Belo horizonte



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4.4 A ética da libertação e a globalização da solidariedade na perspectiva dusseliana


O certo é que, de qualquer maneira, a teologia da libertação enfrenta o desafio de fundamentar a práxis de libertação dos povos latino-americanos, ainda que isso a coloque no banco dos réus dos governos que oprimem os pobres285.

A problemática da libertação lançou raízes profundas em solo latino-americano. Dussel cita como emblemática a luta de Bartolomeu de las Casas. Em Las Casas se apresenta o ouvido “capaz de ouvir e de se abrir” ao outro. Dussel situa no século XVI o que denomina a primeira época da Teologia da Libertação. “Tudo isso [a luta de Bartolomeu pela causa do índio, o reconhecimento da conquista como pecado sociopolítico do momento, o comprometimento político com a realidade de opressão] antecipa em quatro séculos a experiência atual da teologia criativa na América Latina286”. Dussel considera o período compreendido entre os séculos XVI e XX, na América Latina, marcado pela opressão ontológica, resultado da “vontade de poder” exercida pela totalidade européia287.

Dos tempos de “Para uma Ética da Libertação latino-americana” para os de “Ética da Libertação na idade da globalização e da exclusão”, mudaram as perspectivas de Dussel, alcançando dimensões de mundialidade. Entretanto, a busca de libertação latino-americana, assumida desde os tempos de Bartolomeu da Las Casas, continua tema pertinente e atual. Em tempos de globalização, Dussel questiona os fundamentos e a variedade de sistemas éticos surgidos ao longo dos tempos. Considera a Ética da Libertação capaz de transformar a realidade vigente, a partir de conteúdo próprio: o princípio ético-material de produção, reprodução e desenvolvimento da vida humana, como insistentemente identificado aqui288.

Para além dessa discussão, constatamos o choque e confronto da racionalidade da globalização com a experiência vivenciada pela comunidade local de vítimas. Em constante busca de libertação, verificamos o crescente processo de dissolução de ideologias. Segundo Milton Santos:

Na Ásia, na África e mesmo na América Latina, a vida local se manifesta ao mesmo tempo como uma resposta e uma reação a essa globalização. Não podendo essas populações majoritárias consumir o Ocidente globalizado em suas formas puras (financeira, econômica e cultural), as respectivas áreas acabam por ser os lugares onde a globalização é relativizada ou recusada289.

A Ética da Libertação de Enrique Dussel desvela as estruturas que encobrem a realidade de opressão e a irracionalidade do sistema mantenedor das ideologias. Propõe o caminho de tomada de consciência da vítima. Constitui parâmetro capaz de gerar atitudes novas, de instalar o novo na história. Tal processo não se efetivará, contudo, sem a devida responsabilização, assumida por cada pessoa que se entende comprometida com a realidade histórica.

Entendemos a originalidade da proposta ética, filosófica e teológica de libertação dusseliana, não mero discurso retórico, mas anti-hegemônico (ou contra-discursivo) encarnado e interpelante que parte da negatividade dos menos favorecidos. A afirmação ética dos negados pela totalidade reacende a chama da vida sedenta de justiça. Daí, a Ética da Libertação ser ética da vida por excelência, da corporalidade, da fome, da nudez, expressa no princípio ético universal apresentado por Jesus. Princípio considerado válido para as diversas culturas: “Tive fome e me destes de comer”290. “Dar de comer” não como atitude meramente assistencialista, incapaz de promover a dignidade da pessoa humana, mas, sim, no sentido de garantir, irradiar a vida da vítima. Atitude indicativa de alternativa eficaz de irrupção da vida a partir do posicionamento crítico-transformador diante da realidade.

A proposta Ética de Libertação apresentada por Dussel se assenta sobre a necessidade de que: “A filosofia e a ética precisam romper com esse horizonte redutivo para poder abrir a reflexão ao âmbito ‘mundial’, planetário [...]”291. A ruptura defendida por Dussel consiste em ir além do “sistema-mundo” europeu, americano. Por isso, transforma-se em contra-discurso. Há de se ir além de qualquer atitude da totalidade ao travestir de ego cogito o ego conquiro, base da disseminação das ideologias do dominador. A América Latina, ponto de partida, também dá a tônica de originalidade e da pretendida universalidade dusseliana: “[...] própria da ‘experiência’ latino-americana de onde parte - que penso ter validade universal”292.

Ao dar ênfase à Ética da Libertação em âmbito mundial, cabe perguntar acerca do papel a ser desempenhado pela Teologia. Para Dussel, a teologia latino-americana aparece como “reflexão sobre a práxis de libertação dos oprimidos, de numerosos cristãos comprometidos politicamente. Trata-se de uma teologia ética pensada a partir da ‘periferia’, dos marginalizados, dos lumpen deste mundo”293. Em tempos de globalização e exclusão, a Teologia há de assumir papel pedagógico no processo de libertação, comprometendo-se com a vítima, os destinatários do Reino. A problemática da libertação continua presente, como desafio diuturno no seio da vida da Igreja. Enquanto houver oprimidos e vitimizados, será válida a busca pela libertação e o Reino ainda não terá chegado efetivamente.

Nessa empreitada, Dussel considera o amor-de-justiça como materialização da abertura da totalidade ao outro, como exercício de se ouvir a voz do que está na exterioridade e responder ao seu apelo. Importa articular esta resposta, efetivação de proximidade, numa categoria que se expresse práxis do amor-de-justiça: a solidariedade. A solidariedade emerge como co-responsabilidade das vítimas que se descobrem comprometidas entre si e responsáveis alterativamente, não simplesmente pela própria vida, mas pela vida uns dos outros. Tal solidariedade faz-se necessária para a construção do Reino no hoje da história.

Dussel expõe o que considera ser a solidariedade:

Por solidariedade desejo aqui entender uma pulsão de alteridade, um desejo metafísico (E. Lévinas) pelo outro que se encontra na exterioridade do sistema onde reina a tolerância e a intolerância. É um assumir (isso significa re-spondere: (spondere) o outro, reflexivamente (re-) ante o tribunal do sistema que acusa porque se assume a vítima da injustiça e, por ele, parece como assinalado, como injusto, culpável, réu, como refém no sistema em nome do outro294.

A partir daí, afirma-se a possibilidade da globalização humana pautada na solidariedade. Trata-se da solidariedade comprometida com a justiça e a vida, mundialmente, como pulsão de alteridade não voltada para a massificação, o lucro ou a ampliação de mercados. Antes atraída pela vida do outro, pela realização do ser humano e pela dignidade da pessoa. É o que enfatiza Dussel ao dizer que:

[...] desejamos lembrar o subtítulo desta obra: ‘Na era da globalização e da exclusão’. O tema esteve presente em toda esta Ética como corrente marinha de fundo - não de superfície. As contínuas referências ao neoliberalismo, a F. Hayek, ao ‘centro’ e à ‘periferia’, ao capitalismo, à hegemonia dos Estados Unidos - especialmente no nível militar através do Pentágono -, etc., referiam-se a esse tema. Portanto, esta Ética da Libertação tentou justificar filosoficamente a práxis de libertação das vítimas nesta época da história, no final do século XX e começo do III milênio, especialmente das vítimas excluídas do atual processo de globalização do capitalismo mundial295.

Para a práxis de libertação das vítimas, a solidariedade exerce importante papel e somente a partir dela pode-se falar de uma comunidade de vítimas pró-libertação. A comunidade se funda por meio da sensibilidade dos que, ao se reconhecerem oprimidos, identificam no outro a mesma situação e solidarizam-se, não apaticamente, mas formando comunidades de vida, resistência e luta pela libertação. A partir daí, interpelam o sistema, apontando-o como fonte de negação da vida e evocam, invocam e reivindicam sua conversão. A totalidade encapsulada pode romper o horizonte fechado em que se encontra a partir da abertura a alteridade.

A solidariedade, difundida na comunidade de vítimas e irradiada mundialmente, pode efetivar outra globalização. A Ética da Libertação a apresenta não apenas como proposta, mas condição de possibilidade de irrupção de nova ordem. A propagação da solidariedade em rede, a valorização do humano e o cumprimento da exigência ética de promover a vida são caminhos de construção do Reino de Deus. A culminância de outra globalização realiza-se na instauração do Reino.


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