Belo horizonte



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INTRODUÇÃO


A globalização atual exalta a racionalidade do ter, do poder e do conquistar. As pessoas valem pelo que consomem, pela capacidade de se impor e exercer o domínio sobre o mundo. O capitalismo expande a globalização, sendo simultaneamente por ela difundido. A realidade latino-americana, colonizada, dependente, traz implícita a necessidade de conteúdo ético capaz de responder às necessidades das vítimas. A “questão” latino-americana implica a Economia, Política, Cultura, Ecologia, Teologia. À Teologia enquanto mestra pedagógica comprometida com o outro, a vítima, a alteridade como criação de Deus.

A presente dissertação aborda teologicamente a problemática da globalização à luz da Ética da Libertação e os impactos advindos do embate da mesma globalização sobre a fé cristã.

Dentre os autores a desenvolver a Ética da Libertação, escolhemos para o presente estudo o argentino Enrique Dussel. A escolha não é arbitrária. Ao longo de sua produção como teólogo, historiador e filósofo, desenvolve de modo apurado a Ética da Libertação. Fala a partir da América Latina, com o objetivo de atingir a mundialidade. De outro modo Dussel reflete sistematicamente a categoria alteridade, inspiração de nosso percurso acadêmico. Cabe registrar que a temática da libertação sempre preencheu de horizontes a realidade por vezes de exclusão e marginalização que enfrentamos ao longo da vida.

Não pretendemos confrontar a Ética da Libertação com outros modelos de ética. Nem contrapor e dialogar sistematicamente com outros autores. Quando tal postura for adotada será de maneira simplesmente indicativa e na tentativa de melhor fazer compreender a trama do pensamento dusseliano. Importa estudar e aproximar-se da Ética da Libertação sem a pretensão de esgotá-la.

Intentamos oferecer às pessoas, às comunidades cristãs, aos que lutam pela libertação e se opõem à globalização em marcha, material capaz de iluminar a leitura crítica da realidade. A tomada de consciência possibilita apresentar uma proposta alternativa cristã coerente, a partir da Ética da Libertação de Enrique Dussel: a globalização humana. Temos a certeza de que o projeto alternativo é possível. A globalização atual apresenta sinais de porosidade a comprovar a possibilidade de mudança.

Elegemos objeto da presente pesquisa, a Ética da Libertação de Enrique Dussel. O contexto escolhido para abordá-lo compreende o período da queda do Muro de Berlim até os dias de hoje. Embora Dussel possua pensamento filosófico acurado, a óptica escolhida é a Teologia como intérprete ativa e interpelante da realidade e por ela interpelada. O estudo da Teologia articulada à Ética da Libertação de Enrique Dussel possibilita a leitura crítica da realidade da globalização atual. Buscaremos, a partir da Ética da Libertação, compreender o modo como a globalização atual incide direta ou indiretamente sobre a vivência da fé cristã. Embora privilegiando a Teologia, a Filosofia se fará presente. Para Dussel a Filosofia desempenha o papel de estrutura metodológica. Observamos que constitui o ponto de partida da tessitura de seus escritos.

Consideraremos, para a presente pesquisa, os escritos de Dussel a partir da década de 1970, período profícuo de aprofundamento da formulação da Ética da Libertação. Embora tal data não coincida com o período “atual” considerado, apresenta-se indispensável para a compreensão da produção mais recente do autor, sobretudo da obra de porte: “Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão1.

No primeiro capítulo estudamos as características, a tônica do discurso de Enrique Dussel: contradiscurso em prol da libertação, num primeiro momento em perspectiva latino-americana. A abordagem acerca das principais categorias da Ética da Libertação possibilita uma primeira aproximação do pensamento do autor. Identificar as fases de composição dos escritos apresenta a evolução do discurso comprometido com a causa da libertação.

No segundo capítulo o enfoque recai sobre a afirmação da Ética da Libertação como Teologia Fundamental. O protagonismo da práxis confere originalidade à Ética da Libertação como teologia primeira que procede da vida. Apontar as implicações e as nuances presentes nessa afirmação permite situar a Teologia como norteadora do estudo da Ética da Libertação de Enrique Dussel.

O terceiro capítulo, à luz da Ética da Libertação de Enrique Dussel, introduz a temática da globalização, conceituando-a, delimitando-a, apontando os conteúdos que lhe são inerentes e as ideologias que oculta. Ao se falar da globalização atual, merece destaque a produção das vítimas do sistema que se globaliza. Em tempos de globalização e exclusão, a reflexão dusseliana apresenta pretensão de mundialidade e compreende as vítimas de todo o sistema. A vítima é o ponto de partida da Ética da Libertação comprometida com a negatividade do outro faminto, nu, destituído da dignidade de pessoa. Nesse horizonte a fé cristã é desafiada, confrontada e chamada a se posicionar. A culminância deste capítulo consiste em abordar, ainda que modestamente, o impacto e nuances da globalização atual sobre a vivência da fé cristã.

O último capítulo a partir da articulação dos elementos dispostos anteriormente propõe outra globalização, agora humana, capaz de se pautar pelos valores de solidariedade e justiça. A irrupção da globalização humana será fruto de opções éticas comprometidas com o ser humano, reconduzindo-o ao centro das ações. Fim último e não meio do agir. A Ética da Libertação de Enrique Dussel é ética da vida. Nessa perspectiva a vida alcança sua magnitude na conversão do sistema enquanto condição de possibilidade da implantação, no hoje da história, do Reino de Deus.

A presente pesquisa apresenta limites. As inovações provocadas pela globalização atual são de dimensões nunca vistas e ainda não mensuráveis na sua completude, dada a realidade múltipla, poliforme, ambígua que a caracteriza. Não podemos medir a real incidência sobre a vida humana em dimensões planetárias. Soma-se ainda, como limitação, o fato de Dussel ser mais conhecido como filósofo e historiador. A Teologia presente em suas obras sempre permaneceu como elemento de fundo e não de superfície. O desafio aceito consiste em ressaltar a Teologia presente sobretudo no filósofo e historiador. Aspecto que embora não constitua nenhum mérito de nossa parte, foi por poucos exaltado. Ao longo da pesquisa bibliográfica, constatou-se a existência de maior número de estudos acerca da Ética da Libertação de Dussel na perspectiva filosófica.

Enrique Dussel reconhece as dificuldades para a efetivação da Ética da Libertação, mas mantém-se otimista. Aposta na capacidade humana de assumir responsabilidade diante das vítimas. A Teologia solidária aos que sofrem há de comprometer-se com a causa da libertação.

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