Belo horizonte



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conclusões


A Ética da Libertação de Enrique Dussel, para além do alcance de mundialidade pretendido, possui grande pertinência para a reflexão ético-teológica latino-americana. Constrói-se a partir da realidade de colonizado e de subdesenvolvido, mas, sobretudo a partir da necessidade de libertação. Refletimos teologicamente a ética pelo viés da libertação. Tal atitude constitui retorno às fontes primeiras da experiência do povo escravo nas mãos do faraó, mas confiante na busca da terra prometida. As escravidões adquirem outras facetas: baixos salários, subempregos, miséria, falta de escolaridade.... Os nomes mudam, mas a opressão continua. Dussel desenvolve a proposta ética de libertação a partir da existência das vítimas. Principiando da negação incutida sobre a vítima, lança forte apelo de adesão à causa da libertação. A Ética de Libertação dusseliana não está aí para ser lida e discutida simplesmente, mas para ser assumida, vivenciada, exercitada no cotidiano onde se dá a falta, a escassez. É pertinente para o período contemporâneo.

Para Ianni, o período atual propaga o crescimento extensivo e intensivo do capitalismo, ao expandir a globalização306. A racionalidade atual tem a marca dos valores do dominador, do mais forte que, servindo-se do livre mercado, “exporta” maciçamente os próprios paradigmas. A globalização produz fragmentação ao pretender universalizar o “way of life” dos detentores do poder e se chocar com as realidades locais. Compromete a valorização do ser humano como pessoa ao privilegiar a produção, o lucro, a conquista de novos mercados e não o humano. A categoria antropológica de pessoa com tudo que comporta cede lugar a novo conceito: o consumidor. Digo conceito e não sujeito, uma vez que a pessoa é, para a racionalidade da globalização, o consumidor destinado a consumir mais e mais, preferencialmente o descartável. Nas mãos do mercado, está fadado ao consumo, perdendo o protagonismo de sujeito da história. Este é o contexto no qual se ergue a necessidade da Ética da Libertação, o contexto em que se ampliam os mecanismos de produção das vítimas.

A existência da vítima apresenta a possibilidade de oferecer a esse mundo novos óculos. A partir de outra óptica pode-se vislumbrar o agir verdadeiramente ético e outra concepção do significado profundo do ser pessoa. A vítima revela, a partir de sua realidade, a possibilidade de integração e a coexistência pacífica do caleidoscópio307 de “valores” fragmentados: tensão entre povos, intolerância, preconceito, discriminação. Ambos estão presentes nas cidades “globais”. Demonstram-se incapazes de integrar a diversidade e exímios em fundar e difundir desigualdades conflitivas. A partir da vítima há de se cultivar, desenvolver e concretizar solidariamente a práxis de justiça para a realização do humano, por meio da libertação do egoísmo, do desejo de poder e da negação do outro. Alteridade com a qual estou “obrigado” a me comprometer. São possibilidades. Cabe aqui perguntar pela factibilidade. Ao longo de sua “Ética da libertação na idade da globalização e exclusão”, Dussel deixa claro estar ciente das dificuldades, mas não da impossibilidade. O presente estudo constata e situa que o grande desafio para a Ética da Libertação reside na existência de grande número de vítimas que não se reconhecem vítimas e se sentem gratas ao sistema. Por isso a insistência de Dussel torna-se necessária: o ponto de partida é a tomada de consciência da vítima que se reconhece vítima. Nisto reside o início da libertação.

Acreditamos nessa tomada de consciência e na irrupção de um mundo melhor. Por isso defendemos outra globalização, predominantemente humana, solidária, promotora da vida, da integração e da comunhão de esforços, luta, em prol do crescimento humano. Outra globalização supõe adesão pessoal e comunitária, formação de redes de solidariedade. Tal mudança virá “de baixo”, dos países subdesenvolvidos. Nessa perspectiva, aludimos às comunidades eclesiais de base, por comporem o bloco dos menos favorecidos. Constituem limite à globalização atual e, como resistência que se apresentam, difundem valores cristãos de vida, cuidado, respeito e amor ao próximo, ao samaritano. Efetivam pela busca constante de solidariedade e comunhão a relação de proximidade, o face-a-face no amor-de-justiça.

O pensamento dusseliano, ora estudado, é deveras complexo. Dussel estabelece diálogo frutífero com inúmeros filósofos e intelectuais. Possui conhecimento vastíssimo e interdisciplinar. Da interdisciplinaridade constrói reflexão transdisciplinar. Tal mérito do autor deve ser reconhecido.

Decididamente não se intentou em nenhum momento abordar exaustivamente a Ética da Libertação. Buscou-se explicitar os conceitos fundamentais, os alicerces sobre os quais se ergue a arquitetônica do pensamento de Dussel. De posse do “mapa” inicial fica o desafio de retomar e aprofundar temas específicos. Filosoficamente a problemática da Ética da Libertação versus Ética do Discurso constitui tema bastante considerado por Dussel e merecedor de estudo à parte. Por se tratar de autor brasileiro e reconhecido, seria oportuno o estudo acerca de Paulo Freire a partir de elementos da Ética da Libertação. A interface das contribuições de Dussel a Paulo Freire e vice-versa. Na perspectiva cristã o desafio maior consiste em articular a Filosofia predominante nos escritos mais recentes de Dussel com a reflexão teológica comprometida com a práxis da libertação. De modo modesto foi o que se procurou realizar a partir do terceiro capítulo.

A Ética da Libertação salienta a dignidade da vítima e indica o percurso de superação da miséria. Apresenta contribuições. Dentre elas, o método analético e o conceito de materialidade são divisores de águas no pensamento do autor. Sobretudo, em tempos de globalização, a corporalidade da vítima, como critério crítico material da Ética da Libertação, traduz o esforço de Dussel em apresentar não uma ética da totalidade, da reprodução do mesmo, mas a ética da vida.

Ao propor a ética material, Dussel rompe com vasta tradição ética existente, desencarnada da realidade. Comprometida com a história concreta, a Ética da Libertação não se alia a sistemas políticos totalitários, nem tampouco a interesses particulares. Também não adere à globalização da produção das vítimas. Antes se ocupa da produção, reprodução e desenvolvimento da vida humana. Dussel insiste: ética da vida a partir da materialidade do corpo que expressa a falta, a negação, a fome. Ética a partir das vítimas, protagonizada por elas em prol de si mesmas e da realização da vida humana como caminho de conversão também do sistema que há de acolher na revelação do outro a revelação de Deus. O Reino de Deus não é realidade etérea e distante. Podemos na efemeridade do tempo instalar, ainda que de modo incipiente, o Reino como a presença do extraordinário no ordinário da vida.

Conclui-se esta dissertação enfocando que novos são os mecanismos de produção das vítimas. Destacam-se a comunicação a serviço da propagação de ideologias e formação de novos consumidores e a utilização da tecnologia disponível a serviço do capital. O trabalho como fonte de vida e dignidade constitui o sonho e o desafio das vítimas que lutam pela libertação. Muitas vezes mal pago, o trabalho configura-se vida objetivada e vendida numa relação desigual. O salário não chega a garantir a produção, reprodução e desenvolvimento da vida humana. A Ética da Libertação não pode se esquivar de pensar as implicações da realidade do trabalho. De modo indireto tal temática esteve presente ao longo da dissertação.

A globalização apresenta à antropologia cristã o desafio de trazer para o centro o ser humano. A globalização humana pautada nos valores de solidariedade e justiça evoca antropologia capaz de “humanizar o humano”, revesti-lo de dignidade. Focá-lo como destinatário dos “bens globais” no local onde produz-reproduz e desenvolve a vida.

À fé cristã cabe o desafio de se exercitar na tolerância, abertura, atitude de acolhida que se há de ter diante do outro para reconhecê-lo não simplesmente como diferente ou distinto, mas como o outro a me libertar de meu mundo e a constituir oportunidade de irrupção do novo.

A Ética da Libertação é Ética Comunitária. Destina-se sobretudo às vítimas mundiais, de rostos por vezes desfigurados, instituições em marcha, grupos unidos em prol da libertação. Perante o processo de globalização atual, a abertura, o encontro se opõem ao risco do totalitarismo e preludiam a realização de um mundo melhor. Enquanto houver pessoas que acreditam, trabalham e esperam a realização do novo, da utopia possível, continuará em desenvolvimento o processo histórico de libertação.

Como contribuição da presente pesquisa, consideramos o fato de discutir tema tão atual como a globalização a partir do prisma ético-teológico. As ciências políticas, sociais, entre outros, ocupam-se de discutir a globalização atual. A Teologia deve assumir tal missão e contribuir indicando caminhos novos. Importou também trazer à baila a temática da libertação. A Teologia da Libertação não morreu. Faz-se presente nas comunidades, na organização de grupos, continua a inspirar o agir cristão, fiel à realidade onde pesa a dominação. Embora eu tenha nascido no final da década de 1970 e não tenha vivenciado o ápice da Teologia da Libertação, encontrei-a presente em inúmeras comunidades que conheci a fomentar a práxis de cristãos comprometidos com a realidade onde buscam testemunhar a fé cristã.

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