Breve introdução ao capitalismo popular



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Castro, Paulo Rabello de. “Breve introdução ao capitalismo popular”. São Paulo: Folha de São Paulo, 05 de setembro de 2001. Jel: E




Breve introdução ao capitalismo popular


Paulo Rabello de Castro
João acabou de abrir correspondência.

Não é da família. É do banco. Não é cobrança. Felizmente. Trata-se de um aviso. De rendimentos. João mal pode acreditar. É uma aplicação do seu Fundo de Garantia do Tempo de Serviço. Mas não é um rendimento normal. Trata-se de algo que João ainda não experimentou: enxergar um retorno anual de 72% sobre a aplicação do seu FGTS na compra de ações da Petrobras. Setenta e dois por cento foi o rendimento, até 17 de agosto passado, primeiro aniversário do Fundo de Privatização Petrobras. João quer aplicar mais. Mesmo assumindo os riscos que temia antes e que ainda teme, agora. Riscos do sobe-e-desce de Bolsa. Riscos de mercado.


Essa breve história aconteceu.


O mais espantoso é que aconteceu no Brasil, terra magna da exclusão econômica programada. País de poucos ganhadores e eternos milhões de perdedores. País de gente esperta, predadora de índios e submetedora de escravos negros. Forte e triste genoma social.


Pois bem. Aqui mesmo aconteceu dessas coisas boas, que deixam qualquer João mais alegrinho, mais faceiro. Uma rentabilidade de 72% num ano é rendimento para ninguém botar defeito. Coisa curiosa, o Fundo Mútuo de Privatização, organizado para recepcionar valores do Fundo de Garantia voluntariamente aplicados na compra de ações, não representou a privatização da Petrobras nem permitiu que o trabalhador brasileiro sentasse no conselho da grande empresa nacional.


Até a propaganda dessa oportunidade financeira foi mais forte no exterior (com direito ao rei Pelé e tudo mais) do que aqui no mercado brasileiro. Mas o trabalhador chegou lá. Acompanhamos de perto as agruras de uma entidade de trabalhadores procurando se organizar para participar. Apesar de ter sido a Força Sindical, sob orientação do Instituto Atlântico, a entidade que mobilizou a idéia de participação dos trabalhadores nas privatizações brasileiras, na hora H não havia espaço nas regras para trabalhador nenhum lançar um fundo sob sua gestão. Foi preciso uma ginástica e a boa vontade das autoridades para o fundo dos trabalhadores se organizar, com a colaboração dedicada de uma instituição financeira de grande porte.


A epopéia do lançamento dessa primeira oportunidade coletiva de brasileiros no mercado de capitais foi marcada também por várias surpresas e percalços. Dois vazamentos da Petrobras, um deles ao início da curta campanha por adesão de trabalhadores, contribuíram para assustar os investidores de primeira viagem, já avessos aos riscos da jornada. Apesar da curiosidade, a pergunta mais ouvida nos sindicatos era: "O que o governo quer "armar" com mais essa?", que não cessava de martelar nas reuniões de esclarecimentos...


É grande a desconfiança do povo, após tantos episódios negativos, coatores da liberdade econômica. Como um sequestrado que passa a depender do vilão, a grande maioria dos trabalhadores preferiu permanecer com sua poupança atrelada ao rendimento básico de 3% anuais, pagos pelo governo às aplicações comuns de FGTS.


Mesmo assim, milhares de trabalhadores de chão de fábrica aderiram. São hoje os apóstolos alegres do rendimento de 72% que, evidentemente, também dependeu do generoso desconto de 20% sobre um atraente preço-base da ação no dia da liquidação da oferta. Mais um pouco de sorte e os resultados muito favoráveis do balanço da empresa.


Agora, já existe uma semente de sucesso em Bolsa para ser contada à imensa maioria dos brasileiros, a partir de uma venda de ações dos detentores de Fundo de Garantia.


Quando contemplamos, horrorizados, a crescente dívida interna brasileira, fruto de décadas de desmandos financeiros, que ainda não terminaram por completo, frequentemente nos perguntamos se isso tudo ainda tem jeito. Tem. Mas não há milagres em economia. Os estímulos e as motivações das pessoas têm que estar colocados no lugar certo. Aqui não há motivação sistemática para as aplicações produtivas e de longo prazo para a grande massa da população. O único mercado de ativos que ainda permeia as camadas populares é o habitacional, mesmo assim destituído, há muito tempo, de instrumentos fáceis de acesso à aquisição da casa própria ou a lotes legalizados.


O mercado de capitais -a Bolsa de Valores, em particular- está aí para mostrar como nós marchamos na contramão, transferindo mercados para o exterior, em vez de fortalecer o que é nosso, com a nossa poupança.




Mas jeito tem. O breve e precário experimento de capitalismo popular do ano passado, em que foi permitido o acesso da galera aos instrumentos financeiros da minoria, mostra que só empilhamos uma imensa dívida pública porque o foco das políticas oficiais está muito afastado de cultivar e promover as poupanças dos trabalhadores. Mas ainda há tempo. Quem sabe na próxima administração...


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