Brevíssima Enciclopédia de Autores Açorianos



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Jacinto Monteiro

[N. Vila do Porto, ilha de Santa Maria, 20.11.1933 – m. ibid., 23.8.2003] Filho de Armando Monteiro da Câmara Pereira e de D. Leonor Rodrigues Velho Arruda, sendo neto do notável historiador mariense Dr. Manuel Monteiro Velho *Arruda. Pertencia a uma família de ilustres personalidades da vida cultural e política dos Açores, pois era irmão da poetisa Madalena Ferin, do ensaísta e poeta Armando Monteiro da Câmara Pereira, do escultor e pintor José Nuno da Câmara Pereira e de Fernando António Monteiro da Câmara Pereira que foi deputado à Assembleia Regional dos Açores e vereador da Câmara Municipal da Ribeira Grande. Sacerdote exemplar e notável investigador da história insular, começou por se licenciar em Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, para depois fazer o Curso de Teologia no Seminário dos Olivais, do Patriarcado de Lisboa.

Foi ordenado Presbítero pelo Cardeal Gonçalves Cerejeira no dia 29 de junho de 1968 no Pavilhão dos Desportos. Ao serviço do Patriarcado de Lisboa exerceu os seguintes ofícios eclesiásticos: coadjutor das paróquias de Belém e S. Francisco Xavier (19.1.1969); coadjutor das paróquias das Caldas da Rainha e da Serra do Bouro (27.9.1969); professor do Seminário de Penafirme (setembro de 1970) e coadjutor da paróquia de Olivais-Sul (30.8.1972).

Com autorização eclesiástica do Patriarca de Lisboa, o Padre Jacinto Monteiro veio residir para os Açores onde exerceu, entre outros, os seguintes ofícios eclesiásticos (conforme dados da sua ficha existente na Cúria Diocesana de Angra): provisão de pároco adjunto de Vila do Porto (21.9.1978); professor do Seminário Episcopal Angrense onde lecionou, entre outras, a cadeira de História da Igreja; nomeado assistente da Liga Operária Católica de Angra (24.3.1983); assistente das Conferências de S. Vicente de Paulo (29.3.1984); assistente da Obra da Cadeia (5.5.1984); Incardinado na Diocese de Angra (18.2.1994) e provisão de pároco in solidum e moderador das paróquias de Vila do Porto, Santa Bárbara e Santo Espírito e capelão do aeroporto da ilha de Santa Maria (11.8.1999).

Simultaneamente com a docência no Seminário de Angra, o Padre Jacinto Monteiro exerceu uma notável obra pastoral no Bairro Social do Lameirinho, em Angra do Heroísmo, dedicando-se de forma abnegada e solidária aos mais pobres, bem como na assistência espiritual a vários movimentos da Igreja.

Todavia, apesar desta grande dedicação apostólica e evangélica sempre reservou um espaço da sua vida para uma fértil e aprofundada investigação histórica traduzindo-se na sua participação em colóquios, congressos, artigos na imprensa e na publicação de diversos trabalhos.

Era sócio de número do Instituto Histórico da Ilha Terceira e sócio do Instituto Açoriano de Cultura.

João Maria Mendes

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)






  1. Jacinto Soares de Albergaria

[N. Ponta Delgada, 26.01.l928 – m. ibid., 12.09.1981] Poeta. Sendo finalista do Liceu de Ponta Delgada (Curso Complementar de Letras, 1945-46), fundou, com alguns condiscípulos e companheiros de tertúlia, o Círculo Literário de Antero de Quental, no qual, em 1949, viria a proferir uma conferência que daria origem a uma breve polémica na imprensa local em torno do conceito de literatura açoriana (Literatura Açoriana, 1. Teoria). Depois, em Coimbra, onde cursou Ciências Históricas e Filosóficas em 1946-52, fundou e dirigiu com Eduíno de Jesus a publicação de uma série de obras literárias de autoria açoriana com a chancela de Coleção Arquipélago, e mais tarde, tendo-se já fixado definitivamente em Ponta Delgada, foi ainda diretor de uma revista de «Cultura e Arte» intitulada Açória*, de que saíram apenas dois números, em 1958 e 1959. Profissionalmente, seguiu a carreira docente, lecionando na Escola Industrial e Comercial de Ponta Delgada. Faleceu vítima de esclerose disseminada, com pouco mais de 50 anos.

Os seus primeiros passos literários foram em prosa (fragmentos de narrativas que não chegaram a sair à luz) e depois ainda escreveu alguns contos que deixou dispersos em jornais dos Açores e do Continente. Para a poesia, em que havia de realizar a parte mais vultosa da sua obra, apenas despertou nos primeiros anos de Coimbra, sob a influência, principalmente, de Miguel Torga e dos poetas do Novo Cancioneiro. Aproximou-se então, embora apenas tangencialmente, da linha neorrealista, mas poucos poemas desta fase circularam na imprensa periódica e desses poucos só um ou outro veio a ser recolhido em livro. O que havia de ser o seu verdadeiro caminho como poeta, encontrá-lo-ia no convívio com Afonso Duarte, em Coimbra. Embora não seguindo propriamente no rasto do poeta dos 7 Poema Líricos, a sua poesia tornar-se-ia então intimista – uma espécie de monólogo ao espelho, em voz baixa – e o amor (um amor mais idealizado que real), a tristeza, o tédio, o sentimento da efemeridade da vida, a solidão, a noite, o silêncio, e, em fundo, a ilha com as suas brumas e fantasmas, preencheriam definitivamente o seu universo temático.

Eduíno de Jesus

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)






  1. João Afonso

(J. Dias A.) [N. Angra do Heroísmo, 27.08.1923] Escritor e jornalista. Técnico superior principal de bibliotecas e arquivos. Foi diretor da Biblioteca Municipal de Angra do Heroísmo e depois funcionário superior da Biblioteca Pública e Arquivo da mesma cidade. Entretanto fez estudos históricos sobre baleação e museologia, com estágios nos EUA (Nova Inglaterra e Califórnia) e no Reino Unido. Deve-se-lhe a organização do museu etno-histórico dos Baleeiros dos Açores, nas Lajes do Pico.

Na biblioteca de Angra, a que esteve ligado longos anos, bem como noutros arquivos nacionais e estrangeiros, tem realizado aturadas pesquisas no âmbito da história dos Açores (Açores em Novos Papéis Velhos, ed. do Instituto Histórico da Ilha Terceira, 1980) e da etnografia histórica açoriana (O Traje nos Açores, id., 1978, 2.ª ed. 1987) e procedido a um inventário exaustivo da bibliografia açoriana (Bibliografia Geral dos Açores, ed. Secretaria Regional da Educação e Cultura, em publicação). A sua longa carreira de jornalista está ligada, principalmente, aos jornais de Angra do Heroísmo Diário Insular e A União, no primeiro dos quais coordenou uma notável página de «Artes e Letras» durante 30 anos, de 1946 a 1978, apenas com uma interrupção entre 1959 e 1961, durante a qual foi redator da antiga Agência Nacional de Informação, em Lisboa. Tem feito conferências e participado em diversos congressos no país e no estrangeiro. Algumas das suas conferências foram proferidas em universidades norte-americanas, como Harvard, Brown, Arlington, Honolulu, etc.

Como poeta, surge no âmbito do modernismo insular de meados do século com uma poesia em que se reconhece um pouco o torneio da frase nemesiana, mas cuja genuinidade o próprio Nemésio foi o primeiro a acentuar, sublinhando a «vaga fluidez» da sua expressão, a qual «lhe permite conseguir às vezes admiráveis efeitos de simplicidade e pureza». Em alguns poemas publicados na imprensa periódica usou o pseudónimo de Álvaro Orey.

Publicou três opúsculos de poesia intitulados Enotesco, Angra do Heroísmo, s.d. [1955], Pássaro Pedinte e Ruas Dispersas (com prefácio de Vitorino Nemésio), Lisboa, 1960, e Cantigas do Terramoto para Ler e Passar, Angra do Heroísmo, 1980, bem como numerosos ensaios e estudos sobre temas de história, literatura e etnografia dos Açores, de que destacamos – além dos citados e de muitos outros dispersos ou publicados em opúsculo – Garrett e a Ilha Terceira, ed. da Câmara Municipal de Angra do Heroísmo, 1954; Antero de Quental e o Pensamento da Revolução Nacional, Lisboa, 1967; Açores de Outrora na



Ilha Terceira Daqueles Tempos, ed. Inst. Açoriano de Cultura, 1978; Memoração Ribeiriana (sobre Luís da Silva Ribeiro), ed. Inst. Histórico da Ilha Terceira, 1982; Notabilidade de Dacosta, Angra do Heroísmo, 1983; O Galeão de Malaca no Porto de Angra em 1659: Um Processo Judicial Linschoten, ed. Inst. Histórico da Ilha Terceira, 1984; Baleias e Baleeiros Açorianos nos Sete Mares e Ancorados nas Suas Ilhas, Angra do Heroísmo, 1988. Organizou, anotou e prefaciou: Luís Ribeiro, Subsídios para Um Ensaio sobre a Açorianidade, Angra do Heroísmo, coleção «Ínsula», 1964; id., Obras, 3 vols., ed. Inst. Histórico da Ilha Terceira / Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1982-1983.

Eduíno de Jesus

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)





  1. João Ângelo

João Ângelo Vieira nasceu em 1935, na freguesia de São Bartolomeu dos Regatos, da Ilha Terceira, terra com fortes tradições nas cantigas ao desafio. No dia dez de junho deste ano da graça de 2009, foi condecorado com a Ordem de Mérito.

Dotado naturalmente de um sentido de humor muito acentuado, impõe-se sem necessidade de recursos a esgares ou gestos histriónicos. A sua figura em qualquer palco é de um aparente alheamento que realça mais ainda a graça com que canta, mesmo quando a cantiga vai por caminhos mais pícaros.

Álamo Oliveira, poeta de outras letras, disse que a sua fascinante personalidade se caracteriza pela “simplicidade sedutora, que o superioriza sem que ele disso se aperceba”. João Ângelo, que já escreveu para danças de Carnaval, tem-se distinguido sobretudo a cantar as “velhas”, um costume exclusivo da Terceira que se assemelha às cantigas trovadorescas de escárnio e mal-dizer.

As “velhas” são normalmente um desafio entre dois cantadores, e devem o nome à referência frequente a uma velha, quase sempre dita avó do adversário no despique. Compostas por estrofes de dez versos, com dois tercetos e uma quadra, a sua principal característica são os segundos sentidos e as alusões brejeiras. Isto mesmo está explicado na primeira das duas “velhas” de João Ângelo, a seguir reproduzidas, e exemplificado na segunda.


Vamos cantar umas velhinhas
Um pouco atrevidinhas,
Mas não fiquem ofendidos.
Porque quando as velhas vêm
Quase sempre elas têm,
Meus senhores, dois sentidos.
Saudar-vos é o meu desejo,
Sem que haja exceção,
A toda a gente que vejo
Nas festas de São João.

Às velhas deste lugar


Eu as quero saudar
E dar o meu cumprimento.
Há solteiras e casadas
E as que estão lembradas
Do dia do casamento.
E alguma sem marido
Nunca faça má ação.
Eu também tenho vivido
Das esmolas que me dão.

D.S.




  1. João Duarte de Sousa

[N. Velas, ilha de São Jorge, 23.10.1862 – m. Angra do Heroísmo, 29.05.1909] Foi um autodidata e desde muito novo escrivão na Câmara Municipal da sua vila e depois secretário da mesma Câmara (1886).

Foi elemento destacado do Partido Regenerador e por isso afastado do seu cargo camarário pelos adversários políticos, depois de escassos oito anos de exercício, passando a residir em Angra do Heroísmo com a família. Nesta ilha foi administrador do concelho da Praia da Vitória e ainda secretário da Polícia Repressiva da Emigração Clandestina.

Publicou em 1897 um trabalho sobre a história e a topografia da ilha de São Jorge, intitulado Ilha de São Jorge. Apontamentos históricos e Descrição Topográfica, hoje uma raridade bibliográfica, que conheceu uma segunda edição preparada por Artur Teodoro de Matos. Dedicou-se ao jornalismo colaborando em O Ilhéu, de São Jorge, e A Terceira, ambos órgãos do seu partido. João Afonso, recolheu e publicou em livro um conjunto de crónicas publicadas em A Terceira (1898), intituladas Reminiscências Velenses. Usa de prosa escorreita e em ambos os escritos transmite informações do maior interesse para a história da ilha de São Jorge, pois era um observador arguto e bem informado.

O seu conterrâneo, Silveira Avelar, na sua obra A ilha de São Jorge (Açores), de 1902 é um crítico impenitente das insuficiências da obra de J. Duarte de Sousa.



J. G. Reis Leite

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)






  1. João Ilhéu (Frederico Lopes)

[N. Praia da Vitória, ilha Terceira, 31.5.1896 – m. Angra do Heroísmo, 6.2.1979] De seu nome completo Frederico Augusto Lopes da Silva Jr. usou o pseudónimo de João Ilhéu com o qual publicou a maior parte da sua obra, principalmente a literária, mas também usou Frederico Lopes e mais raramente Frederico Lopes da Silva.

Estudou nos liceus de Angra do Heroísmo e Ponta Delgada, que terminou em 1915. Matriculou-se no Instituto Superior de Agronomia, mas mobilizado acabou por seguir a carreira militar matriculando-se na Escola de Guerra, terminando o curso de Infantaria. Foi sucessivamente promovido a alferes, 1918; tenente, em 1922; capitão, em 1938; major, em 1946; tenente-coronel, em 1952. Passou à reserva em 1954, e à reforma em 1966.

Foi comandante do Batalhão I.I. 17, aquartelado no Castelo de S. João Baptista, onde aliás passou a maior parte da sua carreira militar. Na reserva serviu na Base Aérea 4, como presidente do Conselho Administrativo.

Ocupou o cargo de presidente da Câmara de Angra do Heroísmo em 1933, provedor da Santa Casa da Misericórdia da Praia da Vitória, 1941, e de Angra do Heroísmo, 1949, presidente da Direção do Montepio Terceirense, 1960, e vários outros cargos de índole social.

Distinguiu-se essencialmente como poeta, contista, autor teatral, etnógrafo e jornalista. Toda a sua obra é de índole regionalista e etnográfica e interligada por uma ideia base da identidade açoriana e da força criadora da cultura popular. Os seus versos, os seus contos, as suas peças teatrais, todas elas estão marcadas por essa opção de ir beber à fonte popular a inspiração e os ensinamentos, ainda que muitas vezes idealizando o povo, dando dele uma imagem romântica e desfasada da realidade.

Obteve sempre grandes êxitos literários junto dos seus leitores fieis e do grande público, principalmente com as suas obras para o teatro musicado, no género opereta, em colaboração com músicos da sua geração. A mais conhecida obra sua neste campo foi Água Corrente, com música de Henrique Viana da Silva e que foi sucessivamente representada entre 1928 e 1962, na Terceira, em S. Miguel e no Faial.

Foi sócio fundador do Instituto Histórico da Ilha Terceira, onde desenvolveu um aturado e continuado trabalho de investigação e teorização sobre etnografia, sendo discípulo de Luís da Silva Ribeiro. A sua obra etnográfica, que é fundamental para se entender o regionalismo açoriano da primeira metade do século XX, encontra-se recolhida num volume, Notas Etnográficas.

Foi, também, com menos êxito, divulgador de temas de história açoriana, sob um prisma da história biográfica de enaltecimento dos heróis insulares no seu contributo para o engrandecimento da pátria comum.

Como jornalista, fundou o Jornal de Angra, em 1933, que marca pelo seu programa renovador na imprensa local e pela qualidade técnica e artística das suas edições. Além disso foi colaborador assíduo de A União, com rubricas de crítica social e política.

Por último é de destacar a sua faceta de animador cultural incansável, através de palestras e montagem de espetáculos, sendo dos primeiros nos Açores a usar a rádio como veículo de comunicação cultural.

Foi sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa, do Instituto Cultural de Ponta Delgada e do Instituto Açoriano de Cultura e condecorado com a Ordem de Cristo e de S. Bento de Avis. J. G. Reis Leite

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)






  1. João Luís de Medeiros

João Luís de Medeiros é natural de São Roque, São Miguel, Açores (dezembro, 1941).

Em finais de 1980, emigrou com a família para os E.U.A. Presentemente, vive no sudoeste da Califórnia e trabalha como agente consultivo em Recursos Humanos. Ainda em Portugal, após a instauração da Democracia, foi eleito Vereador municipal de Ponta Delgada; foi membro eleito à Primeira Legislatura da Assembleia Legislativa Regional, em 1976); e, mais tarde, serviu como representante açoriano na Assembleia da República (1978).

As suas publicações em poesia e prosa estão dispersas em jornais e revistas da diáspora lusófona. Desde 1976, é colunista convidado da imprensa comunitária (coluna Memorandum). É coautor do livro “Em Louvor do Divino” (1993). Em 2007 publicou o seu primeiro livro de poemas intitulado “(Re)verso da Palavra”.

É licenciado ‘cum laude’ em Humanidades e Ciências Sociais (University of Massachusetts, Dartmouth); mais tarde, obteve o Mestrado em Ciências de Recursos Humanos (Chapman University, Orange, Califórnia).

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)




  1. João de Melo

[N. Achadinha, S. Miguel, 4.2.1949] Aos 10 anos, partiu para Portugal Continental, acabando por se fixar em Lisboa. É mobilizado para Angola, entre 1971 e 1974, como furriel enfermeiro. Entre outras atividades, foi editor, crítico literário e colaborador da imprensa cultural. Licenciou-se em Filologia Românica e lecionou nos ensinos secundário e superior. É atualmente conselheiro cultural na Embaixada de Portugal, em Madrid. Publicou uma vasta obra (conto, ensaio, poesia, romance...), traduzida em mais de dez países, tendo sido galardoado com inúmeros prémios literários.

Na sua obra, João de Melo enlaça poeticamente a dinâmica do quotidiano, essencialmente urbano, à vivência insular. É frequente encontrar um narrador geográfico e/ou intelectualmente errante que divaga por entre as ruas de uma qualquer urbe em paralelo com o devaneio da própria alma. Conciliam-se, ainda, o romance, a crónica e a poesia num hibridismo genológico que surpreende pelo processo consciente da criação da escrita.

No tratamento da imagética citadina ou insular e nos cenários intimistas apresentados, o autor revela um apurado sentido crítico sobre a sociedade, a política e a literatura. Joga-se habilidosamente com intertextos diversos, para além de os homo-autorais, formando núcleos ficcionais embrionários que se expandem nas várias obras publicadas.




  1. Paula Cotter Cabral

Principais obras publicadas: (1975), Histórias da Resistência. Lisboa, Prelo [contos]. (1977), A Memória de Ver Matar e Morrer. Lisboa, Prelo [romance]. (1980), Navegação da Terra. Lisboa, Editorial Vega [poesia]. (1983), O Meu Mundo não é deste Reino. Lisboa, Assírio Alvim [romance]. (1984), Autópsia de um Mar de Ruínas. Lisboa, Assírio Alvim [romance]. (1987), Entre Pássaro e Anjo. Lisboa, Círculo de Leitores [contos]. (1988), Os Anos da Guerra. Lisboa, Círculo de Leitores, 2 vols. [antologia ]. (1988), Gente Feliz com Lágrimas. Lisboa, D. Quixote, Círculo de Leitores [romance]. (1992), Bem-Aventuranças. Lisboa, Dom Quixote [contos]. (1994), Dicionário de Paixões. Lisboa, Dom Quixote [crónicas]. (1996), O Homem Suspenso. Lisboa, Dom Quixote [romance]. (2000). Açores, O Segredo das Ilhas. Lisboa, Dom Quixote (2000, viagens). (2003), As Coisas da Alma. Lisboa, Dom Quixote [conto]. (2006), O Mar de Madrid. Lisboa, Dom Quixote [romance]. Aguarda-se para breve: A Nuvem no Olhar (antologia pessoal) e O Vinho (com desenhos de Paula Rego).

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)






  1. João Plácido

João Plácido de Medeiros nasceu no lugar da Lombinha da Maia, em 25/06/ 1911. Foi um dos cantadores mais famosos e apreciados nos tempos áureos das cantigas ao desafio. Senhor de uma grande capacidade de improvisar, ficaram famosas na memória popular algumas das suas respostas perante adversários também de grande valor e de características semelhantes. De uma das muitas cantigas ao desafio em que participou, não falta quem repita ainda a picardia com um rival de outra freguesia, que entrou por um caminho algo brejeiro, naquele à-vontade tão frequente deste tipo de cantorias.

Disse-lhe o contendor:

“Eu trouxe uma carrada

De cornos para a Lombinha.

Cheguei cá, não vendi nada,

Porque toda a gente tinha.”

A resposta de mestre João Plácido foi imediata:

“Tu trouxeste uma carrada,

Trouxesses duas ou três,

Porque é da lenha mais grada

Lá da mata de vocês.”

Eram momentos como este que faziam das cantigas ao desafio, cujo interesse tem vindo a ser recuperado, espetáculos muito apreciados por multidões de entusiastas.

João Plácido, que emigrou para o Canadá, faleceu em Hamilton, em 25/06/1983.

A Junta de Freguesia da Maia atribuiu o seu nome à rua onde viveu, na Lombinha da Maia, tendo sido erguido, a recordá-lo, um pequeno monumento, oferta do emigrante Pedro Pimentel Pacheco, executado pelo escultor Rolando Lalanda.

D. S.




  1. Joel Neto

Joel Neto nasceu em Angra do Heroísmo, em 1974. Publicou “O Terceiro Servo”(romance, 2000), “O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas” (contos, 2002), “Al-Jazeera, Meu Amor” (crónicas, 2003), “José Mourinho, O Vencedor” (biografia, 2004), "Todos Nascemos Benfiquistas – Mas Depois Alguns Crescem" (crónicas, 2007) e "Crónica de Ouro do Futebol Português" (obra coletiva, 2008). Está traduzido em Inglaterra e na Polónia, editado no Brasil e representado em antologias em Espanha, Itália e Brasil, para além de Portugal.

Jornalista, tem trabalhado como repórter, cronista, comentador, apresentador e autor de conteúdos.






  1. José Enes

[N. Lajes do Pico, Pico, 1924] A vida pública e a obra escrita de José Enes – o mais importante pensador açoriano posterior a Antero de Quental e Teófilo Braga e um dos mais importantes filósofos portugueses do século XX, de formação em escolástica tomista na Universidade Gregoriana de Roma (1945-1950 e 1964-1966), professor da Universidade Católica Portuguesa entre 1968 e 1973, e, a partir de 1976, professor e primeiro reitor da Universidade dos Açores, jubilando-se como vice-reitor da Universidade Aberta (1992-1994) – têm sido atravessadas por três explícitas paixões: a Poesia, os Açores e a Filosofia.

Das três, a Poesia, no campo da prática versatória, esgotou-se em 1960, com a publicação de Água do Céu e do Mar, seu único livro de poemas, e, no campo da crítica literária e da teoria da arte, em 1964/65, com a publicação de A Autonomia da Arte. Neste mesmo ano, José Enes troca os Açores, onde, desde 1953, fora professor no Seminário Episcopal de Angra do Heroísmo, por Lisboa, partindo depois para «Roma a preparar a tese de doutoramento», investigando na «Itália, Canadá e Estados Unidos». Em 1969, publica a tese de doutoramento, intitulada À Porta do Ser, defendida no ano anterior e agraciada com medalha de ouro e distinção Summa cum laúde.

José Enes publicou sete livros em cerca de meio século de escrita – a média de um livro de sete em sete anos. Se considerarmos exclusivamente os livros de filosofia, o primeiro de 1965, A Autonomia da Arte, o último de 1999, Noeticidade e Ontologia, reduzem-se a cinco, uma média de um livro por década. Com exclusão do primeiro livro de filosofia, versando sobre a Arte e a Moral, os restantes quatro, no seu todo e na sua essência, podem ser reduzidos a um só, À Porta do Ser, de 1969. Deste modo, se excluirmos A Autonomia da Arte, livro em que, devido à metodologia historicista empregue, certamente o autor não se reconhecerá hoje, José Enes é o único autor português do século XX cujo pensamento se reduz a um só livro – e livro que revolucionou radicalmente o pensamento filosófico religioso institucional português, fortemente centrado, até à década de 60, ora num tomismo puro e duro, ora num tomismo beijado pela fenomenologia, ora num tateamento teórico de procura de novos horizontes sem assunção de teoria substituta. Neste sentido, À Porta do Ser estatui-se como a tese de doutoramento mais importante do século XX no campo da filosofia, tanto revolucionando a linguagem tomista quanto mantendo-se-lhe fiel, culminando-se assim, em 1969, com a sua publicação, a deriva teórica desta corrente filosófica em Portugal ao longo das décadas de 50 e 60. Efeito da sua sombra poderosa, desde então nenhum livro importante de filosofia tomista foi publicado em Portugal por autor português.

Face ao pensamento português do século XX como um todo, os estudos de José Enes – ainda que fortemente individualizados, prosseguidos entre os Açores, Lisboa e Roma – devem ser integrados na revitalização do pensamento tomista, desde a sua refundação por Martins Capela, Fernandes Santana e os padres fundadores da Brotéria em 1902. À Porta do Ser corresponde à e culmina a primeira crise desta doutrina filosófica após a fundação da Revista Portuguesa de Filosofia, em 1945, pressionada,

ao longo da década de 50, seja pelas ontologias existenciais e personalistas, seja pela fenomenologia husserliana. Publicado em 1969, cruzando e sintetizando estas duas últimas inspirações com a ossatura sistemática do tomismo, À Porta do Ser emerge como o cúmulo desta tradição de quase 100 anos, refundando o tomismo através da abertura a um novo horizonte interrogativo, para o qual muito contribuiu a inspiração da hermenêutica do «segundo» Heidegger.

Miguel Real

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)




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