Biografia de Martin Heidegger


Características do pensamento de Heidegger



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Características do pensamento de Heidegger


O traço dominante de toda a carreira filosófica de Heidegger caracteriza já o programa, que remata sua dissertação sobre Duns Escoto: a interrogação. Ele não oferece aí nenhuma resposta definitiva e muita menos arquiteta, algo como um sistema fechado. O seu interrogar tem, porém, um alvo muito definido. Trata-se de relembrar a questão básica da Metafísica Ocidental, a questão do ser e de suas diversas modalidades. Afirmava que era necessário levantar o problema crítico, pôr a questão da verdade do ser, do valor de nosso conhecimento do ser.

O problema no qual se concentram as preocupações de Heidegger é: como pode o homem, como indivíduo histórico, apreender as verdades eternas, universalmente válidas e imutáveis? Trata-se do fundamento da validez absoluta do conhecimento verdadeiro.

Tradicionalmente, o conhecimento implicava a dicotomia da relação sujeito-objeto, em que o homem, como cognoscente, é algo dentro de um ambiente que ele confronta. Para Heidegger, esta relação deve ser transposta. O Saber mais profundo, ao contrário, é matéria do phainesthai (grego: "mostrar-se" ou "estar na luz"), a palavra da qual fenomenologia, como um método, é derivada. Algo está exatamente "lá" na luz. Assim, neste conhecimento profundo, a distinção entre o sujeito e o objeto não é imediata, mas vem somente depois com a conceitualização, como nas ciências. Então o homem existe segundo certos fenômenos, que são os modos como ele está lá, na luz (Dasein, o "o ser" em alemão é, etimologicamente, a palavra da, que significa "lá" com a palavra sein, que significa "estar").

Heidegger evita termos das ciências sociais ou da psicologia tanto quanto possível, em favor de uma terminologia ontológica. Viu-se então na necessidade de criar uma terminologia nova, palavras novas para exprimir seu pensamento. Foi criticado por desenvolver seu próprio alemão, seu próprio grego, e seu próprio tipo de etimologias. Inventa, por exemplo, aproximadamente 100 palavras complexas novas que terminam com "- sendo”. Ao ler seus trabalhos se deve, assim, traduzir muitos de seus termos chaves de volta em palavras gregas a fim de entender suas interpretações e etimologias. Isto faz um risco que, ao "interpretar" a filosofia de Heidegger, alguém esteja na verdade, criando, pelo menos em parte, "uma filosofia de Heidegger".

Heidegger divide a existência em três "estruturas existenciais": afetividade, fala e entendimento. São três fenômenos existenciais que caracterizam como as coisas do passado, do presente e do futuro se manifestem para o homem e a unidade desses três fenômenos constitui a estrutura temporal que faz a existência inteligível, compreensível.

1) a afetividade: as coisas do passado chegam ao homem como valores, afetando-lhe os sentimentos, que podem ser públicos, compartilhados, e transmissíveis.

2) a fala: no presente, as coisas se traduzem em palavras da linguagem na articulação dos seus significados.

3) o entendimento: as coisas do futuro, onde o projeto que define o homem encontrará a morte, são as coisas não garantidas, que lhe são devolvidas para gerar nele o sentimento de que não está em casa neste mundo, mesmo estando entre as coisas que lhe são mais familiares.

O homem está fora das coisas, diz Heidegger em "O ser e o tempo", nunca sendo completamente absorvido por elas, mas não obstante não sendo nada, à parte delas. O homem vive, até o fim, em um mundo no qual ele foi jogado. Sendo algo jogado em meio às coisas, estando-lá (Da-sein), constitui algo à parte (Verfall), mas está no ponto de ser submergido nas coisas. É continuamente um projeto (ent-wurf); mas ocasionalmente, ou mesmo normalmente, pode ser submergido nas coisas a tal ponto que é absorvido nelas temporariamente (Aufgehen in). O homem encobre aqueles condicionantes existenciais, - aquilo que ele de fato é, entregando-se a uma rotina de superficialidades "públicas" na vida cotidiana. Não é então ninguém em particular; e uma estrutura que Heidegger chama das Man ("o eles") é revelada, como uma tendência da alienação de si mesmo que leve o homem à tendência de se conhecer apenas através da comparação que faz de si mesmo com os outros indivíduos seus pares. A característica do das Man é a conversa inócua (Gerede) e curiosidade (Neugier). No Gerede, o que fala e o ouvinte não estão em nenhuma relação pessoal genuína ou em qualquer relação intima com aquilo sobre o que falam, o que, portanto, conduz a superficialidade. A curiosidade é uma forma de distração, uma necessidade para o "novo", uma necessidade para algo "diferente", sem interesse ou capacidade de se maravilhar.

Mas uma coisa pode acontecer que desperta o homem dessa alienação, a angústia (Angst). Ela resulta da falta de base da existência humana. A "existência" é uma suspensão temporária entre o nascimento e a morte. O projeto de vida do homem tem origem no seu passado (em suas experiências) e continuam para o futuro, o qual o homem não pode controlar e onde esse projeto será sempre incompleto, limitado pela morte que não pode evitar. A angústia funciona para revelar o ser autêntico, e a liberdade (Frei-sein) como uma potencialidade. Ela enseja o homem a escolher a si mesmo e governar a si mesmo.

Na angústia, a relevância do tempo, da finitude da existência humana, é experimentada então como uma liberdade para encontrar-se com sua própria morte (das Freisein für den Tod), um "estar preparado para" e um contínuo "estar relacionado com" sua própria morte (Sein zum Tode). Na angústia, todas as coisas, todas as entidades (Seiendes) em que o homem estava mergulhado se afastam, afundando em um "nada e em nenhum lugar", e o homem então em meio às coisas paira isolado, e em nenhuma parte se acha em casa (Un-heimlichkeit, Un-zu-hause). Enfrenta o vazio, a "nenhum-coisa-idade" (das Nichts); e toda a "rotinidade" desaparece -- e isto é bom, uma vez que então encontra a potencialidade de ser de modo autêntico.

Assim, a angústia "sóbria" (nüchtern) e a confrontação implicada com morte são para Heidegger primeiramente ferramentas, têm importância metodológica: certos fundamentos são revelados. A ansiedade abre o homem para o ser.

Entre as estruturas reveladas estão as potencialidades do homem para ser alegremente ativo ("conhecer a alegria [die wissende Heiterkeit] é uma porta para o eterno"). Isto não quer dizer que o Ser participa do lado negro do desespero, da angústia; o Ser é associado com a "luz" e com a “alegria " (das Heitere). Pensar o ser é chegar ao verdadeiro lar.

Por isso, dos três existenciais, Heidegger privilegia o futuro, porque é esta projeção para o advir e o golpe da devolução no embate com a morte que lá está que o leva à pensar e à autoconscientização.

O homem pode então introduzir esse conhecimento existencial no projeto de sua vida, e assim se apropriar da existência fazendo-a efetivamente sua, tornando-se autêntico, não mais um ente sem raízes.

Essa visão existencial do homem, em que ele se conscientiza das estruturas existenciais a que está condicionado e que o tira da superficialidade em que desenvolve seus conflitos tornou-se sedutora para a psiquiatria, surgindo aí proeminentes terapeutas existencialistas como Binswanger, Boss e Ronald Laing.





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