Biomas savânicos



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BIOMAS SAVÂNICOS
Ao falar dos biomas brasileiros, temos que nos remeter, também, ao conceito de domínios morfoclimáticos, tão difundido por Ab’Saber em seus estudos sobre a geografia física brasileira. Os biomas se diferenciam ou constituem regiões homogêneas (domínios) em função dos fatores clima, solo e relevo. O Brasil, por sua enorme extensão territorial (8.512.000 km2), no sentido Norte-Sul, atravessa diferentes latitudes, com a maior parte em região tropical do Hemisfério Sul.

No sentido Leste-Oeste, a diferenciação se dá muito em função de relevo e tipos de solo, decorrentes de sua longa história geológica, e de maior ou menor proximidade com o oceano.

Os biomas constituem todos os organismos vivos e suas interações com o ambiente. Eles constituem tipos de vegetação mundiais, com aparência e formas de vida similares. Os que contêm muitas formas de vida são os mais ricos em números de espécies de plantas e animais e situam-se sob temperaturas elevadas, precipitações pluviais regulares e solos desenvolvidos, indicando ausência de limites físicos no ambiente. No entanto, eles podem ser degradados por ações humanas inadequadas, contínuas e excessivas.

As savanas brasileiras foram classificadas por Mantovani, em seu capítulo na obra O Patrimônio Ambiental Brasileiro, como savana propriamente dita, o cerrado; como savana estépica, a caatinga. Já a formação complexa do Pantanal foi descrita juntamente com o cerrado, em obra publicada mais recentemente pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA).



CERRADO

A região do cerrado ocupa entre 1,5 milhão e 2,1 milhões de quilômetros quadrados e está localizada principalmente no Brasil Central, com pequenas áreas estendendo-se pelo nordeste do Paraguai e leste da Bolívia. O bioma cerrado ocupa uma posição central em relação aos outros biomas sul-americanos. Apresenta bordas com as duas maiores regiões de floresta sul-americanas (Amazônia e floresta atlântica) e com as duas maiores regiões semiáridas (chaco e caatinga).


Ela pode ser dividida em áreas de planaltos (altitude geralmente acima de 500 metros) e áreas de depressões (altitude geralmente abaixo de 500 metros). Nos planaltos, a vegetação dominante é o cerrado, nas suas mais diversas formas estruturais; as florestas-galerias ou matas ciliares entremeiam o cerrado ao longo de seus principais rios.
Como bioma brasileiro, a savana ou cerrado ocorre no norte da Amazônia, em Roraima, e no Brasil Central. Originalmente, cobria cerca de 25% do território nacional por mais de 20 graus de latitude, distribuindo-se, de forma contínua, nos Estados de Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Distrito Federal, Centro-Sul de Mato Grosso, oeste da Bahia e de Minas Gerais, sul do Maranhão e do Piauí, partes dos Estados de São Paulo e Paraná. Essa vegetação, bastante adaptada, evoluiu em milhões de anos, desde o início do período Quaternário, e constitui um dos mais antigos biomas do país.
O clima do cerrado é tropical, com duas estações bem definidas − uma seca, com início em maio e término em setembro, e outra chuvosa, de outubro a abril −, precipitação média anual entre 600 e 2 mil milímetros; e ocorrência frequente de veranicos, períodos sem chuva, na estação chuvosa. Em termos de domínios morfológicos, o Planalto Central brasileiro e o Planalto das Guianas são os que lhe dão suporte. As principais classes de solo onde o cerrado floresce são latossolos vermelhos e podzólicos. São solos profundos, arenosos e bem drenados, sem restrições ao crescimento radicular das árvores.
Por abranger zonas de planalto e receber chuvas abundantes no verão, a região do cerrado possui diversas nascentes de rios e, consequentemente, importantes áreas de recarga hídrica, que contribuem para grande parte das bacias hidrográficas brasileiras. As maiores delas têm nascentes de rios que as abastecem e de rios na região do cerrado: a Amazônica, a do Araguaia-Tocantins, a do Atlântico Norte/Nordeste, a do São Francisco, a do Atlântico Leste e a dos Rios Paraná/Paraguai.
Ao contrário da floresta que, desde o início da colonização europeia, era vista como símbolo de terra fértil e, portanto, valorizada para plantio de cana e depois de café, no século XIX, o cerrado teve sua importância reconhecida só no século XX. Esse reconhecimento se deu, em grande medida, pelo esgotamento de solos florestados no Sudeste brasileiro e pela facilidade de mecanização, num período de modernização e industrialização da agricultura.
Ao ocupar solos mais planos, do topo dos chapadões do Planalto Central do Brasil e da depressão periférica do Estado de São Paulo, o cerrado apresentava feições variadas e representava uma grande fronteira agrícola no interior do país até a década de 1960. Naquela década e na seguinte, foram realizados vários simpósios sobre o cerrado, cujos anais, publicados pela Editora da Universidade de São Paulo, tiveram papel importante na demonstração da viabilidade técnica e econômica de sua exploração e incentivaram a pesquisa sobre esse bioma e a sua utilização para atividades agropecuárias. A partir de então, houve a expansão da fronteira agrícola para as áreas do cerrado, baseada em agricultura monocultora, mecanizada e dependente de insumos químicos e de agrotóxicos.
Assim, restam intactos somente 356.630 quilômetros quadrados, ou menos de 20% do bioma original, justificando a sua caracterização como hotspot de biodiversidade. O Cerrado foi identificado como um dos mais ricos e ameaçados biomas mundiais. O endemismo de plantas é o primeiro critério para definir um hotspot. O grau de ameaça é o segundo critério de hotspot e é definido quando o bioma já perdeu mais de 70% de sua cobertura original.

Esse bioma é constituído de uma mistura de gramíneas altas, arbustos, subarbustos e árvores tortuosas baixas, com 4 a 8 metros de altura e casca (súber) espessa, que a protege do fogo. O bioma pode ser denso, com árvores não muito esparsas e copas entrelaçadas, mas seu dossel não é fechado e a luz pode penetrar até o solo. As árvores são belíssimas quando em flor. Há, também, vários gêneros de orquídeas vistosas. O bioma natural variado e o relevo plano, com escarpas abruptas, cachoeiras e rios cristalinos, são de grande beleza cênica.

O cerrado existe em diferentes formas numa sequência contínua, de uma forma mais densa e com árvores mais altas, chamado cerradão, a uma vegetação herbácea com árvores mais dispersas, chamado de campo cerrado. Porque o cerrado tem menor massa de folhas que a floresta, o total de matéria orgânica devolvida do solo não é muito grande e se mineraliza rapidamente, fazendo com que seu solo tenha baixo teor de húmus. Por outro lado, suas gramíneas secam no período de estiagem e formam uma massa de material junto ao solo que facilmente sofre combustão. Por isso, o fogo tem sido associado ao cerrado, em sua forma natural, acidental, ou como prática agropecuária para limpeza dos campos e para facilitar a rebrota.

A maior parte das árvores tem folhas largas, duras e coriáceas. Outras são árvores leguminosas, com delicadas folhas agulhadas. Quase todas as espécies do cerrado são perenes. Exceções são espécies de gramíneas, que são anuais. Como o clima em que o cerrado ocorre é caracterizado por uma estação seca, e porque os solos que lhe dão suporte são profundos e têm, em média, baixa capacidade de retenção de água, as espécies do cerrado se adaptaram para superar esse período crítico do ano, quando o abastecimento na camada superior do solo é exíguo. Muitas plantas desenvolvem xilopódios ou raízes que armazenam água. Outras espécies desenvolveram raízes profundas que penetram, às vezes, até o lençol freático, outras não o alcançam, mas absorvem água a até 10 m de profundidade. Assim, muitas de suas árvores retêm suas folhas durante a estação seca e continuam a transpirar livremente, porque seus sistemas radiculares encontram água suficiente em camadas profundas do solo. A vegetação lenhosa de Cerrado, apesar de apresentar fisionomia xeromórfica enganadora, não é limitada por falta de água, e sim por deficiência de nutrientes no solo (fósforo, enxofre, nitrogênio, zinco, molibdênio, boro), ou seja, por oligotrofia.

O fogo acentua o oligomorfismo, ao mesmo tempo em que influencia a preservação e a propagação do cerrado. Queimadas repetidas, a que o cerrado tem estado sujeito há 40 mil anos, podem ter acentuado a deficiência em enxofre. Por outro lado, a toxidez por alumínio no solo também é responsável por suas características escleromórficas. As plantas do cerrado são adaptadas aos elevados níveis de alumínio de seus solos lixiviados. A elevada quantidade de alumínio faz com que decresça a disponibilidade de fósforo, cálcio, potássio, magnésio, nitrogênio e outros nutrientes.

Os solos cobertos por cerrado geralmente são bastante lixiviados, ácidos, com pH entre 4,5 e 5,5, e pobres em nutrientes, aos quais a vegetação também é adaptada. Mas o cerrado não é somente altamente adaptado, ele possui uma alta biodiversidade. Já no início da década de 1960, quando ele começou a ser melhor estudado, haviam sido identificadas 537 espécies arbóreas de 242 gêneros pertencentes a 70 famílias. Mas, cada vez que uma nova área de cerrado era estudada, muitas novas espécies eram descobertas. Há algumas centenas de espécies disseminadas por todo o cerrado, mas um número similar ou maior de espécies locais em cada área. Sua diversidade de paisagens determina a grande diversidade florística, que a coloca como a mais rica entre as savanas do mundo, com 6.429 espécies catalogadas até 1998, sendo mais de 40% das espécies lenhosas endêmicas. Hoje já se identificaram quase 12 mil espécies.


Esse endemismo, ao lado de espécies típicas também de outros ecossistemas, seria resultante de sua longa e dinâmica história evolutiva e das interfaces com outros biomas, pois o cerrado se limita com os demais biomas de terras baixas, como a caatinga e as florestas tropicais úmidas. O MMA reconhece que sua biodiversidade ainda é pouco conhecida, apesar de se tratar da mais rica e ameaçada savana tropical do planeta.
Estudo publicado pelo MMA (Cerrado: Ecologia, Biodiversidade e Conservação), em 2006, informa que conhecimento sobre o cerrado vem sendo acumulado, porém o que é conhecido e a capacidade em transformar o conhecimento em ações práticas têm sido muito inferiores à velocidade em que esse bioma está desaparecendo.
Quanto à fauna silvestre, ao contrário das savanas africanas, que possuem carnívoros e outros animais de grande porte que andam em grandes manadas, no cerrado destacam-se espécies de menor porte e mais isoladas. O tamanduá, o veado-campeiro, onças, lobo-guará, tatus, tapir, vários psitacídeos, pombas, araras, tucanos, emas, seriema, perdiz, codornas e outras espécies de pássaros, lagartos e cobras são os mais encontrados. O cerrado é rico, sobretudo, em muitas espécies de insetos herbívoros, cupins e formigas. Aos insetos cabe papel primordial na aceleração da decomposição do material vegetal, na realocação de alguns nutrientes e na determinação da composição florística da comunidade, através do consumo seletivo de algumas espécies.
A diversidade de espécies da ictiofauna nos rios do cerrado também é bastante expressiva, com mais de 500 das quase 3 mil espécies de peixes na América do Sul.
Cerrado é uma vegetação resiliente, que tem sido queimada, com frequência, por pelo menos 10 mil anos, quando os indígenas aí se estabeleceram. Há 4 mil anos, os povos jê trouxeram para sua região a cultura do milho e do feijão e a pesca com o timbó, cipó que entorpece os peixes. Posteriormente, vieram desbravadores e mineradores, que iniciaram a agricultura de gêneros alimentícios para subsistência, e pecuaristas, que o usavam como pasto natural em pecuária extensiva e que queimavam o capim anualmente, para facilitar a rebrota das gramíneas e rarear arbustos.
No entanto, nas últimas décadas, sobretudo após a mudança da capital do país para Brasília, em 1960, as belas paisagens do cerrado têm dado lugar a imensas monoculturas, a perder de vista no horizonte, e a grandes silos, pertencentes aos agronegócios: cultivo de soja, de algodão, de milho, de feijão e de cana-de-açúcar e pecuária de corte. No caso da pecuária, as gramíneas nativas vêm sendo substituídas por gramíneas de origem africana, também adaptadas ao fogo e com grande capacidade competitiva. Seus produtos são destinados tanto ao sudeste do país, altamente urbanizado, quanto à exportação. O desmatamento ocorre de modo intenso em função de suas características propícias à agricultura e à pecuária e também pela demanda por carvão vegetal para a indústria siderúrgica de Minas Gerais e, mais recentemente, do Mato Grosso do Sul.
Atualmente, a região é responsável por 41% da produção agrícola do país, baseada sobretudo no agronegócio. Seus Estados foram detentores do maior volume de produção e da maior área de cultivo de grãos na safra 2012/2013. Só Mato Grosso produz 25% da produção nacional do agronegócio. A produtividade por área é das mais altas do mundo, e a produção de grãos tem ocupado áreas anteriormente dedicadas à pecuária. No entanto, a eficiência na produção se perde pela falta de infraestrutura de armazenamento e de transporte e pela ineficiência dos portos brasileiros para onde os cereais são escoados: Paranaguá e Santos. Associações de produtores indicam perdas pós-colheita de 10% a 12% por causa das péssimas condições das estradas e da falta de armazéns. Assim, justificam ter que plantar área maior para compensar as perdas.
Também a pecuária, antes praticada de modo extensivo, necessitando de grandes áreas de terra, atualmente, busca aumento da produtividade e sustentabilidade ambiental em novas práticas de manejo e de sanidade do rebanho. O rebanho de corte caiu de 24 milhões de cabeças para 21 milhões, nos últimos anos, e tem sido mais integrado às lavouras e às florestas plantadas pela indústria de papel e celulose.
A destruição desse bioma tem trazido consequências muito negativas aos ecossistemas terrestres e hídricos. A biodiversidade vem sendo diminuída, mas também os serviços de ecossistemas, como a ciclagem de nutrientes, a recarga dos aquíferos e o fluxo das águas, dentre muitos outros, têm comprometido a qualidade de vida das populações e a sustentabilidade das atividades econômicas e sociais da própria região e de regiões do entorno, como o Pantanal. Apenas 1,8% do cerrado está preservado por lei em unidades de conservação de proteção integral, sendo que a média nacional é de 3,7%, e a sul-americana de 4,5%.

PANTANAL
O Pantanal constitui a maior planície inundável do mundo, com 150 mil quilômetros quadrados, dos quais aproximadamente 100 mil quilômetros quadrados inundáveis. Situa-se em uma área rebaixada da depressão do Rio Paraguai, englobando a parte oeste dos Estados do Mato Grosso e principalmente do Mato Grosso do Sul.
No contexto dos domínios morfoclimáticos sul-americanos, o Pantanal é considerado uma região de transição entre os domínios do cerrado, da Amazônia, do chaco e da floresta atlântica, segundo Ab’Saber. Por essa característica, é chamado de complexo do Pantanal. É a maior área periodicamente inundável do continente americano. Segundo Pádua e Coimbra, pode ser considerado um prolongamento do cerrado brasileiro, que, devido à baixa altitude, à natureza dos solos, à precipitação pluviométrica e à influência da hileia amazônica, adquiriu aparência própria, formando uma região peculiar e homogênea. Constitui um delta interno, uma grande área de várzeas, ocupadas principalmente por campos, em solos aluviais hidromórficos, onde se depositam sedimentos e se precipitam numerosos rios vindos do planalto.
Seu clima é análogo ao do cerrado, com uma estação seca bem pronunciada, com dois a quatro meses, no inverno, e uma estação de chuvas no verão. As precipitações pluviométricas variam de 2 mil milímetros ao ano, ao norte, a 1.250 milímetros ao ano, a sudoeste. Durante a estação chuvosa, o lençol freático aproxima-se da superfície resultando no alagamento de vastas regiões, devido à pobre capacidade de drenagem do solo ou à inundação dos rios. Por outro lado, as cheias periódicas fertilizam o Pantanal, determinando uma explosão da produtividade primária, com a rebrota ou germinação de plantas aquáticas e o aumento do número de animais aquáticos, que servem de alimentação para grandes populações de aves migratórias, inclusive de voos intercontinentais, da Argentina ao Canadá, conforme Mantovani.
As áreas bem drenadas, como os topos de morros, são cobertas com vegetação de cerrado. Parte do Pantanal consiste de alagados permanentes e de pastagens naturais, formadas com gramíneas nativas. Outras são áreas inundáveis periodicamente. Há enormes lagos cobertos de aguapés, pequenos corixos, baías, lagoas e cursos d'água, compondo uma paisagem de extraordinária beleza. Entre as baías, há capões de mata, com ipês, pau d'arco, cambará e palmeiras. Quando em floração ao mesmo tempo, a paisagem com matizes de verde, amarelo e lilás, somada à maior concentração faunística das Américas, torna o Pantanal uma das áreas de maior interesse turístico no Brasil, sobretudo para aqueles interessados em turismo na natureza.
O Pantanal reúne um mosaico extremamente denso de diferentes ambientes e abriga uma rica biota terrestre e aquática. Entretanto, por ser uma região de transição, a fauna não possui espécies endêmicas.
A avifauna do Pantanal é composta por elementos com centros de distribuição nas áreas adjacentes. Como há várias zonas de contato, espécies ou subespécies aparentadas da avifauna são encontradas no Pantanal. Ver e fotografar as aves do Pantanal constituem uns de seus principais atrativos. Garças, jaburus, martim-pescador, socós, anhumas, gaviões, emas, seriemas, papagaios, arara-azul, araras e maracanãs são tão abundantes, que fazem parte constante da paisagem. Répteis, como jacarés, são vistos às centenas nos rios, lagos e corixos. A sucuri, também, é muito frequente na região. Além desses, há capivaras, cervos, antas, catetos e queixadas, cachorros-do-mato, macacos, ariranhas e lontras. A onça-parda ou suçuarana, a onça-pintada e a jaguatirica também são facilmente avistadas quando se circula em barco pelos rios mais estreitos.
Esses animais selvagens convivem com uma pecuária extensiva de corte, com rebanhos de milhões de cabeças de gado, sobretudo nelore, de origem indiana ou seus mestiços, criados tradicionalmente na região, há muitas décadas.
O Pantanal, propriamente dito, é cortado somente por uma estrada não pavimentada, a Transpantaneira. O transporte e a circulação na região são feitos basicamente por barcos de pequeno porte motorizados.
Em relação à ictiofauna do Pantanal mato-grossense, em 1999, foram listadas na área 265 espécies. Esse levantamento foi baseado na bibliografia e em coleções do Museu de Zoologia da USP, amealhada em 20 anos. Ainda há espécies novas a serem descritas e espécies descritas de outras áreas, que são encontradas na região, mas o seu número é pequeno. As piranhas são muito abundantes nos rios e alimentam receios de banhistas turistas e nativos. Os jacarés são respeitados pelos pantaneiros pelo reconhecimento de seu papel como predador no controle das piranhas.
Alterações antrópicas diretas nos ecossistemas aquáticos (usos diversos da água para navegação, geração de energia, depósito de poluentes, irrigação, controle de inundações, introduções de espécies exóticas etc.) ou indiretas nas bacias de drenagem (desmatamentos, assoreamento, agricultura da terra firme, pastagens e outras degradações difusas) ocasionam modificações na estrutura e nos processos desses ecossistemas, interferindo de forma diferenciada na capacidade de sobrevivência das diferentes espécies da comunidade, segundo o MMA.
As comunidades de peixes sofrem grandes impactos dessas alterações: eliminação das principais espécies migratórias; progressiva eliminação dos elementos maiores da comunidade; redução do tamanho médio; redução da qualidade das capturas; substituição de espécies nativas por espécies exóticas; flutuações nas capturas; redução nas capturas; e aumento da necessidade de intervenção humana para manter o sistema.
Além disso, há conflitos entre grupos distintos de pescadores: pescadores profissionais e esportivos que competem pelos mesmos recursos pesqueiros, os quais, segundo a percepção dos usuários, estão em crescente depleção. A ausência dos órgãos de controle e extensão pesqueira federal e estaduais e sua dúbia reputação por agirem também como “polícia ambiental” contribuíram para agravar a situação. No entanto, a pesca representa uma oportunidade promissora para a economia regional, desde que praticada de forma sustentável, com recursos que se renovam anualmente pelo ciclo das águas, conservando a variabilidade existente.
Os sistemas mais ameaçados na região e que devem ter prioridade na conservação, segundo o MMA, compreendem as cabeceiras das bacias de drenagem e as planícies de inundação dos grandes rios.
A região do cerrado e o Pantanal são também áreas onde espécies ameaçadas ou quase ameaçadas da avifauna de regiões adjacentes passam boa parte de seus ciclos biológicos. Espécies da floresta atlântica e da região dos campos meridionais migram para a região do cerrado e/ou Pantanal durante o inverno de suas respectivas regiões de reprodução. A região ainda carece de estudos para compreender os padrões de migrações das aves que aí vivem e circulam. Foram documentados movimentos sazonais que incluem desde simples movimentos inter-hábitats de pequena distância até movimentos intracontinentais de longa distância. De modo geral, estima-se que cerca de 60% a 70% da avifauna da região do cerrado e do Pantanal realizam algum tipo de movimento sazonal anual.
Muitas dessas espécies migrantes que por aí passam encontram-se ameaçadas de extinção devido às modificações que estão ocorrendo em suas áreas de reprodução.
No Pantanal, foram identificadas 132 espécies de mamíferos, só duas endêmicas. As espécies mais vulneráveis aos processos de degradação são as de topo de cadeias tróficas, como os carnívoros, bastante sensíveis à redução e fragmentação do hábitat.
A área do Pantanal apresenta baixa densidade populacional humana e paisagens ainda pouco alteradas. A principal e mais antiga atividade econômica é a pecuária extensiva. No entanto, como grande quantidade da água do Pantanal se origina em outras regiões, sua preservação e de seus recursos hídricos envolve ações em outros domínios ou biomas, como o cerrado e a floresta tropical, cujas drenagens fluem para o Pantanal.
O frágil equilíbrio dos ecossistemas pantaneiros, definidos por dinâmicas de inundações periódicas, está sendo ameaçado pelas novas tendências de desenvolvimento econômico em todo o Centro-Oeste brasileiro. A agricultura e a pecuária em grande escala, como vêm sendo praticadas, acarretam processos erosivos, assoreamento de rios, com aumento do número de ilhas e extensão das ilhas existentes, poluição pelo uso de biocidas e desmatamento de trechos florestados. Há, também, introdução de espécies exóticas, que podem impactar negativamente, de modo imprevisível, a fauna e a flora pantanenses. Grandes projetos industriais, como usinas de cana-de-açúcar, que têm sido implantadas no Centro-Oeste, também apresentam riscos se seus efluentes não passarem por adequado tratamento antes de serem despejados nos rios que fluem para o Pantanal.
Além disso, modelos tradicionais de pesca e pecuária estão sendo substituídos por exploração intensiva, acompanhada de desmatamentos e alteração de áreas naturais no próprio interior do Pantanal. Também o turismo tem aumentado a produção de resíduos sólidos e líquidos, criado pressão por itens alimentares, sobretudo peixes, e perturbado os ninhais de aves. A pesca foi regulamentada por lei, preservando os períodos reprodutivos e os peixes jovens e proibindo a exportação de exemplares pescados para fora da região. No entanto, a fiscalização ainda é insuficiente.
O garimpo de ouro é outra atividade muito impactante ao Pantanal, por causar contaminação dos sedimentos e da fauna aquática por produtos tóxicos, principalmente mercúrio, e assoreamento em regiões de curso meândrico dos rios.
A caça profissional, que historicamente sempre dizimou a fauna da região, com a Lei de Crimes Ambientais, de 1998, está bastante limitada.
Para o Pantanal, o MMA adotou tratamento comparável ao posto em prática no cerrado na definição das áreas prioritárias para preservação. Além disso, foi inserido o conceito de corredores ecológicos. A estratégia de conservação para o Pantanal considera a região de maneira integral, cujas áreas prioritárias devem estar conectadas, levando em conta as interdependências de seus diversos ecossistemas. A estratégia busca, também, assegurar o papel do Pantanal como corredor de dispersão de espécies e de integração de biomas circunjacentes. Destaca-se, assim, a sua importância no contexto biogeográfico neotropical.
O Parque Nacional do Pantanal Mato-Grossense, com 135 mil hectares, em Mato Grosso, constitui a principal unidade de conservação restritiva desse bioma.
CAATINGA
Segundo Mantovani, o termo savana estépica, usado primeiramente na África para descrever biomas tropicais com formação decídua, espinhosa e cobertura herbácea descontínua, tem na caatinga seu equivalente no Brasil. A província da caatinga estende-se, no Nordeste brasileiro, de 2º54’ a 17º21’ S, em cerca de 1,1 milhão de quilômetros quadrados, o equivalente a 12% do território brasileiro. Ela inclui os estados do Ceará, Rio Grande do Norte, a maior parte da Paraíba e Pernambuco, sudeste do Piauí, oeste de Alagoas e Sergipe, região norte e central da Bahia e uma faixa em Minas Gerais, ao longo dos rios São Francisco e médio Jequitinhonha. A ilha de Fernando de Noronha também se inclui nesse bioma.
O nome “caatinga”, de origem tupi-guarani, significa “floresta branca”, e designa o aspecto esbranquiçado da vegetação arbustiva e arbórea na estação seca, quando as folhas caem e apenas os troncos brancos e brilhosos das árvores e arbustos permanecem na paisagem seca. O costume local trata a estação chuvosa como inverno, apesar de, na verdade, esse período coincidir com o solstício de verão.
No nordeste do Brasil, a maior parte das caatingas é localizada nas depressões interplanálticas, porém, há algumas exceções, tais como a chapada baixa do Raso da Catarina na Bahia, a Faixa da Borborema na Paraíba, ou o Platô Apodi no Rio Grande do Norte, onde a vegetação de caatinga é encontrada também nos planaltos.
No geral, essa província estende-se ao longo de pediplanos ondulados, com vestígios isolados de afloramentos rochosos, chamados lajedos.
Como resultado da origem e do clima, os solos são pedregosos e rasos, com a rocha-mãe escassamente decomposta a profundidades exíguas por limitação da decomposição química, e com muitos afloramentos de rochas maciças. Há um mosaico variado de solos complexos, com características variadas, mesmo dentro de pequenas distâncias. Também são encontrados solos salinos, com alta concentração de cloreto de sódio, que é trazido à superfície e se concentra após a evaporação. Esse processo pode ser acelerado pela irrigação.
O clima é semiárido, quente, com temperatura média anual superior a 18º C e precipitações de 200 a 700 milímetros anuais. Comparado ao de outras regiões brasileiras, apresenta parâmetros meteorológicos mais extremos: mais alta radiação solar, menor nebulosidade, mais alta temperatura média anual, mais baixas taxas de umidade relativa, evapotranspiração potencial mais elevada e, sobretudo, precipitações mais baixas e irregulares, limitadas, na maior parte da área, a um período muito curto no ano. Seis a 11 meses do ano são secos, quando se interrompe o fluxo dos rios intermitentes. Fenômenos catastróficos, também, são muito frequentes, tais como secas e cheias, e têm modelado a vida animal, vegetal e humana nas caatingas. No entanto, é a ausência completa de chuvas em alguns anos que mais impacta a vida na região. Há risco de desertificação em extensas áreas, sobretudo no Ceará, e processo de desertificação já em curso no sudeste do Piauí, causado por desmatamento e sobrepastejo.
As caatingas compreendem principalmente árvores e arbustos baixos, muitos dos quais com espinhos, microfilia e algumas características xerofíticas. Várias de suas espécies têm adaptações morfológicas que permitem armazenamento de água, como as raízes do umbuzeiro. A suculência é principalmente observada em cactáceas arbóreas, com folhas espinhosas, como o mandacaru, o facheiro e o xique-xique, e em bromeliáceas. As lianas são escassas.
Agreste e sertão são termos usados para se referir às caatingas e ao seu conceito fitogeográfico. Agreste é o nome dado à faixa estreita de vegetação que se estende entre os limites da Serra do Mar a leste, onde as florestas são abundantes, e os interiores mais secos a oeste.
As fisionomias de caatinga são muito variáveis, fornecendo hábitats numerosos e variados, dependendo do regime de chuvas e do tipo de solo, desde florestas altas e secas com até 15 a 20 metros de altura, chamadas de “caatinga arbórea”. Fisionomias intermediárias também são numerosas. Mas a caatinga arbustiva espinhosa fechada, com árvores baixas espalhadas é o tipo mais comum da caatinga na atualidade, denominada sertão. Há duas manchas expressivas dessa formação, típica de depressões sertanejas, uma ao norte, outra ao sul, separadas por uma série de serras.
O gado bovino penetrou no sertão a partir do século XVII, em grandes latifúndios, e a cultura do algodão arbóreo de disseminou a partir do século XIX, em pequenas propriedades. Assim, centenas de anos de sobreúso agropecuário, desmatamentos e grandes rebanhos de caprinos levaram à extensa degradação da caatinga e de seus solos.
A madeira da caatinga também tem sido usada em fornos de calcário e para cozimento de alimentos, dificultando a regeneração desse bioma, que possui baixa produção primária.

Durante décadas se discutiu sobre até que ponto as caatingas são naturais ou induzidas pelo homem. Na publicação do MMA, Ecorregiões da Caatinga, se contesta que, embora a influência do homem nesta área seja considerável, considerá-la como uma vegetação completamente secundária parece excessivo.


O grau de endemismo de suas espécies vegetais é expressivo. Nas áreas de caatinga parece haver pelo menos 183 espécies endêmicas de um total de 437 espécies, representando 42% de espécies suculentas e lenhosas das caatingas. Desse modo, as caatingas são muito mais ricas em espécies do que qualquer outra floresta seca da América do Sul, como as planícies uniformes do chaco, e equivalentes àquelas das províncias florísticas da Califórnia e das Ilhas Canárias.
Sua fauna é pobre em mamíferos carnívoros, em parte pela baixa produção primária ao longo do ano, em parte porque foram muito caçados. A pobreza da população humana da região e os longos períodos de estiagem, que dificultam a produção de alimentos, fazem com que haja grande pressão sobre a fauna silvestre, sobretudo de maior porte, como o gato-do-mato, o cachorro-do-mato, a lontra, os saguis. Também estão rareados os tatus, os lagartos, as pombas e muitas outras aves.
A região da caatinga apresenta potencial elevado de resquícios arqueológicos, antropológicos e paleontológicos. O Parque Nacional Serra da Capivara, situado ao sul do Piauí, no município de São Raimundo Nonato, apresenta inscrições rupestres nos arenitos, demonstrando uma civilização antiga, provavelmente de índios tapuias. A área tem grande potencial turístico, pois, além dos aspectos culturais, é constituída de arenitos em grandes blocos dissecados, de imensa e invulgar beleza cênica. Além disso, é uma das restritas unidades de conservação a englobar amostra representativa do bioma caatinga. Além dela, há algumas reservas ecológicas e estações ecológicas.
O semiárido sempre foi e ainda é o principal polo de origem de migrações humanas para o Sudeste, o Norte e o Centro-Oeste (principalmente Brasília) do país. O Maranhão e o Piauí são, até hoje, os Estados brasileiros com menor e o mais alto nível de concentração de renda.
Em décadas mais recentes, tem se desenvolvido a agricultura irrigada no domínio da caatinga, sobretudo de frutas para exportação e para o mercado interno urbano. Destacam-se o vale do Rio São Francisco, com cultivo de uva e o interior do Rio Grande do Norte, com cultivo de abacaxi, melão e algodão para a indústria têxtil.
Um dos projetos mais polêmicos para enfrentar as limitações hídricas das áreas de caatingas é o da transposição do Rio São Francisco. O megaprojeto em construção prevê milhares de quilômetros de dutos e canais, túneis, elevatórias e reservatórios para levar águas do maior rio perene da região, o São Francisco, para o semiárido, com um ramal em direção ao Rio Grande do Norte e outro ao Ceará e vários sub-ramais. Essas águas deverão ser usadas em projetos de irrigação e em abastecimento urbano. No entanto, sua complexidade, seu custo elevadíssimo, seus riscos à salinização de solos por irrigação inadequada e à concentração de terras têm gerado preocupações e protestos de ambientalistas.
Por outro lado, há alguns projetos promissores do Departamento de Combate à Desertificação do MMA, de uso de tecnologias para usos sustentáveis da terra e práticas que põem ênfase na convivência com ambientes naturalmente áridos e são tentativas de combate à seca. Há, também, experiências recentes de uso sustentável da água em áreas sob processo de desertificação, como Gilbués, no Piauí, e Sergipe, para ser replicado em todo o Nordeste, com apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Sua ênfase é no combate à erosão do solo, no esgotamento do recurso água e na construção de cisternas de placa para prover captação de água dos telhados das moradias de famílias para uso durante toda a estação seca. Algumas dessas tecnologias sociais brasileiras têm sido disseminadas por órgãos das Nações Unidas, para outras regiões do globo, como forma de combate à desertificação.


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