Brasileiro está mais endividado, aponta estudo de consultoria



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Brasileiro está mais endividado, aponta estudo de consultoria

O nível de endividamento do brasileiro não pára de crescer desde o ano passado, apesar da escalada dos juros. Estudo da MS Consult mostra que, em maio, o saldo das operações de crédito à pessoa física correspondeu a 65% da massa de salários (multiplicada por 12 meses). O índice deu um salto desde julho do ano passado, quando estava em 52%.

O indicador, segundo Jorge Simino, diretor da MS Consult, é uma forma de estimar o nível de endividamento das pessoas, diante da ausência de pesquisas nacionais sobre o tema. Esse percentual vem em ascensão desde 1996, quando o volume de crédito equivalia a 25% da massa salarial. Do início de 2000 a meados de 2001, o indicador saltou de 30% para 50%, oscilando entre 45% e 50% até o final de 2002. De janeiro de 2003 a maio deste ano, o índice cresceu de 45% para 65%.

O indicador é calculado dividindo-se o volume total de operações de crédito para pessoas físicas (dados do Banco Central) pela massa salarial nominal mensal (IBGE) multiplicada por 12 meses. O pressuposto é que, ao tomar crédito, a pessoa conta com a manutenção da renda nominal pelo prazo de um ano. No varejo, o prazo médio dos financiamentos está em 14 meses.

Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, feita pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo, restrita à região metropolitana, mostram que também vem crescendo a parcela da renda comprometida com prestações. Em junho, os endividados tinham 39% da renda comprometida com prestações a pagar.

Em fevereiro do ano passado, quando teve início a pesquisa, esse índice era de 32%. "O dado inclui dívidas com cartão de crédito, cheque especial, empréstimo pessoal --inclusive o crédito consignado-- e prestações em geral", diz Antonio Carlos Borges, diretor-executivo da Fecomercio.

O atual nível de comprometimento de renda com dívidas é considerado alto pelos analistas. "As dívidas feitas para consumo não deveriam ultrapassar 20% da renda. Apenas no caso da compra de imóvel, quando a pessoa está substituindo o aluguel pela prestação, admite-se um comprometimento de 30%", observa o consultor financeiro Mauro Halfeld, professor da Universidade Federal do Paraná.

"Saturação"

Segundo Borges, "o problema maior não é ter dívidas, mas deixar de pagá-las". Segundo a pesquisa da Fecomercio, 52% dos endividados estão com contas em atraso. No início da pesquisa, em fevereiro de 2004, 39% tinham pagamentos atrasados -em janeiro deste ano eram 36%. "Isso indica uma saturação do modelo de expansão da demanda sustentada pelo crédito", afirma Borges.

Para ele, o espaço para a expansão do crédito para a pessoa física --que cresceu 40,4% nos 12 meses encerrados em maio-- deve se estreitar nos próximos meses. "A renda do trabalhador não consegue crescer no mesmo ritmo do crédito. Isso vai gerar aumento da inadimplência e desaceleração das vendas." Sua projeção é que as vendas no comércio em São Paulo cresçam apenas 3% neste ano.

Os dados da Fecomercio mostram expansão do faturamento de 7,11% de janeiro a maio --último dado disponível-- em relação a igual período do ano passado. Mas, se forem excluídas as vendas de veículos e de eletrodomésticos --que puxaram o índice--, o crescimento no período foi de 3%, segundo Borges.

Mercado de trabalho

Para Octávio de Barros, economista-chefe do Bradesco, "ainda há espaço para a expansão do crédito porque o mercado de trabalho está indo surpreendentemente bem". Ele lembra que o emprego e a massa real de salários vêm crescendo --apesar de o rendimento médio real do trabalhador estar com leve queda.

Segundo a Fundação Seade, o total de ocupados cresceu 4,5% nos 12 meses encerrados em abril, e a massa real de salários aumentou 3,76%. "A massa salarial tem alta porque o emprego cresce", afirma Barros. Já o rendimento médio real --que é quanto vai para o bolso de cada trabalhador- caiu 0,24% no período.

Como a renda do trabalhador não está crescendo, a saída é espichar o prazo de pagamento a cada financiamento feito, avalia Miguel Oliveira, vice-presidente da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade).

Nos 12 meses encerrados em maio, o prazo médio dos financiamentos à pessoa física aumentou em 16 dias, mostram dados do Banco Central. Em maio, o prazo médio das operações de crédito chegou a 237 dias (pouco mais de sete meses), seu nível mais alto desde dezembro de 2003.

Nas grandes redes de varejo e nas revendas de automóveis, os prazos vêm sendo maiores que a média captada pelo BC. O prazo máximo para a compra de veículos saltou de 48 meses, em julho de 2003, para 60 meses hoje.

"Nas grandes redes de varejo, o prazo médio dos financiamentos hoje é de 14 meses. Em julho de 2003 era de oito meses", observa Oliveira. "Algumas redes já fazem promoções em que a primeira prestação só vence seis meses após a compra", afirma ele.

No vermelho

O número de famílias que têm fechado o mês "no vermelho" cresceu desde o início do ano, segundo dados colhidos pela Sondagem de Expectativa do Consumidor, da FGV (Fundação Getulio Vargas), divulgada na semana passada. Em maio, 28,3% das famílias pesquisadas declararam estar terminando o mês endividadas. Em janeiro, o percentual era de 24,6%, segundo Aloisio Campelo, coordenador da pesquisa.

Segundo ele, esse indicador costuma sinalizar aumento do nível de inadimplência, como uma espécie de "indicador antecedente". "Há um risco de descasamento entre a evolução da renda e do emprego com o endividamento das famílias, o que pode levar ao aumento da inadimplência", afirma Campelo.

Em maio, o nível de inadimplência das pessoas físicas ficou em 6,6%, praticamente estável em relação a igual período do ano passado. Esse percentual diz respeito a atrasos de pagamento de 15 a 90 dias. Nos 12 meses encerrados em maio, a inadimplência cresceu apenas 0,1%, segundo os dados do Banco Central.

Para o consultor Mauro Halfeld, "a história do endividamento das famílias está apenas começando no país". Ela começou a tomar forma após o Plano Real, com a maior oferta de crédito, que desaguou numa crise de inadimplência no segundo semestre de 1995.

Com a expansão da oferta de crédito pelos bancos, desde o ano passado, o endividamento voltou a crescer. "Além disso, a popularização do cartão de crédito e do cheque especial resultou numa concentração do endividamento. Com os juros estratosféricos, esse processo levou ao comprometimento maior da renda", afirma. Segundo estimativa da Anefac, as despesas com juros consomem cerca de 30% da renda familiar.



A recomendação dos especialistas para sair "do vermelho" é trocar dívidas caras por outras mais baratas, como o empréstimo consignado, que cobrava taxa de 35,6% ao ano em maio, contra 147,6% do cheque especial. (Folha Online, 11/07/05)


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