Bem-Viver a expressão “bem-viver”, expressão das comunidades originárias latino-americanas significa, em primeiro lugar, “viver bem entre nós”. Trata-se de uma convivência comunitária intercultural, sem assimetrias de poder



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Bem-Viver



A expressão “bem-viver”, expressão das comunidades originárias latino-americanas significa, em primeiro lugar, “viver bem entre nós”. Trata-se de uma convivência comunitária intercultural, sem assimetrias de poder. É um modo de viver sentindo-se parte da comunidade. E comunidade é tudo: animais, plantas, água, minerais e espíritos. Isso muda muita coisa.


Iser Assessoria


Sumário

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‘Viver Bem’. Uma concepção diferente de vida 1

Ativistas querem desvincular conceitos de bem-viver e padrão de consumo 2

Bolívia. 25 postulados para entender o ‘Viver Bem’ 3

Fernando Huanacuni - ''Nosso modelo não é comunista, mas comunitário'' 6

Isabel Rauber - Bolívia. Uma opção civilizatória com rosto indígena 9

Artigos da Revista IHU On-Line nº 340 12

Sumak Kawsay, Suma Qamana, Teko Pora. O Bem-Viver 12

Pablo Dávalos - Sumak Kawsay: uma forma alternativa de resistência e mobilização 13

Katu Arkonada - Descolonização e Viver Bem são intrinsecamente ligados 17

Quinto Regazzoni - A relação entre o Reino pregado por Jesus e o conceito de Vida Boa dos povos indígenas 19

Simón Yampara - O bem-viver como perspectiva ecobiótica e cosmogônica 22

Esperanza Martínez - Nem melhor, nem bem: viver em plenitude 24

Tatiana Roa Avendaño - O desafio de retomar os mitos e reencantar o mundo a partir do Sumak Kawsay 26

Davi Kopenawa - Bem-Viver: um aprendizado para a humanidade 28

Fabio Mura, À PROCURA DO “BOM VIVER” Território, tradição de conhecimento e ecologia doméstica entre os Kaiowa 31

Eduardo Gudynas - Bem-Viver: Germinando alternativas ao desenvolvimento 32

Paulo Suess - Elementos para a busca do bem viver - sumak kawsay - para todos e sempre 47

Marcelo Barros - Bom viver para todo o mundo 52

Pedro de A. Ribeiro de Oliveira - Bem-viver: proposta de vida na Terra 53

Ivo Lesbaupin - Por uma nova concepção de desenvolvimento 57

Mercedes Lopes Bíblia e Bem-Viver 60



‘Viver Bem’. Uma concepção diferente de vida


[de IHU Conjuntura da Semana 29.09.10] Na luta contra a destruição do planeta e no debate sobre como preservar o que resta, redescobrimos os povos indígenas. Hoje realizamos dezenas de campanhas – como as analisadas aqui – para motivar as pessoas a consumirem menos e colocarem menos pressão sobre os recursos naturais. Os povos indígenas não precisam nada disso. Os povos indígenas nos ensinam que o conceito de sustentabilidade está vinculado a outra lógica, ao não crescimento, ao respeito e preservação da biodiversidade.

Nos últimos anos, diversos países latino-americanos, como Equador e Bolívia, vem incorporando nas suas constituições, o conceito do bem-viver, que nas línguas dos povos originários soa como Sumak Kawsay (quíchua), Suma Qamaña (aimará), Teko Porã (guarani). Para alguns sociólogos e pesquisadores temos aí uma das grandes novidades no início do século XXI.

Redescobre-se agora um conceito milenar: O ‘Viver Bem’. “A expressão Viver Bem, própria dos povos indígenas da Bolívia, significa, em primeiro lugar ‘viver bem entre nós’. Trata-se de uma convivência comunitária intercultural e sem assimetrias de poder (...) É um modo de viver sendo e sentindo-se parte da comunidade, com sua proteção e em harmonia com a natureza (...) diferenciando-se do ‘viver melhor’ ocidental, que é individualista e que se faz geralmente a expensas dos outros e, além disso, em contraponto à natureza”, escreve Isabel Rauber, pensadora latino-americana, estudiosa dos processos de construção do poder popular em indo-afro-latinoamérica.

De acordo com David Choquehuanca, o Viver Bem é um processo que está apenas começando e que pouco a pouco irá se massificando:  “Para os que pertencem à cultura da vida, o mais importante não é o dinheiro nem o ouro, nem o ser humano, porque ele está em último lugar. O mais importante são os rios, o ar, as montanhas, as estrelas, as formigas, as borboletas (...) O ser humano está em último lugar, para nós o mais importante é a vida”.



Fernando Huanacuni, uma das principais referências intelectuais dos aymara na Bolívia, sustenta que a base do processo de mudança no país está na retomada de culturas originárias. “Quando falamos de comunidade, não falamos só de humanos. Comunidade é tudo: animais, plantas, pedras”, diz ele.

O indígena não critica apenas o utilitarismo do capitalismo, mas critica também o utilitarismo do marxismo: “O marxista quer, tem somente um pensamento material. Nós preferimos não explorar porque é importante para o equilíbrio da vida. Mas o marxista não pensa assim. Para mudar o sentido de um rio, o marxista vai colocar tratores e pronto. O indígena vai dizer ‘não, calma, espera, vamos pedir permissão para os nossos ancestrais e vejamos se é bom’. O marxista vai dizer ‘claro que é bom, aqui vamos produzir’. Ele não vê importância no espiritual, não o sente. Por isso ainda não está entendendo”. O “nosso modelo não é comunista, mas comunitário'', diz ele.

O líder yanomami Davi Kopenawa diz que “o homem branco stá enlouquecido com a terra, sempre quer tirar mais e mais para que a cidade cresça. Só pensa no solo: petróleo, ouro, minerais, estradas, carros, trens".  Interpela o líder indígena: “Vocês falam em resgate: cortaram a floresta e, agora, para resgatar é difícil e já está tarde. Tem de resgatar antes de destruir. O homem da cidade não gosta da natureza, dos animais, das árvores. Ele só gosta de derrubar e fazer plantação de capim. Quem come capim? O boi. O homem branco é capitalista, pensa só no dinheiro e em derrubar as árvores, matar animais”, diz ele.

O Bem-Viver nos convida a “sair da dicotomia entre ser humano e natureza”, diz Katu Arkonada, pesquisador e analista do Centro de Estudos Aplicados aos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais – Ceadesc, da Bolívia. Ou seja: “despertar para uma consciência de que somos filhos da Mãe Terra, da Pachamama, e tomar consciência de que somos parte dela, de que dela viemos e com ela nos complementamos”. É um estilo de vida que nos ensina “não a viver melhor, mas sim a viver bem com menos”, resume.




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