Belo horizonte



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1.5 O método analético


Desde o começo da década de 70 denominamos - com outros argentinos - ‘analético’ o método que parte da afirmação do Outro, e a partir de sua dignidade reconhecida nega as negações que pesam sobre a sua pessoa69.

A articulação das categorias trabalhadas por Dussel, permitiu-lhe a elaboração do método analético, que tem na negação o princípio da afirmação ética por excelência. Tal afirmação situa-se na base do empenho do autor de romper com a dialética, caminho que considera insuficiente para promover a Ética da Libertação. Cabe agora expor os pressupostos, bases e desenvolvimento do método dusseliano.

A releitura da tradição ocidental e a busca de nova abordagem de temas filosóficos sem dúvida representam tanto o esforço como os resultados de E. Dussel. No entanto, para além desses aspectos de seu percurso, o filósofo empenhou-se na elaboração de um método que traduz como sua contribuição por excelência. “A partir da ‘Alteridade’, surge um novo pensar, não já dialético, mas analético e, aos poucos, penetramos no desconhecido para a filosofia moderna [...]”70.

O ponto de partida do método analético é a análise da dialética na tradição ocidental. De Aristóteles, passando por Descartes, Kant, Hegel e Marx, Dussel propõe a analética como ponto de apoio metafísico que supera a dialética ontológica. Assim, o método da Ética da Libertação dusseliana é analético, e, ao romper a totalidade ontológica fechada, permite a irrupção da exterioridade, ou seja, do outro como realidade primeira, anterioridade (de inspiração levinasiana). É o que se pode compreender quando afirma que:

Toda negação crítico-profética do pecado procede então da afirmação da justiça de alguma maneira antecipada na comunidade cristã de base. Esta experiência da exterioridade (mais-além- aná em grego- do horizonte do sistema: analético ou alteridade vivida entre os irmãos) é o Reino ‘já’ começado que mede a eticidade de toda práxis. A comunidade ‘já’ vive em parte o sistema futuro de justiça, e a partir do referido projeto julga a moral vigente como perversa71.

O método analético, paradoxalmente, tem, na afirmação do Outro, a possibilidade de negação da opressão, do não-ser ou do eterno retorno do ser à totalidade sem diferença, sem história. A negação da opressão começa pela afirmação analética da exterioridade do outro. É passagem ao outro numa atitude de despojar-se de si para servi-lo.

O método, analético é a passagem ao justo crescimento da totalidade desde o outro e para ‘servi-lo’ criativamente. A passagem da totalidade a um novo momento de si mesma é sempre dia-lética; tinha porém , razão Feurbach ao dizer que ‘verdadeira dialética’ (há, pois, uma falsa) parte do diálogo do outro e não do ‘pensador solitário consigo mesmo’. A verdadeira dia-lética tem um ponto de apoio Ana-lético (é um movimento ana-dia-lético); enquanto a falsa, a dominadora e imoral dialética é simplesmente um movimento conquistador: dialético72.

Dada a exterioridade como categoria fundamental, o ponto de partida do método analético, se dá na tomada de consciência de que todo ser humano, enquanto pessoa ou comunidade, está mais além, “aná” do horizonte da totalidade.

A analética desvela e anuncia que a dialética não é suficiente para responder ao apelo do outro e romper o horizonte fechado da totalidade. No entanto, não se propõe a levar ao esquecimento a dialética, pelo contrário, busca assumi-la e completá-la, conferindo-lhe valor. Afinal, a analética, em função de sua categoria fundamental de exterioridade, não consiste apenas em uma concepção teórica. Constitui-se como opção ética e práxis histórica concreta, uma vez que: “A característica do método analético é ser intrinsecamente ético e não meramente teórico, como o discurso ôntico das ciências ou ontológico da dialética”73.

A afirmação do Outro é, por um lado, ir de encontro à origem da possibilidade da categoria fundamental da dialética, a negação. O método analético se coloca como afirmação primitiva do outro. Afirmar o outro é negar a negação dialética, uma vez que a opção ética se efetiva no saber ouvir, acolher a interpelação do outro, este outro oprimido, do pobre que expressa sua fome. O método analético prima por afirmar a exterioridade e não somente negar a negação do sistema74.

Para Dussel, a ontologia enfatiza o que se pode chamar “negação da negação”, uma forma de dialética negativa. Essa negação se origina na tomada de consciência da opressão, mas ainda de dentro do sistema, preso à totalidade.

Na Ética da Libertação a “negação da negação” é, ao mesmo tempo, práxis fundada na exterioridade do outro e afirmação metafísica por excelência. Uma vez que a exterioridade é a categoria mestra deste método, estabelece o caráter afirmativo da libertação por meio de via dupla. Nega o “negado” no sistema e afirma a exterioridade do oprimido que está fora do sistema. É princípio de construção de nova ordem. Para o antigo sistema, seria impossível a realização do novo, pois se encontra demasiadamente cheio de si. Concretamente a analética da alteridade realiza-se entre homem-mulher, pais-filhos, irmão-irmão (relação erótica, pedagógica e política respectivamente)75. A metafísica da alteridade concretiza-se no reconhecimento do outro como outro e no situá-lo como origem não apenas do discurso, mas da ética.

Dussel considera que o método dos profetas, de Jesus e da Teologia da Libertação, é analético. Apóia-se na Palavra (o logos de analético) que irrompe para além do sistema. A própria escatologia remete ao que está além do sistema dado e que se apresenta como possibilidade de libertação. A partir daí poder-se-ia, mesmo, definir a teologia cristã como uma forma de pedagogia analética da libertação histórico-escatológica76.

Para Dussel, o fazer teológico segue o método profético, presente em Jesus Cristo. Tal método profético-pedagógico da teologia é analético, se abre a partir do rosto do outro. Dussel configura em cinco momentos o método da Teologia da Libertação77. Num primeiro momento, a Teologia defronta-se com a manifestação do sistema e a ele se remete como totalidade. A partir da totalidade, descobre o real sentido da realidade e o risco de totalização mediante a expansão do desejo de dominação. No sistema capitalista a mais-valia é mediação para o projeto estar-na-riqueza78.

A negação simples da realidade caracteriza o segundo momento, ou seja, a Teologia se move para tal horizonte.

O papel do teólogo é desempenhado a partir do terceiro momento, denominado analético, quando então julga a totalidade do sistema seja político, seja econômico, seja cultural, a partir da Palavra de Deus e suas categorias79. De modo efetivo pela interpelação do pobre.

Daí, num quarto momento, o sistema é questionado pela vítima, a partir de sua fome e pela exterioridade da Palavra que possibilita pensar o fato da dominação não como um pecado, mas como o pecado, e indica a possibilidade da práxis de libertação: “[...] quinto momento: práxis analética porquanto vai mais além que o sistema para um projeto de libertação”80.

Desse modo Dussel compreende a função da Teologia da Libertação como: “[...] um apoio estratégico da práxis de libertação do cristão, já que esclarece num nível radical as opções concretas, históricas, claro-escuras, que a fé cristã interpreta cotidianamente”81. Esta visão questiona o mundo da totalidade que não reconhece válida a reflexão filosófico-teológica latino-americana. A produção intelectual da periferia é “ininteligível para a totalidade” enquanto desprezada pela Europa, já que supõe horizonte ou visão mundial anti-hegemônica, capaz de acolher o outro colonizado como pensante, produtivo e criativo.

O método analético é, pois, caminho de concretização da vida mediante a afirmação da dignidade dos excluídos. Condensa o esforço do autor pela causa latino-americana, na elaboração do discurso ético de libertação.

Neste primeiro capítulo analisou-se a Ética da Libertação de Enrique Dussel como discurso edificado a partir da realidade de opressão latino-americana e comprometido com a práxis de libertação. O esforço da reflexão dusseliana, elaboração de conceitos e metodologia empenham-se nesse sentido. A práxis de libertação é tarefa que cabe às Ciências Sociais e Humanas. No que tange diretamente à Teologia, Dussel apresenta a Ética da Libertação como Teologia Fundamental, “prima theologia” da Teologia da Libertação. Tal afirmação acarreta implicações que conferem tanto à Teologia como à Ética, papel fundamental no processo de libertação latino-americana proposta pelo autor. Apresentar as implicações da presente afirmação é a tarefa a que se propõe o próximo capítulo, buscando-se compreender sua densidade e relevância para a presente pesquisa. Após o percurso de explicitação de conceitos, contextualização do tema, dos primeiros contatos com o pensamento de Dussel, faz-se mister refletir especificamente a temática da Ética da Libertação.





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