Belo horizonte



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3.5 Globalização e cultura


O membro de outra cultura, o Outro cultural, ‘interpela’ em defesa dos direitos culturais próprios do seu povo (africanos, asiáticos, indígenas latino-americanos, negros norte­americanos etc). É uma luta de vida ou morte206.

Sustentamos que a globalização atual utiliza a cultura como meio de transformar o ser humano em grande consumidor. Valoriza o outro somente como potencial a serviço do lucro, mera mercadoria. Para merecer destaque nessa sociedade, homens e mulheres precisam ser competitivos, explorar recursos e otimizar dividendos. A globalização atual desumaniza o planeta, reduzindo-o a grande mercado, em que tudo se torna mercadoria, processo de coisificação das pessoas, idéias e culturas. Tudo pode ser explorável e descartável a fim de se poder lucrar mais. Trata-se “de um materialismo globalizado que é puro e duro, ateu e fundamentalista, frio e sem coração, individual e somente lucrativo”207.

Destruição cultural através do desvio de tudo em função dos valores do capitalismo, ou seja, mudança do sentido de educação, dos meios de comunicação, da filosofia e também da religião para legitimar o processo capitalista, instrumentalizando todo o aparato cultural para apoiar o projeto e legitimar os objetivos do neoliberalismo208.

A imigração na América Latina, impulsionada pelo motor da história do colonialismo capitalista europeu, ofereceu, potencializando outros elementos históricos e sociais, as condições germinais para o processo de integração de territórios, espaços econômicos, expansão da fé cristã e construção de utopias sociais. Constatamos que nos países em que tal imigração foi mais intensa, menor foi a preservação das bases sócio-culturais dos povos nativos. O impacto da globalização econômica e cultural sobre as populações originárias e tradicionais gerou e gera migrações e desenraizamento social, cultural e religioso. Ocorreu também a exclusão cultural e o conflito de identidades, assim como a intolerância ao modo de ser do outro, a ponto de manifestações artísticas serem consideradas inferiores e costumes negados como estilo de vida. A totalidade impôs único modus vivendi e culmina em expropriar o cultural “[...] de sua variedade, dramaticidade e sacralidade: foram colocadas em seu lugar a tecnologia, a padronização embrutecedora, a violência dos instintos, a barbárie da força”209.

Pensamos que no mundo globalizado deveria ocorrer a convivência pacífica da diversidade, o respeito às culturas numa reciprocidade que as enriquecessem pela co-existência e convivência. Apesar de a globalização ser definida como o desaparecimento das fronteiras, culturais, econômicas, sociais e religiosas. Esta tendência supõe, às vezes, uma homogeneização cultural. Isto se deve à forma de domínio imperialista do mais forte sobre o mais fraco. A globalização atual exerce influência substancial na vida da sociedade ao impregná-la dos valores do conquistador, negando os valores e a cultura do outro. Caso notório, para Ianni, é a ocidentalização do mundo, exemplificada no fato de a língua inglesa se tornar língua universal, justamente por ser a língua comercial e das chancelarias210.

As implicações da Ética da Libertação coincidem com o reconhecimento da dignidade do ser humano. Pretende restaurar a vida da sociedade no âmbito político, econômico, cultural, a partir dos que são os menos favorecidos. A pretensão última de Dussel é justificar a luta das vítimas pela libertação e não, simplesmente, argumentar racionalmente para fundamentar a razão por causa de si mesma211.

Sendo a cultura, a representação da identidade, pensamento e expressão de um grupo, povo, coletividade, os efeitos da globalização atual minam-lhe a riqueza e peculiaridades. A globalização nega a alteridade. Busca incorporá-la ao se impor como nova totalidade em expansão. Estamos certos da interferência de tal situação na vivência da fé cristã. A fé manifesta-se também por meio da cultura sujeita a nuances que podem ora proporcionar espaços para que a fé se desenvolva, ora negá-la ou mesmo subsumi-la.

3.6 Globalização versus fé cristã


A globalização afeta realidades múltiplas da vida humana. O modo como o cristão vive e professa sua fé é impactado, tanto positiva como negativamente, pelos embates da globalização. Interessa, neste curso investigativo, pensar a contribuição da globalização para a vivência e propagação da fé cristã, identificando o que, do universo ambíguo que a compõe, apresenta-se como positivo ou negativo e qual a resposta da fé cristã face à complexidade dessas questões. Adiantamos que não há respostas definitivas ou a priori. O que pretendemos não é simples exercício retórico. Entendemos que o que se alcança é levantar a questão e apontar direções, ressaltar desafios, como forma de interpelar a realidade que se impõe a fim de melhor compreender as transformações vividas na atualidade. Todo esse esforço não é sem resposta, mas apenas e limitadamente uma forma disponível a esta pesquisa de intervir na realidade de maneira cristã coerente.

3.6.1 Perspectivas positivas da globalização para a fé cristã


Vez que se têm consciência da complexidade e da ambivalência inerentes à globalização, compreender os modos como incide sobre a fé e a vida cristã é tarefa imensurável que extrapola os objetivos e os recursos desta investigação. No entanto, é também tarefa que não pode ser evitada ou negada. Há que se realizar, ao risco da limitação, da superficialidade, da impotência, ou ainda, de reducionismos inevitáveis.

Para Libanio, com os avanços tecnológicos, as informações transitam mundialmente repercutindo na evangelização. A Igreja se vê diante da possibilidade de falar ao mundo inteiro, em tempo real. Importantes eventos religiosos, políticos, culturais podem ser vistos em todos os continentes. Os acervos das bibliotecas podem ser consultados virtualmente pelos que têm acesso à internet. Autoridades mundiais podem se reunir, estando cada qual em seu país/cidade, por meio do sistema de vídeo-conferência. “É no campo da informação e comunicação de conhecimentos que a globalização mais positivamente colabora com a pastoral”212. As mensagens do Papa são difundidas em tempo real. Por ocasião do grande Jubileu do ano 2000, a Igreja lançou um projeto de conscientização em âmbito mundial. A Igreja fala às comunidades das ditas cidades globais, embora o interlocutor não seja mais o mesmo e a fé não poderia estar alijada desse fazer globalizado. Atesta Libanio: “Tal fenômeno atinge o anúncio da fé. Certos pastores americanos já conseguem falar a bilhões de fiéis com seus teleprogramas religiosos. No mundo católico, alguns personagens, especialmente o papa João Paulo II, têm alcançado o mesmo nível de audiência. É a globalização de atos religiosos, de mensagens de fé213.

Na difusão da mensagem cristã, dá-se o encontro e o confronto das culturas, da diversidade do pensar e da religiosidade, em processo que amplia os horizontes de compreensão da realidade. Segundo Milton Santos, com a globalização do mundo, as possibilidades do enfoque interdisciplinar tornam-se mais amplas e eficazes, na medida em que a análise fragmentadora das disciplinas particulares promove o processo de reintegração e reconstrução da visão de conjunto214. O contato cada vez mais efetivo com o mundo do outro, alteridade rica em significação, conduz à possibilidade de formação de redes de solidariedade em prol da causa dos desclassificados do sistema. Na mesma medida, facilita-se o diálogo inter-religioso que se impõe pela própria força do confrontar-se com o acontecimento da vivência religiosa do diferente. “A teologia responde à globalização repensando a fé cristã no paradigma do diálogo inter-religioso”215.

O diálogo inter-religioso, por sua vez, enfrenta o tema do fundamentalismo. O diálogo, a abertura ao outro é o caminho de se desenvolver novas identidades religiosas que resultam de verdadeiros encontros. Numa visão mais abrangente, convoca os cristãos ao diálogo com as religiões não-cristãs. Notamos que a globalização amplia a possibilidade do diálogo inter-religioso, uma vez que se torna mais urgente. Compete aos cristãos se unirem na luta contra a pobreza e dinamizarem a construção de um novo mundo.

O questionamento dos paradigmas, frente à diversidade, conduz à revisitação das fontes primevas em busca da experiência originária, o que pode se dar positivamente no intuito de busca do referencial, do relato inaugural como fidelidade à fonte primeira que originou a tradição Nessa perspectiva, verificamos que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), atenta aos sinais dos tempos e aos anseios das pessoas nas diferentes realidades, ilumina o caminhar da Igreja por meio da promoção de projetos nacionais de evangelização. No que tange à aproximação das igrejas cristãs, anualmente promove-se a semana de oração pela unidade dos cristãos.

Diante dessas questões, os caminhos encontram-se abertos e fluídos. Espanta a velocidade com que surgem oportunidades e questões. Compete à fé manter-se em atitude de alerta para, criticamente, se posicionar e não cair em descrédito, perdendo o caráter pedagógico que lhe é próprio como norteadora da práxis cristã.


3.6.2 A globalização impõe desafios à fé cristã


Apesar das múltiplas possibilidades que se apresentam, como se viu no item anterior, a globalização impõe à fé cristã constantes questionamentos. Entre eles, a revelação é abalada pela lógica da racionalidade vigente e pelo universo de crenças e práticas religiosas diversas. Diante dessa diversidade, conforme Libanio, o conteúdo da fé e a revelação de Deus são relativizados216.

Como instituição, a Igreja vê-se obrigada a se posicionar frente à nova realidade, sem deixar-se contaminar pelo risco das fábulas da globalização. Como instituto histórico e sócio­-cultural-humano, na Igreja, enquanto “instituições religiosas encontramos também uma forte adesão aos princípios das instituições globalizadas”217. Percebemos que a racionalidade da globalização atual tende a enfraquecer a noção de solidariedade, e se choca contra os valores cristãos de acolhida, serviço, amor ao próximo e respeito à vida, princípios dos quais a Igreja não pode abrir mão. O enfraquecimento da família, a perda das grandes narrativas, bem ilustram tal afirmação.

Como efeito do processo de globalização, os componentes críticos da racionalidade tecnológica e do mercado minam a legitimidade das grandes narrativas no campo ético e nas religiões218. Por ser polifônica, multifacetária, polivalente, ambígua, caleidoscópica, características muito ressaltadas por Ianni, a globalização acentua tanto fundamentalismos como relativismos. Seus veios favorecem o desenraizamento com tendência à exaltação do relativo. O choque das diferenças provoca defesa e legitimização de determinada crença em detrimento de outras, ao produzir realidade fragmentada. A verdade é particular e o referencial se pauta no pensar subjetivo. O extremo oposto a tal tendência gera o fundamentalismo, causador de conflitos religiosos e guerras. A emergência do pluralismo cultural e religioso esfacela a verdade, o rito: o relato cristão. Põe em cheque os “grandes relatos”, inclusive o teológico.

Em face da fragmentação, constatamos não haver espaço para as metanarrativas, dentre as quais consideramos, por excelência, a narrativa cristã. No universo fractário de muitos pequenos relatos e choques de alteridades, a crise de identidade fermenta-se, constatada na ausência de paradigmas, desvalorização dos ideais de vida em comunidade, descrença dos valores transmitidos pela fé e instrumentalização da religião e de Deus. Desloca-se o conceito de sagrado e “[...] Deus tende a ser transformado em objeto de ‘meus desejos’, a religião, bem de mercado em busca de prosperidade material e de saúde física e psíquica”219. Buscam-se as religiões como meio de se satisfazerem as necessidades pessoais e de relações de troca de favores com o sagrado. No mundo globalizado, configurada como produto, a espiritualidade reduz-se a bem de mercado. Criam-se as religiões e religiosidades do consolo, da felicidade, da busca de soluções imediatas. O senso comum anuncia que todas as religiões são verdadeiras. Instala-se como desafio para a Igreja, produzir reflexão teológica capaz de responder a tais situações e, com responsabilidade, afrontar a realidade da vida em áreas urbanas.

A agudização do individualismo alimenta a produção de “verdades” subjetivas e fragmentadas. A relatividade fermenta o paradoxal, o anômico, a inviabilidade da partilha pela impossibilidade de identificação, revelando um cotidiano em crise de referencial, vivido diuturnamente como crise, vez que: “[...] pelas mãos do mercado global, coisas, relações, dinheiros, gostos largamente se difundem por sobre continentes, raças, línguas, religiões, como se as particularidades tecidas ao longo de séculos houvessem sido todas esgarçadas”220.

Em tal mosaico composto por miríades de “verdades” subjetivas, verificamos que o pluralismo religioso e cultural se revela desafio para a Igreja no tangente à evangelização. Impele a fé à tarefa hermenêutica, frente à necessidade de evangelização inculturada que dê conta da singularidade e multiplicidade da experiência religiosa. O desafio reside em promover a busca de respostas pertinentes, consistentes e atuais, com o aprimoramento da práxis que se reinventa para responder às exigências que se avolumam, mas também em convidar e convencer os teólogos e sacerdotes a se debruçarem sobre a reflexão dessas novas questões.

A Igreja defronta-se com a necessidade da superação do relativismo ético. Mais. Há considerável queda no valor atribuído à ética, que cede lugar aos anseios da estética. As pessoas deixam-se pautar mais pelo culto ao corpo, por ideais de beleza, pela moda, pelas efemeridades proporcionadas pelo ter, que pela vivência da ética, pelo caminho de construção de realidade nova. Portanto, o desafio, “nesse campo, está em anexar a técnica e o conhecimento científico à ética, capaz de dar-lhes uma dimensão teleológica, de finalidade, de razão, mais além do lucro e do progresso pelo progresso”221.

Acrescentamos, a tais complexidades, a dificuldade de se manter a autenticidade da fé que, por vezes, carece de conteúdo capaz de se posicionar com êxito frente aos conceitos hoje considerados valiosos (sobretudo o lucro). É forte o ecletismo, no qual as pessoas constroem versões pessoais da religião, costurando elementos os mais díspares das diversas crenças disponíveis no “mercado”, articulando, sem nomear explicitamente, o sincretismo religioso. Ora,

A globalização da informação, da notícia, de elementos culturais, torna acessíveis às pessoas, visibiliza-Ihes as mais variadas formas religiosas. Oferece-lhes a possibilidade maior da sincretização da fé, ao permitir-lhes compor elementos avulsos, e até mesmo contraditórios, de religiões diversas numa religião própria, sem preocupação com sua sistematicidade222.

A globalização corrói as culturas tradicionais e as crenças religiosas, acentuando as reações das identidades locais ao pensamento único. Convivem, sem qualquer harmonia, a tendência de homogeneização das culturas e a emergência de identidades locais que resistem. A fé cristã opera em meio a tal conflito, e busca renovar-se e adequar-se à realidade aberta ao diálogo ecumênico e inter-religioso. Inevitavelmente, testemunha-se o choque entre a religião institucional e as expressões religiosas não-conservadoras. Valores cristãos até então consolidados, chocam-se com a realidade multifacetária da globalização.

Na perspectiva eclesiológica, Mário de França Miranda identifica que a Igreja:

[...] se encontra duplamente desafiada pelo fenômeno da globalização. Primeiramente porque deve enfrentar o impacto cultural dela na mentalidade humana. [...] O segundo desafio é de cunho ético e provém, sobretudo, da globalização da economia. A Igreja está atenta aos efeitos maléficos do dinheiro como aparece de sua doutrina social. A paz e a justiça no mundo, a preservação do meio ambiente e das condições de vida, a repartição dos alimentos, a própria ‘governança’ do planeta com a criação de entidades reguladoras supranacionais são imperativos à consciência cristã que exigem convicções, consensos e decisões colegiadas223.

Situamos, no que tange à vida religiosa, que esta sofre o bombardeio de culturas que valorizam a riqueza, o poder e o prestígio, e que fomentam a liberdade sexual, a cultura do descartável e o individualismo. Valores antagônicos à mensagem cristã e que se propagam entre jovens que se encontram cada vez mais carentes de referencial e de identidade.

O Cristianismo não sofre sozinho o embate da globalização. A idolatria do capital e a emergência de uma ética dos valores fragmentados apresentam-se como desafio comum às religiões cristãs. Consideramos que os desafios impostos à fé cristã pela globalização atual exigem atitudes não simplesmente de defesa. Urge diálogo, abertura, encontro. Há de se preservar a identidade da fé cristã, sem, entretanto, privar-lhe do diálogo e encontro com a racionalidade atual. A fé cristã não pode esquivar-se do papel de interlocutora e norteadora da ética cristã. Precisa enfrentar o desafio de dialogar com o mundo atual não simplesmente na atitude de defesa, mas na atitude de escuta e proposição de caminhos para uma globalização a serviço da vida.


3.6.3 O posicionamento da fé cristã frente à globalização


O projeto de Libertação dos oprimidos e dos excluídos é aberto, partindo da exclusão do Outro e indo mais além (jenseits) de qualquer situação apresentada224.

A vivência da fé cristã é ponto pacífico a iluminar a compreensão da realidade. Às comunidades devem ser oferecidos os pressupostos para a demitologização da globalização, por meio de posicionamento crítico e contestador da dominação, inspirado na práxis libertadora de Jesus, fundante da Ética Comunitária de Libertação.

Importa ressaltar a práxis cristã de libertação que remete a outro sistema, que há de acolher, na revelação da alteridade, a revelação de Deus. Aqui se insere, segundo Dussel, a Ética da Libertação, que vem “há muitos anos insistindo na ‘interpelação’ do outro perante um ouvido que saiba ouvir (que denominamos ‘consciência ética’ no sistema), como origem do processo de libertação”225. Assim, no amor-de-justiça, há de se desenvolver a vida humana, por meio de outra globalização, a globalização da solidariedade.

Conforme Milton Santos, a globalização, ainda que totalitária e perversa é, em si, condição de possibilidade para se rejeitar o processo de desumanização e acatar outra globalização possível, em um mundo possível. Em contraposição à globalização que se impõe de cima, vinda do centro, há um movimento ascendente, vindo da periferia. Tal movimento tem a marca do “[...] crescente desencanto com as técnicas, acompanhado por uma gradativa recuperação do bom senso, em oposição ao senso comum [... ]”226.

A Ética da Libertação, para além dos princípios morais vigentes; subsidia a promoção da libertação do ser humano, ao indicar o agir cristão que valoriza o outro, não apenas como exterioridade, mas como proximidade. Lembrando João Paulo II: “[...] próximo significa também aquele que cumpriu o mandamento do amor ao próximo”227.

A globalização atual requer interpretação multidisciplinar que desvele o papel da ideologia na produção da história, a fim de mostrar os limites de seu discurso frente à realidade vivida pela maioria das nações228. A Teologia tem a contribuir com a Ética e as Ciências Sociais. Os valores cristãos são valores de alcance mundial e de promoção da vida humana. A antropologia cristã afirma a iniludível dignidade humana, pressuposto na busca do bem comum a todos.

No tangente à Eclesiologia, lembramos que a Igreja exerce sua vocação profética à medida que denuncia a opressão, se empenha na promoção do amor universal, recusa fechar-se na defesa de privilégios particulares e vive a fé comunitariamente. A vida cristã em comunidade pressupõe a visão de uma realidade que integra aspectos globais e locais e a busca de mais inclusão que exclusão, vida em comunhão. A fé não é experiência individual, apologia do narcisismo, mas se expressa no plural do “nós” que se dispõe e propõe crescer na presença provocadora e desafiadora do outro. Por meio de constante diálogo e abertura ao outro, a fé cristã promove o respeito à diversidade e integração do outro numa co­existência pacífica. Também a Igreja, a exemplo Jesus, deve seguir comprometida com a causa dos pobres, despojando-se do desejo de poder que escraviza, como condição para estender a mão ao pobre. Segundo Comblin, se “o cristianismo favorece o espírito de liberdade e de iniciativa [é] exatamente para dominar o mercado [e, assim] defender os direitos dos pobres e dos fracos e limitar o poder dos grandes”229.

Há que se trabalhar na promoção de comunidades locais de solidariedade, vez que “a plena dignidade do sujeito se experimenta no encontro com os demais. Este princípio denuncia qualquer forma de discriminação, de exclusão e de opressão”230. A fé cristã deve difundir os valores que a sustentam e identificam: partilha, solidariedade, inclusão e respeito. Tais valores possibilitam a promoção da vida tão desejada pela Ética da Libertação de Enrique Dussel.

A práxis pastoral local deve ser também práxis política global. Aquilo que se faz em prol do bem, em nível micro, há de se estender ao macro. A questão não é pensar globalmente e atuar localmente, mas sim, atuar globalmente e pensar localmente231, ou seja, transformar a realidade a partir de ações que incluam o todo, em âmbito holístico. Nessa perspectiva, a Igreja, segundo França Miranda, usufrui uma característica que facilita seu embate com a globalização: o fato de ser Igreja Universal e local232. Assim pode transmitir o que constitui seu patrimônio universal em cada lugar que se manifesta em sintonia com o todo. Desse modo, a Igreja pode efetivar o atuar global e pensar local. Diante da realidade local que se apresenta, compete lutar para a construção do novo que beneficie o todo numa perspectiva global.

À luz da Ética da Libertação foi possível iluminar uma primeira compreensão acerca da realidade da globalização atual e o modo como incide sobre a fé e a práxis cristã. As contribuições da Ética da Libertação trazem à tona tal discussão, necessária para o passo que agora será dado: o de apresentar e propor a possibilidade de outra globalização, agora humana, que não se paute nos valores individualistas, na racionalidade do mercado capitalista, mas na promoção da dignidade da vida humana, almejada pela Ética da Libertação.





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