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CAPÍTULO 2 - A ÉTICA DA LIBERTAÇÃO COMO TEOLOGIA EMANADA DA PRÁXIS



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CAPÍTULO 2 - A ÉTICA DA LIBERTAÇÃO COMO TEOLOGIA EMANADA DA PRÁXIS


Compete pensar como Dussel elabora a Ética da Libertação, o que entende por libertação e a pertinência de se abordar a Ética da Libertação como Teologia Fundamental. Como pano de fundo, urge perguntar em que sentido a Ética da Libertação como teologia primeira promove a dignidade dos negados pelo sistema e quais são os desafios e questões advindos da situação da dominação vivida e do encontro com a fé cristã.

A Filosofia da Libertação, a qual Dussel coloca em prática desde 1969, está na base da Ética da Libertação. Tem como fundamento “uma realidade regional própria: a pobreza crescente da maioria da população latino-americana82. Em outro momento, afirma que uma ética comunitária da libertação “é a que reflete, descreve, esclarece a própria existência do pobre hoje, aqui, concreta e historicamente”83. Considera práxis libertadora, servir aos povos da periferia, desejando e promovendo a sua libertação. Para Dussel, a Ética, propriamente dita, é aquela que “[...] a partir das vítimas pode julgar criticamente a ‘totalidade’ de um sistema de eticidade”84, filosofia primeira, porque antecede qualquer tomada de atitude, anterior a todo modo de ser. O fundamento de tal ética é o ser do homem que se compreende, existencialmente, como poder-ser. Para Karl-Otto Apel, o mérito da ética da libertação reside em sua experiência autêntica da miséria dos pobres, da exclusão de 75% da humanidade85.


2.1 A Ética da Libertação se opõe ao desenvolvimento excludente


A Ética da Libertação pretende reconstruir a sociedade a partir dos seus menos favorecidos. Por meio do aparato filosófico de Dussel, em interface com a Teologia e as Ciências Sociais, a Ética da Libertação se estabelece como uma ética do cotidiano que interpela a experiência de escassez de um sistema que se arvora em um ideal de desenvolvimento que não se concretizou. Esta denúncia está explicitada em sua afirmação de que “a ética da libertação surge historicamente como uma tentativa teórica (como teologia e filosofia) para esclarecer uma práxis que se origina ante o fracasso do desenvolvimentismo”86. Em contraposição a tal pseudodesenvolvimento, os povos periféricos se deparam cada vez mais com o fato da dependência, através da tomada de consciência que origina a Teologia da Libertação, salientando o dado da riqueza e da pobreza. Tal mudança de perspectiva acarreta conseqüências políticas, econômicas e sociais, com exigências inadiáveis a uma ética que se entende comprometida com a transformação da realidade. As motivações que geraram a Filosofia e a Teologia da Libertação não podem ser assumidas apenas como condicionamento histórico, mas como uma opção ético-metodológica.

A noção de dependência se estabelece na relação e no posicionamento dos países periféricos, aqueles que estão “fora”, o não-ser, com os países do centro, a totalidade cheia de si. A consciência de dependência desempenha papel fundamental para a compreensão da realidade e da libertação como possibilidade íntima e autêntica. O modelo desenvolvimentista propõe um ideal de desenvolvimento que aceita e está atrelado ao sistema como totalidade, é dele dependente. Dependência em todos os níveis, não somente econômica, mas política, religiosa, cultural, antropológica. Essa consciência é que estabelece a dialética dominação versus libertação.

A Ética da Libertação é via de superação de tal dialética, a partir da afirmação suprema da dignidade do outro como indivíduo, coletividade e vítima. É exigida pela práxis opositora ao sistema enquanto totalidade. Trata-se de uma ética da resistência que impõe limites, clama por direitos não respeitados e parte dos próprios excluídos.

A partir da negatividade da vítima, irrompe o ideal de promoção de uma nova ordem como anterioridade própria da Ética da Libertação, pois “[...] a primeira tarefa da ética da libertação é ‘desfundar’, perfurar o fundamento do sistema até outro fundamento ‘mais além’ ou transcendental ao sistema atual”87. Tem por tarefa formular as opções, as atitudes e os valores morais que compõem a ação dos cristãos comprometidos com o processo de libertação. Ergue, na América Latina, discurso distinto e não só diferente, cuja matriz filosófica não é uma “filosofia na América Latina”, mas uma “filosofia latino-americana”. A primeira apresenta traços da dependência européia. Ou seja, filosofia da periferia a partir do centro. Já, na segunda, elaborar a filosofia latino-americana original implica em estudar e criticamente comentar a tradição filosófica ocidental. Demanda investigar seus problemas e propor respostas, dentro da realidade bem específica da América Latina dado que, na visão de Rejón:

[...] desde onde se elabora a reflexão ética não se refere só à ubiquação espacial, geográfica ou social, mas tem também conotação estritamente ética, fazer moral ‘a partir de’ implica e leva a fazer moral por e para, concretizando, assim, a opção pelo pobre no campo da reflexão ética88.

Nessa perspectiva Dussel critica as morais reformistas. Tais morais se perguntam como é possível ser feliz “no Egito”. O que subjaz a este questionamento é a problemática de como se adequar à opressão. O êxodo faz outra formulação a partir do pobre, paradigmática para a Ética da Libertação. A questão não é como viver no Egito, mas como sair do Egito. Ou seja, como romper com a totalidade e ir mais além de meu mundo como horizonte repleto de possibilidades, dimensão escatológica, chão que ainda não possuo, mas posso vir a pisar89. A Ética da Libertação parte do sistema opressor, como totalidade, e da possibilidade de um poder-vir-a-ser, abertura, dimensão escatológica da libertação no sentido de abertura plena ao novo, realização do Reino e do que é próprio da dimensão humana. O fundamento da Ética da Libertação de Enrique Dussel, neste momento, é o ser do homem que se compreende, existencialmente, como poder-ser90. A questão não é como ser bom, feliz, mas como se libertar e se manter livre. O protagonismo da ação recai sobre o que se liberta.





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