Boletim do criadouro caviúnas nº 20 março de 2006



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Afinal, devem estar perguntando para os seus botões, geneticamente o que é uma boa matriz? Resumidamente seria a fêmea capaz de ser recessiva às qualidades procuradas nos machos usados com ela e, ao mesmo tempo, impor aos genes dos machos as suas qualidades. Claro que nenhum animal é capaz de ter 100% essas qualidades, mas serão melhores os que mais se aproximarem delas. Não é brinquedo não, amigos. Por isso as boas matrizes são disputadas a tapas e muito dinheiro. E isso é válido para os criadores de pássaros nativos sem tirar e nem por nada. Sabe aquele bicudo, ou curió, ou canário-da-terra ou coleiro que estraçalhou nas estacas dos torneios, mas está longe dos seu bolso ou o proprietário não vende? E não deixar criar com ele para não “estragar? Pois é, tente comprar o irmão ou a irmã dele, pois, a chance deles passarem as qualidades genéticas são quase as mesmas, às vezes até maior, do que a do grande campeão; e isso pode ser conseguido com os curiós e os bicudos, mais dificilmente com os canários-da-terra, coleiras e trincas.

Não posso deixar passar a deixa para contar uma história: sempre achei Walter Martin, titular do canil Wienerau, o criador que, depois de Stephanitz, mais tenha influenciado a criação pastoreira. Assim, eu procurava ler e ouvir tudo o que se escrevia ou falava dele. A um jornalista norte-americano afirmou o que eu ouvi diretamente do próprio Walter, no Rio de Janeiro, na Estrada dos Bandeirantes,quando veio julgar exposição: -Se quer começar a criar bem, procure um bom criador, selecione uma boa ninhada e compre a pior fêmea; a melhor fêmea o canil segura para ele e a pior, bem mais barata em termos de dinheiro, trará quase a mesma genética e, acasalada com ótimos padreadores, dará origem a uma boa base. Falou, disse e eu assino embaixo.
E como era Palme no genótipo e no fenotipo? Palme era grandona, muito típica, fortona, substanciosa, firme, boa linha superior, muito boa garupa, muito bem angulada, frente correta, movimentava-se bem com passadas coordenadas e bom alcance, espírito de luta pronunciado. Enfim, não tinha destaque para exposição, mas era uma cadelaça e com excelente tipo de matriz da linha Canto, inclusive sendo um pouco clara. E todo canil que se preza tem no seu plantel algumas cadelas claras, ossudas e de bom desenvolvimento muscular. Se era tão boa, por que não foi às exposições ?, perguntarão os passarinheiros não acostumados com as lides pastoreiras. Por dois motivos: falta do interesse do criador ou o conjunto não se apresentava bem aos olhos atentos dos juízes. E acho também que o cão de exposição tem que ter o espírito da competição. Muitas vezes um cachorro de qualidade inferior, mas com espírito de competição, se apresenta nas expos bem melhor do que um irmão de melhores qualidades, mas com falta do mesmo espírito. Os criadores de canários-da-terra sabem que muitos canários bons de estacas de fibra somente cantam bem nos torneios, sendo uma negação em casa. E aí outro dado importante do que falta para os passarinheiros: exposições de fêmeas. As qualidades e os defeitos fenotípicos de um macho podem ser avaliados em torneios. Por que não podemos ter torneios de fêmeas para essas avaliações? Creio ser perfeitamente factível e importante. Claro que não vai se avaliar os seus cantos, mas uma análise de outros dados do fenótipo, uma avaliação do seu genótipo através de um documento tipo CRO e dados sobre os temperamentos seriam de grande validade para a criação. Dirão vocês, tentando me colocar de novo numa fria: -Mas, Palme não foi a exposições. Não foi realmente, mas foi avaliada quanto às suas qualidades, tanto por seu dono como por uma comissão de criadores especializados ao submete-la à seleção para a criação. Como seu filho Uran, foi muito longeva e conseguiu a proeza de ter 13 ninhadas. Outro dado importante a ser levado em conta para o criador de pássaros: a fertilidade e a longevidade procriatória, tanto da fêmea como do macho, permitindo uma melhor avaliação das suas qualidades com diversos parceiros. No CRO Palme vem de pai típico da linha Mutz (Kuno Weitweg-Jonny) influenciado pela linha Canto (Flora-Canto) sobre mãe da linha Canto (Veit-Asslan-Canto) e, também, era influenciada pela linha Quanto (Gundo-Quanto). Portanto, Mutz sobre Canto, um cruzamento comum na época, embora não tão clássico como Quanto sobre Canto, e secundariamente Canto sobre Quanto, numa interessante interação genética. É notável na ascendência de Palme a presença de cadelas de ótimos fenótipos e excelentes matrizes como Ina Klämmle, Flora Königsbruch, Wilma Kisselschlucht e Wala Sturmwolke. Em 5 gerações Palme possuía as seguintes consangüinidades: Liane Wienerau 4-5, Canto Wienerau 3-4, Hein Königsbruch 4-5, Jalk Fohlenbrunnen 5-5 e Fix Sieben-Faulen 4,5-5. Todas consangüinidades de qualidade e somatórias. E, como é comum nos pastores, todas observando o linebreeding. Observem, amigos passarinheiros, as jogadas para a programação de cruzamentos tendo em mãos a avaliação fenotípica do animal feita durante a seleção para a criação e durante as expos e as possibilidades genotípicas mostradas por uma leitura atenciosa e com conhecimento do CRO. Ver um CRO é uma coisa, agora, entender o que ele está mostrando da genética dos seus componentes o furo é bem mais embaixo. Como diz, com muita propriedade o Taddei, “não adianta dizer quem foram os ascendentes de determinado pássaro, mas, sim, o que eles foram”. Ainda estamos engatinhando na elaboração de um CRO dos pássaros nativos nascido nos criadouros, mas, sem ele, nada feito quanto a uma criação organizada e com sedimentação genética, pois, seria caminhar no escuro e sem rotas ou metas estabelecidas.

O criador nem sempre deve se guiar somente pelo fenótipo, a parte visível do pássaro, desde os seus dados anatômicos até o seu o canto, pois, algumas vezes, o mandatório é o genótipo, a carga genética do pássaro. Num “grego” de genética conhecida pode estar o segredo de uma prole de bons cantores.

Hermann Martin, titular do canil Arminius, um dos maiores em toda a história pastoreira, cruzou o cão Cliff Haus Beck (filho de Quanto Wienerau com Oase Asterplatz) com Olga Trienzbachtal. Cliff e Olga tinham deficiências de garupa, Olga tinha garupa curta e Cliff garupa caída, Olga tinha deficiências de cotovelos e Cliff de metacarpos, mas mesmo assim foram cruzados procurando-se resultados que estavam provavelmente nos seus genótipos configurados nos CROs. E Beck foi, durante anos, o diretor de criação da SV, portanto, mais do que ninguém, sabia interpretar um CRO. De Cliff x Olga nasceu a ninhada P Arminius com destaque para Pirol Arminius. Depois, Hermann cruzou Pirol com Dunja Weilachtal, ótima cadelona filha de outra ótima matriz, Rita Kopenkamp, filha de outra excelente, Cora Kopenkamp. De Pirol x Dunja nasceu, em 09/05/78, a ninhada I Arminius com destaque para Irk Arminius. Observem que o objetivo perseguido nem sempre é conseguido no primeiro cruzamento, e o criador experimentado sabe muito bem conseguir os seus objetivos seguindo trilhas com paciência e conhecimento.

Claro que Göbl Martin, na sua Wildsteig, continuava plugado no que acontecia na criação pastoreira, principalmente no eixo formado por Wienerau-Haus Beck-Arminius e, procurando um macho fortemente influenciado por Quanto para cobrir Palme Wildsteiger Land, fortemente influenciada pela linha Canto, optou por Irk que tinha consangüinidade Quanto 2-3. Aqui dois dados importantes para criador de qualquer coisa viva: 1- Como já dissemos, a linha Quanto sempre deu bons resultados com a linha Canto, principalmente Quanto na linha alta e Canto na baixa. Foi o cruzamento de linhas mais prolífero de toda a história pastoreira. Portanto, Göbl, criador um pouco conservador, procurava o óbvio. Já pensaram se soubéssemos, com boa dose de certeza de bons resultados, que a linha do curió X, perfeitamente caracterizada por um padrão, daria boa amálgama com a linha da curiola Y? Covardia, né? e 2- No pastoreirismo é proibido, a não ser em casos especialíssimos e autorizados, e durante décadas de militância não soube de nenhum, o cruzamento de pais ou mães com filhos, irmãos com irmãos ou meio irmãos com meio irmãos. Portanto, inbreeding fora de cogitações, sendo usados somente linebreedings a partir de 2-3 ou 3-2. Anda voltarei em outro boletim a essa história de line e inbreeding.

Assim, em 12/03/81, Wildsteig viu nascer a histórica ninhada U Wildsteiger Land, composta por oito animais, sendo quatro machos (Uran, Ulan, Ully e Utz) e quatro fêmeas (Ulla, Ulme, Ursula e Ute). Consangüinidade Quanto Wienerau 4,5-5 e Gitta Asterplatz-Liane Wienerau 5-5. Ulla foi selecionada como excelente e era SchH3, Ute foi excelente e SchH2, de Ursula pouco ou nada se sabe. Ulme foi a fêmea de maior destaque nas pistas, SchH3, foi VA 8 em 1984 e Vice-Siegerin em 85 em Mannheim; era uma cadela grande, medianamente forte, seca, substanciosa, boa cernelha, linha dorsal firme com boa garupa, frente correta, boa profundidade de peito, passadas elásticas com boa cobertura de solo e pronunciado espírito de luta. Dos machos, pouco destaque para Ully, SchH1 e selecionado como muito bom e pouco ou nada se sabe sobre Ulan e Utz. O destaque da ninhada foi a lenda Uran Wildsteiger Land. Falar de Uran agora é fácil, mas Hermann jogou as suas fichas no seu potencial e colocou as suas expectativas desde a primeira vez que viu o cão que, alguns anos depois, disse ser o maior potencial individual de raçador em toda a história do pastoreirismo. Vou ser franco: creio que, se pudesse ter visto todo o desenvolvimento da linha Quando Arminius, o que não foi possível em sua totalidade devido a sua morte, Hermann teria colocado Quando no mesmo nível de Uran. Na realidade, tenho a certeza de ser praticamente impossível eleger um pastor alemão como o maior de todos os tempos; cada um foi muito importante na sua época e no período evolutivo da raça: o pai de Horand, Horand, Rolf, Quanto, Canto, Mutz, Palme, Fina, etc. Meu pai apostava, como maior jogador que viu, no Di Stéfano e no Zizinho, aposto no Pelé e no Garrincha e o meu filho vota no Maradona; questão do tempo vivido, sempre lembrando que, como dizia Jorge Luiz Borges, o passado é argila que moldamos de acordo com as nossas conveniências. O CRO de Uran mostra, além do clássico Quanto sobre Canto, com pitada de Mutz e consangüinidades Quanto 4,5-5 e Gitta Asterplatz-Liane Wienerau 5-5, uma plêiade de matrizes consagradas: Palme Wildsteiger Land, Fina Badsee, Olga Trienzbachtal, Flora Königsbruch e Wilma Kisselschlucht, sem dúvida uma das causas da tendência da linha de produzir excelentes fêmeas. Observem, amigos passarinheiros, dois aspectos nesse CRO (pedigree): 1- Duas consangüinidades em linebreeding, sendo uma delas em fêmeas e 2- O forte encadeamento genético determinado por fêmeas exponenciais como qualidade individual, potencial genético e qualidade de matrizes, inclusive capacidade para criar bem os seus filhotes. O must, como diria a netona filósofa.

Uran era elegante, movimentava-se muito bem com leveza e amplas passadas mostrando excelente trem anterior, tanto na angulação escápulo-umeral como no comprimento dos ossos, qualidades que passava com freqüência para os seus descendentes. Uran marcou um tipo homogêneo de pastor com uma pigmentação que passou a criar moda no pastoreirismo. Embora não tivesse um fenotipo tão marcante como o de Quanto Arminius, por exemplo, Uran tinha e transmitia o equilíbrio das proporções, uma elegância sem qualquer tendência para pesadão, a firmeza de ligamentos, uma frente soberba e a alegria de caminhar com passadas rendosas e muito amplas. Mas, como toda a unanimidade é burra como dizia Nelson Rodrigues, Uran tinha detratores que apontavam as deficiências que transmitia para alguns filhos: cabeça pouco masculina, pigmentação tendendo para o claro, combatividade que tinha que ser muito exigida para aparecer e, talvez a maior de todas, foi um dos grandes responsáveis pela uniformidade de tipo e coloração que encontramos atualmente nos cães de estrutura, afastando-se muito da heterogeneidade ainda encontrada nos cães de trabalho e, segundo alguns, afastando-se do padrão que deu origem à raça. Creio que, sem ser o dono da verdade, ao contrário de Quando Arminius que permitiu evolução da linha Quanto Wienerau mantendo as suas principais características, Uran criou algo novo, a chamada linha Urânica, um meio termo entre as linhas Quanto e Canto Wienerau. Futebolisticamente poderíamos afirmar que Quando era o craque que jogava para o grupo e Uran o craque que brilhava por sua individualidade. Quem foi mais importante? Não sei e volto a afirmar: não me metam nessa briga, nem mesmo como expectador ou testemunha... Uran tinha duas características que ajudaram muito o seu sucesso: grande capacidade para o trabalho, mesmo na idade mais avançada, e longevidade com saúde que permitiu participar por 9 anos do grupo de progênie, a última vez em 1992 quando foi ovacionado, pelo público presente no Stadium de Düsseldorf, ao desfilar galhardamente, apesar dos 11 anos de idade, encabeçando grupo de progênie com 17 animais.

Sem dúvida, a grande tacada de Lasso Val Sole, o mais importante filho de Quanto Wienerau, foi o cruzamento com Wilma Kisselschlucht do qual nasceu, em 07/03/77, a legendária ninhada X Arminius, composta por oito animais (três machos, Xaver, Xando e Xero e cinco fêmeas, Xandra, Xita, Xane, Xênia e Xiena). Uma das fêmeas, Xenia, era uma cadela de excelentes qualidades, tanto no fenótipo como no temperamento e foi VA em 1980, em Bremen. Xando, considerado o animal mais bonito da ninhada, V1 em Mannheim, era um cão grande, fortão, seco, com boa garupa, boa cernelha, excelentemente angulado na frente, movimentava-se muito bem e acentuado espírito de luta; superangulado atrás e altura acima do aceitável, foi vendido para a África do Sul deixando na Alemanha uma filha com Anja Reststrauch, Fee Weihertuerchen, mãe de Fedor Arminius, que foi o continuador mais moderno da linha Canto Wienerau. Xandra foi muito usada por consórcio dos canis Reststrauch e Arminius. Mas, sem dúvida, para a criação pastoreira em geral o grande nome da ninhada foi Xaver Arminius. Xaver era um animal mediano, forte, alongado, expressivo, muito bom trem dianteiro, muito angulado atrás, boa garupa com boa linha superior e espírito de luta acentuado, embora alguns criadores, como Walter Martin, o considerassem de temperamento excitável.



Um hiatozinho: O Apolo da ninhada era Xando, mas Hermann Martin foi buscar num outro membro da ninhada, com pouco sucesso nas exposições e fenotipo inferior ao de Xando, o animal ideal para o seu planejamento de criação. Sorte, feeling, conhecimento cinológico e de genética? Creio que um pouco de cada coisa e muito de um planejamento de criação alemão do qual ele foi um dos artífices. Amigos, não reneguem os patinhos feios da ninhada. Se não tiverem faltas desqualificantes, valorizem as suas qualidades e tentem usá-los na criação. Quem sabe se, com parceiras adequadas, não poderão ocasionar surpresas muito agradáveis. A genética, ciência muito mais das probabilidades do que das certezas, poderá esconder no genótipo do patinho feio a beleza ou o canto que o seu irmão bonitão não pode transmitir. Traslado, sem tirar ou por uma vírgula, tudo isso para os criadores de pássaros nativos brasileiros. Sem feeling, sem conhecimento genético e com a cegueira do criadouro (capacidade que alguns criadores têm em não aceitar defeitos nos seus pássaros) ninguém conseguirá criar seletivamente qualquer espécie animal. Podem dar sorte uma ou outra vez, mas, no todo, sairá muita porcaria do seu criadouro.

Claro que, como estudioso e alto dirigente da SV, da qual seria presidente um ano após, Hermann sabia das esperanças de Herr Göbl Martin, em Wildsteig, numa cadela fortemente influenciada por Canto e no seu cruzamento com machos Quanto. E tinha conhecimento da boa ninhada U Wildsteiger Land, nascida em 13/03/81, filha de Palme com Irk Arminius, neto de Cliff Haus Beck (Quanto). Os amigos Göbl, Hermann e Ernst Beck conheciam muito bem Irk e Xaver, pois, eram cães com fortes influencias das suas grifes. Aí mais um ensinamento para nós, criadores de pássaros: comunicação entre os criadores, digo criadores e não amantes dos pássaros, troca de experiências sem esconder nada e consorciamentos ou empréstimos de pássaros entre si são essenciais para o desenvolvimento de um trabalho de seleção. Esconder o jogo não leva a nada.

Com a ninhada U Wildsteiger Land com seis meses, portanto com a possibilidade de ser melhor avaliada por olhos atentos e conhecedores, Hermann trouxe Palme Wildsteiger Land para as dependências do Arminius e, sem espaçamentos entre estros, a usou com Xaver repetindo o clássico linha Quanto sobre Canto (ou Canto sobre Quanto para não dizerem que sou machista...). Outro ensinamento: a humildade em reconhecer e tirar proveito do trabalho de terceiros. Hermann Martin chegou ao cargo de presidente da SV e era dos melhores criadores de pastores do mundo em todos os tempos, mas, reconheceu o trabalho do seu amigo Göbl, do Wildsteiger Land, que gerou Uran e resolveu usar a mesma Palme com outro macho da mesma linha de sangue de Irk Arminius. Pelo sufixo vê-se que tanto Irk como Xaver foram da criação de Hermann. Portanto, Hermann reconheceu que Göbl conseguiu, usando macho da griffe Arminius, dar um passo qualitativo que ele buscava. E reconheceu que grande parte do segredo era Palme, criação de Göbl e filha de cães Wienerau, griffe do seu irmão Walter, e Badsee. Sem essa humildade ninguém criará nada com qualidade. A salientar também a falta de egoísmo de Göbl, pois, tendo Palme, e provavelmente sabendo das intenções de Hermann, poderia tê-la usado com Xaver e faturado os louros de ter produzido os dois cães que mais influenciam o pastoreirismo na atualidade: Uran e Quando; e mais ainda, usando uma cadela de sua própria criação. Glória máxima.

E aí houve a grande tacada, muito provavelmente não por acaso: Xaver era do tipo mais cachorrão do que Irk e esse detalhe, creio eu, sem ser o dono da verdade, iria marcar a criação pastoreira definitivamente com as diferenciações entre a linha Quanto Wienerau, através de Quando Arminius, e a linha Quanto Wienerau através de Uran Wildsteiger Land.

Em 28 de novembro de 1981 nasceu a ninhada de Xaver e Palme, a histórica ninhada Q Arminius. Para muitos foi e ninhada mais importante de toda a história pastoreira mundial. Como ninhada pode ser, mas, individualmente, coloco Quando e Uran no mesmo patamar. Eram sete filhotes, quatro machos (Quando, Queno, Quino e Quindo) e 3 fêmeas (Quana, Quina e Quena). Sem dúvida a estrela da ninhada foi Quando Arminius. Quando ganhou a juniores da Sieger de Frankfurt, em 83, foi V1 em Dortmund em 84, VA5 em 85 em Mannheim e Sieger 86 e 87 em Hamburg e Duisburg. Em Duisburg, Quando Arminius travou um belo duelo com Eiko Kirschental (Uran) numa classe de VAs muito rica que contava ainda com Yambo Wildsteiger Land (Uran), Fedor Arminius e com os seus (de Quando) próprios filhos Iso Bergmannshof e Odin Tannenmeise, além de Cello Romerau como V3. Nem Uran conseguiu o feito de ser Sieger numa classe com dois filhos no grupo de Vas. E outros filhos de Quando brilharam em outras classes, como a Siegerin das fêmeas (a suíça Senta Basilisck), o Jugendbester Enzo Burg Aliso e, de quebra, a VA3 Rica Rader-Kreuz, filha do seu irmão Quino. Quanto era um animal grande, meio forte (particularmente creio ter sido um animal forte), seco, tipo lindíssimo, cernelha muito boa, ótima garupa, otimamente angulado tanto na frente como atrás, com excelentes comprimentos de ossos, profundidade correta de peito, ligamentos firmes, muito boa linha superior, frente correta, movimentava-se com largas passadas fortemente impulsionadas pelos posteriores, acentuado espírito de luta.

Portanto, demos uma passeio condensado pela história do pastor alemão, dando ênfase às fêmeas e com o clímax em Palme Wildsteiger Land, mãe das duas maiores lendas do pastoreirismo mundial atual e com pais diferentes, Uran Wildsteiger Land e Quando Arminius. É mole ou querem mais?

Creio não ter ficado qualquer dúvida sobre a importância vital do plantel de matrizes num criadouro.

Não restando mais dúvidas sobre a importância das fêmeas para qualquer criadouro, vou particularizar mostrando essa importância na criação dos pássaros silvestres:




  1. Alimentação dos filhotes. Na natureza e nas criações monogâmicas (casal junto durante todo o processo de criação) a alimentação dos filhotes é, geralmente, dividida entre o macho e a fêmea. Nas criações poligâmicas, na qual o macho somente adentra a gaiola da fêmea para a galadura, a alimentação dos filhotes fica a cargo somente da fêmea. Como um filhote malnutrido, além de apresentar maiores índices de morbilidade e de mortalidade, jamais desenvolverá todo o seu determinismo genético, a importância da fêmea nutridora ganha proporções essenciais para a qualidade da criação ;

  2. A fêmea é responsável pela metade do patrimônio genético nuclear e por quase todo o patrimônio genético mitocondrial herdados pelos filhotes. Há alguns anos foi mostrado que, ao contrário do que até então se pensava, além do patrimônio genético (genoma) contido no núcleo celular, há uma genoma DNA contido em cada mitocôndria. As mitocôndrias são corpúsculos situados no citoplasma, forma de bastões, medindo entre 0.5 a 1 milimicra de circunferência e 7 milimicra de comprimento, podendo atingir até o número de 2000 em algumas células,como as do fígado, e que suprem as necessidades energéticas das células, pois, por via da fosforilização oxidativa, produz adenosino trifosfato ATP, uma forma estável de estocagem de energia. O patrimônio genético mitocondrial é diferente daquele situado no núcleo e é herdado através do citoplasma dos gametas (óvulos e espermatozóides), principalmente dos óvulos. O genoma mitocondrial consiste de moléculas de dupla hélice circular com cerca de 16 000 pares de bases de DNA. Cada mitocondrion pode albergar várias cópias dessa molécula circular de DNA. Uma célula pode conter diferentes mitocôndrias com diferentes genomas. Importante é que o mitocôndrio é constituído por proteínas codificadas no seu próprio genoma, assim como por proteínas codificadas nos genes contidos no núcleo celular; as proteínas codificadas no genoma mitocondrial parece que são sintetizadas no mitocondrion, enquanto as proteínas codificadas no núcleo são sintetizadas no citoplasma celular e transportadas para o mitocondrion.

Durante a fertilização o espermatozóide não transporta, ou transporta muito poucas mitocôndrias para o oocito. Assim, o ovo fertilizado praticamente somente recebe mitocôndrias do gameta materno. Para alguns autores o espermatozóide não carrega mitocôndrias para o oocito. Assim, os genes mitocondriais vêm quase exclusivamente da mãe (herança materna). Portanto, amigos, pelo menos na extensão do patrimônio genético a importância da fêmea é maior do que a do macho. Muitas doenças hereditárias determinadas por mutações genéticas e algumas das mutações experimentadas pelos pássaros seguem o padrão de herança materna.


  1. Imprinting dos filhotes.

O mais fascinante exemplo das influências genéticas e ambientais no comportamento animal é o imprinting, a marca. O imprinting aparece em filhotes de várias espécies animais, sendo muito desenvolvido em aves. Logo que sai do ovo o filhote liga-se (ligação social) ou segue o primeiro objeto que se move, o qual não necessariamente é a mãe. Os primeiros estudos sobre o imprinting partiu de Konrad Zacharias Lorenz (1903-1989), o perspicaz e genial zoólogo austríaco, considerado o pai da etologia. Como quase sempre acontece nas grandes descobertas, Lorenz partiu de experimentos simples e de uma grande capacidade de observação: notou que filhotes de gansos de dorso cinzento, criados por ele desde a saída dos ovos, relacionavam-se com ele como se fosse um parente. Os filhotes seguiam-no por todos os lados e os adultos cortejavam-no em detrimento de outros gansos. Deu ao fenômeno nome de abbildung (estampa), traduzido para o inglês por imprinting, pois achava que o objeto sensorial, animado ou inanimado, percebido pelo recém-nascido de alguma maneira era imediatamente e irreversivelmente estampado no seu cérebro. O próprio Lorenz descreveu uma qualidade essencial do imprinting: há um período de tempo muito restrito a partir do nascimento para que o imprinting seja efetivo. Lorenz também estabeleceu que há períodos críticos na vida do animal nos quais definidos tipos de estímulos são necessários para o desenvolvimento normal; definiu também que a exposição repetida aos estímulos ambientais, a associação, é necessária, o que, leva-nos a considerar o imprinting como um tipo de aprendizagem, embora com participação inata muito forte. Algumas características do imprinting podem ser explicadas pela necessidade que os filhotes de pássaros têm de procurar e responder, de maneira seletiva, a modelos de estímulos particulares como s silhueta dos pais. Antes de haver o imprinting, o cérebro do filhote é capaz de reconhecer os estímulos que deverão posteriormente ser aprendidos, caracterizando um dos componentes inatos do imprinting; também são inatas as ações motoras que facilitam manter a proximidade do objeto. O aprendizado realiza-se numa base geneticamente determinada e dentro de um período biologicamente adequado. Todo o processo, envolvendo herança genética e meio ambiente resultará na seleção natural, determinando o reconhecimento dos parentes com o propósito final do convívio social e da reprodução.

Aí está a importância da matriz, pilar básico do imprinting por estar ela mais tempo ao lado do filhote durante uma boa parte do período da marcação, principalmente para quem cria em sistema de poligamia. Devemos levar em conta que a poligamia, mesmo com todas as vantagens que possa trazer, é método anti-natural, pois, na Natureza, pai e mãe estão presentes no imprinting da ninhada. Ao adotarmos a poligamia deve-se adotar condutas de manejo para tentar compensar a falta do pai nos primeiros dias de vida dos filhotes. O primeiro passo terá que ser o uso de fêmeas com genética e comportamentos positivos para as qualidades a ser selecionadas.



PS. Esse trecho sobre imprinting foi tirado do boletim que estou fazendo sobre as bases neurológicas do canto os pássaros. Lá o assunto, por sua importância, será mais desenvolvido. Somente quero deixar aqui, para queimar os neurônios dos criadores, e sem procurar tomar posições, uma dúvida: se a mãe é tão importante para o imprinting dos filhotes, o uso de amas, principalmente se forem de espécies diferentes, não estaria imprintando (se me permitem o neologismo) negativamente os filhotes para os objetivos que se busca com a seleção genética e o manejo?


  1. Postura e choco dos ovos, portanto guardiã do desenvolvimento do filhote e do seu patrimônio genético. Por melhor que seja a fêmea, principalmente nos itens fibra e coragem, se ela não tiver capacidade de por ovos e chocá-los adequadamente, de pouca valia terá para o plantel;

  2. Responsável pela transmissão de doenças aos filhotes e aos outros pássaros, tanto pela transmissão vertical como horizontal. A postura e o choco diminuem as resistências orgânicas da fêmea (notem como elas perdem peso nesse período), facilitando o surgimento de doenças e mesmo o afloramento de outras que estavam ocultas e somente esperando a queda da resistência para dar o bote. As infecções, principalmente as do aparelho genital e do trato gastrintestinal, poderão chegar ao óvulo, ao ovo e ao filhote até com certa facilidade. Portanto, somente colocar para criar fêmeas comprovadamente saudáveis. Muitas vezes o criador adquire uma fêmea e, ansioso para conseguir criar com ela, não segue a quarentena e os cuidados necessários e leva infecções sérias para todo o plantel. Lembrar também que as fêmeas ficam mais confinadas, muitas vezes são colocadas em bandos em viveiros ou gaiolões durante a muda, manejos que facilitam a disseminação de doenças se cuidados não forem tomados;

  3. Patrimônio genético fixo no criadouro, permitindo usá-lo com machos adequados, emprestados ou alugados, com grande diminuição dos gastos. Ainda não vi criadouro, de qualquer espécie animal, que fixasse o seu patrimônio genético num grande número de machos. Pode até acontecer num determinado período de tempo, principalmente com os pássaros e no início da formação do plantel, mas nunca como um projeto de criação contínuo ;

  4. Menor gasto na formação do plantel. Creio que nem precisa maiores explicações, bastando cotejar os preços das fêmeas e dos machos no mercado. Graças e isso muitos criadores sobrevivem, criando bem, com uma base econômica menor. Portanto, os preços menores das fêmeas permite ao criador formar um plantel de qualidade e a democratização de todo o processo de criação;

  5. Maior facilidade de manejo. Quem cuida de um criadouro sabe ser muito mais fácil manejar as fêmeas do que os machos.;

  6. Possibilidade de maior variedade genética do plantel. A possibilidade da busca de fêmeas com qualidades genéticas para formar ou enriquecer o plantel em vários criadouros permite ao criador um banco genético impossível, ou muito difícil, inclusive economicamente, de ser conseguido se for procurado entre os machos. Com fêmeas representativas de várias linhas sangüíneas, que tenham e transmitam as qualidades dessas linhas, o uso de poucos machos possibilitará n alternativas genéticas.





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