Brevíssima Enciclopédia de Autores Açorianos



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[N. Pico da Pedra, ilha de S. Miguel, 18.12.1946] Professor universitário, ensaísta e ficcionista. Doutorou-se em Filosofia (1980) pela Brown University, Rhode Island, nos Estados Unidos da América, onde reside desde 1972. Começou a exercer docência naquela Universidade a partir de 1975. É atualmente professor e diretor do Departamento de Estudos Portugueses e Brasileiros. Fundou e dirige, desde 1980, a Gávea-Brown Publications, com considerável atividade editorial, e a revista bilingue de letras e estudos luso-americanos Gávea-Brown. Deve-se ao seu empenho a criação da cadeira de Literatura Açoriana, que, no ano letivo de 1977-78, começou a fazer parte do elenco disciplinar do departamento. É vice-presidente do Rhode Island Committee for the Humanities (Rhode Island) e membro, entre outras instituições, do Conselho Executivo do Watson Institute for International Studies (Brown University) e da American Philosophical Association. Os percursos apontados e a atuação, desde os princípios da década de 80, em diversos congressos e colóquios nacionais e internacionais, acima de uma centena, são suficientes para dar uma imagem da sua vitalidade curricular. O seu trajeto intelectual encontra-se marcado pelo contacto com a tradição anglo-saxónica da filosofia analítica e pelo pragmatismo filosófico norte-americano, ascendente que se revela tanto na propensão para o rigor da linguagem na prosa ensaística em filosofia e no espírito crítico que a sublinha como nas influências que, de modo mais ou menos direto, é possível detetar nos seus textos. Pensadores como Willard Van Orman Quine, Ludwig Wittgenstein, Karl Popper, William James, John Dewey, Richard Rorty, Paul Feyerabend e Thomas Kuhn, ou Karl Marx, Karl Manheim, Louis Althusser, estes três configurando o eixo do debate da sua tese de doutoramento sobre a ideologia (Almeida, 1980b), são, entre outros, os de sua predileção intelectual, desvendando áreas preferenciais na filosofia da linguagem e na linguística, na epistemologia, na filosofia ética e política, na sociologia e na teoria antropológica da cultura e dos valores. Esta última apresenta-se como uma zona de confluência das outras áreas, cujo núcleo central situa na problemática das mundividências, de que a ideologia seria um caso particular. Este problema, que se reflete com insistência nos textos posteriores a 1980 (v.g. Almeida, 1992a; 1995b; 1996), fê-lo abandonar a ideia de publicação da tese de doutoramento, por considerá-la, e já na fase final da investigação (1979-80), ultrapassada nos seus desenvolvimentos, pela nova perspetiva, cujo primeiro aprofundamento acontece quando, no ano letivo de 1980-81, se dedica a abordar essa problemática numa cadeira sobre «A Formação das Mundividências» (Almeida, 1992a: 53-55). A temática axiológica torna-se, a partir daqui, nuclear, e a ela se pode reconduzir a produção ensaística que se debruça sobre temas da cultura portuguesa, como os equívocos da «filosofia portuguesa» (Almeida, 1985b), o eventual contributo de Portugal para a ciência moderna (Almeida, 1987b; 1992b), a identidade nacional (v.g. Almeida, 1994a; 1997a) e os valores culturais de determinadas épocas e gerações através da análise da obra de figuras como Fernando Pessoa e Antero de Quental (Almeida, 1987d; 1988c; 1993a; 1993 b;), ou ainda sobre assuntos que diretamente dizem respeito à sociedade e cultura açorianas (v.g. Almeida, 1988a; 1995a). A reflexão sobre a identidade cultural do açoriano, seja o que habita as ilhas, seja o da comunidade emigrante, embora se coloque num contexto de debate específico, com natureza diferente da teorização filosófica dos valores, não deixa de a esta estar referida como um dos rumos de aplicação da teoria à prática, como, aliás, se torna patente em textos sobre a aculturação do emigrante (Almeida, 1987a) e sobre a política do turismo nos Açores (Almeida, 1990). Não é, pois, isenta de razões a afirmação que enraizasse neste horizonte especulativo o seu interesse pela questão da literatura açoriana, além dos mais evidentes motivos de orientação literária do autor, pois que o modo como a aborda (Almeida, 1983b; 1986) é norteado por perspetivas sociológicas e de antropologia cultural e linguística, em muitos pontos lembrando a atmosfera crítica de textos anteriores, já acima citados, nomeadamente naqueles em que se deu à discussão do conceito de «filosofia portuguesa» e ao questionamento dos descobrimentos portugueses e da ciência. A inspeção destes textos e a sua comparação com aqueles põem em realce a tónica axiológica, já que, para O. T. Almeida, é no conceito de açorianidade que se funda a expressão literatura açoriana, cuja discussão não pode libertar-se da referência ao conjunto de «valores estéticos e éticos» que aquele conceito compreende (Almeida, 1986: 309; v.g. 1983b: 14). Assim, embora não diga de modo direto que exista uma literatura açoriana, a sua prudência leva-o a situar-se no âmbito de uma ótica que parece tender para a salvaguarda da crítica e da problematização permanentes. O seu mérito esteve na ação decisiva que permitiu instituir, a partir de 1983, um campo alargado de debate teórico em torno da literatura açoriana - não só pela organização de simpósios sobre o tema como pelas publicações onde reuniu textos de diversos autores -, em que a sua posição emerge marcada pela cautela, reservada e crítica, quanto a um juízo afirmativo, cabal e decisivo, sobre tal existência. Podemos, no entanto, deduzir dos textos (Almeida, 1989: 15-30; v.g. 1988a: 79-84) que o problema da existência é, antes, o problema do âmbito de realidade da literatura açoriana, que se põe para O. T. Almeida como um caso específico no panorama da literatura portuguesa, suficiente para determinar-lhe os contornos de objeto de estudo nas notas dominantes de certa individualidade - povo, cultura, valores -, que não cabe na definição genérica da «portugalidade». Mas a sua personalidade multifacetada não se reduz ao acima dito, pois que todo esse ensaísmo, filosófico e literário, divide compromissos com a crónica jornalística e a criatividade nos domínios da ficção (conto e teatro). O primeiro livro surgiu em 1975. Nele reúne crónicas publicadas na imprensa (1973-1975), dando-lhe o sugestivo título Da Vida Quotidiana na L(USA)lândia. São estas páginas o primeiro produto da experiência do autor em terras norte-americanas e do seu contacto com a comunidade açoriana emigrante. Essa existência exprimiu-se - como de igual modo em L(USA)lândia a Décima Ilha, de 1987 - no relato breve ou episódico do dia-a-dia da emigração, com reflexões políticas várias sobre a sociedade e a cultura luso-americanas. As outras coletâneas de crónicas (Almeida, 1994b; 1997b) não deixam de se inscrever nesse pano de fundo da diáspora açoriana e do diálogo que o autor mantém com a ilha longínqua, nelas verbalizando as suas experiências pessoais de português no mundo. É também nesse horizonte onde encontramos o húmus inspirador dos seus contos e teatro (Almeida, 1983a; 1978; 1992). (Sapa)teia americana retoma, no plano ficcional do conto, o tema da vida emigrada. Conta ou reconta factos verídicos ou ficcionados, onde se unem a atenção crítica com a ironia, o humor das situações com o drama, num retrato realista que se forja a si mesmo como imaginário da diáspora, a que não falta mesmo a dimensão mítica de uma geografia: a L(USA)lândia, no entanto, real pela presença dos seus habitantes (lusalandos ou lusalandeses), em carne e osso, em alegria, sofrimento e esperança no sonho americano. Esta L(USA)lândia, que a imaginação semântica do autor forjou a partir da proximidade gráfica e fonética do US, comum a USA e à terra (land) LUSA distante, emerge diante do leitor, por entre os fragmentos das imagens que o autor fixa e descreve de gentes, nomes e lugares, favorecendo uma espécie de linha narrativa que salta de conto para conto. Dir-se-ia que o autor-narrador assume o papel de cronista da terra lUSAlandesa, escrevendo em ficção os anais históricos da gesta emigrante, que, sob outros motivos, havia já abordado no teatro de Ah! Mònim dum Corisco. Referência distinta merece a peça teatral No Seio desse Amargo Mar. Entre outros, são personagens Antero, Nemésio, Côrtes-Rodrigues, Santos Barros. Peça de teor reflexivo, cujo diálogo se propõe como des-construção e reconstrução da identidade nacional e açoriana, mostra a tendência de O. T. Almeida para a desmontagem do imaginário mítico português, com raízes remotas em António Sérgio e referências próximas no Labirinto da Saudade (1978) de Eduardo Lourenço. Um dos traços que ressalta na leitura da obra de ficção é o do humor, um humorismo que cruza a anedota pitoresca com uma ironia certeira ou acentuadamente satírica, visando situações e vivências humanas, e que tem alcançado lugar de tema ensaístico (Almeida, 1985a e 1988e). Estas últimas observações permitem notar que na própria criação literária se espelham as preocupações teóricas gerais do autor.

Manuel Cândido Pimentel

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)




  1. Pedro da Silveira

[N. Fajã Grande, ilha das Flores, 5.9.1922 – m. Lisboa, 13.4.2003] Fica-lhe bem o epíteto de o mais ocidental poeta europeu, por ter nascido no ponto em que a Europa e a América mais se aproximam uma da outra. Talvez esse facto e a existência de uma forte tradição migratória na família (ele próprio possuía passaporte americano) ajudem a explicar a inquietação e a errância intelectual deste homem, poeta, investigador histórico e literário, tradutor, etnógrafo. Nos anos 40 do século XX, na cidade de Ponta Delgada, transformou o jornal A Ilha num polo aglutinador de jovens intelectuais; neste jornal divulgou a moderna literatura cabo-verdiana (revista Claridade, de 1936), cujos autores também nele colaboraram. O seu primeiro livro de poemas atestaria de forma irrecusável esse contacto com os poetas cabo-verdianos e também com um poeta brasileiro como Manuel Bandeira. De resto, a poesia de Pedro da Silveira soube sempre assinalar uma forte vinculação ao chão açoriano, ao mesmo tempo que se desdobrava num constante e profícuo diálogo com «as ilhas todas do mundo», em termos culturais e poéticos. Em 1951, Pedro da Silveira fixou residência em Lisboa, tendo exercido aí várias atividades e reformando-se em 1992 como diretor de serviços da Biblioteca Nacional. Redator da revista Seara Nova até 1974, deixou colaboração dispersa pela imprensa nacional e estrangeira, do Brasil ao México, de Cabo Verde a Moçambique. A sua Antologia de Poesia Açoriana – do século XVII a 1975 (Lisboa, Sá da Costa, 1977) reúne um precioso manancial de informação histórica e biobibliográfica; o extenso verbete «Açores» no Grande Dicionário de Literatura Portuguesa e de Teoria Literária, de João José Cochofel, constitui uma excelente amostra do que viria a ser a História da Literatura Açoriana, que andava a preparar quando faleceu. Pedro da Silveira foi ainda um atento pesquisador literário e etnográfico, como o reconhece o investigador Gerald Moser e o atestam as numerosas recolhas de exemplares da oratura que efetuou e de que deu conta em publicações avulsas. Deve-se a Pedro da Silveira a reedição de Almas Cativas (Lisboa, Ática, 1973), de outro grande poeta açoriano, o simbolista Roberto de Mesquita, cuja lição de enraizamento poético não deixa de repercutir em Silveira, embora já em diferentes modulações expressivas e estéticas, que passam, entre outras coisas, pela utilização de processos discursivos da oralidade: a transposição da fala popular, o tom narrativizante de alguns poemas e de algumas sequências poéticas que muito devem à tradição narrativa popular.

Urbano Bettencourt

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)




  1. Roberto de Mesquita

[N. Santa Cruz das Flores, 19.6.1871 – m. ibid., 31.12.1923] Poeta.

Se na obra de muitos escritores se sente o desfasamento entre o tempo e o mundo que lhes é dado viver e as características pessoais, Roberto Mesquita foi um poeta que nasceu no ambiente e na época literária certos. Com efeito, características pessoais, culturais e psicológicas, fazem que na poesia de Roberto Mesquita se interpenetrem, com aguda sensibilidade e rara felicidade, as circunstâncias da vida, e o espírito e temas do decadentismo e simbolismo da época literária.

Depois de ter feito a escola primária em Santa Cruz das Flores, o segundo filho de António Fernandes de Mesquita Henriques e de D. Maria Amélia de Freitas Henriques, Roberto Mesquita, segue os passos de seu irmão Carlos, um ano mais velho, e, como ele, depois de uma primeira tentativa frustrada em Angra do Heroísmo, faz estudos liceais na Horta. Vem depois a ingressar na carreira da Fazenda Pública, enquanto seu irmão, dado também, ainda que com menos felicidade, à criação literária, prossegue estudos em Coimbra.

Em 1890, Roberto de Mesquita, que, na companhia deste irmão frequentara já algumas tertúlias literárias e recebera estímulo de professores na Horta, faz a sua estreia literária, publicando n’O Amigo do Povo de Santa Cruz das Flores um soneto sob o pseudónimo Raul Montanha. A partir daí, vai dando a conhecer dispersamente os seus poemas: e se publica a maioria em páginas da imprensa regional (O Açoriano, A Ilha das Flores, Revista Faialense, O Arauto, A Atualidade), outros veem a letra de forma em algumas das páginas nacionais de maior representatividade da época, como sejam a Ave Azul ou Os Novos, a revista que deu expressão mais significativa à geração simbolista portuguesa.

Roberto de Mesquita, que era leitor assíduo da poesia portuguesa e francesa (marcam­-no sobretudo Verlaine e Rimbaud, mas também Baudelaire está presente em muitos dos seus poemas), nunca deixou de ter informação da vida literária do continente e, aquando da única viagem que realizou para fora dos Açores (1904), encontrou­-se com Eugénio de Castro e Manuel da Silva Gaio. A estes contactos não era estranha a intervenção de Carlos de Mesquita, homem culto e de fina intuição crítica, que foi professor no liceu de Viseu e, depois, na Universidade de Coimbra (morre em 1916).

A edição em livro dos seus poemas foi projeto acalentado por Roberto Mesquita, que o organizou e colocou sob a égide expressa de Antero, intitulando­-o, a partir do verso anteriano «almas irmãs da minha, almas cativas», Almas Cativas. Morreu no entanto sem realizar o projeto, e só em 1931, por iniciativa familiar, apoiada por Marcelino Lima, a obra surgiu em Famalicão. Já em 1989, Pedro da Silveira leva a cabo nova edição, enriquecida com poemas dispersos e o registo de variantes, e prefaciada por Jacinto do Prado Coelho. Por outro lado, no final da década de 30, Vitorino Nemésio considerou Roberto Mesquita «o primeiro poeta que exprime alguma coisa de essencial na condição humana tal como ela se apresenta na ilhas dos Açores», encontrando nos seus poemas a expressão perfeita das características que reúne no seu conceito de açorianidade. Pôde assim sublinhar no livro do florense «a melhor imagem da dispersão e sonolência da vida nos Açores, um perfil difuso e abúlico da açorianidade».

Pertencem a Almas Cativas alguns dos mais belos e expressivos poemas marítimos da poesia portuguesa. Neles, o peso opressivo da solidão concentra­-se na sugestão de um ambiente fechado, de céus cinzentos e pesados, que se estende ao poeta de uma forma calma e difusa. As casas ancestrais e as ruínas humanizam­-se, a noite, pelo seu «místico cismar», impõe um «terror sagrado» enquanto o luar transfigura a natureza, enfim, o poeta descobre a «alma de tudo a orar» e vê a sua sensibilidade exacerbada pelo pôr­-do­-sol, pelo vento agreste, por ruínas que se desenham em ambientes de decadência.

Invadido por um vago misticismo, que ultrapassa em muito o spleen evocado em algumas composições, o poeta irmana­-se com as «Almas cativas» do universo e toma para si a missão de revelar o sentido da natureza e das coisas, a sua «alma». Ao fazê­-lo, tem consciência de ser superior aos outros homens, confinados às aparências simples do universo; mas, «poeta maldito», no seu dom encontra também o seu infortúnio. Como Filodemo, o pastor a quem as asas impedem o amor, sabe que a sua condição de poeta o impede de desfrutar as alegrias simples e ingénuas dos homens comuns.

Precisamente porque poeta, sabe­-se superior aos seus contemporâneos; e a sua alma «omnicoeva», «alma fim de raça, / intransigente com o Hoje estiolante», sente o apelo do Outrora. Interessam­-no então os ambientes fantasiados de um passado que, festivo e irreal, parece suspender­-se nos objetos arruinados que os animaram e que se tornaram símbolos, ou as efabulações de ambiência histórica ou bíblica, tão do agrado da época literária.

No entanto, não é um apelo ao passado que perpassa no olhar que confunde o tempo e o espaço na consideração da paisagem distante: nele manifesta­-se o mesmo estado anímico que se exterioriza na contemplação da natureza e que percorre os versos de Roberto Mesquita.

Quando o mar e o horizonte fechado da ilha são evocados, não são no entanto, a causa direta do tédio e do sentimento de tristeza vaga, da «viuvez desamparada» que une o poeta e a natureza. A noite, o vento aflitivo do nordeste ou o «macerado fechar de tarde» outonal estimulam certamente a meditação, mas os seus poemas não se detêm na simples busca de uma compreensão psicológica para o seu estado. É antes um movimento religioso, um movimento puro de abolição da separação entre os mundos humano e físico, que encontra a sua expressão na Poesia.

Ao mesmo tempo que se isola dos outros homens, o poeta irmana­-se com o mundo. A um vós/eu que condensa a oposição com aqueles que na aparência lhe são semelhantes, sucede­-se um vós/nós, em que o poeta sente a proximidade da «alma das coisas». E como que a mostrar que a comunhão entre o mundo e o poeta é total, o ritmo das descrições da paisagem, em que soam tanto uma cultura e uma sensibilidade literariamente modeladas, como a melancolia da açorianidade, não se quebra quando se manifesta a perplexidade: «Paisagem vesperal que palpitante espia / a estrela do pastor, que já no azul flutua… / A saudade sem causa, a vaga nostalgia / Que enche como um perfume este apagar do dia, / Gerou­-se na minha alma ou acordou na tua?».

A inquietação renasce continuamente de uma saudade sem alvo definido, nem causa ocasional. O poeta procura, em vão, compreender pela análise a sua natureza, que não é simplesmente psicológica: ela é, afinal, fruto da saudade do ideal («Minha alma, donde nasce a mágoa que te invade? / Que éden sentes perdido? / Oh! esta cheia poderosa de saudade / Sem alvo definido!»). A cada passo que o poeta dá à procura das promessas de absoluto inscritas no horizonte, o horizonte alarga­-se, a sua linha foge para o mais longínquo. A realização de qualquer sonho redunda na desilusão, superável apenas no fantasiar de novo Além.

Reiterado com melancolia decadentista, este estado anímico cava­-se sobretudo na inquieta certeza do desencanto final do poeta que não pode deixar de procurar «A beleza essencial, para sempre vedada / À nossa alma que geme à terra agrilhoada».

Em alguns momentos, assola­-o a solidão da criatura face ao Criador: pressentindo embora a Sua presença na muda imensidão do mundo, não consegue explicação para a «fria mudez» que responde às súplicas dos homens, «abandonados num caminho incerto». Mas afirma a sua crença num sentido que não cessa de procurar, para o exílio terreno que Deus inflige aos seus «filhinhos», mesmo se lhe pesa ter de aceitar «a Vida fragmentada/ Em vidas dum momento».

E por isso, apesar de os seus versos não atingirem sistematicamente a fundura filosófica, a saudade que expressam não se confina à emotividade. É antes a saudade de uma unidade primordial que o poeta procura decifrar na natureza e nas coisas, buscando­-lhes uma alma e um sentido que não se oferecem nem à Ciência nem ao homem comum.

Roberto de Mesquita impõe o reinvestimento simbólico das imagens do viver ilhéu, do isolamento e do «céu fechado», ou do fantasiar de «belas regiões perdidas / na extensão do mar» que animam alguns dos mais belos poemas de Almas Cativas. E esse entendimento impõe­-se de tal forma que se torna impossível dar à análise introspetiva e ao sentimento da natureza outro significado que não o da universalidade. Mesmo a originalidade suave de um estilo que se apoia em recursos literariamente típicos na época, mas surpreende o leitor pela tensão e poder sugestivo do ritmo ou da aproximação de realidades díspares, de sinestesias ou metáforas inesperadas, vem acentuar o sentimento de indefinição, de vago, e propicia a oscilação dramática entre o particular e o universal que caracteriza uma obra que, sem ser muito extensa, dá a Roberto de Mesquita lugar entre os grandes poetas do simbolismo.

Maria do Céu Fraga

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)




  1. Rodrigo Guerra

[N. Areia Larga, Madalena, ilha do Pico, 29.7.1861 – m. Lisboa, 28.5.1924] Funcionário das alfândegas e escritor. Estudou no Liceu da Horta mas, o mais da sua cultura foi adquirido pela leitura de obras de autores clássicos e modernos, portugueses, franceses e ingleses. Foi, sucessivamente, escriturário do escrivão da Fazenda da Horta (1889), primeiro aspirante do quadro das Alfândegas, colocado na da Horta (1900), sub-inspector, depois inspetor, colocado em Lisboa (1912), até morrer.

Integrou a geração renovadora da tradição literária açoriana que incluiu Ernesto Rebelo, Florêncio Terra, Garcia Monteiro, Manuel Zerbone, e, um pouco mais tarde, António Baptista, Marcelino Lima e Nunes da Rosa.

Escreveu nos jornais O Faialense, Grémio Litterario e O Açoriano de que foi redator, com Florêncio Terra e Henrique das Neves, em 1884. Colaborou com vários jornais de Angra do Heroísmo, de Ponta Delgada e de Lisboa, nomeadamente, no Jornal de domingo, na Revista Ilustrada, na Revista Literária, Científica e Artística e na Ilustração Portuguesa.

Também escreveu para o teatro e a sua peça O Ideal da Prima foi representada no Teatro Faialense, em 1888. Todavia, os seus contos são o mais relevante da sua obra. Quando morreu tinha no prelo o livro de contos A Americana, a publicar pela editora Livraria Central. A impressão foi suspensa e a edição só veio a verificar-se em 1980, conjuntamente com outros textos recolhidos por Júlio Andrade. Em 1988, Carlos Lobão publicou com o título Trutas, as crónicas que havia recolhido dos jornais com os títulos: Cartas, Contos e Narrativas, Crónicas, Esbocetos, Fantasias, Notas a Lápis e Pela Horta.

Encontra-se incluído em Contos Açorianos e na Antologia Panorâmica do Conto Açoriano. Luís M. Arruda

Obra: (1980), A Americana. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura, Coleção Gaivota, 8. (1988), Trutas. Horta, Câmara Municipal e Direção Regional dos Assuntos Culturais.

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)




  1. Ruy Galvão de Carvalho

[N. Rabo de Peixe, ilha de S. Miguel, 3.11.1903 – m. Ponta Delgada, 29.4.1991] Professor, poeta e ensaísta. Licenciado em Ciências Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em 1929, declinou o convite para seguir a carreira universitária, tendo exercido a docência, nos liceus de Coimbra, Lisboa e Ponta Delgada, onde, de modo especial, nesta última cidade, foi, no dizer de Fernando Aires, «fonte e húmus de iniciativas criadoras» que marcaram várias gerações. Em Coimbra, para onde se havia transferido, em 1922, quando frequentava o 3.º ano do curso de Direito, na Universidade de Lisboa, foi aluno do ilustre professor e anterianista Doutor Joaquim de Carvalho, com quem manteve, mesmo após ter saído da Universidade, um estreito relacionamento.

A par duma inseparável ligação ao estudo da filosofia e da poesia de Antero, a sua orientação filosófica reflete ainda a forte influência da filosofia neo­-escolástica, através de Jacques Maritain e Régis Jolivet, assim como do estimulante pensamento de Henri Bergson. Também as conceções e os ideais do Integralismo Lusitano se mostraram de primordial importância na sua formação intelectual e moral, tendo sido eles que, no dizer de Gustavo de Fraga, «lhe educaram a inteligência e a sensibilidade», tornando­-se mesmo «indispensáveis para compreender a personalidade do pedagogo, do poeta, do anterianista, do açorianista» que ele foi. De António Sardinha recebeu o culto pela identidade e independência de Portugal, contra as conceções iberistas propaladas por grupos pertencentes, quer às hostes monárquicas, quer aos federalistas republicanos. É ainda a António Sardinha que deve a descoberta da dimensão cristã do amor e a Bernardo de Vasconcelos, poeta da exaltação da vivência mística do amor de Deus e antigo condiscípulo de Coimbra que se tinha recolhido na casa do Marvão, como monge beneditino, uma profunda influência religiosa e moral. Em conferência que proferiu em Coimbra, no Centro Académico da Democracia Cristã, em 1927, com o título António Sardinha, Poeta do Amor Cristão, enaltece a força imortal do amor conjugal que tem o carácter da indissolubilidade que o sacramento lhe confere. Em Cinzas do Mar. Versos de Abd­-el­-Kader, propõe­-se «cantar, em verso brando e amigo, / O amor — culto da gente portuguesa!», como sendo a «Fusão de duas vidas numa só vida, / De dois seres num só ser, / De duas almas numa só alma». O amor pela mulher amada é cantado com grande elevação espiritual e o desejo de possuí­-la reveste a forma duma vivência intemporal, que se traduz num convite a viver a vida, sem a estragar com «sonhos vãos» ou com «coisas tristes», na certeza de que ela se pode prolongar depois na Eternidade. Mas a poesia, que o poeta diz ser «Irmã gémea do Amor» é também a expressão duma inquietude irreprimível que se manifesta como desejo de Infinito e sede de Absoluto, ou seja, como expressão saudosa «de tão longa ausência» dum estado de plenitude, há muito tempo perdido nas «encruzilhadas da Vida». Numa formulação mais metafísica, Entre o Sonho e a Realidade, ela é «Ânsia de ser o Não­-Ser, / Angústia de estar — ausente —», que traduz o drama existencial do poeta de «ser o próprio Não­-Ser!...» Nos sonetos de Abd­-el­-Kader, inseridos neste livro de poemas de 1957, anseia em vão, no meio do «Deserto faiscante» e «interminável», por matar a sede da sua alma, mas, subitamente, o otimismo e a esperança como que renascem, e a Beleza da Vida, os encantos da Natureza e os «ideais do Bem e da Pureza» parecem triunfar. A sua poesia é, também, a exaltação do sentimento e do amor, como formas de conhecimento superiores à razão e duma permanente inquietude que não cede ao pessimismo.

Na vertente açorianista, a obra de R. G. C. encontra­-se dispersa por jornais, revistas literárias, palestras na rádio, conferências e alguns livros que reúnem parte desta sua intensa atividade. Mas muitos dos seus trabalhos encontram­-se ainda inéditos, depositados na Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada, por disposição testamentária, muitos deles prontos para serem publicados. Entre estes, merecem uma chamada de atenção os Subsídios para a História da Poesia Açoriana, organizados em 12 volumes, que resultam dum vasto e longo processo de recolha e estudo da produção poética de todas as ilhas dos Açores, um tarefa que empreendera desde jovem. Deste trabalho, ainda inédito, resultou a Antologia Poética dos Açores, em 2 volumes, tendo deixado preparado ainda um terceiro volume, por publicar, e manuscritas uma série de palestras que proferiu no Emissor Regional dos Açores, publicadas posteriormente no Diário dos Açores e parcialmente reunidas no livro Poetas dos Açores. A introdução deste último trabalho recupera um texto que já havia publicado no suplemento de O Comércio do Porto, «Letras e Artes», em que discute, com grande perspicácia, o tema da literatura açoriana e em que caracteriza os traços dominantes da personalidade base do açoriano, tal como ela se revela na literatura e na arte.

Para que haja uma literatura com significação açoriana será necessário que os nossos escritores e poetas tomem por tema «o viver das nossas gentes: seus usos e costumes, suas lendas, crendices e superstições, suas tradições e folguedos, suas danças e cantares, seu falar e seu drama quotidiano», e lhe confiram uma expressão humana universal que possa «interessar o homem de qualquer parte do mundo». Desta forma, R. G. C. conclui que, em rigor, se não poderá falar duma poesia de significação açoriana, muito embora descubra na obra literária de Vitorino Nemésio um contributo muito promissor para «imprimir um carácter islenho à nossa literatura, sobretudo na Poesia». Ainda nesta linha de valorização dos vultos e do carácter da cultura açoriana, há a salientar o estudo que assinala a sua participação no I Congresso Nacional de Filosofia «Contribuição dos Açores para a Filosofia», em que dá continuidade a um tralho já iniciado pelo P.e Ernesto Ferreira.

No campo dos estudos anterianos, a obra de R. G. C. começou a impor­-se de forma mais marcante a partir da sua dissertação de licenciatura – Antero de Quental e a Mulher. Ensaio Breve de Interpretação Psicológico­-Literária –, em que o autor tem a preocupação de mostrar, através da obra do poeta e da sua correspondência, que «Antero amou, conheceu os segredos do amor, e por causa dele muito sofreu».

Em Três Ensaios sobre Antero de Quental, começa por analisar «O génio poético de Antero», título do primeiro ensaio, para sublinhar o pendor filosófico da poesia de Antero, que alcança a expressão máxima nos Sonetos, principalmente nos da última fase. É uma poesia de «feição altamente filosófica e profundamente subjetiva» que não condescende com a plasticidade pitoresca da descrição panorâmica da realidade exterior, mas que se alimenta dos combates travados por um espírito dilacerado por uma invencível inquietude de teor religioso, tema do segundo ensaio.

O carácter existencial da inquietude confere à filosofia de Antero uma expressão essencialmente moral, em que a liberdade do homem está na renúncia ao egoísmo e à vaidade e na subordinação ao ideal do bem supremo. Uma etapa essencial de clarificação deste trajeto passa pela meditação sobre o sentido da morte, tema do último ensaio, que impõe o aniquilamento do eu individual, ao deixar­-se possuir totalmente pela virtude e ao tornar­-se assim num simples «instrumento do bem universal». Em «Linha geral do pensamento filosófico de Antero», título duma conferência inserida na coletânea de ensaios Antero Vivo, explica ainda o seu reconhecimento da insuficiência da filosofia naturalista, que tanto havia impregnado a sua visão do mundo como tinha também ateado o fogo da sua inquietude. Outros temas anterianos são ainda tratados nestes e noutros ensaios, como, por exemplo, as suas conceções sobre Deus e o cristianismo, a sua relação com o pessimismo e o budismo, a influência da filosofia alemã, principalmente o idealismo de Hegel e a metafísica do Inconsciente de Hartmann, as suas ligações com a música, nomeadamente, Beethoven e Chopin, o problema do seu suicídio, a determinação da cronologia dos Sonetos e o tema do seu açorianismo. Também no seu espólio, na Biblioteca Pública e Arquivo de Ponta Delgada, permanecem guardados vários trabalhos sobre Antero, prontos para serem publicados.

Em sessão solene realizada na Universidade dos Açores, a 26 de julho de 1980, recebeu das mãos do Presidente da República, General Ramalho Eanes, as insígnias da Comenda da Ordem de Santiago da Espada, em reconhecimento do seu relevante contributo na investigação e no ensino, ao serviço da Região.

Em 1986, foi inaugurada, na Universidade dos Açores, a Sala Antero de Quental, um legado de R. G. C., que, conforme disse no discurso que então proferiu, se constituía por várias traduções dos poemas de Antero, ensaios críticos, correspondência literária diversa, obras de autores açorianos, revistas e jornais, para além dum busto de Antero da autoria de Canto da Maia, um retracto do poeta, a óleo, de J. Raposo Marques e um quadro a óleo de inspiração anteriana da autoria de D. Luísa Athayde. Todo este valioso recheio acabou destruído pelo enigmático incêndio que deflagrou no edifício da reitoria, restando­-nos a biblioteca, adquirida pela Universidade após a sua morte, que constituía o ambiente de trabalho do escritório de sua casa. Nele também recebia os amigos e admiradores que o visitavam, no número dos quais se pôde contar a pessoa do Presidente da República, Dr. Mário Soares, durante a Presidência Aberta nos Açores, em 1989.

José Luís Brandão da Luz

(ENCICLOPÉDIA AÇORIANA)






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