Belo horizonte



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1.2 Fases do pensamento de Dussel


O desenvolvimento da obra de Dussel pode ser compreendido em três fases: Ontológica (1961-1969); Metafísica (1968-1976) e final, mais concreta, (1976-1986). Esse esforço de periodização tem função exclusivamente didática, pois as fases se interpenetram e Dussel, no percurso de seu pensamento, incorpora criticamente o que se lhe apresenta como mais relevante, sem necessariamente abrir mão de pressupostos anteriores.

Baseia-se aqui, largamente, na proposta tripartite de R. Zimmerman22, apesar de Emilio Ricardo Noceti também reconhecer três etapas de seu pensamento: até 1970, etapa de formação, em sua maior parte na Europa (nível ontológico); de 1970 a 1976, a ruptura com o pensamento ontológico; e, por fim de 1976 em diante, o tempo do exílio e da maturidade23. Apresenta-se ainda, no final deste item, a proposta de inserção de uma quarta fase no pensamento dusseliano, situada em tempos de globalização e exclusão e que recorta a última etapa em duas partes co-ocorrentes.

Segundo Zimmerman, a primeira fase, Ontológica, é predominante heideggeriana e fenomenológica. Percebe-se a tentativa de Dussel em destruir24 criticamente o pensamento ontológico da filosofia ocidental, e atribui a Heidegger papel importante na busca de superação da ontologia. Nos primeiros capítulos de “Para uma ética da libertação latino-americana”, baseia-se em Heidegger para situar o início da mudança, uma vez que em Heidegger a ontologia da totalidade chega ao seu termo e começa a encontrar uma via de superação25.

A segunda fase, denominada Metafísica, é inspirada, sobretudo, em Lévinas. A partir da leitura de Totalidade e infinito26, reestrutura o pensamento e avança na busca da superação da filosofia ocidental moderna. Lévinas se faz presente em “Para uma ética da libertação latino-americana”, já a partir do capítulo III. A categoria “centro” passa a ser relacionada com a totalidade e a categoria “periferia” com a alteridade.

Dussel materializa o conceito levinasiano de alteridade mantendo, no início, categorias abstratas: totalidade, exterioridade, o mesmo. A idéia de serviço ao outro, amor de justiça, expressa a materialidade que acrescenta ao conceito de alteridade levinasiano.

Essa materialidade é processada, posteriormente, ao vincular o conceito levinasiano de autrui e traduzi-lo como outro enquanto pobre27. Dussel apresenta o caminho para encarnar objetivamente o discurso de libertação. Investe a categoria autrui de conteúdo capaz de exprimir o latino-americano como oprimido, como o periférico, em várias manifestações como classe operária, povo, mulher dominada eroticamente, a cultura no âmbito pedagógico, a idolatria em todos os níveis. Mas, sobretudo, autrui é capaz de revelar o pobre: “esta ‘experiência’ inicial vivenciada por todo latino-americano, até mesmo nas aulas universitárias européias de filosofia - se expressaria melhor dentro da categoria Autrui (outra pessoa tratada como outro), como pauper (pobre)”28.

O terceiro e último momento é o mais concreto. Origina-se no exílio no México, marcado pelo aprofundamento crítico de sua reflexão. Dussel assume, radical e materialmente, a sua opção pelos pobres. É quando se destaca a análise crítica de Marx29. Dussel explica que o retorno a Marx se deu por três motivos: a crescente miséria do povo latino-americano, o desejo de efetivar crítica ao capitalismo e da constatação de que a filosofia da libertação precisaria primeiro construir uma econômica e uma política firmes, para então apoiar a pragmática como aplicação da analítica30.

Não se considera esta fase como última, pelo fato de Dussel ter apresentado novas categorias de discurso com maiores pretensões de universalidade e o situado num contexto mais amplo e específico de até então: na idade da globalização e exclusão.

Como foi sinalizado no início deste tópico, propomos uma quarta etapa no desenvolvimento do pensamento analético dusseliano31. Não como momento estanque, mas que já se encontrava implícito no conjunto de seus escritos de até então. Inicia-se após a publicação de “Para uma ética da libertação latino-americana”. Tal etapa culmina com o pensamento crítico marcado pela realidade da globalização e da exclusão, em que a crítica do autor se torna mais acurada e com profundidade maior no que se refere ao terceiro mundo.

Até esse momento, o método analético adotado por Dussel se limitava, a partir da América Latina, a romper com a ontologia do centro. A partir de então, Dussel assume perspectiva mundial em sua “Ética da Libertação na idade da globalização e exclusão”. Situa a Ética da Libertação no que denomina nível material32: ética da corporalidade e da vida. O conteúdo fundante dessa ética é a conservação da vida humana, entendida nos momentos de produção, reprodução e desenvolvimento da vida. Esse critério material é universal e de caráter comunitário, pois para ele a vida humana se “trata de uma ‘comunidade de vida (Lebensgemeinschaft)’”33.

Dussel propõe que a afirmação da vida se dá a partir da atitude ética de negar a negação atribuída pela totalidade à vítima, como origem do processo crítico material de libertação. Busca responder a realidade das vítimas da exclusão social do processo de globalização34.

As fases do pensamento dusseliano revelam intenso esforço do autor no sentido de validar o discurso pela causa da libertação, mostrando-se crítico frente às morais de dominação e iluminador de caminhos a serem trilhados. No quarto momento revela-se o pensamento maduro do autor que além de assimilar e questionar a intensa produção anterior, manteve-se aberto ao diálogo com autores como Walter Benjamin e Franz Hinkelammert. No caso brasileiro, prestigia a obra de Paulo Freire, sempre citada em sua Ética.

Mediante a contribuição levinasiana para a teologia da libertação e relevância para o desenvolvimento do pensamento de Dussel, compete dedicar-lhe um tópico especial.

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