sobrevalorização no simulacro ou o contrário – processo circular. Hiper-realidade da comunicação e do sentido. Mais real que o real, é assim que se anula o real. O mito existe, mas há que evitar acreditar que as pessoas crêem nele: armadilha do pensamento crítico;

  2. Por detrás desta encenação exacerbada da comunicação, os mass media prosseguem uma desestruturação do real. Os media (instâncias mediadoras de uma realidade para outra) são produtores não da socialização, mas da implosão social das massas. Extensão macroscópica da implosão do sentido. Fórmula de MacLuhan “medium is message”. Todos os conteúdos de sentido são absorvidos na única forma dominante do médium.

Fórmula de MacLuhan é a fórmula-chave da era da simulação: o médium é a mensagem – o emissor é o receptor – circularidade de todos os pólos – fim do espaço panóptico e perspectivo – alfa e ômega de nossa modernidade. Sem mensagem, também o médium cai na indiferença característica de todos os nossos grandes sistemas de juízo e de valor. Medium is message não significa apenas o fim da mensagem, mas também o fim do medium. Absorção dos pólos um no outro. Impossibilidade de um sentido.

Situação crítica, mas original. Constatação pode parecer catastrófica e desesperada, mas só o é, de fato, aos olhos do idealismo que domina nossa visão da informação. Catástrofe do sentido nos espreita. Mas o termo ‘catástrofe’ não tem este sentido ‘catastrófico’. Trata-se de um ciclo que conduz a um horizonte do sentido inultrapassável: já não acontece mais nada que tenha sentido para nós.

Para além do sentido, há o fascínio, que resulta da neutralização e da implosão do sentido. Para além do horizonte do social há as massas, que resultam da neutralização e da implosão do social. Duplo desafio: desafio ao sentido pelas massas e desafio ao sentido vindo dos media e do seu fascínio.

Paradoxo: os media assumem-se como veículo da condenação moral do terrorismo e da exploração do medo com fins políticos, mas simultaneamente difundem o fascínio bruto do ato terrorista, são eles próprios terroristas, na medida em que caminham para o fascínio. Os media carregam consigo o sentido e o contra-sentido. Exacerbação lógica e resolução catastrófica. Situação dupla e insolúvel, tal como as crianças que são intimidadas a constituir-se como sujeitos autônomos e simultaneamente como objetos submissos.

A um sistema cujo argumento é de opressão e repressão, a resistência estratégica é de reivindicação libertadora do sujeito. A resistência estratégica, ou da simulação hiperconformista aos próprios mecanismos do sistema, é uma forma de recusa e de não-aceitação. É o que fazem as massas: remetem para o sistema sua própria lógica reduplicando-a, devolvem, como um espelho, o sentido sem o absorver.

PUBLICIDADE ABSOLUTA, PUBLICIDADE ZERO

O que estamos a viver é a absorção de todos os modos de expressão virtuais no da publicidade. Todas as formas culturais originais, todas as linguagens determinadas absorvem-se neste porque não tem profundidade, é instantâneo e instantaneamente esquecido. Esta forma inarticulada, instantânea, sem passado, sem futuro, sem metamorfose possível, precisamente por ser a última, tem poder sobre todas as outras.

A forma publicitária é um modo operacional simplificado, de retórica cada vez mais neutra. Longa marcha: transparência superficial de todas as coisas, da sua publicidade absoluta, pode decifrar-se nas peripécias da propaganda. Publicidade e propaganda adquirem dimensão a partir da Crise de 29 – linguagens de massa. A propaganda aproxima-se da publicidade como do modelo veicular da única grande e verdadeira idéia-força desta sociedade concorrencial: a mercadoria e a marca (mesma linguagem).

De destino histórico, o próprio social caiu nas fileiras de uma “empresa coletiva” que assegura sua publicidade em todas as situações. Cada publicidade tenta produzir a mais-valia do social. O social como cenário de que somos o público enlouquecido.

Tipo de linguagem ainda mais simplificada: linguagens informáticas. O micropocesso, a digitalidade, as linguagens cibernéticas vão muito mais longe no mesmo sentido da simplificação absoluta dos processos do que a publicidade fazia ao seu humilde nível, ainda imaginário e espetacular. É a informação, no sentido informático do termo, que porá (ou já põe) fim ao reino da publicidade.

O aspecto mais interessante da publicidade hoje é o seu desaparecimento. Se num dado momento a mercadoria era a sua própria publicidade (não havia outra), hoje a publicidade tornou-se a sua própria mercadoria: confunde-se consigo própria. Medium transformado na sua própria mensagem.

O social perdeu justamente esse poder de ilusão. A verdadeira publicidade está hoje no design do social, na exaltação do social sob todas as suas formas. Saturação superficial e fascínio.

Las Vegas: cidade publicitária absoluta. A publicidade não é o que alegra ou decora as paredes, mas o que apaga as paredes, as ruas, as fachadas, a arquitetura. Linguagem: fantasia da racionalidade e todos devem acreditar nisso. É a publicidade, pois, tal como a informação: destruidora de intensidades, aceleradora de inércia.

É, então, inútil analisar a publicidade como linguagem, pois é uma outra coisa completamente diferente que tem lugar: uma dobragem da língua. Fosse qual fosse a subserviência da publicidade à gestão do capital, ela foi sempre mais que uma função subjugada, foi um espelho estendido ao universo da economia política e da mercadoria.



Já não há cena da mercadoria: não há mais que a sua forma obscena e vazia. E a publicidade é a ilustração desta forma saturada e vazia. Fim da mercadoria feliz e exposta.




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