Blog Léo Quintino Política, comunicação e um pouco do mundo Verdade Silenciosa Por Cristovam Buarque



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Encontro29.07.2016
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Política, comunicação e um pouco do mundo

Verdade Silenciosa

Por Cristovam Buarque:

Não há verdade silenciosa. Coberta pelo silêncio, a verdade é uma mentira. O Brasil é um país de verdades silenciosas.

Até hoje não sabemos tudo o que ocorreu durante a guerra contra o Paraguai, há 150 anos. Alguns documentos oficiais estão escondidos sob o manto do sigilo. Como brasileiro do século XXI, não tenho qualquer culpa por crimes cometidos por brasileiros do século XIX. Mas o silêncio das gerações atuais nos faz cúmplices de possíveis crimes do passado. Enquanto tudo da Guerra do Paraguai não for exposto à luz, nós brasileiros estaremos contaminados. Porque a história escondida contamina através do tempo.

Da mesma forma, nossos militares de hoje não têm qualquer responsabilidade por crimes de 30, 40 anos atrás. Mas, se não aceitam a apuração e divulgação dos fatos históricos, as Forças Armadas continuam contaminadas com a culpa da geração anterior. A esquerda do século XXI também permanece contagiada por possíveis crimes cometidos, ainda não expostos à luz da verdade.

Resposta:

A opção pela “verdade silenciosa” contamina todo o tecido social. O silêncio termina sendo uma das causas da falta de princípios na política e um vetor para a corrupção – inclusive a corrupção do silêncio. Com isso, a política fica com aversão à história, de modo que, hoje, se olha mais o poder pelo poder do que a possibilidade de entrar para a história, tornando-se, por exemplo, denominação de rua no futuro, justificando o Congresso a julgar secretamente senadores e deputados acusados de falta de ética.

Os intelectuais optam pelo silencio reverencial diante dos erros dos políticos correligionários. Como desprezam o que a história dirá, ou não dirá, ficam quietos e calados diante dos erros dos governantes que apóiam. Os próprios guardiões da história seqüestram a história. Alguns não criticam o decreto assinado por Fernando Henrique, que prorroga os prazos de sigilo dos fatos históricos. Outros não criticam que o governo Lula nada fez para mudar essa parte do “conluio do silêncio”, como chamou a jornalista Miriam Leitão neste jornal, em sua coluna da última terça-feira.

O “conluio do silêncio” é antigo. É ele que nos fez conviver 400 anos com a escravidão e tentar apagar o crime que ela representou – os documentos da escravidão foram queimados para impedir que os donos de escravos pedissem indenizações, o que os anistiou de suas maldades. E também nos faz tolerar, sem constrangimento, a concentração de renda, a miséria, a deseducação. Todos calados, ou apenas cochichando, mas tolerando, sem julgar os culpados históricos. Nesse conluio, aceitou-se não punir torturadores e indenizar torturados. E aqueles que se recusaram a fazer essa troca provavelmente ficarão sem justiça contra seus opressores, nem nome de rua em um país onde a história é escondida no sigilo ou no esquecimento.

Sem história aberta – feita por políticos com compromissos com a história, estudada por historiadores com acesso a toda verdade – não surge o sentimento de nação e sua perspectiva histórica. O país-não-nação torna-se apenas uma rede de pessoas e suas corporações, prisioneiras do presente sem compromisso com o futuro.

A verdade é a base da história, e a história é a base da política séria. Por isso, não é para julgar os que foram beneficiados pela lei da Anistia que é importante romper o manto do sigilo, mas, sim, para salvar a honra das Forças Armadas e do Brasil, dos partidos que fizeram a luta armada. É para trazer o ar puro da verdade dentro da vida nacional, para ilustrar e conscientizar os jovens e as futuras gerações. É para comprometer a política com a história que tudo deve vir a público. Os crimes da Operação Condor e todos os demais cometidos devem ser conhecidos.

Aproveitemos o momento para apurar o que houve com dois de seus compatriotas e romper com o “conluio do silêncio”, apurando tudo que ocorreu aos nossos compatriotas e aos estrangeiros que aqui sofreram violências.



Libertemos a verdade histórica, sem a qual a verdade democrática é uma farsa.

Cristovam Buarque é Professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF


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