Belo horizonte



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4.3 Globalização humana: a utopia possível


Diante do já exposto, consideramos o mundo atual como possibilidade, como realidade a ser transformada e implantada. A presente reflexão aponta os caminhos de irrupção de outra realidade.

Consideramos que, para tanto, a práxis há de ser libertadora. Não basta compreender racionalmente os mecanismos de dominação. Construir outra realidade implica compromisso com a vida: cuidado com as pessoas, a partir da própria família; busca de melhores oportunidades de emprego; valorização do ser em detrimento do ter. Assistimos ao desfacelamento da família, o que causa grandes conseqüências humanas e sociais. Os baixos salários e a pouca oferta de empregos não podem conduzir ao desânimo. A materialidade da Ética da Libertação passa pela efetivação do trabalho digno para todos. Os governos locais, nacionais e globais devem se comprometer com a necessidade de gerar oportunidades de trabalho que garantam a produção, reprodução e o desenvolvimento da vida. Não se deixar contaminar pela racionalidade consumista constitui limite à expansão dos mercados. Atitudes de preservação da natureza, reciclagem, uso consciente dos bens e serviços é demonstração efetiva de respeito à vida do planeta e garantia de um mundo melhor para todos.

Tais questões ocupa a pauta anual do Fórum Social Mundial, o qual ousou declarar: “Um outro mundo é possível. Vamos construí-lo juntos”267. O conteúdo dessa afirmação se constitui ameaça para o sistema-mundo, mas para os povos subdesenvolvidos é a esperança para a tomada de atitudes novas.

O Fórum Social Mundial ocorre geralmente por ocasião do Fórum Mundial Econômico, ambos sediados em Davos, na Suíça. Apresenta-se como espaço internacional para a reflexão e a organização dos que se contrapõem às políticas neoliberais e se empenham em alternativas para priorizar o desenvolvimento humano e a superação da dominação dos mercados em cada país e nas relações internacionais268.

A partir das possibilidades emergentes, Ianni destaca o descontínuo em andamento, pois “[...] já são numerosos os indivíduos e coletividades, as classes sociais e os grupos sociais que padecem a globalização e simultaneamente conscientizam-se, organizam-se, reivindicam e lutam por outra globalização, pela ‘globalização desde baixo’”269. Para Ianni, aí estão presentes as raízes do que considera o neo-socialismo, como socialização da produção coletiva, produção político-econômico-cultural270.

A reflexão de Enrique Dussel não apresenta mero discurso antiglobalizante, nem tampouco propõe nova organização política. À luz da Ética da Libertação, trabalha a “democratização” da vida. Compreendemos tal possibilidade a partir também da “democratização” dos processos globalizadores e dos frutos desse processo. Dussel defende a alternativa de dinamizar a globalização “desde baixo”, na perspectiva de resistência, de solidariedade, e do ideal de disponibilizar, sobretudo aos despossuídos, o acesso aos bens da globalização atual. Milton Santos também aponta tal caminho e, por isso, contribuiu na leitura de Dussel. Para tanto, Dussel vê a globalização mantendo-se e destinando-se à propagação da produção, reprodução e desenvolvimento da vida humana. Deste modo, acredita na importância do papel da ruptura com a racionalidade atual, via de superação do status quo e implantação de projeto alternativo.

Os limites à globalização atual não podem ser negados. O desafio reside em efetivar, a partir desses limites, outra globalização. Uma vez que a globalização, como processo em expansão, não deixará de disseminar-se, compete utilizá-la a serviço do bem comum e da construção de nova ordem. Cabe-nos perguntar pela possibilidade de outra realidade. À luz da Ética da Libertação de Enrique Dussel abre-se tal caminho a partir do papel propulsor da utopia.

4.3.1 Novo mundo: utopia e construção


Enrique Dussel aponta o papel fundamental da utopia no processo de ruptura com o vigente, como busca de caminhos e de construção de novo mundo. Lança o olhar mais adiante e desvela a possibilidade de se inaugurar o novo:

[...] a utopia, enquanto projeto histórico racional e dinamizador relacionado com a realidade, desempenha dupla função social: questiona a ordem existente e propõe uma alternativa. Evidentemente tudo isso supõe ou implica uma dimensão ética. O ponto de referência que fundamenta a crítica da realidade é um juízo baseado num ideal ético e não unicamente racional. A proposta da alternativa pretende concretizar na realidade histórica um mundo novo e melhor, à luz da moral271.

É possível a travessia pelo deserto rumo à terra prometida. A utopia dinamiza, desinstala, desinquieta o sujeito em face da ordem pré-estabelecida, revelando-lhe a realidade possível fora da totalidade do sistema, o lugar do qual há de se iniciar a práxis de libertação.

Como tal é uma ‘comunidade’ utópica; com isso queremos indicar que ‘não tem lugar’ no sistema (ouk-tópos). A partir de ‘fora’ do mundo, da carne, do sistema, pode - a partir de sua solidariedade real - exercer a função crítico-libertadora e serviçal concreta ao pobre, ao povo272.

Para Rejón, a utopia desempenha papel central na Teologia da Libertação. Constitui mediação adequada entre a fé e a práxis de transformação da realidade273. No tangente à Ética da Libertação como Teologia Fundamental, a utopia alimenta o percurso de transformação da realidade que não se acredita acabada, mas aberta, possibilidade de vir-a-ser.

A partir de Dussel, enquanto disponibilidade e possibilidade, a utopia parte da realidade vivenciada de uma

globalização de um sistema formal performativo (o valor que se valoriza, o dinheiro que produz dinheiro: [...] fetichismo do capital) que se ergue como critério de verdade, validade e factibilidade, e destrói a vida humana, pisoteia a dignidade de milhões de seres humanos, não reconhece a igualdade e muito menos se afirma como re-sponsabilidade da alteridade dos excluídos, e aceita só a hipócrita exigência jurídica a respeito de cumprir o dever de pagar uma dívida internacional (fictícia) das nações periféricas pobres, ainda que pereça o povo devedor [...]274.

Dessa constatação ergue-se o ideal de transformação e de construção de outra realidade, em que o protagonismo recai, como se tem insistido, sobre a vítima: “É por isso que acreditamos que é necessário levantar um princípio absolutamente universal que é completamente negado pelo sistema vigente que se globaliza: o dever da produção e reprodução da vida de cada sujeito humano [...]”275.

Atentamos para o fato de que a irrupção de outra globalização depende do empenho de governos, partidos políticos, sindicatos e associações, igrejas, comunidades eclesiais. Compreende trabalho mútuo em prol do bem comum, esforço nascente da realidade local como via de acesso à transformação global. Tal empenho se traduz na promoção da cultura local, valorização dos produtos internos, abandono dos ideais de consumismo, cuidado com o outro (inclusive e necessariamente o meio ambiente, como outro), compromisso com a sustentabilidade, solidariedade, respeito ao próximo enquanto ser humano e não enquanto desempenha um alto cargo ou detém poder. Os empenhos retromencionados devem conduzir à atitude macro de nova utilização da técnica a serviço do bem comum, a serviço da vida. Em oposição à globalização do capital, como disseminador de desigualdades e irracionalidades, urge favorecer o nascimento de uma socioeconomia solidária. Socioeconomia fundamentada na possibilidade da democratização do bem, no empenho de construir e compartilhar os meios de sobrevivência, condição de possibilidade da vida de todos276.

Essas ações constituem a base da inversão que ora propomos, à luz da Ética da Libertação de Enrique Dussel. Importa situar a humanidade no “centro”, a partir, sobretudo, da vítima do sistema. Este é o convite sempre atual de Jesus: “Levanta-te e vem aqui para o meio”277. Reconduzir o ser humano ao centro, sobretudo os despossuídos, implica amar e servir numa atitude ética de responsabilidade primeira pelo outro. O amor-de-justiça como amor-de-serviço é via de libertação e, para Dussel, “servir o outro é negar a dominação; é uma práxis que contradiz a legalidade estabelecida, as estruturas vigentes; é trabalhar a partir de um projeto de libertação que transcende o da ordem presente que domina o pobre”278. O sistema de dominação, através da globalização atual na chamada aldeia global e do capital, devem estar a serviço do ser humano e não o contrário. Mais do que competitividade ou a lógica do mercado, a atitude que deve ser a tônica do agir cristão é a solidariedade. Tal solidariedade deve ser irradiada a partir do compromisso ético cristão do amor ao outro, como bem recorda o samaritano279.

A despeito do posicionamento dos governos e demais autoridades, que podem optar por continuar arraigados à totalidade da racionalidade atual (irracionalidade para a Ética da Libertação), os cristãos hão de testemunhar, manifestando comprometimento com a vida e com a construção do Reino, opção central da vida de Jesus. O mundo humanizado reconhecerá e exaltará a vida por meio de realidade capaz de demonstrar sinais das opções assumidas em favor dos menos favorecidos. Donde Milton Santos afirma:

Um mundo solidário produzirá muitos empregos, ampliando um intercâmbio pacífico entre os povos e eliminando a belicosidade do processo competitivo, que todos os dias reduz a mão-de-obra. É possível pensar na realização de um mundo de bem-estar, onde os homens serão mais felizes, um outro tipo de globalização280.

Para nossa pesquisa, a construção de outro mundo implica o agir ético pautado na solidariedade em rede. A globalização atual difunde e é difundida pelo capitalismo. Inversamente outra realidade há de ser difundida e difundir a solidariedade em rede. Pautada na Ética da Libertação, a solidariedade disseminará os germes da valorização do humano. Nessa perspectiva, grande é o papel desempenhado pela tecnologia, difusora da globalização atual. Aludimos à nova utilização da técnica, agora a serviço do bem comum.

4.3.2 Outra utilização da tecnologia: rumo à nova ordem


Os sistemas técnicos de que se valem os atuais atores hegemônicos estão sendo utilizados para reduzir o escopo da vida humana sobre o planeta. No entanto, jamais houve na história sistemas tão propícios a facilitar a vida e a proporcionar a felicidade dos homens281.

Diante das inúmeras questões advindas do processo de globalização em marcha, pensamos outra globalização, “humana”, capaz de promover o bem esperado e não efetivado. Força a inaugurar o novo na história. Globalização solidária capaz de fazer retroceder a pobreza, o desemprego e a desigualdade, como questões sociais que se globalizam. Para tanto, apontamos como caminho o investir o ser humano de seu devido valor: “[...] é possível acreditar em uma outra globalização e em um outro mundo. O problema central é o de retomar o curso da história, isto é, recolocar o humano no seu lugar central”282.

O desafio atual consiste em cuidar da vida humana dotada de valor como meio da irrupção do “descontínuo” na continuidade do que se globaliza de forma perversa. O descontínuo porta eticamente a possibilidade de realização da pessoa humana283 e, no caso de outra globalização, pode-se acenar para a presença de elementos de ruptura e de continuidade, de forma não-excludente. A ruptura ocorre mediante possibilidades de descontinuidade, paradoxalmente portando elementos de continuidade. No caso específico de outra globalização, a característica forte de continuidade que prevaleceria seria sua vocação universalizante como processo civilizatório. Por sua vez, o elemento de descontinuidade positiva, ficaria a cargo do processo de se comprometer com a vida, o bem comum e não com a irracionalidade do acúmulo do capital.

Propomos a solidariedade de esforços na perspectiva de se alcançar a “conversão” do modo como se utilizam as técnicas, vez que o sistema de técnicas atual, por si próprio, oferece as bases para a mudança. A solidariedade encontra razão fundante na ambigüidade de sistemas técnicos altamente avançados e simultaneamente propagadores de desigualdades. O momento atual parece gestar a emergência de elementos indicativos do novo. Milton Santos realça-se, sobretudo

[...] o crescente desencanto com as técnicas, acompanhado por uma gradativa recuperação do bom senso, em oposição ao senso comum, isto é, em oposição à pretensa racionalidade sugerida tanto pelas técnicas em si mesmas como pela política do seu uso. Outro dado significativo se levanta com a impossibilidade relativamente crescente de acesso a essas técnicas, em virtude do aumento da pobreza em todos os continentes. Junte-se a esse dado o fato de que, apesar da capacidade invasora das técnicas hegemônicas, sobrevivem e criam-se novas técnicas não-hegemônicas284.

Como alternativa, propomos outra utilização da técnica. Essa, até então, responsável pela difusão da globalização, seja agora empregada para outros objetivos: disponibilizada a serviço da globalização da solidariedade, a serviço da vida. É preciso que se pergunte por que na África se morre de doenças tão primárias cujo tratamento já foi consagrado. Qual a função social das inúmeras descobertas e desenvolvimento tecnológico? A reserva de tais recursos apenas para os detentores do poder revela o caráter excludente e perverso da técnica e o descomprometimento político. Falta solidariedade com inúmeras realidades subumanas de vida. Tais realidades poderiam ter seus efeitos minimizados, e mesmo debelados, pela disponibilização de recursos, inclusive básicos, para o bem comum.

A partir da Ética da Libertação de Enrique Dussel, propomos outra utilização da técnica como via de implantação da globalização humana. O papel da utopia na construção de outra realidade não é algo etéreo. Antes, manifesta-se como propulsor de atitudes novas frente aos desafios sociais, culturais, religiosos, impostos pela globalização atual. Já acenamos para a importância da solidariedade no processo de libertação. Compete apontar o que Dussel compreende por solidariedade, a densidade de tal categoria e qual o papel a ser por ela desempenhado a partir da Ética da Libertação.

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