Belo horizonte



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4.2 O protagonismo da vítima no processo de libertação e construção de outra globalização


Quando a vítima toma consciência, irrompe o descontínuo na história repetitiva do Mesmo: é o tempo messiânico255.

A experiência de escassez e negatividade vivenciada pela vítima, enquanto comunidade e coletividade, é a fonte da tomada de consciência em relação à opressão que sofre. A pobreza, como impossibilidade de produção, reprodução ou desenvolvimento da vida humana é sinal e concretude da falta de cumprimento das necessidades, mas também origem da consciência crítica256.

O processo fundante da tomada de consciência é condição de irrupção da libertação. Ao abordar o itinerário de concretização do processo de libertação da vítima, Dussel destaca o papel da consciência. Ressalta que cabe discorrer sobre a consciência não, apenas, em nível teórico (Bewusstsein), mas, principalmente, no nível da prática (Gewissen)257. Inspirado por Lévinas, entende que a consciência ética implica ouvir a voz do outro258.

Dussel atesta, nesta quarta etapa de seu pensamento, a consciência ético-crítica como possibilidade de afirmação ética radical da vida negada. Aqui reside o novo da proposta dusseliana:

Devemos propor hoje um novo desenvolvimento, pois há todo um processo anterior, a partir da tomada de consciência do outro (oprimido-excluído), que inicia o processo de re-conhecimento e solidariedade primeira (entre os próprios outros como vítimas, entre os oprimidos, no povo excluído entre eles mesmos) a partir da sua própria re-sponsabilidade originária deles mesmos como sujeitos de nova história259.

A tomada de consciência como atitude ético-crítica vem à tona a partir da corporalidade excluída, faminta, expressão do desejo de viver. A vítima ao se descobrir ignorada, afetada (momento negativo), começa a tomar consciência de si (momento positivo). Tal consciência é caminho de reconhecimento da dignidade de si, por parte da vítima, que muito mais que desejar viver, descobre-se detentora da obrigação ética do dever-viver, expressa no princípio ético-material da Ética da Libertação: princípio de produção, reprodução e desenvolvimento da vida humana.

Analisando o processo ético-crítico em Paulo Freire, Dussel aborda a concepção do processo de conscientização:

‘Conscientizar’ indicará o processo pelo qual o educando irá lentamente efetuando toda uma diacronia a partir de uma certa negatividade até a positividade, como um movimento espiral, de contínuas decisões, retornos, avaliações. A pedagogia dos oprimidos é a pedagogia do Kath’exokhén, dado que situando-se (sic) no máximo de negatividade pode servir de modelo a todo outro processo pedagógico crítico possível260.

A relação práxica, pautada no amor-de-justiça, promove a dignidade e a vida da vítima. Interpela-a constantemente pela mediação da comunidade de vítimas e também do opressor (enquanto pessoa, grupo, coletividade). A tessitura da Ética da Libertação culmina no sentido de considerar o confronto / encontro opressor-oprimido, dominação-libertação, totalidade-exterioridade, revelador de antagonismos que interagem e iniciam o processo de tomada de consciência da vítima a respeito de si e do sistema. O momento ético-crítico comporta a possibilidade de ruptura desse círculo vicioso, “[...] momento próprio da ética da libertação. A ética é crítica a partir das vítimas, a partir da alteridade. É o ‘ético’ como tal, ou o face-a-face como encontro de pessoas”261. O processo de libertação passa pela tomada de consciência da vítima que se descobre oprimida e se volta contra o sistema de dominação, momento analético propriamente dito, crítico que não pode “[...] ser a priori, mas a posteriori, é a partir da positividade do critério, a reprodução da vida do sujeito humano, que se desenvolve a ética material que, num momento posterior, pode descobrir sua negação”262.

O protagonismo no processo de libertação é responsabilidade da vítima. “A alteridade das vítimas descobre como ilegítimo e perverso o sistema material dos valores, a cultura responsável pela dor injustamente sofrida pelos oprimidos, o ‘conteúdo’, o ‘bem’ (o que chamamos em outro trabalho principium oppressionis)”263.

Em sua Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão, Dussel cita como paradigmática a tomada de consciência de Rigoberta Menchú264, uma das pessoas a quem dedica a obra. O ponto de partida no processo de libertação da vítima advém da negação incidente sobre sua vida. O principium liberationis é condição sine qua non de produção, reprodução e desenvolvimento da vida. Nas palavras de Dussel:

O ponto de partida é a vítima, o outro, não, porém, simplesmente como outra ‘pessoa igual’ na comunidade argumentativa, mas ética e inevitavelmente (apoditicamente) como outro em algum aspecto negado-oprimido (principium oppressionis) e afetado-excluído (principium exclusionis). O novo ponto de partida se origina a partir da experiência ética da “exposição” no face-a-face: ‘Meu nome é Rigoberta Menchú’ ou o ‘Eis-me aqui!’ (abrindo a camisa e descobrindo o peito diante do pelotão de fuzilamento) de Lévinas265.

A libertação não é processo homogêneo, tampouco se desenvolve de modo uniforme. Por meio da mudança para a nova ordem, a libertação não virá do sistema, mas da vítima. Para Dussel, as mudanças sairão dos países subdesenvolvidos. Eles abrigam maior número de vítimas e apresentam condições de se oporem ao sistema porque não são sistema. Desse modo, a globalização humana há de ser erigida de baixo para cima, a partir da resistência da vítima. A otimização da vida humana há de ser a meta e não a busca de classificação entre as potências. Tal inversão permitirá a prevalência das preocupações de ordem social, cultural e moral. Daí se conclui: “é a própria comunidade constituída pelas vítimas que se auto-reconhecem como dignas e afirmam como auto-responsáveis por sua libertação, a encarregada de aplicar em primeiro lugar o princípio ético-crítico”266. A partir das vítimas apresenta-se o horizonte factível da globalização humana.

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