Boletim do criadouro caviúnas nº 20 março de 2006



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BOLETIM DO CRIADOURO CAVIÚNAS

Nº 20 MARÇO DE 2006




REDATOR: Dr. JOSÉ CARLOS PEREIRA

RUA JOAQUIM DO PRADO, 49, CRUZEIRO SP. TELEFAX 012 31443590

drjosecarlos2000@uol.com.br


A IMPORTÂNCIA DAS FÊMEAS NO CRIADOURO

Uran – Palme – Eiko - Yago

Há alguns meses, visitando um criadouro de curiós, observei que estavam vendendo filhotes machos por 600 reais e as fêmeas por 150. E, como é uma prática de diferença de valor comum entre machos e fêmeas nos criadouros de pássaros nativos, diferente da realidade com a qual convivi durante décadas de criador de cães pastores alemães, sendo as fêmeas tão ou mais valorizadas do que os machos, resolvi escrever alguma coisa mostrando a importância essencial das fêmeas para a criação.

Como não tinha base de criação de nativos suficiente para fornecer o material necessário, optei por fazer a correlação com a criação dos pastores alemães. Aproveitei o material que escrevi sobre a evolução do cão pastor alemão, desde o primeiro animal registrado, há mais de cem anos, até os tempos atuais, dando destaque às fêmeas exponenciais que tiveram importância na evolução pastoreira. E dessas, destaque todo especial para a legendária Palme Wildsteiger Land. Na foto acima, Palme com o seu filho Uran Wildsteiger Land, um dos mais importantes pastores de todos os tempos, Eiko Kirschental, filho de Uran e outro ótimo animal, e Yago Wildsteiger Land, filho de Eiko e excelente padreador, mostrando uma linha sangüínea das melhores. José Carlos Pereira.

Já foi dito, e com muita propriedade, que um criadouro, de qualquer que seja a espécie animal, depende essencialmente da qualidade das suas fêmeas matrizes. Rápido e rasteiro: um criadouro é o que são as suas fêmeas.

Como a criação dos pássaros nativos brasileiros não permite a busca de um exemplo cabal e documentado disso, vou buscá-lo na criação do cão pastor alemão à qual me dediquei por décadas.

O nome inquestionável da cadela exemplo? Palme Wildsteiger Land, o ventre de onde se originaram as linhas de sangue que hoje predominam na criação mundial do cão pastor alemão dito de estrutura ou show.: Uran Wildsteiger Land e Quando v. Arminius.

Para um bom entendimento do que foi Palme para a criação pastoreira, permitam-me um brevíssimo histórico, aliás, nem tão brevíssimo assim, mas, vale a pena acompanhar.

Na região onde é hoje a Alemanha foram desenvolvidas raças de cães pastores adaptadas ao clima e aos acidentes geográficos de cada região. Claro que os pastores, durante os seus encontros festivos e comerciais, jactavam-se das qualidades dos seus cães no trabalho. Num processo de seleção determinado pelas necessidades foram chegando a animais com comportamento e fenotipo cada vez mais eficientes para as atividades pastoreiras.

No final do século XIX, há mais de 110 anos, amigos passarinheiros,existiam 3 tipos bem definidos de cães pastores na região da Alemanha. Todos muito inteligentes, atentos, rústicos e excelentes andadores. Além da excelência para o trabalho, os tipos eram adaptados para as condições climáticas e geográficas das regiões em que viviam. Os cães das regiões mais planas do norte eram menores, mais ágeis e trotadores de excelentes passadas, qualidades muito propícias para acompanharem a movimentação mais rápida e com coberturas de distâncias maiores dos rebanhos de ovelhas. No sul, região do Württenberg, terras acidentadas determinadas pelo derramamento dos Alpes, os cães pastores eram mais compactos, pesadões e com grande vigor físico, aptos a acompanharem os rebanhos colinas acima ou abaixo na busca das forrageiras. No centro da Alemanha, na Francônia, um dos cinco ducados medievais, nas terras da atual Baviera e com centro vital na cidade de Würzburg, a combinação das duas geografias anteriores, os cães, peludos, eram uma mescla dos outros dois tipos.



Notaram o detalhe do gerenciamento da genética para produzir os tipos de animais fenotipicamente adaptados às condições ambientais onde exerceriam as suas atividades? Os mais argutos já devem estar pensando nos fenótipos diferentes dos curiós, dos bicudos, dos trincas, dos coleiras e, principalmente dos canários-da-terra, conforme as regiões ocupadas por eles nesse nosso enorme país varonil. É por aí mesmo.

Nesse cenário surgiu o capitão de cavalaria alemão von Stephanitz com idéia de colocar os cães pastores da Alemanha dentro de um só padrão. Com o tempo mais disponível por estar nos seus últimos anos de caserna, a determinação e a disciplina próprias dos militares e, não poderia deixar de ser, o amor pelo trabalho executado pelos cães, Stephanitz percorria, com vários amigos, as diversas regiões pastoreiras. Aumentava os seus conhecimentos sobre os tipos de cães mais usados. Sabia da existência de cães resultantes dos cruzamentos dos três tipos predominantes e, olhos atentos, procurava um cão base para o início do seu sonho. Interessante. Diferentemente dos amantes e estudiosos dos cães que buscavam o resgate de algumas raças em vias de desaparecimento, como o mastino napolitano, procurando raros exemplares característicos das mesmas, Stephanitz, pelo contrário, buscava um ou vários exemplares representativos da média de 3 tipos de cães existentes em números apreciáveis. Não buscava resgatar uma raça já bem definida e sim o somatório positivo de raças existentes.



Notem que, como todo grande projeto, tudo nasce da cabeça de pessoas de início tidas como sonhadoras e, porque não dizer, consideradas meio lelés da cuca.

Pensando bem, o projeto de Stephanitz partia de uma situação bastante parecida com a vivida pelos criadores dos pássaros nativos: qualificar, pela seleção, espécie de animal já existente e tendo as qualidades procuradas.

Como muitas das grandes descobertas da humanidade, o encontro do que procurava Stephanitz foi ao acaso e fortuito. No 3 de abril de 1899, Stephanitz assistia a uma exposição de todas as raças em Karlsruhe, cidade que hoje é uma das principais sedes das Siegers (exposição anual e final alemã onde são julgados e conferidos títulos aos cães pastores alemães, machos e fêmeas, cujas qualidades fenotípicas, genotípicas e de progênie serão de grande valia no desenvolvimento da criação pastoreira mundial. Esses cães são vistos, julgados, selecionados, avaliados, assim com as suas progênies, durante todo o ano nas exposições municipais e estaduais, chegando a Sieger os mais aptos e interessantes para a criação, tanto machos como fêmeas), inclusive da Sieger do centenário da SV(a sociedade pastoreira alemã). Com ele estava um dos amigos prediletos, Arthur Mayer, participante dos sonhos do capitão de cavalaria e outro observador perspicaz de cães do qual a história pastoreira pouco fala.

Um olho na pista e o outro no que acontecia nos arredores, aliás, nos arredores muitas vezes ocorre o mais importante, viram, próximo ao seu dono, um cão amarelo e cinza, não muito grande e parecido com um lobo. Estava ali de alegre, sendo um cão de trabalho e não de show. Antenas ligadas, aproximaram-se, puxaram conversa com o dono do animal e, pedindo para o animal dar uma andadinha, notaram que, mesmo sendo muito forte, possuía movimentação ágil e grande firmeza de ligamentos. Eureka, devem ter pensado os dois amigos. Putz, diriam hoje os mais jovens, como a netona filósofa. Sabem aquela vontade de adquirir um animal buscado há muito tempo? Uma verdadeira sangria desatada, como dizia a minha avó?

Os amigos Taddei, Lisandro, Ivan e Diego devem estar pensando: Por isso o JC vive dizendo que, nem sempre, o melhor dos torneios está nas estacas e sim nos arredores ou mesmo longe delas. Muitas vezes aquele passarinho que você necessita para a evolução do seu plantel está na casa de um conhecido, de um parente, naqueles rolinhos, naquelas badernas de finais de semana, pendurado nas árvores existentes no recinto dos torneios, na parede ou num gancho improvisado no bar ou na gaiola portada por uma pessoa que está ali de alegre. Enfim, onde menos se espera. E é aí que entra o tino e o conhecimento do criador de verdade. Uma vez estava com um amigo criador de pastores e, ao passarmos por uma determinada rua, mandou parar o carro, desceu correndo, conversou com uma senhora que estava passeando com uma cadela pastora e voltou, todo contente, dizendo que a cadela era ótima, tinha pedigree e voltaria para olhar o documento. Daí a alguns meses estava com uma bela ninhada dessa cadela com um macho escolhido a dedo. Portanto, se quiser ser um bom criador, mantenha um olho no gato e o outro na sardinha.

Com muita conversa (alemão também é bom de papo) os dois amigos convenceram o proprietário a vender o animal. Enfim, igualzinho um rolinho envolvendo passarinheiros. Interessante que, estando numa exposição, o proprietário sempre deixou claro que o cão era essencialmente de trabalho pastoril e não de exibição. Mal sabia que Stephanitz e Mayer tinham como base dos seus projetos os animais de trabalho. Volto a afirmar o conceito geral de trabalho. O pastor originariamente é um cão de pastoreio. Por sua inteligência e facilidade de treinamento tornou-se um animal versátil com múltiplos usos, um deles como cão de proteção. Portanto, como os trabalhadores nas indústrias mais modernas, o pastor alemão é um cão multiprofissional. Modernoso como diria a minha neta. Creio que, se assim fosse entendido, muitas brigas seriam evitadas entre os advogados da estrutura e do trabalho.

Esse animal base chamava-se Hektor Linksheim, foi pago por Stephanitz e assumiu o nome do seu canil passando a chamar-se Horand v. Grafrath.

Com Horand v. Grafrath foi iniciado o tronco base de onde originam-se todos os cães pastores alemães da atualidade.

Logo depois que adquiriu Horand, von Stephanitz apresentou o primeiro padrão da raça que imaginava e iniciou contatos para criar uma entidade que coordenasse a criação e seleção dos animais tendo como base o padrão estabelecido. Amigos, o primeiro padrão, elaborado pelo próprio Stephanitz e o inseparável A. Mayer, surgiu em 1899, envolvendo aspectos físicos e psíquicos adequados, e, até hoje, sofreu pequenas modificações, sendo as últimas em 1976. Padrão, padrão, padrão...sem isso qualquer seleção torna-se impossível.



Portanto, amigos passarinheiros, sem padrão nada feito. Sem uma entidade que controle a criação objetivando coordenar tanto a burocracia como a parte técnica para aproximar a criação do padrão também nada feito. É ficar no chove e não molha, escorregar na maionese, ficar olhando as estrelas, triscar, patinar e não sair do lugar.

A criação do cão pastor alemão, seguindo os preceitos de Stephanitz, considerado o pai da raça, e partindo de Horand, foi tomada de gosto por um número cada vez maior de criadores. Cães foram se destacando individualmente, as exposições foram sendo sedimentadas, partindo das municipais, passando pelas estaduais para chegar à exposição anual, a Sieger, as linhas de sangue foram surgindo mostrando virtudes e defeitos dos seus encadeamentos genéticos. Lá pela década dos anos 60, do século XX, surgiram as quatro linhas de sangue principais que marcaram a criação dos cães pastores de estrutura: Quanto Wienerau, Canto Wienerau, Mutz Pelztierfarm e Marko Cellerland, cada uma delas com características próprias preponderantes.


Observarão durante essa história que as exposições dos pastores alemães na Alemanha visam essencialmente a melhoria da criação. O cão individualmente a serviço da criação e nunca o contrário. Não são exposições somente para o expositor ganhar troféu premiador das qualidades do seu animal. Se o cão não tiver progênie de valor, adeus viola. Habituado a isso, quando vejo um bom pássaro num torneio sempre penso: -Passará as qualidades à sua prole ou ficará por aí somente ganhando troféus? E sempre pergunto, quem criou o pássaro e não quem é o expositor; se o expositor for o próprio criador, melhor ainda.

Em 1968, coerente com o grande desenvolvimento da raça na Europa e a necessidade de manter as condições necessárias para a manutenção do padrão da raça estabelecido e atualizado desde Stephanitz, foi criada a União Européia de Clubes dos Cães Pastores Alemães, a EUSV. A grande expansão da criação pastoreira nos outros continentes exigiu a criação de uma entidade de união mundial, a WUSV (Welt Union der Verein für Deutsche Schäferhunde), em 9 de setembro de 1974. Entidades fortes e representativas.

Nesse contexto histórico devemos situar a evolução da criação pastoreira desde Quanto-Canto-Mutz-Marko até Uran-Quando-Fedor e Cello.

Na evolução nas linhas de sangue eu citava, em boletim do núcleo pastoreiro de Cruzeiro, quatro animais dentre inúmeros outros: Valet Busecker Schloss, Wilma Kisselchlucht, Sara Sonnenberg e Jalk Fohlenbrunnen.

Vamos nos ater principalmente às duas fêmeas, pois, são as fêmeas os alvos principais do nosso boletim.

Wilma Kisselschlucht. Coloco essa magnífica cadela no mesmo patamar de Palme Wildsteiger Land na evolução da criação pastoreira. Wilma, selecionada 2, talvez por ter jarrete de vaca, era bem construída quando vista parada, forte, com muito boas angulações dianteiras e traseiras, muito boas proporções de peito, frente correta, seca, com boas passadas e forte impulsão. Observarão que, sendo o padrão um ideal, sempre um animal apresentará defeitos em relação a ele, cabendo ao criador saber diminuir a importância desses defeitos na genética do seu plantel e aproveitar as qualidades apresentados pelo animal. Portanto, procurar um pássaro ideal, sem defeitos, é panacéia e sonho de uma noite de verão. Felizmente, esses sonhos vivem povoando a mente dos criadores e, isso, é o bom da coisa e o tempero para sempre continuar a sua busca. O bom temperamento de Wilma era qualificado por três trisavôs: Bodo Lierberg, Jalk Fohlenbrunnen e Valet Busecker Schloss, cães historicamente muito valentes e determinados. Apesar de fortemente influenciada pela linha B Lierberg, pois seu pai, o VA Bredo Lichtburghof, filho de um cão que foi exportado para a Inglaterra, Joll Bemholt, era neto paterno de Bodo Lierberg, e por Valet, através da sua mãe, Ossi Kisselschlucht, o seu fenótipo era mais próximo daquele da linha Jalk, seu bisavô materno. Muitas das qualidades ou defeitos do seu pássaro deverão ser buscados também mais além do que somente os seus pais. E foi o caminho seguido pelos criadores sob a orientação técnica da SV, evitando o uso de Wilma com descendentes da ninhada B Lierberg e devendo ser explorada a linha Jalk. É amigo, nada acontece por acaso...

Hoje sabemos que o cruzamento entre as linhas Quanto e Canto, principalmente fêmeas Canto com machos Quanto, sempre deu samba. Mamão com açúcar, como diriam os meus netos. Mas, até ser alcançado esse estágio, outros caminhos foram seguidos.



Wilma foi coberta por Canto Wienerau, seguindo a orientação de usá-la com animais que tivessem Jalk na sua ascendência, apesar de ambos terem deficiências nos posteriores, dando origem a ninhada F Konigsbruch, nascida em 29/12/1971, constituída por três machos (Falk, Fant e Faruk) e três fêmeas (Fahra, Fanta e a SchH 1 e V Flora) e forte consangüinidade em Jalk 3-4 e Vello Sieben-Faulen 4-5,5. Alguns anos após, as consangüinidades em Wilma e Flora predominaram na criação pastoreira mostrando a força dessas duas extraordinárias matrizes.

Uma digressãozinha que não fará mal a ninguém. Um dos cargos mais importantes do pastoreirismo é o de diretor de criação. Todas as entidades pastoreiras têm os seus diretores de criação e ele faz parte da comissão de criação. São esses elementos que orientam os criadores, seguindo as normas ditadas pela sociedade mundial e pelo padrão racial, para que os cruzamentos sigam as diretrizes traçadas para a evolução da raça. E ainda verificam as ninhadas e emitem os pareceres para registrá-la ou não ou somente alguns dos seus componentes. Como tudo na vida, há os países que seguem esses princípios rigidamente, conseguindo excelentes resultados, e outros que não. Do meu sonho passarinheiro faz parte o diretor de criação e a comissão de criação.

Sara Sonnenberg. Essa extraordinária matriz nasceu em 31/07/1970. Era uma cadela grande, de boa estrutura, angulações dianteiras chamativas pela qualidade, movimentava-se muito bem, bom temperamento e espírito de luta normal. Tinha uma fechadíssima consangüinidade 2-2 (autorizada) em Dago Schloss Dahlhausen. Dago, como foi mostrado em destaque no boletim anterior, era um animal belíssimo e andava pra dedéu, tinha bom temperamento; como defeitos principais tinha maxilares fracos e não transmitia o bom temperamento, sendo os seus filhos geralmente tímidos e fracos de temperamento. Tive a oportunidade de conviver com descendentes de Dago durante anos: eram lindos, andavam muito bem, mas tinham uma timidez que somente ia desaparecendo com o tempo se fossem bem manejados e, alguns animais, eram bastante medrosos. A verdade é que o nosso grupo na época, pouco conhecendo de genética, usava com o padreador descendente de Dago cadelas muitas vezes também fracas de temperamento. Claro, a maionese desandava. Os alemães eram muito mais espertos e conheciam o terreno que pisavam. Procuravam tirar o máximo de Dago, corrigindo o temperamento com cadelas adequadas. Vemos isso claramente no CRO de Sara, no qual a sua mãe, Dolly Sonnenberg, era filha de Sara Rat, uma cadela fortemente influenciada pelo pai, Edo Busecker Schloss, um dos melhores filhos de Valet Busecker Schloss; a mãe de Edo também era uma cadela Busecker Schloss, a SchH3 Zita. E Busecker Schloss, amigos, é sinônimo de excelência em temperamento. Notaram o detalhe? Por trás de um cão com temperamento questionável sempre estavam parceiras com temperamento adequado e genética para tal. Muitas vezes deparamos com um pássaro de ótimas qualidades de canto, mas tímidos nos torneios; para o aproveitamento genético do canto o aconselhável seria usar fêmeas capazes de corrigir a timidez, ou, pelo menos melhorá-la, e de linhas de bons cantores.

Para não mexer na continuidade, vou dar somente uma palinha sobre os dois machos.



Valet encontra-se em vários CROs importantíssimos para a evolução da criação pastoreira: era bisavô da extraordinária Wilma Kisselschlucht, portanto trisavô de Xaver Arminius por parte de mãe, era trisavô de outra extraordinária cadela, Sara Sonnenberg, mãe de Lasso Val Sole (o pai foi a legenda Quanto Wienerau), trisavô de Ex Schlumborn, um dos melhores filhos de Lasso Val Sole, e bisavô de Herzog Adeloga, filho de Dick Adeloga e pai de animais excelentes como a ótima Anja Reststrauch (mãe da extraordinária Fee Weihertuerchen, mãe de Fedor Arminius). Foi sinônimo de estrutura e equilíbrio de temperamento, sempre lembrando que Valet era trisavô da lenda no trabalho Ari Neffeltal. Lasso Val Sole cruzado com Wilma Kisselschlucht gerou Xaver Arminius, pai de Quando Arminius, o cão que mais influencia a criação pastoreira mundial na atualidade. Por trás de um grande cão existe sempre uma grande cadela. E vão percebendo, caros passarinheiros, que as grandes cadelas somente eram cobertas por machos excepcionais, mesmo que para isso fossem necessários consórcios, aluguéis ou empréstimos das mesmas. E tudo administrado por uma entidade nacional que realmente tem o controle da criação nas mãos. Se você tem uma fêmea de ótimas qualidades, capaz de transmitir qualidades às suas progênies, faça tudo para que ela seja galada por machos excepcionais ou, quando for impossível, pelo melhores machos possíveis. Enquanto os criadouros ficarem restritos aos cruzamentos entre as suas próprias fêmeas com os seus próprios machos, a criação não evoluirá como um todo, sendo os sucessos fugazes e inconsistentes. Muitas vezes a grande fêmea para o seu macho não está nas suas prateleiras e sim nas do vizinho ou algum amigo.

A importância de Jalk é incontestável, bastando dizer que: 1- Foi o pai da ninhada L Wienerau, base das linhas Canto e Quanto Wienerau e 2- Das linhas modernas do pastoreirismo, somente a linha Mutz, a maioria dos cães da ex-Alemanha Oriental (DDR) e as linhas vindas da ninhada B Lierberg (Bernd e Bodo) não foram influenciados por ele.

Vejam no parágrafo sobre Valet o surgimento de duas outras ótimas cadelas que influenciaram grandemente a evolução do pastor alemão: Anja Reststrauch e Fee Weihertuerchen.

Anja, um excelente tipo de cadela, tipão de matriz como a sua mãe era digna representante das magníficas matrizes Reststrauch. Tenho por norma valorizar o trabalho dos grandes criadores, pois, sem eles, com a sua visão de criação, persistência e, sobretudo, disciplina para seguir as normas estabelecidas, a criação pastoreira jamais teria evoluído tanto. E dentre esses criadores não poderia deixar de citar Günter Köllges que, em Mönchengladbach, criou excelentes animais. Anja nasceu em 17/03/1976, pequena ninhada com um só irmão, o também muito bom Atlas. Trazia a preciosidade do cruzamento de macho tipicamente Quanto com uma fêmea típica da linha Canto fortemente influenciada pelo magnífico Jago Baiertalerstrasse. Anja Reststrauch foi coberta pelo mais bonito animal da essencial ninhada X Arminius, Xando Arminius, animal de excelente tipo que, talvez por ser superangulado atrás e excessiva altura, foi vendido para a África do Sul; do cruzamento nasceu, em 1979, Fee Weihertuerchen, cadela consangüínea Quanto Wienerau 3-4, Vale Busecker Schloss 5-5,5 e ninhada L Wienerau, Lido-Liane 5-5. Fee era fortemente influenciada pela proximidade da consangüinidade em Quanto, mas mantinha as excelentes qualidades das matrizes Canto; Fee foi mãe de uma das lendas do pastoreirismo e cabeça da linha sangüínea Canto Wienerau no pastoreirismo moderno, Fedor Arminius.

Outras cadelas excepcionais para a criação foram Olga e Oti Trienzbachtal. Eram filhas de Ali Katzenbuckel, filho de Quanto Wienerau com uma cadela de linha mais antiga, Dora Kislauer Schlösle. Esse cão agradava muito o experiente dono do canil Trienzbachtal que o usou várias vezes e obteve duas belas ninhadas dele com Freya Gretengrund. Na ninhada O, nascida em 26/10/73, destacaram-se as cadelas Otti e Olga Trienzbachtal. Otti, V16, coxofemorais normais, SchH3, era uma cadela mediana, forte, seca, harmoniosamente construída, boa cernelha, boa linha superior, garupa curta e caída, boas angulações e proporções de peito, frente correta e acentuado espírito de luta. Olga, V32, SchH3, era grandona, forte, garupa curta, boas angulações, frente correta, não possuía cotovelos perfeitos, boas passadas com forte impulsão e marcado espírito de luta. Ai vai uma lição de bom criador: Otti e Olga tinham deficiências evidentes de garupa, mas tiveram valorizadas as suas qualidades para a criação, o que, não teria acontecido com criadores inexperientes numa criação ainda fetal como a nossa. Olga é mãe de Pirol Arminius (com Cliff Haus Beck), avô da lenda Uran Wildsteiger Land, mostrando o seu reconhecimento como matriz por outro ótimo criador, Hermann Martin, titular do Arminius.

Há canis de pastores cujas fêmeas fizeram e fazem história na criação. As fêmeas do canil Asterplatz eram muito consideradas pelos irmãos Martin, especialmente Hermann, e Ernst Beck (Hermann foi titular do canil Arminius e presidente da SV e Beck é titular do canil Haus beck e foi diretor de criação da SV por longos anos); Frigga Asterplatz, por exemplo, era mãe de Yoga Wienerau, mãe de Quanto Wienerau. Oase era filha de Nico Haus Beck (Veus Starrenburg-Alf Nordfelsen), expoente entre os cães de trabalho e garantia, além da qualidade fenotípica, de excelência temperamental e da excelente SchH1 Gitta Asterplatz, filha de Jalk Fohlenbrunnen e Dixie Wienerau (pai e mãe de Liane, mãe de Canto, e de Lido Wienerau, pai de Yoga, mãe de Quanto). Portanto, o Asterplatz, através das suas fêmeas, teve papel preponderante no surgimento desses dois excepcionais raçadores e iniciadores de duas linhas de sangue básicas para toda a criação pastoreira em todos os tempos: Canto Wienerau e Quanto Wienerau. Notem como a criação pastoreira no período evoluiu principalmente em torno dos canis Wienerau, Haus Beck e Arminius, com pitadas de outros canis como o Asterplatz, que criavam usando, na maioria das vezes, animais das três grifes principais (Canto, Quanto e Mutz). Esse talvez tenha sido o principal fator da uniformidade de tipo observada nos pastores alemães de estrutura criados atualmente. Como presidente e diretor de criação da SV, Hermann e Beck, respectivamente, tinham enorme influência na criação alemã. No nosso país continental, envolvendo várias espécies de pássaros, e sem uma entidade nacional reconhecida como única por todos, será impossível, ou pelo menos muito difícil, termos um controle tão centralizado.

Em 1973, nasceu no canil Weidtweg o cão Kuno Weidtweg, filho de Jonny Rheinhalle (filho de Mutz Pelztierfarm) e Ina Klämmle (o Klämmle é outro canil grande produtor de fêmeas de qualidade); embora não fosse nenhuma Brastemp, inclusive indo pouco às exposições, Kuno era visto por Walter Martin como um animal que encaixava nos seus planos. Outro ensinamento importante e que vale a pena ser repetido: nem sempre o pássaro necessário para a melhoria do plantel de determinado criadouro está nas luzes dos torneios, cabendo ao criador ter a sensibilidade e o conhecimento para achá-lo em outros lugares menos badalados do que as estacas. Walter levou para ser coberta por ele a excepcional matriz Flora Königsbruch, filha de Canto Wienerau com a extraordinária Wilma Kisselschlucht. Creio que a idéia era abrir mais um caminho para a grife Wienerau jogando Mutz sobre Canto. Notar que, após os grandes sucessos de Canto e Quanto, o canil Wienerau, apesar de continuar produzindo muita qualidade, já tinha ombreando com ele no período que estudamos o Haus Beck e, principalmente, o Arminius. E Walter não tinha temperamento de coadjuvante e procurava caminhos para voltar ao topo. Em 28/05/76, nasceu na bela propriedade rural de Viernheim, a ninhada N Wienerau que teve como destaque Nick Wienerau. Nick era um belo animal, forte, substancioso e muito corajoso, indicado para fêmeas das linhas Quanto e Mutz; e toda a ninhada, de seis animais, era de qualidade, mostrando a sua força genética. Aí outro detalhe importante, geralmente o bom animal (no nosso caso o pássaro nativo) faz parte de uma ninhada de qualidade média muito boa, demonstrando que não é fruto do acaso, mas da procura do criador usando os seus conhecimentos de genética. Se for um pássaro muito bom, mas o único bom da ninhada, sem irmãos de qualidade de outra ninhada dos mesmos pais ou sem outros parentes colaterais de qualidade, provavelmente seja fruto do acaso e dificilmente terá condições de passar as suas qualidades para a progênie e, mesmo que o faça, não haverá a mesma segurança do que quando se parte de cruzamentos dentro de um planejamento genético adequado. São esses pássaros, e você já deve saber de algum, que desaparece após os seus brilhos nas estacas, sem progênie para confirmar as suas qualidades e manter o seu nome.

Outra cadela básica para a evolução pastoreira foi Fina Badsee, filha de Veit Haus Köder, da linha Canto Wienerau, e Wala Sturmwolke; era uma cadela mediana, muito compacta e meio pesadona, muito bem construída, antebraços muito bem colocados e de ótimos comprimentos ósseos, ombros de ótimo comprimento, boa cernelha, muito boa linha superior, ótima garupa, movimentava-se muito bem e com grande disposição e tinha ótimo espírito de luta. Enfim, uma cadelaça que só poderia dar no que deu, como diria a minha avó. Fina, criada em Bad-Boll por Karl Straub, era propriedade de Peter Ricker, titular do canil Bad-Boll e que deve ter acompanhado a cadela desde filhote, e de Martin Göbl, titular do Wildsteiger Land. Amigo passarinheiro, tudo na vida tem o seu tempo: os pais de Fina, se vivessem nos dias de atuais, jamais seriam cruzados porque possuíam displasia coxofemoral, uma das doenças mais controladas entre os pastores, mas, à época em que viveram, não se poderia deixar de lado os cães com as suas qualidades. Como a criação de pássaros nativos ainda não atingiu o nível da criação de cães pastores alemães, não podemos nos dar ao luxo de desprezar na criação um pássaro de excelentes qualidades para a criação, mas portador de alguma deficiência que poderá ser sanada pelos cruzamentos adequados ou mesmo ser somente fenotípica e não passível de ser transmitida geneticamente. Fina tinha coxofemorais normais. Claro que o titular do Badsee, quando cruzou os pais de Fina, pensava em Asslan Klämmle, pois Klämmle era sinal de bons animais da linha Canto Wienerau, sendo famosas as fêmeas por ele geradas como a própria mãe de Asslan, Zilly Klämmle. Embora não seja a minha praia, observo que há criadouros de curiós, talvez de bicudos, já podendo ser conhecidos pela excelência das fêmeas que geram; se a criação fosse bem sistematizada e controlada, esse trabalho seria muito mais valorizado e visto como um fator importante na evolução da criação como um todo. É risível a diferença de preços entre machos e fêmeas dos pássaros nativos. E mesmo com preços bem abaixo dos machos, os filhotes fêmeas têm um mercado muito limitado e ficam ocupando espaço nos criadouros por longos tempos. Típico de uma criação ainda não sedimentada, que não valoriza o potencial genético ou não sabe a importância das fêmeas para a criação. O contrário acontece com as criações de animais já sedimentada e bem controlada, como a dos pastores alemães em muitos países, nas quais os preços das fêmeas são geralmente maiores e o criador segura a melhor da ninhada para ele.



Na pequena, fria e distante Wildsteig, na região alpina da fronteira com a Áustria, Martin Göbl, titular do canil Wildsteiger Land, continuava por dentro do que acontecia no centro da Alemanha, onde estava a maior concentração de criadores. Sabia das qualidades de Nick e a sua indicação para cadelas Quanto e Mutz. Tinha um trunfo nas mangas: a já muito conhecida matriz Fina Badsee, adquirida em boa hora em sociedade com Peter Rieker, titular do canil Bad-Boll, de Karl Straub, titular do Badsee, situado na própria Bad-Boll. Outro ensinamento: mantenha sempre vigilância sobre os criadores situados na sua cidade ou nas cidades próximas dela;visite-os, pergunte, pesquise e encontrará, muitas vezes, o pássaro adequado para a sua criação. Fina tinha linha materna Quanto pelo seu avô Gundo Klosterbogen, mas era uma cadela típica da linha Canto influenciada por seu avô Asslan Klämmle, grife que, como já foi visto, era pródiga nesta linha. Göbl não pensou duas vezes, levou Fina para ser coberta por Nick ignorando, com toda a certeza, que iria revolucionar a criação pastoreira moderna. A ninhada Nick e Fina, nascida em 06/02/79, era composta por seis animais, três fêmeas (Palme, Perle e Petra) e três machos (Panter, Pax e Pitt). Os machos tiveram pouca expressão, mas as fêmeas eram de primeiríssima qualidade, confirmando a predominância do genoma Canto. Perle era uma cadela linda, VA 81 e 82 e foi vendida para o Paquistão. Petra também era muito bonita e foi selecionada excelente. Mas Göbl segurou em Wildsteig a que poderia ser o patinho feio, Palme Wildsteiger Land. E não posso deixar de fazer comentário. Nem sempre o melhor animal da ninhada para a criação é o de maior sucesso nas exposições. Göbl segurou Palme porque ela era parecida com Fina, portanto, com alguma segurança possuía grande parte dos genes constituintes do genoma Canto. E Canto era sinônimo de boas matrizes. E boas matrizes são a base para a sedimentação e qualidade de qualquer criação. O experiente Göbl trocou os momentos gloriosos e fugazes de puxar a guia de uma VA nas Siegers pela glória eterna, dentro do pastoreirismo, de criar o animal considerado por muitos o mais importante para o que é hoje o pastor alemão de estrutura. Se você quer criar bem, reveja os seus conceitos, pois, muitas vezes, o que procura não está nas exposições; está entre os cães que vendeu, deu ou no ostracismo das instalações de alguns canis.
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