Belo horizonte



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4.5 A promoção da vida como realização do Reino de Deus


Em sua “Ética da libertação na idade da globalização e exclusão”, Dussel reflete sobre a libertação em perspectiva estritamente filosófica, ao contrário de sua “Ética comunitária”, quando apresenta os alicerces sobre os quais se pode sustentar a Ética da Libertação como Teologia Fundamental. Para Dussel, a Ética da Libertação como Teologia Primeira é práxis advinda do situar o pobre como ponto de partida da reflexão e do serviço. Para além da perspectiva privilegiada, a Ética da Libertação evoca a práxis do amor-de-justiça e da afirmação da vida que há de se comprometer com a realidade histórica. O fundamento da Teologia da Libertação ergue-se a partir da vítima e de sua existência concreta. Compromete-se com o projeto histórico de libertação das amarras da exclusão, da negação de direitos e de todas as formas de opressão que sobre as vítimas recai.

Dussel, ao enfatizar o conteúdo material da Ética da Libertação presente na corporalidade humana, na “carne” da vítima, dá visibilidade à discussão acerca do valor da vida, do corpo, da pele. O ponto de partida da Ética da Libertação é a pele que sente, se contorce, plasticidade que traduz as instâncias da vida: biológica, afetiva, cultural e espiritual. Embora com discurso privilegiadamente filosófico, ao abordar o primado da vida sobre a morte / dominação, constatamos, em Dussel, a apresentação de questões importantes para a antropologia cristã.

A carne, enquanto totalidade, pode abrir-se, destotalizar-se e acolher a alteridade e, portanto, traz em si os germes do novo. A vítima consciente da dominação pode lutar pela libertação instalada pela conversão do sistema. Dussel sempre evoca a figura do samaritano. Verificamos que o samaritano se destotalizou ao acolher o pobre, o desfigurado, o não visto pela totalidade. A fome, a sede, o frio e a nudez da carne negada e ultrajada em face da racionalidade do lucro e da exploração da vida, do assalto, alerta a antropologia cristã para a necessidade de cuidado para com o corpo e a vida nele presente. O desejo de comer, “desejo carnal, corporal, material é já o desejo do Reino dos Céus em sua significação mais real: é a insatisfação que exige ser saciada”296.

Em tempos de globalização e de culto ao corpo perfeito, dietas rigorosas e cirurgias estéticas, compete restituir à corporeidade sua dignidade, sua visibilidade, não como fim, mas como meio da realização humana. Para a antropologia, o corpo é dotado de dignidade, foi moldado “pelas mãos do Criador” à sua imagem e semelhança297. Com a encarnação, o Logos alterativo irrompe na totalidade do mundo, revelando a verdade mais profunda do humano acerca de si mesmo. Concilia a alteridade divina e a totalidade humana, pois “na encarnação se humanizou a Palavra eterna, na humanidade, que é a Totalidade como carne. [...] A partir da Alteridade absoluta a Palavra irrompe na totalidade da carne e, por isso, a encarnação é também a interpelação do pobre como alteridade do mundo como sistema298”.

A carne assumida pela Alteridade divina, sem se deixar totalizar e se corromper pela lógica do sistema-mundo, expande e sobeja de dignidade a corporalidade humana. Com a ressurreição, Jesus, o Cristo, inaugura a descontinuidade na história. A vida vence a morte. Abre-se ao humano o caminho de realização da libertação integral como salvação, protagonizada pela vitória dos marginalizados do sistema, o resto fiel, os resistentes que não se deixarem abarcar por ele. Essa é realidade de libertação que conduz ao Reino anunciado por Jesus299. A concretização do Reino culmina na dimensão escatológica última, mas tem início já no hoje da história, a partir de processo constante de libertação. Torna-se parâmetro a indicar o agir ético cristão, uma vez que

O Reino, a transcendência absoluta com respeito a toda práxis, a todo face-a-face histórico, a toda ‘comunidade’ é sempre um ‘mais-além’, um além de toda realização humana. É o signo, o sinal, o horizonte que nos indica: ‘Isto ainda não é suficientemente bom, santo, feliz, justo; ainda fica algo por fazer’! O Reino como realidade é algo mais que é preciso praticar. O Reino como categoria é o horizonte crítico que assinala a negatividade, a injustiça, o egoísmo da ordem atual, vigente, dominante300.

O Reino é o horizonte teológico último da concretização da libertação. Anunciado por Jesus é dom de libertação do Pai ao ser humano, apelo à participação amorosa na difusão da vida. Perpassa as dimensões existenciais humanas ao possuir, simultaneamente, ao nosso ver, caráter de universalidade, subjetividade e intersubjetividade. Universalidade por se apresentar proposta dirigida a todos. Subjetividade ao passar pela dimensão da adesão pessoal. A responsabilidade primeira é intransferível. O comprometimento se faz na tomada de atitude, no posicionamento ético-crítico a partir da realidade primeira da vítima. O caráter de intersubjetividade se instaura nas relações do ser humano, este último compreendido como realidade relacional que se constitui pessoa no face-a-face comunitário, na comunidade de vítimas, em se tratando da busca de libertação.

A realização do ser humano como pessoa efetiva-se na relação práxica e não pode ser pensada fora dessa práxis. A construção do Reino exige atitude ético-crítica perante a totalidade. O ser humano se realiza na interpelação do outro, daquele que vem a idéia e é via de acesso a Deus (o grande Outro). Também o Reino é realidade relacional: “[...] de todos os bens que o homem terá no Reino, o supremo é estar pessoa a pessoa ante as pessoas e, essencialmente, ante o próprio Deus”301.

A Ética da Libertação, ao questionar o sistema vigente e atentar para a busca de nova ordem histórica, adverte para a necessidade de se

repensar a totalidade dos problemas morais a partir da perspectiva e das exigências da ‘responsabilidade’ pelo pobre, por uma alternativa histórica que permita lutar no Egito, caminhar no deserto no tempo da transição e construir a terra prometida, terra prometida histórica que será sempre julgada pela terra escatológica ‘mais além de toda possibilidade de produção material histórica’, o reino dos céus que nunca será de todo construído na história (mas que já é construído nas construções das terras perecedouras da própria história)302.

O Reino de Deus nomeia e dá sentido para o mundo. Visa a promoção da dignidade humana na integralidade. O Reino é oferecido, sobretudo aos pobres e aos marginalizados, desclassificados da sociedade. Para Dupuis, por meio dessas pessoas, Jesus apresenta “opção preferencial” em seu favor, não como mera opção, mas se identificando e pertencendo a elas303. Vale ressaltar: para a Ética da Libertação, a pobreza é a impossibilidade real de produção, reprodução e desenvolvimento da vida humana.

A Ética Comunitária de Libertação se sustenta ao compreender que “o Reino de Deus não é apenas futuro e utopia; é um presente e encontra concretizações históricas. Por isso deve ser pensado como um processo que começa no mundo e culmina na escatologia final”304. Para a ética dusseliana, o projeto histórico de libertação é a necessária mediação do projeto futuro, “é a realização presente de um movimento escatológico, isto é, da impossibilidade de que a história termine por fechar-se sobre si mesma e terminar assim o processo”305.


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