Belo horizonte



Baixar 0.63 Mb.
Página9/23
Encontro19.07.2016
Tamanho0.63 Mb.
1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   ...   23

2.4 Etapas da Ética da Vida ou Ética da Libertação


Nesta quarta etapa do pensamento de Dussel, a Ética da Libertação é considerada uma ética da vida. Esta afirmação se faz presente em toda a obra “Ética da libertação na idade da globalização e da exclusão, como antífona a preconizar a reflexão. “A morte das maiorias exige uma ética da vida, e seus sofrimentos nos levam a pensar e a justificar a sua necessária libertação das cadeias que as prendem”112. Dussel também ressalta: “Esta expressão poderia realmente resumir perfeitamente toda a Ética da libertação: ética da corporalidade e da vida [...]”113.

Essa ética da vida da vítima compreende três momentos fundamentais: produção, reprodução e desenvolvimento da vida humana. Tais momentos serão descritos brevemente a seguir114.

O momento de produção abarca dois níveis: o vegetativo (comer, beber, vestir) e o que se refere às questões da mente (da aprendizagem, dos valores de liberdade, da consciência, da responsabilidade ética). Abrange tudo o que se pode chamar de cultura, ou seja, que diga respeito ao ser humano na sua integralidade. A vítima está viva e começa a perceber que o dever-viver é o princípio ético-material da produção da vida.

O momento da reprodução da vida ocorre no nível racional e no comunitário de uma existência que, além de produzir, se reproduz de modo criador e inventivo. O ser humano se reproduz não apenas biologicamente, mas por meio de instituições, valores, cultura, artes e tantas outras manifestações de sua passagem histórica e comunitária pela vida. É preciso que se criem formas que preservem a vida e retardem a morte e o esquecimento. A comunidade apresenta as melhores condições para tanto. O momento de globalização atual exige que as comunidades se agreguem entre si para preservar a vida em rede planetária.

O momento de desenvolvimento da vida revela o ser humano inacabado, inquieto, aberto ao desenvolvimento de sua vida nas situações mais diversas, bem como nos momentos de produção e reprodução. Marca a busca de transcendência para além do antropológico-material. Contrariando os sistemas que oprimem a vítima e a impedem de produzir e reproduzir a vida, este é o momento primordial para a vítima que, vivendo sob a negação, busca desenvolver crítica e criativamente a sua vida. Trata-se do momento de tomada de consciência da vítima que assume o dever-viver e cria na solidariedade, na organização de comunidades, o movimento libertador que possibilita o desenvolvimento da vida.

Tais etapas são abordadas didaticamente e não ocorrem de modo estanque. Constituem a Ética da Libertação ao apresentar formulação teológica sendo tratada como Ética Comunitária de Libertação. Nesta perspectiva grande é o elo com a Teologia Fundamental, como que se verá a seguir.


2.4.1 A Ética da Libertação como Teologia Fundamental


A Ética da Libertação oferece contribuições valiosas para o discurso teológico moral, como o sintetiza Marciano Vidal:

São muitas as características da EL que têm uma função instrutiva para o discurso teológico-moral geral. Entretanto, creio que todos eles possam ser resumidos nos seguintes: a opção preferencial pelos pobres como perspectiva básica do discurso teológico-moral, e a dimensão estrutural da realidade humana como orientação dos projetos teológico-morais115.

Dussel formula teologicamente a Ética da Libertação e para esta pesquisa comprova a afirmação de Vidal. Nesse sentido, utiliza a expressão “Ética Comunitária” quando se propõe a elaborar um discurso teológico, situando na Teologia da Libertação questões habitualmente tratadas pela teologia tradicional como “Ética Social”.

Para a Ética Comunitária, comunidade ou comunitário são termos que indicam uma ordem utópica em que o face-a-face humano é fundado na relação de justiça. A Ética da Libertação, ou Ética Comunitária da Libertação na sua denominação teológica, ou, ainda, simplesmente Ética Comunitária, é fundamento da Teologia da Libertação porque se ergue a partir do pobre e de sua existência concreta. O critério de discernimento é situar-se como pobre para ter fé na sua palavra, ouvir e crer na sua revelação.

O ‘pobre’ é Cristo agora-aqui, o ‘caminho’ que nos permite descobrir e falar sobre Deus. Por isso a ética comunitária é a teologia fundamental da Teologia da Libertação, porque esclarece os pressupostos, as condições de possibilidade do discurso teológico como totalidade116.

O discurso de Dussel tem como público alvo os cristãos das comunidades eclesiais de base, os estudantes de Teologia, os que anunciam a boa nova com sua pregação, professores e animadores de comunidades. Destina-se a pessoas para as quais é importante a práxis e o aprofundamento teórico, cristãos fiéis ao momento histórico em que vivem e às exigências evangélicas de seus contextos117.

Para Enrique Dussel, a Teologia é ato segundo, articulado com a práxis, esta, sim, ato primeiro, que em sua visão é a práxis do povo como exterioridade, no conjunto de um bloco comunitário. A disponibilidade de ser-com-o-outro e ser-para-o-outro, própria da cultura popular118, revela que o povo é capaz de estabelecer “relações comunitárias” e de se configurar como uma “comunidade de vítimas” em práticas exteriores ao sistema, que comportam certa ambigüidade. De um lado, como resistência ao desejo de totalização do sistema, dos ditos bens da globalização; de outro, não está imune ao risco de introjetar, alienadamente, o sistema de modo imitativo, consumista, enquanto massa facilmente guiável.

Dussel alerta para tal ambigüidade e indica que o modo de não se deixar contaminar pelo sistema é destruir as ideologias que alienam. A ideologia produz a teoria que justifica qualquer ação e simultaneamente lhe oculta o sentido real, fundamentando, assim, a ação ética má, travestida de uma moralidade aceita e difundida. Em suas palavras, “a ideologia justifica então a práxis, ocultando ao mesmo tempo o sentido derradeiro da mesma práxis, concedendo por outro lado ‘boa consciência’ ou ‘consciência de inocência’ àquele que comete a injustiça”119. Adverte, ainda, que a Teologia pode estar a serviço da práxis de dominação. É possível identificar os sentidos ideológicos das teologias quando se descobrem os tipos de dominação que ocultam. Por estarem inseridas em contextos próprios, em épocas específicas, podem ser afetadas por esse risco. Contra esta possibilidade, a Teologia cristã deve desempenhar papel de mestra também do processo de crítica e denúncia das ideologias, que garantem a moralidade do sistema como totalidade.

Como parceiras do diálogo de Dussel, as comunidades eclesiais de base apresentam disposições mais efetivas para a “práxis comunitária utópica”120. A partir da exterioridade como bloco comunitário dos oprimidos, essa alteridade pode iniciar a crítica à ideologia e o limite à sua propagação. É o lugar no qual o povo vive autenticamente a experiência não apenas de ser marginalizado pelo sistema, mas, afirmativamente, de não ser parte constitutiva do sistema dominador.

Sob a ação do Espírito e inspiração da comunidade apresentada nos Atos dos Apóstolos, as comunidades cristãs procuram viver a utopia do Reino de Deus, perseverando na busca da libertação. A práxis libertadora dos oprimidos dá origem à palavra não ideológica e à crítica a toda ideologia, e, “por isso o povo exerce crescentemente uma ‘práxis de libertação’ contra o capitalismo dependente que nosso povo sofre, com a conseqüente superexploração que só nossa pele sente (não se sente o mesmo nem na Polônia, nem em Roma, nem nos Estados Unidos)”121. A exploração sentida na “pele” expressa a vulnerabilidade da carne que traduz a materialidade da Ética da Libertação.

Dussel faz uma retrospectiva da Teologia da Libertação que, durante alguns anos, desde 1968, foi quase exclusivamente considerada como Teologia Fundamental, uma vez que as bases constitutivas de suas articulações e escritos eram compostas pela Teologia Fundamental. Segundo Dussel: “Já dissemos que até 1974 quase todos os escritos eram de teologia fundamental. Como, porém, a teologia fundamental da teologia da libertação é a ética comunitária, produziu-se no espectador (não nos autores) muita confusão”122.

Gradativamente, os horizontes se estenderam para a Cristologia, a Eclesiologia, Escatologia, etc. Por vezes, a Teologia da Libertação foi confundida com moral social ou considerada apenas “um capítulo” da moral123. Contra essa perspectiva, Dussel defende que a Teologia da Libertação constitui modo genuíno de fazer Teologia a partir da experiência de fé, de vida e de luta das comunidades:

A Teologia da Libertação supõe um tipo de práxis sem a qual não poderia existir, uma vez que ela é reflexão. Por isso a prima theologia (a teologia fundamental ou primeira) é este tratado de ética, porque esclarece e descreve, reflete teologicamente sobre a própria práxis de libertação do povo como ‘ponto de partida’124.

A posição de Dussel é enfática ao situar a Ética da Libertação como Teologia Fundamental da Teologia da Libertação. As indagações primeiras da Teologia Fundamental sobre a possibilidade da revelação e da fé cristã são precedidas pela constatação histórico-social do lugar a partir do qual se pode ouvir e crer na revelação, espaço no qual levanta o pobre real, um povo, o latino-americano, na grande corrente de oprimidos que abarca. Como se explicitou, o esforço do discurso ético dusseliano surge a partir da realidade da vítima125. Por isso, a Teologia Fundamental da Teologia da Libertação é, na sua visão, Ética Comunitária que tem como fundamento o outro não apenas como pobre, e, especialmente em tempo de globalização, o outro como vítima.

A identificação de Jesus com o pobre (Mt 25) não é uma metáfora; é uma lógica. Deus, o Absoluto outro, se revela na carne (o sistema) através do outro: o pobre. A exterioridade metafísica (e escatológica) do pobre (ao mesmo tempo teológico e econômico, se se entende o que significa uma “economia teologal”) o situa como a realidade (histórica) e a categoria (epistemológica) chave de toda a ética da libertação (ou da teologia fundamental enquanto tal)126.

O interesse de Dussel é, para além do confrontar, dialogar com a Teologia Moral e a autonomia do sujeito presente na Teologia da Libertação. Para tanto, utiliza a mediação das ciências sócio-analíticas, por permitir explicitar o nível concreto do pecado, para além da dimensão religiosa, em suas raízes políticas, sociais e econômicas.

Em uma palavra, a existência da pobreza reflete uma ruptura da solidariedade entre os homens e a comunhão com Deus. A pobreza é expressão de um pecado, quer dizer, de uma negação de amor. Por isso é incompatível com o advento do Reino de Deus, Reino de amor e justiça127.

Clarificar as estruturas de injustiça que pesam sobre a vítima é labor teológico, ainda que se utilizem as mediações sócio-analíticas, justificadas por Dussel ao mencionar vários pontos da Constituição Pastoral Gaudium et Spes128. O uso dessas ciências permite ao teólogo da libertação refletir acerca da realidade de modo peculiarmente novo129. Ao situar o fato de que o ser humano e suas circunstâncias, bem como a sua práxis, determinam a Teologia, não se abstraem as limitações ideológicas próprias da produção humana. A Teologia da Libertação há de se valer do instrumental das Ciências Sociais para refinar seu discurso, permeado de possíveis ideologias, e não para assumir as ideologias infiltradas, risco sempre presente e pressentido, como muitas vezes foi acusada de marxista.

O fato da mudança de perspectiva não subtrai o valor e a importância da Teologia Fundamental. Esta representa condição sine qua non para a tarefa de libertação que se pretende empreender, no intuito de fornecer alicerces ao pensar que parte da realidade distinta de até então, porém, não antagônica.

A afirmação de que a Ética da Libertação coincide com a Ética Comunitária na sua formulação teológica apresenta algumas implicações. Ressalta-se que: a Ética da Libertação exerce função crítica em relação à moral vigente, no intuito de instituir critérios para a efetivação de nova ordem de libertação. A Ética Comunitária destaca a importância da comunidade e do aspecto comunitário para a concretização do face-a-face próprio da relação de justiça. A partir da leitura de Dussel, nota-se que ela se volta contra o sistema-mundo e suas injustiças. A práxis aqui pretendida destina-se ao povo que, como exterioridade, compõe o bloco dos oprimidos. O povo pode e é capaz de, na solidariedade, nas práticas comunitárias de vivência cristã, apresentar-se ao sistema como exterioridade e manifestar resistência à dominação.

A Ética Comunitária como Teologia Fundamental, bebe nas fontes da fé cristã, remetendo quase diretamente a Hb 11, 1-39130. Exige opções éticas indispensáveis que se expressam na práxis de libertação e se efetivam quando se opõem ao sistema e às estruturas de pecado. Tal ética implica, na América Latina, um comprometimento consciente de engajamento na transformação da realidade. O ponto de partida da Teologia da Libertação é a práxis de libertação. Por isso, nessa práxis, a ética é a Teologia Fundamental, “prima theologia”.

A Ética da Libertação propõe exigências concretas como a tomada de consciência da vítima, o posicionamento crítico diante da realidade de opressão e a mudança de atitudes que culminem na inclusão e promoção da dignidade dos marginalizados. Como Teologia Fundamental, quer indicar não apenas o ponto de partida, mas a pertinência da questão do pobre, do excluído para a Teologia cristã. Há de se superar os desafios que se lhe apresentam, na busca de efetivar a libertação das cadeias de opressão.


2.4.2 Desafios e problemática da Ética da Libertação como Teologia Fundamental


Dussel identifica alguns desafios que a Teologia Fundamental enfrentou na história cristã. No século XVIII, com o objetivo de elaborar uma racionalidade de e para a fé, já que esta era considerada obscurantista, produziu-se Teologia Fundamental de caráter apologético. Emerge em defesa da fé ou pelo menos de sua possibilidade, frente ao desafio de ser cristão, afirmar a fé em mundo secular, num momento em que a Teologia Liberal européia inaugurava seu discurso, justificando-se ante o mundo burguês que não se pautava pela religião.

Nos países pobres e empobrecidos, na periferia do mundo, os desafios enfrentados pela Teologia da Libertação eram outros: acrescentar crítica a toda prática religiosa que exerça função de dominação e defender a fé cristã como capaz de promover a práxis de libertação. A religião não poderia gerar falta de comprometimento político-social, face à realidade da América Latina. O teólogo, antes de tudo, deveria e deve ser cristão, e por isso, engajado e imbuído de uma práxis131.

As questões primordiais da Teologia Fundamental, como a possibilidade da revelação e da fé, enfrentam questionamento diferente. No que tange à possibilidade da revelação, o que está em jogo não é a secularização nem o ateísmo e, sim, a existência de ídolos. “Hoje, na América Latina (sem concordismos), ‘o sistema’ é o capitalismo anglo-saxão no plano social; o machismo no plano erótico; a dominação ideológica no plano pedagógico; a idolatria em todos os seus níveis”132. A realidade latino-americana apresenta infinita capacidade de produzir sistemas que se opõem a Deus como ídolos. A tarefa da Teologia Fundamental é, por seu turno, a afirmação da fé no Deus Criador que se revela no outro, sobretudo no pobre, e, em tempos de globalização, na vítima.

É necessário, em primeiro plano, que a práxis de libertação se comprometa com a denúncia e esvaziamento das próprias ideologias que condicionam a fé e a revelação de Deus. O “ouvir a voz” é caminho da autocomunicação de Deus que só pode se revelar pelo que não é sistema-mundo. Para ouvir a voz de Deus no pobre que se revelou em Jesus Cristo é preciso ter consciência ética: “[...] os pobres são a mediação objetiva, historicamente necessária, para una autêntica teologia cristã, o desde onde para se poder hoje refletir teologicamente, o lugar teológico imprescindível para ascender corretamente a Deus”133.

O pecado surge como empecilho a esta escuta e absolutização da totalidade que antes de ouvir a voz do outro, nega-a. No relato de Gn 4,8b, o pecado se caracteriza pelo não ao outro: “E, como estavam no campo, Caim se lançou sobre o seu irmão Abel e o matou”. Todo o pecado se origina nesse negar o outro: mal da totalidade é a eliminação da alteridade. Nisso residiu a tentação de Adão: ser uma totalidade. Deus não morreu como por vezes insistiu a Filosofia; antes, teve sua epifania literalmente assassinada pela morte do outro: do índio, do escravo, do trabalhador das minas, da mulher e tantos outros. Uma vez que o outro, situado como vítima, é o lugar da epifania de Deus e a possibilidade real de sua revelação, há necessidade de afirmá-lo e reconhecê-lo como princípio da Ética Comunitária.

No que se refere à possibilidade da fé, a questão é outra, que simplesmente provar os motivos para se crer. O que ora se afirma e se defende, a partir de Dussel, é a relação com o outro. Para se crer é preciso ser antifetichista dos ídolos de todo sistema fechado em si mesmo como totalidade, do príncipe deste mundo134.

A perversidade do pecado não reside apenas na dimensão pessoal da relação com o outro, mas é também social, histórico e institucional. É preciso ir de encontro às estruturas de pecado por meio da práxis de libertação. Para se crer na palavra do outro e sentir-se responsável por ele, é preciso, antes, uma ortopraxia e não simplesmente de uma ortodoxia.

O critério do discernimento da Palavra de Deus é situar-se do ponto de vista dos pobres para ouvir sua revelação, para poder crer, para saber se uma práxis é ortoprática. O ‘pobre’ é Cristo agora-aqui, o ‘caminho’ que nos permite descobrir e falar sobre Deus. Por isso a ética comunitária é a teologia fundamental da Teologia da Libertação, porque esclarece os pressupostos, as condições de possibilidade do discurso teológico como totalidade135.

Descrever e situar a gênese do pobre, sua manifestação histórica e compreendê-lo hoje como vítima, são condições fundantes para se iniciar o discurso teológico da libertação que seja crítico, profético e se constitua como Teologia Fundamental. A Teologia da Libertação não é apenas um anexo da Teologia cristã, mas maneira distinta de fazer Teologia136. Os interlocutores que se deparam com o outro pobre, não são ateus e sim fetichistas e idólatras. A revelação só pode fazer ecoar sua mensagem quando é ouvida a interpelação do Outro, quando se tem fé na sua manifestação. A fé é o critério de discernimento da articulação ortopráxis e ortodoxia. A partir dela, há possibilidade da crítica profética de tudo o que aliena o povo. Destronar os ídolos e os fetiches é meio de se ouvir a revelação de Deus e assumi-la vivencialmente como viés de concretização do Reino.

Consciente das limitações do discurso e do risco de se fixar apenas nele (discurso pelo discurso), Dussel atenta para a práxis que antecede e inspira a reflexão filosófica e teológica do autor.


2.4.3 PRÁXIS como Teologia Fundamental da Teologia da Libertação


A relação prática apresenta-se como a principal articulação da Teologia Fundamental da Teologia da Libertação. As respostas à revelação e à fé se dão na práxis comunitária, espaço vital em que se verifica a problemática da legitimidade ou não dessa práxis. Para Dussel, a relação entre prática e teoria ocorre no confronto com o outro, ou seja, no lugar em que se estabelece a relação entre pessoas. A manifestação da práxis reside na comunidade. Para a relação práxica, o “eu” é sempre um “nós” comunitário pautado no ideal da vida da comunidade cristã de estar junto ao outro: “[...] a essência da vida cristã é a comunidade, o estar junto com os outros; é também a essência do Reino: ‘estar junto a Deus’, face a face com ele em comunidade”137.

A práxis é, assim, ponto de partida de toda e qualquer Teologia que tenha como opção metodológica o não negar a importância da racionalidade e da sistematização, nem a sabedoria do cotidiano, vivencial, no fazer teológico. A tarefa da Teologia Fundamental, nessa perspectiva, é descrever a práxis, contextualizada na história, a partir do lugar experiencial em que o teólogo faz teologia. Nesse viés, o teólogo é pessoa concreta e histórica. Encontra-se inserido numa realidade cultural, numa classe social, possui sexo, articula-se numa determinada estrutura lingüística, e se constrói em uma rede de valores, tradições e perspectivas peculiares. Sua produção teológica não pode estar desvinculada de tudo isso, antes dialoga e se faz por causa destas determinações. Faz-se mister ter consciência clara de sua práxis, de sua situação concreta e de como se articula. Não apenas a práxis, mas o modo como se dá a articulação entre prática e teoria constitui objeto de uma primeira reflexão teológica.

A práxis concretiza-se na atualização da proximidade, na experiência do outro como próximo, de constituir o outro não como meio, mas como fim, respeito infinito: “[...] o discurso teológico que descreve a práxis, não apenas a essência ou estrutura fundamental mas também sua situação atual - a partir da qual o teólogo faz ou produz sua teologia - é a prima theologia (teologia primeira ou fundamental)”138.

O papel maior da América Latina consiste em anunciar e fazer valer que as exigências da ética cristã transcendem a moral do capitalismo e não se identificam com ele. Lendo Dussel, conclui-se que as morais que garantem a opressão, desaparecerão, pois os impérios inevitavelmente serão substituídos por outros. Ao contrário, a ética da vida está presente nos anseios mais profundos da existência humana e assim como a vida, resiste à opressão. A demanda pelo amor-de-justiça permanece. Ainda que não plenamente realizada, a ética da vida é gestada na consciência dos que lutam pela libertação, alimentando o ideal de vida das comunidades cristãs.


1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   ...   23


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal