Belo horizonte



Baixar 0.63 Mb.
Página15/23
Encontro19.07.2016
Tamanho0.63 Mb.
1   ...   11   12   13   14   15   16   17   18   ...   23

capítulo 4 - POSSIBILIDADE DE CONVERSÃO DO SISTEMA: DA GLOBALIZAÇÃO ATUAL A OUTRA GLOBALIZAÇÃO


A globalização constitui um choque brutal diante dessa vocação de harmonia quebrada pelas guerras. Isso é devido à primazia do econômico sobre o político, do instrumental sobre a finalidade e do dinheiro sobre o homem233.

Neste capítulo, adere-se à esperança daqueles que proclamam a possibilidade da irrupção do novo e à Ética da Libertação dusseliana, que acredita na transformação para propor a construção de outra globalização, humana, como possibilidade de vir-a-ser, ainda que tal proposta pareça, à primeira vista, ingênua e utópica234. Buscar-se-á iluminar, à luz da Ética da Libertação de Enrique Dussel, os caminhos teóricos de construção de nova realidade.

Na contramão daqueles que consideram essa hipótese utopia, a partir de Dussel, parte-se da afirmação, a priori, de que a realidade hoje carece de horizontes e alternativas, senão mesmo de utopia capaz de despertar e desenvolver a consciência crítica em prol da humanização do próprio ser humano e da garantia de sua sobrevivência235.

A simples possibilidade de outra globalização anuncia o fato iniludível de que a globalização atual não é irreversível o que se demonstrará num primeiro momento. Em seguida, apresentar-se-ão a resistência e os limites à expansão da globalização atual. Essas perspectivas serão abordadas maciçamente a partir da leitura de Milton Santos.

Para Enrique Dussel, a vida dos menos favorecidos é capaz de atuar positivamente na transformação da realidade. Isto é possível a partir da atitude ética de afirmação da própria vida e da tomada de consciência da opressão que a globalização atual produz. O protagonismo da vítima, no processo da própria libertação, não anula a necessidade de conversão do sistema. Pois, anuncia que o processo ético-crítico de libertação se origina com a vítima e, a partir dela, também convida o sistema à conversão. Sob a perspectiva da Ética da Libertação de Enrique Dussel, apontar-se-ão, indicativamente, possibilidades de concretização da nova ordem proposta. Não se perderá de vista as implicações teológicas relevantes para o presente trabalho. Por fim, apresentar-se-á o Reino de Deus como concretização histórica da escatologia última e sinal da conversão do sistema que há de se abrir ao amor-de-justiça e à solidariedade.

4.1 Para além do horizonte fechado da totalidade: por uma globalização humana


A centralidade deste último capítulo consiste em demonstrar, a partir da leitura de Enrique Dussel, a incoatividade da mudança presente no próprio processo de globalização atual. Outra globalização se faz possível porque a atual não é irreversível - tese que será defendida. As lacunas sociais apontadas anteriormente, a saber, aumento das desigualdades, desemprego e descontentamento das classes médias em vias de estreitamento, comprovam a porosidade dos alicerces da globalização atual. Sobretudo, no campo da Ética, a perda de referencial, a disponibilidade de um universo plural e a realidade poliforme questionam o ser humano e evocam o surgimento de realidade capaz de pautar a existência, incutindo-lhe sentido.

A possibilidade de outra globalização, humanizada e humanizante, coincide com o esforço de dar sentido à existência humana, comprometendo-a com a vida, tão cara à Ética da Libertação de Enrique Dussel. A promoção da vida, revelada na fome saciada e no amor-de-justiça presente no cotidiano da peregrinação humana, concretiza o Reino de Deus de horizontes amplos no seio da história.

Enfatizamos que os países periféricos resistem à globalização atual, oferecendo a base para a mudança de perspectiva. Outra globalização supõe a inversão na utilização das técnicas disponíveis, caracterizada não pelo serviço ao lucro, mas a serviço do ser humano. Para a realização dessa nova visão de mundo, o ser humano deve ser conduzido ao centro, como finalidade, razão de ser da técnica, e não como meio de produção de mais-valia geradora de desigualdades. Nessa perspectiva, a vítima exerce papel fundamental, cabendo-lhe o protagonismo236. Abordaremos tal ponto em tópico à parte à luz de Enrique Dussel.

A Ética da Libertação de Enrique Dussel, comprometida com a realidade latino-americana, contribui para a efetivação desse intento, com sua proposta em escala mundial. No já da história, há de se viver antecipadamente a concretização do Reino, posto que a realidade é passível de conversão.


4.1.1 A globalização atual é reversível


Partimos do fato de que a globalização atual, como processo aberto a mudanças, permite a busca de libertação. Tal afirmação vai de encontro da visão dos que detêm o poder. A globalização atual, guiando-se pela lógica da totalidade, empenha-se exclusivamente na propagação de “si mesmo”. Encontra-se em franca expansão. As nações dominantes consideram a forma atual da globalização irreversível, caminho sem volta. Os Estados Unidos da América difundem a idéia de que o progresso, o bem comum e a qualidade de vida reivindicada pelas grandes massas empobrecidas são os resultados esperados e inevitáveis do mercado único, da moeda comum. Em tal realidade, a racionalidade do global já se encontra em estágio de expansão considerada, via de regra, sem volta.

A realização da vida humana se vincularia ao desenvolvimento da globalização como instrumento de vida mediante melhores oportunidades de emprego, educação, consumo etc. Mas, o processo de expansão econômica e cultural, efetiva e simultaneamente, produz exclusão e marginalização e não o prometido padrão de qualidade de vida. E, no intuito de manter o status quo, o império da totalidade, na figura dos que detêm o poder zela pela manutenção da ordem vigente difundindo a idéia de que não existe possibilidade de retorno.

Defendemos a tese, a partir da leitura de Enrique Dussel e Milton Santos, que tal processo é reversível e já se vêem as bases para a irrupção do novo, nas resistências que se constituem limite à expansão da totalidade em movimento. Aos poucos, a gestação de nova ordem se fortalece, ainda que quase imperceptível. O que sustenta e difunde a novidade começa a se impor, quando o atual ainda se apresenta dominante237. Historicamente, é possível constatar que os impérios nascem, alcançam seu auge e têm seu declínio. A falência, queda ou declínio advém de mudanças, vislumbradas posteriormente. Os mecanismos de contenção do novo por vezes impedem que sejam notadas, enquanto seus alicerces serão, aos poucos, erguidos.

A presente pesquisa busca demonstrar que já se encontram em construção as bases para a edificação do novo, do descontínuo na história e que tais bases já se fazem notar em atitudes de solidariedade presentes na sociedade e nas comunidades cristãs. A concretização do novo requer tomada de compromisso pessoal tanto em nível local como global, para que os fundamentos já lançados cumpram seus desígnios de aportar a mudança.

Por outro lado, os que acreditam na irreversibilidade do atual processo parecem ter sido contagiados pela racionalidade do dominador (totalizaram-se e se limitam a reproduzir essa totalidade), considerada por Dussel como irracionalidade que se impõe como dominante. A existência da irracionalidade do sistema é estímulo para que surjam, em oposição, outras racionalidades, dentre as quais a possibilidade da reversibilidade do momento atual através da irrupção de outra globalização, à luz da Ética da Libertação de Enrique Dussel.

A possibilidade de mudança já se faz sentir. Está presente na concretude daqueles que resistem à idéia de que o processo de globalização atual e da expansão de sua racionalidade não pode ter seu curso mudado. O argumento dos que a consideram irreversível parte do pressuposto de que a promoção da vida depende de sua expansão, o que justificaria a hegemonia da racionalidade da globalização. Cabe-nos questionar, a parir da leitura de Dussel, qual e de quem, de fato, é a vida que se promove: dos que oprimem ou dos que são oprimidos. E, há que se prestar conta se há nessa vida que se promove na globalização dignidade para o oprimido ou condição de possibilidade para a conversão do opressor.

Sustentamos que a globalização atual só poderia se tornar hegemônica mediante a realização digna da vida das vítimas (fome saciada, frio aquecido, moradia digna, emprego...). Conquistar tal feito na América Latina e África, bem como nas regiões em que a realidade latino-americana e africana se repete é desafio para a vocação universalizante da globalização. Porém, ao acentuar as desigualdades, favorecer o racismo e a xenofobia, oferece à vida e à sua dinâmica, campo para a reação das vítimas que se apresentam como resistência local aos impactos ditos globais. A construção de nova ordem ocorre mediante a primazia do local sobre a totalidade. A totalidade há de se abrir à alteridade da vítima, a partir da interpelação da própria vítima, que acusa os desmandos do sistema e afirma a própria vida. Para Dussel, a consciência e conscientização da exterioridade da vítima em oposição à “verdade” do opressor promove libertação tal que não se reduz simplesmente a

[...] quebrar as cadeias (o momento negativo descrito), mas ‘desenvolver’ (libertar no sentido de dar possibilidade positiva) a vida humana ao exigir que as instituições, o sistema, abram novos horizontes que transcendam à mera reprodução como repetição de ‘o Mesmo’ - e, simultaneamente, expressão e exclusão de vítimas. Ou é, diretamente, construir efetivamente a utopia possível, as estruturas ou instituições do sistema onde a vítima possa viver, e ‘viver bem’ (que é a nova ‘vida boa’); é tornar livre o escravo; é culminar o ‘processo’ de libertação como ação que chega à liberdade efetiva do anteriormente oprimido. É um ‘libertar para’o novum, o êxito alcançado, a utopia realizada238.

A busca do novo, à luz dessa utopia possível, norteia o presente capítulo, fazendo-se atuante como fio condutor a impulsionar o percurso de superação da globalização atual. Demonstrou-se, no percurso encetado até este ponto, que as ações, ditas globais, são centradas maciçamente no dinheiro. Em nome do “deus dinheiro” infinitas vidas são sacrificadas:

[...] esse novo deus do homem proclama a produção da mais-valia como o único e o último sentido da vida dos homens. No entanto, o capital é um deus estranho, pois só vive à custa da vida dos homens: ele é o grande baal da modernidade, que exige, para viver, o sacrifício dos homens. No cerne desse sistema existe a compra e a venda da vida, já que o homem se faz mercadoria: ele não vale mais nada em si mesmo, só vale enquanto produtor [...]239.

Constatamos diuturnamente na realidade, a marca dos que cultuam o ter em detrimento do ser pessoa, numa inversão de valores que traduz a desvalorização do humano. O ser humano torna-se refém do capital, existência fadada ao serviço da mais-valia. Aprisionada a essa rede de relações, a vida humana não pode se realizar.

Ressaltamos que o critério ético-material da Ética da Libertação tem o desafio de promover a mudança de perspectiva, no sentido de, num primeiro momento, promover o novo a partir da tomada de consciência da vítima. É imprescindível reconhecer-se oprimido e excluído para se iniciar integralmente o processo de libertação.

A partir da leitura da Ética da Libertação de Enrique Dussel, bem como dos escritos de Geografia Humana de Milton Santos, propomos nova inversão, propriamente configurada como conversão, na perspectiva de lançar nova luz sobre o humano e pautar as ações em prol de seu bem. Tal conversão implica em atitude de ruptura com o sistema atual. Nessa ruptura, demanda-se outra globalização que “supõe uma mudança radical das condições atuais, de modo que a centralidade de todas as ações seja localizada no homem”240. Essa é a conversão de perspectiva, que traz para o centro o sujeito humano como protagonista e destinatário da ação, constituindo-o, ao mesmo tempo, sujeito, meio e fim.

Indicativo dessa mudança, já em curso, é a constatação, dos grandes centros urbanos às pequenas aldeias da China, da mistura de povos, culturas e gostos, promovendo o encontro de pensamentos diversos, filosofias, crenças, modus vivendi, em detrimento da superioridade e hegemonia do racionalismo e modelo europeu. Daí Milton Santos falar da “[...] produção de uma população aglomerada em áreas cada vez menores, o que permite um ainda maior dinamismo àquela mistura entre pessoas e filosofias”241. A diversidade fortalece a resistência ao alcançar alternativas criativas de sobrevivência e luta. A densidade de grandes aglomerados em pequenos espaços transforma a realidade ao proporcionar o encontro, confronto e troca de vivências que almejam a irrupção do novo. Diante dessa constatação, o mundo atual requer que as pessoas sejam, cada vez mais, abertas ao diálogo e ao encontro.

Compete às comunidades cristãs tal abertura numa atitude de serviço em prol da promoção da vida. Este movimento implica a recusa das comunidades ao fechamento em si mesmas, ao encapsulamento sobre si, diante da realidade múltipla, fragmentada e poliforme do entorno. Tal fechamento, presente em grupos e denominações fundamentalistas, constitui o se negar ao diálogo, ao face-a-face. Implica negar a própria existência ao eliminar o olhar que o outro devolve e constitui o sujeito alteridade única, distinta, e que, com sentido e questionamento, possibilita habitar o mundo do indivíduo. O não ao outro é pecado de absolutização da totalidade que se funda no eliminar a alteridade. Como apresentamos, a totalidade é vazia, infrutífera e cheia de si. É a existência de alteridades que garante o “colorido” da vida. Por isso, a abertura ao outro, ao diálogo e ao confronto há de marcar a trajetória da fé cristã na coexistência da pluralidade e busca de alternativas comuns. Desse encontro emerge a possibilidade de mudança, a reflexão se alarga e a distância se reduz. Por isso,

[...] junto à busca da sobrevivência, vemos produzir-se, na base da sociedade, um pragmatismo mesclado com a emoção, a partir dos lugares e das pessoas juntos. Esse é, também, um modo de insurreição em relação à globalização, com a descoberta de que, a despeito de sermos o que somos, podemos desejar ser outra coisa242.

Neste sentido, ressaltamos que o papel desempenhado pela manifestação da vida local é determinante. Mediante o movimento da totalidade do mundo em direção ao lugar em que a vida se apresenta singularmente e em constante permuta, o local surge como o espaço no qual as experiências se entrecruzam, a racionalidade dominante é questionada, emergem indagações sobre o futuro e as esperanças se renovam. No que tange ao presente pensar, a América Latina não é apenas lugar ou instância hermenêutica. Apresenta-se como realidade capaz de desenvolver e acolher outra globalização, alteridade criativa que constitui resistência ao desejo de expansão da totalidade. Enrique Dussel propõe tal conversão com pretensão de mundialidade. Esta pretensão se nutre da resistência latino-americana, cujo povo se une às outras vítimas mundiais da globalização. Mediante a conscientização e a busca de defesa da corporalidade ferida, os marginalizados clamam pela libertação “no deserto” da exclusão do mercado, da opressão consumista e da exploração das classes populares.

A globalização atual como processo aberto que pode ter seu curso mudado, alimenta a esperança de um mundo melhor. Quando demonstramos a reversibilidade da globalização atual, não indicamos que esta chegará ao fim. Sustentamos que seus objetivos podem ser outros. A globalização atual continuará em marcha, agora comprometida com a vida. A possibilidade de conversão do sistema somada à resistência dinâmica das vítimas favorece o advento do novo. Situar a resistência e os limites à globalização perversa equivale garantir o estabelecimento do novo processo crítico de libertação. Apresentar tais resistências e limites é o próximo passo a ser dado.


4.1.3 Resistência e limites à expansão da globalização atual


Apontamos que os limites do processo de perversidade a se globalizar e a resistência que a ele se faz têm origem nos locais em que se repete a realidade de privação e subdesenvolvimento latino-americano. A experiência de impedimento, de acesso e de marginalização em relação aos ditos bens da globalização, provoca e cataliza a resistência das vítimas mundiais. A reversibilidade da globalização atual, paradoxalmente, é devedora da situação de opressão que ela mesma gera. Para Dussel essa opressão possibilita a tomada de consciência da vítima, a partir do fato de estar sob o jugo da totalidade, na experiência de dominação. A vida da vítima é alteridade distinta do sistema. A corporalidade da vítima constitui o critério material da Ética da Libertação de Dussel e se apresenta como força, movimento e atitude que produz limites à expansão da globalização atual. Dussel admite não se poder subtrair o fato de a globalização atual ser devedora da racionalidade moderna. Entretanto, apresenta o que entende como três limites a tal racionalidade:

O primeiro limite absoluto: a morte da vida em sua totalidade, por meio do uso indiscriminado de tecnologia antiecológica, constituída progressivamente por intermédio do critério único do gerenciamento quantitativo do sistema mundial na modernidade - o aumento da taxa de lucro. Mas o capital não se pode limitar. Nisso reside o maior perigo para a humanidade. O segundo limite da modernidade é a destruição da própria humanidade. O ‘trabalho vivo’ é outra mediação essencial do capital como tal; o sujeito humano é o único que pode ‘criar’ um novo valor (mais-valia, lucro) [...] O terceiro limite da modernidade é a possibilidade de subsunção das populações, economias, nações e culturas que ela vem atacando desde sua origem e tem excluído de seu horizonte e empurrado para a pobreza243.

Como resistência à negação da vida, configura-se o que denominamos, a partir de Enrique Dussel, processo pedagógico de libertação, descritos brevemente em três momentos:

Momento 1: A vítima é negada pelo sistema (salários injustos, benefícios não disponibilizados, negação como pessoa, liberdade, alteridade). Momento negativo.

Momento 2: A vítima nega a injustiça que lhe é atribuída. Momento de negar a negação que lhe é imposta pela totalidade. Princípio da crítica libertadora. A vítima começa a se perceber injustiçada. Momento positivo - afirmação da vida da vítima, a partir da própria vítima.

Momento 3: Afirmação da vida por excelência. A vítima apresenta ao sistema o limite máximo. O “lugar” originante do processo ético crítico de libertação é sua própria vida. Dussel enfatiza “que o sistema mundial globalizante atinge um limite com a exterioridade da alteridade do Outro, um lugar de ‘resistência’ cuja afirmação começa o processo de negação da negação da libertação”244. Momento ético-crítico por excelência - analético de libertação245.

A resistência à globalização atual é a atitude da vítima que reconhece, por si mesma, a situação de opressão em que se encontra: “outra” no sistema dominador. A comunidade crítica de vítimas inicia o processo de validade anti-hegemônica nesse reconhecimento da opressão246. Ao iniciar o processo de tomada de consciência, defronta-se com a responsabilidade ética que tem para com a vida. Responsabilidade que tem pela vida do outro, mediante o situar a alteridade como fundamento e anterioridade metafísica (antes do lucro, do meu desejo de poder, da busca de expansão da totalidade, está a vítima para além de qualquer sistema de opressão). Responsabilidade também para com a própria vida, haja vista a vida ofertada é antes de tudo vida que se produz, reproduz e desenvolve a nível físico, afetivo, cultural, em todos os níveis. A resistência da vítima é, a priori, atitude ética, limite que inaugura o tempo de irrupção de novas formas de pensar e de leitura da realidade, vez que:

[...] surgem, nas outras esferas, contra-racionalidades e racionalidades paralelas corriqueiramente chamadas de irracionalidades, mas que na realidade constituem outras formas de racionalidade. Estas são produzidas e mantidas pelos que estão ‘embaixo’, sobretudo os pobres, que desse modo conseguem escapar ao totalitarismo da racionalidade dominante. Recordemos o ensinamento de Sartre, para quem a escassez é que torna a história possível, graças à ‘unidade negativa da multiplicidade concreta dos homens’247.

A globalização atual, ao se revelar complexa e contraditória, ao tempo em que acentua pobrezas e desigualdades, oferece as condições de possibilidade para o surgimento de alternativas indicativas do caminho de outra globalização. “Ousamos, desse modo, pensar que a história do homem sobre a Terra dispõe afinal das condições objetivas, materiais e intelectuais, para superar o endeusamento do dinheiro e dos objetos técnicos e enfrentar o começo de uma nova trajetória”248.

O fato de a América Latina se apresentar como resistência e limite não é mero acontecimento. Advém da forte ambigüidade da globalização atual ao deixar à margem dos benefícios duas grandes regiões do globo: América Latina e África, compreendendo mais de 60 países, 20% da população mundial e grandes recursos naturais249. Esses povos e pessoas estão excluídos, pois, apesar de integrarem o sistema, não desfrutam dos seus benefícios proporcional e adequadamente. Ao longo de suas obras, Dussel retoma este tema tão recorrente e afirma que a América Latina, a África, periferias do mundo, são consideradas pelo sistema dominante como o não-ser, a intempérie, a barbárie, o outro negado, o qual nunca chegou a ser outro para a totalidade. A resistência surge de fonte inusitada, justamente daquele considerado pelo sistema como o não-ser, o privado do direito e do dever ético de produção, reprodução e desenvolvimento da vida.

A resistência nasce do descrédito diante do sistema por aqueles que não estão presos a ele e não se deixaram totalizar. Desse modo, o fato de não ser sistema possibilita olhar a totalidade com perspectiva diferente, sobretudo o carro-chefe do sistema enquanto totalidade: os bens tecnológicos. Tais bens ampliam o abismo da desigualdade. A exclusão da maioria, produzida pela tecnologia, tem sido fonte de produção de mais desigualdades (segregação digital, informação disponível a poucos e carregada de intencionalidades, sujeito social menos adequado às exigências do mercado de trabalho). Tal exclusão gera descontentamento e o que se pode cunhar a partir de Milton Santos, como atitude de “desencanto” perante as técnicas, forte marca da reação ao atual sistema de dominação.

Nessa perspectiva, exemplo da resistência local pode ser percebido no fazer e se manter da cultura popular. Desenvolve-se e manifesta-se localmente em oposição ao global e marca o movimento ascendente (de baixo para cima), capaz de rivalizar com a cultura global de massas (movimento descendente, do alto para baixo)250. Tal possibilidade é fomentada pela utilização, por parte da cultura popular, dos instrumentos próprios da cultura de massa. A utilização não se presta, entretanto, à difusão da mentalidade dominante, mas para dar expressão ao cotidiano dos pobres, dos grupos minoritários (nas mais diversas nuances - econômica, cultural, pedagógica, sexual), ou seja, a realidade das vítimas. Desse modo:

Os ‘de baixo’ não dispõem de meios (materiais e outros) para participar plenamente de cultura moderna de massas. Mas sua cultura, por ser baseada no território, no trabalho e no cotidiano, ganha a força necessária para deformar, ali mesmo, o impacto da cultura de massas. Gente junta cria cultura [...]. Essa cultura da vizinhança valoriza, ao mesmo tempo, a experiência de escassez e a experiência da convivência e da solidariedade251.

América Latina, Caribe, Ásia e África, não participam do bloco hegemônico. Sua realidade constitui, por si só, contradiscurso e manifesta a vida local como resposta e reação à globalização perversa. Como essas populações não podem consumir o Ocidente globalizado em suas formas puras (financeira, econômica e culturalmente), suas regiões são os lugares em que a globalização é relativizada ou recusada. Nessa perspectiva, o ponto de partida para se pensar qualquer alternativa é a vítima, pois essa evoca a práxis do princípio ético material da Ética da Libertação: a produção, reprodução e desenvolvimento da vida humana. Não se pode perder de vista que a Ética da Libertação é uma ética de conteúdo. Para Dussel o conteúdo desta ética é a vida: “Esta é uma ética da vida, ética crítica a partir das vítimas. [...] São as vítimas, quando irrompem na história que criam o novo. Sempre foi assim”252. A novidade resultará da superação do modelo atual, substituindo-o por outro capaz de garantir vida digna para os que não são sistema.

Os horizontes abertos e fluídos da globalização atual comportam homogeneização e diversificação, integração e contradição. Nesse caleidoscópio de cores e formas, racionalidades e irracionalidades, está posto o desafio de dinamizar forças para se desenvolver a globalização desde baixo253. Ianni afirma que muitas são as reações opositoras ao sistema. Tais reações recriam os elementos da globalização, trabalhando criticamente a partir de sua situação254. Resistências e limites perpassam a realidade atual e iluminam o caminho de realização de outra globalização. Nesse processo de libertação, o protagonismo recai sobre a vítima.

1   ...   11   12   13   14   15   16   17   18   ...   23


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal