Belo horizonte


Limites do discurso dusseliano



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2.5 Limites do discurso dusseliano


Notamos que a temática da libertação latino-americana não advém de uma reflexão do conquistador europeu. A Filosofia e a Teologia da Libertação emergem num contexto em que a questão da libertação é colocada de fora do âmbito da reflexão filosófica do centro. Foi-lhe imposta por força da própria realidade latino-americana, sem que a ela a Filosofia chegasse por meio de sua própria problematização. Surge como necessidade concreta de uma coletividade que clama pela libertação.

O fato da dominação se impõe tanto para a Filosofia como para a Teologia como realidade primeira. Daí emerge uma filosofia “condicionada” por um a priori não alcançado pela via da reflexão. O risco é o de construção sobre bases refratadas pela ideologia, posto que o discurso se lhe apresenta em vias de se fundar como nova totalidade. Mesmo a consciência da dominação e da ideologia podem ter sido produzidas por mecanismos, por sua vez, ideologizados. Dussel considera enfaticamente o perigo da práxis de libertação fundar-se como nova totalidade e que, por isso, a libertação não se dá pelo uso da força, pela guerra, caminho de nova totalização, mas no clamor da vítima como condição de possibilidade de conversão do sistema e da própria vítima.

Para Fornet-Betancourt, há uma contradição presente no pensamento dusseliano. Dussel afirma por um lado o protagonismo dos povos da periferia no processo de libertação e por outro de que sozinho o povo não pode se libertar. Fornet-Betancourt contrapõe: a comunidade das vítimas não está isenta da vontade de poder e nem está plenamente imbuída do espírito de amor-de-justiça. É regida também pela competição, egoísmo, discórdia. Afinal, são pessoas humanas na história. Aos povos da periferia, deve-se perguntar: “o que tens feito com teu irmão?” A figura do povo não é somente a de Abel, a vítima, mas também a de Caim, o assassino do seu irmão139.

É possível que Dussel tenha reduzido a ambigüidade que caracteriza o povo enquanto tal. Notamos que a pulsão de alteridade não é suficiente para suprimir a tensão existente entre a busca do bem comum e o desejo de poder que, muitas vezes, passa pela eliminação da alteridade. Pode-se concluir: Dussel é otimista em relação ao ser humano e este otimismo também se faz presente nesta pesquisa que, em momento posterior, abordará a possibilidade de efetivação do novo por meio de outra “globalização”. Nessa perspectiva, Dussel não está sozinho, e, como se verá, tal possibilidade recebe o apoio de outros autores, também marcados por tal otimismo.

Outra objeção que se coloca é o fato de o povo ser considerado o sujeito da libertação. Há que se questionar se tal afirmação não se faz a partir de uma concepção romântica de povo140. Na mesma medida, pode-se voltar o foco para a Teologia da Libertação e perguntar de que modo é pensado o agir da comunidade cristã, numa perspectiva romântico-libertária? Há uma possibilidade concreta de comprometimento e de luta profética de libertação? Crê-se que há o risco não de uma hiper-idealização, mas algo próximo à utopia, elemento necessário para qualquer movimento. Além disso, não se pode desconsiderar que a solidariedade entre as vítimas é capaz de gerar mecanismos, não apenas de resistência, mas também de superação da opressão. “Estamos diante de uma pobreza coletiva que cria laços de solidariedade entre os que sofrem e os leva a se organizar para lutar contra esta situação e contra os que usufruem dela”141.

No que tange a soluções, Dussel conclui, pragmaticamente, que não há resposta nem proposição definitiva à questão da libertação das vítimas tanto do ponto de vista dos grandes sistemas de ética, como das diferentes ações revolucionárias. Entende seu papel como pensador, no sentido de propor caminhos e iluminar a realidade a uma constante busca de saídas da situação de cegueira e apatia diante da opressão e destruição da vida. Sua reflexão torna-se, assim, um ponto de apoio para todos os que se empenham no processo de libertação, buscando incutir na própria vítima a necessidade de sua tomada de consciência e protagonismo.

Neste segundo capítulo, os esforços se concentraram no intuito de abordar a Ética da Libertação, situá-la no horizonte do pensamento de Enrique Dussel e compreender a Teologia a partir da temática da libertação. O estudo das categorias, da evolução do pensamento dusseliano e a abordagem da Ética da Libertação como Teologia Fundamental, bem como as implicações desta afirmação, caminharam nesta direção.

Compete agora confrontar os conteúdos apresentados com a realidade da globalização atual que se difunde, propagando a mentalidade hegemônica do capitalismo, no intuito de verificar a contribuição da Ética da Libertação. A Ética da Libertação é a óptica que guiará o estudo da globalização atual. Na perspectiva cristã, buscar-se-á identificar elementos positivos e negativos, do sistema que se globaliza, para a vivência da fé cristã. Interessa-nos também, o posicionamento da fé em face das novas oportunidades e desafios. Mais do que apresentar respostas importa levantar perguntas e situar eticamente o estado da questão.


CAPÍTULO 3 - A GLOBALIZAÇÃO ATUAL À LUZ DA ÉTICA DA LIBERTAÇÃO E A VIVÊNCIA DA FÉ CRISTÃ


Neste ponto da pesquisa, compete confrontar a Ética da Libertação de Enrique Dussel com a globalização atual, no intuito de captar a contribuição da Ética da Libertação para as questões trazidas à baila pela globalização, bem como perceber as nuances éticas presentes no sistema que se globaliza. A globalização é simultaneamente fator e resultado das opções éticas que envolvem o capitalismo e a concentração de riquezas nas mãos de uma minoria. Ao longo do capítulo, se perceberá que as raízes do liberalismo e neoliberalismo econômicos estão na base da globalização atual.

Num primeiro momento, situar-se-á globalização, conceituando e caracterizando-a, com ênfase a partir de 1990. A abordagem segue, preferencialmente, a perspectiva de Milton Santos e Octávio Ianni, ambos pesquisadores brasileiros. A eleição das Ciências Sociais como parceira privilegiada neste trabalho no diálogo com a Ética exigirá, também, a interlocução com outros autores.

Da mesma forma, a Teologia se organiza como parceira de diálogo, ao se pensar a forma como a globalização incide sobre a vivência da fé e da vida cristã, quer positiva, quer negativamente, e como a interpela, bem como uma possível resposta da fé cristã. A vivência cristã empenha-se no sentido de buscar alternativas de ação local que não perca de vista o global, sem entretanto deixar-se ludibriar pela racionalidade do global que por vezes põe em risco a originalidade da vida presente em cada parte do todo.




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