Belo horizonte



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3.1 Breve histórico da globalização


Consideramos que o advento do liberalismo no mundo ocidental tornou-se pedra angular da instalação e permanência até hoje, no século XXI, da chamada globalização, como uma indústria de marginalização do indivíduo, da destruição do meio ambiente, da apropriação da terra e da propriedade, de acumulação de metade do capital mundial na mão de apenas 2% da população do globo, do aumento cada vez maior dos lucros fáceis e também do crime de usura. Globalização, espacial e conceitualmente, é o plano de atuação do capital dominante, representado pelas mega­empresas transnacionais. A essas não interessa os que não são absorvidos, banidos e relegados, porque não interferem na cadeia ou no modo de produção capitalista.

É mister esclarecer que as mega-empresas transnacionais não são agentes de um ou outro governo estrangeiro. Constituem-se, em suas próprias estruturas, uma forma de poder: o Poder de Mercado, considerado por grande parte dos economistas como o mais importante da época atual. O “quarto” de século que se seguiu à Segunda Grande Guerra pode ser indicado como o período do início do processo de controle da Economia Mundial.

A expansão das organizações transnacionais e a multiplicação simultânea de governos nacionais são, de algum modo, respostas aos movimentos de modernização social, econômica e tecnológica a que se assistiram no Século XX e se consolidaram no Século XXI em todo o mundo. Os progressos no campo da Economia, Tecnologia e Administração, tornaram possível uma organização funcionalmente específica - como uma corporação ou um serviço militar - operar em bases mundiais. Ao mesmo tempo, estas e outras conquistas políticas, econômicas e sociais tornaram possível o exercício da atividade política em base global, como o fez a Inglaterra no final do século XIX, no apogeu do Império Britânico.

Entretanto, Libanio adverte que as origens da globalização atual, em sentido lato, antecedem a existência do capitalismo como forma de organização sócio-econômica e do liberalismo e neoliberalismo como estruturas políticas e econômicas. Pode-se compreender que a globalização está intimamente inserida na cultura ocidental, na tradição greco-judaico-cristã, na vocação para o universal e o global. Para ela, apontam o conceito e a busca pela verdade dos filósofos gregos; “os textos tardios, especialmente do dêutero e do trito-Isaías, revelam lentamente uma mentalidade universalista142” que caracterizará a consciência e esperança judaica de que todas as nações sejam congregadas em Jerusalém; a missão dos apóstolos de evangelizar todos os povos143 e o desejo por um “só corpo, um só batismo, um só espírito” em uma só Igreja.

Esse desejo de unificação e universalismo deixa, na história, vestígios de uma vocação expansionista e totalizante. Os esforços imperialistas e homogeneizadores da campanha greco-­helênica, a estrutura do império romano, a cristandade pós-constantiniana, as descobertas das grandes navegações, o processo de colonização do Novo Mundo, o domínio britânico do Oriente e as missões transculturais do século XVIII e XIX são sinais do esforço de controle, centralização e negação das diferenças.

Para Dussel, as raízes mais sólidas da globalização econômica atual desenvolveram-se em solo europeu (os chamados países de centro), e afetam, de modo singular, a realidade latino-americana (entre outros países da periferia, acompanhada pela realidade africana e asiática)144. O centro, totalidade que busca abarcar o outro, nega a periferia que não chega a ser outro, uma vez que a totalidade não reconhece outro o que está fora de si145. Essa concepção de globalização, como o esforço de expansão e dominação do centro, representa sua face negativa e mais conhecida.

Tal face negativa restringe-se, no entanto, ao sentido econômico-político de globalização, como exteriorização da concentração do capital mundial, sob a égide do neoliberalismo. Para os fins desta pesquisa, a partir da leitura sobretudo de Milton Santos, apresenta-se a globalização como uma forma histórica com características climáticas da internacionalização do capital146. A tal concepção de globalização irá se contrapor outro sentido, o qual se deseja resgatar no decorrer do próximo capítulo. Será a globalização como processo de aceleração na interconexão das relações dos seres humanos entre si e com todo o planeta147 e que revela à consciência humana o fato de que todos compartilham a vida a ponto da sobrevivência de uns depender da de outros. Para tal empreitada, a Ética da Libertação de Enrique Dussel tem muito a contribuir.

No tempo que se chama pós-modernidade, a globalização encontra-se indissociável do capitalismo, cuja expansão difunde suas bases. Dussel constata que a desintegração da União Soviética, o fracasso do socialismo na Europa Oriental, a derrota eleitoral do sandinismo, o bloqueio de Cuba, entre outros eventos que marcaram a segunda metade do século XX, denunciam a impotência das margens diante da força do capitalismo e do liberalismo. Dissolvem a esperança dos povos que não participam da pequena elite do centro, de se libertarem de sua miséria148. Constatamos que os anos que sucederam à década de 1990 continuam testemunhando essa realidade, ao lado da expansão do capitalismo e da globalização.

Assim, Dussel privilegia o estudo da globalização a partir da década de 1990, no que se denomina aqui como “fase atual”. Em tempos de globalização e exclusão, Dussel desenvolve a quarta fase de seu pensamento. A globalização atual e a quarta fase do pensamento dusseliano são inseparáveis do capitalismo avançado e informatizado. O principal desafio em termos da produção, reprodução e desenvolvimento da vida humana, tão caros a Dussel se impõe como a temática central da Ética da Libertação na perspectiva atual da globalização e da exclusão.

3.2 A perspectiva dusseliana de globalização


Dussel enfoca a globalização atual como chave hermenêutica a desvelar e oferecer racionalidade para a gênese e manutenção da situação de produção das vítimas149 com que se depara e à qual deve responder a Ética da Libertação e a fé cristã. Para ele, “o tema da mais-valia permite ‘situar’ dentro do sistema das categorias da economia política burguesa o ‘lugar’ onde se produz a ‘morte’ da vítima, de maneira essencial, abstrata, ineludível (sic) para a argumentação racional científica de sua época (e válida na nossa)”150.

Retomando alguns elementos do subitem anterior, Dussel compreende que desde a formação do moderno capitalismo, o mundo passou a ser influenciado por sua racionalidade e cultura. Devido à existência desse motor único na história, a mais-valia globalizada, o capitalismo difundiu-se como agente potente para construir, recriar e transformar a realidade. A expansão capitalista ampliou os horizontes de abrangência da globalização, que se fundamentou, segundo Milton Santos, nos pilares da unicidade da técnica, da convergência dos momentos e da potência transformadora da mais­ valia151.

O primeiro pilar, o da globalização tecnológica, marca a possibilidade da difusão da globalização em uma escala jamais vista, uma vez que perpassa o planeta em termos de tecnologia. O segundo pilar se constitui na alta tecnologia, ao mesmo tempo em que a retroalimenta e a sustenta. O tempo e o espaço não são mais barreiras à comunicação mundializada, pois o acontecimento de um lugar pode ser visto por todo o globo em tempo real. Os momentos coincidem, mas não há produção de sentido que entabule interdependência e solidariedade dos fatos. Pode-se ter diante dos olhos a visão em tempo real do acontecer do outro. É marca registrada da cultura ocidental e, segundo Libanio, “não aconteceu no Ocidente por acaso. Corresponde perfeitamente à sua mentalidade conquistadora e globalizante, que não se criou sem a influência da cultura judaico-cristã”152. A globalização tecnológica se caracteriza como um sistema unificado de técnicas, informando e permitindo ações imediatas, em convergência dos momentos, em que não mais interessam passado ou futuro, ou ali ou lá. Existem o aqui e o agora, da decisão e da ação. As empresas mundiais produzem em escala global e disseminam a competição. O acirramento da disputa por novos mercados e fidelização de novos consumidores se fundamenta na busca de mais lucro e poder. A técnica não é apenas instrumental e sua influência não se limita ao âmbito de seus avanços. Implica também, na adesão aos valores, à finalidade e ao uso dessa tecnologia, e na forma como intervém na cultura, economia, organização de vida dos povos. A globalização tecnológica cria uma consciência ética mundial153. É o terceiro pilar, da mais-valia globalizada que transforma as relações e os valores. Identificada, segundo Milton Santos, na metáfora do motor único que ferozmente move as turbinas da globalização, a mais-valia universal é a contra-face da idolatria do capital e a conseqüente corrida pelo acúmulo. As pesquisas, avanços científicos, qualidade total, aumento de produtividade, justificam-se na busca da ampliação do lucro. A lógica do capital desenfreado orienta o futuro da humanidade, seguindo suas próprias prioridades, articuladas em torno da idéia do lucro máximo em curto prazo154.

A Ética da Libertação de Enrique Dussel denuncia e condena os desmandos da sociedade capitalista movidos pela mais-valia. Esta, ao negar os direitos dos operários, nega a vida e a dignidade da vítima, em função do lucro (totalidade em movimento). Entretanto, a vítima a partir da opressão vivida, questiona, interroga, apela, interpelando seu semelhante. É o semelhante que se situa diante de outro semelhante, exigindo o reconhecimento dessa semelhança e da sua radical diferença. A corporalidade é a materialidade radical que clama incessantemente pela vida, naquilo que é mais fundamental: tem fome! Sua presença não é idéia ou abstração. Para Dussel, sua face revela a dor de suas entranhas que se contorcem diante da negação do alimento, da exploração, da mais-valia acumulada155. Daí a necessidade de uma ética da resposta às necessidades da vida, desde o básico como o comer, o beber, o existir, como afirmação da dignidade unitária do sujeito ético corporal.

Estabelece-se, assim, a base para o desenvolvimento dusseliano da Ética da Libertação. Para Dussel: “Este é o horizonte, no processo de globalização da Modernidade, em que surge esta Ética da Libertação que, com dificuldade, mas não impossibilidade, aspira a ser também compreendida no atual ‘centro’ norte-americano e europeu”156.

Para tanto, faz-se mister desmascarar a realidade que, por vezes, oculta suas reais pretensões.


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