Brevíssima Enciclopédia de Autores Açorianos



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Mário Cabral

S. Mateus, ilha Terceira, 9.7.1963] Professor e poeta. Licenciou-se em Filosofia na Universidade Clássica de Lisboa e é professor na Escola Secundária Padre Jerónimo Emiliano de Andrade, na sua cidade natal. Tem-se dedicado ao estudo do tema Da Filosofia à Santidade – os Fundamentos Cristãos do Pensamento Português.

Tem-se feito notar como um dos melhores poetas da moderna poesia açoriana, estando mesmo representado em antologias, uma de novos autores portugueses e outra mexicana, intitulada Ventana a la Nueva Poesia Portuguesa. Assina uma crónica semanal intitulada Cassandra, no jornal A União.

Dedica-se também à pintura, tendo participado em exposições coletivas. J. G. Reis Leite

Obras. (1995), Histórias de uma terra cristã (crónicas). Horta. (2000), O meu livro de receitas. Guimarães, Ed. Pedra Formosa [poesia]. (2001), Livro das configurações. Porto, Campo das Letras.

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)






  1. Martins Garcia

[N. Criação Velha, Pico, 17.2.1941 – m. Lagoa, S. Miguel, 3.11.2002] Escritor e professor universitário (Universidade de Lisboa e principalmente Universidade dos Açores, onde chegou a ser Vice-Reitor). Tanto a sua carreira de professor e de crítico literário, como a de escritor, o tornam digno de referência na sua geração. Bom aluno desde a escola primária, já nessa fase dizia querer ser escritor e mostrava propensão para as Letras. Fez estudos secundários na cidade da Horta (até ao 5.o ano) e em Lisboa completou o 6.o e 7.o anos no Liceu Pedro Nunes, conhecido pela qualidade do seu ensino e pela existência de metodólogos, que orientavam e avaliavam os então raros estagiários do ensino secundário. Essa vivência em Lisboa, ainda como adolescente, deu-lhe imagens da capital que a sua obra literária não esquece (as casas de hóspedes, os cafés, as dificuldades financeiras, a mediocridade do quotidiano). Licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa em 1969, tendo sido aluno de Vitorino Nemésio, Jacinto Prado Coelho, Lindley Cintra (de quem viria a ser assistente algum tempo), Maria de Lurdes Belchior, David Mourão-Ferreira (cuja «biografia» literária viria a escrever e de quem ficou amigo toda a vida). Nemésio e Pessoa foram suas preocupações críticas, objeto de trabalhos académicos e «modelos» estéticos de forte referência. Além de aluno, José Martins Garcia conviveu cedo com Nemésio em viagens de navio entre Lisboa e os Açores (anos 60), o que proporcionou algumas confidências literárias do autor de Mau Tempo no Canal. Entretanto, tem de cumprir serviço militar na Guiné entre 1966 e 1968. José Martins Garcia foi leitor de Português em Paris (1969-1971), depois assistente de Linguística Geral na Faculdade de Letras de Lisboa (1971-1979), Professor-visitante na Brown University (E.U.A.) e em seguida vem para a Universidade dos Açores (1985), onde se doutorou com uma tese intitulada Fernando Pessoa. «Coração Despedaçado» (Subsídios para um estudo da afetividade na obra poética de Fernando Pessoa), trabalho publicado pela Universidade dos Açores nesse mesmo ano. Era, de resto, um projeto que já trazia adiantado dos Estados Unidos: um trabalho que, segundo David Mourão-Ferreira, o coloca «na primeiríssima fila dos grandes especialistas da obra de Fernando Pessoa» (veja-se «Uma dissertação modelar sobre Fernando Pessoa», in Nos Passos de Pessoa. Ensaios. Lisboa, Presença, 1988: 155). Professor na Universidade dos Açores, José Martins Garcia lecionou primeiramente Linguística, depois direcionou-se para a Literatura (como era seu preferente gosto), vindo a ocupar a cátedra de Teoria da Literatura até se aposentar. O seu lado de docente e de crítico é faceta muito importante da sua personalidade, na qual se cruzam, aliás, o criador, o crítico, o professor. Vitorino Nemésio. A obra e o homem (Lisboa, 1980), em 2.a edição revista e aumentada, Vitorino Nemésio – à luz do verbo (Lisboa, Vega, 1988) é uma brilhante tentativa de visão global da obra e da personalidade de Nemésio, que só não o faz o primeiro «biógrafo» daquele escritor pelo horror que Martins Garcia teria – e tinha! – a uma interpretação biografista simplista, bem longe da sua sagacidade critica e da sua intuição estética. De facto, essa biografia sem biografismo põe a tónica sobretudo na poesia e ainda mais na ficção, não podendo abarcar com igual desenvolvimento outros aspetos de Nemésio cronista e historiador. Mas Temas Nemesianos (SREC, Angra do Heroísmo, 1981) e outros artigos e intervenções sobre Nemésio, em congressos ou conferências, garantem uma ocupação dedicada em relação à obra do «mestre», de quem foi aluno e que «explicou», na sua diversidade e riqueza, em cursos na Universidade. Essa «explicação» fez-se também em função de uma panorâmica mais larga e identitária, que lhe permitiu publicar Para uma Literatura Açoriana (Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1987), obra na qual não só volta a dar atenção a Nemésio como a Roberto Mesquita.

Também dedica ao seu antigo professor e amigo David Mourão Ferreira, A Obra e o Homem (1988). Ainda títulos como Linguagem e Criação (Ensaios) (1973), Cultura, Política e Informação (Ensaios) (1976), Exercícios da Crítica (Lisboa, Salamandra, 1995), (Quase) Teóricos e Malditos (1999) demonstram fecunda atividade intelectual. De resto, o ensino de Literatura não é só campo de aplicação de teorias, mas uma prática viva, que, como professor, queria ver preservada nos alunos mais amadurecidos. Nem à sua habitual mordaz ironia escapava a própria crítica, quando sujeita a exagereros da semiótica, que então entendia ironicamente como semi+óptica (ver só com um olho...). No prefácio a Exercícios da Critica (1995) não receia mesmo invocar o velho enigma de sedução do tal quid inexplicável na arte verbal, embora saiba encarecer a exigência de rigor analítico (e filológico) que nunca lhe faltaram.

Como poeta, destaquem-se Feldegato Cantabile (1973), Invocação a um Poeta e outros poemas (1984). Temporal (publicado nos E.U.A, Providence, Gavea Brown, 1986), que é um amargo testemunho do «exílio» americano nos anos 80 após desentendimentos com alguns docentes da Faculdade de Letras de Lisboa no ambiente pós-revolucionário. No Crescer dos Dias (Lisboa, Salamandra, 1996) será talvez um dos seus melhores livros de poemas, pois a ressonância de Fernando Pessoa liga-se à isotopia da insularidade, que se inscreve num ritmo anafórico de apreensão angustiada do tempo vivido, que é cíclico, em «eterno retorno» dos dias e das estações. Mas não se pode esquecer a importância que a passagem pelos Estados Unidos – julgada como «desterro» definitivo! – teve no sujeito de um lirismo de dor e desespero, lembrando o país «maldito» e a vida que nele sonhou. É essa a forte tónica de Temporal (publicado já o autor se encontrava nos Açores):
«só eu sou o sem deus a contas só comigo» («Das imensas crenças»)

...


«sol ventado e brincando nas crianças sobre a relva americana deste meu exílio»

...


«a saudade futura a amnésia ambígua rolam dentro de mim em sílabas perdidas restos reduções porções ruínas sonoras seduções acentos rimas  e outras páginas que já esqueci» («Amnésia defensiva»).

...


«se ao menos eu pudesse chorar! Chorar de riso o que /ainda seria o

mais saudável.

Mas não, estou farto de coisas risíveis, estou farto dos outros /estou

fartíssimo de mim.» («Versos de Pé de Galo»)

O longo poema «Versos de Pé de Galo» (de Temporal) é um bom exemplo, se não um dos melhores, do tedium vitae, do isolamento intelectual e espiritual, do sentimento de decadência nacional, da amargura ácida que pairam em toda a sua obra.

A sua obra ficcional é mais conhecida e abundante. Alguns seus contemporâneos contam que terá ensaiado ficção ainda aluno da Universidade e terá mostrado a amigos. O livro não agradou e, num ataque de fúria, o terá destruído, na lareira da casa onde habitava no Conde Redondo. Martins Garcia era um temperamental a quem a experiência da guerra na Guiné ainda abalou mais os nervos. No serviço da cifra e na fronteira (1966-1968) Martins Garcia ficou muito fortemente marcado pela experiência das privações, pela violência do primum vivere, pelas incertezas do quotidiano da guerrilha. Esse mundo, enraivecido e descabelado, é dado, com a hipertrofia da ficção, em Lugar de Massacre (escrito entre dezembro de 1973 e setembro de 1974, i. é, acabado no ambiente de liberdade de escrita pós 25 de abril). Lugar de Massacre (1.a edição, 1975, reeditado em 1991 pelo Círculo de Leitores e com 3.a edição, Lisboa, Salamandra, 1996) é não só tipologicamente uma obra de literatura ligada à guerra colonial, como um típico documento da ficção hipertrófica e violenta de Martins Garcia. O Pierre Avince de Lugar de Massacre é porta-voz de um violento protesto contra a experiência de guerra, a mobilização «forçada» e caótica, a precaridade de meios. De algum modo, massacre será uma ideia e um sentimento que subjazem em toda a obra de Martins Garcia, como forma de apreensão da vida por um ser humano descontente com ela e nela vendo sempre objeto de forte sarcasmo. Destacam-se ainda, além do romance citado, A Fome (1978), O medo (1981), Imitação da Morte (1982), Contrabando Original (1987), Memória de Terra (1990); constituem contos Katafaraum é uma Nação (1974). Alecrim, Alecrim aos molhos (1974), Revolucionários e Querubins (1977), Receitas para fritar a humanidade (1978), Morrer Devagar (1979), Contos Infernais (1987), Katafaraum Resurrecto (edição do autor, 1992). Como peças de teatro devem-se-lhe Tragédia Exata (1975) e Domiciano (1987), este premiado pela Secretaria Regional da Educação e Cultura do Governo Regional dos Açores.

Fez também algumas traduções e estudos introdutórios para volumes das Obras Completas de Vitorino Nemésio (Imprensa Nacional/Casa da Moeda), nomeadamente para Varanda de Pilatos, Mau Tempo no Canal, Sob os Signos de Agora e Conhecimento de Poesia.

Na obra de ficção de Martins Garcia nota-se ironia, sarcasmo e amargura. Não só são evidentes algumas notas disfémicas na reconstituição de alguns ambientes de Lisboa, quer dos anos de estudante, quer mesmo do 25 de abril (veja-se O Medo), como a recordação de uns Açores de infância e adolescência, iluminada depois pelas leituras de história e pela própria reflexão. Ficamos então com uma imagem de ilhas ignotas, caracterizadas por pobreza real e pobreza cultural, por uma religiosidade primária e quase grotesca, por uma aridez do clima e das pessoas. Talvez pensando em especial no Pico da sua infância, lhe ficou esse mundo árido, amargo, injusto, que se esconde porém por detrás de uma paisagem muito bela. A Fome (1978) é uma amarga narração de vivências do estudante das ilhas «perdido» no continente, mas é também um mundo fantástico e simbólico, no qual embrecha uma narrativa histórica do padre António Cordeiro. Há realismo amargo na viagem «paradigmática» dos navios da Insulana (as privações e horrores do enjoo em segunda ou terceira classes de um paquete velho!), o destino incerto do estudante, os anos difíceis da capital no fim do regime salazarista. Mais do que a habitual violência verbal, A Fome aponta para uma fome simbólica (isolamento, emigração, terramotos).

A obra de José Martins Garcia, como se vê na dedicatória de A Fome, é quase toda ela uma «descida aos infernos» (é autor de uma coletânea de Contos Infernais...), um ato de preenchimento de uma solidão profunda: «Procuro-me como um fantasma que regressa ao lar (...). [...]. Procuro-me na fome imorredoura.» (A Fome). A vida em Monte Brabo (Contrabando Original, 1987) é uma pasmaceira, uma rotina; a montanha do Pico uma espécie de presença tutelar, mas também quase um fantasma – como vê no Conto «Depois do fim do mundo» (em Morrer Devagar).

São evidentes na obra de José Martins Garcia um sentimento de amarga solidão, de ironia e de sarcasmo veiculados numa linguagem contundente ou mesmo disfémica, com uma repulsa pelo falso moralismo, uma tendência caricatural contra os «bons propósitos» da sociedade, ou até mesmo acerca das contradições da Revolução (José Martins Garcia viveu o 25 de abril). Há cargas satíricas muito perto de personagens à clé. Mas toda essa irreverência e essa «violência» verbal se fazem num uso impecável da Língua Portuguesa, que se afina no seu ensaísmo e nos seus trabalhos de natureza académica. A obra de José Martins Garcia é já objeto de teses académicas em Universidades Portuguesas e estrangeiras (nomeadamente no Brasil e nos E.U.A.). António Machado Pires

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)




  1. Mercês Simas Ferreira

[N. Angra do Heroísmo, 24.9.1899 – m. Angra do Heroísmo, 11.10.1977] Contista, também conhecida por Mercês Simas.

De uma família modesta de fracos recursos financeiros não pode ir nos estudos além da escolaridade primária o que sempre a penalizou. Foi pois, uma autodidata e funcionária dedicada do Montepio Terceirense.

Começou a escrever contos muito cedo, publicando-os sob pseudónimo (Mademoiselle e depois Madame de Sam Félice) que havia de usar até ao fim da vida, na revista Estrela d’Alva, propriedade do editor Manuel Joaquim de *Andrade e direção de Vitorino Nemésio e Remédios Bettencourt. Passou a ser escritora muito apreciada e aplaudida nos meios sociais angrenses. Nunca recolheu os seus escritos em livro, usando permanentemente os jornais da sua cidade natal. Foi premiada em jogos florais.

Os seus contos, escritos com fracos recursos estilísticos, são românticos, de intenções moralizantes de inspiração cristã. Três deles foram selecionados por Monsenhor Machado Lourenço para a sua antologia

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  1. Natália Almeida

(N. Tomás de Medeiros de A.) [N. Água Retorta, Povoação, ilha de S. Miguel, 25.12.1940] Aos três anos e meio foi viver para a ilha de Santa Maria, onde fez a sua escolaridade básica na escola primária do Aeroporto e no Externato de Santa Maria. Aos quinze deslocou-se para a ilha de S. Miguel, frequentando aí o Liceu Nacional de Ponta Delgada, onde terminou o curso do liceu. Licenciou-se em Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1959. É professora do ensino secundário desde 1964. Iniciou a vida literária como cronista de viagens no jornal escolar O Cábula, no Externato de S. Maria. Tem colaborado como cronista em revistas e jornais. J. Almeida Pavão

Obras principais: (1988), A Menina. Ponta Delgada, ed. do autor (ficção). (1988), Uma história grandiosa. Ponta Delgada, ed. do autor. (1989), A velhinha do cestinho dos ovos. Ponta Delgada, ed. do autor. (1990), História do maio. Ponta Delgada, ed. do autor (literatura infantil). Almeida, Natália e Rego, V. D. (1990), Furnas hoje... Furnas ontem... Ponta Delgada, ed. dos autores (etnografia).

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  1. Natália Correia

(N. C. de Oliveira) [N. Fajã de Baixo, ilha de S. Miguel, 13.9.1923- m. Lisboa, 16.3.1993] Nascida no seio de uma família da pequena-média burguesia dos arredores de Ponta Delgada, permaneceu até aos onze anos na ilha, aí se deixando impregnar de vivências e imagens que viriam a constituir um dos mais sólidos e recorrentes motivos de toda a sua produção artístico-literária. Depois, acompanhada da mãe e da irmã, partiu para a capital, onde se radicou e viria a destacar-se como uma das mais influentes figuras intelectuais da segunda metade do século. É autora de uma obra extensa e multifacetada, que integra a poesia, a prosa de ficção, o teatro, o ensaio, a diarística, a tradução e a organização de antologias. Colaborou assiduamente na imprensa, impôs-se na televisão com o programa “Mátria”, realizou numerosas conferências e está traduzida em várias línguas. Tomou posições de grande coragem, quer antes, quer depois do 25 de abril, o que lhe valeu ter sido eleita deputada à Assembleia da República. Na base de toda a sua intervenção na coisa pública está a sua orgânica aversão a qualquer tipo de totalitarismo. Dotada de um espírito desassombrado e de um forte sentido da convivialidade, Natália Correia — que chegou a dirigir a editora Arcádia (1973), além de importantes publicações (Século Hoje e Vida Mundial, em 1976) — tornou-se no natural polo agregador de boémios, artistas e personalidades representativas dos vários meios sociais do país. Na vida noturna lisboeta, ficaria célebre o Botequim, bar que abriu no Largo da Graça, em 1971, com Isabel Meyreles.

Mas o essencial da sua vida está, como ela mesma fazia questão de acentuar, na sua obra literária, especialmente em O sol nas noites e o luar nos dias, título sob o qual, pouco antes de morrer, reuniu toda a sua obra poética. Aqui se “cantam”, “narram” e “dramatizam” os sucessivos lances de um trajeto existencial consagrado por completo ao conhecimento dos homens, das coisas e das palavras. Desde cedo, a escritora assumiu-se como herdeira espiritual de um Ocidente que via assolado por graves dissensões — um Ocidente que reduzira a moderna emancipação do homem ao fanatismo do progresso. Daí o duplo e contraditório posicionamento nataliano em relação aos rumos da chamada modernidade: por um lado, intransigente denúncia do racionalismo, do economicismo e do sociologismo de extração iluminista; por outro, galvanizante defesa e ilustração da arte moderna, entendida esta como um domínio capaz de cicatrizar feridas, de reunificar o todo, ao articular dialeticamente o futuro com o passado, a rutura com a tradição — seja a tradição do novo, que remonta aos primórdios de Oitocentos e inclui formas, ritmos e géneros populares; seja a tradição dita clássica, de que foi conhecedora profunda, nos seus vários sucedâneos; seja finalmente a Tradição pura e simples, a Tradição das tradições, que mergulha na espessura de remotos saberes e experiências. Esta sua fidelidade à modernidade estética traduzir-se-á numa especial forma de fidelidade ao alto romantismo — agregador por excelência quer da Memória, do Amor e da Imaginação (na lógica profunda da sua poesia, traves-mestras de qualquer existência votada à necessidade de se entender e de se merecer), quer dos múltiplos “registos” artísticos que convoca (o virtuosismo barroco; o clima simbolista ou pós-simbolista de alguns poemas “místico-patrióticos”, o exaltante espraiamento de Cântico do país emerso, o óbvio fascínio pelo universo libertador do surrealismo...), quer das três distintas vozes que de si o tempo fora destilando.

Destas vozes, a que primeiro se gera e avulta é obviamente a particular, a mais “egológica” e lírica de todas, voz por detrás da qual se adivinham, ainda que muito transformadas, experiências e comoções realmente vividas ou sentidas por uma irredutível subjetividade. Surpreendemo-la, operosa e insinuante, sobretudo nos seus livros iniciais — Rio de Nuvens (1947), Poemas (1955), Dimensão Encontrada (1957), Passaporte (1958) —, aqueles livros onde o eu, graças à magia da palavra poética, procura precisamente “encontrar” a sua “dimensão”, lograr o “passaporte” que lhe faculte a identidade e o reconhecimento. Trata-se de uma voz intrinsecamente saudosa, filha dileta da Sehnsucht romântica, que ora se mostra presa ao passado, ao paraíso perdido da infância (a ilha, a mãe, a casa, o quarto, a natureza consonante...), ora se mostra enfeudada ao futuro, a um além que o mistério cerra mas que ela vislumbra no verbo por lampejos. A segunda voz de Natália — meio sibila, meio libertária... — é aquela que impera em Comunicação (1959), Cântico do País Emerso (1961), O Vinho e a Lira (1966), Mátria (1968), A Mosca Iluminada (1972), O Anjo do Ocidente à Entrada do Ferro (1973) e Epístola aos Iamitas (1976), livros cujos títulos dão bem a ideia da inflexão em profundidade então registada no romantismo nataliano. Agora ela já não é só ela, encruzilhada de forças contraditórias, espaço oferecido ao ilimitado e ao intangível; agora ela é também, e sobremaneira, a “feiticeira Cotovia”, maga insubmissa, herdeira designada de antiquíssimos ritos e mistérios. À poetisa está-lhe reservada a mais alta e sagrada das missões: a de, pelo “vinho” e pela “lira”, mudar a vida dos Homens e das Cidades, levando-os à recuperação da verdade que esqueceram e junto da qual habitam desde o princípio dos tempos. A última das vozes natalianas — a d’ O Dilúvio e a Pomba (1979), d’O Armistício (1985) e de Sonetos Românticos (1990) — traduz um acontecimento decisivo da vida da poetisa: a gratífica consciencialização do excecional dom ou favor que merecera do Espírito, entidade agora dominante, devotadamente elevada a princípio dos princípios. À medida que o tempo foge e o Eterno a intima, Natália quer ser mais do que musa ou vate eméritos; quer encontrar uma via que aprofunde e sobreleve o Mistério e a Tradição antes cantados; quer, por assim dizer, tornar-se sófica, votar-se por inteiro à sabedoria, que outra coisa não há que melhor distinga a sua condição de eleita. Em definitivo convicta de que o poeta e o sacerdote são um só, como nas origens o haviam sido, Natália pugna pela harmonia universal das coisas e dos seres, pela confluência de mitos regressivos e projetivos, pela diluição das galvanizantes vivências do porvir nas longínquas experiências do passado.

Conforme houve oportunidade de referir, em estudo mais desenvolvido e aqui parcialmente retomado (Pimentel, 1999), todas estas vozes globalmente românticas não equivalem a personalidades individuadas. São, no essencial, vozes de uma mesma voz; estádios (noutra perspetiva: níveis) de uma vida soberanamente imolada à Vida maior que nela pulsa. Daí que elas, devidamente adaptadas aos ditames modais e genéricos de cada texto, se afigurem de indiscutível produtividade para todos quantos pretendam abordar outras obras de Natália Correia. Recorde-se, por exemplo, no âmbito da narrativa, do romance A Madona (1968), que pugna pela recuperação e ressacralização da mulher genuína, e da novela As Núpcias (1990), que exalta o androginismo e a fraternidade primordiais. Ou ainda, no âmbito teatral, de peças como O Encoberto (1969), que insiste no tema do messianismo, de A Pécora (1983), que procede à desmistificação do “mercado religioso” (ver o respetivo prefácio) ou de Erros Meus, Má Fortuna, Amor Ardente (1981), sem dúvida uma das mais significativas experiências entre nós realizadas nos domínios da “festa” e do “espetáculo” cívicos. F. J. Vieira Pimentel

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  1. Norberto Ávila

(N. A. Soares) [N. Angra do Heroísmo, 9.9.1936] Dramaturgo. Frequentou a Universidade do Teatro das Nações, em Paris, de 1963 a 1965; em Lisboa, em 1973-75, criou e dirigiu a revista Teatro em Movimento; na Secretaria de Estado da Cultura chefiou a divisão do Teatro, durante 4 anos (1974-78), mas abandonou o cargo, nesta data, para se entregar de corpo e alma ao ofício de dramaturgo. No entanto, ainda dirigiu, na Rádio Televisão Portuguesa, uma série de programas dedicados à actividade teatral portuguesa, com o título genérico «Fila 1», em 1981-2. Paralelamente, traduziu obras de consagrados escritores e dramaturgos.

Norberto Ávila é um dos mais reconhecidos, traduzidos e representados dramaturgos portugueses. Com perfeito domínio da técnica teatral, as suas obras representam o que há de melhor na nossa literatura dramática contemporânea. Nelas consegue uma plena vivacidade do diálogo, uma boa definição dos personagens, um humor inteligente e uma inegável riqueza poética. A diversidade temática percorre mitos da Grécia Antiga e da literatura mundial, mergulha nos temas bíblicos e da história de Portugal e penetra nos problemas político-sociais contemporâneos. Com formação humanista, procura nas suas obras escalpelizar relações sociais com o objectivo de provocar reacções transformadoras e construtivas. Os seus trabalhos têm sido representados por numerosas companhias portuguesas e estrangeiras. O texto mais conhecido, As Histórias de Hakim, foi traduzido em 16 idiomas e representado na Alemanha, Áustria, Checoslováquia, Coreia do Sul, Croácia, Eslovénia, Espanha, Holanda, Roménia, Sérvia e Suíça. Pela qualidade da sua obra foi premiado 7 vezes, até ao presente (1998). Para além de dramaturgo, é autor de um romance (inédito), conto e poesia publicada em diversos jornais. Colaborou na Enciclopédia Luso-Brasileira, com diversos verbetes relacionados com o teatro, e tem vários artigos nas revistas Panorama e Teatro em Movimento. Os Açores também estão presentes na sua obra. Em O Homem Que Caminha sobre as Ondas debruça-se sobre a emigração para o Canadá; em A Paixão segundo João Mateus, versa a Paixão de Cristo de forma dramática, com linguagem popular da ilha Terceira, na perspectiva de um poeta popular, João Mateus; Antero de Quental e a Geração de 70

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  1. Nun’Álvares de Mendonça

[N. Beira, Velas, S. Jorge, 12.4.1923] Fortemente influenciado pelo pai, Rui de Mendonça (1896-1958), começou por se dedicar à pesca desportiva. Aos 14 anos de idade tirou a cédula marítima e, dois anos mais tarde, dedicava-se já à caça da baleia em armação baleeira pertencente à família.

Concluiu o Curso Industrial e Comercial na antiga Escola Madeira Pinto, em Angra do Heroísmo. Cumprido o serviço militar em Évora e Vendas Novas, regressou à ilha de S. Jorge, onde exerceu, durante largos anos, intensa atividade: montou uma tipografia, uma papelaria, uma livraria, um armazém de atacados, um café restaurante, uma empresa de camionagem, uma empreitada e uma fábrica de conservas. Amante da liberdade, apoiou, na sua terra natal, as candidaturas de Humberto Delgado e Norton de Matos.

Nos anos 70 fixou-se com a família na ilha Terceira e, uma década mais tarde, na ilha de S. Miguel. Até à reforma dedicou-se à pesca atuneira, tendo sido proprietário do único navio atuneiro português com sistema de pesca de cerco e havendo com ele pescado nos mares dos Açores, Cabo Verde e Golfo da Guiné.

É autor de uma obra de referência no âmbito da etnografia marítima açoriana: Memórias de um Baleeiro (1985). Trata-se de um documento vivo de factos vividos e sentidos pelo seu autor durante o tempo em que foi baleeiro (1930 e 1945) e onde é descrito, de forma rigorosa, os processos, as técnicas, as operações e as nomenclaturas referentes à faina baleeira, a par da evocação de gentes do mar e da terra de grande riqueza humana.

Escreveu ainda Histórias de Aventuras e Contrabandos (2005) e Marinheiro em terra (2006). Estes livros dão conta de percursos de vida vivida e de vida sonhada. Assumidamente autobiográficas, são histórias de aventuras, memórias e peripécias que se leem com infinito prazer.

Victor Rui Dores

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)




  1. Nunes da Rosa

[N. Rio Vista, Califórnia, Estados Unidos da América, 22.2.1871 – m. Bandeiras, Madalena, ilha do Pico, 13.9.1946] Padre, contista e jornalista. Com cinco anos de idade, veio com os pais para a Madalena, quando estes regressaram à terra natal. Admitido em 1884, estudou no Liceu da Horta e, depois, no Seminário de Angra onde foi ordenado, em 1893. Entre este ano e 1896, foi reitor na freguesia do Mosteiro, ilha das Flores. Naquele último ano, foi transferido para a paróquia de Nossa Senhora da Boa Nova das Bandeiras, ilha do Pico, onde paroquiou desde 15 de agosto até ao seu falecimento. Em 1914, foi nomeado Ouvidor Eclesiástico do Concelho da Madalena.

No Liceu da Horta, foi aluno de Machado Serpa, Silveira Macedo, Florêncio Terra, João José da Graça, Rodrigo Guerra, José Maria da Rosa e de Manuel da Silva Greves e teve como contemporâneos os irmãos Roberto e Carlos Mesquita. Nesse tempo, com a colaboração de amigos próximos, criou vários pequenos jornais como A *Borboleta que dirigia com apenas 15 anos (Telégrafo (O), 1969) e onde publicou algumas das suas primeiras produções jornalísticas. Foi neste ambiente que se revelou vocacionado para as letras.

Durante os anos passados na ilha das Flores escreveu os contos e outras «prosas» do volume Pastorais do Mosteiro. Nas Bandeiras escreveu Gente das Ilhas que integra alguns dos contos publicados em diversos jornais.

Nunes da Rosa é um dos maiores contistas açorianos, digamos mesmo o maior depois de Vitorino Nemésio, sem ser excecional, merece um lugar de relevo no panorama da ficção nacional (Rosa, 1977). Sem atingir o nível dos grandes contistas portugueses, Nunes da Rosa é, a par de Florêncio Terra, uma figura literária merecedora de projeção nacional, pela qualidade de alguns dos seus contos de funda expressão humana com personagens autênticas, vivas, em ambiente regional bem caracterizado (cf. Rosa, 1990: 69).

A obra de Nunes da Rosa integra-se na literatura regionalista, corrente pós-realista muito em voga nas primeiras décadas do século XX e já no fim do século XIX, como derivante do realismo (Rosa, 1977).

São na maioria contos (por vezes simples quadros, apenas) rústicos, de singelíssima efabulação, cuja matéria o autor tirou pelo natural ou reproduziu da tradição e do anedotário locais numa linguagem umas vezes trabalhada com esmero vernáculo, à maneira de Camilo, de outras com fulgurâncias decadentistas que sugerem influência de Fialho, e a que o vocábulo, o torneio da frase e até, em certos casos, a própria sintaxe populares emprestam certo exotismo arcaico, peculiar dos falares rústicos das ilhas. Pela simplicidade dos seus temas, pela visão idílica da natureza e da vida rural e até por certos processos narrativos, pode-se dizer que foi, na literatura regionalista dos Açores do fim do século, um émulo de Trindade Coelho (Jesus, 1994: 114-115).

De Gente das ilhas têm sido selecionados alguns contos para antologias (cf. Martins, s.d.; Martins e Mota, 1968; Melo, 1978: 243). «Almas simples», porventura o seu melhor conto, pode ser considerado autenticamente antológico, mesmo numa seleção para além fronteiras, apesar de conter ação muito reduzida (cf. Rosa, 1977).

Devorado por um incêndio, o espólio literário que legou à Câmara Municipal da Vila da Madalena, constituía uma amostragem singular da tipologia popular açoriana, atravessada por uma inspiração simbolista cujas linhas de força imprimiram aos seus contos uma linguagem recorrencial e afetiva, no caminho do que de melhor se produziu nesse período da história literária portuguesa (Melo, 1978: 242).

Deixou colaboração jornalística dispersa, nomeadamente nos periódicos A *Ordem e *Sinos da Aldeia, por ele fundados e dirigidos na freguesia das Bandeiras, n’O Telégrafo, do seu amigo Manuel Emídio Gonçalves, que ajudou a fundar, n’A Voz, n’O *Picarôto e n’O *Fayalense.

Organizador e dinamizador de inúmeras iniciativas, nas Bandeiras, em 1902, dirigia um posto de observações meteorológicas (Telégrafo (O), 1902) e, em 1915, fundava a Sociedade Cultural, Literária e Recreativa «Juventude Católica Boa Nova» dedicada à alfabetização, ao teatro, à música, ao desporto, à leitura e ao ensino da oratória, entre outras (Garcia, 2001).

Em 1908, foi homenageado pelo rei D. Manuel II com o título de capelão fidalgo da casa real (1908). Desde finais dos anos 1970, o seu nome está incluído na toponímia do concelho da Madalena, na artéria que liga a vila ao lugar da Areia Larga. Um busto no local onde existiu a casa que habitou é uma homenagem da freguesia das Bandeiras. O governo da Região Autónoma dos Açores criou o Prémio Literário Nunes da Rosa.

Usou o pseudónimo João Azul (Ávila, 1989: 75).

Luís M. Arruda

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)






  1. Oliveira San-Bento

[N. Matriz, Ribeira Grande, 21.4.1893 – m. Ponta Delgada, 22.1.1975] Poeta e escritor. Passou uma adolescência difícil devido a dificuldades financeiras que não lhe permitiram seguir os estudos de uma forma continuada. Andou dois anos no seminário de Angra, desistiu por falta de vocação e aguardou até aos dezasseis anos para assentar praça no exército e poder sustentar-se. Assim o fez, mas requereu licença para estudos. Quando essa licença acabou e ficou sem a respetiva bolsa, conseguiu emprego como secretário particular do Marquês de Jácome Correia. Foi com esta situação de maior desafogo, já quintanista, que publicou o seu primeiro livro – Lua e Mar. Com dezanove anos, passou a redator secundário do jornal A República, dirigido por Francisco Luís *Tavares. Em 1915, partiu para Lisboa, com a finalidade de cursar Direito. Continuou a trabalhar para a imprensa para sobreviver, até encontrar uma situação mais desafogada quando colaborou num jornal de New Bedford. Entretanto, interrompeu o curso para cumprir o serviço militar, mas acabou por se licenciar em 1922. Regressado a São Miguel, instalou-se cinco anos na Ribeira Grande, como advogado. Residindo em Ponta Delgada, continuou a profissão, mas a sua atividade estendeu-se pela colaboração na imprensa, pela intervenção cultural através de palestras e também pela militância política. Ainda universitário, enviava colaboração para o jornal O Protesto (1916), órgão do Centro Socialista Antero de Quental, de Ponta Delgada, solidarizando-se com as lutas operárias. Na Ribeira Grande, foi membro da Comissão Municipal da Partido Republicano Português, bem como em Ponta Delgada, tendo sido candidato por este círculo em 1925. Com o fim da I República, acabou por aderir aos ideais do Estado Novo. A poesia foi a sua grande forma de expressão, que cultivou ao longo da vida. Não só a deixou publicada em vários livros, como muita outra ficou dispersa por jornais e revistas, além dos inéditos. Ruy Galvão de Carvalho caracteriza-a como «formalmente clássico-parnasiana e, conceptualmente, romântico-simbolista e de circunstância» (1979: 400). Foi também considerado (Lisboa, 1994: 461) como um «poeta rebelde à velha forma de versejar», mas não aderiu ao modernismo. Aliás, o seu regresso aos Açores, levou-o à defesa da tradição poética do século XIX, protestando, nos anos 40, contra a ameaça modernista. Carlos Enes

Obras principais. (1912), Lua e Mar. Ponta Delgada, Tip. Diário dos Açores. (1916), Cartas da Beira-Mar. Ponta Delgada, Tip. Artes Gráficas. (1917), Ao Cair da Noite. Ponta Delgada, Tip. Central. (1918), Poema do Atlântico. Ponta Delgada, Tip. Diário dos Açores. (1922), Espirais de Fumo. Angra do Heroísmo, Tip. Andrade. (1927), O Velho do Restelo. Ponta Delgada, Tip. Diário dos Açores. (1933), O Clamor das Sombras. Ponta Delgada, Papelaria Micaelense. (1940), O Auto de Portugal Eterno. Ponta Delgada, Tip. Correio dos Açores. (1942), O Fulgor. Ponta Delgada, Tip. Artes Gráficas. (1946), A Ilha em Prece. Ponta Delgada, Tip. Diário dos Açores. (1947), Vulcão em Flor. Ponta Delgada, Tip. Diário dos Açores. (1952), Riscos na Bruma. Ponta Delgada, Tip. Âmbar. (1960), Ilha de Glória. Angra do Heroísmo, Liv. Andrade. (1970), Asas de Luz: poemas do Senhor Santo Cristo. Ponta Delgada, Tip. Diário dos Açores.



(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)




  1. Onésimo Almeida
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