Brilho da vida



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CAPITULO CINCO

— Muito colorido... muito diferente — Norah balbuciou.

Era o dia do casamento de Sophie e, como achava que seria o único, estava louca para aproveitar a oca­sião. Recusando-se a ser derrubada pela falta de entu­siasmo da amiga, Sophie rodopiou para ter o prazer de ver o vestido flutuar mostrando-lhe as pernas esguias valorizadas por um sapato rosa de salto altíssi­mo enfeitado com pedrinhas. Sentia prazer em vestir-se na última moda pela primeira vez na vida. Embora adorasse roupas, nunca teve dinheiro para andar na moda. Determinada a não se vestir como uma noiva convencional e correr o riso de despertar ironias de Antônio, Sophie optou por uma escolha audaciosa. Orgulhava-se de ter usado pouco dinheiro da conta bancária que ele abrira em seu nome.

Fazia três semanas desde que o vira. Norah não es­condia a preocupação quanto à decisão de Sophie ca­sar-se com o tio de Lydia, embora a cerimônia fosse começar em menos de uma hora.

— Alegre-se, fique contente por Lydia e por mim — implorou Sophie.

— Mas você não devia se casar com Antônio para benefício de Lydia — resmungou Norah. — Nunca imaginei que isso fosse acontecer.

— E quem imaginaria? Mas se tenho que dividir Lydia com Antônio, essa é a melhor forma de fazê-lo.Ele não deixaria que eu a educasse sozinha. E como poderia mudar-me para a Espanha e aceitar ser ape­nas uma visita?

— Mas a princípio viver desse jeito seria mais coe­rente. Pelo que disse de Antônio... bem — continuou Norah — ele parece ser um homem confiável...

— Não coloque essas duas palavras juntas. Não confio em Antônio.

— Não pode julgar todos os homens usando seu pai como parâmetro.

— Antônio não me deve favores, então tenho que desconfiar de seus motivos. Também preciso prote­ger Lydia...

— Ainda dá tempo para cancelar o casamento. Surpresa com a persistência da amiga, Sophie franziu a testa.

— Por quê? Antônio sabe o que está fazendo. Aposto que vai se divorciar de mim antes do planeja­do e despachará a mim e a Lydia para que a gente viva bem longe dele. Não se importa com Lydia como eu...

— Ele ainda não teve a chance nem o tempo. Mui­tos homens se sentem desconfortáveis com bebês...

— Por que é contra meu casamento?

Norah corou e virou de costas, o desconforto evi­dente. Sophie achava saber o motivo; mas gostava muito dela para ferir-lhe os sentimentos. Era com­preensível não querer que ela se mudasse para a Es­panha. Também suspeitava que Norah tinha esperan­ças de que um dia Sophie começaria a sair com seu filho. Embora nunca tivesse encorajado Matt, Sophie sempre se sentiu culpada. Seu ar de infelicidade estóica com a aproximação da data do casamento só piorava a situação.

— Achei que havia outras formas de criar Lydia além de se casar com o marquês — murmurou evasi­va.

— Assim, Lydia vai conhecer o lado espanhol da família e ser mimada como.... bem, como uma crian­ça rica — concluiu. — Vai poder aprender coisas que eu jamais poderia ensinar-lhe. Era isso que Belinda queria...

— Provavelmente sim — acenou Norah pensativa. — Sua irmã dava muita importância a esse tipo de coisa. Posso entender que pertencer a uma família rica como a de Antônio vai proporcionar a Lydia oportunidades que nunca teria aqui.

— Ela merece o melhor. — Sophie se sentiu agra­decida por Norah aceitar as razões para casar-se. — É só por ela que estou fazendo isso.

Quarenta minutos depois, Sophie surpreendeu-se com a multidão do lado de fora da igreja. Ai meu Deus, o casamento anterior atrasou. Antônio não vai gostar. Bem, teriam que esperar. Checou sua imagem para ver se o pequenino arranjo de chiffon rosa com plumas, no alto da cabeça, continuava no ângulo cor­reto. Ajeitou a saia de um tecido exuberante coberto de grandes rosas. O motorista da limusine parou em frente aos degraus da igreja e saiu para abrir a porta.

Sophie subiu com Lydia no bebê-conforto. Pes­soas barulhentas fazendo perguntas e carregando câmeras a rodearam.

— Qual seu nome? — alguém perguntou.

— É amiga da noiva? — outra pessoa gritou às suas costas.

— Ela não é convidada, é a noiva! — Norah pro­clamou. — Agora saiam, e deixem-nos entrar na igre­ja... estamos com um bebê.

— Você é Sophie Cunningham? — uma voz atôni­ta perguntou.

Aproveitando-se do espaço que se abriu quando a presença de Lydia foi notada, apressou-se. O padre idoso recebeu-a afetuoso.

Norah pegou Lydia. O coração de Sophie começou a bater muito rápido. Respirou fundo e caminhou pelo corredor. A luz do sol atravessava os vitrais e banhava o interior. Antônio estava no altar ao lado de um outro homem mais baixo, provavelmente o advo­gado que mencionara. Estava mais interessada em olhar Antônio. Mesmo de perfil, era lindo. O terno escuro formal e a camisa branca ressaltavam-lhe o porte. Como de hábito, exalava a elegância discreta que era sua marca.

Queria tanto que ele tomasse conhecimento de sua chegada com um olhar, um sorriso, um mero toque, mas nada aconteceu. Ele tinha telefonado para ela vá­rias vezes nas últimas três semanas, mas as conversas foram curtas e formais. Ouviu atentamente cada pala­vra do padre. Os dois responderam: ela, com voz trê­mula; a dele, fria e firme. Ele deslizou-lhe um anel de ouro no dedo sem demonstrar a menor hesitação.

Com enorme dificuldade Antônio controlava a ira. Os paparazzi estavam acampados do lado de fora. O evento discreto que organizara tinha ido pelos ares. Sua família evitava publicidade como a uma praga.

Quem tinha falado? Um dos funcionários? Um em­pregado do hotel? Alguém ligado à igreja? Ou a noi­va? Esperava que Sophie aparecesse num vestido branco longo e véu. Por estranho que parecesse, esta­va ansioso por vê-la num vestido de noiva. Em vez disso, trajava o mais inapropriado vestuário. Seu ves­tido floral brilhava o suficiente para parar o trânsito na hora do rush. Observou seu ridículo chapéu. Sabia estar sendo punido por não tê-la aconselhado como pedira: era sua culpa.

— Parem... — instruiu Norah, segurando uma câmera quando a noiva e o noivo afastaram-se do altar.

Antônio desceu o olhar para os olhos verdes úmi­dos realçados por cílios escuros. A boca rosada tinha o mesmo formato que o chapéu. Impressionante como essa cor lhe caía bem, refletiu Antônio.

— Peço desculpas... mas às vezes é preciso fazer o que tem que ser feito. Aja como se fosse me beijar... essa é para o álbum que vou fazer para Lydia — sus­surrou Sophie.

Antônio enfiou os dedos longos nos cachos que caíam nas costas e levou a boca faminta ao encontro da sua. Ficou estarrecida ao ser agarrada como se es­tivesse sendo violentada.

Mesmo invadido pela luxúria, ele teve vontade de rir. Estava na hora dela acei­tar que ele era um Rocha, e como todos os Rochas, desde o século XVI, não aceitava — dava ordens.

A língua invadiu-a. Uma doçura insuportável to­mou Sophie, seguida de uma onda de calor. Tonta, abraçou-o para manter-se de pé, e quando ele a sol­tou, lutou por recuperar o fôlego contra o ombro dele. Norah olhava estarrecida. Vermelha de embaraço.

Sophie olhou para o espaço, a mente vazia pelo cho­que de seu próprio comportamento libertino.

Indiferente a esse tipo de desconforto, Antônio apresentou-a ao advogado que, tendo servido de tes­temunha, já ia embora. O fotógrafo oficial, cujos ser­viços tinham sido contratados, aguardava-os na en­trada da igreja. A pedido de Antônio apresentou a carteira de motorista como prova de identidade.

— Sinto muito, mas a presença dos jornalistas do lado de fora impedirá a sessão de fotos — comunicou Antônio grave. — Isso não vai fazer nenhuma dife­rença em sua remuneração.

Emergindo da nuvem de auto-desprezo pelo beijo, Sophie exclamou:

— Mas você não pode cancelar as fotos!

— Posso fazer o que bem entender, mi rica. — A voz, audível apenas para seus ouvidos. — Se você é a responsável por esse bando de repórteres do lado de fora, vai ficar muito desapontada com a cobertura de nosso casamento. Vamos sair pela porta dos fundos.

— Essa gente é do jornal? — Sophie estava sur­presa com o discurso. — Está insinuando que eu te­nho algo a ver com a presença deles?

— Discutimos isso depois — informou Antônio com um tom que congelaria uma lava vulcânica.

Sophie achou não ter interpretado bem o que ele disse e retomou o assunto:

— Você não pode simplesmente cancelar as fotos!

— Posso sugerir — atreveu-se o fotógrafo num murmúrio de deferência — que alterem a locação?

Bem mais interessado em ir direto para o aeropor­to e pegar um vôo de volta para a Espanha e para a

normalidade, Antônio trincou os dentes brancos diante dessa sugestão nada bem-vinda.

— Escute — disse Sophie apressada —, deixe-me sair e mandar os jornalistas darem no pé!

Surpreso com a sugestão, Antônio estudou a noi­va, Devia ter 1,50m de altura, mas possuía uma evi­dente beligerância. Ela era ingênua. Já imaginava as manchetes se a esposa trocasse insultos com um ban­do de paparazzi. Pela primeira vez, compreendeu que ser casado com Sophie não seria o equivalente a uma caminhada no parque. Lastimável para um homem que tinha a intenção de salvaguardar a liberdade ar­ranjando uma esposa.

— Não pode deixar que eles arruínem nosso dia — protestou Sophie de braços dados com ele. — Isso se­ria o mesmo que ceder à chantagem.

Antônio conteve o desejo de admitir que sabia exatamente o que era isso.

— Vamos usar o salão do hotel.

O prêmio por essa concessão foi surpreendente Sophie deu-lhe um abraço entusiasmado.

— Obrigada. Obrigada! Você não vai se arrepender.

Antes que o casal deixasse o prédio, entretanto, Norah insistiu em ir embora.

— Não. Não vou ficar de vela — respondeu irônica quando Sophie levou-a para um canto tentando persuadi-la a acompanhá-los ao hotel. — Você devia ter contado que... bem, não é preciso dizer mais nada depois daquele beijo. Eu não sabia para onde olhar!

Lembrada do show que tinha dado, Sophie contorceu-se de vergonha e tristeza.

— Não é o que está pensando.

— Melhor assim. Vai ser bom para o meu Matt que se case — informou. — Ele tem andado atrás de você como um cachorrinho, mas agora vai ter que esque­cê-la.

Na limusine a caminho do hotel, Sophie virou-se para Antônio e perguntou:

— Por que insinuou que eu era responsável pelos jornalistas na igreja?

— Alguém lhes deu a informação.

—- Não fui eu... pelo amor de Deus! Nem sabia que os jornais estariam interessados no que fazia! Antônio ficou calado. Irritada, olhou-o através dos cílios.

— Não vai pedir desculpas?

— Desculpe se a julguei mal...

— Se? — Sophie ficou irada ao ouvir a palavra.

— Ainda não sei quem foi o responsável por avisar os paparazzi — retrucou educadamente, tão inflexí­vel quanto uma rocha.

— Bem, não fui eu e não vamos ter um relaciona­mento muito amigável se continuar me acusando de coisas que não fiz! — avisou Sophie indignada.

— Quem disse que temos que ser amigos? — pro­vocou Antônio, recostando-se no assento para diver­tir-se com o show. Gostava de vê-la vibrar, pois essa intensa capacidade de sentir era uma experiência tão rara para ele quanto um violino Stradivarius original.

— Mas acabamos de nos casar! — condenou-o, fu­riosa.

— E desde quando casamento e amizade andam de mãos dadas? — Fazendo essa declaração para mantê-la espumando, Antônio a observou. Mais uma vez a mente analítica tentava dissecar o mistério de seu po­der. Não era apenas a paixão. Inexplicavelmente, aquele pequenino chapéu representava para ele a es­sência da feminilidade. A boca larga e sensual com­primiu-se. Na verdade ela estava incrivelmente sexy.

— Que coisa horrível de se dizer!

— Tenho uma longa lista de ancestrais que passa­ram a vida conjugal convivendo com o ódio.

— Isso não me surpreende nem um pouco.

Antônio tentava descobrir por que parecia tão sexy. Continuava achando o vestido inapropriado; no entanto, ele acentuava-lhe a delicadeza. O decote re­velava apenas a curva dos seios. Surpreendentemente eram grandes para um corpo tão esguio. Não conse­guia desviar a atenção das formas arredondadas ape­sar das flores exageradas. Para sua irritação, a libido estava no maior entusiasmo. Ao mudar de posição, a barra do vestido subiu expondo um pedaço da coxa. Como um lobo diante da presa, o olhar percorreu a perna, o joelho e a panturrilha que terminava em tor­nozelos finos e pés pequeninos. De repente, desejou estar em cima dela, com uma ferocidade que o surpreendeu.

— Pablo foi cruel com Belinda — disse abrupta­mente. — Só quero que saiba que não vou tolerar esse tipo de tratamento!

Todo desejo desapareceu diante dessa revelação inquietante.

— O que ele fez?

— O que ele não fez? — respondeu com um arre-| pio, lembrando-se do que a irmã contara. — Ele acabou com sua auto-estima. Estava sempre a criticando e chamando de burra na frente dos outros.

— Não sou meu irmão — deixou bem claro.

— É, eu sei disso. Pablo não se importaria com a sobrinha. Só se envolveria se tivesse dinheiro na his­tória.

Não estava disposta a dizer nada que Antônio pu­desse interpretar como um cumprimento. Mas a ver­dade é que — gostasse ou não — Antônio era um per­feito príncipe se comparado ao falecido irmão.

— Não gosto de ser comparado a Pablo — infor­mou dando ênfase às palavras.

Sophie ficou aborrecida e devotou sua atenção a Lydia. Logo depois chegaram ao hotel.

O fotógrafo enfrentou dificuldades com o casal de noivos. Embora os jardins do hotel fossem soberbos e o sol brilhasse, os clientes recusaram-se a agir como recém-casados. Sophie só parecia vibrar quan­do o bebê estava na foto, e tornou-se tão flexível quanto uma rocha quando Antônio finalmente foi in­duzido a passar o braço em sua cintura. O fotógrafo ficou surpreso diante da ausência do buquê de noiva. Sophie nada disse, mas o olhar que lançou na direção do noivo foi eloqüente, e teria inibido alguém com menos personalidade.

Nada habituado à rejeição, Antônio assumiu um ar tão desdenhoso ao pedirem que sorrisse carinhosa­mente para Sophie que ela cerrou os dentes e sussur­rou:

— Não se dê ao trabalho!

O silêncio imperou durante todo o percurso até o aeroporto. Sophie nunca se sentira tão pouco à vontade em anos, mas não sabia exatamente o motivo. An­tônio recebeu um telefonema melodramático da atual amante. Pedia que desmentisse o ridículo boato de que ele, um nobre espanhol de linhagem antiga, se casara com uma moradora de um trailer. O que a amante respondeu à defesa da honra da noiva fez com que ele desligasse sem cerimônia. A essa altura, An­tônio sentiu-se um santo cercado de mulheres des­controladas.

No aeroporto, Sophie afastou-se de Antônio para cuidar de Lydia. Mudava a roupa dela quando ouviu o nome no alto-falante e a solicitação de se encami­nhar a um certo balcão. Sophie foi automaticamente tomada de pânico. Estava convencida de que algo ter­rível acontecera a Antônio. Ele tinha caído morto e ela não tinha lhe dado adeus. Homens de negócios morriam do coração a todo instante... Antônio pare­cia ter tanto dinheiro que, com certeza, era um forte candidato a excesso de trabalho e estresse. Por outro lado, talvez ela tivesse sido chamada ao balcão para receber uma mensagem dele. Será que a abandonara no aeroporto porque não suportava a idéia de levar as duas para a Espanha?

Uma presa indefesa do próprio medo, Sophie em­purrou apressada o carrinho e identificou-se. En­quanto fazia isso ficou pasma diante do forte jovem a alguns passos.

— Matt...? O que está fazendo aqui?

Matt Moore ficou muito vermelho. Desajeitado estendeu o buquê de margaridas escondido às suas costas.

— Oh, Matt... — disse emocionada, espantada por ele ter pedido que anunciassem seu nome.

— Volte e nos visite — disse quando ela aceitou o buquê.

— Você veio até aqui só para me dizer isso? — en­gasgada com as lágrimas que jorravam-lhe dos olhos, emocionada de que ele tivesse feito tal esforço quan­do não havia chance de recompensa. Pegou-lhe a mão e apertou-a com força, um soluço saindo de sua gar­ganta.

— Cuide de você e de Lydia. — Sem dar nenhuma dica de sua intenção, deu-lhe um abraço de urso e a beijou.

Foi tão excitante para Sophie quanto um banho com uma flanela úmida. Mas sentiu-se triste por ele e muito culpada pois, apesar de todas as qualidades que ele possuía, nunca gostou dele. Então ficou parada e tolerou esse breve beijo de boca fechada porque não poderia rejeitá-lo mais uma vez, e lhe parecia ser esse o único consolo a oferecer-lhe.

Antônio ficou paralisado a seis metros de distân­cia. Tinha se dirigido ao balcão no momento em que ouvira o nome de Sophie. Acreditava que a mensa­gem devia ter sido endereçada a uma outra Sophie. Agora ao vê-la retribuir o abraço apaixonado do filho de Norah, sentiu-se traído. Ela era sua mulher, a mar­quesa de Salazar, e beijava outro homem e soluçava num lugar público. Cerrou os punhos. A onda de rai­va quase afetou-lhe o autocontrole e provocou uma violenta intervenção.

— Obrigada pelas flores... vejo você um dia desses. — Sophie afastou-se, e estoicamente resistiu à tentação de limpar a boca.

Mal se passara um minuto e Antônio apareceu. Sentiu-se incomodada. Planejara se arrumar antes de encontrá-lo.

— De onde você está vindo? — perguntou Sophie, lançando um olhar para a loura maravilhosa que o fi­tava. Não era o primeiro olhar de apreciação que atraía. Várias cabeças viravam — especialmente fe­mininas e em número considerável — quando ele passava. A aparência espetacular atraia tanta atenção quanto um artista. Ela não estava sozinha em sua vul­nerabilidade. Gostaria de trancá-lo num armário ou, pelo menos, colocar um saco de papel na cabeça dele.

— Ouvi seu nome sendo anunciado no alto-falante — declarou Antônio, a atenção voltada para seu lábio inferior inchado. Ficou muito surpreso com a pontada de desejo que o invadiu, apesar do que havia pre­senciado.

— Hum... é... era um amigo querendo se despedir — gaguejou.

Na sala VIP, sentou-se para dar mamadeira a Lydia.

— Não podia esperar até termos embarcado? — perguntou como se fosse o cúmulo do mau gosto ser vista alimentando um bebê.

Sophie balançou a cabeça. Tinha que ficar quieta. A vontade era de dar um grito. Tinha começado o dia feliz, e desde então seu humor tinha ido por água abaixo. Estava no seu limite. Antônio era lindo, mas ela o odiava. Odiava ficar babando por ele e estar casada com ele. Podia assinar o divórcio agora, sem sombra de arrependimento.

Ele não tinha lhe oferecido almoço no hotel, e o es­tômago estava colando nas costas. Tinha sido tratada como zero à esquerda praticamente o dia inteiro. E quando não a ignorava, a acusava de fazer algo erra­do ou a criticava. Sophie engoliu as lágrimas de auto-comiseração. Lá ia ela viajar rumo a uma vida num país diferente, o que era assustador, e o cara de quem dependia se comportava como um canalha arrogante e insensível!

Subiram a bordo do jato particular. Sophie ficou impressionada com o luxo, e se perguntou o que ele faria se ela desmaiasse de fome. Sentir-se-ia mal? Re­conhecia que precisaria morrer para obter alguma reação dele. O jato decolou. A comissária levou-a para um aposento onde um berço tinha sido prepara­do para Lydia. Arrumou-a para uma soneca e exami­nou a cama dos adultos. Quantas mulheres tinham sido trazidas por Antônio? Mordeu o lábio e esfregou os olhos numa tentativa desesperada de segurar as lá­grimas. O nível de seu sofrimento a chocou.

Embora Antônio raramente bebesse antes da noite, pensava nas alegrias inexistentes do matrimônio to­mando um brandy. Estava provado que casar-se era o inferno que sempre suspeitara. Sophie tinha permiti­do que ele lhe colocasse no dedo uma aliança, e de­pois permitira que outro homem pusesse as mãos nela. Essa traição atingiu-lhe a masculinidade e o le­vou de volta a seu processo mental. A razão dizia que tinha sido um beijo trocado em público, mas a convicção de que a paixão tinha superado o bom senso e a decência não o consolavam.

Lembrou-se de seu rosto e olhos molhados de lá­grimas ao pegar aquele patético buquê de flores. Um segundo depois estava nos braços do gorila. Lem­brou-se que durante a primeira visita a Sophie, o cara grunhia, não falava. Tomou a bebida de um só golpe. Por que ela não contara que tinha um namorado? Amaria o gorila? Esperava continuar o caso em se­gredo? Quebrou o copo de cristal ao colocá-lo na mesa.

Que soubesse nenhuma esposa da família Rocha fora infiel, embora soubesse de alguns casos de morte inesperada ao longo dos séculos. Matar antes de ser desonrado. Pela primeira vez, sentiu empatia pelos ancestrais distantes que partiam para a guerra por meses deixando as jovens e lindas mulheres em casa. Como ia poder viajar a negócios por semanas? Em um segundo, uma nova terrível dimensão foi acrescentada ao matrimônio. Tentou ver o problema po­tencial do comportamento de sua mulher como um assunto de segurança. Supervisão constante e distân­cia geográfica reduziriam as chances de outra ofensa similar.

Quando Sophie voltou para a cabine principal, An­tônio levantou-se com a graça de uma pantera pronta a saltar sobre a presa. Sophie ignorou-o, simulou um bocejo e pegou uma revista.

— Vi você com o filho de Norah no aeroporto — murmurou frio como gelo.

— É? — Sophie ficou surpresa, mas não preocu­pada. — Matt é tão gentil. Achei que você tivesse pensado que comprei flores para mim. Não comprei .— declarou enfática. — Matt me deu.

Antônio ouviu essa resposta irrelevante e irritante.

— Você realmente acha que estou interessado em saber de onde vieram as flores?

— Não, claro que não — respondeu ácida, ainda sem olhá-lo.

— Largue essa revista e olhe para mim — orde­nou.

Sophie manteve a atenção na revista e virou a pá­gina bem devagar. Antônio despertava nela uma ten­dência ao desafio desconhecida até então. Bastava di­rigir-se a ela num certo tom, ou levantar a sobrance­lha com ar superior, para que ela o provocasse.

Antônio arrancou-lhe a revista.

— Agora você vai adicionar a agressividade a seus outros defeitos. Não posso dizer que estou surpresa.

— Que outros defeitos?

— Não vamos discutir isso agora — avisou, cal­çando os sapatos. — A não ser que tenha o dia inteiro para ouvir. E é claro, mesmo que você fosse educado e ouvisse, eu poderia cair morta de fome antes de ter­minar.

— Fome?

— Obviamente vou ter que me acostumar a ser ig­norada. Não comi desde as oito da manhã e estou fa­minta. E você não dá a mínima. Porque deixou claro que se não está com fome, eu também não devo estar.



— Não houve tempo para o almoço devido à ses­são de fotos.

Sophie dobrou os braços e lançou-lhe um olhar de deboche.

— Então, em outras palavras, matar-me de fome foi deliberado...

— Como deduziu isso? — gritou Antônio.

— Reclamei, isso o irritou e tirou o almoço do menu...

— Como pode achar que eu seria tão mesquinho? — Soava convincente. — Não quis alterar o horário do vôo. Providenciei para que uma refeição fosse ser­vida agora.

Sophie ficou mais envergonhada do que aliviada.

— Não podia ter me explicado no hotel?

— Você estava bufando...

— Eu não bufo!

— ... e se quer bufar como uma menininha, vai ser tratada como uma — completou, perguntando-se como ela reagiria se ele a calasse com um beijo.

— Aja assim novamente e vai ver o que acontece! Furioso com os pensamentos e idéias interferindo

na sua concentração, Antônio resistiu à tentação de morder a isca. Examinou-a com olhos frios como um lago no inverno.

— Você acha que pode evitar discutir seu compor­tamento no aeroporto. Não tem como se desculpar. Vi você beijando o filho de Norah.

Sophie ficou encabulada e olhou o chão. Afinal, depois de tudo que enfrentara durante o dia, estava satisfeita por ele ter constatado que um homem a jul­gava digna de atenção. Levantou a cabeça, os olhos verdes desafiantes.

— E daí?


Antônio não acreditou nessa reação.

— Não ouse comportar-se como se não fosse nada. Beijar seu amante em público no dia de nosso casa­mento não é um comportamento aceitável.

Ela ficou quieta, incapaz de encará-lo.

— Pelo amor de Deus, Matt não é meu amante, não é nada meu...

— Sei o que vi.

— Matt gosta de mim há séculos, mas sempre o vi como amigo — admitiu relutante, zangada por ter sido forçada a explicar. — Estava triste porque me casei, e foi ao aeroporto se despedir. Não podia rejei­tá-lo novamente. Gosto dele e sinto pena, então dei­xei que me beijasse!

— Podia achar a história convincente se você não estivesse chorando quando a vi.

Nesse instante, o temperamento e a dor explodi­ram.

— Estava chorando porque você me deixou infe­liz.

— Eu a deixei infeliz? — repetiu atônito. — O que eu fiz?

— A primeira coisa boa que me aconteceu hoje foi Matt ficar triste com a minha partida e me dar flores. Pense nisso, Antônio... esse era o dia do meu casa­mento. E foi horrível! — disse chorosa, todos os sen­timentos reprimidos vindo à tona.

— Como horrível?

— Provavelmente, nunca vou me casar de novo. Sei que não podia ser romântico, levando-se em con­ta as circunstâncias, mas você podia ao menos ter se mostrado amigo e agradável. Passei dois dias inteiros andando por Londres para encontrar essa roupa, e você nem me disse que estava OK...

O sangue subiu-lhe ao rosto.

— Eu...

— Esquece. Você acha que não me dei conta de que não poderia jamais atender às suas exigências? Mas me esforcei; tentei. Você nem tentou. Acusou-me de informar os repórteres na igreja. Não me deu flores, e todo o tempo agiu como se estar conosco fosse uma chatice. Matt foi tão meigo, e a comparação entre você e ele foi demais...

— A comparação entre mim e aquele gorila? — disse, rangendo os dentes.

— Você é um esnobe nojento. Me trata como um lixo... Ele, como se eu fosse especial!

Ouviu-se uma leve batida na porta que quebrou o silêncio após a última censura amargurada. Uma co­missária entrou com um carrinho de comida. Sophie abaixou a cabeça, o cabelo cobrindo o delicado rosto e os olhos molhados de lágrimas. Tremendo de emo­ção, afundou-se no assento e concentrou-se nas últi­mas reveladoras palavras que pronunciara. Você me trata como um lixo... ele, como se eu fosse especial! Por que não é honesta consigo mesma? uma voz martelava-lhe a cabeça. A verdade estilhaçou-lhe o orgulho. O dia do casamento tinha sido um desastre porque esquecera que era um "negócio" e não uma celebração. Fora levada pela empolgação. Ansiara por atenção. Teria caminhado descalça sobre vidro quebrado para ouvir um único elogio. Sua agonia vi­nha da dor e do desapontamento por ele ter negligen­ciado suas esperanças irreais e a ter ignorado.

Ela tinha o direito de reclamar da maneira como a tratara? Ou estava sendo injusta? Afinal, não tinha sido um casamento real, entre duas pessoas que se amavam. Antônio não dava a mínima para ela, e tinha que aprender a conviver com isso, certo? Alguém como ele nunca pensaria em alguém como ela como sendo especial. Aturá-la o dia inteiro provavelmente fora um desafio extraordinário para ele. Olhou para a comida convidativa que fora servida e descobriu que perdera a fome. Uma lágrima rolou-lhe pelo rosto e caiu no prato.

— Sophie...

— Não me enche! — Correu pelo corredor e desa­pareceu no compartimento de dormir.





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