Biologia, Biopoder



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Biologia, Biopoder
José Ternes *

RESUMO

Este texto pretende trabalhar o nascimento da Biologia, descrito em Les Mots et les Choses, e apontar possíveis relações deste acontecimento, verificado na ordem do saber, com outros estudos de M. Foucault que, de alguma forma, tematizam a vida: medicina, saneamento, população, sexualidade, etc.


Gostaria de recorrer a uma leitura de Deleuze, a um texto, sem dúvida, bastante enigmático: “As dobras ou o lado de dentro do pensamento”. Tomemos esta passagem, um pouco extensa:




“Mas, embora seja verdade que as condições não são mais gerais ou constantes que o condicionado, é pelas condições que Foucault se interessa. Por isso ele diz: pesquisa histórica e não trabalho de historiador. Ele não faz uma história das mentalidades, mas das condições nas quais se manifesta tudo o que tem uma existência mental, os enunciados e o regime de linguagem. Ele não faz uma história dos comportamentos, mas das condições nas quais se manifesta tudo o que tem uma existência visível, sob um regime de luz. Ele não faz uma história das instituições, mas das condições nas quais elas integram relações diferenciais de forças, no horizonte de um campo social. Ele não faz uma história da vida privada, mas das condições nas quais a relação consigo constitui uma vida privada. Ele não faz uma história dos sujeitos, mas dos processos de subjetivação, sob as dobras que ocorrem nesse campo ontológico quanto social. Certamente, uma coisa perturba Foucault, e é o pensamento. “Que significa pensar? O que se chama pensar?” --- a pergunta lançada por Heidegger, retomada por Foucault, é a mais importante de suas flechas. Uma história, mas do pensamento enquanto tal. Pensar é experimentar, é problematizar. O saber, o poder e o si são a tripla raiz de uma problematização do pensamento”1.

Muitos fizeram desses momentos da trajetória do pensamento foucaultiano blocos bastante desconexos. Deleuze parece reconhecer o desdobrar de um mesmo acontecimento, com acentos, ou dobras, diferentes. Haveria, pois, sob a manifesta diversidade da obra de Foucault, uma indiscutível unidade 2.

Admitida a hipótese deleuziana, poderíamos proceder a uma espécie de leitura transversal de alguns textos de Foucault e verificar como certos acontecimentos na ordem do saber encontram ressonâncias, correspondências, nas análises do poder e do cuidado de si. Trata-se, claro, muito mais de um plano de trabalho, do que de conclusões seguras. O tema escolhido pode receber o nome VIDA.3

Vamos a Les Mots et les Choses. Tomemos esta enigmática afirmação:



“Antes do fim do século XVIII, o homem não existia. Não mais que a potência da vida, a fecundidade do trabalho ou a espessura histórica da linguagem”(FOUCAULT, 1966, 319). Deixemos de lado o contexto maior da história escrita por Foucault. Ocupemo-nos com o nascimento da vida. O ser vivo, l’être vivant, é objeto da História Natural. Uma figura clássica. Uma figura da representação. A vida, le vivant, é objeto da Biologia. Uma figura moderna, contemporânea da história. O que está em jogo nessa maneira de falar?

Les Mots et les Choses opera com a noção de episteme. Na história ocidental, do século XVII em diante, encontraríamos duas epistemes apenas. A primeira definiria os saberes do século XVII e XVIII. Uma época em que conhecer era, em essência, representar. Foucault parece recorrer a Heidegger para definir o modo próprio de ser dessa época. Em seu texto “A Época da Imagem do Mundo”, o filósofo de Freiburg lembra que não se trata de um simples qualificativo. Desde a mais remota idade, a humanidade constrói imagens acerca do mundo. A palavra imagem, no entanto, para os clássicos, reduplica de sentido. Citemos:



“Por conseguinte, imagem do mundo, entendida essencialmente, não significa uma imagem do mundo, mas o mundo compreendido como imagem. A totalidade do existente é tomada agora de maneira que o existente começa a ser e somente é se for colocado pelo homem que representa e elabora. Quando se chega à imagem do mundo, realiza-se uma decisão essencial sobre a totalidade do existente. O ser do existente é buscado e encontrado na condição de representado do existente” (HEIDEGGER, M. 1938, p. 80 ).


Na verdade, privilegia-se, aqui, a leitura cartesiana da Idade Clássica4. O mundo despojado de toda sensibilidade, reduzido a traços geométricos. No caso dos vivos, o mundo feito quadro, apenas taxinomia. Aí não há espaço para isto que nós, modernos, chamamos Vida.

Daí a tese de Foucault: fora preciso que a episteme clássica se desestabilizasse, e desse lugar a outra configuração do que “há para saber”, para que certos objetos pudessem aflorar. Vale a pena insistir um pouco nessa maneira de falar, nessa estranha maneira de se compreender a história. Com efeito, a palavra história, aqui, tem peso decisivo. Durante toda a sua trajetória intelectual, Foucault nada mais fez senão história. Não, porém, aquela dos historiadores, sempre ávidos de totalidade, sempre à procura, como bem mostra Eduardo Lourenço, de um contínuo espiritual já dado antes de qualquer investigação: “Se nós abrimos qualquer grande História das Idéias ou da Cultura - quer seja de inspiração positivista, espiritualista ou marxista - facilmente verificamos que as categorias segundo as quais a compreensão dos fenômenos culturais se efetua, postulam ou decorrem já da existência de um contínuo espiritual subjacente. Obras ou idéias seguem-se umas às outras, têm a sua origem nesta ou naquela fonte, resultam de determinadas influências, constituem um progresso ou um retrocesso em relação a uma trama mental supostamente homogênea, são o fruto de uma tomada de consciência, sobre um fundo onipresente, etc. Esta continuidade é, aliás, como que anterior a todo exame de conteúdo, pelo fato de procurarmos já a essência ou a inteligibilidade de uma época, de uma obra, pensadas na unicidade do conceito que as designa. Quer dizer, de antemão projetamos uma certa figura da exigência racional sobre o objeto do nosso conhecimento, sem querer saber se a maneira como o abordamos não falseia a compreensão que visamos”5. O texto é muito claro. Algumas palavras estão grifadas: seguem-se, origem, influências, progresso, retrocesso, continuidade, época, obra. Conceitos operacionais básicos para as tradicionais histórias. Foucault vê neles artifícios, armadilhas para ilusões - retrospectivas. Todos esses conceitos tornam-se legítimos porque fundados em bases estáveis: o sujeito de nossa tradição.

As histórias de Foucault, escritas à sombra da morte do sujeito, não são desse gênero. Face à tradição, aparecem como anti-histórias, ou, na expressão de Gianotti, “histórias sem Razão”6.

O nascimento da Vida, no horizonte do pensamento moderno, não significa, certamente, um acontecimento “sem razão”. Por outro lado, não se inscreve numa causalidade rígida, um fenômeno já preparado desde a mais distante data. A arqueologia de Foucault coloca a possibilidade da vida, não como decorrência de uma catástrofe natural, mas como um acontecimento contemporâneo de uma inversão de pensamento7. Se não entendermos isto, que o pensamento pode, efetivamente, mudar de natureza, que, efetivamente, há uma história do pensamento que não coincide com a história civil8, não adianta ocupar-se com Les Mots et les Choses.

Já assinalei que o nascimento da vida tem a ver, em essência, com uma radical inversão epistemológica. Falta responder à pergunta: quais seriam, então, as condições de possibilidade dentro das quais algo semelhante a vida pudesse ser pensado? - Voltemos a Les Mots et les choses. Mais precisamente, ao Cap. VII:

“A ordem clássica distribuía num espaço permanente as identidades e as diferenças não-quantitativas que separavam e uniam as coisas: era essa ordem que reinava soberanamente, mas, a cada vez, segundo formas e leis ligeiramente diferentes, sobre o discurso dos homens, o quadro dos seres naturais e a troca das riquezas. A partir do século XIX, a História vai desenrolar numa série temporal as analogias que aproximam umas das outras as organizações distintas. É essa História que, progressivamente, imporá suas leis à análise da produção, à dos seres organizados, enfim, à dos grupos lingüísticos. A História dá lugar às organizações analógicas, assim como a Ordem abria o caminho das identidades e diferenças sucessivas” ( FOUCAULT, 1966, 230-31 ).

Não é por acaso que o Cap. XVII tem, como primeiro tema, A Idade da História. É que esta, a história, torna-se, agora, condição primeira de pensamento. Os clássicos, sabemos, escreviam histórias. A expressão História Natural talvez seja a que melhor expresse o modo de ser de um conhecimento daquela época. Os clássicos escreviam histórias. Mas tais histórias precisavam ser naturais. Agora, a partir do século XIX, não se trata mais de expor o quadro natural dos seres. Trata-se, antes, de ver os objetos naturais enquanto processos que têm uma origem e um termo, somente compreendidos em sua história. Agora, a história não é apenas uma técnica entre outras. Constitui-se, antes, no “modo de ser fundamental das empiricidades” (id.ibid.). Vamos, novamente, ao texto de Foucault:


“Mas vê-se bem que a História não deve ser aqui entendida como a coleta das sucessões de fatos, tais como se constituíram; ela é o modo de ser fundamental das empiricidades, aquilo a partir de que elas são afirmadas, postas, dispostas e repartidas no espaço do saber para eventuais conhecimentos e para ciências possíveis”(FOUCAULT, 1966, 233 ). E, mais adiante: “Modo de ser de tudo o que nos é dado na experiência, a História tornou-se assim o incontornável de nosso pensamento” (id. Ibid. ).

A Biologia se torna possível nesse momento em que o pensamento se desprega da estrutura exterior, visível, da natureza e é solicitado a cavar a verdade, a arrancá-la do interior dos seres. E aí, nesse interior, já não se contemplam idéias claras e distintas, mas temos que nos haver com o incontornável obscuro e processual. Não mais o infinito da representação, mas, agora, o espaço próprio do conhecimento dos vivos é bem limitado. Suas fronteiras são bastante estreitas: a vida e a morte. Nos quadros construídos pela História Natural, os seres vivos não viviam nem morriam. Os dois conceitos, vida e morte, adquirem estatuto epistemológico somente com os modernos.



“O olhar penetra no espaço que ele estabeleceu como objetivo percorrer. A leitura clínica, em sua primeira forma, implicava um sujeito exterior e decifrador que, a partir e além do que soletrava, ordenava e definia parentescos. Na experiência anátomo-clínica, o olho médico deve ver o mal se expor e dispor diante dele à medida que penetra no corpo, avança por entre seus volumes, contorna ou levanta as massas e desce em sua profundidade. A doença não é mais um feixe de características disseminadas pela superfície do corpo e ligadas entre si por concomitâncias e sucessões estatísticas observáveis; é um conjunto de formas e deformações, figuras, acidentes, elementos deslocados, destruídos ou modificados que se encadeiam uns com os outros, segundo uma geografia que se pode seguir passo a passo. Não é mais uma espécie patológica inserindo-se no corpo, onde é possível; é o próprio corpo tornando-se doente” ( FOUCAULT, 1972, p. 138 ). “A noite viva se dissipa na claridade da morte”. ( Idem, 149 ).

Eis, de maneira sintética, estabelecido o objeto da Biologia. Apenas na aparência pode ser confundido com o da História Natural. Agora, efetivamente, não somente se conhece diferentemente, mas se conhece outra coisa. François Jacob, um autor muito próximo a Foucault, o diz com precisão: “Para o século XIX, torna-se totalmente impróprio descrever o funcionamento dos seres organizados em termos de gravidade, de afinidade e de movimento. Para manter a coesão do ser, para assegurar a ordem do vivo por oposição à desordem da matéria inanimada, é preciso uma força de uma qualidade particular, o que Kant chamava um princípio interior de ação; é preciso a vida”(JACOB, F. 1970, 104). Haveria interesse na descrição dos desdobramentos deste novo objeto, desde os estudos rudimentares de Cuvier, no final do século XVIII, até as aventuras da genética contemporânea. Nossa tarefa, aqui, é outra: mostrar que os estudos de Foucault acerca da Vida se estendem para muito além do projeto da arqueologia do saber. Mais, que de dentro da própria análise arqueológica podemos encontrar pistas para questões que ultrapassam o objeto particular de uma ciência. Na verdade, Foucault observa, apesar da impressão “que temos de um movimento quase ininterrupto da ratio européia desde o Renascimento até nossos dias”(FOUCAULT, 1966, 13-14), sistemas de simultaneidade dos saberes de uma época. Assim, o nascimento da Biologia é contemporâneo do aparecimento de outras empiricidades, como a economia política e a história das línguas e com o nascimento da filosofia transcendental, com elas mantendo maior afinidade do que com a História Natural, saber que procurava dar conta dos vivos no século XVII e XVIII. O Capítulo XVIII de Les Mots et les Choses expõe, com rigor, o sistema de simultaneidade que é constituído, fundamentalmente, pelo trabalho, a vida, a linguagem, isto é, pelas novas empiricidades que inauguram nossa modernidade.

Por outro lado, alguns anos depois, vemos Foucault afirmar que Les Mots et les Choses foi quase que um acidente em sua vida intelectual. Não que não mais acredite nos resultados de sua arqueologia do saber. Mas porque, do interior mesmo desse livro, se impõe a exigência de questões para além da ordem do saber.

Histoire de la Folie já anunciara que, antes de um saber da loucura elaborado sistematicamente, há um acontecimento mais profundo e difuso, uma percepção da loucura que se dá coextensivamente às transformações sociais, econômicas, culturais, institucionais.

Naissance de la Clinique também, ao descrever o nascimento de um novo olhar médico, assinala os vínculos estreitos entre o aparecimento da clínica moderna e a parturição da sociedade industrial capitalista. E, principalmente, desmistifica a tradicional interpretação de que a nova medicina viria marcada pelo individualismo burguês. Ao contrário, trata-se, antes, de um acontecimento contemporâneo de um projeto social. A clínica moderna nasce do interior das discussões da saúde pública.

Mas é a partir da segunda metade da década de 70 que veremos Foucault tematizar a vida enquanto uma verdade profundamente enraizada na trama política. Não se trata apenas de conhecer o funcionamento interno do vivo. Conhecer, cada vez mais, significa interferir. Não que haja alguma intenção malévola por detrás ou algum condicionamento incontornável. Objeto histórico, a vida aparece nos limites de sua degeneração. Vida e morte, já observei, tornam-se, na modernidade, fronteiras de saber. Mas não somente isto. Aparecem, também, como demarcadores políticos. Poder-saber não é uma expressão vazia no discurso foucaultiano. Então, conhecer o vivo, significa, também, enquadrá-lo numa escala de normalidade. Foucault tinha uma consciência aguda de que o nascimento da Biologia, descrito admiravelmente em Les Mots et les Choses, tem muito a ver com os planos de saúde pública, com as políticas de população, com as discussões acerca da eugenia, com o discurso moderno da sexualidade. Fora preciso, por exemplo, libertar as espécies do quadro taxinômico rígido, eterno, da História Natural, para se poder pensar a idéia e maquinar uma estratégia de raça pura. Uma política de saneamento é contemporânea da noção de microorganismo. Um plano de natalidade é incompatível com a noção de pré-formação. Se os seres se formam, se eles pertencem a uma história, se eles têm uma história, então pode-se apontar-lhes, certamente, uma direção.

Mas os estudos de Foucault apresentam um problema: são histórias sem razão. Gostaríamos, sempre, de contar com uma caução para garantir nossas certezas, para servir de ponto de apoio para nossas explicações. Gostaríamos de uma causalidade consistente. Foucault nos decepciona. Em suas análises não há causalidades. Há, talvez, simultaneidades. E sua obra pode servir de exemplo. A démarche do pensamento foucaultiano, se tal palavra tem sentido, ocorre, ela mesma, alheia ao imperativo do progresso. O progresso impõe alguma normatividade. Aprisiona o espírito a um fim. A filosofia de Foucault desclassificou alguns pilares da tradição. Entre estes, a dos fins. Por que precisamos, sempre, pedir ao filósofo um engajamento? Se há compromisso na produção foucaultiana, trata-se de apenas um: o risco de pensar.

B I B L I O G R A F I A

FOUCAULT, M. Les Mots et les Choses. Paris, 1966.

___________. Naissance de la Clinique. Paris, 1972.

___________. Surveiller et punir. Paris, 1975.

___________. Histoire de la folie. Paris, 1972.

___________. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio, 1977.

___________. Dits et Écrits. Paris, 1994.

JACOB, F. La logique du vivant. Paris, 1970.




* Doutor em Filosofia pela USP, 1993. Prof. Titular do Departamento de Filosofia-UFG.

1 DELEUZE, G. Foucault. Trad. De C. Sant’Anna Martins. São Paulo, Brasiliense, 1988, p. 124.

2 Sabemos que a noção de unidade é problemática. Foucault, mesmo, não a aceita sem muitas restrições.

3 Um conceito predileto do imaginário. Bachelard já insistira na força criativa dessa imagem. Hoje, verificamos o renascer dos mais variados vitalismos, metafísicas pós-modernas.

4 Em um texto recente, “Imanência e Luz: Espinosa, Vermeer e Rembrandt” ( DISCURSO, nº 26, 1996: 116), Marilena Chaui assinala a parcialidade das leituras heideggeriana e foucaultiana no que concerne à pintura. Elas privilegiam a vertente italiana, onde o autor se situa no exterior da obra. Mas essa seria apenas uma possibilidade. Muito diferente é a pintura holandesa. Esta concebe o mundo como pré-existente ao sujeito e, assim, não caberia à pintura traduzir o olhar do autor, mas a complexidade mesma da natureza que compreenderia, também, o olhar do pintor. O que ocorre na pintura, também se observa na Filosofia. Enquanto Descartes erige o Cogito em instância autônoma do conhecer, Espinosa quer que o filósofo exponha a realidade anterior a qualquer pensamento, a Substância infinitamente infinita.

5 LOURENÇO, E. “Michel Foucault ou o Fim do Humanismo”, in As Palavras e as Coisas. Edição Portuguesa da Livraria Martins Fontes, s.d., p. III-IV.

6 GIANOTTI, J. A . “História sem Razão”, in Encontros com a Civilização Brasileira, nº 16, out., 1969. Ed. Civilização Brasileira.

7 Semelhante tese foi desenvolvida por F. Jacob, em seu livro La Logique du Vivant, Gallimard, 1970: “... avec le XIIe siècle, se transforme la nature même de la connaissance”( p. 37 ).

8 Esse modo de falar não é de Foucault. Encontramo-lo em Bachelard.

Fragmentos de Cultura, Goiânia, 6(21): 191-200 (especial), 1996.


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