Belo horizonte



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3.3 A globalização como fábula


Não há um consenso na literatura especializada sobre a semelhança ou diferença entre a estrutura narrativa de fábulas e mitos. Fábula é uma estrutura retórica, representação por excelência, que pode utilizar linguagem mítica, mas não se remete às questões a que o mito responde, como identidade, transcendência, destino, fatalidade, impotência humana e conflito. No entanto, fábula e mito têm correspondência enquanto narrativas, e enquanto discursos que se estabelecem para além das molduras narrativas em que são recontados. Ambos são pedagógicos e funcionam como mecanismos de socialização. A fábula está ligada à mimética de Aristóteles, ou seja, à retórica e aos efeitos, que produzem significação. Denomina-se mesmo a tal estrutura como fábula-mito. Para os efeitos do desenvolvimento do tema, assume-se a intencionalidade da fábula diferente da estrutura narrativa e sócio-educativa do mito.

A fábula, aqui, é narrativa para explicar relacionamentos, status quo e construir a naturalização ideológica necessária para a instauração da totalidade e da universalidade, próximo aos mecanismos de manipulação da linguagem conativa (da propaganda e publicidade). Assim, o momento da fabulação coincide com o empenho do sistema enquanto totalidade, de impor a realidade da globalização como viável e meio eficaz de realização do ser humano. Única forma de otimizar a existência humana. O que não ocorreu:

A possibilidade de que tenham vida como resultado e reflexo do desenvolvimento dos países desenvolvidos e das classes privilegiadas de nossos países se revelou nessas décadas como uma ilusão e na presente conjuntura como uma ideologização. Na América Latina estão, desta forma, indissoluvelmente unidos o problema da existência e da subjetividade157.

A globalização como fábula desenvolve o ideal de que o capitalismo salvará o mundo, minimizando o desemprego, melhorando a qualidade de vida e promovendo a dignidade do ser humano. Como mote fundamental está a concepção de que a salvação da humanidade não pode ser realizada fora do modelo de produção capitalista, pois “fora do mercado não há salvação”, enquanto conceito que apreende a todos158. É responsável pela propagação de uma realidade maquiada, tal como fazem vê-la e crer:

A globalização é um mito e o mercado total é um mito, uma nova classe impõe uma ditadura de fato, limita os poderes dos Estados e transforma a democracia em fachada ou comédia, controla o pensamento único e condena à exclusão, ou seja, à miséria da nova pobreza a maioria da humanidade159.

O conteúdo da fábula confere significado, por vezes único, a uma realidade não somente plural, mas complexa e ambígua. Esvazia o sentido da realidade concreta, mascarando-o e conferindo-lhe intencionalidade e novas dimensões. A informação propagada exerce o duplo papel de instruir e de convencer acerca do que melhor convém à lógica do senhorio do capital. O mundo das fabulações afirma como verdade uma série de fantasias que, pela força de sua repetição, firma-se como construção sólida e inquestionável. Para Milton Santos, “o evento já segue maquiado ao leitor, ao ouvinte, ao telespectador, e é também por isso que se produzem no mundo de hoje, simultaneamente, fábulas e mitos”160. Percebemos que, introjetada pelo sujeito, a fábula adquire estatuto de moral vigente, de verdade inquestionável.

Em busca dos ditos bens da globalização, vários governos latino-americanos adotaram modelo de política pautado nas privatizações, na utilização de mão de obra em grande escala e barata, no subsídio a multinacionais, gerando inúmeras crises sociais. No caso brasileiro, os ideais políticos do ex-presidente Fernando Collor de Melo e, mais recentemente, do também ex-presidente e sociólogo, Fernando Henrique Cardoso se revestiram desse

[...] projeto utópico do sistema-mundo vigente que se globaliza (econômico, político, erótico, etc.) se descobre (à luz de suas próprias pretensões de liberdade, igualdade, riqueza e propriedade para todos, e de outros mitos e símbolos...) em contradição consigo mesmo, já que a maioria de seus possíveis participantes afetados se encontram privados de cumprir com as necessidades que o próprio sistema proclamou como direitos161.

Para Milton Santos, dentre as principais fabulações da globalização destacam-se a aldeia global, a compressão espaço-tempo, e a desterritorialização e, intrinsecamente, legitimam e se organizam em torno dos três pilares da globalização: unicidade da técnica, convergência dos momentos e potência transformadora da mais-valia.

Tais fabulações serão tratadas nos próximos tópicos (A aldeia global, A globalização faz repensar espaço e tempo e Os novos espaços advindos da globalização), no intuito de desmascarar a realidade da globalização atual que se apresenta e quer se fazer passar por grande bem para a humanidade.


3.3.1 A aldeia global


Para Ianni, a noção de aldeia global faz crer que a transmissão e propagação imediata das notícias mantêm informadas as pessoas: tudo e todos interligados em um grande sistema reticular162. O mundo cognoscível disponível num piscar de olhos ao alcance da mão. No entanto, para Sidekum, “em vez da aldeia global e do encurtamento das distâncias, o que ocorre é a globalização de uma humanidade egoísta, competitiva, consumista, corrupta”163. Tal comunicação mediatiza-se por objetos e não por intermédio das pessoas; objetiva a lucratividade e não o bem comum. A notícia é veiculada pela mídia como se não fosse interpretação proposital e interessada, quando não interesseira dos fatos. Percebemos que as relações pessoais não têm sentido ou qualquer função referencial, o confronto com o outro não acontece. É mais fácil precisar o número de vítimas de um tornado ocorrido do outro lado do planeta a dar conta do que acontece no apartamento vizinho.

No processo alienante e tirânico da informação em tempo real e de acesso ilimitado, os acontecimentos tornam-se aleatórios, são apenas aquisições que não comprometem e não evocam a responsabilidade pelo outro. O objetivo não é gerar ou despertar a consciência crítica, mas, antes, conduzir à atitude de receptáculo da notícia veiculada para satisfazer às exigências do mercado. Além disso, constatamos que a informação como produto de consumo toma-se instrumento criador e mantenedor de desigualdades.

A partir da leitura de Milton Santos e Ianni, percebemos que a globalização é vivenciada pelos diversos sujeitos na sociedade de modos diferenciados. O lugar do sujeito, cultura, política, economia, determinam em que situação tal processo é assimilado: se como oportunidade ou ameaça. Por sua complexidade, o mesmo ator pode experimentá-la sob várias formas. Pode ter a mão-de-obra explorada e o fruto do trabalho supervalorizado e, simultaneamente, se beneficiar da oferta de artigos importados a preços baixos.

Na dita aldeia global, a informação encontra-se, ainda, a serviço da expansão do capital. Um pequeno número de cidades detém poder econômico maior que a maioria do globo e, assim, “a famosa ‘aldeia global’ é apenas um arquipélago”164. As cidades que compõem esse arranjo privilegiado empenham-se em produzir e acumular riquezas, no mesmo espaço e tempo em que grande parcela da população torna-se marginalizada e pobre, órfã dos tão sonhados benefícios da globalização. É o que Dussel comprova ao ressaltar a globalização da produção das vítimas.

Na aldeia global, os meios de comunicação produzem o consumidor antes mesmo que a mercadoria exista. A publicidade não informa sobre o produto e sua função consiste em oferecer mecanismos de escape para compensar frustrações e alimentar fantasias, legitimando a voracidade do ter, elevando ao máximo o ideal de que se vale o quanto se pode consumir.

Essa cultura de consumo condena o produto a ser descartável, sob a égide de uma nova ordem: o novo. A moda está a serviço do fluxo comercial, cujo objetivo é vender sempre e mais, por isso, os produtos já nascem fadados a serem superados e há de se consumir a última novidade: “[...] os objetos atuais nascem com uma vocação mercantil, diferentemente dos outros objetos, vindos dos períodos anteriores”165. A tecnologia, como a representação máxima da novidade, de status e futuro, desempenha papel de organizadora e mantenedora das relações sociais, servindo como instrumento de dominação, pois instigam o consumidor à intensa busca de novos produtos. Nesses termos, segundo Frei Nilo Agostini, “a mentalidade calculista e tecnicista, aliada à rápida industrialização, está reduzindo o ser humano a peça de uma máquina de produção e consumo”166.

O Estado e a política são outros meios de legitimação dos ideais da globalização, totalidade em movimento. O conceito de liberdade é vinculado pela propaganda à capacidade de consumo do indivíduo, superpondo o ideal de liberdade à satisfação do desejo de consumo. Liberdade e cidadania são idéias que pouco ou nada têm a dizer. Realidades inócuas frente à demanda de satisfação dos desejos e da luta pelos privilégios da globalização.

3.3.2 A globalização faz repensar espaço-tempo


O avanço da tecnologia da comunicação e informação, sobretudo da internet, faz repensar espaço e tempo, surpreendendo pela velocidade da transmissão de dados. Segundo Milton Santos, a utilização da tecnologia também está a serviço do mercado, como meio de difusão para um pensamento único, totalitário e totalizante167.

Certamente as distâncias são encurtadas pela velocidade dos meios de transporte e de comunicação e a tecnologia ilumina e enche de esperança a história humana. Assim, não é inadequada a idéia de que aprimorar as técnicas é condição para a realização da globalização, e ambas, técnica e globalização são instrumentos para humanizar a vida e facilitar o dia-a-dia das pessoas. O que se assiste, no entanto, é que o progresso técnico se concretiza e a globalização se instaura, mas não a serviço da humanidade. Milton Santos afirma que: “A globalização mata a noção de solidariedade, devolve o homem à condição primitiva de cada um por si e, como se voltássemos a ser animais da selva, reduz as noções de moralidade pública e particular a um quase nada”168.

Nessa perspectiva, Sidekum considera que o acelerado progresso das técnicas, em contraposição ao declínio da moral, marca a construção do modelo de história vivido nos últimos anos da virada do milênio, no qual se sublinha a “dificuldade moral que acompanha a política dos países afetados pelo lado perverso da globalização, principalmente na realização dos programas essenciais e fundamentais para a população: criar emprego para todos, elevar o nível de instrução [...]”169.

A compressão do espaço-tempo se deve ao estreitamento das relações no mundo capitalista. As decisões podem ser tomadas mais rapidamente, com maior precisão e com menor custo, graças à comunicação via satélite e à queda dos custos de transporte e se refere “ao movimento e à comunicação através do espaço, à extensão geográfica das relações sociais e a nossa experiência de tudo isso”170. A partir da leitura de Milton Santos, tal noção de compressão é excludente, pois não está disponível na mesma medida a todos, beneficiando apenas os detentores das técnicas.

Por isso, a construção ideológica trabalha por tornar natural, universal e indiscutível a realidade de um tempo e espaço novos. A questão que se impõe é justamente desconstruir o imaginário em torno de um espaço-tempo contraídos como realidade presente, pois não são realidade para todos171: “[...] as distâncias têm significações e efeitos diversos e o uso do mesmo relógio não significa igual economia de tempo”172. As noções de espaço e tempo modificam-se gerando e acentuando as desigualdades. A velocidade está disponível para número limitado de pessoas, da mesma forma que passagens aéreas, cirurgias avançadas, mesmo a internet, não alcançam a maioria da população e grande parte se vê excluída desses ditos bens da globalização.

3.3.3 Os novos espaços advindos da globalização


A noção de localidade e de pertença a uma terra e a uma história tornou-se fluída com a globalização. Nesse sentido, as pessoas, idéias e coisas não mais pertencem a determinado território ou tradição. A cada momento, circula-se por um novo lugar. Daí a noção de desterritorialização, desenvolvida por Ianni, com base no ideal de “cidadão do mundo”, em que “muitos são os que se desterritorializam, buscando outros espaços e horizontes, reterritorializando-se aquém e além do fim do mundo”173.

Milton Santos contrapõe tal afirmação com a idéia de multiterritorialidade, ou seja, o mesmo sujeito dispõe de vários espaços. A utilização de diversos locais diferentes não significaria uma falta, antes, o uso de maior variedade. Não raro pessoas moram em uma cidade, trabalham em outra, estudam entre ambas, percorrendo grandes distâncias, mas nunca na ausência de um chão para pisar. Do mesmo modo, as idéias da globalização não levitam num espaço estanque de um território. Mediante o espaço que as porta, percorrem os territórios, globalizando-os e sendo por eles globalizadas.

Assim, a pertença a uma aldeia global, em que as noções de espaço e tempo naturalizam um eterno presente sem futuro ou passado, em que o desejo não deve encontrar quaisquer barreiras à satisfação, não permite compromissos com uma terra ou uma gente. A multiplicidade de terras e gentes pertencem ao mercado. Tais fabulações permeiam a globalização, permitindo que se construa a realidade a serviço da propagação de perversidades, em uma única totalidade: o mercado econômico. É o espaço do mercado, no tempo do mercado para perseverar no mercado.

O momento das fabulações revela a face desumana da globalização como realidade perversa em franca expansão. Compreender as fabulações da globalização atual permitirá posteriormente confrontá-la com a Ética da Libertação de Enrique Dussel. Revelar a perversidade presente no processo em marcha é caminho para se propor a globalização da face humana, comprometida com a vida, em oposição à face desumana e perversa a seguir apresentada.


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