Brevíssima Enciclopédia de Autores Açorianos



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FILOSÓFO As Saudades da Terra abrem com uma extensa reflexão sobre o sentido da dimensão histórica do homem e o alcance da luz esclarecida da razão para dominar os impulsos e promover o conhecimento da verdade. O pensamento de Frutuoso organiza-se no seio da mundividência do Génesis, de modo especial, da experiência do pecado e da culpa, em que o homem, após ter perdido a inocência que a relação direta com a Verdade e o Bem lhe conferia, vive uma situação de exílio expiatório, de errância, desterro, abandono e esquecimento. O pecado e a queda trouxeram a dissolução da perfeita harmonia entre o querer e o saber e criaram um ambiente de hostilidade entre o homem e a natureza, em que a morte constitui a maldição suprema e o livre arbítrio o afasta da autenticidade duma vida orientada pelos ideais da Verdade e da Justiça.

A liberdade concebe-se a partir da ordem incondicional da Verdade e do Bem, duas referências que revestem uma dimensão de exemplaridade e transcendem todos os condicionalismos naturais. A experiência do mundo e a ação humana compreendem-se, portanto, não apenas em função das variáveis que a ciência e a história procuram equacionar e elaborar, mas também em face dum horizonte de autenticidade que, embora só se explicite pela mediação dos acontecimentos que fazem a história, permitem considerar cada momento pela transcendência de um sentido incondicional que o ultrapassa. José Luís Brandão da Luz



LITERATO Como é típico da historiografia da época, na escrita e na conceção das Saudades da Terra confundem-se a história e a literatura, unidas na tentativa comum de sondar e explicar o próprio homem pelas suas ações e, ao mesmo tempo, de doutrinar e moralizar, propondo caminhos abertos pelos exemplos apresentados. Não se estranhará, pois, que o valor das Saudades da Terra não se resuma ao interesse da crónica, ao interesse do registo da história das ilhas.

A crónica de Gaspar Frutuoso submete-se, logo desde as primeiras páginas, a um registo literário e oralizante quando o leitor se depara com um longo lamento de uma personagem alegórica, a Verdade, filha do Tempo, que vive desterrada e hostilizada pelos homens («enjeitada»), saudosa da idade do ouro que imperara na sua ilha até chegarem os primeiros povoadores. É ela quem adiante contará à Fama a história dos arquipélagos, em parte para atender ao pedido que lhe é feito, em parte porque lhe é forçoso desabafar os seus males.

A arquitetura do diálogo perde-se nos longos discursos da Verdade, e as interrupções da Fama, que pede esclarecimentos ou comenta levemente o que ouve, não são suficientes para impor essa forma tão querida dos humanistas. No entanto, é suficiente para lembrar o valor alegórico e moralizante do discurso organizado pela Verdade. E, assim, se a Verdade, como é desejável, preside ao discurso da crónica, ao relato da história das ilhas, faz também pesar sobre ele um olhar desencantado (o mesmo olhar que parece presidir aos livros inacabados das Saudades do Céu, que seguem as Saudades da Terra no manuscrito de Gaspar Frutuoso e ainda hoje permanecem inéditos).

A trama alegórica e novelesca dos primeiros capítulos do Livro I imerge a obra no clima de tristeza nostálgica e desencantada típico da novela sentimental peninsular. Nesses capítulos, projeta-se a sombra tutelar da Menina e Moça de Bernardim Ribeiro, mesmo se as linhas de Frutuoso mostram também a influência do pensamento escolástico e um propósito permanente de doutrinação. Combinada com a erudição clássica, a influência da ficção da época torna-se novamente mais evidente na História dos Dois Amigos, novela que preenche o Livro V e deve ter sido planeada ou até escrita ainda antes do regresso às ilhas.

Os episódios cavalheirescos e sentimentais que se vão sucedendo na História dos Dois Amigos não são nem mais nem menos inspirados do que muitos outros escritos novelescos da época, mas no seu conjunto falta-lhes a imaginação poética que motivaria o enredo e tornaria natural a interpretação alegórica das situações a que as mais das vezes preside uma intenção moralizante. Como é típico do género, as aventuras e desventuras de Filomesto e Filidor são entremeadas por composições poéticas que, na sua variedade, dariam ao autor ocasião a ostentar a sua habilidade artística. No caso presente, se o talento poético não é imenso, o valor testemunhal impõe-se nestes poemas em que, por entre muitas lágrimas e alusões a outros textos literários, se louvam Boscán e Garcilaso de la Vega, Cristóvão Falcão (com alguns pormenores biográficos de interesse), Camões.

A imaginação manifestada por Gaspar Frutuoso é sobretudo a imaginação de um homem culto e habituado ao convívio das letras, de um homem que foi fortemente influenciado pelos clássicos e pelas correntes literárias em voga na sua juventude (os anos da sua formação académica correspondem ao pleno vigor da novela sentimental e de cavalaria, à publicação da Menina e Moça e à aceitação, em Portugal como em Castela, da poética italianizante), e agora procura na sua própria cultura a inspiração que uma vida de relativa tranquilidade não parece ter favorecido

O estilo de Gaspar Frutuoso não será exuberante e vigoroso como o de João de Barros, seu émulo confessado, e na sua crónica há muitas ocasiões em que a correção não é suficiente para apagar a monotonia retórica e imaginativa; no entanto, na sua mais característica contenção emocional legou-nos também páginas de verdadeira antologia, em que se sente a força do orador habituado ao púlpito na vivacidade com que evoca tradições e pequenas histórias, paisagens ou descrições de fenómenos naturais como as erupções e os tremores de terra, e com que recria os sentimentos de temor e religiosidade das populações. Maria do Céu Fraga

FILÓSOFO NATURAL Em Saudades da Terra, Frutuoso mostra-se atraído pela observação e pela interpretação dos fenómenos da natureza. Como refere Azevedo (1990), as referências ao meio natural em Saudades da Terra são de tal modo pormenorizadas que, permitem retirar desta obra informações com validade científica e de enorme importância para o estudo da História Natural do arquipélago. Mais, a formulação de hipóteses e sua confirmação, ou negação, isto é, o método científico, encontra-se patente em vários pontos desta obra, nomeadamente quando regista: «O João Damores era homem esperto nas coisas do mar e sobretudo curioso, a qual curiosidade das coisas não se acha senão nos que mais delas entendem, porque quem não entende nada, assim como não duvida nada, não procura saber o que não duvida e desta maneira fica ignorante, por não se saber maravilhar e duvidar das coisas que vê, da qual admiração e dúvida nasce a inquirição delas, e da inquirição a experiência, e da experiência a memória, e das muitas memórias a ciência (Livro II: 14)». Assim, a partir da observação [«admiração»] e do problema [«dúvida»] é formulada a hipótese [«nasce a inquirição»], que suscita a experimentação [«da inquirição a experiência»], do seu resultado [«a memória»], e das muitas experiências [«das muitas memórias»], advém a confirmação ou negação das hipóteses [«a ciência»].

O espírito observador de Frutuoso está evidenciado nas descrições dos fenómenos sísmicos e vulcânicos, que aconteceram no seu tempo, de muitas das plantas e das aves que então ocorriam, dos peixes, que eram apanhados mais frequentemente, e de alguns animais que encalharam nas praias.

Na narrativa da erupção do Pico do Sapateiro, na ilha de S. Miguel, em 1563, Frutuoso (Livro IV: 341) estabelece a cronologia dos diferentes acontecimentos e é inovador quando explica a formação do biscouto, designação usada para os mantos de lava basáltica com a superfície mais ou menos escoriácia [ver biscoito], registando: «Ambas estas ribeiras, resfriadas com o ar, se tornaram logo biscoutos ou biscoutaes de ásperas pedras, como outros muitos em muitas partes desta ilha semelhantes, e da mesma maneira já corridos muitos anos atrás, por muitas vezes, antes que esta ilha fosse habitada; os quais ninguém entendia, nem acabou de entender a origem e causa deles, senão depois que viram correr estas ribeiras de pedra derretida, que descobriram o segredo desta filosofia porque dantes havia diversas opiniões deles, como irei dizendo. [...] Mas, o tempo em nossos dias, com este segundo terramoto, descobriu a verdade disto, pois os biscoutos não são outra coisa senão umas ribeiras de fogo que de alguma matéria que do centro ou concavidade da terra, incendida com enxofre e salitre e outros materiais, saía derretida em diversos tempos e anos (como neste de sessenta e três) pelos pés e mais altos cumes dos montes, quase todos, como claramente suas bocas que neles se veem abertas, dão testemunho verdadeiro» (Livro IV: 342-343).

Frutuoso também foi pioneiro quando tentou classificar as rochas de S. Miguel, tendo em consideração a cor e a densidade, nomeando alguns elementos minerais (*acernefe, *atabona e *marquezite) que entram na constituição das pedras negras (basalto) (Livro IV: 372). Mais, segundo Canto-e-Castro (1890), ele determinou a causa da fluidez das lavas, reconheceu que o estado mais ou menos cristalino de uma rocha vulcânica depende do processo do seu resfriamento e afirmou que os basaltos são um produto da fusão ígnea de vários minerais.

O espírito investigante de Frutuoso levou-o à experimentação para explicar a formação da pedra-pomes, referindo: «Este material preto que, Senhora, digo, de que há grande cópia nas cavernas e centro desta ilha (fazendo eu, como alchemista (sic), experiência dele) pondo-o no fogo de preto se torna branco, e fervia tanto como fazendo-se todo em escuma que de pequena quantidade se tornava grande e de pouco muito, e resfriado ficava pedra-pomes, como a que saiu pelas bocas que o fogo fez na serra» (Livro IV: 354).

No tempo deste cronista ainda não tinha sido criada a Nomenclatura botânica, como a conhecemos hoje, mas pelos registos que fez é possível conhecer muitas das plantas que os descobridores encontraram e que integravam a cobertura vegetal indígena destas ilhas, como quando se refere a S. Miguel: «Estava esta ilha, logo quando se achou, muito cheia de alto, fresco e grosso arvoredo de cedros, louros, ginjas, sanguinho, faias, pau branco e outras sortes de árvores» (Livro IV: 229).

Também não era criada a Nomenclatura zoológica mas, por certos caracteres que anotou, podem ser identificadas algumas das aves que então povoavam ou visitavam as ilhas, como no Livro IV: 235: «Há também aqui petos e uns pássaros muito mais pequenos que as carreiras de Portugal, de cor parda, verde e amarela, que têm uma estrelinha na testa mui amarela e são muito mansos [ver estrelinha]; e há outros que chamam prioles, na serra, maiores que tentilhões, quase tão grandes como estorninhos e de cor parda; e outros de diversas maneiras, grandor e cores que se veem a tempos, pelo que parece serem de outra terra, para onde vão quando desta desaparecem». Algumas dessas aves já desapareceram como os petos (Dryobates minor), outras estão ameaçadas de desaparecer como o priôlo (Pyrrhula murina).

Mais, refere peixes e outras espécies marinhas que mais frequentemente se apanhavam no mar junto às ilhas do arquipélago e alguns animais gigantescos que encalharam nas praias. Dos primeiros, muitos dos nomes referidos são ainda hoje usados e portanto facilmente identificáveis as espécies a que aludem. Dos segundos, todavia, a identificação torna-se mais difícil, particularmente quando a descrição não resulta da observação de Frutuoso mas sim do que ouviu a outrem. Frutuoso tinha 14 anos, eventualmente estava em Angra (cf. Carvalho, 2001: 17), quando aconteceu o referido no Livro IV, página 261: «Na era de mil e quinhentos e trinta e seis ou sete anos [...] em uma angrada de calhau saiu um peixe que não era baleia, sem osso nem espinha, de quarenta e dois côvados em comprido e oito de largo, de quinze palmos de alto, e da ponta da boca até a da guelra tinha vinte e cinco palmos; o que vendo alguns homens disseram que, se abrira a boca, bem pudera caber e entrar por ela uma junta de bois com seu carro. [...]. Tinha da cabeça até ao rabo cintas pela banda de cima, por onde subiram os homens a ele, como sobem pelas cintas a um navio. [...] deitou pela ilharga tanto azeite claro, que bem pudera encher duas ou três pipas, [...]. Como disse, não tinha osso, senão um junto com o pescoço e outro perto da rabadilha, os quais não eram propriamente ossos, senão como cabos que todos se derretiam em azeite; e todo o mais dele era polpa sem osso e sem espinha. Os nervos eram de tal qualidade e tão rijos, que depois tiravam e arrastavam madeira na serra com eles, como com tamoeiros de arrastar, sem nunca quebrarem [...]». A descrição sugere tratar-se de um tubarão-baleia (Rhincodon typus) de dimensões exageradas (J. Azevedo, com. pessoal). As cintas referidas como existindo da cabeça até ao rabo são as cristas sobre a parte dorsal do corpo do adulto daquela espécie. O azeite claro libertado pela ilharga alude à gordura existente nesta espécie, particularmente no fígado. Os nervos rijos podem referir as cartilagens fibrosas das mandíbulas tornadas macias pela cozedura (Phil Heemstra, com. pessoal).

Menos clara é a descrição que segue a anterior, sobre o que «Disseram alguns [...] nas Índias de Castela [...] se chama peixe-mulo». Todavia, as dimensões relativas do comprimento e da largura do corpo, «Seria de noventa palmos de comprimento, dezoito de largo, e outros dezoito de alto», da cabeça, «quinze palmos», e da cauda, «outro tanto», sugerem tratar-se de uma manta de grandes dimensões (Phil Heemstra, com. pessoal), possivelmente Mobula mobular. Dorsalmente, elas são de cor escura, «preta», a musculatura é rija, «por ser a carne dele mui dura de cortar», e quase sem gordura, «peixe seco». A existência de barbatanas à volta da cabeça, «em lugar de guelras, [...] como tábuas de forro, com uns cabelos, como sedas nas pontas», denuncia a existência de barbatanas flexíveis, achatadas, com filamentos nas margens, que podem ser enroladas ou expandidas, como acontece nalgumas raias quando, alimentando-se, conduzem o plâncton para dentro da boca.

Esta última descrição está integrada na notícia de uma «mui travada batalha de três grandes peixes, por espaço de quatro ou cinco dias» em «junho de mil quinhentos e oitenta», ao sul de S. Miguel, «da Povoação Velha até a cidade». Dessa luta entre «dois peixes espadas», referindo *agulhão (= espadarte), e a raia descrita, resultou a morte daqueles e posteriormente desta, na sequência dos ferimentos recebidos, «de cujos golpes dizem que vinha aberto pela barriga». A palavra dizem, na expressão anterior, torna claro que Frutuoso não assistiu ao evento.

Enfim, a obra de Frutuoso tem passagens que permitem considerá-lo como precursor dos naturalistas que estudaram a natureza nos Açores, nos séculos XVIII e XIX. Os cientistas vieram depois.

Luís M. Arruda

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)




  1. Gervásio Lima

[N. Praia da Vitória, 26.3.1876 – m. Angra do Heroísmo, 24.2.1945] Escritor. Órfão de pai aos cinco meses de idade, começou cedo a trabalhar, após a conclusão dos estudos primários. Viveu na Praia até 1914, mudando-se depois para a cidade de Angra, onde exerceu funções de ajudante (1914-1917) e posteriormente de bibliotecário (1917-1945) na Biblioteca Municipal. Desde muito jovem revelou inclinação para as letras. Na área do jornalismo, fundou e dirigiu os periódicos A Primavera (1905), o Cartão (1903) e O Imparcial (1907-1913), todos na Praia da Vitória. Em Angra do Heroísmo, dirigiu O Democrata (1914-1920) e ABC (1920), Cantos & Contos (1935). Paralelamente, prestou uma vastíssima colaboração noutros periódicos angrenses. Utilizou os pseudónimos de João Azul, João das Ilhas, João do Outeiro e Tomé da Eira. Tornou-se proprietário da Tipografia Insulana Editora, nos anos 20, mas sem sucesso.

A sua vasta obra estende-se – tanto em prosa como em verso – pelo conto, teatro, etnografia e história. Foi no campo da história, não como investigador mas como escritor romântico, que deu largas ao seu patriotismo e amor à terra. Pouco preocupado com o rigor científico, deu alma e corpo a heróis terceirenses, transformando-os em verdadeiros mitos populares. Os seus textos, pela divulgação que tiveram junto de camadas mais populares, foram fundamentais para a construção de uma memória histórica terceirense. Parte do produto da venda de algumas das suas publicações era para obras de caridade. Morreu pobre e viu-se obrigado a pedir uma pensão a Salazar, nos finais dos anos 30, porque os seus rendimentos não eram suficientes para o sustentar a ele e à mãe. Empenhou-se na organização de eventos comemorativos de acontecimentos históricos, na organização de jogos florais e homenagens a terceirenses ilustres. Recolheu e publicou textos de cantadores populares, contribuindo assim para a divulgação dessa tradição. Foram-lhe prestadas homenagens pelas Câmaras Municipais de Angra (1928) e da Praia (1934) e pela Junta Geral do Distrito (1934). Tanto em Angra como na Praia foram colocadas placas nas casas onde viveu e faz parte da toponímia local.

Foi sócio efetivo fundador do Instituto Histórico da Ilha Terceira; sócio das Academias de Cádis e de Sevilha, das Sociedades de Geografia de Lisboa, Paris, Génève e Itália; sócio dos Institutos do Minho, de Coimbra e da Baía. Foi Cavaleiro da Ordem de Santiago.

Em termos políticos situou-se no campo republicano, nas proximidades do PRP, e apoiou publicamente a revolta dos deportados em 1931. Pelo facto, foi um dos poucos civis a ser punido, na qualidade de funcionário público, com 60 dias de suspensão. Esteve muito provavelmente ligado à maçonaria. O autógrafo de Magalhães Lima, no seu livro A Pátria Açoriana, pode ser um indício.



Carlos Enes

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)






  1. Heitor Aghá Silva

[N. Horta, 20.12.1954] Concluídos os estudos liceais, matriculou-se na Faculdade de Direito de Lisboa, tendo vivido na capital durante dois anos.

De regresso à sua ilha, começou a colaborar na imprensa local e obteve emprego numa instituição bancária, onde continua a exercer atividade profissional.

Começando a poetar desde a mais tenra idade, é autor de vários livros de poesia. Foi coordenador do suplemento cultural «Antília», do jornal O Telégrafo. Está antologiado em Nove rumores do mar (antologia de poesia açoriana contemporânea), de Eduardo Bettencourt Pinto (Instituto Camões, coleção Insularidades, 2000).

Assumindo-se na consciência reflexiva do ato poético, a poesia de Heitor H. inscreve-se numa certa inquietação metafísica e existencialista. O poeta questiona o universo, sonda o mistério da criação e da morte, problematiza o Homem, que aspirando à sua cósmica plenitude, se confronta e defronta com as quotidianas vicissitudes do mundo. Por outro lado, estamos perante uma poesia de dimensão amorosa e de exaltação à vida e à natureza. O homem açoriano surge-nos dividido entre o sonho e a viagem, estabelecendo-se, assim, uma relação entre a Ilha e o Mundo, funcionando a Ilha – memória primordial e iniciática do vivido e do sentido – como um símbolo e uma metáfora do Mundo.



Victor Rui Dores

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)






  1. Humberto Moura

[N. S. Roque, Ponta Delgada, ilha de S. Miguel, 26.8.1934] Havendo concluído o Curso Complementar do Comércio, foi empregado de escritório e guarda-livros. Em 1958 entrou para os Correios e Telecomunicações como Operador de Reserva. Em 1960 transferiu-se para a ilha do Faial, onde constituiu família. Durante largos anos chefiou a Estação Telegráfica da Horta, aposentando-se em 1989. Colaborou intensamente na imprensa diária faialense (principalmente n’O Telégrafo) em temas de opinião. Tem poesia dispersa por jornais.

É autor de três livros: Na Diáspora do Tempo – contos e novelas (1996); Errâncias de Pedra e de Sal contos (1998); Sismo na Madrugada – romance (2003).



Na Diáspora do Tempo possui como tema fulcral a emigração do povo açoriano, abordada numa dupla perspetiva: por um lado a emigração para as Américas e, por outro, a emigração inter-ilhas. As personagens carregam consigo o fascínio da lonjura e isto porque sofrem a mesquinhez, o mormaço, as limitações e o isolamento de uma sociedade fechada sobre si mesma.

Errâncias de Pedra e de Sal dá conta de uma época marcada pela repressão do sistema salazarista e caracterizada por vicissitudes mil. Algumas personagens emigram, outras fazem um sério ajuste de contas com o passado através de uma atitude progressiva de revolta, afirmação e busca de estatuto social.

Sismo na Madrugada é romance (de grande fôlego narrativo) sobre as feridas da alma e sobre os sismos da vida. Trata-se da história de um homem, Quevedo, saído muito jovem da ilha do Faial e que faz da errância a sua forma de perseguir a felicidade e o sonho. Jornalista de profissão, dividido entre a saudade e a lonjura, ele dará testemunho das inquietações e das perplexidades da Guerra Civil de Espanha e da Segunda Guerra Mundial. Qual outro Ulisses regressará à ilha já velho, estabelecendo o livro uma bem conseguida (e dialética) relação entre a ilha e o mundo.

A atravessar estes três livros está a fluência narrativa de Humberto Moura que traça personagens de grande densidade psicológica e riqueza humana.



Victor Rui Dores

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)






  1. Ivo Machado

Ivo Machado nasceu nos Açores em 1958. Ainda estudante do liceu revela-se como poeta em páginas académicas mas seria no jornal A UNIÃO de Angra do Heroísmo que, em março de 1977, viria a público o primeiro trabalho digno de registo. Tem participado com regularidade em diversos encontros de escritores, destacando-se — Correntes d’Escritas, Portugal; Salón del Libro Ibero-Americano de Gijón, Espanha; Cammino delle Comete, Itália, e Festival Internacional de Poesia de Sarajevo, Bósnia-Herzegovina. Tem feito leituras dos seus poemas em vários países, como Espanha, Itália, Estados Unidos, Bósnia-Herzegovina, Uruguay e Brasil. Parte da sua poesia está traduzida para castelhano, inglês, eslovaco, húngaro, italiano e bósnio. Tem colaboração dispersa por revistas literárias no país e estrangeiro, estando ainda representado em inúmeras antologias. Do primeiro livro, Fernando Lopes-Graça, musicou para canto lírico sete poemas a que chamou — Sete Breves Canções do Mar dos Açores. Em 1987 deixou as ilhas (onde ciclicamente regressa) para viver no Porto.

Publicou: Alguns Anos de Pastor, poesia, 1981; Três Variações de um Sonho, poesia, 1995; O Homem que nunca existiu, teatro, 1997; Cinco Cantos com Lorca e Outros Poemas, poesia, 1998 (homenagem particular ao poeta de Granada, tendo sido convidado a apresentar o livro naquela cidade andaluza durante as comemorações do centenário do nascimento de Garcia Lorca e, em fevereiro de 2002, traduzido e editado naquele país numa edição bilingue, pela LITERASTUR); Nunca Outros Olhos Seus Olhos Viram, novela, 1998; Adágios de Benquerença, poesia, 2001; Os Limos do Verbo, poesia, 2005; Verbo Possível, poesia, 2006. Ainda em 2006, publica Poemas Fora de Casa, antologia que reúne a sua poesia, celebrando assim os vinte e cinco anos da publicação de Alguns Anos de Pastor, seu primeiro livro.





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