Brevíssima Enciclopédia de Autores Açorianos



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Vitorino Nemésio

Literatura e da Cultura Portuguesas do século XX, pela qualidade literária da sua obra e pela influência do seu magistério universitário e da sua personalidade.

Poeta, contista, romancista, cronista, ensaísta, conferencista, colaborador assíduo de revistas e jornais, comunicador de rádio e televisão, Nemésio foi Professor Catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa, onde lecionou várias cadeiras (Literatura Portuguesa, Literatura Brasileira, História da Cultura Portuguesa). Fez escola primária na Praia da Vitória, o liceu em Angra do Heroísmo e estudou nas Universidades de Coimbra (onde chegou a cursar Direito) e de Lisboa. Ainda adolescente e aluno do Liceu da Horta um ano (devido a comportamento menos regular em Angra…), a cidade faialense e o seu enquadramento paisagístico e social inspiraram-lhe referências fundamentais para o seu romance Mau Tempo no Canal (1944), que Vasco Graça Moura chega a considerar, ao lado de Amor de Perdição, de Camilo, e de Os Maias, de Eça de Queirós, uma das três obras primas do romance português (v. Prefácio à tradução francesa Gros Temps sur L’Archipel, La Difference, 1988).

Foi jornalista em Lisboa, no começo da sua carreira, professor no estrangeiro (Bruxelas, Montpellier, Bahia). A sua experiência cultural europeia valeu-lhe, em 1974, o Prémio Montaigne.

A sua obra e a sua vida apresentam profundas marcas das vivências literárias, sociais, científicas e bélicas do século XX. Assistiu às duas grandes guerras, a segunda das quais transformaria a sua ilha Terceira num porta-aviões (Base das Lajes). Essas transformações e aspetos do mundo da sua infância emergem das páginas de Corsário das Ilhas (1956), livro de crónica de viagens indispensável para conhecer bem os Açores e o homem Nemésio.

A infância e a adolescência decorreram no meio de uma natureza insular condicionante: clima húmido, lava seca, vacas, paisagens agrícolas (terra que «cheira a lava e a pelo de boi ...»), beira-mar, uma vila piscatória e uma sociedade rural patriarcal, gentes que vivem ou da pesca ou da criação de gado, ou de ambas as coisas. A vinda para o liceu de Angra abriu-lhe portas para maior liberdade e para um grande mundo de conflitos sentimentais e ideológicos (sentimentos, amores de adolescentes e iniciações anarquistas no romance Varanda de Pilatos, 1927). A sua ilha natal será presença afetiva perene, espécie de medida de todas as coisas, fonte constante de alusões, metáforas, ensinamentos, paralelos e «correspondências», quando visitava outras e distantes paragens, como as do Brasil.

Em 1916 (tem quinze anos…) publica o livro de poemas Canto Matinal (quisera chamar-lhe Canto Vesperal…!); era então um jovem aluno do liceu de Angra e começa o caminho de uma das mais importantes facetas de escritor: poeta; e poeta é, de facto, um seu lado que muito sobrevalorizava, como confessa na sua «Última lição» (1971) e em programa televisivo dos anos 70 que tinha o nome de «Se bem me lembro».

Em 1922 publica em Coimbra o poema Nave Etérea (realizara-se a famosa travessia aérea de Gago Coutinho e Sacadura Cabral), mas seria em 1924, com a publicação de Paço do Milhafre (Prefácio de Afonso Lopes Vieira) que entraria definitivamente na criação de uma literatura referenciada às ilhas e à fala das suas gentes. Recordações e efabulações, ainda relativamente incipientes mas já marcantes, enchem o romance Varanda de Pilatos (1927), que embora demasiado «próximo» dos acontecimentos, é obra a não perder, com a leitura conduzida pelo prefácio de José Martins Garcia (edição da Imprensa Nacional/Casa da Moeda), primeiro «biógrafo» de Nemésio.

No mundo da poesia, decisivo haveria de ser o surgimento de La Voyelle Promise (1935), criação poética «por dentro» da língua francesa (que dominava excelentemente), carregada de vivências insulares. De assinalar a sua ligação ao movimento da Presença (1927), tendo em 1937 criado a Revista de Portugal, ano em que também publicou as novelas A Casa Fechada. Como poeta foi, porém, sempre muito independente («surrealista sem surrealismo»…), pois a sua forte individualidade rejeitava escolas e até as ignorava. O Bicho Harmonioso (1938) é outro livro de referência na trajetória poética do autor (destaquem-se poemas como «O Paço do Milhafre», «A Concha», «O Canário de Oiro»). Alguns livros têm títulos enigmáticos: Eu, comovido a Oeste (1940), em que Oeste é o Oeste do mar atlântico, em cujo centro estão as viagens do poeta e a «força» das suas raízes míticas; em Nem Toda a Noite a Vida (1953) vida e noite têm uma alternância de sentido penitencial introspetivo e dos dois o autor diz que são «volumes de versos que estão cheios de mim e portanto do mar e dos Açores». Mas é em Festa Redonda, Décimas e Cantigas de Terreiro oferecidas ao Povo da Ilha Terceira […] (1950) que melhor evoca, em poesia ao gosto popular, um mundo de referências, linguagens, cultos e costumes; contem evocações tão importantes que confessa mesmo (em dáctilo escrito contido no Espólio da Biblioteca Nacional (E11, cx. 58) que «é o [seu] livro mais fundamente autobiográfico. Lá met[eu] infância e adolescência e é para [ele] como ouvir o mar num búzio». O Pão e a Culpa (1955) é poesia religiosa, num sentido de aprofundamento bíblico e teológico e de consciência do barro humano. O Verbo e a Morte (1959) é portador de uma tónica filosófica (inclusive leituras de Heidegger), livro onde reside um dos mais belos poemas da insularidade, «Ilha ao longe». E Limite de Idade (1972) é o resultado de leituras de curiosidade científica (Biologia, Medicina, Física Nuclear), de consciência da sua doença e de jogos verbais com as linguagens das ciências: um caso raro de convergência de ciência e literatura onde se inserem preocupações existenciais, a «velha» saudade das ilhas e a «Ilha ao longe»… A preocupação da origem da vida na Terra provocou um dos mais significativos poemas, «Matéria Orgânica a Distância Astronómica». Paralelamente excogitava os problemas do seu tempo nas crónicas que dariam o livro Era do Átomo. Crise do Homem (1976). Uma nova fase de poesia erótica em fim de vida surgirá em Caderno de Caligraphia e outros poemas a Marga, dos anos 70, mas só publicado, em 2003 (Imprensa Nacional/Casa da Moeda, estudo de Luís Fagundes Duarte).

Os céus cinzentos de Bruxelas (onde era então leitor), fortes saudades das ilhas e a vontade de fazer um romance de certa extensão (como também a moda exigia) levaram-no a idear o célebre romance Mau Tempo no Canal. O título já vem em agenda de Nemésio aí por dezembro de 1937. E em 17 de janeiro de 1938 escreve a conhecida primeira página do romance, que virá a concluir em fevereiro de 1944, ano da publicação. «Pareceu-me que fiz um romance das ilhas – a nossa gente, a nossa lava, o nosso mar», como confessa em entrevista (Entrevista ao Correio dos Açores, Ponta Delgada, 27 de agosto de 1944). Refere-se aos Açores, à Horta, ao Canal Pico-Faial-S. Jorge, também no capítulo final à Terceira, de 1917 a 1919, aos amores frustrados de João Garcia e Margarida Clark Dulmo, contrariados por profundos ódios familiares e diferenças sociais, acabando num casamento de acomodação. Cores, cheiros, luz, nuvens (em profusão caprichosa), a majestosa montanha do Pico, a pesca da baleia, o flagelo da peste, as navegações no porto cosmopolita da Horta, os conflitos sociais, a mesquinhez da intriga, a aristocracia decadente, a burguesia, a pobre gente das habitações rurais, os debates íntimos do sentimento e da razão, da desforra e do olvido, a luta pela vida e o orgulho disfarçado enchem esse romance. Nele também não falta a fala regional, em personagens como o criado Manuel Bana e principalmente o Ti Amaro, trancador de baleias, que andou pelos mares do Norte (o «Ariôche», Artic Ocean) e que preceitua que

 

pena-se muito nesses mares, mas aprende-se mais que nua esquiola [numa escola].



 

A fala é meio picarota meio terceirense, mas resulta como experiência realista de literatura valorizada pelo documento folclórico e antropológico. Era preciso documentar identitariamente essas ilhas ainda mal conhecidas, que um dos seus próximos livros, Corsário das Ilhas (1956), viria então fazer avultar como berço da sua infância e adolescência e paisagem humana de grande diversidade. Este livro de crónicas de viagem (1946 e 1955), que deve ser entendido como itinerário açoriano (corsário no sentido de «fazer o corso de»), é não só leitura indispensável sobre as ilhas atlânticas (Açores, Madeira, Canárias) como documento humano sobre o próprio autor, que se considera «filho pródigo» em visita de saudade à sua ilha. Este livro faz parte de uma «série», o «Jornal de Vitorino Nemésio», antecedido por Ondas Médias (1944), O Segredo de Ouro Preto (1954), depois seguido por Conhecimento de Poesia (1958), Viagens ao Pé da Porta (1967), Caatinga e Terra Caída. Viagens no Nordeste e no Amazonas (1968), Jornal do Observador (1971).

Renovando, por meio de crónicas sui generis, o próprio género da crónica, Nemésio «viaja» no espaço e no tempo, dentro e fora de si próprio, com alusões eruditas, referências inesperadas, vastíssimos conhecimentos de geografia física, geografia humana e história, por vezes em busca de «correspondências» entre o que vê pela primeira vez e o que conhece da sua terra ou da sua infância.

Clássico ficou o seu texto de 1932, intitulado «Açorianidade» (Revista Insula, 7-8, agosto, incluído depois em Sob os signos de agora, 1932), destinado à comemoração do V centenário do descobrimento dos Açores. Foi daí que o termo Açorianidade partiu, com grande fortuna e expansão, cujo alcance Nemésio na altura não adivinhou. Com efeito, ele estava a falar da sua açorianidade ou «imaginação» do ser açoriano «que o desterro afina e exacerba»: isto é, o afastamento define ou aumenta o sentimento de pertença e ligação espiritual aos Açores. Mais uma versão da «saudade portuguesa», mas com alcance identitário regional e com aura política, sobretudo depois da criação do Governo próprio da Região (1976). Como escreveu em Corsário das Ilhas, «a natural preocupação por essas ilhas […] por vários modos nele tende a resolver-se por escrito». Esses modos foram a poesia, o romance, o conto, a crónica, a conferência (como a que fez em Coimbra em 1928 sobre «O Açoriano e os Açores» e outra em Nice em 1940, «Le Mythe de M. Queimado»). Nos anos 70, com as vivências políticas anti-gonçalvistas e independentistas dos Açores (1975), Nemésio foi invocado como figura tutelar ou mesmo hipotética de Presidente de uns Açores independentes. «Até que me passe a zanga», como deixa dito em poemas cripto-separatistas de Sapateia Açoriana (1976). A zanga havia de moderar-se ou passar (as condições políticas, de resto, modificaram-se). Nemésio, por sua expressa vontade, repousa no cemitério do Tovim, em Coimbra, cidade onde estudou e tinha uma casa («Casaréus»).

Da sua ficção, de que faz também parte o conjunto de contos O Mistério do Paço do Milhafre (1949), recuperando anteriores narrativas de Paço do Milhafre e acrescentando outras como o inesquecível conto «Quatro Prisões Debaixo de Armas»; poderíamos ainda referir o inacabado romance O Cárcere (1976, 1.º capítulo no Diário de Notícias, 30 de março de 1978, postumamente), no qual emerge ainda e sempre o mundo da sua ilha e da sua infância e o sentimento de ser ilhéu: «Nunca cheguei a saber se o cárcere era de pedra ou era de gente. Talvez de pedra com gente dentro, talvez de gente feita de pedra».

Nemésio foi também uma figura de grande relevo universitário. A sua tese de doutoramento A Mocidade de Herculano até à volta do Exílio (2 vols., 1934) é uma referência indispensável para os estudiosos daquele autor e do liberalismo português (em Portugal e no exílio). Tem outros estudos sobre Herculano, sobre a Rainha Santa Isabel (Isabel de Aragão, 1936), sobre o Infante D. Henrique (Vida e Obra do Infante D. Henrique, 1960), sobre Gomes Leal, Gil Vicente, Moniz Barreto, Afonso Duarte, o Romantismo Português nas suas relações com a cultura francesa, Cecília Meireles, problemas das relações luso-brasileiras, questões teóricas de literatura, num larguíssimo leque de interesses, participações e convites de um grande homem das Letras e da vida universitária portuguesa, como se vê pelo seu currículo e vasta bibliografia. Foi tradutor, conferencista, fez palestras na Rádio e na Televisão. Foi um grande conversador e assumiu-se como melómano, ensaiando tocar modas regionais à viola.

A projeção da sua obra e da sua personalidade permite concluir que é um dos escritores mais significativos do século XX, estudado no seu país e no estrangeiro, em numerosas teses de mestrado e doutoramento. Na Universidade dos Açores, em Ponta Delgada, existe um Centro de Estudos que lhe é dedicado (bibliografia, iconografia, investigação), o SIEN (Seminário Internacional de Estudos Nemesianos). A cidade da Praia da Vitória desenvolve um projeto respeitante à «Casa de Vitorino Nemésio». A Imprensa Nacional-Casa da Moeda tem publicado as Obras Completas de Vitorino Nemésio.

António M. B. Machado Pires



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