Brilho da vida



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BRILHO DA VIDA
Lynne Graham

Revisão: Ana Paula



Digitalização: AnaCris

Formatação: Cris Paiva

PUBLICADO SOB ACORDO COM HARLEQUIN ENTERPRISES H B.V.

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte.

Todos os personagens desta obra são fictfcios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.
Copyright © 2005 by Lynne Graham

Título original: MARRIED B Y ARRANGEMENT

Originalmente publicado em 2005 por Mills & Boon Modem-Romance

Editoração eletrônica: TopTextos Edições Gráficas Ltda. Tel.: (55 21) 2240-2609

Impressão:
RR DONNELLEY MOORE

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Aos cuidados de Virgínia Rivera

virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

CAPÍTULO UM

— Mas por que Belinda não nos disse o ano passado que teve um filho de Pablo? — Antônio Rocha, mar­quês de Salazar, perguntou à avó, deixando transpa­recer a surpresa nos traços esculpidos do bonito rosto moreno.

— Mal conhecemos Belinda quando seu irmão era vivo. — As feições finas de Dona Ernesta refletiam tristeza. — Como poderíamos esperar que nos pedis­se ajuda depois de ter sido abandonada?

— Tentei inúmeras vezes marcar um encontro com Belinda. Ela sempre desconversava — lembrou Antônio. — Finalmente, deixou claro não precisar de nossa ajuda e não nos considerar parte da família.

— O orgulho deve ter falado mais alto. Imagino que só tenha sobrado isso, depois que Pablo partiu. Agora que sabemos que ele a abandonou grávida, meu coração está ainda mais apertado — confessou Dona Ernesta. — Entretanto, quando se casaram, achei que ele finalmente fosse sossegar.

Antônio, um cínico incurável, não alimentara essa esperança. Afinal, o irmão caçula tinha partido o co­ração da própria família bem antes de pôr em prática a destruição em massa, fora desse círculo seleto. Em­bora oriundo da elite espanhola, Pablo começou a se meter em confusões bem cedo.

Os pais achavam impossível controlá-lo. Quando chegou aos vinte anos, tinha dissipado uma substancial parte da herança e espoliou vários parentes e amigos de grandes somas de dinheiro. Durante esses anos complicados, inúmeras pessoas fizeram repeti­dos esforços para compreender, corrigir e solucionar os problemas de Pablo. Todas as tentativas foram in­frutíferas pois, como Antônio acreditava, o irmão adorava quebrar regras e fraudar os tolos.

Há três anos, Pablo chegara em casa tentando redi­mir-se dos erros, e anunciara a intenção de casar-se com a linda namorada inglesa. Dona Ernesta, felicís­sima, insistiu em organizar o casamento para o jovem casal e dar-lhes uma generosa quantia como presente. Entretanto, o casamento não deu certo e Pablo voltou para a Espanha após um ano. Logo depois, perdeu a vida num acidente automobilístico em que dirigia embriagado.

— Fico surpresa por Pablo ter mantido esse segre­do — lamentou Dona Ernesta. — É uma pena que Belinda não confie em nós o suficiente a ponto de não nos deixar conhecer a criança.

— Tomei providências para voar para Londres amanhã de manhã — disse Antônio, franzindo a testa ao ver que a senhora idosa, sentada ao lado da elegan­te lareira de mármore, mantinha o olhar preocupado. — Tente não mergulhar na tristeza. Fizemos tudo que podíamos por Pablo, e agora faremos o que estiver a nosso alcance pela filha dele.

Naquela tarde, Antônio recebera um telefonema urgente do advogado da família, contatado pelo pro­curador de Belinda na Inglaterra. Antônio ficou aba­lado com a notícia de que a viúva do irmão tinha não apenas dado à luz uma criança seis meses antes, como morrido de pneumonia quinze dias atrás. Ficou aliviado pois, por mais independente que Belinda evidentemente tivesse a intenção de ser, tivera o bom senso de nomeá-lo como tutor da filha, Lydia, no tes­tamento. Atendendo à sugestão do advogado da famí­lia, Antônio concordara, por precaução, em fazer um teste de DNA, embora não houvesse motivo para du­vidar de que a criança fosse filha do irmão.

O advogado informou que a irmã de Belinda, Sophie, estava cuidando da criança. Apavorado com a informação, Antônio julgou sua intervenção necessá­ria. Sophie era muito jovem para assumir tamanha responsabilidade, e achava seu estilo de vida nada condizente com as exigências de cuidar de um bebê.

Antônio conheceu Sophie quando ela foi dama no casamento da irmã. A diferença pronunciada entre as duas tinha surpreendido a conservadora família. En­quanto Belinda tinha o brilho confiante e a dicção típi­cos da classe média inglesa, Sophie parecia pertencer a uma classe menos privilegiada. Até mesmo Antô­nio falava um inglês mais correto gramaticalmente que ela. Ao lembrar-se das discrepâncias inexplicá­veis, o olhar incisivo ficou turvo. A memória invo­luntária de Sophie com sua cascata de ondas louras e olhos verdes cintilantes invadiu-o. Sem dúvida, não tinha a beleza clássica e a elegância da irmã. Apesar disso, Antônio descobriu-se olhando continuamente para a dama mais jovem e baixinha naquele dia, e não demorou a perceber que não era o único homem na sala sensível a seus atrativos.

Mas seu sex-appeal durou pouco, Antônio lem­brou-se, a boca expressiva curvando-se num gesto de desdém. Sophie estava esplendorosa, sexy e muito fe­minina. Mas como descobriu, se comportara como uma vagabunda. Vê-la voltar ao amanhecer para o hotel com o jovem amante, a roupa desalinhada de­pois de uma noite de paixão, fora uma lição salutar. Obviamente, se comportava como as várias turistas que chegavam à Espanha para entregar-se ao sexo ca­sual e álcool excessivo.

— Uma menina. Minha primeira bisneta — Dona Ernesta comentou, um sorriso abrandando-lhe os tra­ços severos, a voz bem modulada abstraindo-se por um raro momento do neto. — Lydia. Bonito nome. Um bebê transformará o castillo.

Antônio tentou evitar o impulso de recuar; reco­nhecia não ter pressa em tornar-se pai. Mal tinha completado trinta anos. Não estava preparado para produzir a próxima geração, e nunca tivera o menor interesse em crianças. Na verdade, geralmente se mantinha afastado das pestinhas nos eventos familia­res. Sem dúvida, o charme do choro de um bebê só existia aos olhos dos pais, possibilitando-lhes supe­rar o barulho e a bagunça.

— Imagino que sim — murmurou, decidindo man­dar renovar a suíte na pouco usada ala leste, com a maior urgência. Também providenciaria uma equipe para atender a todas as necessidades da criança.

Não tinha vergonha de admitir apreciar seu estilo de vida. Precisou trabalhar arduamente, durante mui­to tempo, para reparar o prejuízo causado à fortuna da família Rocha devido aos saques de Pablo. En­quanto o irmão levava uma vida despreocupada, An­tônio trabalhava dezoito horas por dia: Não podia se dar ao luxo da boa-vida, interesses pessoais e lazer. Tendo acumulado dinheiro suficiente para ser consi­derado um bilionário, Antônio agora saboreava uma existência altamente sofisticada, fantástica vida so­cial e liberdade para fazer o que bem entendesse.

Mas também tinha consciência de que mudanças pairavam no ar: a filha de Pablo era sua responsabili­dade. Tinha o dever de cuidar da criança órfã e trazê-la para a Espanha. A criança era sangue de seu san­gue, parte da família, e ele a criaria como se fosse sua própria filha.

— Você vai ter que se casar — murmurou a avó numa voz suave e casual.

Atônito com a desconcertante afirmativa, Antônio retrocedeu para analisar a senhora que dava a impres­são de estar concentrada no bordado. Os olhos escu­ros pareciam divertidos, pois sabia que a avó estava louca para que ele arranjasse uma esposa.

— Com todo respeito, abuela... não acho que ta­manho sacrifício seja necessário.

— Bebês precisam de mães. Estou muito velha para assumir o papel, e você viaja constantemente — Dona Ernesta lembrou-o.— Só uma esposa pode as­segurar o cuidado e a atenção que uma criança peque­na exige.

Enquanto Antônio ouvia, a alegria desapareceu do olhar.

— Não preciso de uma esposa.

Levantando os olhos, aparentemente despreocupa­da, Dona Ernesta deu um sorriso condescendente.

— Então, só posso oferecer minha admiração. Ob­viamente já pensou no assunto.

— Demoradamente — retrucou Antônio, seco, não acreditando na pretensa inocência da avó.

— E está preparado para abrir mão de seus mo­mentos livres em favor da menina. Afinal, se só con­tar com você, precisará demais de sua atenção.

Não tinha pensado nisso. Os olhos brilhantes fica­ram foscos. Relutava em considerar esse grau de comprometimento. Não podia imaginar-se assumin­do o papel de pai em tempo integral. A simples idéia era ridícula. Ele era o marquês de Salazar, chefes de uma família nobre e tradicional bem como um influente e poderoso homem de negócios do qual milhares de empregados dependiam. Seu tempo era muito valioso. Dele dependia o sucesso dos projetos. O que, sabia sobre crianças?

Ao mesmo tempo, a idéia de um casamento asse­melhava-se a um caixão fechado. Empalideceu.

—Enquanto mudava a camiseta de Lydia, Sophie su­cumbiu à tentação e jogou-lhe uma amora na barriga. Rindo às gargalhadas, Lydia levantou os bracinhos pedindo colo, o rostinho emoldurado por cachos cas­tanhos.

— Não sei qual das duas é mais criança. — brin­cou Norah Moore, enquanto o filho, Matt, colocava a velha cadeirinha de comer ao lado da mesa de pinho.

De estatura pequena e magra como uma bailarina, Sophie afastou os cachos do rosto, e por pouco admi­tiu que tristeza, estresse e trabalho pesado a faziam sentir-se como uma mulher de cem anos. Pagar as contas sempre fora um desafio, e desde o nascimento de Lydia tivera que conciliar dois empregos. Os rendimentos principais vinham do emprego como faxi­neira dos Moore. Mãe e filho eram donos do acampa­mento de trailers onde morava há quase quatro anos. Limpava os trailers alugados durante as férias. Al­guns eram ocupados o ano inteiro por pessoas como ela, impossibilitadas de pagar acomodações mais ca­ras. Ganhava um dinheiro extra bordando roupas para uma empresa, cujos pedidos eram feitos exclusi­vamente por correio. A remuneração era baixa se comparada às horas trabalhadas, mas ficava grata por qualquer trabalho que pudesse fazer em casa enquan­to cuidava de Lydia.

— Mas eu sei quem é a mais bonita — declarou Matt, lançando uma olhada significativa em direção a Sophie.

Sophie prendeu Lydia na cadeirinha, evitando o olhar de admiração, e se perguntou por que a Mãe Natureza sempre encorajava os homens errados a da­rem em cima dela. Gostava de Matt. Tinha tentado e muito achá-lo atraente porque ele era trabalha­dor, honesto e decente. Tudo que seu irresponsável pai não havia sido! Seria o marido ideal para uma mulher ajuizada. Como gostaria de ser menos sonha­dora e mais prudente.

— Nesse momento, acho que Sophie está mais preocupada com o que o procurador tem a dizer — disse Norah ao filho bruscamente. Ela era uma mu­lher magra de cabelos curtos grisalhos. — Não enten­do porque Belinda se deu ao trabalho de preparar um testamento se não tinha bens.

— Tinha Lydia — argumentou Sophie. — Belinda preparou o testamento depois que Pablo morreu.

Deve ter sido seu jeito de recomeçar a vida e mostrar independência.

— É, sua irmã orgulhava-se de sua independência— disse Norah pigarreando. — E não apreciava estar presa a uma criança.

— Era difícil para ela. — Sophie deu de ombros, triste por não poder justificar o comportamento de Belinda durante os últimos meses de vida. Pelo me­nos, não para alguém que, repetidas vezes, a ajudara na tarefa de cuidar da filha de Belinda. Isso era o que mais apreciava nos Moore. Eles diziam o que pensa­vam.

— Foi ainda mais difícil para você — argumentou Norah sem pestanejar. — Tive pena de Belinda quan­do chegou. Tinha enfrentado tempos difíceis. Mas quando se mandou com o novo namorado e deixou Lydia com você, perdi a paciência.

— Adorei ter ficado com Lydia — declarou So­phie com firmeza.

— Muitas vezes o que adoramos não nos faz bem — retrucou a senhora resoluta.

A sobrinha era o único consolo do coração ferido pela morte súbita da irmã. Embora Sophie e Belinda fossem filhas de pais diferentes e só tivessem se co­nhecido quando Belinda a procurou, Sophie passara a gostar muito da irmã mais velha. Belinda fora, afinal de contas, a única pessoa a lhe demonstrar afeição.

As gritantes diferenças entre a criação das duas poderiam fazer com que as irmãs permanecessem es­tranhas. Enquanto Belinda cresceu numa adorável casa de campo com um pônei e tudo o que os pais po­diam comprar, Sophie era filha ilegítima, e cresceu num apartamento de um conjunto residencial com um pai sempre duro. Sophie era resultado de um caso extraconjugal de Isabel, mãe delas. Depois que a pai­xão terminou, Isabel voltou para o marido deixando Sophie com o amante. O irresponsável pai de Sophie a criou com a ajuda de uma sucessão de namoradas. Ela tinha aprendido muito cedo que seus desejos e necessidades não interessavam os adultos que a ro­deavam.

No primeiro encontro, Sophie ficou deslumbrada com a beleza e sofisticação da irmã. Cinco anos mais velha, Belinda foi educada num colégio interno caro, e tinha um sotaque que lembrava a Sophie a família real. De natureza carinhosa, logo conquistou a con­fiança e o amor de Sophie. Talvez de forma mais len­ta — e com certeza mais dolorosa — Sophie come­çou a perceber que Belinda não era muito inteligente e era extremamente suscetível a homens bonitos que contavam vantagens para impressioná-la. Mas nin­guém faria com que a leal Sophie confessasse isso.

Deixando a sobrinha aos cuidados de Norah, So­phie subiu na picape de Matt. Pegou uma carona até Sheerness. Ele deixou-a em frente ao escritório do advogado, oferecendo-se para esperá-la.

Sempre ansiosa por escapar do ar esperançoso de Matt, Sophie saltou do carro.

— Não precisa. Pego um ônibus.

Matt comportou-se como se não tivesse escutado, e disse onde estacionaria o carro.

Um garoto parado no sinal abriu a janela do carro e gritou:

— Oi, sexy!

Sophie lançou-lhe um olhar recriminatório.

— Você não devia estar na escola?

Ele ficou atordoado com a resposta. Sophie se in­comodava por ter a aparência de uma menina de 16 aos 32 anos. Julgava que isso se devia ao fato de ser baixinha e ter o corpo esguio. Mantinha o cabelo comprido porque — embora não admitisse nem mor­ta! — temia ser confundida com um menino.

Ao entrar no elegante escritório de advocacia, pu­xou a barra da saia jeans, enfeitada com um babado de algodão florido. A saia estava fora de moda, e ela a vestira por achar que parecia mais formal do que os jeans que faziam parte de seu limitado guarda-roupa. Todas suas roupas vinham de brechós. Sem se anun­ciar, ela entrou enquanto a recepcionista conversava com uma colega e atendia um telefonema sem perce­ber a sua chegada.

Na sala de espera, Sophie aproximou-se da janela. Olhou uma limusine forçar a passagem causando um caos no trânsito. O carro prateado parou e um moto­rista uniformizado saiu. Indiferente às buzinas recla­mando da obstrução que a limusine criava, abriu a porta de trás para que o passageiro saltasse.

Quando ele saltou, Sophie ficou sem ar. Os olhos verdes abriram-se incrédulos. Não podia ser o déspo­ta do irmão mais velho de Pablo, Antônio Rocha! Es­condeu-se, mas continuou a olhar. Era Antônio. Ele tinha o impacto de uma onda gigante em seu autocontrole.

Ali estava ele: o homem que tinha feito carne moída de todos seus preconceitos, de suas defesas e a ti­nha reduzido a nada, num piscar de olhos. Suprimiu um estremecimento de vergonha diante da lembran­ça. Por quase três anos, desde aquele dia terrível, Sophie dissera a si mesma que Antônio não poderia ser nem um décimo tão devastadoramente atraente quanto ela o julgava. E agora ali estava ele, em carne e osso, para destruir aquela reconfortante mentira com o porte aristocrático que a irritava e a sexualida­de desconcertante.

Os cabelos negros estavam bem curtos. Os traços finos e clássicos tinham uma masculinidade que atraía a admiração das mulheres por onde passava. Era uma obra-de-arte, reconheceu Sophie com ran­cor. Não apenas parecia um deus grego, mas também tinha ombros largos, cintura fina e pernas compridas e musculosas. Vestido com um terno bem talhado, es­tava super elegante. Só quando ele entrou no escritó­rio em que ela estava, saiu da paralisia e duvidou da evidência.

Por que Antônio Rocha estava na Inglaterra? O que fazia na Ilha de Sheppey onde os ricos eram mais escassos que dentes de galinhas? Com certeza, só po­dia estar em Sheerness, nesse dia específico, para comparecer ao mesmo compromisso que ela. Não ha­via outra razão racional para explicar tamanha coin­cidência.

Sophie correu para a porta que levava à recepção, de súbito bastante tumultuada. A anteriormente lacô­nica recepcionista exibia um enorme sorriso de apre­ciação, enquanto um senhor bem-vestido saudava Antônio com uma terrível quantidade de curvaturas. — Sua Excelência — murmurava obsequioso.

Como se um sexto sentido o avisasse de sua pre­sença, Antônio girou a orgulhosa cabeça. Olhos ne­gros brilhantes, que pareciam conter lingotes de ouro à luz do sol, encontraram os seus. Sentiu um nó na barriga; a boca ficou seca, o coração batia como se ti­vesse tentado escalar uma colina. Parecia ter sido atropelada por um caminhão em alta velocidade e reagiu com pânico.

— Que diabos você está fazendo aqui? — pergun­tou beligerante.

Antônio não demonstrou a surpresa que sentiu com sua aparência. Examinou a esguia mulher posta­da na porta. Tinha a estrutura e a graça de uma baila­rina, e o ar de uma borboleta, prestes a levantar vôo ao primeiro sinal de perigo. O cabelo louro caía numa massa de cachos em torno do delicado rosto pontia­gudo, emoldurando grandes olhos verdes, afiados e brilhantes como lanças, um nariz arrebitado e uma boca de cupido. O olhar aguçado, semi-coberto pelos cílios, desviou a atenção da boca provocante. Lutou por suprimir uma chama primitiva e, irritantemente, inapropriada de pura luxúria.

Sophie dobrou os braços para esconder as mãos trêmulas.

— Eu fiz uma pergunta, Antônio: quem o chamou aqui? — insistiu.

— Sua Excelência compareceu à reunião atenden­do a meu pedido, srta. Cunningham — interrompeu o advogado em tom de reprovação.

Antônio aproximou-se e estendeu as mãos finas. Os olhos penetrantes encontraram os seus causando uma colisão. Antes de saber o que fazia, descruzou os braços na defensiva e libertou os dedos para tocá-lo, numa ânsia que não conseguia controlar.

— Sei o quanto gostava de sua irmã. Permita-me apresentar minhas profundas condolências pelo fale­cimento — murmurou grave.

A pele clara de Sophie tornou-se rosada. As pe­quenas mãos tremeram ao toque cálido das dele. Emoções ferozes a invadiram e ameaçavam desmo­roná-la. Não duvidava da sinceridade, e a compaixão deixou-a à beira das lágrimas. Com o imaculado sen­so de oportunidade, sofisticação social e educação soberba, deixou-a em má posição respondendo com cortesia à sua saudação nada gentil. Só isso era o su­ficiente para lhe dar vontade de gritar e chorar de rai­va. Não se deixou impressionar. Também se recusou a pensar no quanto ele a magoara há quase três anos. Em vez disso, concentrou-se numa linha de ataque mais relevante. Onde estavam Antônio Rocha e sua família rica e esnobe quando Belinda precisou, desesperadamente, de ajuda e amparo?

Afastou as mãos num gesto de rejeição.

— Não quero suas preciosas condolências — disse seca.

— Mas as ofereço mesmo assim — disse Antônio, surpreso com o nível de agressão e recusa. As mulhe­res nunca eram agressivas ou mal-agradecidas em re­lação a ele. Sophie era a exceção à regra.

— Você ainda não me disse o que está fazendo aqui — repetiu Sophie teimosa.

— Fui convidado — lembrou-lhe Antônio gentil.

— Sua Excelência... por favor, por aqui — o advo­gado dizia num tom de desculpas.

Embora Sophie ficasse cada vez mais pálida devi­do ao desconforto e nervoso, levantou a cabeça.

— Não vou a lugar nenhum até que alguém me diga o que está acontecendo! O que lhe dá o direito de saber o que minha irmã deixou no testamento?

— Vamos discutir isso e outras questões num lu­gar mais privado — calmamente sugeriu Antônio.

Mais uma vez, o rosto de Sophie ficou ruborizado de decepção. Um terrível desconforto a afligiu ao lembrar-se, sem querer, das conseqüências de sua vi­sita à Espanha. A rejeição dele tinha doído demais, devastado seu orgulho. Tinha sido ingênua demais, não percebera que o marquês de sangue azul, simples­mente, se divertia flertando com ela. Reprimir essa memória dolorosa, e concentrar-se no presente, exi­giu-lhe um esforço tremendo.

Orgulhosa, sentou-se numa cadeira do espaçoso escritório. Determinada a imitar a frieza de Antônio, resistiu à tentação de explodir e comprimiu os lábios. Ao mesmo tempo, tentava descobrir o porquê de An­tônio Rocha ter sido chamado da Espanha. Afinal de contas, o irmão perverso de Pablo nunca se preocupa­ra em entrar em contato, nem demonstrado o menor interesse pela sobrinha. Um arrepio de ansiedade per­correu-a.

O advogado começou a ler o testamento com uma certa pressa, ansioso por terminar a tarefa desagradá­vel. O documento era curto e simples, e rapidamente Sophie compreendeu porque a presença de Antônio fizera-se necessária. Todavia, não podia aceitar o que ouvira e questionou.

— Minha irmã também nomeou Antônio como tu­tor?

— Isso mesmo — confirmou o advogado.

— Mas eu tenho condições de cuidar de Lydia — proclamou vivamente. — Não há necessidade de en­volver mais ninguém!

— Não é tão simples — disse Antônio, cortante como uma navalha. Mas uma ligeira linha formou-se entre as sobrancelhas de ébano. Estava surpreso que o testamento não mencionasse os bens de Belinda e ia questionar essa omissão.

Sophie dirigiu ao alto espanhol seu primeiro olhar fugaz desde que entrara na sala. Os olhos verdes per­turbados enviaram um aviso de tempestade a cami­nho.

— Pode ser bem simples. Não sei o que passou pela cabeça de Belinda quando decidiu incluir você...

— Bom senso? — rebateu Antônio.

— Suponho que Belinda deve ter tido medo de que ela e eu pudéssemos sofrer um acidente — disse So­phie exaltada, o rosto vermelho enquanto lutava para manter a compostura. — Estamos falando das piores possibilidades, mas felizmente as coisas não são tão ruins. Sou jovem, gozo de boa saúde e sou capaz de cuidar de Lydia sozinha.

— Discordo dessa afirmação — murmurou Antô­nio.

Ela cerrou os dentes.

— Você pode discordar do que bem entender; isso não vai mudar nada.

__Sua irmã nomeou a senhora e o marquês como tutores da filha. O que significa que os dois têm direi­tos iguais sobre a criança.

— Direitos iguais? — Sophie engasgou incrédula.

— Direitos iguais — repetiu Antônio enfatizando as palavras.

— Nenhum outro acordo é possível sem recorre­rem à justiça — o advogado decretou.

— Mas isso é absolutamente ultrajante! — Sophie explodiu.

— Com todo respeito, sugiro que minha família te­nha direito a ajudar na tarefa de criar a filha de meu irmão até a idade adulta.

— Por quê? — Sophie indagou irada erguendo-se. — Para que sua estimada família cometa os mesmos erros com Lydia que cometeu com o pai dela?

Antônio ficou desconcertado.

— Nossos dois irmãos já morreram. Vamos res­peitar essa realidade.

— Não ouse me pedir que respeite a memória de Pablo! — despejou Sophie com desprezo. — Seu ir­mão destruiu a vida de minha irmã.

— Posso falar em particular com a srta. Cunningham um minuto? — solicitou ao advogado.

O homem mais velho, cujo desconforto, durante essa crescente e inflamada troca de pontos de vista, tinha sido extremo, levantou-se aliviado e deixou a sala.

— Sente-se — frio ordenou Antônio, determinado a não irritar-se com as acusações provocadoras. — Não vou discutir com você. Recriminações são inúteis e nada adequadas nessa situação. Os interesses da criança devem vir em primeiro lugar...

Sophie estava tão furiosa que somente um grito poderia expressar seus sentimentos. Negando-se a isso, apertou as mãos.

— Não ouse me dizer o que é certo e errado. Olha aqui...

Antônio levantou-se sem pressa.

— Você não vai me dizer nada que eu não tenha perguntado. Abaixe o tom da voz e modere a lingua­gem.

— Com quem acha que está falando? Com alguma criança estúpida? Você chega aqui, começa a ditar re­gras e a agir como se soubesse mais...

— Provavelmente eu sei mais — replicou Antônio num tom nada conciliatório. — Reconheço que so­freu uma perda recente e que a dor possa ter afetado seu temperamento...

— Não é por isso que odeio você, e não é por isso que estou gritando com você! — informou Sophie ameaçadora, os olhos verdes faiscando de fúria. — O desgraçado do seu irmão tirou de minha irmã tudo o que ela possuía, deixou-a sem um tostão, no verme­lho. Era um mentiroso, um trapaceiro. Gastou todo o dinheiro nas mesas de jogo e nas corridas de cavalo. Quando não tinha mais nada, disse que não a amava e foi embora!

Antônio ficou perturbado, mas não surpreso com essas revelações. Seria falta de tato comentar, mas antes de Belinda casar-se com o irmão, tentou em vão avisá-la sobre a relação de seu futuro marido com o dinheiro.

— Se isso é verdade, lamento. Se tivesse conheci­mento desses fatos, teria ajudado Belinda.

Sophie bufou.

— É tudo o que tem a dizer?

Antônio tinha pouca tolerância a esses ataques pessoais. Em seu sangue corria o orgulho da nobreza espanhola e de uma longa linha de ancestrais para quem a honra havia sido um conceito cavalheiresco de primordial importância. Vivera dentro dessa dou­trina, e seus princípios eram os mais elevados. Sentia profunda raiva ao ser censurado pelos pecados do ir­mão, tendo pago por eles um preço bem alto. A linha forte do maxilar contraiu-se. Não tinha intenção de trocar ofensas que só exacerbariam as hostilidades.

— É uma lástima que eu não possa mudar o passa­do. O único assunto que pretendo discutir no momen­to é o bem-estar de minha sobrinha.

Sophie analisou-o frustrada, com olhos furiosos. Nada o abalava. Nada tirava nem uma lasca daquela fachada fria, de mármore. Não se sentia envergonha­do nem afrontado pelo comportamento do irmão ca­çula quanto à sua pobre irmã. Do alto de seu l,90m, a riqueza e o distanciamento aristocrático ilhavam-no da dura realidade dos menos afortunados. Vivia num castelo com criados. Tinha um avião particular e uma frota de limusines. Seu terno chique custava, prova­velmente, tanto quanto ela ganhava em um ano. Nun­ca saberia o que era batalhar para pagar o aluguel no final do mês. Não podia sentir compaixão dos sofri­mentos de Belinda.

— Não vou discutir Lydia com você! — Sophie despejou com todo ressentimento. — Você é tão ca­nalha quanto seu irmão!

As maçãs do rosto de Antônio mudaram de cor. Os olhos brilhantes subitamente tingiram-se de ouro como uma labareda.

— Em que fundamenta sua acusação? Num pre­conceito idiota?

— Minha experiência pessoal me mostrou o tipo de sujeito que você é! — declarou Sophie num acesso tempestuoso de mágoa e raiva. — De qualquer jeito não faz meu gênero!

— Desculpe, mas não gosto de tatuagens — mur­murou Antônio num tom sibilante com o objetivo de magoar.

— Tatuagens? — Sophie repetiu sentindo a borbo­leta, feita aos 18 anos, queimar-lhe a carne do ombro como ferro em brasa. Foi tomada pela raiva. — Seu esnobe venenoso! Como ousa zombar de mim desse jeito? Se comporta com superioridade e gentileza, mas você me enganou, me arrasou e fez mal juízo de mim aquela noite.

Os olhos penetrantes de Antônio estavam soldados no rosto em formato de coração e nos olhos verdes faiscantes. Sua paixão o fascinava. O desequilíbrio percorria-o como uma corrente elétrica e ela não con­seguia controlar-se. Divertia-se, e estava contente ao descobrir que sua justificável ruptura aquela noite ainda a torturava depois de quase três anos.

— Não acho. Acho que você se ressente do fato de que vi como você é...

A força de seus sentimentos deixava Sophie trê­mula.

— E como me viu? — desafiou-o.

— Você não quer saber — afirmou indolente, lan­çando a isca na esperança de provocá-la ainda mais. Ela já estava tão furiosa que praticamente pulava, e ele não conseguia resistir à tentação de descobrir até onde poderia ir antes dela perder totalmente o controle.

Sophie deu um passo decidido à frente e encarou-o, a afronta estampada nos traços delicados, as mãos nos quadris como uma lavadeira.

— Me diga... vamos, bota pra fora!

Antônio sacudiu os ombros num gesto de descaso, deliberadamente prolongando o momento do golpe final.

— Assim como a maioria dos homens, confesso gostar de mulheres devassas, mas receio que a pro­miscuidade seja broxante. Você perdeu a chance co­migo.

Sophie tentou esbofeteá-lo, mas não era alta o su­ficiente. A reação dele foi mais rápida: desviou-se. Sua mão simplesmente tocou-lhe o ombro.

— Seu porco! Você acha que eu me importo?

— Uma reação tão explosiva quase três anos de­pois é mais do que ilustrativa, querida — Antônio fa­lou com seu timbre rouco, perguntando-se porque es­tava gostando tanto disso.

Pálida pelo choque e dor diante do próprio com­portamento e o amargo efeito do menosprezo dele, Sophie encaminhou-se para a porta.

— Recuso-me a discutir.

—Você podia tentar uma vez na vida controlar o temperamento e pensar na criança cujo futuro está em discussão.

Sophie ficou estática como se tivesse sido apunha­lada pelas costas. Culpa e vergonha a subjugaram. Voltou a sentar-se na cadeira sem olhar uma vez em direção a seu carrasco.

— Obrigado — murmurou Antônio suavemente.

As unhas cravaram-se nas palmas das mãos. Nun­ca odiara tanto alguém. Nunca alguém a tinha feito se sentir tão estúpida e egoísta. Ele chamou o advogado de volta. No início permaneceu em silêncio, com medo de dizer algo inadequado, mas planejara fazer umas perguntas. Entretanto, não foi preciso. Antônio solicitou esclarecimentos, e as respostas disseram a Sophie o que ela queria saber.

Todas as decisões teriam que ser tomadas de co­mum acordo entre ela e Antônio. Poderiam recusar a responsabilidade ou abrir mão dos direitos para o ou­tro. Como executor, o advogado tinha plenos poderes, se julgasse necessário, para decidir como as ne­cessidades de Lydia deveriam ser atendidas. Segu­rança e meios financeiros para manter a criança se­riam, naturalmente, levados em consideração.

— Então, como sou pobre e Antônio é rico, não te­rei direitos iguais, é isso? — perguntou.

— Não é assim que vejo a situação, srta. Cunningham. — Consternado pela objetividade, o advogado olhou para Antônio pedindo ajuda.

Antônio Rocha, marquês de Salazar, levantou-se sem pressa um segundo depois de Sophie ter saltado da cadeira, louca para ir embora.

— Não vejo motivos para que eu e a srta. Cunningham não possamos chegar a um acordo amigável — disse com a calma e a tranqüilidade de um homem consciente de ter vencido o adversário. — Gostaria de ver Lydia essa noite. Podemos marcar às sete da noite? Irei à sua casa.

— Você não me deixa escolha — retrucou amarga. Tendo assumido o controle, Antônio acompa­nhou-a até o corredor.

— O clima não precisa ser antagônico entre nós — murmurou asperamente.

— Como não? — ouviu-se responder de supetão. Ele estava tão perto que podia tocá-lo. O som de

sua voz melodiosa era incrivelmente sensual. Ela co­meteu o erro de olhá-lo. Ficou sem ar, o mundo de pernas para o ar. Num piscar de olhos, o tempo voltou transportando-a para quase três anos atrás. Ao encon­trar-lhe a escuridão dos olhos espetaculares, tremeu. Uma excitação traiçoeira aprisionou-a. Por um mo­mento que parecia não ter fim, teve plena consciência da agonia de não manter contato físico com essa es­trutura delgada e poderosa. Ouviu-lhe a respiração e imaginou o calor da linda boca na sua. Só a humi­lhante recordação dos comentários anteriores força­ram-na a voltar à terra e deixou-a envergonhada da própria fraqueza.

— Sinceramente, você acha que sou estúpida o su­ficiente para me deixar envolver pelo mesmo falso charme que usou da última vez? — perguntou debo­chada, deslizando sinuosamente por ele com a rapidez que caracterizava todos seus movimentos. Desa­pareceu no final do corredor antes que ele percebesse que ela se fora.

Antônio soltou um palavrão baixo, com uma fero­cidade que surpreenderia os que o conheciam.

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