Brevíssima Enciclopédia de Autores Açorianos



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Poesia:

Emoção; Ponta Delgada, Açores, 1978.

Razões, Ponta Delgada, Açores, 1979.

Poemas, (c/ Jorge Arrimar); Ponta Delgada, 1979.

2ª edição, Tipografia Martinho, Macau, 1993



Mão Tardia; Gaivota, SREC, Angra, Açores, 1981.

(Prémio Revelação do suplemento cultural Contexto do jornal Açoriano Oriental).



Emersos vestígios; Sete Estrelo, Mira, 1985.

2ª edição, Seixo Publishers, Pitt Meadows, Canada, 1994.



A Deusa da Chuva; Gaivota, SREC, Angra, Açores, 1991.

(Prémio Mário de Sá-Carneiro da Association Portugaise Culture et Promotion, St. Dennis, France, 1988; para o original, então intitulado «Regresso do olhar».



Menina da Água; Éter/Jornal da Cultura, Ponta Delgada, Açores, 1997.

Tango nos pátios do sul; Seixo Publishers, Pitt Meadows, 1999.

2ª edição, revista e aumentada; Campo das Letras, Porto, 2001.



Um dia qualquer em junho; Instituto Camões, Coleção Lusófona, Lisboa, 2000.

Águas de soledade; Seixo review, Pitt Meadows, 2005

Travelling With Shadows; Libros Libertad, Vancouver, 2008.

Ficção

As Brancas Passagens do Silêncio; Signo, Ponta Delgada, 1988.

Sombra duma rosa - contos; Edições Salamandra, Lisboa, 1998.

O príncipe dos regressos - narrativas; Edições Salamandra, Lisboa,1999.

A casa das rugas - romance; Campo das Letras, Porto, 2004.

Antologia (organização)



Os Nove Rumores do Mar - Antologia da Poesia Açoriana Contemporânea; Seixo Publishers, Pitt Meadows, 1996.

2ª edição, Instituto Camões, Coleção Insularidades, Lisboa, 1999.

3ª edição, Instituto Camões, Coleção Insularidades, Lisboa, 2000.

Tradução

Oito poemas de J. Michael Yates; apresentação e tradução com Rosa Pinto, Sete Estrelo, Mira, 1985.

Representado em várias publicações em Portugal, Estados Unidos, Canadá e Inglaterra






  1. Eduardo Jorge Brum

N. Rabo de peixe, ilha de S. Miguel, 10.9.1954] Estudou no seminário durante nove anos, mas desistiu do sacerdócio e abandonou aquela instituição em 1974, pouco depois do 25 de abril. Estudou algum tempo na Faculdade de Direito de Lisboa, participando na agitação política da época, integrado num grupo do MRPP.

Emigrou para os Estados Unidos da América, onde viveu na Nova Inglaterra durante cinco anos. Aí começou a escrever, primeiro poesia e depois ficção, usando o pseudónimo de Vital Furão. Regressou a Portugal em 1980 vivendo em Lisboa, voltando à universidade, ao curso de Filosofia na Universidade Nova, mas desistiu de viver na capital e em 1989 regressou a Ponta Delgada, decidido a fundar uma empresa de publicidade. Abraçou o jornalismo, fundou um jornal, o Jornal de Ponta Delgada, mais tarde transformado em Jornal de S. Miguel e depois ainda em Expresso das Nove. É hoje, certamente, o mais conhecido jornalista açoriano, praticando um jornalismo de investigação e de crítica. É um crítico impiedoso da sociedade, dos meios literários e um defensor acérrimo das minorias e das marginalidades.

A sua poesia, que abandonou, é essencialmente experimentalista e de combate e a sua ficção, a que se dedica cada vez mais, segue a mesma linha, tendo como tema o homem, a liberdade e as difíceis relações entre as pessoas. J. G. Reis Leite

Obras principais (1983), Viviana o princípio das coisas. Lisboa, Vega. (1986), O Beijo. Lisboa, Ed. Europa-América. (1997), Sem Coração. Lisboa, Ed. Europa-América. (2000), Amor Com Sapatos. Lisboa, Ed. Europa-América.

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)




  1. Eduíno de Jesus

[N. Ponta Delgada, 18.1.1928]

Jesus, Eduíno Monis de

[N. Ponta Delgada, 18.1.1928] Frequentou o Liceu Nacional de Antero de Quental na mesma cidade e iniciou a sua carreira académica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em 1951. Licenciou-se em Filologia Românica, em Lisboa, com dissertações em Linguística e Literatura (ano lectivo de 1976). Ensaísta, dramaturgo e principalmente poeta do modernismo se revelou Eduíno com o maior destaque. Interessado em divulgar na sua terra a nova moda literária, fundou, juntamente com outros companheiros de tertúlia, à data finalistas do secundário, uma espécie de cenáculo a que se chamou Círculo Literário de Antero de Quental. Em breve, este grupo de rapazes passou a ser notado no meio citadino, o que não era muito difícil de acontecer pois a sociedade onde surgiu o «Grupo do Jade» (como também era conhecido – por frequentar um bar deste nome) tinha a modesta dimensão da insularidade e os tempos iam por uma estrita fiscalização por parte de quem governava. Por essa altura (1947-1948) Eduíno de Jesus publicou um artigo no jornal Correio dos Açores intitulado «O que se deve entender por uma Literatura Açoriana» que antecedeu cinco anos o de Borges Garcia sobre o mesmo tema.

São diversos os estudos e prefácios deste autor que então foram aparecendo na imprensa insular e que dedicou a autores nascidos nos Açores, entre os quais destaco: prefácio à Antologia de Poemas de Armando Côrtes-Rodrigues; prefácios a Rosas que vão abrindo de Vergílio de Oliveira (Ponta Delgada, 1956); a Poemas de Madalena Férin (Ponta Delgada, 1957). Ensaio sobre Natércia Freire intitulado O Conhecimento Poético, depois publicado no livro desta autora Os Intrusos (Lisboa, 1971), e reproduzido nas suas Obras Completas. Prefaciou ainda a Obra Completa do poeta António Moreno (pseudónimo do padre José Jacinto Botelho da ilha de S. Miguel, nos Açores).

Outros estudos de Eduíno de Jesus, agora já não sobre autores açorianos: Afonso Duarte e Vincent Van Gogh (1955); prefácio a Sombras no Espelho – Contos de Pina d’Emarghi (1960). Lirismo e Auto-Ironia – a máscara do sentido social na poesia de António Manuel do Couto Viana (1971).

Na sua obra poética publicada, é de destacar Caminho para o Desconhecido (1952); O Rei Lua (1955); A Cidade Destruída durante o Eclipse (1957). Esta nova moda poética leva muita gente a pensar que a poesia se tinha tornado uma arte frívola e vã. A poesia de Eduíno de Jesus está traduzida em francês, por Gaston Henri Aufrère. Ultimamente Eduíno de Jesus publicou Os silos do silêncio, antologia de poesia (1948-2005) editada pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda, na Biblioteca de Autores Portugueses, com prefácio de António Manuel Conto Viana e posfácio de Onésimo Teotónio Almeida.

Também escreveu teatro. Apesar de episódica, a escrita dramática de Eduíno de Jesus é significativa. Na sua comédia em um acto Cinco Minutos e o Destino afirma-se partidário da «arte pela arte»: as personagens são remetidas ao anonimato e designadas no diálogo cénico pelo papel que desempenham...

Em Coimbra, em 1951, funda com Jacinto Soares de Albergaria, a «Colecção Arquipélago» que publica Bruno T. Carreiro (investigador e ensaísta), Vergílio de Oliveira (poeta), Madalena Férin (poeta e novelista) e outros. Na mesma cidade universitária, colabora nas revistas Vértice e Estudos e em 1958, a convite do poeta Couto Viana, na Graal.

Foi conselheiro pedagógico do Ministério da Educação Nacional e, nessa função, colaborador em estudos literários e linguísticos – como em Sintaxe Básica do Português, 1982. Também participou em Introdução à Semiologia de Toussaint (1994). Em 1979 a Universidade Nova de Lisboa convida-o para reger a cadeira de Teoria da Literatura (1979-1980). Convidado também da Universidade Clássica, ali leccionou História da Literatura Portuguesa, até ao ano 2000.

Para a Televisão Portuguesa, produziu e dirigiu os programas literários quinzenais «Convergências, Livros & Autores» (1969-1974).

É director da Revista de Cultura Açoriana, órgão da Casa dos Açores em Lisboa. Fernando Aires


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  1. Emanuel Félix

[N. em Angra do Heroísmo, a 24.10.1936 – m. em Angra do Heroísmo, a 14.2.2004] Poeta, professor, ensaísta e técnico de restauro artístico, Emanuel Félix viveu a maior parte da sua vida na ilha Terceira, excetuando-se estadias em França e na Bélgica (onde estudou técnicas de conservação e restauro, bem como história da arte). Ensinou também na Escola Superior de Tecnologia de Tomar.

É enquanto poeta que Emanuel Félix se afirma como uma das vozes literárias açorianas mais destacadas da segunda metade do século XX. Desde jovem e juntamente com Rogério Silva e Almeida Firmino esteve ligado à Gávea (Revista Açoriana de Arte), onde publicou uma «Breve Antologia de Poesia Açoriana». Em 1958 publica o seu primeiro livro de poesia, Sete Poemas, geralmente identificado como precursor do concretismo, precedendo os poetas e a poesia que nos anos 60 reinventaram a plasticidade do discurso poético, entendido como parente próximo da figuração visual. A partir daí, confirma-se a estreita relação que a sua poesia estabelece com as artes plásticas e com a música: em O Vendedor de Bichos (de 1965) a poesia de Emanuel Félix dialoga com a pintura de Miró e de Picasso, com a tapeçaria de Lurçat e com a escultura de Henry Moore; em As Quatro Estações de António Vivaldi (1965) ecoa a música de Vivaldi, reencontrado na forma de sonetos de nítida sonoridade neobarroca.

Depois disso, Emanuel Félix prosseguiu uma escrita poética tão discreta como rigorosa. Em cada palavra dos seus poemas parece prolongar-se a experiência de quem fixa a cor certa ou o contorno exato que numa tela antiga se reencontram. Tudo isto sem postergar a dignidade de um trabalho verbal capaz de assimilar o poeta ao operário: «Na madrugada o operário/De madrugada o poeta/Recolhem as palavras mais precisas/Para o tempo que vem que se avizinha/(…) Enquanto um sol de fogo se levanta.» (A Palavra o Açoite, 1977). Em 1984, o volume A Viagem Possível reuniu a produção poética anterior ou aquilo que, no critério do poeta, dela sobreviveu ou a ela se acrescentou. Dos anos 90 são também O Instante Suspenso (de 1992) e Habitação das Chuvas (de 1997). Neste último projeta-se um cenário com cor local e marcas distintivas próprias, cenário entretanto refigurado pelo vigor lírico de um discurso poético que transcende o localismo (o que parece ser uma preocupação constante em Emanuel Félix) e busca sentidos verdadeiramente superiores.

Carlos Reis

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  1. Emanuel Jorge Botelho

[N. Ponta Delgada, 11.8.1950] Licenciou-se em Ciências Político-Sociais e seguiu a carreira de professor. Contudo, tem-se distinguido como poeta e animador cultural. Faz parte do Grupo de Intervenção Cultural Açoriano (GICA) e fundou e dirigiu, conjuntamente com Eduardo Bettencourt Pinto, a revista *Aresta (1980-1984). Coordenou o suplemento literário “Raiz”, do jornal Correio dos Açores. Muitos dos seus poemas são publicados em tiragens artesanais e imaginativas, tendo raramente publicado um livro tradicional.

Como poeta pode-se considerar de vanguarda, utilizando uma escrita provocadora e mergulhando nas estilísticas surrealistas. É admirador confesso de Mário Cesariny de Vasconcelos, de António Maria Lisboa e de Ângelo de Lima e um dos seus livros foi prefaciado por José Sebag.

Gravemente doente, diminuiu a sua capacidade de intervenção.

J. G. Reis Leite

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  1. Ernesto Rebelo

[N. Sé, Lisboa, 26.4.1842 – m. Horta, 15.11.1890] Literato e jornalista. Funcionário da Repartição de Fazenda Distrital da Horta. Foi filho de Francisco Peixoto de Lacerda Costa *Rebello, natural do Faial, advogado, e de Maria Elisa Nunes de Lavallière Rebello, natural de Cayenne, Guiana Francesa (Figueira, 1890a). Apesar de nascido em Lisboa (Figueira, 1890a; Rebelo / Silveira, 1965), é tido como um dos mais notáveis escritores «faialenses», individualidade de valor entre os representantes da escola romântica nos Açores (Lima, 1922: 409-410; 1943: 564), operoso escritor, de marcante relevo literário (Serpa, 1987: 187) que deixou produções, quer em prosa, quer em verso, todas corretas, ricas de pensamentos e de estilo suave (Figueira, 1890b). Como poeta, versejou com espontaneidade e simplicidade, despretensiosamente (Carvalho, 1979: 90). Ramos (1890), no necrológio, considera-o como «um dos homens mais honestos, desinteressados e prestimosos [..] nas lides da imprensa».

São diversas as suas produções, umas dispersas por jornais, outras reunidas em livros e outras ainda inéditas. De entre elas tem sido destacada Notas Açoreanas, em que a história anedótica do distrito da Horta, principalmente do Faial, se encontra desenhada com colorido e sabor regionalista bastante apreciáveis (Lima, 1943).

Para Henrique das Neves, a não ser este amor pelas letras e os seus afetos da família, o campo prendia-o mais do que tudo. Gostava do sossego e da solidão e trazia sempre gratas impressões do viver simples do povo, cujos costumes, lendas e crenças descreveu com especial cuidado. Era um cismador e um solitário, o que não quer dizer que não fosse expansivo com os amigos, porque o era, e contava então coisas antigas numa inesgotável cópia de factos curiosos, muitos dos quais se perderam com ele (Neves, 1910: 43).

Era Cavaleiro da Ordem de Cristo e Comendador de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. Integrava várias associações culturais e científicas, nomeadamente a Sociedade Dantesca de Nápoles, o Gremio Litterario Fayalense (sócio honorário e presidente), o Gremio Litterario Artista Fayalense, a Sociedade Amizade e Recreio de Ponta Delgada, o Centro Fayalense da Sociedade de Geographia de Lisboa, de que era sócio correspondente, a Comissão Central de 1640, a Fraternidade Açoriana do Rio de Janeiro, o Gremio Litterario Michaelense (sócio correspondente), o Gremio Litterario de Angra do Heroísmo e o Club Popular Angrense (Respigador (O), 1891; Figueira, 1890a).

Tem sido destacada a sua atividade no âmbito do Grémio Literário Faialense que exibia um seu retrato, em formato grande, na sala principal, oferecido pela Sociedade Luz e Caridade (Figueira, 1890a).

Fundou e dirigiu O Amigo do Povo (1870) e Civilizador (1878-1879) e foi redator de A Luz (1870-1874) e de O Grémio Literário (1880-1884) (cf. Lima, 1943: 529-533), mas deixou colaboração, em verso e em prosa, dispersa por outros jornais da Horta e dos Açores. Em Lisboa colaborou com Ramalhete do Christão, A Civilização Cristã e Revista Ilustrada (Figueira, 1890a; Rebelo / Silveira, 1965).

Em 20 de novembro de 1890, por decisão da Câmara Municipal da Horta, da rua denominada D. Pedro IV, a parte entre o Largo Duque d’Ávila e Bolama e a Travessa da Misericórdia, passou a chamar-se Rua Ernesto Rebello (Biblioteca Pública e Arquivo Regional da Horta, Câmara Municipal da Horta, Vereações, Liv. 44 (c): fls. 140v-142; Rocha, 1992).

Luís M. Arruda

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  1. Espínola de Mendonça

Francisco Espínola de Mendonça nasceu em Ponta Delgada em 1891. e faleceu na mesma cidade em 1944. Licenciado em Filologia Românica, foi professor no Liceu Nacional de Antero de Quental, em Ponta Delgada, em cujo jardim foi gravado um seu soneto e uma ode de Antero. Publicou Rosiclares, em 1910, Canções do Lar e Outros Poemas, em 1931, e Sicómoro, em 1937. Faleceu em 1944, tendo sido publicada no ano seguinte a recolha Gerânios.

Um dos acontecimentos mais marcantes da sua vida, que possivelmente lhe terá apressado o próprio fim, foi a morte de um filho adolescente.

D. S.





  1. Faria e Maia

[N. Ponta Delgada, 22.9.1876 – m. ibid., 29.4.1959] Estudou inicialmente na sua cidade natal e entre 1896 e 1901 frequentou a Universidade de Coimbra, onde se licenciou em Direito. Deixou um livro de memórias desses anos em que conviveu com Teixeira de Pascoaes e Afonso Lopes Vieira. Acabado o curso, regressou a Ponta Delgada onde exerceu o cargo de inspetor escolar distrital, cuja ação compilou numa das suas primeiras publicações, Em Prol da Instrução (1909), e foi professor de liceu. Viveu com a família na Suíça e viajou pela Europa, deixando também literatura dessas viagens, nomeadamente do seu interesse pela democracia na Suíça. É um dos melhores autores açorianos de literatura de viagens. Com a proclamação da República, em 1910, devido ao seu ideário republicano, foi convidado a assumir a presidência da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Ponta Delgada, que voltou mais tarde a presidir (1943). Foi eleito senador pelo distrito de Ponta Delgada, em 1921, como independente. Como político, foi um autonomista entusiasmado e o seu projeto de lei para a Autonomia Administrativa dos Distritos Açorianos era uma «pedrada no charco» republicano sobre as questões de descentralização. Reuniu mais tarde em livro as suas opiniões sobre a autonomia, escritas quando acreditou que a ditadura militar saída do golpe de 28 de maio de 1926 teria uma atitude de maior abertura às questões autonómicas açorianas. Foi aliás apoiante, com outros, dessa solução autoritária, mas rejeitou o Estado Novo. Participou ativamente no Congresso Açoriano de 1938 e redigiu um relatório a pedido do Ministro do Interior em nome da Comissão para o Aproveitamento Turístico da ilha de S. Miguel, que esteve na base dos diplomas que visavam a criação da primeira zona de turismo dos Açores.

Foi um escritor incansável e jornalista, mas da sua obra destaca-se a historiografia, não porque tenha sido um investigador, mas pelas sínteses notáveis que deixou sobre a história de S. Miguel em três livros inovadores, os Capitães dos Donatários (1439-1766), os Capitães Generais (1766-1832) e Novas Páginas de História Micaelense (1832-1895), que ainda hoje são úteis e de proveitosa leitura. Anteriormente tinha-se interessado pelo período da época liberal com uma monografia sobre um deportado da Amazonas, o Dr. Vicente Cardoso da Costa, seu antepassado.



J. G. Reis Leite

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  1. Fernando Aires

(F. A. de Medeiros Sousa) [N. Ponta Delgada, 18.2.1928] Licenciado em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Foi professor efetivo no Liceu Antero de Quental, tendo lecionado a cadeira de Psicopedagogia na Escola do Magistério Primário de Ponta Delgada. Desempenhou as funções de assistente-convidado da Universidade dos Açores entre 1975 e 1994.

Pertenceu ao grupo que, nos anos 40, fundou o Círculo Literário Antero de Quental, destinado a introduzir o modernismo nos Açores. De 78 a 89 fez parte da Direção do Instituto Cultural de Ponta Delgada. Está representado na Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa, onde também colabora desde 1993.

A sua obra (à data desta escrita) é constituída por quatro volumes do diário Era Uma Vez o Tempo e por dois de ficção, Histórias do Entardecer e Memórias da Cidade Cercada. Creio que este título da sua novela está perfeitamente interligado com o seu diário, até este momento a componente fulcral da sua escrita: o homem moderno «cercado» precisamente por uma modernidade que ele entende e aceita, mas moldada pela memória profundamente vincada de um outro tempo em que as coisas e os homens ainda não tinham perdido os seus referenciais históricos e éticos. Não quer isto dizer que o autor não conteste a vida estática que lhe havia sido legada por séculos de inércia ideológica e isolamento geográfico atlântico. Para Fernando Aires, esse tempo recordado era um misto de doces memórias da infância, mas igualmente de espera, que não de luta necessariamente ativa pelo equilíbrio e justiça social que desde sempre ele absorveu da historicidade político-cultural do Velho Continente, o que ele chama a (sua) Europa-mãe. Também para F. Aires, açoriano viajado e culto, a ilha é o mundo em miniatura, o Homem moderno confinado mas não transformado, sem poder escapar à condição comum dos vastos espaços para além do horizonte de mar e céu. Estamos todos, nas suas páginas, duplamente «cercados» pela geografia e, uma vez mais, pela história; os velhos senadores de Kavafy, por assim dizer, irremediável e (pior ainda) indiferentemente sitiados pelos «bárbaros» que para F. Aires são (na realidade ou nos símbolos do nosso quotidiano) o que a pós-modernidade nos impôs, desde o relativismo estético e moral à política sem ideologia, reduzida de todo à personificação e imagem destes e de outros atores em cena. Para o autor de Era Uma Vez o Tempo, a estética das coisas e dos gestos transforma-se no próprio signo da moralidade da vida. De resto, é a presença do quotidiano que está sempre viva na sua escrita, cada gesto e palavra, cada pedaço de paisagem circundante utilizados para definir e redefinir o estado de alma de cada um em seu redor. Conhecedor e consciente da tradição literária em que se insere nos Açores desde há cinco séculos a esta parte, será talvez o mais perfeito continuador em prosa poética do simbolismo das Almas Cativas de Roberto de Mesquita, traçando assim uma inquestionável linha de continuidade na literatura moderna do nosso arquipélago. Vamberto Freitas

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  1. Fernando Melo

[N. S. João, Lajes do Pico, 4.10.1932] Professor e jornalista. Estudou no Liceu da Horta e na Escola do Magistério Primário, daquela cidade, onde completou a sua formação escolar, em 1952, e onde, mais tarde, viria a ser professor de Didática.

Como jornalista, fez parte dos corpos redatoriais dos jornais Correio da Horta, Diário Insular e O Telégrafo. Tem colaboração dispersa por outros jornais do arquipélago açoriano, do continente e das comunidades da América do Norte. Prestou também colaboração à Rádio Difusão Portuguesa e à Rádio Televisão Portuguesa, nos Açores, como autor e realizador de programas, geralmente de natureza regional.

É autor de alguns poemas dispersos pela imprensa e de dois livros de contos tratando, geralmente, «quadros da infância».

Em 2004, foi agraciado com o grau de Oficial da Ordem de Mérito, pelo Presidente da República. Luís M. Arruda

Obras. (1993), Fragmentos da memória. Horta, Câmara Municipal da Horta. (2003), A prenda de Natal... e outras histórias. Horta, Ed. do autor.

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  1. Florêncio Terra

[N. Horta, 18.5.1858 – m. Ibidem, 25.11.1941] Professor, jornalista e contista. Estudou no Liceu da Horta e depois foi até Lisboa para fazer estudos superiores na Escola Politécnica, mas a morte inesperada do pai, Florêncio José Terra, primeiro de nome, obrigou-o a voltar à Horta (Faria, 2005). Então foi professor no liceu desta cidade, desde 1886, primeiro de Introdução à História Natural e depois de Matemática, e reitor interino, em 1896, e efetivo, entre 1907 e 1919 e depois em 1929.

Foi um dos fundadores do Grémio Litterário Fayalense, em 1874. Presidiu à Câmara Municipal da Horta por alguns meses, em 1914.

Como jornalista colaborou, assiduamente, com quase todas os periódicos do seu tempo. Começou, tinha 18 anos, como redator do semanário literário A Pátria (1876) e continuou em O Atlântico (1862-1910), Grémio Litterário (1880-1884), O Telégrafo (1893-2004) e Correio da Horta (1930), mas foi no diário O Açoriano (1883-1896) e no semanário literário O Fayalense (II série, 1899-1902) que mais se evidenciou, recorrendo, geralmente, ao uso de pseudónimos como Ignotus, X, Ri...cardo e Máscara Verde. Também colaborou em periódicos do continente como Ocidente, Ilustração Portuguesa, Revista Ilustrada e na página literária de O Século.

Aos 23 anos publicou o primeiro conto, A Varinha, no Grémio Litterário mas, quando morreu, a sua obra estava dispersa por jornais e revistas dos Açores e do Continente. Entretanto, foram publicados Contos e Narrativas (1942, 1.º volume com prefácio de Osório Goulart, em 1981), Natal Açoreano (1949), Munhecas (1979), Água de verão (1987) e a antologia Às Lapas (1988). Deixou também o romance O Enjeitado (1989). O drama Luísa foi representado no Teatro Faialense, em 1886, e a comédia Helena de Savignac, no mesmo palco, em 1888 (Instituto Açoriano de Cultura, 1978; Lobão, 2001, 2004; Melo, 1978).

Para Greaves (1901: 162), seu contemporâneo, «a atividade mental de Florêncio Terra inclina-se para o conto descritivo, ou emotivo: uma tragédia por tempestuosas noites nas costas dos Açores, com o céu baixo e o perigo constante; ou as cenas da vida campestre, com folguedos e risos de lábios vermelhos. Neste género tão delicado, Florêncio Terra é, indubitavelmente, o nosso primordial artista da pena».

Cultor do conto idílico e prosador fluente, foi sempre destacado pelos críticos. Na vida do povo, do Faial e do Pico, encontrou temática para a sua obra ficcionista. Interessa lembrá-lo como individualidade de renome nas letras, digna de figurar na história da literatura portuguesa. Tentou o romance e o teatro, mas foi no conto que se impôs, como se pode verificar em Contos e Narrativas que contém as suas melhores produções. Segundo Rosa (1990: 94-95) «Os seus contos, dentro dessa corrente, inspiram-se por norma em motivos campesinos, regionalistas. Perpassa neles o povo com a sua alma bondosa e simples, os seus costumes, a sua existência plena de alegria ou de sofrimento. Alguns constituem perfeitos quadros da vida aldeã, que deixam no espírito dos leitores uma viva sensação de paz campestre.

Tais, entre outros, «A debulha», «Vida simples», «Tão velha», «Tua, tua, mas a casar», «Margarida amor fiel». Em «História de um pequeno trabalhador» o autor descreve um ambiente de trabalho e pobreza, de aflição e luto, um drama que nos emociona e confrange. Em «Vingança» sentimo-nos chocados pela atitude indiferente do egoísmo e da injustiça perante a angústia dos que padecem inocentemente».

Foi obreiro da Loja maçónica *Amor da Pátria.

Em novembro de 1987, por ocasião do 47.º aniversário da sua morte, a Câmara Municipal da Horta homenageou-o descerrando uma fotografia sua no salão nobre dos paços do concelho e editando uma medalha comemorativa (Faria, 2005; Lobão, 2004).

Antes, em 30 de abril de 1958, aquela Câmara havia decidido atribuir o nome Jardim Florêncio Terra ao então denominado Jardim Público (Câmara Municipal da Horta, Livro de Atas, 99: 30). A mesma Câmara criou um prémio literário com o seu nome. Luís M. Arruda

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)




  1. Francisco Cota Fagundes

Francisco Cota Fagundes nasceu na Agualva, Ilha Terceira, e emigrou para os Estados Unidos aos dezoito anos, depois de uma infância e adolescência vividas com grandes dificuldades. Tendo começado por valer-se de modestos empregos de recurso, viria a optar pelo estudo, acabando mesmo por se tornar num prestigiado professor universitário de reconhecido mérito. Doutorado pela UCLA (Universidade da Califórnia de Los Angeles), é professor catedrático de Português na Universidade de Amherst, Massachusetts.

Sendo um escritor bilingue, tem escrito tanto em Português como em Inglês, havendo feito já algumas traduções para esta língua.

Não sobrecarrega com adjetivos as suas narrativas, deixando que a realidade, ainda que ficcionada, se imponha por si mesma, o que lhes confere uma autenticidade que nos fica de imediato ao alcance dos sentimentos.

Dos seus livros em Português, destaca-se No vale dos Pioneiros/ narrativas da minha diáspora. Em Inglês, a obra de maior fôlego é, quase sem dúvidas, Hard Knocks: An Azorean-American Odissey.



D. S.




  1. Gaspar Frutuoso

[N. Ponta Delgada, 1522 – m. Ribeira Grande, 1591]

HISTORIADOR O autor das Saudades da Terra é considerado o «pai» da história açoriana. Estudou na Universidade de Salamanca entre 1553 e 1558, obtendo o grau de bacharel em Artes e em Teologia neste último ano. Obteve igualmente o grau de doutor, embora se desconheça onde. Durante a frequência da universidade salmantina, beneficiou da atmosfera cultural renascentista que lá se respirava e tomou contacto com autores e obras da Antiguidade Clássica. Vários documentos relativos ao vigário e cronista micaelense foram publicados no Arquivo dos Açores, onde, de igual modo, Ernesto do Canto deu a conhecer a um público mais alargado passagens das Saudades da Terra (I, 403-434, 458-466 e 536-541; II, 85-93, 172-186 e 188-190; X, 486-490; XII, 122-157). Muita da produção literária e teológica de Gaspar Frutuoso ter-se-á perdido, mas até nós chegou a sua obra maior, embora parcialmente amputada, as Saudades da Terra, manuscrito que teve uma existência atribulada após a morte do autor e que foi objeto de diversas cópias (Rodrigues, 1984). Gaspar Frutuoso, com as Saudades da Terra, pretendeu fazer um elogio aos Açores e às suas gentes, servindo o texto como um instrumento para a promoção do arquipélago junto da corte castelhana. Mobilizando a sua formação intelectual e toda uma vasta rede de contactos, Gaspar Frutuoso produziu uma narrativa no interior da qual as ilhas açorianas surgem devidamente integradas no mundo atlântico e insular de Quinhentos. Deste modo, concordamos com Miguel Tremoço de Carvalho (2001: 77) quando afirmou que o texto frutuosiano «denota uma visão globalizante do Atlântico, por um lado, e, por outro, o conhecimento da existência de um mundo insular». O início da redação da obra pode situar-se na década de 1580 e, desde então, quase até à morte, o cronista foi elaborando e atualizando os seis livros que compõem as Saudades da Terra. O Livro I é dedicado à história geral e do Atlântico, com ênfase nos arquipélagos das Canárias e de Cabo Verde e nas ilhas de Castela; o II tem como objeto a Madeira e fundamenta-se na narrativa de Jerónimo Dias Leite; o III aborda a ilha de Santa Maria; o IV, mais desenvolvido e rico de pormenores, concentra-se na história e geografia de S. Miguel; o V, conhecido como a «História de Dois Amigos da Ilha de São Miguel», é uma peça literária distinta, um texto ficcional que representa uma pausa na narrativa histórica anteriormente desenvolvida; e, por fim, o VI tem como fulcro as ilhas dos grupos central e ocidental. De acordo com Jorge Arrimar (1984: 50), a redação do livro V seria anterior à dos demais livros, pois apresenta-se composto «numa letra mais perfeita e harmoniosa do que os outros livros do códice frutuosiano», sugerindo ter sido redigido por um punho mais jovem e firme. A formação erudita e a leitura atenta de autores clássicos (Aristóteles, Heródoto, Tucídides, Virgílio, Cícero) e coevos (Garcia de Resende, João de Barros, Damião de Góis, António Galvão), que colocam Gaspar Frutuoso entre a elite cultural do seu tempo, revela-se ao longo da composição. Notemos que as referências clássicas são mais abundantes no Livro Primeiro e que, apesar do respeito pelas autoridades e pelos pares, Gaspar Frutuoso não hesitou em introduzir as correções necessárias, como fez em relação a Damião de Góis. O cronista recorreu também à «memória viva», consultando pessoas de idade avançada, contemporâneas ou testemunhas diretas de certos acontecimentos. A título de exemplo, citemos o caso de Manuel Martins Soares, «rico e grosso mercador e homem de delicado entendimento» (Livro Quarto das Saudades da Terra, I, 1977: 330), natural de S. Miguel, residente em Londres no ano de 1582 e a cujo testemunho Gaspar Frutuoso recorreu para, no Livro Primeiro das Saudades da Terra (1984: 218-223), descrever quer a longa viagem de circum-navegação do globo (1577-1580) empreendida por Sir Francis Drake, quer a casa que o navegador adquiriu em Plymouth após o seu regresso a Inglaterra. Na sua tentativa de recolher dados de forma exaustiva, sobretudo quando estava em causa a reconstituição de episódios ou trajetos de vida recuados no tempo ou relativos a personagens destacadas da sociedade local, Gaspar Frutuoso procurava socorrer-se de todas as fontes de informação ao seu dispor. Porém, para salvaguardar a possibilidade de lhe ter escapado algum pormenor, não deixa de alertar, como fez em relação às ações de Jordão Jácome Correia, o famoso capitão Alexandre: «Isto é o que pude alcançar de quem dele sabe e há visto seus papéis» (Livro Quarto das Saudades da Terra, III, 1987: 141). De igual modo, o autor mostrou-se um observador cuidadoso da geografia física, da fauna e da flora locais, apesar de tal se mostrar de forma mais evidente quando escreve sobre S. Miguel. Finalmente, refiramos que, no plano da genealogia e da história social, pelo facto da crónica frutuosiana se apresentar como o texto mais antigo no qual se podem recolher informações relativas à origem geográfica e social dos povoadores e às redes de relações que entre si teceram, Saudades da Terra representam um dos pilares da cultura genealógica local, em particular nas ilhas de Santa Maria e de S. Miguel. Apesar de alguns erros que se podem assinalar, mas que eram comuns à data da redação da crónica – mencionemos, como exemplo possível, a questão da cronologia do descobrimento e início do povoamento dos Açores –, as Saudades da Terra permanecem um repositório importante de informação para os dois primeiros séculos do povoamento das ilhas e constituem um monumento ímpar da historiografia açoriana. José Damião Rodrigues
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