Brilho da vida



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CAPÍTULO DOIS

A caminho de casa, Sophie fez um resumo para Matt dos acontecimentos. Depois, permaneceu em silên­cio. Estava muito chateada para conversar.

Abalada pelo testamento de Belinda, estava sim­plesmente aterrorizada diante do sério risco de perder Lydia, e desestruturada pelo reencontro com Antô­nio. Como a irmã podia tê-lo escolhido como tutor da criança? Afinal, Belinda mal teve contato com os pa­rentes do marido depois do casamento. Uma vez ad­mitiu para Sophie que Pablo nunca se dera bem com os parentes e, por isso, preferia morar em Londres. Quando Antônio contatou Belinda, depois da morte de Pablo, ela ficou histérica e determinada a não ter o menor contato com a família do falecido marido. Ao mencionar o testamento que fizera, não admitira ter incluído Antônio. Sophie não estava preparada para essa evidente mudança.

Entretanto, podia compreender o motivo de Antô­nio ter sido escolhido: Belinda sempre tivera o maior respeito por dinheiro e status. Chegava a ser irônico que a irmã se sentisse intimidada pela nobreza da fa­mília do marido. Sem dúvida, nomeara Antônio no testamento por interesses financeiros. Sabendo que Sophie era paupérrima, devia ter suposto que in­cluir o mega-rico Antônio poderia resultar numa oferta para contribuir na educação da sobrinha. Sophie agarrou-se à idéia, rezando para que o irmão de Pablo não tivesse intenção de se envolver na vida de Lydia.

Sophie amava Lydia como se tivesse nascido dela. O laço entre Sophie e a sobrinha sempre seria forte porque como havia tido leucemia na infância, Sophie sabia que o tratamento que lhe tinha salvado a vida podia tê-la deixado estéril. A ligação com o bebê da irmã foi intensificada pelo simples fato de que, desde o nascimento, Lydia ficara apenas sob os cuidados de Sophie.

Inicialmente, Belinda não se sentia bem e precisou de Sophie para cuidar da filha até se fortalecer. Em poucas semanas, entretanto, encontrou o homem com quem viveu até falecer. Doug, um vendedor bem sucedido, com uma vida social intensa, não demonstra­ra interesse nenhum no bebê da namorada. Tendo se apaixonado por ele, Belinda rapidamente passou toda a responsabilidade de Lydia para os ombros de So­phie.

Em várias ocasiões, Sophie tentou argumentar com a irmã e persuadi-la a passar mais tempo com a filha.

— Nunca deveria ter tido essa criança! — final­mente Belinda confessou despudoradamente. — Se eu tiver que começar a brincar de mamãe e ficar mais tempo em casa, Doug vai encontrar outra pessoa. Sei que não estou sendo justa com você, mas eu o amo muito e não quero perdê-lo. Me dê mais algum tem­po. Sei que ele vai acabar aceitando Lydia.

Mas Doug não aceitou. Pelo contrário, disse a Belinda que não havia lugar em sua vida para uma criança.

— Foi por isso que tomei uma decisão — disse Be­linda a Sophie, aos prantos, duas semanas antes de morrer. — Você provavelmente não vai poder ter fi­lhos, e sei o quanto ama Lydia. Tem sido uma mãe fantástica para ela, muito melhor do que eu poderia ser. Se quiser, pode ficar com ela para sempre, e as­sim poderei vê-la ocasionalmente.

Nesse dia, Sophie achou mais sábio não falar nada, pois estava convencida de que o caso de Belinda e Doug já dava sinais de falência e de que, em breve, a irmã se arrependeria amargamente de ter sacrificado a filha em função dele. Sophie tinha crescido numa casa onde as amiguinhas do pai tinham os próprios fi­lhos. Sabia que havia homens que recusavam-se a as­sumir a responsabilidade de qualquer pessoa, a não ser de si mesmos. O pai era desse tipo: um charmoso malandro, de um egoísmo colossal, mas nunca havia ficado sem mulher. Com muita freqüência, essas mu­lheres priorizavam as necessidades dele em detri­mento das dos próprios filhos, numa tentativa vã de segurá-lo.

— Minha Nossa Senhora!... Belinda não podia ter deixado de contar para você! — Norah exclamou sur­presa ao ouvir da chegada de Antônio no escritório do procurador. — Essa sua irmã era uma caixinha de surpresas!

Ocupada em acariciar Lydia e saborear o aconche­go da sobrinha nos braços, Sophie suspirou.

— Provavelmente, Belinda incluiu o nome de An­tônio e não voltou a pensar nisso. Não tinha segredos comigo.

— Não mesmo? — insinuou Norah. — Assuma que Belinda só dizia o que achava que você queria ouvir!

— O que quer dizer com isso? Está me provocan­do?

Enrubescendo, Norah pareceu embaraçada.

— Claro que estou.

Não era a primeira vez que Norah sugeria que So­phie não conhecia tão bem a irmã quanto supunha. Sophie ficou irritada, mas desconsiderou a insinua­ção. Sabia que Norah e Belinda mal se toleravam. Norah era mal-educada para o gosto refinado de Be­linda, e a frieza da jovem a deixara magoada e ofen­dida.

Sophie deixou o pequeno e aconchegante bangalô da família Moore e voltou para o trailer onde vivia. Belinda odiara morar ali, e ficou satisfeitíssima ao mudar-se para o apartamento do namorado na cidade. Mas Sophie via o trailer como seu lar, e apreciava o fato de a grande janela da frente dar para um campo onde, por vezes, os carneiros pastavam. Na verdade, na sua lista de desejos constava o sonho de algum dia estar em condições de parar de alugar e poder com­prar um modelo moderno.

Vestindo o jeans e pegando o material de limpeza, Sophie apressou-se em recuperar o dia de trabalho perdido. Por mais que tentasse, não conseguiu blo­quear as memórias do casamento de Belinda e o pri­meiro encontro com Antônio...

Sophie ficara animada com o convite para madri­nha. Parte do entusiasmo tinha se desvanecido ao perceber que Belinda queria que ela escondesse a ori­gem humilde e evitasse qualquer aproximação com a família de sangue azul de Pablo. Os apelos insisten­tes da irmã a persuadiram a compartilhar a data espe­cial com ela e aceitar as restrições impostas.

Belinda pagou todas as despesas, e para baratear a viagem para a Espanha comprou um pacote de cinco dias num resort. O pai de Sophie, a namorada da épo­ca e o filho dela decidiram aproveitar e dividir o apar­tamento. No dia da chegada, Sophie acompanhou Be­linda a uma reunião na impressionante casa de um dos parentes de Pablo.

Sophie sentiu-se como uma idiota no vestido rosa que Belinda insistira em comprar-lhe. Preocupada em não envergonhar a irmã, refugiou-se na sala de bi­lhar. Lá encontrou Antônio pela primeira vez. Ao desviar o olhar do jogo solitário, o viu parado na por­ta. Simplesmente maravilhoso, numa camisa preta de colarinho aberto e calça esporte.

— Há quanto tempo está parado aí? — perguntou. Antônio riu.

— Tempo suficiente para apreciar sua habilidade — respondeu num inglês perfeito, embora com sota­que. — Mas você não está jogando bilhar; está jogan­do sinuca. Quem lhe ensinou?

— Meu pai.

— Ou você é uma jogadora inata, ou tem praticado um bocado.

Sophie resistiu a vontade de admitir que o pai a fa­zia matar aula, quando era criança, para levá-la a ba­res na hora do almoço e fazer apostas de que ela ven­ceria todos os jogadores. O pai só cessou esse passa­tempo lucrativo quando lhe chamaram a atenção pelo elevado número de faltas da filha.

— Eu acho... — balbuciou, mordendo o lábio infe­rior enquanto o estudava entre os cílios, sentindo-se tremendamente envergonhada. Desconfiava de ho­mens bonitos, e ele era maravilho. Também percebia os sinais sutis de elegância cara nas roupas, o que fa­zia com que se retraísse automaticamente. — ... que não deveria estar aqui.

—Por que não? Não é amiga da noiva?

Lembrando-se dos avisos de Belinda, sacudiu a cabeça concordando.

— Qual seu nome? — perguntou Antônio aproxi­mando-se.

— Sophie...

Ele estendeu a mão.

— Sou Antônio.

Desajeitada, tocou-lhe as pontas dos dedos e retro­cedeu em direção à porta.

— Melhor voltar para a outra sala antes que notem minha ausência. Não quero que eles me achem gros­seira...

— Eles...? Todas essas aterrorizantes pessoas es­panholas?

— Pode parecer engraçado pra você, mas não falo a língua, e as pessoas que falam inglês parecem não compreender meu inglês e ficam insistindo para que eu repita... É um pesadelo! — confidenciou, agrade­cida por encontrar alguém que podia entender o que dizia.

— Vou até lá. Como ousam assustar você a ponto de esconder-se na sala de bilhar? — Antônio provo­cou.

Sophie olhou-o orgulhosa.

— Não me escondo das pessoas.

— Vamos jogar... — Ele entregou-lhe o taco que tinha abandonado. — Vou ensiná-la a jogar.

— Vou dar uma surra em você — avisou.

Os incríveis olhos negros brilharam satisfeitos diante desse desafio.

— Acho que não.

Na verdade nunca jogou tão mal. Estava tão altera­da com a sua presença que não conseguia parar de olhá-lo. Estava aterrorizada com a atração que exer­cia sobre ela. Embora fosse jovem, sabia o resultado desse tipo de entusiasmo físico. Com alívio, viu Be­linda chegar, perplexa ao encontrar a irmã caçula na companhia de Antônio. Belinda logo encontrou um jeito de separá-los.

— Você não se deu conta de quem ele era? — re­preendeu-a Sophie. — Não devia estar conversando com ele. É o irmão mais velho de Pablo... aquele com o título e o castelo... o marquês de Salazar.

Para um marquês espanhol de verdade, Antônio parecia — à primeira vista pelo menos — bastante moderno e normal. Sophie ficou desapontada ao des­cobrir o quanto ele estava fora de seu alcance, e cha­teada por não ter esclarecido quem era. Indiferente às tentativas desajeitadas de mantê-los afastados, Antô­nio arrastou Sophie ao encontro do pessoal mais jo­vem. Quando a noite terminou, foi Antônio quem precisou levar Sophie de volta para o resort: na excitação de noiva, Belinda esqueceu que a irmã ia preci­sar de carona.

— Não posso entender por que você não está hos­pedada junto com sua irmã na casa de minha avó — Antônio admitiu, ajudando-a a entrar num carro es­porte vermelho digno de um filme do James Bond.

— Não quis atrapalhar...

— Acho que não devia ficar num apartamento so­zinha. Não estou criticando sua irmã, mas você devia estar gozando da hospitalidade de minha família. Vou esperar até que pegue suas coisas — comunicou Antônio com a autoridade de um homem acostumado a ser obedecido.

— Mas não estou sozinha... hum, estou com ami­gos. — Sophie protestou encabulada, reconhecendo a impossibilidade de falar do pai quando Belinda tinha implorado que não dissesse a ninguém que eram na verdade meias-irmãs, pois a mãe havia tido um caso extraconjugal. A irmã se envergonhava e estava de­terminada a esconder a história de Pablo e dos paren­tes aristocratas.

— Amigos? — perguntou Antônio desconcertado.

— Isso, decidi aproveitar e transformar minha via­gem em férias... Algum problema?

— Não — disse lentamente. — Mas você chegou hoje de manhã à Espanha, e talvez não esteja capaci­tada a escolher um bom lugar para ficar. Meu primo me disse que esse complexo turístico onde está hos­pedada não tem boa fama. A polícia é freqüentemen­te chamada para apartar brigas de bêbados.

Teve vontade de contar que o pai ficaria bem à vontade no lugar.

— Não sou uma flor delicada... posso me virar.

— Mas não deveria ter que se virar — murmurou gentilmente.

A idéia de que precisasse de um homem para pro­tegê-la dos demônios era totalmente nova para Sophie. Ficou acordada à noite, no desconfortável sofá-cama, na saleta do apartamento. Enquanto tentava se desligar do barulho da discussão entre o pai e a namo­rada no quarto, descobriu que não conseguia parar de pensar em Antônio.

Sempre que esperou que Antônio revelasse o seu pulso forte, ficara desapontada. Ele ouvia tudo que dizia com interesse. Não gritava, não xingava ou olhava outras garotas. Não dirigia depois de beber. Nem tentou embriagá-la ou seduzi-la. Antônio, de uma forma misteriosa e romântica, fez com que Sophie se sentisse especial, cortejada e merecedora de atenção pela primeira vez.

Aos vinte anos, Sophie nunca tinha tido um namo­ro sério. Era virgem porque tinha pavor de se ver na mesma situação que arruinara a vida da maioria das namoradas do pai. Diferentemente delas, não tinha que se preocupar em engravidar ainda muito jovem, mas observara que depositar esperança e energia em incontáveis relacionamentos ocasionais podia resul­tar em baixa auto-estima, no abandono dos estudos e em poucas possibilidades de bons empregos, o que representaria pobreza. Tinha dito a si mesma que era inteligente demais para sucumbir à perigosa sedução do sexo casual, mas a verdade é que nunca se sentira nem remotamente tentada a se deixar levar pelas can­tadas que recebera.

Antes nunca havia ficado acordada contando as horas até ver o cara novamente. Nunca tinha agoniza­do na dúvida se um homem gostava dela, ou se estava apenas sendo educado. Nunca antes tinha fantasiado como seria se esse homem a beijasse. Na verdade, a imaginação tinha sido tão atiçada por Antônio que, quando voltou a vê-lo, ficou encabulada pela primei­ra vez na vida. Tinha flutuado na festa de casamento numa nuvem de tamanha felicidade que o despertar para a cruel realidade, um dia depois, tinha sido duro de suportar.

Antônio permaneceu no escritório do advogado para esclarecer certos assuntos.

Evidentemente, Belinda não tinha um centavo quando morreu: trabalhava como garçonete. Entre­tanto, quando casou com Pablo, a linda loura era re­cepcionista de uma agência de modelos em Londres, sua sobrevivência fora assegurada pelo dinheiro e bens que herdara dos pais. Antônio não precisou re­fletir muito para descobrir quem fora o responsável, e enfureceu-se. O fato de sua ex-cunhada estar vivendo com outro homem satisfez-lhe, de certa forma, a cu­riosidade em saber por que Belinda estava aparente­mente tão determinada a não pedir ajuda à família do ex-marido.

Antônio não se chocava com facilidade, mas ficou abismado quando, ao pedir o endereço de Sophie, soube onde morava. Não podia acreditar que morasse num acampamento de trailers. Teria sido o desonesto irmão responsável por seu empobrecimento também? A limusine estacionou do lado de fora da entrada, en­quanto o motorista conferia se o endereço estava cer­to. Antônio decidiu que Sophie era um problema que podia ser resolvido com dinheiro.

Sophie limpava o chão de um dos trailers mais ele­gantes quando bateram à porta. Levantou-se, abriu a porta e ficou congelada ao dar de cara com olhos es­curos como a noite. Sabia que não devia ficar enfeitiçada pelos traços simétricos, masculinos e sexy... O coração começou a bater muito rápido.

— Você disse sete horas da noite. Por que chegou tão cedo?

— Não cheguei numa boa hora? — perguntou An­tônio, o olhar aguçado indo da torrente de cachos tin­gidos de ouro pela luz do sol até a intensidade do ros­to expressivo, e de volta para a curva suave da boca. Examinados individualmente, os traços eram co­muns. Mas isso não explicava porque sempre tinha a impressão de ser incrivelmente bonita.

— Não é isso... Quer dizer, estou trabalhando e Lydia está dormindo. — Sophie desfiou uma irritante tempestade de desculpas.

— Eu compreendo, mas não tenho nada para fazer nesse local enquanto espero. Também estou — o que é compreensível — louco para conhecer minha sobri­nha — respondeu Antônio sem preâmbulos. Havia frieza no olhar enquanto suprimia o absurdo desejo que sempre lhe despertava. Só podia pensar que ela exercia esse fascínio por ser diferente. — Posso en­trar?

Sentindo-se ridiculamente envergonhada, Sophie recuou para a pequena sala de estar, umedecendo disfarçadamente os lábios secos. Ele subiu o degrau e pareceu ocupar cada centímetro do espaço.

— Você vai ter que esperar até que Lydia acorde da soneca.

Ficou evidente a impaciência.

— Encontrar o tio deve ser bem mais divertido do que dormir. Não tenho muito tempo para passar no Reino Unido. Ficaria agradecido se não tornasse as coisas mais complicadas do que já são.

Ao final do curto discurso, Sophie respirava pesa­damente. Tinha colocado Lydia para dormir para que estivesse menos cansada para a visita de Antônio. A chegada antes da hora tinha tumultuado seus planos. O corpo pequeno ficou retesado de aborrecimento e preocupação. Dobrou a cabeça cacheada e segurou, entre os lábios apertados, os ácidos comentários na ponta da língua. Antônio Rocha, marquês de Salazar, estava ocupado. O advogado o tratara como um rei, e a ela como um lixo. O aviso era claro: não podia se dar ao luxo de transformar Antônio em inimigo. Se houvesse briga, ele ganharia em virtude da fortuna e status. Portanto, tinha que ser educada, pelo bem de Lydia, e engolir as ordens de Antônio com a maior boa-vontade possível.

— Lydia vai ficar um pouco irritada se eu acordá-la antes da hora — disse Sophie hesitante.

— Quero ver minha sobrinha agora — decretou Antônio, decidindo que Sophie acataria melhor uma voz autoritária.

Depois de fazer uma pausa para pensar, Sophie sa­cudiu a cabeça, tentando ser justa. Havia um monte de crianças no casamento de Belinda, e a irmã lhe contara que os espanhóis adoravam crianças. Antô­nio, obviamente, estava acostumado com bebês e convicto de poder conviver com a sobrinha. Abriu a porta de onde havia colocado Lydia para dormir sos­segada em seu bebê-conforto.

Antônio olhou para o embrulhinho embaixo da co­berta, tendo no topo um tufo de cachos castanho-claros. A sobrinha parecia preocupantemente miúda. Tanto Pablo quanto Belinda eram altos. Por outro lado, Sophie mal batia no seu peito, então era perfei­tamente razoável que o bebê fosse pequenino. Lem­brou-se de que ao chegar à Espanha deveria levá-la a um pediatra. O médico da família, um velho amigo, sugerira fazer um exame médico geral como precau­ção: um ou dois bebês da última geração tinham nas­cido com sopros cardíacos.

Controlando a própria relutância, Antônio decidiu demonstrar um razoável nível de interesse pela criança e realizar uma inspeção mais detalhada. Afastou a coberta e levantou o bebê.

No mesmo instante, o bebê ficou duro como uma viga de aço, e olhou-o com enormes olhos castanhos assustados. A boca escancarou-se mostrando as amígdalas e um grito que teria despertado um cadá­ver explodiu. O rosto ficou roxo, o bebê debatia-se como se estivesse sendo atacado. Antônio olhou para a sobrinha paralisado de terror.

— O que há de errado com ela? — perguntou.

— Você já foi arrancado da cama por um estranho e suspenso no ar como um brinquedo? — perguntou, resistindo ao impulso de tirar Lydia das mãos inaptas e insensíveis.

Ao ouvir o som da voz de Sophie, Lydia virou a cabecinha. Esticou as mãos em direção à tia num mo­vimento tão frenético quanto revelador.

— Talvez você devesse fazer o esforço de nos apresentar primeiro — censurou Antônio, e sem mais conversa depositou a trouxa barulhenta nos braços de Sophie.

Com a boca retorcida, as orelhas ainda vibrando com os gritos, olhou a pequenina sobrinha agarrar-se ao ombro de Sophie como se fosse uma ostra instala­da em sua rocha favorita. Um bem-vindo silêncio se seguiu. Antônio considerou o drama desnecessário. Sophie recompensou essa demonstração de favoritis­mo com uma grande quantidade de carinho, beijos e sussurros reconfortantes.

— Não tinha idéia de que a criança fosse tão ape­gada a você — admitiu Antônio.

— Cuido de Lydia desde que ela nasceu. Belinda passou mal no início... e depois, bem, por várias ra­zões não pôde passar, como gostaria, muito tempo com a filha.

— Que razões?

— Belinda começou a se relacionar com um tipo de pessoa que não se amarrava em crianças, e quando foi morar com ele, Lydia ficou comigo — explicou Sophie.

— Aqui... neste lugar?

— Não temos essa sorte. — Sophie deu uma gar­galhada. — Essa é uma casa de férias de luxo. Aquela em que eu moro é pelo menos vinte anos mais velha e sem sofisticação.

Antônio desviou a atenção para a sala que julgava claustrofobicamente pequena. Sofisticação? Que so­fisticação? A decoração era horrorosa e tão extrava­gante e barata que lhe ofendia os olhos. Era isso que ela chamava de luxuosa?

— Se não mora nisso, por que está aqui?

— Estou limpando para o pessoal que vai chegar amanhã.

Desconcertado, Antônio a olhou.

— Você trabalha como faxineira?

— Algum problema? Ela devia estar brincando.

— Claro que não. Você disse que meu irmão rou­bou sua irmã. Você também perdeu dinheiro?

— Nunca tive dinheiro para perder — respondeu. Percebendo que ele não compreendia o motivo, suspirou e acabou confessando: — Existe um segredo escondido na minha família, e Belinda não gostava que eu falasse sobre isso. Belinda e eu temos a mes­ma mãe, mas pais diferentes. Só conheci minha irmã quando tinha 17 anos.

— Todas as famílias têm seus segredos — murmu­rou Antônio, aliviado por finalmente encontrar uma explicação para o caso. — Vamos ser francos um com o outro.

Sophie voltou a ficar tensa.

— Eu não ia mentir.

Percebendo sua ansiedade, Lydia levantou a cabe­ça e soltou um gritinho de desconforto. Antônio levantou as mãos.

— Eu não quero discutir com você.

— Ótimo... mas cá entre nós e as paredes, eu e você sempre vamos discutir.

— Não estou de acordo — disse com um sorriso, os olhos frios e confiantes. — O futuro de uma crian­ça está em jogo, e depois do que aturou nos últimos meses, é natural estar estressada.

— Não aturei nada. Eu amo Lydia e adoro cuidar dela. A preocupação com o que vai acontecer, agora que você apareceu, é que está me estressando.

Dois pares de olhos, um verde e um castanho, esta­vam ansiosamente colados nele, ambos amedronta­dos. Pela primeira vez, em seus trinta anos de exis­tência, sentiu-se como o lobo do conto de fadas, cul­pado por aterrorizar a menina inocente e vulnerável. Ao mesmo tempo, ser tratado como o mau sujeito o irritava e feria seu orgulho. Decidiu que estava na hora de deixar de lado a diplomacia. Se deixasse cla­ras suas intenções e expectativas não haveria espaço para mal- entendidos.

— Por que deveria se preocupar se estou aqui para ajudar? Só posso entender que tem a intenção de me insultar...

— Não era minha intenção! — interrompeu Sophie, pois suas palavras tinham sido mal interpretadas.

— Minha intervenção só pode trazer vantagens à minha sobrinha já que ela está vivendo na pobreza. Você fez o seu melhor. Aprecio os esforços e agrade­ço a preocupação, mas Lydia só vai ficar bem quando eu levá-la para a Espanha e assegurar-lhe cuidado e privilégios a que tem direito.

Enquanto falava, toda cor desapareceu do rosto de Sophie.

— Não vivemos na pobreza...

— Do meu ponto de vista, acredito que sim. Não quero ofendê-la, mas preciso dizer a verdade.

— Você não pode tirá-la de mim... e levá-la para a Espanha — Sophie respirava com dificuldade, sen­tindo-se tão mal diante da ameaça que mal conseguia emitir um som. A idéia de perder Lydia a atingiu como um soco no estômago, deixando-a catatônica.

— Por que não? — Antônio levantou uma sobran­celha de ébano. Ela estava branca como a neve e apertava o bebê contra si. Uma mistura de frustração e raiva apossou-se dele, pois sabia que as intenções eram as melhores possíveis e a solução a única ajui­zada. — Não vejo outra alternativa. Se você ama a criança, não vai se opor. Posso lhe dar uma vida bem melhor.

Sophie retrocedeu como se não mais suportasse fi­car perto dele.

— Eu morro se você tirá-la de mim. Eu a amo de­mais e ela me ama. Você não pode tirar-me da vida dela só porque sou pobre.

Antônio emudeceu. Ficou desconcertado ao ver seu sofrimento, as lágrimas dançando nos olhos. Ti­nha posto o orgulho de lado. Parecia uma adolescente tentando enfrentar o valentão. O bebê, percebendo a tristeza da tia, soluçava.

— Não é uma questão de tirar você da vida dela... Você não está sendo racional — censurou-a exaspe­rado.

Sophie soltou um suspiro profundo e lançou-lhe um olhar de condenação.

— Não tenho vergonha disso... acho que o amor deveria vencer o dinheiro sempre...

— Pelo que entendo, você nunca teve dinheiro, en­tão não está qualificada para emitir esta afirmação ra­dical...

— Eu a amo... e você não!

— Se a ama por que não se controla e pára de as­sustá-la?

Sophie olhou-o angustiada e virou-se, acalmando a criança em seus braços.

Antônio percebeu ser um erro tentar argumentar de forma objetiva, como se discutisse um negócio. Sophie nada tinha de prático, ajuizado, controlado.Na verdade, nunca tinha visto uma mulher demons­trar tanta emoção e essa liberdade exercia sobre ele uma fascinação quase indecente. Seus sentimentos passionais eram um barril de pólvora. A curiosidade sexual ameaçou apossar-se dele e lutou contra isso, zangado com ela e consigo mesmo. Mas mesmo a rai­va não podia deixar de fazê-lo perceber o desejo po­deroso de agarrá-la e deitá-la na cama mais próxima. Dificilmente, uma resposta apropriada à sua agonia, reconhecia. Desprezou as reações primitivas que ela sempre despertava nele.

— Quero pensar sobre o que você disse — conti­nuou Antônio, decidindo que não seria proveitoso continuar a discutir nesse clima. — Volto amanhã às onze da manhã. Se precisar falar comigo, pode me encontrar neste hotel. — Estendeu um cartão. — Diga-me onde mora.

— Na van azul no final... aquela estacionada no campo.

— Não pretendo soar como um ator de um filme de quinta, mas você pode melhorar tanto sua vida quanto a de Lydia. Você não precisa morar desse jeito.

— Por estranho que pareça, nunca encontrei la­drões de crianças morando assim; só pessoas decen­tes que não têm o dinheiro e o status social como ob­jetivos de vida! — disse em tom de acusação.

Antônio decidiu provar que era maduro não res­pondendo a essa provocação.

— Acho que seria menos penoso para o bebê se ele estivesse... descansando quando eu vier amanhã.

— Talvez devesse pensar no quanto Lydia ficará desolada se eu sumir de sua vida.

Antônio estava suficientemente impressionado com o aviso, para olhar o bebê. Não podia deixar de suspeitar que a filha do irmão tinha herdado de Sophie o temperamento emocional, e que era mais sen­sível que a maioria. Só levantar a criança acionara um alarme. Por um breve segundo, pensou em carre­gar a criança enquanto Sophie e o bebê gritavam e so­luçavam em alto tom, e mal conseguiu reprimir um calafrio muito masculino.

Descobrindo um pensamento que desconhecia, considerou o risco das notícias nos jornais. Ladrão de crianças. Não, tomaria cuidado para não fazer com que nada disso resultasse numa publicidade histérica. Era extremamente inteligente e um astuto homem de negócios. Era conhecido pela lógica e disposição em considerar aproximações inovadoras para alcançar soluções. Tinha certeza de que encontraria um jeito de persuadir Sophie a aceitar o inevitável.

— Você não dá importância ao que eu ou ela sen­timos, não é? — acusou Sophie enquanto escancara­va a porta, descia os degraus e colocava Sophie no carrinho.

— Me importo o suficiente para garantir que mi­nha sobrinha não cresça com suas desvantagens.

Sophie lançou-lhe um olhar ferido e ergueu a ca­beça.

— Não é estranho que mesmo com suas vantagens — dinheiro, título, educação e sucesso — você seja um canalha egoísta sem nenhuma consideração com os sentimentos dos outros?

— Mas não sou hipócrita. Sei que não é a florzinha frágil que aparenta ser, querida. Continua a mesma mentirosa que me disse estar doente, e depois saiu para beber e transar na praia com um perdedor — lembrou-a com zombaria. — Você jamais vai enten­der um homem com boas maneiras como eu.

— É mesmo? Boas maneiras? Você? — Sophie sussurrou para que Lydia não escutasse.

— Você disse que não estava se sentindo bem. Na­turalmente, procurei-a para oferecer ajuda.

— Nã-nã-nã... isso não são boas maneiras. Você não confiou em mim, então apareceu para checar e não hesitou em tirar as conclusões erradas! — Sophie despejou a raiva há muito contida. — Bem, para sua informação, eu disse uma mentira educada para evi­tar criar embaraços diante do motivo pelo qual não podia encontrar-me com você aquela noite. E por fa­lar nisso, aquele perdedor a que se refere era Terry, o filho da namorada de meu pai. Embora fosse alto para a idade, tinha só 14 anos! Não era meu amante, nem nada meu, só uma criança assustada preocupada com a mãe!

Tendo despejado essa declaração final com vigor, afastou-se. Para Antônio, ela parecia dançar ao se mover. Os cachos dourados balançavam sobre os om­bros e costas. O tecido gasto dos jeans acentuava o li­geiro rebolado de suas pequenas nádegas. Não pos­suía nenhum atributo especial, o que tinha causava um efeito explosivo na libido dele. Não tinha orgulho dos instintos básicos. Querendo que sua excitação inapropriada fosse para o inferno, Antônio respirou devagar e profundamente.

Mas ainda desejava botar para fora o escárnio por essa história tola que só um idiota engoliria. Queria perguntar como ousava falar com ele naquele tom impertinente. Queria que ela escutasse o que dizia quando falava com ela. Queria ensinar-lhe a respeitá-lo. Queria tomá-la nos braços e demonstrar habilida­des sexuais que ele nunca tinha praticado na praia... pelo menos, não numa pública. Sendo quem era, en­tretanto, e orgulhoso de sua árdua autodisciplina, de­cidiu apenas vê-la afastar-se. Não podia mais ignorar o óbvio: por mais vergonhoso que fosse, só podia ser suas qualidades vulgares que o atraíam.




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