Biotecnologia e bioética



Baixar 71.62 Kb.
Encontro04.08.2016
Tamanho71.62 Kb.
BIOTECNOLOGIA E BIOÉTICA

MOSER, Antônio. Biotecnologia e Bioética. Para onde vamos?. Petrópolis, Vozes, 2004.


1BIOTECNOLOGIA, A GRANDE VIRADA HISTÓRICA
  1. BIOTECNOLOGIA

  2. BIOGENÉTICA: UMA HISTÓRIA DE CONQUISTAS

  3. CONQUISTAS


  4. TRANSMISSÃO DA VIDA EM LABORATÓRIO

  5. MANIPULAÇÃO COMO CHAVE DE LEITURA: A ENGENHARIA GENÉTICA

2DIAGNOSTICANDO DOENÇAS E BUSCANDO CURA DEFINITIVA

3BUSCANDO LUZES NA TEOLOGIA DA CRIAÇÃO

4BIOÉTICA: UMA MISSÃO E MUITAS TENDÊNCIAS

5 NA BUSCA DE MATRIZES OPERACIONAIS

  1. APRENDENDO A CONVIVER COM UMA NOVA REALIDADE

Revolução da Biotecnologia: Gene, DNA, Genoma, genética, biogenética, biodiversidade, biopolítica, biosegurança, bioinformática, engenharia genética, reprodução assistida, partenogênese, clonagem, células tronco, trnansgenia... fantasias e receios! Grandes interrogações éticas: Parceiros de Deus ou Lúcifer rebelde?


1 – BIOTECNOLOGIA, A GRANDE VIRADA HISTÓRICA


  • Da medicina tradicional à biotecnologia - A medicina sempre foi “endeusada”: os médicos eram os “sacerdotes”, decisão de vida e de morte. Nos últimos 50 anos, a medicina tradicional perdeu o pedestal para os genetecista, biólogos moleculares e celulares, biofísicos, etc. Vivemos o século da biotecnologia. Referência básica: Projeto Genoma, que revolucionou os conhecimentos genéticos através da leitura do DNA: os componentes químicos que contém os segredos biológicos da vida, ou seja, os caracteres hereditários transmitidos à descendência.



PROJETO GENOMA


  • O Projeto Genoma, grande impacto, é entendido junto com outros mega projetos projeto Manhattan e Apollo: “Pensávamos que o nosso destino se fixava nos astros; agora sabemos que ele se encontra ligado aos átomos e aos cromossomas”. Algo planejado e sem retorno.

    • Símbolos do progresso tecnológico:

    • Século XIX: máquina a vapor;

    • Século XX: energia atômica e conquistas espaciais

    • Século XXI: biotecnologia.

      • Com a Mecânica quântica os físicos e químicos decifraram o livro da natureza da matéria;

      • Com o conhecimento da física e da teoria da relatividade os físicos decifraram os segredos da energia e abriram caminho para a conquista do espaço;

      • Com todos os outros conhecimentos e descobrindo os segredos do genoma, os cientistas estão reescrevendo o livro da vida.


Fatos marcantes:

      • 6 de agosto de 1945: bomba atômica sobre Hiroshima e Nagasaki: em poucos segundos 50.000 edifícios e 200.000 pessoas varridas.

      • 20 de julho de 1969: Neil Armstrong põe o pé na lua.

      • 26 de julho de 2000: Bil Clinton anuncia o término do Projeto Genoma:




      • Hoje estamos aprendendo a linguagem em que Deus criou a vida. Estamos cada vez mais admirados diante da complexidade, beleza e maravilha do dom mais divino e sagrado de Deus”.

O Projeto Genoma (PGH) foi instalado em 1990: EUA, Canadá, Japão, França, Inglaterra e Itália. Depois universalizaou-se, entrando inclusive o Brasil. Gastos: 53 bilhões de dólares. Acelerado pelos computadores. Da inspiração inicial terapêutica: buscar as causas das cinco mil doenças geneticamente transmissíveis, para a corrida do patenteamento e lucros financeiros. Projeto Celera, civil. Ao lado da Indústria Bélica, a Informática e a Engenharia genética são as mais rentáveis.




  • Conquistas do PGH:

  • Mapeamento genético

  • Localização de alguns genes transmissores de doenças




  • Surpresas:




  • Não 100.000 mas 30.000 genes

  • Geneticamente, nosso parente mais próximo é o milho, muito próximos ao rato e chimpanzés.

  • Os genes são menos determinantes do que se pensava; as proteínas é que são responsáveis pelo funcionamento do corpo; tudo ligado ao ambiente, com múltiplos fatores.

  • O termo é COMPLEXIDADE: incontáveis fatores interagindo


I - BIOTECNOLOGIA



Definição: “Uso dos organismos vivos para solucionar problemas ou desenvolver produtos novos e úteis”.

  • Biotecnologia antiga: tem mais de dez mil anos: pão, vinho, queijo, iogurte; cruzamento de plantas(enxertos); com a revolução industrial: melhoria das condições de vida: grande interferência sobre a vida, urbana ou agrícola; na medicina: vacinas, antibióticos.

  • Biotecnologia de ponta: (pg 43): Bioquímica, Microbiologia, Genética, Biologia Molecular; Descoberta fundamental: o DNA e seu funcionamento: Genótipo (constantes) e Fenótipo (aparência e evolução). No passado, as alterações eram espontâneas; milhões de anos para novas espécies, agora se faz em laboratório: combinações de características e até de espécies, transportando de um organismo para outro as características desejadas.



II - BIOGENÉTICA: UMA HISTÓRIA DE CONQUISTAS

Das leis físicas estáticas à evolução contínua. Filosofia racionalista e mecanicista da natureza (séc XVI – XVII) Bacon, Descartes, Newton: precursores da compreensão racional das leis da natureza, de modo estático. Vem Darwin (séc XIX) e fala da evolução das espécies: visão dinâmica. Como isso funciona? Através dos genes, que transmitem características hereditárias. Mendel, com suas ervilhas, é o “pai da genética”: procurou saber como se transmitiam as características genéticas e suas variações (pg 66): genótipo e fenótipo; genes dominantes e recessivos.


Biogenética em três etapas:

  1. Mendel (1866)

  2. Descoberta do DNA (1944/1953 – DNA recambiante 1973)

  3. Biotecnologia aplicada: Manipulação genética e clonagem (1973ss): manufaturação materiais vivos, transpondo a barreira das espécies (ler pg 72).

NB: O que sabíamos (ler: pg 76)

  • O que ficamos sabendo nos últimos 50 anos:

  • O código genético formado há milhões de anos é basicamente o mesmo em todas as espécies: varia a quantidade e a sequência.

  • Genotéca: biblioteca genética!

  • Material sobrante: “lixo genético”(?): memória do passado? Estruturas cambiantes, facilitadoras? – A molécula utiliza apenas 3% de seu potencial. Há 97% de genes “sem finalidade”(?).

  • Existem seres complexos com genoma pequeno e seres muito simples, com genomas grandes. O camundongo tem o mesmo número de genes do ser humano: 30 mil, formando 3,4 bilhões de bases (elementos químicos, batizados com quatro letras: ATCG (Adenina, Timina, Citocina e Guanina).


Personagens:

  • DNA: dois metros de duas fitas enroladas, dentro de cada célula, com milhões de informações em cada célula: formar cópias.(Pg 84-85)

  • Proteínas(mais de 30 mil tipos!): organiza e faz funcionar o corpo.

  • Genes: Menos decisivos do que se pensava. Não agem sozinhos. São pedaços da fita do DNA; junto com as proteínas dão origem aos cromossomos. Só 3% são ativos. Dão mais informações do que determinam funções. O Gen é uma frase num volume da enciclopédia do DNA. (ler pg 405).



Mudança de paradigma



Paradigma é uma referência teórica global que permite analisar e compreender melhor a realidade.

Passamos do paradigma clássico da simplicidade para o paradigma da complexidade. Passamos da compreensão da natureza como um mecanismo repetitivo e harmonioso, como um relógio (Galileu, Newton, Descartes), fixo, simples, dogmático; para a compreensão da natureza como complexidade: caos e conflito = processo que integra novos componentes e realidades, articulando realidade física, biológica, social e política. Todo conhecimento situa-se na provisoriedade e transitoriedade.



A chave do segredo da complexidade: informação: DNA, proteínas e genes não são tecidos, órgãos, coisas, mas um conjunto de informações. O livro da vida é escrito conjugando por uma gramática e frases desses componentes. É uma linguagem, com a possibilidade de produzir e reproduzir infinitas receitas diferentes, articulando conexões entre todos os seres vivos.


III - CONQUISTAS



Agroindústria, Biotecnologia e Medicina.

1) Agroindústria:



Transgênicos, desde 1990. Nem tecnofanatismo, nem tecnocatastrofismo. (texto anexo)

  • Riscos: ameaça à saúde, meio-ambiente, sócio-políticos, eugenia, manipulação social, dependência tecnológica, fuga de genes modificados (Aids), guerra bacteriológica, questão de poder, etc. “Ciência é poder”.

  • Benefícios: Melhoria nutricional, resistência a bactérias, fungos e vírus; melhor resistência às condições adversas de clima e de solo; maior produção.



2) Biotecnologia


  • NB: a máquina no século XIX assustou

  • A energia atômica no século XX assustou

  • A biotecnologia no século XXI assusta

O problema não está na tecnologia, mas nas soluções tecnológicas que são escolhidas. A mesma técnica que ameaça é também a que salva. A Biotecnologia é a nova “matriz operacional”: coração de uma nova economia, a revolução bio-industrial, com nova mercadoria a ser comercializada. Ex. Microorganismo geneticamente modificados para produzir hidrocarbonetos, plásticos ou fibras sintéticas para tecidos e peles artificiais... Problemas ecológicos com soluções biológicas: prevenindo, monitorando e restaurando. Despoluição rápida com microorganismos.
3) Medicina: Da Medicina clássica: curativa; passando pelas medicinas alternativas: homeopatia, etc. Até chegar hoje à medicina preventiva. Nova ferramenta: testes genéticos. Contudo, não se cura apenas trocando genes.


IV – TRANSMISSÃO DA VIDA EM LABORATÓRIO

A reprodução assistida ou fecundação artificial visa contornar a esterilidade e selecionar material genético para garantir certas qualidades desejadas e evitar outras indesejadas. Existe também a clonagem e a partenogênese.



A grande questão: Tudo depende do “estatuto ontológico do embrião”: desde a concepção ou gradualidade? Santo Tomás baseado em Aristóteles: homem após 30 dias; mulher 90 dias (pg 147). Teorias recentes: aceitação; fixação no útero (5 a 7 dias após a fecundação); após a possibilidade de divisão (2 semanas); formação do cérebro. A partir do século XIX a Igreja assume a postura da animação imediata, concomitante com a fecundação.

  • Fecundação artificial: problema mais nos motivos do que nas técnicas artificiais.

  • Clonagem: 1997 Ian Wilmut e K.H.S Camppbell: primeiro clone adulto: ovelha Dolly. Todos os seres monocelulares (amebas e bacterias) se reproduzem por clonagem; árvores (enxertos...).

Conclusão: mesmo sendo a clonagem natural em seres vivos inferiores, não o é nos mamíferos. Nos animais, poderá haver vantagens: uso de animais para experiências, melhoria nos rebanhos; salvar animais em extinção; multiplicar rapidamente animais de qualidade; produzir animais transgênicos para obter proteinas terapêuticas em maior quantidade e em menor tempo. Mas em seres humanos seria uma temeridade. Empobrece o patrimônio genético.
Distinguir entre clonagem reprodutiva e terapêutica. Cada célula do corpo é clone de todas as outras células e do zigoto original. Todas as células do corpo se originaram de uma única célula, mas se diversificando. Os gêmeos univitelinos são clones: bipartição espontânea de um mesmo zigoto.

Há casos em que dois óvulos fecundados se fundem num só.


Partenogênese: um óvulo, sozinho, não fecundado começa a desenvolver-se por um choque térmico ou elétrico; resultado sempre feminino. A única vantagem é ser uma reprodução assexuada, ser mãe-virgem, sem concurso masculino.
Células tronco: conservam-se indefinidamente e podem produzir qualquer órgão. Podem ser obtidas logo após a fecundação (zigoto) (maior quantidade, mais facilidade, mais qualidade), do cordão umbilical e da medula óssea (mais difíceis e menos eficazes). Com células tronco dá-se a revitalização de órgãos através de uma injeção destas células no órgão doente, bem como pode-se produzir órgãos para transplantes, células de sangue, musculares, tecidos, etc.

Todos são contra a clonagem humana (reprodutiva), ao menos em teoria. Mas mesmo a terapêutica pode ser um cavalo de tróia: o que é mesmo terapêutica? A biotecnologia não é neutra. Quem decide, o que decide e para quem o benefício?

A clonagem aparece como solução mágica. Na verdade, a humanização se faz incluindo as dimensões sociais, culturais, políticos e religiosos. Órgãos sadios não garantem um mundo mais humano (paz, justiça, amor).




V - MANIPULAÇÃO COMO CHAVE DE LEITURA: A ENGENHARIA GENÉTICA
Manipular, é positivo ou negativo?

  • manipular, moldar, dar forma, deter firmemente nas mãos: dominação; quem manipula dirige a coisa ou pessoa de acordo com seus desejos e interesses para conseguir objetivos.

  • Manipulação enquanto combina elementos: farmácia de manipulação.

Toda pessoa manipula. As pessoas manipulam a natureza para sobreviver: constrói sua casa (casa, ética, humano) pela trabalho criativo e transformador. A natureza, na modernidade, não é para ser contemplada, mas transformada: da sacralidade à autonomia: tomar nas mãos o destino de si e do mundo.

A própria educação é o modo de influenciar. Contudo, existe a boa e a má “manipulação”.

A má dominação, que restringe a liberdade, chama-se alienação. Manipulação política e social através dos MCS, distorcendo a realidade: ocultando-a (meia verdade), fragmentação (tópicos), inversão (dando destaque a banalidades); simplificação: exposição emocional dos fatos, entrevistas populares, confirmação pela autoridade. Ex: Guerra Iraque: justificada por falsas notícias. (calar, selecionar, desfocalizar).

Manipulação:

Pela publicidade os MCS tornam-se empresas comerciais a serviço do mercado;

Pela Ideologia (conjunto orgânico e coeso de princípios a partir dos quais se interpreta toda a vida social). Segurança nacional.

Pela Cultura: massificação do conhecimento, único modelo.

Pela permissividade: enfraquecimento da personalidade;

Pelas estatísticas: induzem.

Pela religião: Houve práticas mais manipuladoras do que libertadoras;

  • Doutrinal: Posse da verdade

  • Evangelização colonizadora: cruz e espada, trono e altar; imposição de cultura; teologia do cagaço” das missões populares..

NB: A culpa não é do Cristianismo, mas do fenômeno religioso, enquanto humano é ambíguo. A manipulação não é só da instituição, mas é fenômeno humano, pela sua ambiguidade essencial. Marx denuncia a religião como ópio do povo.

Contra a manipulação, só o conhecimento da realidade através de uma atitude crítica.



Conclusão: com a Biotecnologia a manipulação torna-se grande desafio: multidões cada vez maiores dependem de um pequeno grupo de cientistas! Mas o problema não é da biotecnologia, mas da condição humana. O verdadeiro problema é querer atuar sobre o mundo e sobre as pessoas como Senhor. Os cientistas podem moldar novos seres. Grandes desafios éticos: não só a manipulação tradicional do mundo, pessoas e sociedades, mas das próprias fontes da vida, sendo possível imprimir ali sua vontade e poder através da engenharia genética.

VI - DIAGNOSTICANDO DOENÇAS E BUSCANDO CURA DEFINITIVA
A busca de cura se justifica. Jesus curou. Milhões de seres humanos sofrem e fazem sofrer por doenças genéticas. Pela engenharia genética chega à raíz dos males. Há 5.000 doenças de origem genética. Em várias doenças os genes responsáveis já podem ser localizados e identificados: Parkinson, Alzheimer, distrofia muscular, fibrose cística, hemofilia; anemia, etc (pg 233). É humano melhorar o patrimônio genético. A isto chama-se Eugenia. Contudo pode haver eugenia discriminatória. Eugenia positiva: incentiva reprodução sadia: Eugenia negativa: impede reprodução que perpetua defeitos genéticos. Deve-se distinguir entre aconselhamento genético de imposição. Aconselhamento: confidencialidade, autonomia, consentimento informado, beneficência, equidade.

Intervenções somáticas: indivíduo = corretiva;

Intervenções em células germinais: espécie = prospectivas.

Terapia genética, não é cura definitiva, mas facilita. Procedimentos (pg 243) em cinco blocos distintos: DNA – Células – Embriões – Adulto – Populações inteiras. Até hoje não há êxitos tão expressivos.



As ciências tem autonomia. Mas tem limites. Só a fé dá o sentido último. Da eutanásia para a distanásia. É sonho uma espécie sem males. Os maiores males vem das relações e a maior felicidade vem do sentido da vida.


VII – BUSCANDO LUZES NA TEOLOGIA DA CRIAÇÃO
Biotecnologia, o oitavo dia da criação. Três momentos: aquela de Deus, aquela da tecnologia e aquela da biotecnologia.

O que é “natureza”? O que coube/cabe ao Criador e o que ao ser humano?

Gênesis, não é uma narrativa de fatos, mas um mito sapiencial. O sentido é que Deus cria, confia ao ser humano, agindo através de causas segundas. A pergunta é: o ser humano só deve agir sobre o mundo externo e não a nível de espécie? O criador estabeleceu limites? Teria reservado para si a ação sobre a vida?

A evolução da natureza teve dois impactos decisivos da ação do ser humano:



  • Industrialização: mudou hábitos milenares. Secularização. Tragédias ecológicas. A pior: dominação e exclusão sobre as pessoas.

  • Revolução genética: diferente das demais: envolve o patrimônio genético da humanidade em poucas mãos. A questão não é tecnológica, mas dos objetivos e como é conduzida.

Todas as revoluções tendem, inicialmente, produzem efeitos desumanos. Leão XIII e Marx denunciaram o capitalismo industrial. Mas a biotecnologia tem um poder que vai desde o conhecimento, da programação e execução rápida e controlada dos segredos da vida. Atinge a intimidade do humano. Nada mais é “impossível”, tanto construir como destruir.

Deus teria um plano traçado previamente ao qual o ser humano deveria submeter-se sem transgredir? Ou - Deus oferece a matéria prima para a criatividade múltipla do ser humano? Cabe ao ser humano apenas executar, ou também projetar?

Deus oferece o dom da liberdade: criar, projetar, acerar e errar. Errar e acertar faz parte da natureza humana. Graça e pecado são humanos. Criar, evoluir, é necessidade e missão do ser humano. Até porque as maiores barbaridades humanas foram cometidos em nome da manutenção da ordem estabelecida!

A realidade é feita de complexidade, caos e evolução, não de simplicidade e harmonia. O ser humano tem a missão de organizar e humanizar o mundo, elementos presentes no caos.



Natureza: (Existe o “ethos” como fonte; as normas são torneiras.) Até um passado recente: “pecados contra a natureza” como os mais graves, pois a natureza era considerada normativa, como expressão da vontade de Deus.

Contudo, não há natureza sem cultura, nem cultura sem natureza. Existe uma continuidade (esse) e uma evolução (fieri). No passado a moral privilegiou a continuidade. Atualmente sabe-se que a natureza evolui. Antes a natureza era respeitada religiosamente, agora as pessoas sentem-se responsáveis para conduzir seu processo. Inverte-se a perspectiva.



A biotecnologia modifica a visão da natureza:

  1. A natureza não é só matéria: é também energia e informações;

  2. Evolui continuamente (a vida – força vital - é, antes de se expressar nas espécies); Este processo natural é assumido pelo ser humano. Aquilo que a natureza demorou milhões de anos o ser humano agora pode fazer em pouco tempo. Era atributo de Deus!

  3. A natureza erra! Natureza perfeita é mito. Basta ver as anomalias: cinco mil doenças genéticas. Se a natureza erra, não é humano corrigir? Planejar as melhoras do patrimônio genético? As intervenções terapêuticas são admitidas até pelo papa. As mudanças genéticas estão acontecendo. É preciso ter responsabilidade.

Para onde vamos? Depois da conquista da terra, do cosmos e do microcosmos, agora se conquista a intimidade do próprio ser humano.

VIII – BIOÉTICA: UMA MISSÃO E MUITAS TENDÊNCIAS
Bioética é algo novo. Pascal disse: “Todos amamos Jesus Cristo, mas ninguém nos fará amar a moral”. A Bioética tenta responder às interrogações dos laboratórios. Potter, em 1971 lança o primeiro livro: “Bioética, uma ponte para o futuro”. Procura ser interdisciplinar, para poder saber o que se deve fazer daquilo que se pode fazer. Comitês de Bioética espalharam-se por todo o mundo. No Brasil, fundado em 1995, conta com 400 membros.

Princípios norteadores:

  1. Autonomia: paciente sujeito

  2. Beneficiência: Buscar sempre o bem do doente

  3. Justiça: questão de investimentos e universalização: o que é de fato necessário ou supérfluo.

  4. Não maleficiência: não só intenção, mas de fato.


Há dificuldades. Cada um procura interpretar com vantagem. Problemas de fundamentos. Problemas de conceitos. Ótica feminista diferente. Desconfessionalização. Novo paradigma: humanização.

(Existe uma leitura fenomenológica, outra teológica, outra da libertação.



  1. Leitura fenomenológica da ética: procura o fundamento no próprio ser humano parte da realidade, do ser humano concreto, sem, contudo negar os princípios metafísicos; Valoriza a experiência pessoal, familiar e social. Perigo: subjetivismo.

  2. Leitura teológica: Todas as ciências devem ultrapassar os próprios limites e aprender das demais. Deve considerar os limites, pois é preciso um conhecimento técnico muito difícil;

  3. Leitura da libertação: como sobreviver numa sociedade que mata. Lugar social de onde acontecem as coisas. Justiça com os pobres.)

As leis não salvam. É preciso uma mística, aos valores que as leis querem preservar.



CAP IX - NA BUSCA DE MATRIZES OPERACIONAIS

O Projeto Genoma foi realizado com preocupações éticas explícitas (3% do orçamento). Antes Teologia e Filosofia faziam as éticas. A Bioética alcançou as universidades e comitês em todo o mundo. A Ética voltou a ter prestígio. Tomou-se consciência que o ser humano está tocando num mistério sagrado. Todos a favor da vida. Esperanças de cura e bem estar. Contudo, os princípios deixaram de ser operacionais. Chegou-se a uma perplexidade. Os princípios genéricos não são suficientes. Estamos em busca de novas matrizes operacionais: a passagem do teórico à prática efetiva. A realidade nunca foi tão diferente e tão mutável quanto à da Bioética. Não há tempo para dar respostas a tantos problemas concretos. Estamos diante de uma “perplexidade paralisante”. É preciso antecipar-se aos problemas, oferecendo instrumentos adequados para responder aos sempre novos e frequentes desafios. Se a ética não se antecipa à ciência... a ciência não volta atrás! A moral tradicional tinha fontes na Bíblia e na tradição. Contudo, os problemas da Bioética são novos, absolutamente originais. O ser humano está para ser reestruturado radicalmente (L. Boff diz que mudança igual à nossa somente a passagem do macaco ao humano!). Os princípios existem. Mas são genéricos, rígidos, abstratos e desconexos.


Critérios mais operacionais

Vamos tentar alguns novos mecanismos operacionais, articulando aquilo que já se tem nas mãos. Vai em três direções:



  • Ajudar a discernir

  • Ajudar a ver os limites

  • Promover o senso de responsabilidade




  1. - Ajudar a discernir - A questão é como situar-se diante da manipulação genética. Teologicamente não há limites. O ser humano foi chamado a administrar não só o que está fora dele, mas ele mesmo. Mesmo os melhores princípios éticos podem ser manipulados. É preciso descer mais ao concreto. Respeito, dignidade, direitos humanos são princípios. É preciso mecanismos mais operacionais. O mais importante deles é a “consciência crítica”: alarmes de suspeita de manipulação, que é ameaça à liberdade, que por sua vez mais desumaniza; estabelece limites.




  1. Ajudar a ver os limites - A Bioética tem que estabelecer limites para não manipular de modo desumanizante. A imoralidade não é agir, mas agir sem saber como e porquê. A ética não alcança apenas o fazer, mas, sobretudo o modo de ser, que se traduz no agir. Questão de valores. A consciência crítica (CC) deve ser das pessoas e da sociedade. Manipulações são inevitáveis. É preciso que as decisões brotem dos interessados. A CC deve cuidar também da manipulação no sentido reducionista do ser humano: a supervalorização do plano biológico. Cada ciência é naturalmente setorial. É preciso a interdisciplinariedade tanto na técnica quanto na ética.




  1. - Promover o senso de responsabilidade - Responsabilidade é resposta, vocação, missão. Vocação e plano de Deus nada tem a ver com coisas pré-determinadas. O plano de Deus pressupõe a criatividade humana. A questão mais delicada é a intervenção no patrimônio genético. Nisto está a preocupação com o futuro da humanidade: responsabilidade. Afinal, o futuro da humanidade está cada vez mais nas mãos de poucos; a velocidade das descobertas em laboratórios é estonteante; a biotecnologia está caindo sempre mais nas mãos de grupos econômicos e ideológicos. Concentração de poder, apesar do avanço da democracia. Bilhões de anos da natureza se altera numa decisão de laboratório. O problema não é a biotecnologia, mas quem a detém.

Portanto, a Biotecnologia vem carregada de esperanças e ameaças. A Bioética tem a responsabilidade de garantir a sobrevivência da vida na terra!


Atitudes necessárias:
Consciência crítica – Toda transformação começa por uma tomada de consciência de uma situação (TdL). Hoje a dominação é muito mais complexa e universalizada. Certamente chegou aos laboratórios. A luta hoje é pelo controle das técnicas e da matéria prima relacionada com a genética. É o bio-poder. Mas os mecanismos de resistência também nunca estiveram tão fortes (Guerra no Iraque e manifestações pela paz). Ditadura funciona com ignorância. Sem consciência não há liberdade e sem liberdade não há moralidade. Dizer que o problema está na tecnologia é mais uma forma sofisticada de manipulação. O problema está nas decisões humanas: pela vida ou pela morte.
Um decálogo para a era biotecnológica
Neste decálogo está uma retomada sintética dos grandes eixos da reflexão Bioética, no momento em que a vida nunca esteve tão ameaçada e, ao mesmo tempo, com condições tão favoráveis.

  1. Legitimidade da pesquisas -A pesquisa e a intervenção na natureza são legítimas, desde que ponderadas as consequências para o presente e para o futuro.

  2. Unidade da vida - Seres humanos e demais seres encontram-se tão profundamente vinculados que não se pode intervir sobre um sem ter a consciência de que também se está intervindo sobre o outro.

  3. Limites das ciências - A investigação biogenética precisa de limites. Não pode ser confiada a uma pequena elite. A humanidade inteira precisa ser a referência.

  4. Orientação terapêutica - Todos os procedimentos no campo da biogenética devem manter uma orientação terapêutica: processo de humanização crescente para todos.

  5. Responsabilidade - Cresce a responsabilidade nas alterações rápidas que a natureza construiu em bilhões de anos. A pressa é risco.

  6. Esperança - Os temores iniciais eram exagerados. Partir da esperança, não do medo.

  7. Respeito ao ser humano - Existem limites inegociáveis para experiências em seres humanos: vida, saúde, integridade de todos, inclusive os não nascidos. A vida é por demais complexa. Os resultados nem sempre são previsíveis sobretudo na perspectiva germinal.

  8. Direitos humanos - A prospecção genética não deve servir a objetivos que lesem os direitos fundamentais da pessoa: privacidade, não exclusão.

  9. Terapia - A terapia genética é uma possibilidade a nível somático; a nível germinal, é ainda uma temeridade.

  10. Prudência - Sonhar faz bem, inclusive a nível genético, mas não podemos queimar etapas. Não é a biotecnologia que mais humaniza, mas o amor (pg 367-369)


Alguns exemplos.

  1. Biossegurança – A lei de biossegurança de 1995 era bastante restritiva. Contudo os transgênicos tomaram conta.

  2. Patenteamento dos genes – A idéia é fazer justiça com os pioneiros e democratizar as descobertas. Contudo, na prática, passou a fazer parte do “segredo industrial” para proteger os interesses dos investidores. A industria padroniza e cria monopólios. E a biodiversidade?

  3. O mapeamento genético – O risco de saber demais: carteira de identidade genética, com previsão de doenças. Problema com trabalho, seguros, aposentadorias, planos de saúde: discriminação na certa. Muito conhecimento revela muitos problemas que não tem solução.



A contribuição da Igreja

Nunca foi tão favorável o diálogo entre razão e fé. Os da razão pedem a contribuição da fé. A Igreja se denomina “perita em humanidade”. Conta com a experiência de dois mil anos. Em questões de vida, a contribuição da Igreja concentram-se nos textos da Sagrada Congregação para a doutrina da Fé: “O Dom da vida” e de João Paulo II: “O Evangelho da Vida”.



O “dom da vida”, critérios básicos:

  1. O dom da vida exige que se tome consciência do seu valor inestimável.

  2. Os critérios básicos são: “o respeito, a defesa e a promoção do ser humano, o seu direito primeiro e fundamental à vida, e sua dignidade de pessoa”

  3. A vida humana deve ser respeitada de modo absoluto desde o momento da fecundação;

  4. Não se deve separar amor e procriação;

  5. Nem tudo o que é tecnicamente possível é necessariamente admissível do ponto de vista moral;

  6. É lícita a intervenção diretamente terapêutica;

  7. É ilícita a pesquisa e experimentação em embriões, bem como o diagnóstico pré-natal, se for com intenções eugenéticas.

A preocupação central é sempre a de preservar a vida, a integridade e saúde do embrião.

O princípio geral básico: a transmissão da vida deve dar-se dentro do matrimônio legítimo através de um ato de amor conjugal. Por isso o documento diz não:

1 - À destruição de embriões in vitro (material biológico descartável);

2 - Não intercâmbio com animais (troca de gametas; gestação em útero animal, úteros artificiais, fecundação não sexual: inseminação, fecundação in vitro, clonagem, partenogênese).

(Sobre a clonagem: Comissão Pró Vita (pg 384)

3 - À reprodução de seres humanos selecionados segundo o sexo ou outras qualidades preestabelecidas;



  1. - À fecundação artificial heteróloga ou homóloga (Os pais não tem “direito” ao filho o filho é um dom, não um direito, mas vice-versa!)

  2. - Sim apenas a um “auxílio técnico”, nunca algo que substitua o amor.

  3. - Quanto à legislação civil: exige intervenção das autoridades para que promovam leis que defendam a vida e a família, evitando que as pessoas, inclusive os embriões, se tornem objeto de experimentação, mutilados ou destruídos.

Diante de tantos “não” é preciso desentranhar os “sim”(387). Entre um e outro existe a cultura da vida e a cultura da morte. A Igreja olha a vida na sua totalidade e significado. O Evangelho da Vida denuncia a cultura da morte (“a guerra dos poderosos contra os débeis” numa “conjuntura contra a vida”), expressos no homicídio, aborto e eutanásia.

CAP X – APRENDENDO A CONVIVER COM UMA NOVA REALIDADE
Capítulo sintético-conclusivo-operativo. O que fazer diante de tantas esperanças e tantas interrogações? Possibilidades apocalípticas, não apenas como experiência mas como planejamento. O século XXI já está sendo o da bioengenharia (ler pg 393). Nada mais é impossível. Tudo é questão de tempo e de investimentos! É preciso uma pedagogia da sobrevivência. Nem entusiasmo demasiado, nem revolta, nem conformismo, mas ser coadjuvante. É preciso fazer a “pastoral do bom senso”. Buscar caminhos para influenciar e conviver com a nova realidade. São necessárias novas posturas, tanto a nível individual, comunitária e social, ao mesmo tempo.
1 – Posturas pessoais


  • Admiração e reverência diante daquilo que é maior do que nós. Num mundo sem mistérios, onde tudo é conhecido e manipulado e mercantilizado; onde os deuses perderam seu último refúgio é preciso voltar ao mistério, à contemplação, ao cuidado: o cultivo da admiração reverente. Humanização. Após as loucuras de toda novidade é preciso voltar ao bom senso. O medo e o espanto inicial podem abrir caminhos para um reencanto total. Promover a cultura da vida. Exige um olhar: “É o olhar de quem não pretende apoderar-se da realidade, mas a acolhe como um Dom, descobrindo em todas as coisas o reflexo do Criador e em cada pessoa a sua imagem viva” (EV n. 83)

  • Não há soluções fáceis para problemas difíceis. Tenacidade diante de um mundo que prega soluções mágicas. A biotecnologia parece ser absolutamente eficaz, gerando euforia, suscitando uma confiança cega nos procedimentos técnicos. Contudo, existe o risco do reducionismo ideológico. Os problemas e as soluções não se reduzem à genética! Escola, saúde, nutrição são menos sensacionalistas decidem mais do que os gens(pg 401). A humanização não deveria começar por essas coisas mais simples e acessíveis? A terapia genética está dando apenas seus primeiros passos. Não existirão soluções mágicas! Prioritário são as relações e o sentido da vida. Equilibrar físico, psíquico e espiritual. O maior milagre é o cotidiano amor a Deus e ao próximo. Felicidade não combina com facilidade.

  • Humildade diante de um mundo marcado pela arrogância. (Bil Clinton dia 26 de julho de 2000: “Hoje estamos aprendendo a linguagem em que Deus criou a vida. Estamos cada vez mais admirados diante da complexidade, beleza e maravilha do dom mais divino e sagrado de Deus”; Collins, coordenador geral do projeto Genona, no mesmo dia disse: “É para mim motivo de humildade e admiração perceber que captamos o primeiro vislumbre de nosso livro de instruções, antes só conhecido por Deus”. Michael Stratton: “Hoje é o dia em que entregamos a dádiva do genoma humano ao público. É muito frágil e belo, uma força poderosa que pode ser usada para o nosso bem ou mal”. Contudo, em outros ambientes a euforia foi total. A humildade é necessária. Ex. 93% dos genes parecem não ter função... os genes não são tão importantes quanto parecia.


2 – Novas posturas comunitárias


  • Importância de uma visão de conjunto – A complexidade exige especialização, isto significa fragmentação, superficialidade e visão distorcida da realidade, impossibilitando a visão de conjunto. É preciso situar os pequenos lugares num grande mapa. A atual globalização é uma ideologia de nivelamento das diferenças. É preciso uma visão holística. A interdependência. Articular o particular com o universal e vice-versa. A importância da filosofia e da Teologia para dar uma visão de conjunto à vida humana.




  • Aprendendo a lidar com o diferente – A globalização dá aparências de proximidade. Contudo, a dominação e os conflitos continuam. A pluralidade é riqueza das diferenças que se complementam. A homogeinização é empobrecimento (Ex. clonagem). A bipolaridade é parte integrante da natureza (Ex. Masculino e feminino). Unidade sim, uniformidade não.




  • Aprendendo a controlar as emoções - Diante da novidade não ser emocional, mas racional: diálogo aberto e fecundo, reconhecendo erros e conquistas. Análise crítica. Apesar dos problemas e abusos, a biotecnologia criou e pode criar muitos avanços, sobretudo na produção de matéria prima e energia. A consciência crítica percebe a manipulação mas sabe acolher as coisas boas. Não se pode absolutizar a importância dos genes; a Ciência, na prática, não é neutra; os MCS manipulam; a idolatria do corpo.


3 – Novas posturas sociais


  • Vencer o medo diante do que é novo – Tempo de mudanças profundas e rápidas. Para onde vamos? Pergunta que sinaliza uma ambiguidade: medo e fascínio da novidade. Atitude crítica, com parâmetros adequados para fugir da manipulação.




  • A pressa é inimiga do bom – Muito mais que na revolução industrial, com a biotecnologia tudo é “eficiente, certo e rápido”. O problema não são os laboratórios, mas quem são seus donos e interesses. Ex. Pacotes biotecnológicos: lucros enormes a curto prazo. Em termos humanos, já não são experiências, mas decisões tomadas... sem saber as consequências.




  • Democratizar os benefícios – A saúde é o bem estar físico, psíquico, espiritual e social. A medicina é apenas uma aliada, mas é uma aliada importante, que depende de decisões políticas para se universalizar. A biotecnologia aumenta a distância entre ricos e pobres. É preciso democratizar seus benefícios.


Conclusão geral
Alguns desdobramentos previsíveis:

O domínio dos mistérios da vida: conhecimento e ação. O que fazer? Quem pode fazer? Por quê fazer? O controle biotecnológico está nas mãos dos ricos. Urgente a ação da Bioética. Acompanhar o processo; exigir esclarecimentos, exigir democratização dos benefícos; As religiões deverão evitar a nova voz da serpente “sereis como deuses”. Recordar Moisés e Jesus; Moisés (Dt 31,7) anima Josué a entrar na terra prometida com a assistência do Senhor; Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Garante o paraíso, mas adverte que a porta é estreita. N’Ele foram feitas todas as coisas (Jo 1,1-5).


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal